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Contracorrente que é aberto aos ouvintes depois do jornal das 10. Pode ligar o 91 002 41 85 para participar. Carla.
As negociações de paz que estão a decorrer na Suíça entre o Irão e os Estados Unidos estiveram ontem interrompidas por causa da continuação dos combates no Líbano, o que significa que o seu sucesso ou insucesso depende de atores que não se sentam à mesa das conversações, mais concretamente Israel e o Hezbollah, inevitavelmente também o Líbano. O que nos obriga a revisitar os termos do memorando de entendimento assinado por Donald Trump em Versalhes a meio da última semana e a tentar perceber melhor em que termos fica o conflito depois da Guerra dos 100 Dias. É o que tentaremos fazer no Contracorrente de hoje. Bom dia, José Manuel.
Bom dia.
O destino do Estreito de Hormuz também passa pelo sul do Líbano?
Aparentemente passa, o que é um problema complicado. O que se está a passar naquela região do sul do Líbano? Basicamente, nós temos uma organização que é o Hezbollah, que de alguma forma é um proxy do Irão, é um grupo terrorista, parastatal, altamente armado. Quem conhece o sul do Líbano sabe que aquilo é uma aldeia xiita onde está o Hezbollah, depois há uma aldeia cristã onde não está o Hezbollah, depois pode haver também aldeias drusas. Há ali uma espécie de mosaico de comunidades. O Hezbollah está completamente entrincheirado nas zonas xiitas e usa essa zona, que é uma zona de montanhas, para atacar e bombardear o norte de Israel. Por exemplo, após o 7 de outubro, muitas pessoas do norte de Israel tiveram que ser evacuadas, tiveram que sair de lá, abandonar as suas casas e estiveram mais de dois anos a viver, às vezes em hotéis, às vezes em locais improvisados, até poderem regressar. Esses ataques têm-se tornado muitas vezes muito violentos e Israel começou a intervir e houve já acordos de cessar-fogo. Simplesmente, o governo do Líbano não tem capacidade para controlar o Hezbollah. O Hezbollah é um Estado dentro do Estado, mas não é um Estado ao mesmo tempo e não tem as características de um Estado e a questão é saber quem é que o representa, se é o Irão, se são os seus agentes locais, se são aquela força chamada Quds, que é uma espécie de braço armado do Irão para o estrangeiro. O que Israel fez nos últimos meses foi tentar criar uma espécie de zona-tampão no sul do Líbano, entre a fronteira de Israel e o rio Litani, e de alguma forma procurar limpar as zonas ocupadas pelo Hezbollah. Ainda ontem, por exemplo, a imprensa internacional publicava imagens e reportagens de um túnel que tinha características completamente diferentes daqueles que nós vimos em Gaza. Era um túnel muitíssimo mais sofisticado, onde estavam dezenas, penso que 50, drones iranianos também supersofisticados, preparados para ser lançados contra Israel. Quando a situação é esta, a questão é perceber que a agenda do Hezbollah e a agenda de Israel não são as agendas nem dos Estados Unidos, em primeiro lugar, de Trump em particular, mas também, de alguma forma, e aqui a questão é mais equívoca, do Irão, porque o que está aqui em causa não são as armas nucleares, nem os mísseis iranianos, que é aquilo que em princípio devia estar a ser discutido nas conversações. A questão é saber como é que nessas conversações na Suíça, com atores que têm uma agenda local, que não tem nada a ver com o que se passa do outro lado do Médio Oriente, aquilo ainda é relativamente longe do Mediterrâneo, o Líbano é um país encostado ao Mediterrâneo, assim como Israel, como é que eles são envolvidos numa negociação em que uma das organizações funciona como proxy do Irão, mas o Irão assobia para o ar, e do outro lado está um país, que é Israel, que não quer que as suas populações, os seus civis, os seus habitantes, continuem a ser bombardeados indiscriminadamente a partir de um país vizinho. Quando essas duas organizações não se sentam à mesa das negociações, o que pode vir a seguir pode ser muito complicado, sobretudo porque também está em causa uma relação antiga entre Israel e os Estados Unidos, e até que ponto é que essa relação vai ou não manter-se, porque há uma coisa de que eu estou convicto: para Israel, a sua própria sobrevivência e a sua própria segurança estarão seguramente acima das alianças. E já houve muitas alturas no passado, com outros líderes, em que essa aliança esteve muito tremida. Aconteceu com Eisenhower, aconteceu com Kissinger e Nixon, aconteceu também, de alguma forma, com Joe Biden, se bem que num grau menor. Aconteceu em vários momentos e é disso que vamos tentar falar, assim como tentar perceber até que ponto é que nestas negociações a mão de Israel e a mão dos Estados Unidos é mais forte ou mais fraca. E também algo que às vezes fala-se pouco, mas que é importante, que é, por um lado, o papel que pode ou não ser desempenhado por J.D. Vance, que é o enviado de Trump às negociações. É um tema que merece alguma análise. E também, por outro lado, perceber até que ponto é que o regime iraniano é monolítico, porque há sinais de que não é, designadamente a forma como o líder supremo, Mustafa Khamenei, se referiu a este memorando de entendimento, dando a entender que aquilo não é coisa dele. Falemos disso tudo depois das 10.
É isso mesmo. Até já, José Manuel.