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Olha, o único resultado que ficou fora daquilo que eram as minhas previsões foi a votação em António José Seguro. Eu achava que ele ia ser o candidato mais votado.
Como foi, mas não com tanta expressão.
Mas não com tanta expressão, não acima de 30%. Podia chegar talvez aos 26, 27, mas 31% foi quanto ele obteve. Ficou acima daquilo que era a expectativa, o que mostra várias coisas, entre elas que a esquerda à esquerda do Partido Socialista dissolveu-se. O Livre teve nas últimas eleições 250 mil votos. Jorge Pinto teve 37 mil agora. Portanto, dissolveu-se. É um partido que tem um eleitorado flutuante entre o PS e o Livre, eventualmente até entre outros partidos, e não voltou à casa de partida neste caso. No que respeita à arrumação entre Cotrim Figueiredo e Marques Mendes, não ficou muito longe daquilo que me parecia que estava a acontecer e que as sondagens indicavam nas últimas semanas. Eu creio que é um sinal de algo que, durante a campanha, procurei chamar a atenção para isso, que é o governo deu apoio a Marques Mendes, mas em nenhum momento correu o risco de dizer que o seu programa para o país passava também pela Presidência da República. É um detalhe, não é um detalhe? Eu acho que não é um detalhe. Por quê? Porque, por um lado, seguramente ajudou ao discurso de não juntar os ovos todos da galinha no mesmo cesto, que foi o discurso de António José Seguro, e esse discurso funcionou, mas ele não teve nenhum contraponto. Não houve ninguém que dissesse: "Isto não está como deve ser. Nós queremos fazer mudanças que exigem dinâmica, e essa dinâmica não pode passar apenas por acordos que são feitos quase semana a semana, tipo pisca-pisca. Ora faço acordo à direita, ora faço acordo à esquerda." Esse caminho acho que ficou altamente comprometido ontem, vamos falar um bocado disso, porque o Luis Montenegro não herdou os votos. O PSD que ontem votou em Marques Mendes é aquele PSD que é sempre PSD, que é sempre laranjinha. Estamos a falar sobretudo de freguesias mais pequenas, freguesias do mundo rurais, os distritos, onde o eleitorado é mais fiel. O eleitorado mais jovem e mais urbano vai mudando de voto, e esse eleitorado veio parcialmente ao PSD nas últimas eleições, mas, como sabem, na última eleição, a AD teve 31%, ou 31 vírgula qualquer coisa por cento. Está a governar em condições de uma margem muito pequena. Esse eleitorado, algum dele acho que já nunca mais vai voltar. Uma parte dele está na Iniciativa Liberal, pode flutuar entre a AD e a Iniciativa Liberal, como se mostrou nesta eleição, como de alguma forma o caminho tinha sido aberto por muitas alianças nas eleições autárquicas. Mas há uma outra parte, que não é só do eleitorado que veio do PSD, veio de todos os partidos, e isso nota-se também, mais uma vez, muito bem pela distribuição regional do voto. Claro que estas análises, isto é tudo muito a quente o que eu estou a dizer. Eu tive muito pouco tempo pra olhar.
Sim, claro.
Vocês agora disseram qual foi a votação da freguesia de Belém. Não sei se foi a melhor votação de Cotrim Figueiredo, julgo que não, é capaz de ter sido uma freguesia do Porto, onde habitualmente os partidos mais liberais têm mais peso. A freguesia de onde chegou a ser presidente de junta Maian Gonçalves, que foi o candidato.
Sim, que foi o candidato há cinco anos.
Há cinco anos da Iniciativa Liberal. Voltando ao que eu estava a dizer, eu penso que há um fenômeno que está mais do que consolidado chamado André Ventura e Chega. André Ventura não era nada óbvio para os analistas políticos que ele fosse candidatar-se, mas ele voltou a demonstrar que é o político mais hábil, com mais faro e com mais determinação do atual espaço político Isso criou um problema muito complicado à direita que não sei como é que se vai resolver a médio prazo. Evidente que teoricamente teremos agora um período de três anos sem eleições, mas eu acho que ninguém aposta que vamos passar três anos sem eleições. No que respeita ao Partido Socialista, deve haver muita gente com azia hoje. O candidato socialista ganhou, um antelíder do partido ganhou, mas é o mal-amado, é o destratado, é o defenestrado, é o que tu quiseres. É tudo isso e mais alguma coisa, e todos aqueles que tiveram receio de avançar, porque nas sondagens não apareciam gloriosamente à frente, alguns devem estar a dar pontapés na parede, outros devem estar a tomar alcacelças, outros fazem aquilo que já vimos ontem à noite: fingem que festejam ou festejam mesmo. Mais uma vez, não creio que isto seja estrutural. Isto mostra uma extrema volatilidade do eleitorado. Repara, nós estamos a falar, no caso do Partido Socialista, de um partido que entre 2022 e 2026 alcançou a maioria absoluta, desceu para um dos seus piores resultados de sempre e agora provavelmente vai eleger um Presidente da República. Se vai conseguir ou não, também vamos tentar perceber isso no "Contracorrente", porque vamos ver como é que vai ser a segunda volta.
Vão ser três semanas muito intensas.
Tanta gente que disse, tanta sondagem, tanta gente que disse que Ventura nunca será eleito. Eu continuo a acreditar que ele não vai ser eleito.
Mas não são favas contadas, se calhar.
Mas acho que são menos favas contadas do que toda a gente dizia aqui há uns tempos atrás.
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