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8:14, é altura de conhecermos do que vai o José Manuel Fernandes falar no "Contra-Corrente" desta sexta-feira. Para participar e nos dar a sua opinião em direto, basta ligar pra nós 91 002 41 85, ou então enviar-nos a sua mensagem de voz pelo WhatsApp. O número é sempre o mesmo: 91 002 41 85. Carla. É muito possível que venhamos a ter um verão difícil no que respeita a fogos florestais. O comboio de tempestades deste inverno deixou milhões de árvores no chão e a chuva abundante fez crescer os matos, que quando chegar o calor, vão secar rapidamente. Ontem, em Leiria, foi constituído um comando integrado de prevenção e operações que nas próximas semanas vai tentar tratar das situações mais urgentes na região Centro, mas sabemos da experiência das últimas décadas que as zonas de risco são muito mais extensas. É por isso que queremos hoje discutir o que poderíamos fazer durante os meses mais úmidos e frios para evitar que quando chega o calor, as nossas serranias sejam verdadeiros barris de pólvora. E é isso mesmo. Bom dia, José Manuel.
Bom dia.
São mesmo barris de pólvora, é isso?
Eu receio que este verão, em muitas regiões do país, a situação seja particularmente grave, precisamente pelo que aconteceu este inverno e pela conjugação, de facto, de dois fatores. Tu referiste as árvores caídas, mas há também a quantidade de biomassa que cresceu, porque quando chove, isto cresce tudo muito depressa. Penso que se não chover muito mais daqui até o verão, a coisa ainda pode não ser demasiado grave, mas muitas vezes temos, em abril, chuvas mil. Não tem sido assim, mas tivemos um bocadinho. E, portanto, aquilo que nós temos é resultado de uma posição geográfica muito particular, que aliás, de alguma forma, vem referida num relatório recente, saiu semana passada, da OCDE, que faz um bocado do balanço das alterações que houve na gestão deste tema a seguir aos grandes desastres de 2017. E é logo lá referido que Portugal é um dos países mais expostos ao risco de incêndio. As pessoas, às vezes, não sabem bem por que, culpam só às árvores incendiárias ou à falta de meios aéreos. Eu acho que estão disparar ao lado. Portanto, o primeiro motivo pra nós termos os números que temos, não podemos fazer nada por ele, que é a nossa localização geográfica e o clima que temos. Aquilo que, de alguma forma, também explicou o que aconteceu com as cheias, por exemplo, deste inverno. Nós estamos numa zona de transição entre o clima mediterrâneo e o clima atlântico. Estamos numa zona que já tem, em parte, as chuvas do clima atlântico, isso é sobretudo visível na fachada atlântica a norte do Tejo, onde temos zonas montanhosas que culminam na Serra da Estrela, mas se virmos bem, é uma barreira que vai praticamente desde Montejunto até ao Gerês e à Peneda. Essa barreira montanhosa faz com que o ar carregado de humidade, ao subir, se precipite em chuva. E, por outro lado, temos, mesmo nestas zonas, zonas muito quentes no verão. Se não tivéssemos isso, não tínhamos vinho do Porto, na Vale do Douro, portanto, o sinal de zonas muitíssimo quentes, mesmo a norte do país. Eu recordo-me daquele verão quentíssimo que houve aqui há uns tempos atrás. Nesse ano, o recorde de temperatura foi na estação do Pinhão, em pleno coração do Vale do Douro. Não foi na Merendeira, como às vezes acontece, que era o recorde anterior, portanto, fica no Alentejo. Isto cria uma situação difícil e explosiva, a que se junta outra, que é talvez aquela que já tem a ver conosco, mas também é muito difícil de contrariar, que é uma alteração radical do país nos últimos 60, 70 anos. Nós, na década de 50, década de 60, ainda tínhamos metade da população a viver nos meios rurais, hoje temos 5%. E isto não é só o interior, não é só a desertificação do interior, é a desertificação de todos os meios rurais, porque mesmo nas zonas onde não houve tanto abandono rural, tanta desertificação, por exemplo, de um conselho, houve migração pra sede de conselho ou houve migração pra sede de distrito. Temos aldeias, e aldeias, e aldeias, às vezes só com idosos. Isso significa que não há aquilo que havia antigamente, que é outras atividades além da floresta, pastoreio, pequenas leiras, tudo isso que não tem viabilidade econômica nos dias que correm. E temos também uma grande parte destas matas, que a quase totalidade são privadas, e mesmo que fossem públicas, a situação das públicas não é muito diferente, às vezes até é pior. Não há forma de as explorar economicamente, a não ser nalgumas regiões e explorando aquelas árvores de que não se gosta, nem vou dizer o nome. Isto cria uma situação que é virtualmente explosiva. Aquilo que se tem procurado fazer é, durante o tempo em que não está a arder, durante o tempo que não há muito calor, manter, eu não direi toda a floresta limpa, porque isso é economicamente inviável, mas criar zonas limpas à beira das estradas, outras que permitam criar zonas em que o fogo, ao chegar, amaine um pouco a sua violência, proteger as aldeias. Uma coisa muito importante, que poucas vezes se fala, que é não continuar a construir por todo lado, porque ao construir por todo lado, a prioridade depois dos bombeiros é salvar as casas e as pessoas e deixar arder à volta Literalmente, não estou a exagerar, é isto que se passa. Poucas vezes é reportado, mas percebe-se. A aflição das pessoas, e isso é muito reportado, leva a que os bombeiros estejam ali. Aliás, muitos não são da região, porque a região está desertificada, vêm de fora e também não se atrevem a ir para zonas que não conhecem, caminhos rurais, caminhos florestais, caminhos serranos, com maus pisos. Só vemos agora, na Presidência Aberta, que temos a Nacional 2, que é supostamente a segunda estrada nacional, enfim, já não é. A Nacional 2 é uma estrada que vai de Chaves até Faro, com pedaços que caíram e não foram reconstruídos ainda. Imaginem o que se passa no interior das matas, o que veio por aí abaixo, onde é que se deixou de poder circular e o que não foi naturalmente reconstruído, as estradas que ainda estão intransitáveis porque caíram árvores. Eu vivo numa zona aqui na Serra de Sintra, como sabem, e a tempestade maior aqui nem foi a deste ano, foi a do ano passado, foi a Martinho. Já passou mais de um ano e ainda estão por limpar. E eles daqui a dois meses vão deixar de ter aqui máquinas, porque passa a ser perigoso. Não podem trabalhar quando há muito calor. Isto é uma situação complicada, que exige, porventura, medidas. Algumas delas estão a ser tomadas, mas até o próprio relatório da OCDE aponta para a dificuldade de algumas delas. Algumas dessas dificuldades têm a ver com a nossa cultura administrativa, outras com a nossa cultura de as pessoas serem desconfiadas, outras com, possivelmente, os modelos económicos não serem muito sustentáveis, mas há algumas boas ideias. Vamos ter connosco, designadamente, o presidente da AGIF, a entidade que foi criada em 2017, o Tiago Oliveira. Vamos ter outros especialistas do fogo. Vamos tentar ver aquilo que, independentemente de agora andar a tirar as árvores que caíram, o que também pode ser feito para que nós não tenhamos todos os verões o inferno que tivemos, por exemplo, o verão passado. Enfim, não com a dimensão de 2017, não com vítimas humanas da dimensão de 2017, mas com áreas ardidas absolutamente descomunais. Até ontem falou-se disto, acabei de ouvir na Presidência Aberta do Seguro, que é um sinal que pelo menos há preocupação. Agora, haver preocupação não significa que haja solução, mas temos que procurá-las.
E há de ser por aí então a conversa que vamos ter depois das 10:00. Até já.
Até já.
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