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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço em que analisamos os principais focos de conflito. Hoje contamos com a análise do tenente-general Marcos Ronha. Boa noite, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.
Olá, boa noite.
Boa noite. Vamos começar pelo conflito na Ucrânia. Um drone russo caiu na região ucraniana de Volyn, a 4 km da fronteira com a Polónia. Já nos últimos dias têm sido registados alguns incidentes semelhantes. Hoje, o primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, alertou que os aliados europeus da Ucrânia vão ser alvo de ataques alegadamente acidentais por parte da Rússia nos próximos meses e também que Moscovo vai aumentar a guerra híbrida contra países da Europa. Pergunto-lhe se considera, de facto, que isto podem ser ameaças reais.
Boa tarde mais uma vez. Sim, ameaças reais já estão a ser. Aliás, mais do que ameaças, têm havido concretizações, como sabemos, de diversas ações de guerra híbrida e a característica neste momento, a tendência do que está a acontecer é que a Rússia, além de ir aumentando o número de incidentes que vai criando de diversos tipos, começa a aproximar-se de ações mais robustas sob o ponto de vista dos impactos. E aumentando, de algum modo, o risco de escalada, naturalmente. Estamos numa situação bastante perigosa. E é claro que há essas preocupações da parte, em primeira linha, da Aliança Atlântica como organização, naturalmente, que terá que estar preparada para fazer a defesa dos seus Estados-membros, por um lado, e em especial os da linha da frente, que até em situações que já até sob o ponto de vista das informações que vão havendo estão nos planeamentos que se vão sabendo das estruturas russas, nomeadamente estruturas armadas, para determinado tipo de incidentes, nomeadamente os bálticos e a Polónia, naturalmente. A Polónia tem tido esta questão com os drones. Uns caem lá dentro, outros não caem, mas de algum modo estas ações começam a criar algum desconforto dentro da Polónia, naturalmente, não só sob o ponto de vista do risco, mas os aeroportos que têm que estar fechados enquanto não se sabe bem qual é a trajetória dos drones que vêm em território bielorrusso, mas a caminho em direção à Polónia, ou que vêm mesmo sobre a Ucrânia. E depois há uns que atacam alvos antes, outros têm caído dentro da Polónia. Alguns, também sabemos, têm sido por questões de guerra eletrónica dos próprios temas ucranianos, outros não, já percebemos que não, que é a própria Rússia que de algum modo vai testando, vai tentando testar, por um lado, as capacidades dos países ocidentais da Aliança Atlântica relativamente à capacidade de resposta quanto a este tipo de drones. Naturalmente, ainda não chegámos à fase de utilizar mísseis e esperemos que isso não venha a acontecer, por um lado, e por outro, vai também monitorizando qual é o grau de adesão da comunidade transatlântica a uma tomada de posição em uníssono sobre esta questão. Porque uma dos objetivos da Rússia é, de facto, explorar as fraturas que existem entre diversos aliados. Em primeira mão, logo entre os Estados Unidos e os aliados europeus, e isso de algum modo, mesmo sem a Rússia ter feito muito por isso, o Donald Trump fez mais por isso, como sabemos. Mas depois entre os aliados europeus também há diferentes sensibilidades e diferentes percepções sobre a ameaça. É evidente que aqueles que estão na linha da frente, os três bálticos, os nórdicos, a Polónia e a Roménia, que têm sido mais atingidos por este tipo de situações, estão numa situação mais complexa. Os outros que estão mais longe não têm a mesma percepção da ameaça e isso pode dar a Putin a ideia que a Aliança Atlântica não terá capacidade de reagir em uníssono. E como sabe que a Aliança Atlântica tem que funcionar obrigatoriamente por unanimidade. A declaração do artigo quinto, de uma ação no âmbito do artigo quinto, tem que ser o consenso de todos os aliados. Basta que haja um que não concorde para aquilo não andar pra frente. E portanto, a Rússia vai explorando isso. Agora, aqui o fator mais perigoso é que estas dinâmicas que estão a haver do lado russo e também algumas, porque os aliados também têm que fazer alguma coisa, naturalmente, estão a criar situações de risco crítico muito elevado, em que uma má tomada de decisão por um piloto de um avião que vai intercetar um outro avião russo, aquela situação que se passou com a fragata dinamarquesa, aliás, com o helicóptero dinamarquês que os russos mandaram uns "very lights", uns sinais de foguete, mas que se acertassem no helicóptero, provavelmente mandavam o helicóptero por baixo. Começam a aumentar esse tipo de situações que podem levar a uma situação de facto que possa levar a um caso belo. E nós sabemos como é que estas coisas evoluem. Portanto, o grau de risco é de facto grande e o primeiro-ministro polaco chamou a atenção nisso, como outros já chamaram. E depois há preocupações de outra natureza, que é de facto alguma dificuldade dos aliados ainda terem os meios adequados para fazer face a uma guerra de drones. Porque isso também é outra problemática. E mesmo com mísseis, também sabemos que os europeus têm os sistemas antimísseis mesmo também quase a zero. Só a Ucrânia é que tem. Portanto, os europeus não investiram nos últimos anos em sistemas de defesa antimíssil. Baseados na convicção que os Estados Unidos nos iriam defender com os seus sistemas e agora chegamos à conclusão que nem se defendem a si próprios, nem têm a capacidade de defender os outros, nem têm a capacidade de produção para fazer face àquilo que gastam. E, portanto, a situação não é muito Enfim, não é muito famosa e está perigosa, naturalmente.
Vamos olhar também para o conflito no Médio Oriente. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse hoje que está a avaliar a possibilidade de fazer novos ataques ao Irão. Assumiu também que, apesar de ainda não ter tomado uma decisão neste sentido, o conflito está a aproximar-se de um momento que considera crucial. Estas declarações de Donald Trump não são propriamente nada de novo. Ao longo dos últimos meses, temos ouvido já várias afirmações do mesmo gênero e, no fundo, não temos visto grandes progressos para uma negociação de paz. Pergunto-lhe o que está aqui a faltar de ambas as partes para se poder dar um passo em frente no caminho para a paz.
Estamos aqui numa situação de algum bloqueio estratégico. O que quero dizer com isto? Os Estados Unidos, já chegámos a essa conclusão há mais de um mês, não têm capacidade, até mesmo do ponto de vista da vontade de Donald Trump, não têm a intenção de continuar uma série de ataques consecutivos todos os dias, que não iriam atingir nenhuma vitória que pudesse ter esse nome. Por essa razão e por outra razão, que é a questão da falta dos interceptores sob o ponto de vista da defesa das bases aéreas americanas nos países do Golfo e na Jordânia, que também estão com dificuldades de interceptar os mísseis e os drones que o Irão manda. E mesmo em termos de capacidade ofensiva, também há um grande desgaste em alguns sistemas de armas, nomeadamente os mísseis Tomahawk, os mísseis de ataque, com que os Estados Unidos atacaram o Irão naquele primeiro mês de guerra em alta escala. Há essa dificuldade, que foi percecionada naturalmente pelos iranianos. Até porque depois vieram a público declarações de responsáveis militares americanos e do próprio sistema da estrutura das Forças Armadas americanas de que não havia capacidade de manter uma guerra com algum grau de prolongamento, por assim dizer, com elevado grau de intensidade, porque o elevado grau de intensidade é sempre importante se se quisesse, com objetivo político, de algum modo dobrar o regime iraniano e torná-lo mais flexível para se sentar à mesa das negociações e assinar um outro memorando de outra natureza. O que acontece? Os iranianos perceberam isso. Continuam a fazer as suas ações que pretendem fazer, nomeadamente manter o Golfo, o Estreito de Ormuz meio aberto, meio fechado, mas o que é certo é que não é utilizado. E de algum modo, pôr o ônus desta situação do lado dos Estados Unidos, que não têm neste momento uma solução estratégica para resolver isto. A única solução estratégica que está a ser seguida é, de algum modo, manter o bloqueio económico ao Irão, e isso há de ter efeitos, naturalmente, por um lado, e por outro, tentar pôr o seu dispositivo, o seu complexo militar industrial de produção destes sistemas que estão mais degradados, que existem menos, nomeadamente mísseis interceptores e sistemas de ataque, mísseis de diversa natureza e bombas, no sentido de eventualmente, a seguir às eleições intercalares ou mais à frente, princípio do ano, poder montar outra vez uma operação militar, essa sim, que possa vir a ser decisiva e mais do que isso, que possa eventualmente os Estados Unidos tentarem reconstruir uma coligação, que também não vai ser fácil, naturalmente, que possa pôr mais pressão sobre o Irão. O que se passa é isto: há um bloqueio. Os iranianos chamam que os Estados Unidos não têm capacidade e pouca vontade, e os americanos estão aqui numa situação de bloqueados porque veem o Irão a ditar as regras. O Irão já disse: "A gente não se senta à mesa das negociações enquanto os Estados Unidos não cumprirem aquilo que se comprometeram no memorando com aqueles 14 pontos, como é que foi assinado". É aqui que estamos. E entretanto, o risco de escalada também está de algum modo a acontecer. Esta ação dos houthis foi uma escalada, com mais ou menos orientação do Irão ou mais ou menos autonomia dos houthis, o que é certo é que eles manifestaram uma capacidade de operações militares efetivas e com impacto de natureza operacional e estratégica e aquilo deu certo. Em menos de dois dias conquistaram toda a costa do Mar Vermelho até ao Estreito de Bab-el-Mandeb, que estava na posse das forças governamentais do Irão, que foram trucidadas naquele espaço. E conquistaram mais umas ilhas e atacaram, com elevado grau de destruição, o oleoduto da Arábia Saudita, que era a única forma, neste momento, que a Arábia Saudita estava a escoar o seu petróleo. E o petróleo sabemos que para a Arábia Saudita e para a economia saudita é fundamental. Se o oleoduto estiver parado agora durante muitas semanas, como se diz, isto vai provocar mais um efeito. E depois também há aqui uma questão que é relativamente, que eu compreendo por um lado, mas é incompreensível por outro, que é este fenômeno dos houthis fecharem o estreito de Bab-el-Mandeb e interditar o acesso, pelo menos, à Arábia Saudita, dizem os houthis, mas a possibilidade de isto ir para mais outros países é grande, estão a dificultar a vida à Arábia Saudita, por assim dizer, os Estados Unidos, ao não deixar que haja operações militares contra os houthis, sejam bombardeamentos, sejam ações no próprio terreno em apoio das forças governamentais. E portanto, na prática, mais uma vez, as forças que se opõem aos Estados Unidos, neste caso os houthis, tiveram vitórias militares e conseguiram construir ali uma situação de fato que está bem melhor, sob o ponto de vista dos houthis, do que estava há 10 dias atrás. Neste momento controlam toda a costa do Mar Vermelho até ao Estreito de Bab-el-Mandeb, coisa que não tinham. E portanto, nada disto contribui para uma solução mais negociada. Não há negociações, também é outra questão. E portanto, eu julgo que vamos manter esta fisionomia até às eleições. Independentemente do presidente Donald Trump, dia sim, dia não, dizer que vai destruir o Irão. Mas enfim, é uma coisa que já pouca gente acredita.
Vamos esperar para ver o desfecho deste conflito. Para já, vamos ainda olhar para o Canadá e o facto de poder vir a ser o primeiro membro associado da União Europeia. Hoje, no Parlamento Europeu, o primeiro-ministro canadiano quis esclarecer que esta aliança não tem como objetivo propor um terceiro bloco rival entre as grandes potências mundiais. Ainda antes deste discurso, Donald Trump já deixou críticas ao Canadá, anunciou também possíveis sanções contra a União Europeia. Qual é a sua opinião sobre esta aproximação entre o Canadá e a União Europeia?
Eu julgo que começa a ser claro que os Estados Unidos, com esta dinâmica que têm tido de alguma deriva autocrática, naturalmente o caminho de alguma autocracia e uma perca de qualidade do regime democrático americano, nós não sabemos o que é criado depois das próximas eleições presidenciais, naturalmente, mas sabemos que vamos ter pelo menos mais dois anos pela frente de uma situação muito complexa para a Europa. Porque temos aqui, sob o ponto de vista estratégico, das duas principais potências, Estados Unidos e China, e de uma potência secundária, mas que é nuclear e que tem impacto estratégico mundial, que é a Rússia. Rússia e Estados Unidos, o seu principal inimigo são os europeus. Os europeus, com extensão também aos estados democráticos, principalmente na faixa ocidental, nomeadamente o Canadá, que sofre a trição dos Estados Unidos todos os dias. E portanto, qual é a perceção que aqui existe? Tem que começar a surgir também na Europa e vai surgir noutros países que são democráticos e alguns deles até a grande distância daqui da Europa, nomeadamente o Japão, a Austrália. Esta pelo menos é a minha convicção, que a União Europeia, se conseguir manter aqui um perímetro democrático, como nós esperamos que sim, e com alguma resiliência das democracias europeias, poderá agregar, no modelo que for mais adequado, evidente não serão para integrar a União Europeia, que não são países europeus, mas mais uma perspectiva que foi levantada por Joe Biden antes de ser eleito no último mandato que teve, que era construir uma aliança das democracias. Ainda houve uma reunião com esse objetivo, no sentido de articular não só sob o ponto de vista político a resiliência dos países democráticos, como também de algum modo potenciar, porque é importante isso, potenciar sob o ponto de vista estratégico a capacidade de defesa e de segurança dessa geografia centrada na Europa, mas com países que estão noutras geografias, mas que pretendem estar aliados à Europa neste sentido, de tornar este bloco democrático como a quarta potência com influência global, no sentido que possa de algum modo influenciar os destinos do mundo. Porque senão se a Europa ficar puxada numa casca, acossada de todo lado, com sérios problemas sob o ponto de vista do crescimento do radicalismo em termos internos dos países europeus, a Europa está sujeita dentro de alguns anos a desaparecer como espaço democrático e liberal, como nós o conhecemos. E portanto, poderá ser o núcleo da União Europeia e Mike Carden, para mim, neste momento talvez seja o político dos países democráticos com maior visão e maior capacidade de mobilização, no qual residem muitas esperanças possa ser o líder do mundo democrático mundial. Líder sob o ponto de vista de dinamizar esta questão, e eu julgo que esta questão deste mecanismo de associação, que ainda não se sabe bem como é que vai ser, é muito mais uma iniciativa dele que foi acolhida pela União Europeia do que propriamente uma ideia da União Europeia ou da Comissão. Enfim, eu julgo que é mais isso. E isso pode ser um bom exemplo para os outros. E construir um bloco democrático resiliente, capaz de também ter, sem grande poder económico, como sabemos, e às vezes o poder económico não é suficientemente explorado sob o ponto de vista do efeito político, do poder político que a Europa e os países democráticos têm de ter, para fazer face aos outros dois, Rússia e Estados Unidos, cujo principal objetivo é destruir as democracias na Europa, como sabemos. E depois a China, que tem uma competição económica com a Europa, que também pretende de algum modo ter uma Europa fraca, com dinheiro para comprar, de facto, mas com pouco poder para impor regras sob o ponto de vista do comércio mundial. Portanto, a sobrevivência da democracia nos próximos anos está muito pendurada nesta associação, chamemos aquilo que quiser, entre as democracias europeias e as democracias de outras geografias que se quiserem de algum modo agregar à volta da Europa para construir um polo que tenha poder e que possa exercer esse poder, principalmente pela vertente económica, numa primeira fase, e diplomática, mas também, se for preciso, pelo menos com capacidade para se defender. Portanto, acho que é uma boa opção.
Muito obrigada pela sua análise. Chegamos ao final do nosso tempo. Obrigada, tenente-general Marques Guedes. Obrigada. Fica por aqui o "Gabinete de Guerra", está de regresso amanhã.