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Ontem tivemos eleições e hoje o Contracorrente de José Manuel Fernandes tinha de ser sobre os resultados. Parece que queres falar sobre um país que descobriu que estava cheio de fascistas. É isso? Bom dia.
Bom dia. Acreditar em algumas pessoas, é isso. Quando ontem começaram a sair os resultados e ficou claro que íamos ter de esperar algumas horas, como tivemos, até saber quem ficava em segundo lugar, se era Ana Gomes, se era André Ventura, muitas pessoas ficaram próximas de uma espécie de apoplexia. No final da noite, acabou por ser Ana Gomes a ficar à frente, já todos sabemos, mas por pouco. E a verdade é que André Ventura teve quase meio milhão de votos. E meio milhão é muito. Só um louco é que pode achar que esse meio milhão de eleitores são todos fascistas e que estavam todos escondidos à espera de uma espécie de messias.
Também ninguém disse isso.
Ninguém disse isso dessa maneira, mas eu acho que disseram coisas parecidas. Acabámos de ouvir Marisa Matias, por exemplo, dizer que achava que a votação em André Ventura se justificava porque, como ela disse, a direita está em reconfiguração e muitos eleitores de direita votaram num candidato de extrema-direita. Eu às vezes devo dizer que não sei bem em que mundo é que esta senhora realmente vive, porque se olharmos para o mapa eleitoral, vamos imediatamente perceber que o que ela disse é uma completa enormidade. Basta pensar no seguinte: André Ventura ficou em segundo lugar em Beja, ficou em segundo lugar em Évora e em Portalegre, ou seja, em todo o Alentejo. Ora, o Alentejo foi uma região do país que sempre votou à esquerda e que muitas vezes votava comunista. André Ventura, nessa região, ganhou não só Ana Gomes, como sobretudo ganhou a João Ferreira. Ganhou com o quê? Com votos de uma direita que não existia? Não. Ganhou com votos de eleitores que antes votavam comunista ou socialista, como é óbvio.
Tens a certeza disso?
Não pode ser de outra forma, porque se formos ver com mais detalhe, e eu já tive esse cuidado, em alguns conselhos nunca os partidos de direita tiveram sequer tantos votos. Mais, quando olhamos melhor, vemos que em alguns distritos que habitualmente votavam de forma mais conservadora, como por exemplo Aveiro, Braga, Viana do Castelo, foi nesses distritos que Ventura perdeu, vejam lá, para Ana Gomes. Portanto, não foram os eleitores de direita que de repente começaram a votar na extrema-direita. Claro que houve alguns que fizeram isso, mas quem acha que foi isso que aconteceu, apenas, está muito enganado mesmo. Não está a perceber nada do que se está a passar.
José Manuel, mas tu não achas que ao ter quase 12% dos votos, Ventura mudou um bocado as regras do jogo?
Claro, é evidente que Ventura mudou as regras do jogo porque decidiu, por assim dizer, jogar o jogo de outra forma, com outras regras. O que ele fez? Ventura identificou os descontentes e falou para eles. Identificou os esquecidos e falou para eles. Identificou os que têm estado silenciados e resolveu falar deles, mas falar mesmo que seja a gritar. Por exemplo, eu também acho que é uma enorme cegueira política aquilo que Carlos César disse ontem à noite, quando disse que André Ventura é, por enquanto, uma ameaça maior para o PSD do que uma ameaça para o país. Isto é duas coisas ao mesmo tempo que estão erradas. Uma é a chamada pequena política e, por outro lado, é enfiar a cabeça na areia como fazem as avestruzes. É a pequena política, porque é o PS achar que consegue manter o PSD afastado do poder enquanto o Chega lhe roubar votos e, por assim dizer, o PSD não cresceu o suficiente para ameaçar o PS. É uma estratégia perigosa, porque foi uma estratégia que, por exemplo, foi seguida pelo PS francês para barrar o caminho à direita, mas que acabou por fazer desaparecer o PS francês. Dá para conversar muito sobre isso, mas é apenas um aviso. Depois, é enfiar a cabeça na areia, porque é não perceber que enquanto houver uma parte da população que se sentir esquecida e desprezada, haverá sempre oportunidade para André Venturas desta terra, chamem-se eles André Ventura ou outra coisa qualquer, aparecerem e prosperarem. Aliás, o que é verdadeiramente uma ameaça para o país são as políticas que levaram tanta gente a sentir-se excluída, esquecida, insegura, perdida e dar o voto a alguém que falou da maneira como André Ventura falou durante a campanha eleitoral. Portanto, são políticas que por um lado levam muitas pessoas a empobrecer, mas por outro lado, também levam muitas pessoas a sentir que há neste país muito favoritismo. André Ventura, no fundo, só fez aquilo que até agora ninguém tinha feito em Portugal.
José Manuel, mas tu não te espantas que mesmo depois de ele ter dito tantas coisas chocantes ao longo da campanha, e falaste algumas delas por aqui, ele tenha acabado por ter a votação que teve?
Não me espanto muito. De certa forma fico muito espantado, mas não me espanto muito. Eu achei que ele ia acalmar-se um bocado durante a campanha, que não ia continuar a fazer aquelas provocações, mas friamente, pensando um pouco, esqueci-me que para boa parte do seu eleitorado esse registo funciona. Isso é que é a verdade. Funcionou noutros países, não há razão para não funcionar cá. É um eleitorado que gosta de André Ventura, se revê em André Ventura, mas que passou a campanha eleitoral a ouvir André Ventura ser atacado, a ser menosprezado e, sobretudo, tem uma reação de cerco, uma reação de quem está cercado e nem sequer ouve os ataques, nem sequer ouve a racionalidade. E sobretudo, repara que é um eleitorado que passou a campanha eleitoral a ouvir duas candidatas defenderem que se devia proibir o partido de André Ventura. E talvez esteja na altura de perceber que fazer campanha pelo proibicionismo não funciona, porque as pessoas não entendem. Quer dizer, as pessoas dizem que são pela liberdade, mas depois defendem uma proibição. Em nome da liberdade, ameaçam. Isto pode recolher aplausos para Ana Gomes e para Maria da Matias na bolha de Lisboa, mas não passam disso mesmo, aplausos na bolha de Lisboa. Por exemplo, o sucesso que a história do vermelho em Belém teve na bolha de Lisboa, no fim do dia, Maria da Matias não beneficiou muito, porque teve um resultado literalmente catastrófico. Aliás, se nós olharmos bem, o Bloco sofreu uma derrota histórica e o PCP ficou perto disso. Só disfarçou, foi um pouquinho melhor, porque o resultado do João Ferreira é pouco melhor do que teve o PCP há quatro anos.
Ana Gomes, mesmo assim lá ficou à frente de André Ventura.
Ficou por muito pouco, como já disse, mas ficou. Agora, quem realmente derrotou André Ventura, eu acho que temos que ser claros sobre isso, quem derrotou André Ventura foi Marcelo Rebelo de Sousa, essa que é essa. Primeiro, porque o derrotou no debate que teve com ele na televisão e derrotou porque conseguiu chamar, mesmo assim, muita gente a votar, não só invitando uma segunda volta, é preciso ser claro sobre isto, como tendo uma boa votação. Não te esqueças que ele fez apelos ao voto muito fortes nos últimos dias de campanha, alertou para os riscos da segunda volta de uma forma muito clara e depois notou-se bem a satisfação com que fez o discurso de vitória, onde estavam lá todos os recados e direitinhos para o homem que só queria, como ele dizia, ser o presidente de uma parte dos portugueses. Quanto ao resto, só posso dar um conselho a algumas pessoas que fizeram aqueles discursos de ontem à noite. Deixem de ser avestruzes, desenterrem a cabeça da areia, olhem à vossa volta, olhem para os invisíveis, olhem para aqueles que na prática desconsideram e desprezam e vão ver que o problema não são os fascistas. O problema são os que veem fascistas em todo lado.
Rádio Observador, Braga 98.4.
José Manuel Fernandes com o Contracorrente desta manhã de segunda-feira, já daqui a instantes disponível no nosso site e nas plataformas de podcast para que o possa também partilhar. Agora 08h26, vamos receber o Miguel Pinheiro.
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