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E hoje no Contracorrente, José Manuel Fernandes, bom dia. Queres falar-nos da onda de violência que atravessa os Estados Unidos por causa da morte de um negro em Minneapolis?
Exatamente. Como sabes, não foi uma morte qualquer. Tratou-se da morte brutal de um jovem, George Floyd, e foi às mãos de um agente da polícia. Como a morte foi filmada, isso gerou imediatamente um sentimento de revolta. Do sentimento de revolta às manifestações foi um pequeno passo e depois das manifestações aos motins e às pilhagens foi um passo ainda mais pequeno. Esta noite houve recolher obrigatório em numerosas cidades, mas eu creio que a tensão racial não vai abrandar assim tão facilmente.
E aparentemente não vai abrandar enquanto o presidente Donald Trump continuar a escrever estes tweets incendiários.
Eu acho que sim, mas eu acho também é fácil aqui na Europa achar que tudo está a passar-se por culpa do presidente Trump. E eu recomendava que se fosse um bocadinho mais devagar. Eu não tenho quaisquer dúvidas que Trump está a atirar gasolina para a fogueira, mas também é preciso ter em consideração que, na verdade, não foi ele que ateou a fogueira. A fogueira já estava lá. E já estava lá a fogueira das tensões raciais, como já estava lá, de resto, a fogueira desta violência.
O que queres dizer é que ele não tem a responsabilidade direta.
Do que se passou em Minneapolis, não tem seguramente. Minneapolis tem um presidente de câmara que até é democrata, portanto, que é o partido do presidente, e a polícia, no caso concreto, depende do presidente de câmara, não depende do presidente. Aqueles polícias dependem dos polícias que estiveram envolvidos na morte de George Floyd, mas também dependem dos polícias que nos dias seguintes não conseguiram controlar os motins e as pilhagens. Ou melhor, dependem os polícias que praticamente não fizeram nada mesmo para impedir aquela confusão. Mas deixe-me ir um pouco atrás, porque acho que estamos a assistir, de alguma forma, à repetição de um filme que já vimos.
E que filme em concreto é que se estás a referir?
Eu estou a referir-me ao que se passou em Ferguson em 2014. Não sei se te recordas, quando um polícia matou um miúdo negro. Nessa altura também houve motins, também houve destruições e violência por todos os Estados Unidos. Também se viveu este clima de extrema tensão racial. Só que havia na altura uma diferença importante, é que a diferença é que na altura o presidente chamava-se Obama, não era branco, nem louro, nem cor de laranja, como o presidente Trump, e mesmo chamando Obama, isso não fez assim muita diferença. Não havia tweets incendiários, até havia pedidos de desculpa, mas mesmo assim houve destruição, houve pilhagens, houve recolher obrigatórios, houve violência. Talvez houvesse uma diferença: na altura, os jornais não tinham problemas em assumir que muitos manifestantes, além daqueles que eram gente pacífica, havia violentos e havia mesmo gente que só queria ir destruir e saquear lojas. Na verdade, o que é preciso reconhecer é que os tempos de Obama também não foram tempos de concórdia racial.
E achas mesmo que os dois mandatos de Obama não fizeram diferença?
Infelizmente, não sou eu que acho, foi o próprio que admitiu isso. Há quatro anos, precisamente há quatro anos. Enfim, foi em julho de 2016, portanto vai fazer agora quatro anos. Eu estive nos Estados Unidos e nessa altura Obama estava a acabar o mandato. Estalaram casos como este. Não houve violência, mas houve também violência, casos de mortes de negros na sequência de incidentes com polícias. E eu, que tinha ido para escrever uma série de textos sobre as eleições americanas, acabei por fazer uma primeira reportagem precisamente sobre a América que estava racialmente dividida, porque era a discussão que estava em todo lado, e a frustração e a responsabilidade de Obama nessa situação, porque a situação até se tinha agravado um bocadinho. Era o balanço que estava a ser feito pelo próprio durante o seu mandato. Eu por acaso estive a reler esse texto que escrevi há quatro anos ontem, e é incrível como os temas são exatamente os mesmos dois. O presidente é outro, naturalmente, mas o debate é espantosamente o mesmo.
Mas debate em que sentido? Parece aqui não haver dúvidas de que a polícia nos Estados Unidos atua frequentemente de modo racista.
Aí é que muitas vezes eu acho que há um engano. Não há dúvida que há polícias que atuam de modo racista. Também não há dúvidas que há polícias que atuam pura e simplesmente de modo criminoso. Aliás, isso acontece um pouco em todo lado. Mas desde Ferguson, sobretudo desde Ferguson, que há inúmeros estudos académicos e que foram construídas muitas bases de dados que dão pelo menos um retrato ambivalente sobre o racismo da polícia. Por exemplo, uma coisa que espantou muita gente é que parece que um polícia negro tende a disparar mais depressa sobre um suspeito negro do que um polícia branco. O polícia branco tem mais receio de usar a força excessiva. Isso é um bocado surpreendente, mas talvez por causa do ambiente que existe e dessa tensão que existe, é isso que acontece. Claro que eu estou a falar em médias. Há sempre brutos como aquele de Minneapolis e sobre isso, não digo que não haja nada a fazer, mas há sempre brutos um pouco por todo lado. E tem que se acabar com os brutos, criminalizar os brutos, levar os brutos à justiça, ponto final, parágrafo. Agora, o que me parece também importante dizer é que não é tolerável a tolerância com que muitas vezes acabam por ser tratados estes manifestantes violentos.
E talvez porque há a percepção de que a violência é um pouco a consequência da revolta.
Uma coisa é a revolta, e eu não tenho dúvidas que eles têm todo o direito à revolta, mas também não tenho dúvidas que organizações, por exemplo, como a Black Lives Matter e sobretudo a Antifa, que agora fala-se muito dela, preparam-se para os confrontos violentos com a polícia e mais, que procuram esses confrontos violentos. Sobretudo os anarquistas da Antifa, que muitas vezes nem conseguimos distinguir bem dos simples saqueadores, porque ambos adoram destruir propriedade privada, saquear lojas, incendiar carros. E agora é preciso recordar outra coisa: é que os bairros em que ocorreram os discursos em Minneapolis são bairros de gente pobre e a propriedade que foi destruída era sobretudo propriedade de gente que pouco tem, propriedade de gente que muitas vezes, se calhar, aqueles carros incendiados era o único carro das famílias. Até a irmã de George Floyd já veio apelar a que acabassem com essas ações, porque o seu irmão não gostaria de ver a sua cidade destruída. Portanto, este lado da realidade também tem de ser visto, porque foi aqui que se acenderam as fogueiras que agora Trump alimenta. Quer dizer, essas fogueiras estão de alguma forma a servir Trump, porque esta violência assusta a sua base eleitoral. E depois de tantas asneiras que ele fez no combate ao Covid, ele precisa de mobilizar de novo se quiser ganhar as eleições em novembro.
José Manuel Fernandes no Contracorrente de hoje. Ele está nas manhãs 360, de segunda a sexta. Daqui a pouco pode ouvir esta crônica também em formato podcast. Eu sou o José Manuel Fernandes. Obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7 na Grande Lisboa ou 98.4 no Grande Porto.