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Hora de conhecermos o tema do Contracorrente desta segunda-feira. Depois, pra entrar em direto, basta ligar nos 91 002 41 85, é o número que também pode usar pra nos enviar a sua mensagem de voz pelo WhatsApp, se preferir. Pode deixar os seus comentários nas redes sociais ou no nosso site. Carla. As notícias que nos chegaram na semana passada do Rio de Janeiro deram-nos conta de uma gigantesca operação policial em duas grandes favelas do Rio. Uma operação que resultou numa verdadeira batalha entre 2500 polícias e as milícias de um grupo de crime organizado, o Comando Vermelho, de que resultaram 121 mortos. Esta operação chamou a atenção não só para a sofisticação da criminalidade nas grandes cidades brasileiras, mas também para o choque político entre uma direita que aplaudia a operação e uma esquerda que falou em chacina. Mas o que se passa, afinal, no Brasil e até que ponto estes grupos já chegaram também a Portugal? É este o ponto de partida para o Contracorrente de hoje, com colaborações vindas precisamente do Brasil. José Manuel, bom dia. Comando Vermelho.
Bom dia.
Esse nome tem alguma carga política?
Bom dia, Carla. Olha, que eu saiba, não. Porque as duas maiores organizações criminosas do Brasil adotaram o nome de comando. Um é o Comando Principal da Capital, PCC, e o outro é este Comando Vermelho do Rio. Ou melhor, é primeiro Comando da Capital, PCC. Tinha me enganado no nome. Isto acontece num país que, neste momento, está com índices de criminalidade absolutamente assustadores, avassaladores mesmo. Quer dizer, quando nós procuramos saber quais são as capitais do mundo, as cidades do mundo, não é preciso ir pra capitais, o Rio de Janeiro não é uma cidade capital, onde é maior a violência, a presença de cidades brasileiras é incrível. O Rio de Janeiro nem sequer é a mais grave. As situações mais graves são em Salvador, na Bahia, em Fortaleza e no Recife. Portanto, estas cidades têm índices de violência que só têm comparação noutras cidades da América Latina, Caracas, por exemplo, mas também algumas cidades no México e na África do Sul. Não há situações parecidas, nada semelhante a isto noutras partes do mundo. Depois, há outro aspecto, ao conhecer mais pormenores sobre esta operação, me deixou também particularmente impressionado. Estamos a falar de organizações que literalmente comandam, ocupam partes importantíssimas de cidades gigantescas. Quer dizer, repara, estes dois bairros onde decorreu a operação tinham, entre eles, os dois, a Penha e o Alemão, cerca de 300 mil habitantes. Quando nós olhamos para um mapa da ocupação por estes grupos da cidade do Rio de Janeiro, esse mapa é verdadeiramente impressionante. Nós temos a ocupação de zonas inteiras das cidades. Estes dois bairros até são uma mancha pequena nas manchas ocupadas pela criminalidade. Há zonas ocupadas pelas que eles chamam as milícias. Neste momento, são, porventura, aquelas que estão em maior expansão. Há zonas ocupadas por outros bandos rivais. Estes bandos estão em luta uns com os outros. Portanto, é uma situação em que se percebe, enfim, eu vi um número, não consigo confirmá-lo, mas que 60 milhões de habitantes do Brasil viverão em zonas que, de uma forma ou outra, são escravizadas, eu acho que este termo é correto, por estes bandos. Eles decidem quem é que pode morar e não pode morar, quem pode entrar, não pode entrar. Há ruas onde passam transportes públicos que uns dias estão abertas ao trânsito, outros dias estão fechadas. Há impostos especiais que têm que ser pagos a estes bairros, quer dizer, a estas organizações, pra poder operar, ter negócios naquelas zonas. Há operações financeiras, há zonas do país onde estes grupos já estão a ter presença no mundo econômico e financeiro e a condicionar os governos locais. Portanto, é pior que uma realidade paralela. É uma outra realidade que não encontra justificação apenas por falarmos de que nas chamadas favelas e entre os favelados, que é o termo usado, há pobreza. Claro que há pobreza, mas não era inevitável que tivesse que ser uma pobreza instrumentalizada por gente que se torna imensamente rica e que beneficia, sobretudo, do tráfico de droga, mas que hoje em dia tem a sua atividade muitíssimo mais espalhada. E isto cria naturalmente situações de enorme insegurança entre a população. E a insegurança torna-se um dos temas centrais da vida política no Brasil. Percebeu-se isso muito bem nesta crise, com vários governos estatuais entrarem em choque direto com o governo federal, com o governo federal a não querer colaborar com operações como esta, portanto, tentativa de liquidação da direção de um grupo criminoso, com dificuldades dos próprios. O presidente Lula esteve vários dias sem dizer nada, nem sabia o que havia dizer, porque de fato há contradições entre aquilo que é a ação, muitas vezes desculpatória relativamente a estes grupos. O presidente Lula fez um tweet a dizer que, no fundo, quem tem culpa é quem consome drogas, não são os grupos criminosos. Portanto, os grupos criminosos são vítimas dos consumidores de droga. Enfim, é uma situação que não está apenas no domínio da segurança, está também no domínio da política e uma situação da qual é importante tentar perceber mais, porque, sobretudo o PCC, que é a maior organização criminosa do Brasil, mas ao que se diz também este Comando Vermelho, já tem ramificações em Portugal, e em Portugal nós temos vindo a assistir, nos últimos tempos, a uma exibição de força por parte de traficantes de droga. Quer dizer, houve na semana passada aquele episódio com a lancha que acabou por morrer um soldado da GNR. Tivemos recentemente aquelas operações aqui na Baía do Tejo, em Corroios, e há sinais de que há cada vez mais audácia e cada vez mais desfaçatez por parte destes grupos. Até que ponto alguns deles estão ou não ligados a estes grupos brasileiros também importa perceber. Portanto, é um pouco disso que vamos falar hoje no Contracorrente e vamos ter gente a entrar do Brasil, que é o que é importante, não é?
Que é o que é importante para perceber melhor. Até já, José Manuel.
Até já.
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