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Hoje no Contracorrente, José Manuel Fernandes diz que vem entre o divertido e o irritado. Então por quê? José Manuel, bom dia. Expliquemos lá.

Bom dia. Eu digo isto porque quando o disparate deixa de ter limites, eu nunca sei se é de rir ou se é de chorar. E digo isto por causa de um tweet que foi ontem publicado na conta oficial do Bloco de Esquerda. O tweet tinha uma imagem da Austrália, onde se mostravam as manchas das áreas ardidas. Devo dizer que a imagem era um pouquinho enganadora, porque dava a ideia que estava tudo a arder ao mesmo tempo e não se tratava bem das áreas que estão a arder, mas as áreas que arderam este ano. Mas adiante que isso, enfim, são detalhes. O principal era a mensagem do tweet. E a mensagem era: "Não é fogo, é capitalismo."

Como assim não é fogo? Então a Austrália não está a arder?

Claro que está. A Austrália infelizmente está a arder e aquilo que a imagem mostrava eram, no fundo, os traços do fogo, se quiseres, as cicatrizes do fogo. Mas para o Bloco de Esquerda, estes focos não existem porque o verão está a ser extremamente quente. Tem havido ventos ciclónicos, uma conjunção de fatores extremamente negativa. E que os focos existem porque existe capitalismo. São focos, digamos assim, com ideologia. Eu diria que só se estranha que as labaredas sejam vermelhas e amarelas, que são as cores do socialismo e do comunismo. Deviam ser talvez azuis ou verdes, não sei, qualquer outra coisa. Vermelhas é que não.

Mas eles não estão a referir-se ao fogo, estão a referir-se às causas do fogo.

Sim. E por isso é que eu digo que não me rio só. Se fosse só atribuir uma ideologia, a gente ficava aqui a contar anedotas e não íamos mais longe. Eu acho que o que o Bloco pretende é mais perigoso. No fundo, o que ele nos está a dizer é que se queremos combater o problema das alterações climáticas, temos é que acabar com o capitalismo. E de resto, há quem o diga preto no branco, nomeadamente algumas organizações ligadas ao Bloco. Ora, o capitalismo não é o problema, o capitalismo é e vai ter que ser a solução. É que só um sistema capaz de inventar, de inovar, como é o capitalismo, é que pode resolver o problema das alterações climáticas, como de resto já está a acontecer, porque se virmos alguns países capitalistas, dos mais avançados, é que estão a conseguir reduzir as emissões, estão alguns deles já a conseguir consumir menos, sem prejudicar o nível de vida. Pelo contrário, é bom não esquecer, se tivermos memória, saberemos que os maiores desastres ecológicos da história da humanidade, e não só, vou só lembrar alguns, foram sempre provocados por regimes socialistas. E vou só lembrar alguns. Foi na União Soviética que aconteceu o desastre de Chernobyl. E já agora aproveito e recomendo a quem não viu ainda, que não perca a série da HBO, que foi agora premiada e que é magnífica. E aprende-se muito sobre como é que esses temas eram tratados em regimes desse tipo. Foi também na União Soviética que a produção de algodão secou um mar inteiro, que era o mar de Aral, que é uma coisa completamente nunca vista. Foi na China comunista, isto foi no tempo de Mao Tsé-Tung, no tempo do Grande Salto em Frente, que houve uma campanha oficial para matar todos os pássaros. Uma campanha oficial, pensando que assim se salvavam as colheitas de arroz, se acabava com a fome. Portanto, uma loucura completa. E é a atual China, que continua a ser comunista, que emite o dobro, eu não me estou a enganar, é mesmo o dobro do CO₂ dos Estados Unidos. Portanto, o socialismo nunca resolveu os problemas, o socialismo sempre os agravou.

Mas mesmo assim, e agora olhando para os fogos da Austrália, eles estão a ser impressionantes. Há mil milhões de animais mortos, os coalas em risco de extinção.

Sim, infelizmente, os coalas estão em risco de extinção. Infelizmente, já estavam também. E estes fogos são uma catástrofe sem nome. São uma terrível catástrofe. Não servem para fazer ideologia. De resto, e há outra coisa, eles também não são os piores de sempre, como também já ouvi dizer. Este ano já arderam 6 mil milhões de hectares. Isto é uma barbaridade. Só para ter uma ideia, é 12 vezes mais do que ardeu em Portugal em 2017. Portanto, ficamos com uma ideia do que é. Agora, mesmo assim, no verão de 2002, 2003, arderam 21 mil milhões de hectares. Quer dizer, foi muito pior do que este ano. Há relatos do século XIX, portanto, antes das alterações climáticas, muito antes, de focos em que só de uma vez morreram 1 milhão de ovelhas, por exemplo. Em 1939, há 80 anos, num só grande fogo, foram consumidos 2 mil milhões de hectares quase só num dia. Portanto, a Austrália é uma das regiões do mundo como o Mediterrâneo e como, por exemplo, a Califórnia, em que há muitos grandes focos. Neste momento, há um problema, é que a Austrália é uma das regiões também do mundo que, precisamente por causa das alterações climáticas, as temperaturas parecem estar a subir mais depressa. Só que como sempre conheceu grandes fogos, não podemos dizer que eles vão desaparecer de um momento para o outro. De resto, eles já existiam mesmo quando ela era habitada só por aborígenes, porque muitos destes fogos, ao contrário do que acontece, por exemplo, na Europa, são provocados por relâmpagos. Por exemplo, os fogos de 2002, 2003, foi o que aconteceu. Portanto, eu acho é que os relâmpagos talvez não sejam capitalistas, digamos assim. A não ser que sejam como a água das barragens, como dizia a Catarina Martins, têm aquele problema de ser do Trump.

Pronto, agora já estás a brincar outra vez.

Pronto. Eu estou é um pouquinho para zanoviar, porque estes disparates do Bloco não só revelam ignorância, revelam má-fé, revelam, sobretudo, aquilo que eu acho que é uma agenda ideológica. Eu acho que temos de ter presente uma coisa muito clara: os militantes climáticos do Bloco não andam por aí em nome da ciência. Os militantes climáticos do Bloco, no fundo, não querem saber da ciência para nada, não querem saber do planeta para nada, querem é ter um pretexto para atacar o capitalismo, e isso ficou bem evidente no tweet de ontem, porque o tweet de ontem teve 100% de ideologia, 0% de ciência e 300% de ridículo.

José Manuel Fernandes e o Contracorrente da Rádio Observador. Se não ouviu desde o início, pode ouvir esta edição e todas em podcast e também no nosso site.

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