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Está a começar o Contracorrente desta quinta-feira, hoje sobre o papel do jornalismo durante a pandemia. O número de telefone para onde pode ligar é o habitual 910 024 185 e pode também, Carla Jorge Carvalho, deixar a sua opinião, os nossos ouvintes, claro, e questões nas redes sociais do Observador.

Ontem houve mais uma reunião no Infarmed e nela os especialistas mostraram-nos dados que, na sua opinião, não justificam a existência de medidas restritivas neste momento. José Manuel Fernandes seguiu a conferência em direto e ao mesmo tempo foi reparando nas mensagens que iam caindo no telemóvel. Como não gostou muito do que viu, quer hoje discutir no Contracorrente o papel dos jornalistas nesta pandemia. Tens noção, José Manuel Fernandes, que é um tema potencialmente escaldante?

Bom dia.

Bom dia.

Sem dúvida. A reunião de ontem foi esclarecedora, e acho que no bom sentido. Trouxe-nos boas notícias. As primeiras intervenções tiveram todas a mesma preocupação: explicar que a atual vaga da pandemia tem menos gravidade que as anteriores. Houve explicações sobre a Ómicron, e sobre como a Ómicron infectava mais e mais depressa, mas também como ao mesmo tempo provocava formas de doença menos graves. Houve explicações sobre a necessidade também de deixarmos de olhar sobretudo para o número de infectados, que já nos diz pouco, como eu tenho vindo a defender aqui há imenso tempo, e passarmos a olhar mais para os internamentos em UCI, para o número de mortos, e aí os dados são muito mais tranquilizadores. Houve também explicações sobre tudo e mais alguma coisa no sentido de retirar carga dramática, pelo menos aquela que às vezes se vê por aí, a esta vaga de Covid, muito na linha, devo dizer, daquilo que eu também tenho defendido um pouco nestas crónicas. E muito também na linha daquilo que eu vejo estar a acontecer noutros países, mas já falarei disso um pouco mais adiante. Mas mesmo assim, e agora vou ser muito direto, houve colegas nossos que parece que só conseguem ver, ou só conseguem dar, ou só conseguem falar de más notícias.

E o que queres dizer com isso?

Acho que é melhor dar um exemplo para se perceber e por isso vou citar alguns dos alertas que recebi no meu telemóvel. Por exemplo, houve um órgão de informação que quando os espíritas estavam a enquadrar os números, optou por escolher entre tantos números, que a maior parte eram até positivos, um número preocupante: "Internamentos em Lisboa subiram 50% com a variante Ómicron". Foi o número que ele escolheu. Eu acho que isto é sempre para assustar as pessoas. Por exemplo, o que é que aqui no Observador estávamos a destacar mais ou menos à mesma altura? Isto: "Dados confirmam que Ómicron leva menos doentes aos hospitais do que a Delta". E ainda mais isto: "Ciência explica Ómicron. Mais transmissibilidade e ataque às vias superiores, menor gravidade". Há aqui um enorme contraste. Por exemplo, o mesmo órgão de informação continua sempre no mesmo registo, sempre a assustar. A seguir mandou outro alerta a dizer que o risco de reinfeção com a Ómicron é 10 vezes superior. Esqueceu-se de falar da parte da gravidade. A frase que escolheu para a intervenção de Henrique Barros foi sobre a sua graça, sobre dizer-se que o fim da pandemia é manifestamente exagerado. Mas ignorou aquilo que eu acho que disse naquele período, que era mais importante, que é a ideia que já não há razão nenhuma para continuarmos a raciocinar em termos de número de casos. Passou ao lado, por exemplo, dos destaques dessa publicação, essa ideia. Não houve nada aí.

Está bem, certo. Compreendo. Mas a verdade é que esses alertas que citaste são verdadeiros. Também faziam parte das apresentações. Não achas que foram opções jornalísticas legítimas?

Que foram opções jornalísticas, não tenho qualquer dúvida, nem contesto que sejam verdadeiros ou legítimos. A questão não é essa. A questão é que, olhando para uma realidade que está a melhorar, há quem insista em ver só o seu lado negro, o seu lado mais inquietante e o seu lado mais assustador. É como aquelas pessoas que só veem o copo meio vazio, nunca são capazes de ver o copo meio cheio. Eu tive, de resto, a mesma sensação quando ouvi, por exemplo, as perguntas que no final da conferência estiveram a fazer ao Presidente da República. Eu vi Marcelo a tentar explicar o melhor que podia os cenários matemáticos e dizer que eles não são projeções, não são certezas. Ouvi-o a tentar baixar o registo alarmista, mas as perguntas iam quase sempre ao mesmo lado, quase sempre só se agarravam precisamente aos cenários mais pessimistas. Ora, não é a primeira vez que tenho esta perceção ao longo de quase dois anos que levamos de pandemia. A perceção de que para nós, jornalistas, só parecem contar as notícias mais assustadoras e as notícias mais negativas. Aconteceu-me já várias vezes. Resolvi falar do assunto, discutir o assunto, até porque, coincidência, isto aqui agora aconteceu, ontem a newsletter matinal do New York Times também tratava deste tema. Eu costumo ler essa newsletter e ontem fiquei alertado por ela. O título dessa newsletter, por acaso, até era o contrário do alarmista, era sobre os dados estarem consistentemente a contar a mesma história e que essa mesma história é que esta variante Ómicron é mais benigna. Causa doenças menos graves. Como sabes, é a hipótese que eu tinha colocado há várias semanas. Agora os dados acumulam-se, vão todos no mesmo sentido. Por isso achei interessante que o redator da newsletter, que é um jornalista que eu não conheço, chamado David Leonard, ter sentido necessidade de recordar

Que ele tem sempre a preocupação de evitar aquilo a que chamou, e agora vou usar o termo em inglês, bad news bias, ou seja, a tendência dos jornalistas para darem preferência às más notícias.

Deixa-me usar também o inglês, porque há aquela velha máxima que é: good news, no news. Ou seja, que boas notícias não são notícia.

Tens razão. Aliás, isso não se aprende nas escolas de jornalismo, mas é bem verdade. Ninguém manda dizer que good news não são news, notícias. Mas eu acho que é mais do que isso. No jornalismo, como é verdade um bocado na vida. As más notícias, toda a gente sabe, viajam sempre mais depressa. Mas, de facto, ele tem razão, que na nossa profissão, tanto lá nos Estados Unidos como aqui em Portugal, nos sentimos muitas vezes mais confortáveis a dar as más notícias, que achamos que é a nossa missão. Muitas vezes até nem damos muita pouca verificação e, portanto, exageramos um bocadinho, do que dar as boas notícias que tantas vezes só somos capazes se acrescentarmos uma dúvida, um mas, qualquer coisa. Ao ler isso investiguei um pouco e descobri que nos Estados Unidos, onde há, de facto, um estudo para tudo, já alguém tinha dado, aliás, a própria newsletter dava conta disso, numa newsletter anterior, tinha dado ao trabalho de analisar o tom dos noticiários sobre a Covid. Noticiários, televisões, jornais. A conclusão foi que 87% das notícias publicadas na imprensa jornalista, na grande imprensa e nas televisões, tinham uma carga negativa. 87%, como costumo dizer, é quase uma maioria norte-coreana, quase a totalidade. E atenção, esta percentagem não variava muito, e isto até me fiquei com curiosidade, se o jornal ou a televisão, porque nos Estados Unidos isto é mais claro, é mais de direita ou mais de esquerda. A CNN e a Fox davam a mesma coisa. Portanto, a percentagem é mais ou menos a mesma. Esta percentagem já mudava radicalmente se passávamos estes órgãos de grande audiência para a imprensa científica, onde a percentagem descia de 87 para 64. É uma diferença grande. 64 já é dois terços, mais ou menos. A pergunta é: por que isso acontece? Eu acho que não é pelos jornalistas da Fox e da CNN serem mais objetivos do que os relatores de uma imprensa científica, nem o contrário. Nem se imagina, por exemplo, que sejam mais conhecedores. Eu acho que a hipótese colocada pelo autor do estudo, que é um economista comportamental, é que isto tem a ver com audiências. E ele foi estudar também as audiências. As audiências de notícias. Verificou-se nesse estudo que o público ainda preferia notícias com conteúdo ainda mais negativo, ainda mais pessimista.

Então, de uma maneira, os jornalistas não estiveram mal. Estiveram sintonizados com a sua audiência e com as preocupações dessa audiência.

Discutir isto dava tanta manga, se a gente deve fazer, se deve vir atrás de uma audiência.

Dava uma cadeira de jornalismo.

Mas acho interessante discutir outra ideia, que é a ideia que numa altura destas, numa altura de crise e emergência, que é muito uma ideia que andou por aí, é preciso juntar forças e fazermos coro, e também nós jornalistas fazermos coro, ajudarmos no esforço coletivo de proteção contra a pandemia. Houve várias alturas já na nossa história em que houve este tipo de unanimidades. Eu recordo-me, por exemplo, na altura de Timor, não havia divergências na imprensa portuguesa. Estava tudo a contar a mesma história. Eu não contesto a ideia que deve haver um papel cívico no jornalismo. Pelo contrário, defendo muito firmemente essa ideia. O que contesto é a incapacidade de olhar criticamente pra realidade, que eu acho que também faz parte do papel cívico do jornalismo. E vou te dar um exemplo. Desde a princípio da pandemia que se percebeu que havia muita desinformação no ar, fake news, como agora se diz. E também desde o início da pandemia que se percebeu que os jornalistas e os órgãos de informação teriam que agir como guardiães da verdade, sobretudo da verdade científica, através de mecanismos como os fact checks. Até aqui, tudo bem, todos de acordo. Pelo menos eu acho que todos de acordo. Só que também desde o início que esta pandemia se revelou, por assim dizer, mais traiçoeira, capaz de mais facilmente dividir a comunidade científica. Então as coisas eram muitas vezes mais complicadas. O problema, também desde o início, é que se havia evidentes falsidades, também podia haver várias verdades, digamos assim. Lamento dizer, ou lamento ter de contestar que nessas alturas os jornalistas às vezes comportaram-se mais como políticos, ou mais como os políticos. Não como políticos, mas mais como os políticos. Eu acho que tiveram, sobretudo, dificuldade em lidar com a dúvida, em lidar com a divergência, em lidar com mais do que uma verdade, e às vezes podia haver mais do que uma verdade. Vou dar novamente exemplos. Quantos meses foram necessários pra hipótese de o vírus ter saído do laboratório do Wuhan, pudesse ser tratada seriamente por um grande órgão de informação? Mais de um ano. Durante esse período, era só uma teoria da conspiração. Quem tocasse nela era logo posto de lado. Outro exemplo, o caso da heterodoxia sueca, da forma diferente como os suecos trataram o tema. Devo dizer que sempre me fez imensa confusão o esforço que eu vi de quase toda a comunicação social, aqui, em Espanha, no Reino Unido, em França, pra destruir o modelo sueco. Às vezes pegava na imprensa, por exemplo, a imprensa britânica, e aquilo parecia que andavam à caça de formas de dizer que aquilo estava a correr mal. Dois anos depois, o modelo sueco provou relativamente bem, e já é mais fácil encontrar artigos a dizer isso, mas quem se atrevesse a defendê-lo aqui há uns tempos era quase acusado de negacionista. Estava no limite do limite de ser acusado de negacionista. Outro exemplo ainda, a forma de tratar com os negacionistas, que eu acho gente muitas vezes completamente com a cabeça num nó Mas, por vezes, tratava-se como negacionistas pessoas que tinham apenas hipóteses diferentes ou soluções diferentes e nem sequer se dava o trabalho de ouvir os seus argumentos. Há vários casos desses, não vamos entrar agora por exemplos, podemos ir muito longe. Eu aqui não tenho dúvida em afirmar que houve falta de equidistância, falta de equilíbrio e que muitos jornalistas acharam que a sua missão cívica era mesmo esmagar as opiniões divergentes, porque isso era preciso, porque estávamos todos numa batalha, numa guerra, em vez de considerar, escutar, pesar argumentos divergentes.

Mas não achas que numa altura destas, no meio de uma crise tão grave, com tanta gente assustada, que era, de alguma forma, preciso cerrar fileiras?

Estás a perguntar-me se eu acho necessário fazer aquilo que, vou usar uma expressão que inventei agora, que é o jornalismo patriótico-sanitário. E eu diria que houve dessa tentação. Talvez demasiado. Volto ao meu ponto. Não precisamos de ser patrióticos no sentido dogmáticos e intolerantes para que o nosso trabalho informativo faça o que é importante, que é dar às pessoas informação relevante para elas tomarem as suas opções. Informação relevante, correta, naturalmente, e permitir que as pessoas pensem. Tem-se dito que estamos numa guerra. E eu acho que isto é um dos problemas. E houve muita boa gente que fez verdadeiramente jornalismo de guerra, e no sentido antigo do termo, que nem sequer é o moderno, é o sentido antigo do termo, no sentido em que quando começava uma guerra, a primeira vítima era a verdade. Tudo era sacrificado aos objetivos patrióticos. Às vezes, por obrigação, outras vezes voluntariamente. Ora, da mesma forma que no passado critiquei muitas medidas que achei, por exemplo, autoritárias, muitas políticas públicas que me pareceram baseadas mais no medo e no alarmismo do que na ciência, ontem vi com agrado defender-se que se deve confiar nos cidadãos. Foi uma coisa que foi defendida ontem, e na capacidade de os cidadãos, com toda a informação que já têm, com toda a experiência que já têm, com tudo aquilo que já sabemos sobre a forma como eles se sabem comportar, decidirem, em cada circunstância, qual é o comportamento mais adequado, dentro, naturalmente, de linhas gerais. E sempre confiei na autodeterminação dos cidadãos. Da mesma forma que nunca achei bem aquela ideia de Salazar que os portugueses não eram suficientemente ilustrados para votar, ou todos, pelo menos, ou daquelas pessoas que achavam que não podem se são analfabetos, ou são isso, ou são aquilo, não podem votar. Eu sempre desconfiei também da carneirada de cidadãos atordoados pela propaganda. Prefiro autodeterminação, como disse, de cidadãos bem informados. Infelizmente, acho que nós, jornalistas, ao termos seguido muito este velho instinto de good news, no news, e que ser alarmistas até era patriótico, digamos assim, patriótico-sanitário, acabamos por contribuir um bocado acriticamente, e eu sublinho, acriticamente, precisamente para o clima de medo que eu já critiquei aqui tantas e tantas vezes. Ora, não há nada mais perigoso, e eu acho que queria chamar a atenção para isto, não há nada mais perigoso para as liberdades do que o medo ou do que um povo amedrontado. E disso nós devíamos ter consciência. O medo mata as liberdades. E afinal de contas, a liberdade é o ar que respiramos, é o ar sem o qual o nosso trabalho de jornalistas não faz sentido, não existe. Eu acho que também nos devíamos lembrar mais vezes disto, em vez de termos andado tantas vezes a assustar ainda mais as pessoas do que se calhar era necessário.

E é por isso que hoje vamos discutir o papel do jornalismo durante a pandemia. Houve globalmente uma procura por notícias negativas, apocalíticas, em detrimento da independência e do sentido crítico, onde está a fronteira entre o imperativo cívico, de que falava o José Manuel Fernandes, e a equidistância. O tema é polémico, já avisámos, e por isso só já fazia sentido estar hoje aqui no Contracorrente como vai estar. Os nossos ouvintes são, como sempre, convidados a participar, a dar opinião e a colocar questões. A Raquel Abecasis é a nossa primeira convidada, foi jornalista muitos anos, agora é também colunista do Observador e tem escrito muito sobre a forma como o jornalismo se tem portado durante esta pandemia. Raquel Abecasis, bom dia.

Bom dia, Carla.

Bom dia. Fazes um balanço assim tão negativo do jornalismo que se tem feito neste momento?

Faço, aliás, espero que muitos que me estejam a ouvir me tenham lido também no Observador e já há muitos meses que eu critico a forma como os jornalistas, como os principais meios de comunicação social, têm vindo a acompanhar o evoluir da pandemia. Eu assino por baixo quase tudo o que o José Manuel acabou de dizer. Aliás, também eu tenho ouvido ao longo destes tempos ser muito crítico também na forma como este assunto tem vindo a ser tratado na comunicação social. E tu já disseste que, e portanto é o meu registro de interesses, eu aqui falo um pouco como jornalista, embora já tenha entregue a minha carteira de jornalista, mas fui jornalista durante muitos anos, tive responsabilidades editoriais e fez-me muita impressão ao longo dos últimos meses, a forma como os principais meios de comunicação social, ou todos, eu diria, não foram capazes de tomar uma opção editorial. Porque uma coisa é aquilo que nós dizemos nos espaços de opinião, e aí eu acho que fomos tendo algumas opiniões divergentes da opinião comum e alguns alertas para que se estavam a cometer exageros e para que a forma como o tema estava a ser tratado já não fazia sentido. Mas depois o facto é, e eu ainda hoje de manhã fiz o exercício de estar a ouvir as rádios de manhã E as rádios de manhã dedicaram grande parte dos seus noticiários a relatar-nos que as crianças estavam a ser vacinadas nos centros de vacinação com longas reportagens. Mais uma vez a entrevistar crianças, se estavam nervosas, se não estavam nervosas. Eu não percebo por que nós não passámos o último século à porta dos centros de saúde a entrevistar crianças que são vacinadas todos os dias.

Raquel, deixa-me fazer o aparte, citando algumas dessas tuas crônicas. Uma delas fala sobre isso, a responsabilidade do mensageiro, e falas dessa questão de entrevistar crianças de 10 anos. Há uma outra que eu destaco: "Não é notícia, é preguiça", em que criticas esta rotina das redações de darem os boletins diários, e falas da dificuldade do jornalismo em escolher um caminho diferente. Mas este não é o pecado original do jornalismo? Acabamos todos por ir atrás das mesmas coisas, porque se um está a dar é porque é importante.

Mas eu acho que nem sempre foi assim, e eu acho que compensa não ser assim. Ou seja, eu acho que quem ousar, e eu acho que é nessa crônica que eu digo isso, quem ousar dar um passo diferente, em sentido diferente, vai ver que compensa. E por que eu digo isto? Porque eu acho que esta situação da pandemia trouxe-nos muitas circunstâncias novas. E é verdade que no início nós tivemos todos que lidar com o desconhecido, e houve muita comparação com uma situação de guerra, e num certo sentido ela teve alguns pontos de contato com aquilo que eu imagino. Eu também fui repórter de guerra enquanto fui jornalista, e percebo que há circunstâncias particulares em que talvez não seja um jornalismo patriótico, mas em que o jornalismo sente uma particular responsabilidade na sua missão. E eu acho que nós todos tivemos que lidar com isso de um dia pra o outro, nos primeiros momentos da pandemia. Portanto, acho que houve uma série de coisas, até algum jornalismo panfletário, que se fazia particularmente nas televisões, em que víamos os pivôs dos telejornais a serem também nossos conselheiros e a fazerem observações enquanto intervalavam a introdução aos vários segmentos noticiosos. Eu acho que isso tudo se pode ter justificado num primeiro momento, mas a partir de uma determinada altura em que nos habituamos a conviver com isto, era preciso fazer uma reflexão. E eu acho que essa reflexão faz-se muito com um distanciamento em relação à notícia do hora a hora e do dia a dia. E é pra isso que eu acho que também servem as direções, e servem as chefias de redação, e servem todas as pessoas que ocupam cargos mais editoriais e que são chamadas a pensar a edição e a pensar como é que vão comunicar com quem está do outro lado. E voltando à circunstância particular, o que eu acho é que não havendo aqui, ou enfim, houve infelizmente muitas vítimas mortais desta pandemia, mas há muitas outras vítimas e neste momento e nos últimos meses, o que há não é tanto só uma questão das liberdades, e é evidente que essa é a questão mais importante, mas é também uma questão da saúde mental de toda uma sociedade. E quando nós, ao longo destes últimos meses, não há um único noticiário, um único telejornal que abra as notícias todos os dias, uns dias atrás dos outros, no verão, em que não havia praticamente qualquer problema, nós todos os dias éramos introduzidos com esta questão. E isso para uma sociedade que foi obrigada a viver em circunstância, aí sim, muitas vezes de guerra, com recolher obrigatório, com as pessoas fechadas em casa, com as pessoas impossibilitadas de fazer a sua vida. Pra saúde mental de toda a sociedade e pra saúde mental de cada um, não só não é notícia, não só não ajuda, como eu acho que ajuda a extremar posições e, portanto, eu acho que ajudar a justificar alguns negacionistas e quase que leva outras franjas, uns a serem exageradamente pessimistas e acharem que há um perigo atrás de qualquer ação natural, como depois há todas aquelas pessoas, e eu acho que estamos nesse momento e portanto se as coisas não mudam rapidamente, é isso que vai acontecer, é que as pessoas bem ou mal vão fazer a sua autogestão. Eu também confio na responsabilidade pessoal das pessoas, sobretudo quando se habituam a viver com as circunstâncias, mas também acho que não podemos ter uma comunicação social que não nos informa e nos leva a ter atitudes contrárias em relação àquilo que vemos. E eu acho que o insistir nestas notícias permanentes, e portanto, eu acho que é sintomático o noticiário desta manhã, porque depois do que ouvimos ontem e depois de estarmos todos a fazer esta reflexão, voltamos a ter o mesmo tipo de alinhamentos. Isso gera um cansaço na sociedade, que eu acho que numa circunstância particular como estas não sei que consequências vai ter.

Pode até ter o tal cansaço no jornalismo. Raquel Poccice, deves ter estimulado muito os nossos ouvintes. Obrigada por ter estado aqui conosco, porque temos já muitos ouvintes em linha para participar, não é, João Miguel Santos?

Exatamente, através do número de telefone 91 002 4185. Pode também deixar a sua opinião e as suas questões ao José Manuel Fernandes e à Helena Matos, através das redes sociais e também do site do Observador, www.oobservador.pt.

O José Duarte, que é reformado e que está no Estoril, optou por nos ligar, por recorrer ao telefone e ainda bem, está agora em direto. José Duarte, bom dia.

Olá, bom dia. Cumprimentos José Manuel Fernandes, à Clara Em todos os ouvintes. Carla, Carla de Carvalho, não é?

Sim.

Carla de Carvalho.

José Eduardo, onde é que se coloca nesta discussão sobre o papel do jornalismo durante a pandemia?

Carla, primeiro de tudo eu gostaria de dizer uma coisa: o jornalismo, sem dúvida, é o quarto poder em Portugal. Quarto ou terceiro. Tem muita força. Eu próprio trabalhei num jornal. Estava a acabar o curso geral de jurisdicionado, no sétimo ano, descia à Rua do Celete, havia um jornal que era Motores em Marcha. Não sei se o José Manuel Ferraz se recorda disso.

Não, nesse por acaso não.

Não? É um bocadinho cedo, é meados dos anos 60. E trabalhava também como intérprete na Ponte Salazar, no setor americano. Era tudo muito próximo, licença, o trabalho. Já não me recordo se nessa altura se era estagiário, praticante ou aprendiz. Havia uma designação, não havia os cursos superiores de jornalismo como existem agora. Se bem que conversam lá todas as profissões liberais. E é um facto que o jornalismo tem muita força. A minha intenção, a seguir entrei pra serviço militar com 18 anos e eu pensei que ia seguir a carreira de jornalista como fotossíntese no exército. Não. Não segui isso e fui para coisas especiais. E tive logo o primeiro problema. Tive logo o primeiro problema durante uma operação com helicópteros. Fui ver a informação, como é que estava, se estava tudo corrigido. Quando cheguei ao heli, estava lá um senhor que era repórter de guerra. Já falecido, não vou dizer o nome. Estava sentado no meu lugar, me perguntou o que se passava. Mostrei o meu papel, a autorização do major de operações e do comandante do setor. O senhor teve que sair até, porque aquilo realmente não era operação pra ele, e tornou-se muito complicado. Mas tudo isso foi só pra dizer, esclarecer a força que o jornalismo tem. É um facto, porque há jornalistas e jornalistas. Há comentadores e comentadores, alguns nós não sabemos quem lhes paga. Se é as rádios, se é as televisões, se é o governo. Isto é um facto. É um facto e é uma boa coisa que os jornais, televisões, rádios deviam dizer realmente se eram de esquerda, se eram de direita ou se eram de centro. Aliás, acho que isso existe em Inglaterra e nos Estados Unidos.

No caso do tratamento da pandemia, havia diferenças?

Claro que existe. Claro que faz diferença a maneira como a informação é dada tal como é dada por alguns cientistas que são contratados pelo governo. É um facto, nós não podemos fugir a isso. Eles dizem aquilo que era às extensões do governo, Ivan Mendes, Ricardo Jorge, Direção Geral de Saúde, nós sabemos. E há jornalistas que entram nesse esquema e a informação que dão não é correta. Há uma discussão, eu sei que televisões, jornais, rádios vivem de subsídios do governo, ao perdão de dívidas, à publicidade institucional, a isso tudo, nós sabemos. E então com este governo socialista, a coisa agrava-se, é pior. É uma pouca vergonha. O jornalismo em si é uma profissão nobre. Eu aprecio muito os trabalhos dos jornalistas de investigação. Fazem trabalho e correm perigos, devo dizer. Fazem trabalhos excecionais. É tempo de os jornalistas serem verdadeiros jornalistas. E há os que são, há bons e sérios e honestos.

E portanto há essa necessidade, essa exigência do jornalismo, pelo que concluo, José Eduardo, não só quando se fala de pandemia, obviamente, em todas as matérias. José Eduardo, muito obrigada pelo seu telefonema e um bom dia. O André Ferreira está em Setúbal, é engenheiro. Bom dia.

Olá, bom dia. Se por absurdo, um dia um jornal, um telejornal abrir o seu noticiário dizendo: "Hoje teve um belo dia, não se passou nada, teve um belo dia de sol, 25 graus e não há notícias, portanto obrigado, boa noite, até amanhã." Se isto um dia acontecer, provavelmente no dia seguinte as pessoas não vão ver esse jornal. As pessoas vão ver outro, que procura incessantemente informação que cause algum impacto, algum estado de espírito. As pessoas têm que entender que isto é o jornalismo, não é mau. É assim. O jornalismo vive desta interação entre a notícia e as pessoas. Se não houver notícia, não há jornalismo. E o jornalismo tem que criar notícia pra se manter vivo. Felizmente ou infelizmente, é como é. Nestes últimos dois anos, é verdade que a pandemia alimentou o jornalismo, é verdade, com más notícias, muito alimentada também pela manipulação da política e pra assustar as pessoas, pra mudar comportamentos. Pra mudar comportamento é preciso assustar as pessoas. É verdade que agora nas últimas semanas, vamos dizer nas últimas três semanas, a crítica que eu faço é que já deveria haver algum jornalismo que alertasse que o número de casos não é propriamente uma má notícia. Pode haver outras causas, o fato de estarmos a medir mais, o fato desta Ômicron ser tão virulenta. Esta parte da notícia faltou, só ficou aquela parte dos mais casos. Ninguém salientava o número de mortes estar praticamente flat, estável. Isso já é uma manipulação da informação e aí eu critico, e aí eu acho mal. O jornalismo vive de notícia, e as más notícias é que vendem, infelizmente. Nós temos que ter consciência disso, filtrar E pedir para que realmente o jornalismo antecipe as perguntas e as hipóteses. Esta história dos negacionismos, eu sinto-me um pouco como Nicolau Copérnico. Nicolau Copérnico, como vocês sabem, era negacionista. Negava que o sol andava à volta da Terra. Quase que foi morto. Acho que foi Giordano Bruno que foi morto. As hipóteses e a investigação do jornalismo servem para nos fazer perguntas, servem para nos fazer pensar, servem para nos fazer criar nossas próprias ideias. Isso é que me falta um pouquinho no jornalismo, principalmente em Portugal, e não repetir só os números que vêm da DGS ou de alguns experts mais alarmistas. Muito obrigado pela oportunidade.

Nós é que agradecemos, André Ferreira. Bom dia para si. Duarte Silva está em Lisboa e é bancário. Bom dia. Duarte Silva, parece que não está em linha este nosso ouvinte. Ele inscreveu-se e agora sim, Duarte Silva. Bom dia.

Peço desculpa. Antes de mais, bom dia a todas e a todos. Obrigado pela oportunidade. De facto, este tema é, na minha opinião, um pouco difícil de falar, no sentido em que, especialmente no tempo em que vivemos, falar de forma leviana sobre esta temática do jornalismo e da ética que a ele deve estar associada, temos que ter aqui algum cuidado, porque, de facto, como aqui já foi dito por outro ouvinte, que já não me recordo do nome, o jornalismo é um pilar da democracia e eu acho que nunca é demais salientar isso. No entanto, fazer aqui algumas observações quanto àquela que tem sido a cobertura jornalística a que temos assistido, nomeadamente na pandemia. Parece-me óbvio que o jornalismo, de facto, o jornalismo das más notícias, alimentou-se da pandemia. Isto é evidente quando assistimos que houve bastante sensacionalismo sobre um vírus que ainda hoje tem várias facetas desconhecidas, até para a ciência, que vai encontrando resposta à medida que o tempo passa. E é um vírus sobre o qual vamos aprendendo em tempo real. Nós temos verificado um sensacionalismo que obviamente não tem sido muito saudável para a verdade e para aquilo que deve ser um dos valores maiores do jornalismo, que é estar ao serviço da população e informá-la da melhor forma e da forma mais verídica. E eu acho que, de facto, nesse campo, algum jornalismo tem falhado muito, uma vez que tem criado, tem alimentado dramas que não têm muita razão de ser. Por exemplo, desde quando foi a questão da falta de máscaras, da falta de vacinas, que com o passar do tempo foram ultrapassados. Mas de facto, a cobertura jornalística que foi feita então não foi muito rigorosa, não foi muito positiva.

E portanto, falta o Duarte Silva também aqui a considerar que é preciso exigência, mais exigência no jornalismo, sobretudo nesta altura. Duarte Silva, bom dia, obrigada por ter participado no Contracorrente. João Miguel Santos, vamos ouvir outras opiniões?

Vamos lá. Nas redes sociais, há muitos ouvintes e leitores d'O Observador a comentar esta questão do jornalismo durante a pandemia. André Oliveira escreve que todos os dias a comunicação social abre guerra psicológica ao cidadão comum. Sobre se o jornalismo se alimentou ou se alimenta de más notícias, Maria Mol escreve que sim, claro que se alimentou, e de mentiras e meias-verdades também. José Carlos Santos reflete sobre a condição humana com uma frase: "O mal anda sempre à frente do bem, porque os humanos são imperfeitos". Já Rodrigo Teixeira deixa os parabéns a O Observador por ter a coragem de abordar este tema. Escreve Rodrigo Teixeira, que já foi crítico da conduta d'O Observador em outras circunstâncias, escreveu que: "Creio que estão a caminhar no sentido certo agora".

Helena Mattos, já num outro Contracorrente tinhas aqui falado da forma como os jornalistas encararam a pandemia, mesmo como jornalismo de guerra. Este jornalismo patriótico-sanitário de que falava o José Manuel Fernandes encaixa naquele argumento?

Felizmente que não foi uma guerra, porque se fosse uma guerra era um desastre em termos de informação. É muito interessante, aliás, seguir o jornalismo de países que vivem quase que em permanente estado de guerra. Estou a pensar, por acaso, no jornalismo de Israel. E uma das coisas que se percebe é que é necessário, independentemente da posição que os jornalistas têm, os jornalistas israelitas, que se tem de informar. Aquilo que nós temos aqui não é uma oposição entre boas e más notícias, de modo algum. A grande questão é quando nós temos uma obsessão ou uma cristalização em determinados temas e em determinado tipo de abordagens que se transformam em narrativas simplistas, simplificadoras e simplificadas. E isto não tem nada a ver com a gravidade dos assuntos que estão a ser abordados e só querer falar de coisas que estão a correr mal. Um dos problemas que nós tivemos aqui foi um centrar, em exclusivo, nas questões do Covid, como se não houvesse outras realidades, como se não houvesse outras doenças, como se não houvesse outros problemas, e tudo se restringia a um número de casos, que aliás, não se comparavam com outros países, nem se procuravam, nem procuram entender. Até agora, por exemplo, não se tem procurado perceber muito bem por que é que África, até o aparecimento da variante Ômicron, tinha sido mais ou menos poupada a este vírus. Não é a primeira vez que isso acontece. É curioso, nós falamos muito das questões do ambiente, mas depois subestimamos muito as questões do ambiente e não se consegue explicar o que aconteceu ou os números mais baixos no continente africano, dizendo unicamente que há uma subnotificação ou, como se lê no site da BBC, porque os serviços de saúde públicos do continente africano responderam. E claro, também porque a população é mais nova, ou seja, é insuficiente. Tal como é insuficiente, por exemplo, nunca ninguém tentou perceber até agora, por acaso O Observador fez uma pequena notícia, mas depois o assunto e outros jornais caem logo no esquecimento, que é por que o Peru Tem os números que tem de mortes por milhão. O Peru está com mais de 6 mil mortes por milhão. Isto não tem nada a ver com o restante mundo. Por exemplo, Portugal tem 1874 mortes por milhão. Já agora, a Suécia, de que o Zé Manuel falou aqui, tem 1503, ou seja, tem menos do que nós. Porque nenhum dos outros países que faz fronteira com o Peru apresenta, e muitos são igualmente montanhosos, têm igualmente problemas de saúde pública. É certo, nenhum tentou aplicar uma perspectiva de gênero no combate à pandemia. Nós centramos muitas coisas em determinados países. A perspectiva de gênero no combate à pandemia, claro que se traduziu depois num desastre, porque aquilo tinha uns dias de confinamento para homens, outros dias de confinamento para mulheres, porque eles queriam fazer uma coisa paritária no confinamento. O resultado foi que as mulheres se contaminaram muito mais porque iam às compras, porque iam isto, porque iam aquilo, os homens ficavam em casa. E depois ainda discutiam se deviam pôr as mulheres menos dias em confinamento. Até que houve alguém, certamente com mais bom senso, que disse que realmente essa não é a altura para estarmos a tratar das questões de paridade. Mas isto é um pormenor anedotário que obviamente não teve qualquer impacto nestes números que o Peru apresenta. Não se tenta perceber por quê, não há curiosidade. Procurou-se, sobretudo no início, criar a ideia de que nós somos os bons e depois há os maus, os tontos, os idiotas, que são aqueles que estão a combater isto de outro modo. Tínhamos os suecos, que estavam numa espécie de erro da natureza. Depois tínhamos as questões do Trump e do Bolsonaro, que era uma espécie de bonecos aos quais se atirava todos os dias várias notícias, a dar conta da sua perfídia e quase da sua intenção de matar os seus povos, que não se tentava perceber um pouco mais. Não é, de modo algum, uma questão de oposição e de querer dar más notícias, é uma questão de quando as notícias só podem ser dadas de uma determinada abordagem. E hoje, por acaso, até que se assinala a invasão do Capitólio, temos aquela imagem extraordinária daquele homem com cornos na cabeça. Eu acho que aquele homem com cornos na cabeça também deve ter passado pela redação do Guardian, sendo certo que aquele homem presume ser republicano e de direita, e o Guardian, como sabemos, é um jornal de esquerda europeu. E, por exemplo, a 7 de dezembro, o Guardian dizia que ou se adotavam já restrições ou as mortes podem chegar às 6 mil por dia. 7 de dezembro. A 11 de dezembro, o mesmo Guardian.

Do ano passado, Helena. Não estamos a falar do primeiro ano da pandemia.

Estamos a falar da variante Ômicron. A 11 de dezembro, o mesmo Guardian dizia que a Inglaterra podia sofrer 75 mil mortes entre dezembro de 2021 e abril de 2022. O Guardian já vai explicar isto? O que lhes passou pela cabeça? Aliás, bastava ouvir os médicos sul-africanos, que se esforçavam imenso por dizer que realmente tinha uma transmissibilidade enorme, mas não parecia ter uma letalidade como estava a ser dito. Aliás, numa população que não está maioritariamente vacinada, porque a África do Sul não é apenas a questão de não ter uma taxa elevada de vacinação. Tem um outro problema, que é geográfico também, ou seja, tem zonas onde a vacinação é muito mais baixa versus outras zonas onde a vacinação é mais alta. E há outro tipo de questões a ter em conta. Custa-me muito que isto seja comparado a um jornalismo de guerra, porque Deus nos livre, se houvesse uma guerra que se informasse com esta parcialidade, com esta falta de objetividade. Porque isto quer dizer que independentemente da posição que nós tenhamos numa guerra, convém que sejamos muito realistas, porque não há coisa no mundo mais séria que uma guerra. Não há mesmo. E convém que se informe com verdade, porque senão o resultado pode ser uma amarguíssima desilusão. Esta é a primeira questão. Depois, eu acho que, sobretudo no início, na fase dos grandes confinamentos, nós sofremos todos de uma espécie de síndrome do chamado reality show pandêmico. Ou seja, pela primeira vez, nós tínhamos um fenômeno à escala global e todos nós éramos membros de uma coisa que parecia ser um Big Brother sanitário, ao contrário do outro Big Brother, onde nós supostamente não participamos por uma questão de imagem. Mas este era um Big Brother cultural, ficava bem. O que as pessoas contavam da sua vida nas redes sociais, e eu confesso que frequento muito pouco, aliás, nem tenho Twitter, só via no Facebook, percebia o que as pessoas expuseram ali a sua vidinha toda. E filmavam-se, e falavam, e contavam tudo. E isto depois era mediado por umas figuras, que era o poder jornalístico e muito particularmente as televisões. E depois chegamos àqueles momentos fabulosos em que, claro que sim, as pessoas tinham de ser presas por andar sem máscara, aqueles desgraçados que eram apanhados pelas autoridades, estavam no meio de uma praia sem máscara. E depois tudo isto era dito em estúdios de televisão, como nós sabemos, são espaços confinados, por jornalistas sem máscara e pelo menos um estúdio de televisão tem que ter o câmera, o homem do som.

Mais do que um.

Mais do que um. A não ser que já seja uma televisão muito pobrezinha que só esteja com uma câmera. Tudo isto era, a dada altura, parecia o Big Brother possível de cada um de nós e legitimado por uma espécie de participação num grande combate sanitário e não se perguntava nada. Havia uma chamada linha justa e as pessoas estavam dentro daquele casulo. Eu recuso muito a comparação com o jornalismo de guerra. Isto não é jornalismo de guerra, isto é um jornalismo que às vezes se faz durante as guerras, para mal dos povos que estão envolvidos nelas, que é uma versão simplista e simplificadora da realidade. Nós vemos isto ser aplicado muitas vezes em relação a outras coisas, aliás, temos percebido isso em relação a algumas eleições cujos resultados eleitorais os jornalistas não percebem Não percebem, porque eles já têm uma explicação para aquilo. E isto é uma das coisas que se tem vindo a acentuar. O jornalismo, que devia ser o trazer a realidade, parte muitas vezes já da redação com uma explicação para a realidade e depois com coisas que se os governos fazem, pelo menos as pessoas deviam pensar. Tem aqui sido referido a questão da vacinação das crianças. É curioso porque até há algum tempo, as pessoas que não queriam vacinar os filhos, sobretudo a França, que tem um largo tradição de rejeição de vacinas, aquilo era visto como uma coisa alternativa, e tudo que é alternativa é sempre apresentado como uma coisa muito boa.

Menos sexy.

E agora vale tudo. Eu vi umas imagens numa televisão, de uma reportagem na Madeira, que só me lembrava aquelas coisas dos pioneiros soviéticos. Era uma criancinha, que tinha sido vacinada, presumo, e depois punham um pin a dizer "sou agente de saúde pública", e a criança, coitada, depois lá devia dizer que era agente de saúde pública. Não há dúvidas sobre isto. É a mesma coisa que se nós quisermos, vemos ser muito aplicado neste momento, porque é um jornalismo também que se habituou a viver exatamente em ondas noticiosas. Nós temos, neste momento, ainda esta manhã, uma grande coisa nas televisões também, porque nós reduzimos o consumo, as nossas centrais a carvão fecharam. Nós estamos mais verdes. A verdura, de assim que se diz verde, neste momento, é uma coisa extraordinária. Aliás, a questão das próprias alterações climáticas são geralmente relatadas de uma forma muito infantil, valha a verdade. Qual energia mais verde? Nós estamos a comprar energia a Marrocos, produzida em centrais de carvão, a única coisa que acontece é que pagamos mais cara. E certamente, o rei de Marrocos fica contentíssimo com esta nossa questão. Não se problematiza, por exemplo, como neste momento o nuclear está a entrar a reboque disto. Eu recordo-me perfeitamente quando o etanol, que é um combustível produzido a partir de cana de açúcar, era apresentado como uma alternativa verde. Não é preciso ter estado no meio de uma plantação de açúcar para perceber o impacto que aquilo tem nos solos, no ambiente, o que aquilo implicava de desflorestação para se conseguir pôr a circular frotas de automóveis com etanol. Portanto, não é uma questão de ser de guerra ou de paz, é um jornalismo que se habituou ele mesmo a ser ativista. O jornalismo não tem de ser ativista. O jornalismo tem de dar notícias. Esta é a minha posição.

José Manuel Fernandes, o jornalismo ativista, a Helena Matos tem aqui falado deste jornalismo de narrativas simplistas e tu há pouco davas o exemplo de Timor. E se nós olharmos para a história do nosso jornalismo, não é preciso recuar muito, há estas causas que podem ser por ondas ou por circunstâncias. De que forma é que o jornalismo trata um jogo de futebol da seleção portuguesa?

Isso é melhor nem considerar. O jornalismo desportivo tem, às vezes, características muito... Subestima-se, por exemplo, a questão da idade das crianças, das substâncias que algumas delas tomam, de algumas mortes repentinas na prática de esporte, de competição. No caso de Timor, por exemplo, e independentemente todo o apoio que se desse ou não desse à causa de Timor, mas era importante, por exemplo, também investigar o poder da Igreja Católica em Timor, a questão de alguns daqueles partidos. Não se podem omitir factos, alguns deles, particularmente graves. É isto que me parece, é o não querer dar as notícias que nós não gostamos. Desculpa, José Manuel, ter interrompido. Mas essa parte do desporto é uma espécie de uma questão irritante de estimação.

Eu lembro de uma vez, não vou dizer qual é o jornal, nem a publicação, mas lembro que uma vez, numa história que tinha a ver com um grande clube, estar a dizer a um administrador desse jornal que no dia seguinte íamos ter, na altura eu trabalhava no Público, íamos ter uma manchete importante sobre esse clube. E ele olhou pra mim, ficou preocupado, porque não era normal uma publicação generalista bater uma publicação especializada, mas quando eu disse qual era o tema, tinha a ver não com jogadores de futebol, mas com casos de corrupção, ele disse: "Ah, pronto, OK, isso a gente não dá". E eram essas as regras do jogo. Toda a gente sabe que se derem certas notícias, deixam de entrar nas conferências de imprensa, deixam de poder entrevistar os jogadores. Mas aí é um ambiente mesmo, às vezes, claustrofóbico. Não é isso que estou a falar agora, porque aqui muitas vezes é diferente. Nós aqui estamos a falar de situações que nós quase que vivemos no princípio da pandemia. Eu recordo-me que no início, nas primeiras conferências de imprensa, havia limitações e foi necessário haver revolta contra isso. Aqui em Espanha aconteceu o mesmo. Houve até a altura em que eles tiveram que mudar completamente o regime, porque os jornais e as televisões estavam a se recusar a ser apenas pés de microfone, exigiam perguntas. Nós estivemos muito limitados durante muito tempo. Apesar de tudo, houve reação em relação a isso, mas eu estou a falar de quando nós vestimos a camisola, no fundo.

Por isso, se calhar, o caso de Timor é mais comparável?

O caso de Timor é mais comparável. Aí houve, deliberadamente, um envolvimento emocional dos órgãos de informação com aquilo que também era o envolvimento emocional da população. E não havia muita distância, estávamos todos, literalmente, naquela causa. Outros casos parecidos, muitas vezes não se contestam certas decisões que são consideradas consensos nacionais. As pessoas vão para o Panthéon, por exemplo. Hoje, não sei se são 10 anos, ou se não são 10 anos, são oito anos. Enfim, faz dois anos que foi o funeral do Eusébio. Era uma figura que ninguém contestava, ninguém punha em causa. Estamos a voltar ao desporto, mas se formos para a Amália, provavelmente acontece o mesmo. Eu recordo-me que coincidiu por acaso com Timor. A Amália morreu precisamente na altura de Timor e também foi um consenso absoluto. E não estou a dizer que não tenha que ser, mas há algumas alturas, por exemplo, é muito difícil, na altura em que alguém morre, haver, pelo menos na tradição portuguesa, eu acho que é um pouquinho diferente noutros países, obituários críticos, obituários que não sejam todos dizer: "Foi a melhor pessoa do mundo". Infelizmente, a pessoa já cá não está para ver, porque ela não é que ficaria contente, porque às vezes tudo aquilo que lhe fizeram na vida.

Mas o que é perturbante é que o consenso absoluto sucede a outro consenso absoluto. Em relação a Timor, nunca houve uma reflexão como é que em 1975 e 1976 e 1974 se deu, de facto, como o consenso era que Timor fazia parte da Indonésia. E nunca o jornalismo português refletiu sobre isso. Como é que, de facto, em 1975, 1976, o consenso absoluto era que Timor fazia parte da Indonésia. Aliás, fazia de tal forma parte da Indonésia que ficaram para além no Jamur, apareciam e tinham um coro que cantava tenebrosamente, pelo menos eu sou um pouco sensível às canções de Timor, e que apareciam nas coisas do MRPP muito frequentemente, ia lá o Dom Duarte Nuno fazer a passagem de ano com eles, e durante largos anos esse foi o nosso consenso. O nosso problema não é só, de vez em quando, termos uns atolambados consensos. É que nunca refletimos sobre como é que passamos de um consenso absoluto para outro consenso absoluto. E no caso do jornalismo, eu acho que às vezes essa reflexão seria necessária. Como é que se passou, no caso de Timor, de se considerar que Timor era, de facto, território indonésio, pois está claro que sim, pois não fazia sentido nenhum, Portugal não ia nada de minher Timor agora, pois que disparate. E depois, de repente, tornou-se uma obrigatoriedade para 10 milhões de portugueses. As pessoas já andavam, eu lembro perfeitamente, horrorizadas, se os ténis tinham sido feitos na Indonésia, se a camiseta vinha. De repente, já quase que nos tínhamos de andar a ver se tínhamos alguma coisa da Indonésia, se alguma vez tínhamos dito bem da Indonésia a propósito de outra coisa qualquer.

Chegaram a ser denunciados computadores na Assembleia da República que tinham discos rígidos feitos na Indonésia.

Pois, ou o facto do café, por exemplo, eu recordo a questão do café. Tudo isto, de repente, passa-se de um consenso para outro consenso. E isso sim, é muitíssimo perturbante. Esse é talvez um dos aspetos que eu considero que perturba mais na sociedade portuguesa, é que não se questiona como é que passamos de uma coisa para outra. Para além disso, temos também aqui uma questão com o jornalismo neste momento, que é, para lá das catástrofes que o mundo tem, e não são poucas, infelizmente, é um jornalismo que também se habituou muito a viver de anunciar catástrofes, que felizmente muitas vezes não se realizam, não se concretizam, em vez de dar conta da degradação do quotidiano dos povos. Assim que me lembro, nos últimos anos, nós já estivemos para morrer por causa da superpopulação, das chuvas ácidas. Ia ser também uma profunda coisa tenebrosa o bug do milênio. E agora, antes do Covid, nós estávamos nas alterações climáticas, que também nos ia completamente matar. E a dada altura, temos de pensar e a vida das pessoas nisto. O que é feito da vida das pessoas, que a vida das pessoas é difícil, é complicada. Até porque a globalização permite dar uma ideia dos factos a uma escala global, cria-se uma ideia de uma catástrofe global, estamos todos envolvidos. Entretanto a vida das pessoas está cada vez mais complicada ou em alguns casos mais complicada, noutros casos menos.

A reflexão está a ser feita aqui no Contracorrente e o Marcos Pinto, que é jornalista da TVI, já nos ligou. Marcos Pinto, bom dia.

Olá, bom dia, Carla. Bom dia, José Manuel, Helena, João e a todos os ouvintes da Rádio Observador. Bom, Carla, se nós estivéssemos no final de hora e se me dissesses qualquer coisa como: "Marcos, faltam 30 segundos, dá-me a tua opinião", eu diria apenas muito obrigado. Muito obrigado por terem aceitado esta discussão. Que maravilha, fico feliz. Muito obrigado. E se calhar é demasiado eu pedir-vos um novo Contracorrente sobre este assunto amanhã ou daqui a uma semana, mas se acharem que depois há uma altura em que esta endemia, eu já não lhe chamo pandemia, chamo-lhe endemia, nos der dias melhores, acho que vale a pena e se calhar envolver mais atores do nosso meio jornalístico para, de facto, refletirmos o que foram estes dias e estes meses. Porque de facto esta discussão merece mesmo uma forte reflexão sobre aquilo que nós queremos da nossa vida. Eu próprio confesso que fiquei muito em dúvida se era isto que eu queria continuar a fazer. E portanto, mais uma vez, muito obrigado, porque esta discussão deu-me aqui um ânimo para continuar a fazer o nosso trabalho, porque não é fácil, não tem sido fácil. Deixa-me partilhar convosco aquilo que sempre foi a minha perceção disto. Eu não estou a dizer que é certa ou errada, é apenas o meu ponto de vista. Na TVI 24, na altura, quando começou a pandemia, eu fazia as tardes da TVI 24 e caía-me sempre nas mãos o boletim diário da DGS, no início da pandemia.

E será um dilema enorme para um jornalista nesta altura que questiona a validade desse boletim, não é? Explica-nos, Marcos, interrompi-te, mas o que acontecia quando caía esse boletim?

O que acontecia é que eu via sempre a coisa de outra forma. E atenção, estamos a falar do início da pandemia, Carla. Eu começava sempre pelos casos recuperados. E eu achava que falar dos casos recuperados nas últimas 24 horas era uma forma de agradecer, não só aos enfermeiros e aos médicos que estavam a dar tudo nos hospitais por aqueles dias, como também para agradecer às pessoas que estavam em casa a fazer o seu papel. Mas atenção, eu não fugia aos dados, Carla. E obviamente aos óbitos registados nas últimas 24 horas e às novas infecções. Mas eu via a coisa de outra forma. E nós sempre vimos isto, e temos também estado a ver isto sempre do lado mais fatalista. Atenção, obviamente que isto mexeu muito com a vida das pessoas. Obviamente que houve vidas que foram desfeitas e famílias que ainda estão a sofrer. Tudo certo. Agora, da nossa parte do jornalismo, eu já não acho tão normal quando nós cavalgamos a onda e fazemos notificações para os telemóveis e para os aparelhos digitais a dizer: "Esta foi a pior segunda-feira desde o início de fevereiro." Como isso aconteceu muitas vezes. E fazer esta contabilidade pra ir à procura do lado mais trágico da questão, é muito complicado. E nós temos aqui uma função muito importante. Deixe-me partilhar convosco, eu estou a falar na qualidade de jornalista, é apenas a minha opinião pessoal. Eu pelo menos fiquei com essa percepção, não sei se vocês ficaram. No início de novembro, creio eu, ou final de outubro, o Pedro Simas, um dos virologistas mais conhecidos agora aí, disse que isto já não era uma pandemia, isto era uma endemia, e a Ômicron até vem ajudar a transformar isto numa endemia. Eu não sei o que aconteceu ao Pedro Simas, porque o Pedro Simas só agora no final do ano é que voltou a ter tempo de antena e a voltar a dar exatamente o mesmo. Ele houve ali uma altura em que desapareceu, porque ficava a ideia que só mesmo quem pintava a coisa de uma forma mais trágica é que parecia que tinha tempo de antena. Eu lembro-me também de um especialista, alguém confrontá-lo e dizer assim: "Nós precisamos destas medidas todas para evitar o pior dos cenários do Natal e Ano Novo, porque se não fizermos, isto vai ser uma tragédia." E alguém perguntou: "E se depois chegarmos no final e se confirmar que não foi? Pelo menos estávamos preparados." Dizia ele: "Bom, o que nós estamos a olhar agora? Estamos a olhar uma tendência que já vem dá muitos meses, que tem a ver com o número de óbitos, que tem a ver com o número de internamentos e que os cuidados intensivos e as enfermarias estão muito longe de atingir a sua capacidade." Acho que também é o nosso papel fazermos muitas perguntas. Por exemplo, perguntarmos aos líderes políticos: ainda se lembram quando vocês defenderam eleições legislativas para o próximo domingo? Fazer também perguntas, apesar de nós calhar termos respostas, mas calhar as pessoas lá em casa não conhecem bem a Constituição como nós podemos porventura conhecer. Mas por que fica a ideia que há uma DGS nos Açores, uma DGS na Madeira? O vírus é diferente nos Açores e na Madeira pra um isolamento de cinco dias, enquanto no continente é sete? Eu, por exemplo, se for para os Açores e acusar positivo lá, faço uma quarentena inferior do que eu faria se estivesse no continente. Eu acho que há muitas perguntas que nós temos que fazer, e aí concordo com muitas coisas que vocês já foram ditas. É uma questão de percepção. Vocês estão a apostar um serviço público, Rádio Observador, obrigado por esta discussão, porque nós temos, de facto, que contornar e acabar de vez com esta pandemia do medo. Outra coisa que eu também partilho convosco: a dada altura, as reuniões do Infarmed, como ontem, já não me surpreenderam, porque muitos daqueles especialistas que falavam nas reuniões do Infarmed já tinham falado nas televisões e nas rádios dias ou semanas antes, e não foi propriamente novo aquilo que nós ouvimos ontem. O briefing do Conselho de Ministros daqui a bocadinho, e vocês vão dar em direto, o que vem aí de surpreendente? Fica a ideia que as escolas poderão reabrir na segunda-feira, porque os especialistas foram preparando não só o governo, como também a percepção da opinião pública de que as escolas têm condições pra abrir na segunda-feira. Ou então os professores e os pais, os representantes, já vieram pra as televisões dizer: "Não, nós temos que abrir na segunda-feira." Acreditam mesmo que uma decisão contrária vai ser tomada? Eu tenho muitas dúvidas. Depois esta questão do isolamento, só mesmo pro final de conversa, Carla. Fica mesmo de facto aqui esta questão que é: nós neste início de ano fomos, ou queríamos ir ao teatro, ou queríamos ir a um restaurante. As pessoas não podiam sair do isolamento. Eu compreendo, votar é muito importante e estas eleições são provavelmente as eleições mais importantes, mas isto tem muito que se lhe diga. Depois já vi nas redes sociais uma questão, que eu, na minha opinião, acho interessante, que é esta questão do: "Então, mas espera aí, pra irmos ao cinema ou pra irmos ao teatro era preciso um teste negativo. E agora pra votar, como é que isto vai ser? Os que estão em isolamento vão votar de manhã, depois o resto das pessoas votam à tarde? É preciso um teste negativo pra ir votar?" Ouçam, isto de facto não é fácil. Os responsáveis, não é fácil. Agora, se tivéssemos todos muito mais calma, eu acho que todos, a começar pelos responsáveis políticos, nós jornalistas, se víssemos a coisa com mais calma e com mais critério, eu acho que tudo isto se fazia de uma forma mais tranquila, e é isso. Eu acho que o conhecimento científico ajuda-nos nesta altura. Eu estou em casa, a minha filha acusou positivo, eu estou a fazer a minha parte, o meu isolamento. Nada na vida acontece por acaso, porque se não estivesse a esta hora estaria a trabalhar e não estaria a ouvir o vosso programa.

Ainda bem. Houve aqui uma conjugação das estrelas. Marcos Pinto, obrigada. Muitas perguntas que aqui ficaram, por um jornalista que está também a questionar estas matérias nesta altura. Convidámos para o Contracorrente o investigador e professor de jornalismo do ISCSP, Paulo Martins. Ele é um dos autores do estudo "Jornalistas em tempo de pandemia: novas rotinas profissionais, novos desafios éticos." Paulo Martins, bom dia e obrigada por estar aqui conosco. Fez um inquérito a 890 jornalistas portugueses, relativamente a esta questão dos novos desafios éticos do estudo. Que conclusões é que saíram daqui?

Muito bom dia, obrigado pelo convite e pela nossa oportunidade de explicar um pouco a natureza deste estudo e depois ir mais às questões diretamente relacionadas com a problemática e a ética. O estudo é feito pela Rede Universitária de Estudos sobre Jornalistas, que inclui investigadores de várias universidades, Universidade de Lisboa, Universidade de Coimbra, do Minho e do Instituto de Ciências Sociais. Eu gostava de chamar a atenção para o fato de este estudo dizer respeito ao primeiro confinamento. Claro que podemos extrapolar algumas conclusões, podemos daí retirar algumas ideias sobre como é que os jornalistas percepcionaram o seu exercício profissional nesse momento, mas é preciso ter em conta que foi nesse período de 2020 que este estudo foi realizado.

E onde muito do jornalismo se fez em casa, em teletrabalho.

Pois, é uma das conclusões. Sintetizando um pouco as conclusões, é assim possível fazer, há muito mais trabalho no domicílio, teletrabalho, e, portanto, menos trabalho na redação, logo menos reportagem, menos contacto direto com as fontes, muitos jornalistas afetados por lay-off. E antes da questão sobre a qual vocês gostariam, naturalmente, que me pronunciasse, e é aquela que mais me sensibiliza, porque sou professor na área da ética jornalística e, portanto, parece-me mais interessante discutir, é que há indícios neste estudo de que os jornalistas baixaram rendimentos, de que a precarização aumentou imenso e não apenas entre os jovens. Por exemplo, 60% dos jornalistas com mais de 41 anos foram afetados por algum tipo de precarização e a percentagem de jornalistas que abriram a possibilidade de abandonar a profissão era já de 27% na sequência da declaração do estado de emergência. A questão ética que me parece que estava aqui em causa, sobretudo, o que o estudo deteta? Deteta que entre 10 valores jornalísticos que foram colocados no inquérito, como eventualmente tendo sido postos em causa durante o período da pandemia, o que esmagadoramente aparece referido por 80% dos inquiridos, é precisamente o rigor. Quando falamos de rigor, estamos a falar, por exemplo, da rejeição do sensacionalismo, da separação entre factos e opinião. Portanto, estamos a falar de um domínio que foi muito complexo durante este período. Eu gostaria de dizer que nós não podemos, evidentemente, tratar as questões éticas como se fossem um fenômeno à parte no jornalismo. As condições de exercício da profissão, por parte dos jornalistas, naquele período e agora, são terríveis, não apenas porque há uma precarização crescente, mas também porque, por exemplo, por causa do monotema pandemia, de que já falámos aqui hoje ou de que já vocês falaram, redações inteiras foram mobilizadas para trabalhar na pandemia. Em alguns casos, os jornalistas não tinham uma formação mínima para abordar estas questões. Depois, muitos jornalistas foram afetados por lay-off e as redações reduziram-se em grande parte. E, portanto, há aqui um conjunto de fatores que contribui para fenômenos preocupantes durante a cobertura da pandemia. Eu diria que há indícios, apesar de tudo, que os cidadãos reforçaram a sua confiança nos meios tradicionais.

Houve um consumo grande de informação e, falando ainda nesse primeiro confinamento, houve mesmo um grande consumo de informação e procurou-se essa informação nos órgãos de comunicação social e não nas redes sociais, por exemplo.

Eu não tenho a certeza de não se ter procurado nas redes sociais. Hoje as pessoas informam-se por outras vias e as redes sociais têm o bom e o mau, como todos sabemos. Mas de facto, os meios de comunicação convencionais, se quisermos, conseguiram recuperar um pouco a confiança dos cidadãos, até porque abriram os seus espaços, vários órgãos de comunicação optaram online por abrir totalmente as notícias sobre a pandemia. E, por exemplo, o Le Monde bateu recordes de circulação recentemente, como nunca tinha tido. Isso significa que a pandemia também ajudou a esse retorno à informação produzida por jornalistas, porque o problema, muitas vezes nas redes sociais, é que temos formatos aparentemente jornalísticos que não são produzidos por jornalistas e, portanto, não têm de obedecer aos mesmos deveres e não têm, naturalmente, também os mesmos direitos. Portanto, não têm a mesma grelha de apreciação, digamos assim.

Paulo Martins, mas pela perceção e de acordo com aquilo que os 890 jornalistas responderam no inquérito, houve desafios éticos diferentes nesta fase, até por todas as circunstâncias novas que todos nós atravessamos nessa altura?

O diferente se implicaria que tivéssemos feito um estudo anterior.

E não há nenhum fator de comparação.

É muito significativo que oito em cada 10 jornalistas identifiquem a problemática do rigor como sendo a mais sensível. Por exemplo, o segundo valor fundamental, que é o contacto com as fontes, é identificado por 47% dos jornalistas. Portanto, há aqui uma grande diferença. Agora, nós estamos a falar de um contexto muito complexo. Os jornalistas lidam mal com a dúvida.

Esse ponto é muito importante, os jornalistas lidam mal com a dúvida. Esse ponto eu acho que é um ponto muito importante, o facto de lidarmos mal com a dúvida. Lidarmos, de uma forma genérica

Exatamente! Os jornalistas lidam mal com a dúvida e por isso é que querem certezas. Eu costumava dizer, quando estava nas redações, que nós todos jornalistas, adorávamos aquilo a que eu chamava por brincadeira, o jornalismo matemático, que era aparecer um número. O número é uma coisa que garante fiabilidade. Ora, todos nós sabemos que basta torturar os números para eles darem razão a qualquer posição. Estatísticas dão para tudo. E portanto, num contexto em que os jornalistas precisam de certezas e em que os cientistas não lhes conseguem dar, porque naturalmente não há sustentação científica para se poderem fazer afirmações definitivas, parece que estamos todos a circular às escuras. E estamos, de facto, a circular às escuras ainda hoje. Agora, isso não desculpa algumas atitudes e algumas abordagens que os jornalistas fizeram ao longo deste tempo e que algumas já foram faladas aqui. Eu falava do rigor. Eu peço desculpa por recordar o que a Raquel Bacasis disse no princípio. Não é uma questão de concordância ou discordância, é de ela ter sido também involuntariamente, por certo, contagiada pela falta de rigor. Os jornalistas falaram muitas vezes em recolher obrigatório, que nunca existiu. Existiu o dever de recolhimento domiciliário.

Uma simplificação da linguagem tão perigosa.

Pois, é porque o recolher obrigatório é próprio de ditaduras e felizmente nós não estamos nesse ponto. Mas ninguém questionou. Eu perguntei a jornalistas a certa altura: "Mas por que falam em recolher obrigatório?" "Pô, porque é isso." Não, não é isso. Vai ver o papel, vai ver o que em concreto foi decidido. Portanto, o rigor da linguagem é fundamental, porque senão todos nós estamos a falar de realidades que não são exatamente as que coincidem com a realidade, efetivamente. Diga, Lia.

Queria mesmo encerrar, queria ainda deixar alguma ideia, Paulo Martins.

Não, eu só queria concordar um bocadinho tardiamente, porque foi para aí há uma hora que o José Manuel Fernandes disse isso, com o facto de os jornalistas em grande parte, terem feito um tratamento jornalístico deste fenômeno, que levou a que as pessoas se sentissem com medo e assustadas. Ou seja, a maneira como se abordaram as notícias ou como se fizeram reportagens, assustou as pessoas, de facto. O José Manuel Fernandes tem razão nisso. Reparem, muitas vezes o impacto não resulta de uma reportagem isolada, mas do conjunto. Quer dizer, quando se abriam telejornais com um desfile de lares de infectados, em que parece que os jornalistas disputavam quem é que tinha mais velhinhos infectados na sua reportagem, isto é criar medo nas pessoas, ou seja, é não ponderar o dano que se pode causar nas pessoas, nos cidadãos. E isso é uma questão ética fundamental. A outra questão, e não vou mais longe com isso, naturalmente, é a da dificuldade de tratar com o fenômeno do negacionismo. Ou seja, não podemos, de facto, considerar que tudo o que não coincide com a nossa posição ou com a posição oficial, é por natureza negacionista. Os antivacinas são negacionistas, mas há quem tenha posições diferentes sem ser negacionista. E eu custou-me muito ver, para concluir, uma vez que me está a pedir para ser mais rápido. Eu não gostei nada de ver jornalistas armados em polícias e pivôs de televisão a darem ralhetes às pessoas porque deviam ficar em casa ou porque deviam usar máscara. Não é esse o papel dos jornalistas.

Paulo Martins, muito obrigada por ter aqui também trazido essas conclusões do estudo e olharmos para questões éticas e deontológicas do jornalismo. A pressa tem a ver com uma questão, o Conselho de Ministros marcou o briefing, a habitual conferência de imprensa, para às 11h30. Ainda não começou, mas vamos acompanhar em direto o que sairá desse encontro do governo. Há expectativas em relação às medidas novas que podem sair e nomeadamente ao reinício das aulas na próxima segunda-feira. Vamos aqui na Rádio Observador acompanhar esse momento que ainda não começou e por isso vou chamar o Carlos Ferreira, que está em Castelo Branco, trabalha em hotelaria e já aguarda há bastante tempo para participar neste Contracorrente. Bom dia, Carlos Ferreira.

Olá, bom dia. Antes de mais, obrigado pela oportunidade e o tempo que esperei valeu a pena, porque concordei bastante com as duas pessoas que falaram antes de mim. Na minha opinião, sim, o jornalismo das más notícias alimentou-se bastante da pandemia e sobretudo tornou-se um jornalismo muito sensacionalista. Ou seja, este sensacionalismo, o drama, o medo, como referiram anteriormente, o exagero, são todos fatores que eu percebo que podem dar bastante audiências, mas não transmitem segurança para a população. Ou seja, um assunto que já por si é desconhecido, está constantemente a mudar, novas variantes, novas regras, não vem ajudar o fator da população. Nós ainda adicionarmos mais drama, mais sensacionalismo a este tema. Eu penso que o jornalismo tem um grande papel na sociedade, sem dúvida. E este jornalismo não deve alarmar a população, mas sinalizar estas questões e fundamentar em estas questões e refletirem sempre sobre as mesmas, não abusando deste sensacionalismo. E eu penso que é isso. Muito obrigado.

Nós é que agradecemos, Carlos Ferreira. Bom dia e obrigada. Alexandra Gomes está em Tomar, é empregada de escritório. Bom dia.

Obrigada pela oportunidade que dão para me deixar dar a minha opinião. Claramente, eu acho que houve um aproveitamento sensacionalista por parte de alguns órgãos de comunicação social

Perdemos o contato com Alexandra Gomes, que nos estava a ligar de Tomar. Vamos tentar restabelecer ainda essa ligação. Enquanto isso, João Miguel, vamos ler outras opiniões?

Vamos. Que estão a ser escritas nas redes sociais do Observador, nomeadamente no Facebook, onde estamos a transmitir em formato vídeo este Contracorrente dedicado ao jornalismo e à pandemia. O Ricardo Mota escreve que isto é uma guerra de narrativas, nada tem a ver com saúde. Já Ricardo Menezes considera que a obrigação dos jornalistas deveria ser questionar tudo o que está a acontecer e não colocar medo ao povo, escrito em letras garrafais. Rafael Pereira considera que o problema é que os jornalistas hoje em dia sabem tudo, são técnicos de saúde, epidemiologistas, ministros encartados. Enfim, apela Rafael Ferreira: "Informem e deixem-se de tentar ser o nós sabemos de tudo". Já Joana Reis escreve que o problema do jornalismo é ter deixado de ser imparcial em tudo, desde a pandemia à política. Os jornalistas, escreve esta leitora e ouvinte do Observador, não relatam só factos, opinam e dão palpites, alteram factos conforme os interesses. Estão a tornar o jornalismo numa rede social ampla e isso faz perder crédito.

Vai juntar-se agora a esta discussão no Contracorrente Isabel de Santiago, que é investigadora e especialista em comunicação em saúde. Isabel de Santiago, bom dia e obrigada por vir aqui ao Contracorrente. Bom ano também. Temos falado muito aqui. O jornalismo contribuiu para o melhor e para o pior, para a forma como se tem comunicado e encarado esta pandemia. Foi decisivo na forma como a população aderiu às medidas e se comportou. Isabel de Santiago, estava em linha.

Peço desculpa. A chamada caiu, mas não fiz nada pra que isso acontecesse.

Já cá está, deve ter sido aqui do nosso lado.

Muito obrigada.

Isabel Santiago, que balanço faz à influência que o jornalismo terá tido nestes dois anos de pandemia no país?

Em primeiro lugar, muito obrigada. Desejo a todos um bom ano e esperemos que, contrariamente ao que disse um investigador recentemente e que eu contrapus na Sic Notícias, que a data da pandemia não seja adivinhada por ele, mas que seja a real, sobretudo com a entrada de uma nova variante, que é a IHU, detectada muito recentemente, há dois dias, no sul de França, em Marselha. Eu e a revista Aprender do Instituto Politécnico de Portalegre publicamos recentemente. Curiosamente, convidou um conjunto de investigadores nestes domínios e convidou-me a fazer um artigo científico de revisão em torno destas matérias. Foi publicado agora no final do mês de dezembro, e o tema do meu artigo chama-se "A comunicação em tempo de pandemia: que determinantes sociais". Além deste, existe um outro, que também falarei sobre ele, que é a questão das rotinas jornalísticas como arma de combate contra as fake news. O caso da Agência Lusa pela Margarida Batista. Relativamente à parte que me toca, eu entendo, e houve dois meios que particularmente seguiram de uma forma muito rigorosa e idônea. Um dispensa apresentações porque é um bom jornal, que é o Público. Fez uma comunicação digital muito eficiente. Aliás, uma aluna minha pediu meu parecer pra um estudo que ela fez no ISCTE, relativamente a essa matéria, em que sai informação rigorosa, idônea e sem opinion makers. Porque aconteceu o seguinte, do meu ponto de vista, e depois uma outra rádio, que é aquela com quem eu estou a falar agora, e deixei de ouvir outras tantas. Tenho encontrado pessoas que falam sobre os temas de uma forma isenta sobre esta problemática. No que diz respeito aos jornalistas, eu compreendi, e falei isso no meu artigo, que se reflete menos em termos da comunicação em saúde pública, focando em três grandes públicos-alvo, que são, sem dúvida, em primeiro lugar, a questão pessoal, em que eu ressalvo a questão das crianças, jovens e velhos. Portanto, são as pessoas individualmente consideradas e que não têm os mesmos níveis de literacia que aquelas que estão a manusear as informações, por norma. Nem todos leem jornais, designadamente as crianças e os mais velhos que estão retirados nos seus mundos mais inativos, diria. Depois, a questão institucional, em que há uma grande manipulação por parte dos serviços de saúde no que se refere às questões do atendimento e à prestação. E nessa matéria, posso até desafiar-vos a passarem os olhos pelas conclusões deste artigo que eu faço. Há uma manipulação em relação aos jornalistas do regime, ou seja, aqueles que escrevem mais à esquerda ou mais à direita e que vão ao encontro daquilo que são as ideias-chaves que querem ser transmitidas por parte de determinados agentes, e eu falo concretamente mais do Ministério da Saúde, na pessoa que lidera este organismo, e menos, porventura, da própria Direção Geral de Saúde, que tem sido, e tenho falado muito sobre isso, ao longo deste processo, alvo de uma enorme manipulação. E dou-vos exemplo: ontem estava a ouvir, a propósito da reunião que aconteceu no Infarmed, a professora Raquel, que eu respeito muito, Duarte, que concorreu para ser diretora-geral de saúde e neste momento é uma porta-voz, literalmente, do ministério. Sucede que, independentemente das críticas que eu possa fazer, e faço muitas, do ponto de vista da comunicação à doutora Graça Freitas, é uma mulher que eu respeito muito, mas que tinha ao seu cargo e ao cargo do meu mestre, que foi alto comissário e diretor-geral de Saúde e que dispensa apresentações, que foi o professor Pereira Miguel. Foi a mulher que coordenou o Plano Nacional de Vacinação, o chamado PNV, que deixa um exemplo único. Obviamente que uma escala destas, tão grande, com os níveis tão grandes de infecciosidade como é a pandemia da SARS-CoV-2, causa a doença de Covid-19, era incontornável e necessitava de mais recursos humanos, e não aconteceu. E também aí houve uma grande manipulação. Finalmente, é a questão do público. O público em geral, as populações específicas que não conseguem aceder A notícias gerais, não têm televisões por cabo, não têm os nossos conhecimentos nas grandes cidades, designadamente Lisboa e Porto, e que foram reiteradamente desconhecidas. E houve um papel muito importante que tem sido reiteradamente ignorado, que é o jornalismo regional. São eles que comunicam com as pessoas. As rádios regionais têm um papel importantíssimo, mais idôneo, conhecem o nível de literacia e sabem qual é a sua audiência e o seu público-alvo, e tentaram desencriptar, obviamente, sem terem pessoas especialistas ou não especialistas. Depois existem também os arrivistas, assessores de imprensa que já foram jornalistas, que agora encontram o seu momento de glória, especialistas de estudo internacional que são alinhados com pessoas da família e da ministra. Isto tudo tem acontecido e eu tenho sinalizado. E por causa desta matéria, estava a ouvir há pouco na Rádio Observador, que é a minha rádio habitual, pela forma transparente e multidisciplinar como também faz a abordagem destas temáticas, e o Paulo Martins, entre outras coisas que eu concordo e outras sobre as quais discordo, fez um inquérito aos jornalistas. Eu estou a começar um novo, que vão envolver, além dos meus alunos na faculdade de medicina, alunos das universidades Lusíadas privadas de Lisboa e do Porto, o Instituto Politécnico de Portalegre, os institutos regionais, para saber qual é a sua opinião. Eles, jovens, no fundo, são os nossos embaixadores para o futuro, não são os velhos como eu. Qual é a sua opinião sobre o que falhou nas cinco vagas durante estas duas crises e como é que eles projetam a informação e a comunicação.

Será interessante conhecer depois essas conclusões. Isabel Santiago, muito se falou, nestes dois anos, das dificuldades de comunicação por parte das autoridades de saúde para as populações, para os diversos públicos. A questão é: será que o jornalismo se confundiu com esses canais institucionais e assumiu o papel que deveria ter sido tomado pelos canais institucionais?

Eu vou citar uma frase, que não é minha, é do senhor Jonas Savimbi, quando se referiu à embaixadora dos Estados Unidos, Margaret Ann Steed, nos acordos relacionados com a questão da Jamba, e que era "the political prostitution". Ou seja, houve aqui, sem obviamente ofender quem quer que seja, houve um interesse, uma prostituição política entre o interesse de ambas as partes. Primeiro, porque os agentes de saúde, designadamente o Ministério da Saúde, que tem a tutela da Direção Geral de Saúde, mas que não tutela enquanto a Autoridade Nacional de Saúde Pública, não tinha mecanismos e confundiu assessoria de imprensa, leia-se, assessoria de imprensa, com mecanismos de comunicação e saúde. São áreas completamente diferentes. Só para ter uma ideia, nós estamos a preparar um novo curso na Faculdade de Medicina de Lisboa, que atravessa as diferentes áreas, vai envolver desde um ex-primeiro-ministro aos professores especialistas de novas escolas. E portanto, ao assumir este papel, criou-se uma grande dificuldade, porque o jornalista informa pura e dura a informação que lhe é fornecida. Não tem que estabelecer uma comunicação ajustando a sua linguagem, que teoricamente é rigorosa, a um público com níveis de literacia diferentes. Ou seja, se eu tiver que comunicar, imagine uma notícia de rádio e um filho, que eu já não tenho dessas idades, vai comigo no carro e tem 10 anos e ouve-me ouvir a Rádio Observador ou outra qualquer regional no meio de Santarém, no meio de Trás-os-Montes, etc. Uma mensagem que não é compreendida por ele, ele ao ouvir aquilo, vai transmitir aquilo que captou. Agora, o que se passa é que o jornalista não tem e não deve ter esse papel. Eu estava há pouco a ouvir o Observador. Aguarda pelo briefing do Conselho de Ministros, e certamente seremos interrompidos por essa razão, e nessa matéria, o briefing que é feito pelo Conselho de Ministros tem que ser simplificado pelo jornalista para a maior universalidade. Mas existe ainda um papel mais redobrado por parte daquele que é o comunicador em saúde, e nós fazemos isso, que tão depressa a simplificação de uma mensagem não significa a sua banalização. E foi isto que infelizmente foi compreendido por parte destes agentes, que não consegue captar uma mensagem-chave e transmiti-la aos diferentes públicos-alvo.

Isabel Santiago, para não sermos atropelados pelo briefing do Conselho de Ministros, despeço-me já de si. Obrigada por ter participado também.

Muito obrigada.

Olhando aqui para a discussão que estamos a ter no Contra Corrente e já em jeito de reflexões finais, Helena Matos, há aqui vários problemas que parece que encontraram a tempestade perfeita. Esta promiscuidade entre jornalismo e outros poderes, que vai acontecendo às vezes, mas também uma classe jornalística que tem más condições de trabalho.

Sim, num processo de proletarização, que me parece ser evidente.

E que a torna mais frágil.

Muitíssimo mais frágil. Eu acho que nós hoje estamos com a chamada síndrome dos hipopótamos em África. Nós temos no Ocidente uma imagem extraordinariamente benévola dos hipopótamos. Acontece que os hipopótamos matam muito mais pessoas em África do que os crocodilos. E é um pouco isso que nós temos aqui. Nós só falávamos de Covid e, na verdade, o hipopótamo aqui podem ter sido outras coisas, como a degradação das condições de saúde das pessoas, a degradação das condições de trabalho. Eu lembro que no início da pandemia até vimos previsões que a economia ia crescer de uma maneira, uns diziam que ia crescer em U, outros diziam que ia crescer em L, outros crescer em zica. Nós temos um pouco esta questão. E o jornalismo português padece, até porque é muito frágil, muito reduzido, com larga proficiência destas coisas, o que os levou, por exemplo, a deixar escapar talvez uma das maiores histórias do século XX, não é? Que foi a chegada de quase 1 milhão de pessoas a Portugal, os chamados retornados, e eles rigorosamente, posso garanti-los, que em 1974, 75, nunca os entrevistavam. Iam, diziam da sua opinião, mas não os entrevistavam. Portanto, é um jornalismo que já parte muitas vezes da redação com a explicação para os factos. Curiosamente, o investigador João Paulo Martins coloca aqui uma questão que me parece ser essencial, que é a questão do rigor da linguagem. A linguagem, ela mesma, tornou-se eivada dos tais ativismos. Nós vemos neste momento a ser usado no jornalismo, não apenas em relação ao Covid, como aconteceu aquele termo negacionista, que me parece ser Até pela carga histórica que tem. Francamente, nunca imaginei. Acho que podias chamar-se errado, ignorante, o que se quisesse, mas negacionista é uma palavra que, até pelo contexto histórico que tem associado às pessoas que negaram os campos de concentração nazistas, parece-me errado. Não percebo como é que se usa esse termo num jornal, numa rádio, numa televisão. Não consigo perceber. Mas, por exemplo, se formos perguntar à maior parte dos jornalistas quando usam termos como afrodescendentes, o que isso quer dizer? Um afrodescendente é um negro que nasceu na Amadora, em Almada? Ou é, por exemplo, uma pessoa que nasceu em África e veio para Portugal nos anos 80 ou nos anos 70? O que isto quer dizer? Nós vemos sempre em relação às questões dos géneros, qualquer um de nós que já esteve num debate, numa televisão ou numa rádio, a certa altura vê os jornalistas a produzirem géneros. E se perguntarmos: "Desculpa, mas o que é que é isso desses géneros todos?" Olham para nós. A linguagem é sempre uma visão da realidade, mas aqui é uma visão ideológica da realidade. Temos essa questão. Depois, estamos agora à espera do Conselho de Ministros e enquanto estávamos à espera, a certa altura li em oráculo numa televisão: "Votar é mais seguro que ir ao supermercado". Ontem não era nada assim. Esta terá sido a frase proferida.

E daqui a pouco pode deixar de ser.

Por um senhor da Comissão Nacional de Eleições. É como se nós vivêssemos num romance da Agustina, em que os aforismos se seguem uns aos outros, mas aquilo que faz sentido no romance, que são aquelas verdades que só fazem sentido naquelas páginas, está a tornar-se na nossa vida. Acho que, sobretudo, nós precisamos de um jornalismo que dê notícias e que não seja uma caixa de ressonância do poder, dos ativismos vários. Nós precisamos desesperadamente de notícias.

José Manuel Fernandes, e agora esta reflexão vai ser feita, continua a ser feita pela classe, ou vamos caminhar para aquelas entidades reguladoras externas que os jornalistas não gostam nada, ou nada disto vai acontecer?

Eu acho que não está a ser feita grande reflexão pela classe, para ser franco. É um tema que tem sido um pouco tabu, de vez em quando há um debate ou outro. Eu julgo que já estive num debate na TVI, salvo erro, em que debatemos estes temas. Mas enfim, não era uma hora nobre, sequer era meio da tarde, mas estava lá, também estava, por exemplo, o Ricardo Costa. Acho que este é um debate que devia ser tido e assumido pelos jornalistas e, sobretudo, não devia ser deixado a entidades exteriores. Não creio que entidades como, por exemplo, a Entidade Reguladora de Comunicação Social, ou, enfim, aqui não há Comissão Nacional de Eleições, mas entidades como apenas...

A Comissão da Carteira às vezes intervém.

A Comissão da Carteira às vezes intervém, mas pouco. Mas a Comissão da Carteira, apesar de tudo, é uma entidade composta por jornalistas, se bem que alguns que estão em representação, não estejam já há muito a exercer o jornalismo. Eu não sou grande fã deste tipo de entidades, mas depois nós não temos nada muito mais. Há também o sindicato. Há a particularidade de neste setor só haver um sindicato, não é obrigatório, mas por acaso há um sindicato. Poderia haver outros organismos. Acho que apesar de tudo valia a pena. Até porque alguns dos problemas que se levantam chegaram a algumas destas entidades e envolveram-nas. É o caso, por exemplo, de uma publicação que é promovida por um jornalista com carteira, que é o Pedro Almeida Vieira, que a entidade reguladora não quer, aparentemente, reconhecer como sendo uma publicação jornalística. Não sei se é precisamente, é talvez por Pedro Almeida Vieira ser muito visto como um negacionista, é principalmente uma pessoa que tem contestado muito as linhas oficiais, eu acho que ele procura ser rigoroso naquilo que escreve, mas usa, por vezes, uma forma, sobretudo nas redes sociais, bastante direta, para dizer o mínimo, de expor os seus pontos de vista e isso tem criado muitos anticorpos. Mas eu acho que nós temos o dever de fazer isto. Eu costumo dizer uma frase da senhora Thatcher: ela não se importava de ser uma minoria de um. Isto é, ela sozinha contra o mundo. Há poucas pessoas com essa capacidade, com a capacidade de serem uma minoria de um. Mas se há uma das coisas que é importante na noção de liberdade, e eu julgo que isso vem desde John Stuart Mill, é que nós temos que respeitar as opiniões com que ninguém concorda, porque podem ser opiniões majoritárias no dia de amanhã. Nalguns casos, nós não estamos apenas perante opiniões, estamos perante falsificações. E aí há um trabalho de escrutínio que temos que fazer. Mas há outras matérias que são, no mínimo, mais de fronteira. E aquilo que disse há pouco o nosso convidado sobre os jornalistas terem dificuldade em lidar com a dúvida, é um dos pontos que eu também já tinha. Os jornalistas preferem uma verdade e não terem que lidar com situações em que essa verdade pode ser suscetível de discussão, pode haver várias interpretações. E uma das coisas que acontece é que o jornalismo tem, às vezes, dificuldade em entender a ciência, porque a ciência é dúvida. Há um ponto em que a ciência chega a factos.

Chamam-lhe evidências.

Evidências.

Menos absolutos do que factos.

A Terra dá a volta ao Sol. Mas nós não sabemos ainda exatamente, por exemplo, todos os elementos que fazem com que a Terra dá a volta ao Sol. De vez em quando vamos descobrindo coisas. Há muitos aspectos das previsões de Einstein que ainda estão sob escrutínio. Ou pelo menos estão à espera que cheguem as tais provas. A ciência só pode muitas vezes se considerar ciência quando há uma previsão e essa previsão se materializa. O que às vezes pode levar muito tempo. É pensar, por exemplo, na teoria da evolução do Darwin. A teoria da evolução do Darwin não pode fazer previsões que se materializem. Não pode dizer: "Isto vai evoluir naquele sentido". Não pode. E por isso é uma teoria científica que tem alguns problemas, e sobre a qual tem havido muita evolução na forma de interpretar. Às vezes é difícil nós, jornalistas, sobretudo com o tipo de formação que temos, que tem muito pouco a ver com ciência, muitas das vezes há pessoas que foram para jornalismo para fugir das áreas mais científicas, perceberem a dúvida e perceberem a necessidade de trabalhar com a dúvida, com várias teorias, com coisas que são contraditórias e que podem mudar com o tempo. Eu acho que isso é uma das coisas que nós devíamos aprender com esta pandemia, porque esta pandemia trouxe-nos, do lado da ciência, triunfos extraordinários. Acho que fazer a vacina no tempo que foi feito é extraordinário. A nova tecnologia do mRNA é uma tecnologia que vai, provavelmente, revolucionar o fabrico de medicamentos e uma quantidade de outras coisas, não é só vacinas, muito rapidamente e vamos transformar as coisas de uma forma muito rápida. A nova adaptação, por exemplo, da vacina aos novos vírus com o mRNA é muito fácil. Quer dizer, é relativamente fácil. Com a AstraZeneca, que é uma vacina mais tradicional, ou com a Johnson, que é uma vacina mais tradicional, levará muitíssimo mais tempo. Estamos perante uma avenida de conhecimento que nós nem vemos o fim, mas ao mesmo tempo que isto acontece, basta falarmos com três epidemiologistas para ser a mesma coisa que encontrarmos, antigamente dizia-se que três trotskistas têm três opiniões diferentes. Porque os modelos podem dar coisas, de facto, muito distintas. E uma das coisas que é difícil... Ontem, por exemplo, já não sei quem foi que apresentou três cenários. E o facto de haver três cenários é logo problemático. Qual é o cenário que nós hoje vamos escolher?

Qual é o título?

Qual é o título? A maior parte das pessoas foi para o mais pessimista. Já vi que os títulos foram quase todos para o cenário mais pessimista. O cenário mais otimista, que é sairmos disto tranquilamente, quase não mereceu atenção. Como disse, eu acho que isto tem a ver também com a natureza humana, que a pergunta que faz é: o que é que pode acontecer? Até é a pergunta que nós fazemos aos médicos. Fomos a um médico e ele diz: "Tem uma doença". "Está bem, e isso é grave? Quão grave é?" É humano. Atenção, não é só uma coisa que eu diga e de repente estão ali uns malfeitores que só gostam de coisas sensacionalistas. E também como eu contei, o próprio público não só pede isso, como pede mais. Pediu, lia, partilhava e comentava mais as más notícias do que as boas notícias. Mas, num momento como este que nós vivemos e continuamos a viver, isso tem consequências sociais, tem consequências políticas, no limite, sobre a forma como nós vivemos a pandemia e como vamos poder ultrapassá-la. E sobre isso, acho que temos todos que meditar um pouco e não deixar isso a entidades externas.

Deixa-me colocar uma questão agora muito comozinha, num minuto. Quando é que vamos parar de dar os boletins diários da DGS?

Olha, já várias vezes me coloquei essa dúvida. Como sabes, eu tenho passado o tempo todo aqui, praticamente desde o princípio, a dizer que nós precisamos de mais informação e de mais dados, mas há certas vezes que eu penso: "Mas será que não era melhor interromper aquele fluxo diário para não haver esta obsessão das 14:00, 15:00 de sair aquele número?" Eu acho que aqui é mais uma opção jornalística, porque eu vejo a imprensa internacional e não vejo que os boletins que eles também lá têm, tenham o mesmo tipo de destaque. Não quer dizer que não saiam. Eles saem, quer dizer que não sejam dados, eles são dados e há informação sobre eles, encontram-se, mas não têm o mesmo tipo de destaque. Quem quiser encontrá-los, vai a gráficos, aos sítios dos dados e está lá tudo, nos sites de informação. Não são, pelo menos na maior parte dos órgãos de informação, tão puxados como em Portugal puxa. E depois há um efeito, que é um efeito muito deste setor, que é o chamado efeito manada. Quando um dá, todos têm que dar. Tu já falaste disso há pouco numa pergunta que colocaste.

Ao Marcos Pinto, creio eu, ou à Raquel.

Marcos Pinto ou à Raquel, que colocaste essa questão, e que é difícil contrariar. Nós temos muita dificuldade em dizer: "Eu vou fazer diferente, eu não vou dar isto, eu vou fazer diferente". Eu não estou a defender, porque já pensei várias vezes sobre isso e nunca levantei o problema, com toda a franqueza. Nunca o discuti com o Miguel Pinheiro, que é o diretor executivo. Nunca disse: "Olha, quando é que a gente vai deixar de dar isto?" Porque não sinto ainda que, apesar de tudo, não é o problema maior. Talvez o problema maior é o que se destaca dali. Como, aliás, alguém colocava aqui a questão, o que eu vou destacar daqui. Se vou continuar a destacar, sobretudo, aquilo que assusta mais neste momento, que é o número de infectados, ou vou destacar algo de diferente

São decisões que se tomam todos os dias, a todo momento. José Manuel Fernandes e Helena Matos, está feito o Contracorrente sem ter começado o briefing do Conselho de Ministros. Em todo o caso, vamos acompanhá-lo quando começar o Contracorrente e até amanhã.

Pontualidade não é uma virtude de certeza.

É o único de certeza, de facto. Ao abrigo do direito de resposta, lemos na íntegra o texto de Pedro Almeida Vieira. Em 6 de janeiro passado, na rubrica Contracorrente, José Manuel Fernandes, publisher do Observador, teceu considerações mentirosas sobre mim e o jornal digital Página Um. Entre outras palavras, José Manuel Fernandes disse o seguinte: "É o caso, por exemplo, de uma publicação que é promovida por um jornalista com carteira, que é o Pedro Almeida Vieira, que a Entidade Reguladora para a Comunicação Social não quer aparentemente reconhecer como sendo uma publicação jornalística, precisamente porque ele é, ou talvez, não sei se é precisamente, é talvez, por Pedro Almeida Vieira ser muito visto como negacionista". Nunca o Página Um e eu, em particular, tivemos problemas no registo na Entidade Reguladora para a Comunicação Social. O pedido de registo do Página Um na ERC deu entrada a 5 de novembro de 2021 e foi naturalmente deferido a 11 de novembro, tendo o número 127661. Demorou seis dias. De igual modo, não tive qualquer problema para recuperar a carteira na Comissão da Carteira Profissional de Jornalista, a qual tinha suspendido a meu pedido em 2011. Fiz o pedido em 16 de setembro de 2021. Foi deferido em 30 de setembro. Demorou, portanto, 14 dias. Lamento profundamente que José Manuel Fernandes, que conhecerá o meu trabalho há mais de duas décadas, contribua para alimentar a peregrina ideia de eu ser um negacionista, mesmo que de forma velada, atribuindo a outros. Lamento profundamente que o publisher do Observador tenha descartado responsabilidade pela publicação, no passado dia 23 de dezembro, de um artigo que já fazia referências implícitas ao Página Um, classificando-o como um site de um negacionista da Covid-19. Lamento que o Página Um esteja a incomodar muitos jornalistas. E eu lamento-os, mas digo mais, vou continuar. Compreendo o nervosismo daqueles que nos últimos anos negam os princípios do jornalismo.

Eu sou José Manuel Fernandes, obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7 na Grande Lisboa ou 98.4 no Grande Porto.