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Começa depois das 10:00 o Contracorrente de hoje, onde pode participar com a sua opinião, quer seja nos comentários à transmissão vídeo que vamos fazer nas nossas redes sociais, quer seja usando o nosso número de telefone, envie-nos uma mensagem de voz por WhatsApp 91 002 4185. Falamos de Luís Neves no Contracorrente de hoje, Carla.

Sim, Nelson, depois de muitos dias de espera e de enorme expectativa, o ministro da Administração Interna deu ontem, ao fim da tarde, as explicações que prometera dar sobre as polémicas em que está envolvido. Ontem também José Luís Carneiro esteve reunido com Luís Montenegro e no final do encontro subiu o tom nas críticas a Luís Neves, isto enquanto o Chega formalizava na Assembleia a iniciativa de criar uma comissão de inquérito potestativa. No Contracorrente vamos tentar perceber se o ministro conseguiu ou não matar as polémicas e também quais as consequências políticas. Bom dia, José Manuel.

Bom dia.

Ficaste totalmente esclarecido?

Totalmente não, para ser franco. Vamos lá ver. O que o ministro tentou fazer? O ministro tentou apresentar-se como alguém que lutou contra o crime, alguém que como qualquer português normal se esforça, que não é muito rico, que não acumulou dinheiro ilicitamente, que até tinha que se proteger porque andava a perseguir criminosos muito perigosos. E que para resolver os seus problemas, fez aquilo que a maior parte de nós, ou pelo menos muitos portugueses, faz, que é: "Vamos ver se conseguimos fazer isto sem licença, porque não sabemos o que a burocracia do Estado nos vai impor. Vamos ver se damos aqui um jeitinho para encontrar ou alguém que nos guarde os químicos ou alguém que nos arranje umas solipas." Solipas são aquelas traves das linhas de comboio. Paga-se umas coisas com multibanco, paga-se outras coisas em dinheiro vivo. E ele acha que colocando-se nesses pés e criando aquela ideia, que aliás é aquela frase que ficou da sua intervenção, aquela ideia de que ele esteve sempre do lado do bem, é muito a mensagem que ele quer passar e que tudo o que fez irregular, cometeu irregularidades, cometeu erros, sim, senhor, quem não? Tudo isso fez em nome de poupar dinheiro ao Estado, não fez em nome de meter dinheiro no bolso, porque ele até, como todos nós no fim de semana, tem um carro antigo, tem só uma conta bancária, vai trabalhar com o filho na herança da mulher. Quer dizer, ele passou esta imagem. No meio disto tudo há ilegalidades, há coisas que sejam crime, há a possibilidade de ele vir a ser constituído arguido. Eu diria que na maior parte das situações, não. Há coisas que ficaram claramente menos bem explicadas. Por exemplo, há uma transferência de resíduos para um local no norte. Há quem diga que não podiam ficar ao sol, depois ficaram ao sol. Aliás, eu estive a ver e penso que aquele caminhão aparece nas imagens de satélite que estão no Google Maps, mas não tenho a certeza. Porque naquele sítio está um atrelado, uma galera, como agora se diz. Eu nem sabia que galera era aplicado àquele tipo de atrelados, mas não foi esse o problema. Portanto, há aqui umas coisas um bocado esfarrapadas. Se quem vai no fim disto tudo ter razão é André Ventura, que continua a pegar em todas estas contradições e todas estas dificuldades para não largar o osso, como costuma dizer, peço desculpa pela expressão, ou se é o governo, a estratégia de comunicação da maioria que acredita que isto já está tudo mais ou menos explicado, alguma coisa ou outra não terá corrido de forma ideal, mas agora vamos de férias e isto passa. Enfim, isto são cálculos políticos mais do que questões substantivas. Eu acho que no que toca às questões substantivas, o que sobra deste caso ou às questões políticas, eu diria que é ponto um: nunca um diretor da Judiciária deveria ter ido para ministro da Administração Interna. Esta passagem direta, que aliás noutros tempos até foi contrariada, por exemplo, no tempo do presidente Jorge Sampaio, não devia ter acontecido. Digamos que na altura em que aconteceu, estávamos em transição de presidentes, portanto não era talvez a melhor altura para haver uma intervenção do presidente, mas creio que o único ator político que foi muito crítico foi Pedro Passos Coelho. E passados estes meses todos, acho que ele tinha razão mesmo. Todo o resto do mundo político ficou muito empançado pela boa imagem pública que tinha Luís Neves como diretor da Judiciária. E esse aspeto é muito importante, porque depois mistura-se tudo na discussão. Mistura-se tudo sobre se ele ainda está no governo porque conhece os rabos de palha de outras figuras, ele ainda está no governo porque tem muito poder, ele ainda está no governo porque está a ser protegido pelo Partido Socialista, que foi quem o nomeou para aquele lugar. Portanto, fica uma nebulosa de assuntos que não é saudável. Esse é o primeiro aspeto. O segundo aspeto é que do ponto de vista do comportamento, sendo nós muito exigentes com os atores políticos E não havendo sinais, parece-me a mim pelo menos, do chamado enriquecimento ilícito ou inexplicável, o que aqui temos é a consagração do jeitinho. Aliás, tenho uma amiga minha que não é portuguesa que costuma dizer que Portugal é o país do jeitinho. É o país do jeitinho no sentido que não se resolve nada sem que alguém dê um jeitinho. E Luís Neves é seguramente um campeão nessa atividade. Isto é muito português.

É, ou não conheces alguém.

Exato, não conheces alguém, não sabes quem é que te safa isto, qual é o caminho das pedras, onde é que está o atalho. E outra coisa que ele também acabou por usar, e que eu já referi várias vezes, que é uma frase muito pouco conhecida de Alexandre O'Neill. Alexandre O'Neill foi um grande poeta português, que escreveu uma vez uma introdução para um livro escrito por americanos sobre Portugal. E ele começa logo a sua introdução a dizer: "Portugal é o país onde a frase mais usada é 'a culpa não foi minha'". E portanto, por exemplo, não há papéis sobre o transporte da galera para Barcelos, a culpa não foi minha, estão lá os papéis. Eu vi-me nos papéis. Essa parte é uma parte que corresponde a alguns aspectos daquilo que também faz com que Portugal não ande para frente, não cresça, não se desenvolva, não saia dessa cepa torta, mas vindo de um responsável político que acha que as coisas na judiciária e, porventura agora como ministro, as coisas se resolvem com jeitinhos. No fundo, foi como ele resolveu a galera, como ele resolveu, porventura, a piscina. Piscina que ele tem, que era piscina. É a parte talvez em que ele saísse pior disto tudo. E a piscina que ele tem, que era piscina. Portanto, alguém que diz isso, nós duvidamos que o senhor está a dar o bom exemplo. Dito isto, a prova de fogo está aí no mês de agosto, setembro, que é os incêndios. E ele vai ter que passar por essa prova de fogo se quiser chegar a setembro e à rentrée politicamente vivo.

E para ir à Comissão Parlamentar de Inquérito, não é?

Exatamente, e para ir à Comissão Parlamentar de Inquérito.

Até já.

Até já.