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Recebemos Orlando Sá Moraes, especialista em Relações Internacionais, neste Gabinete de Guerra. E vamos começar pelo discurso do líder do Canadá. Carney falou hoje no Parlamento Europeu, depois de Ursula von der Leyen ter dito ontem, no discurso do Estado da União, que quer uma relação mais estreita com o Canadá, um membro associado da União Europeia. Hoje discursou o primeiro-ministro canadiano, falou em cooperação no desenvolvimento de capacidades estratégicas críticas, em cooperação em defesa e segurança e até na entrada no programa Erasmus. Mas Mark Carney quis também esclarecer que esta aliança, União Europeia-Canadá, não tem como objetivo propor um terceiro bloco rival entre as grandes potências mundiais. Donald Trump, numa reação já antes deste discurso de Carney, mas depois do anúncio de Ursula von der Leyen, anunciou sanções e disse que pode avançar com sanções contra a União Europeia e criticou também o Canadá enquanto parceiro comercial. Ora, Orlando Sá Moraes, a sua análise a esta ligação União Europeia-Canadá, e se, de facto, estamos aqui a assistir à criação de um terceiro bloco, como já foi apontado por várias figuras.
Boa tarde, muito obrigado pelo convite.
Boa tarde.
De certa forma, pode ser visto, à luz daquilo que tem sido discutido nos últimos tempos, deste revisionismo sobre a ordem mundial, a formação de um bloco, mas felizmente que eles não utilizam essa expressão, nem von der Leyen, nem Carney, porque de facto o entendimento é diferente. É de aproximar o Canadá, que é um país que tem características europeias na América e que, de facto, tem estado sob uma tensão permanente com os Estados Unidos, muito exagerada até nos últimos tempos, em que os Estados Unidos têm ameaçado, sobre alguns dos produtos que vêm do Canadá, impor tarifas, algumas de 50% sobre uma parte, e algumas dessas sobre até a parte da indústria automóvel, que seria muito para prejuízo da indústria que está integrada, porque no fundo, muitas das peças e dos componentes cruzam muitas vezes a fronteira entre o Canadá e os Estados Unidos, o que até tornaria todo o processo muito complexo. Ora, mas como disse, e bem, o que foi interessante em Carney foi dar continuidade àquilo que tinha sido o ponto forte do discurso de von der Leyen. No fundo, ele assume-se como um possível membro associado. Claro que ainda não foi definido estatutariamente muito bem o que isto significa, mas também não devemos ficar sempre presos às conceções do passado em todos os países têm que ser membros. E é natural que até por questões geográficas, não seja um membro de pleno direito, mas por que não encontrar, com alguma imaginação, uma forma de instigar a cooperação e os laços entre as tais potências médias, como até disse Carney, na altura que foi empossado primeiro-ministro, porque as potências médias têm alguma importância, são muitas vezes democracias e conseguem encontrar formas de gerar entre si fluxos positivos, ele até usa uma expressão interessante, de sementes de comércio e de progresso. Ele diz de sementes porque contou aquela história do pinhal que já foi transportado primeiro da Europa para o Canadá, mas que depois voltou a voltar para a Europa. Portanto, com o gesto de que as mesmas sementes que fazem crescer as árvores do Canadá, que eram vindas da Europa, agora estamos a retornar. Ele insiste muito nesta ideia de que não somos aliados dos bons tempos, do fair weather. Isto não é apenas quando as coisas correm bem, numa clara alusão aos Estados Unidos e a esta forma muito errática com que Donald Trump trata os amigos e os inimigos, mudando de opiniões muitas vezes. Claro que o Canadá não será um membro da União Europeia, não será o membro 28, mas muito menos e muito mais difícil para o Canadá seria aceitar uma posição de estado número 51 dos Estados Unidos. E por isso, ele foi lembrando a fronteira que tem com a Europa, através da Groenlândia, e, portanto, partilhamos a fronteira, de certa forma, com a Dinamarca, e que não devemos esperar a perfeição. Todas estas relações têm sempre a sua complexidade, mas a perfeição é o inimigo do bom, temos é que formar uma resiliência coletiva. E falou muito na possibilidade que temos de sermos complementares, porque de facto o Canadá pode dar à Europa, ser complementar no que diz respeito a muitos dos equipamentos que precisam de ser produzidos. Ele falou nas terras raras, na questão de ter uma dimensão tecnológica mais avançada nalguns pontos. Se calhar é verdade que a Europa também tem muito a dar, e ele até sugere, e onde até tivermos indústrias parecidas, onde houver sobreposição, podemos é ganhar escala. Ainda bem que estamos a fazer a mesma coisa, mas será sempre uma associação de complementaridade. É uma forma também da União Europeia sair de algum impasse. Nem sempre se pode expandir através do alargamento, que se sabia que por vezes podia atrasar algum processo de aprofundamento da União, porque países cada vez mais diferentes, também pode se tornar mais difícil chegarem a consensos e muitas vezes a votações que são necessárias por unanimidade. Por que não então criar um estatuto de associado, que também se chegou a pensar para a própria Ucrânia, devido à situação peculiar em que estava, mas que depois também não foi totalmente aceite. E como a sua pergunta induziu bem, porque isto em questões de defesa era bom que houvesse uma coordenação mais alargada. E aqui creio que von der Leyen até não lançou apenas o repto ao Canadá, mas também à Noruega e ao Reino Unido, e de forma indireta, se calhar, à Ucrânia, para termos uma resposta mais comum aos problemas que têm acontecido, circunstanciais a cada um dos países. Porque se for cada um dos países que tem o seu espaço aéreo infringido pela Rússia ou por algum agente desconhecido Por estarmos nesta zona cinzenta, nem conseguimos atribuir assim tão bem à Rússia. Mas estando sempre a sofrer estas intromissões, por vezes parecem atos ou de sabotagem, ou de desinformação, ou, no caso da Dinamarca, teve helicópteros praticamente atingidos por "very light" ou há "very lights" que foram na sua direção. Como a natureza destas ameaças é diferente, uma resposta rápida e unilateral de cada um dos países pode parecer muito fragmentada. E neste ponto, Von der Leyen tenta, no fundo, criar um mecanismo mais europeu, um conselho mais articulado de consulta.
Estamos aqui a perder a ligação com Orlando Sá Mois. Estávamos a ouvir esta análise também, esta ligação entre a União Europeia e o Canadá, uma ligação que foi ontem anunciada por Ursula von der Leyen, na constituição do Canadá como membro associado da União Europeia. Para concluir, Orlando Sá Mois, o que estava a dizer, creio que já temos condições de ouvir.
Certo. Creio que a nossa ligação ficou um bocadinho cortada, mas é um estatuto diferente o qual pode ser criado com vista a esta programação de um mecanismo de defesa mais conjunto para que os Estados não ajam de forma fragmentada, que muitas vezes pode ser até impulsionada por situações circunstanciais e a quem até terem uma resposta que não seja proporcional à ameaça. E, portanto, é bom que o Canadá una esforços nesta tentativa. Sabemos do ponto de vista do comércio, já havia acordos, que era o CETA, que foi, aliás, também citado por Carney. Continuamos a apostar mais no comércio livre do que nas tarifas, mas infelizmente os Estados Unidos têm tido uma política diferente e, portanto, mesmo este conjunto de potências médias europeias alargadas a países não membros, mas com os quais há algum enraizamento a nível dos seus valores, é uma forma de demonstrar à Rússia que também não estamos completamente parados, muito embora, de facto, também muitas destas iniciativas pareçam sempre ficar muito ao nível do mero papel escrito ou do discurso bonito, enfático, mas muitas vezes que não tem despoletado muita ação.
Vamos ver como corre na prática, efetivamente, esta ligação entre Canadá e União Europeia. Hoje o primeiro-ministro canadiano falou nessa ligação que quer para a União Europeia. Referiu nesse discurso a cooperação para algumas áreas, capacidades estratégicas críticas, como minerais raros, capacidades de defesa, de segurança e até a entrada no programa Erasmus.