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É hora de conhecermos o tema do Contracorrente desta quarta-feira. Se quiser entrar em direto pra nos dar a sua opinião, basta ligar 91 002 41 85 ou então enviar-nos a sua mensagem de voz pelo WhatsApp. O número é sempre o mesmo: 91 002 41 85. Carla. Há pouco mais de um mês, o partido do presidente da Argentina, a Liberdade Avança, tinha perdido umas eleições locais em Buenos Aires e a expectativa ancorada nas sondagens era que os peronistas poderiam disputar taco a taco as legislativas intercalares do último domingo. Não foi isso que aconteceu. Javier Milei obteve uma vitória folgada, uma vitória que cria condições para que possa continuar a fazer avançar a sua agenda de reformas radicais. Se há um ano os primeiros resultados econômicos surpreenderam os que tinham profetizado o apocalipse no país das Pampas, agora estas eleições enviam um sinal que ultrapassa as fronteiras da Argentina. E é sobre isso que queremos falar no Contracorrente de hoje. José Manuel Bonadia, achas que Milei, agora com esta vitória, vai inspirar seguidores noutros países?
Bom dia, Carla. Acho que sim e não. Pode, porventura, inspirar, porque há a percepção de que se calhar aquilo que se julgou que é impossível fazer, se consegue fazer quando se governa com algumas condições, designadamente, ter dito o que se vinha antes das eleições, e Milei não fez nada. Se está a fazer alguma coisa, é menos do que aquilo que tinha dito que ia fazer em termos de disrupção. Depois, mesmo quando vêm resultados que podem contrariar as expectativas, manter o rumo à espera que aquilo em que se acredita dê resultado. E finalmente, algo que hoje em dia é cada vez mais raro nos políticos, que é fazer aquilo em que se acredita, governar de acordo com as suas convicções, que é também uma coisa que não acontece muito. E, portanto, não sei até que ponto é que isto se poderá, independentemente da receita particular da Argentina, que tem condições, também elas, muito particulares, e falaremos disso mais em detalhe no Contracorrente. Depois vale a pena recordar um pouco como é que a Argentina chegou ao estado em que estava, e que de alguma forma ainda está, e criou a possibilidade de haver um governante com as características de Javier Milei. Mas independentemente disso, há naturalmente muita gente a olhar pra experiência de Milei pra perceber até que ponto é possível introduzir reformas profundas num país, até que ponto reformas que vão no sentido da desregulação de um liberalismo que é mais do que o liberalismo clássico, é o chamado narcoliberalismo, podem funcionar, e também até que ponto há na América do Sul um efeito de, não direi de bola de neve, mas de imitação. E repare, naquela zona, entre aquilo que já aconteceu e aquilo que se espera que aconteça, está a haver mudanças políticas muito rápidas. Na semana passada, na Bolívia, acabaram 20 anos de rumo ao socialismo, que começaram com o presidente que era índio. Depois tivemos no Paraguai, no Peru e no Equador, também mudanças de orientação e, portanto, mais governos mais à direita. Não são exatamente iguais aos do Milei, atenção. A expectativa é que no próximo mês de dezembro, o candidato da esquerda no Chile, onde há um presidente de esquerda, a candidata da esquerda, neste caso, perca as eleições. Ela está atrás nas sondagens de dois candidatos do centro-direita e da direita. E o mesmo pode acontecer para o ano que vem na Colômbia. Portanto, há muitos países que estão a mudar. Eles tinham mudado em direção contrária nos últimos 20 anos. Agora o pêndulo estará a andar para o outro lado. E vamos ver até que ponto é que isto, independentemente daquilo que se possa passar em países que podem estar em direção contrária, como o Brasil, já não falando na Venezuela, porque não se sabe o que vai acontecer no dia seguinte, podem ser indicadores daquilo que também é de alguma forma inesperado, que é amigos de Trump estarem a ganhar na América Latina e Trump ter uma espécie de maior via verde ou mais possibilidades de ter na América Latina aliados, que era uma coisa que toda a gente diria que era impossível. E ter uma política pra América Latina, que já não será uma doutrina Monroe, que é uma coisa que vem do século XIX, mas uma nova doutrina que, neste caso concreto da América Latina, já não visa barrar a entrada dos europeus, visará, sobretudo, barrar a entrada dos chineses ou da influência da China, o que não se desliga da figura do secretário de Estado, Marco Rubio, que é alguém que conhece muito bem o continente. Portanto, há aqui muitos fatores diferentes, mas eu acho que, sobretudo, temos que olhar para onde é que as ideias de Milei podem ou não podem estar a funcionar e onde é que elas podem ou não podem ser contagiosas para outras economias e outras soluções de crise.
Com ou sem motosserra. Até já, José Manuel.
Com ou sem motosserra. Não, ele não deixou a motosserra em casa.
Vai, até já.
Levou pra Casa Rosada, que é o nome do palácio presidencial.
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