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Altura de conhecermos do que vai o José Manuel Fernandes falar no Contracorrente desta sexta-feira, dia 19 de junho. Para participar e nos dar a sua opinião em direto, depois do jornal das 10h, basta ligar para nós 910 002 41 85, ou então enviar-nos a sua mensagem de voz, o seu áudio pelo WhatsApp. O número é sempre o mesmo 910 002 41 85. Carla. O pacote laboral deverá passar hoje na Assembleia da República, depois de Luís Montenegro ter, ao que tudo indica, negociado uma aproximação com André Ventura, que passará pela introdução de várias alterações na especialidade. Será a segunda vez no espaço de uma semana que funciona no Parlamento a maioria de direita. A primeira foi a propósito da Prestação Social Única, o que levanta a questão de saber se o PSD, ou se preferirmos AD, está mesmo a privilegiar o Chega, tornando-o um parceiro preferencial e abandonando a opção pelo pisca-pisca, isto é, abandonando a opção de fazer ora acordos à direita, ora acordos à esquerda. A questão pode parecer central para se perceber a natureza deste governo e do próprio PSD de Montenegro, mas é duvidoso que esse mesmo PSD, que este fim de semana vai estar reunido em Congresso em Sangalhos, queira sequer discutir o tema. Mas nós queremos, e é disso que vamos falar no Contracorrente de hoje. Bom dia, José Manuel.

Bom dia.

O PSD está a mudar de natureza, como acusam até alguns comentadores?

Não creio. Se pensarmos no que foi o PSD ao longo da sua história, o PSD nunca foi um partido marcadamente ideológico, foi um partido do tipo, como se diz em inglês, catch-all party, ou seja, um partido que vai buscar gente muito diferente, gente mais centrista, gente mais de direita, gente mais velha, gente mais nova, gente de várias classes, um partido interclassista, um partido urbano e rural, sempre foi muita coisa ao mesmo tempo. De vez em quando, perde influência em alguns setores relevantes. Perdeu, por exemplo, durante o período da troica, entre os mais velhos, sobretudo entre os pensionistas. Noutras alturas, reconquista eleitorado. Nas últimas eleições, por exemplo, nas eleições mais recentes, recuperou terreno entre os mais novos. Mas independentemente disso, a verdade é que o partido é muito mais marcado pelas suas lideranças e pelos seus líderes, e mesmo esses líderes, por vezes, são difíceis de classificar do ponto de vista rigoroso, ideológico, se quisermos. Do ponto de vista do seu posicionamento, muitas das coisas que o PSD está a fazer hoje não são substancialmente distintas das que fez noutros momentos em que foi governo. O seu posicionamento em 2004 e 2011 relativamente, por exemplo, às prestações sociais sem condições, isto é, aos rendimentos mínimos, não é muito diferente daquele que está agora em discussão. A reforma laboral tem muitos aspetos que recuperam temas que tinham sido trazidos antes por anteriores líderes. Por exemplo, a memória das pessoas é sempre muito curta e na política ainda mais curta. Mas na proposta de revisão constitucional de 2010, há 16 anos, ainda era José Sócrates primeiro-ministro, era Pedro Passos Coelho líder. Nessa proposta de revisão constitucional, por exemplo, previa-se considerar que não podia haver despedimentos sem justa causa, era uma redação que devia sair da Constituição e ser substituída por outra menos rígida. Este é o partido que agora está a propor uma reforma laboral. Isto está dentro daquilo que é a natureza do partido, e vir dizer de repente que o partido deixou de ser social-democrata. Eu acho que social-democrata sempre foi uma designação equívoca no caso do PSD, que teve muito a ver com o nosso período revolucionário em termos de enquadramento internacional. O partido está na área da democracia cristã e de um conservadorismo suave. Não está no grupo dos sociais-democratas no Parlamento Europeu, por exemplo. Mas vir dizer isto numa altura em que o PSD, apesar de tudo, conversa com o Chega, mas continua a conversar com o PS, por exemplo, ainda na semana passada, para eleger os membros do Tribunal Constitucional, agora para eleger a futura Provedora de Justiça, conversa com o Partido Socialista. Eu acho que a coisa é mais complicada e, sobretudo, temos que pensar noutro aspeto, que é: os eleitorados também se mexem. E o eleitorado português mexeu-se, movimentou-se numa direção contrária à do Partido Socialista, movimentou-se mais pra direita e, portanto, é natural que peça políticas diferentes. Eu acho que também temos que meditar sobre isso e o que isso significa, e não apenas dizer, como muitas vezes se diz nos comentários, que os partidos estão fechados à esquerda ou fechados à direita, que ser um partido pisca-pisca não faz sentido. Eu acho que pode não fazer sentido por outras razões, a saber se esta forma de governar permite reformas minimamente consistentes e duradouras. Mas isso é outra discussão, não tem apenas a ver com a tática, que é aquilo que muitas vezes absorve os comentadores políticos, que têm menos prazer, diria eu, em olhar para aquilo que muitas vezes são as mudanças e evoluções estruturais da sociedade. E é esse tema que, de alguma forma, eu gostava que pudéssemos discutir um pouco depois das 10h, até porque a moção do líder Montenegro ao Congresso do PSD é poucochinho, como se costuma dizer. E no fundo, o que ela pretende é deixar o caminho aberto pra tática. E daí que não seja muito surpreendente que a tática domine também muito dos comentários sobre o que está passando na política.

Pois é, vamos discutir melhor depois das 10h. Até já, José Manuel.

Até já.