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José Manuel Fernandes, bom dia. Queres regressar no Contracorrente ao tema da censura e das liberdades. Dizes tu que também começamos a ter sinais de policiamento da ciência em Portugal?

Exatamente. Bom dia. Eu já tinha referido aqui muitas vezes essa espécie de onda de loucura que parece vir das universidades americanas, mas agora começamos a ter sinais descarados de que o mesmo tipo de fanatismo começa a chegar a Portugal. Eu lembro que no ano passado houve aquele caso, que foi um escândalo, da conferência do Jaime Garapinho que tinha sido cancelada, chegou a ser cancelada na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Eu devo dizer que eu já me interrogo se este ano ainda seria um escândalo. E digo isto porque esta semana li uma coisa inacreditável no Público.

E o que foi que leste?

O que li foi uma espécie de manifesto assinado por acadêmicos, em que, no essencial, se defendia que na universidade não se pode estudar o CHEGA. Na prática, só se pode condenar o CHEGA, e não estou a exagerar. Pessoas como Boaventura Sousa Santos, Fernando Rosas, Miguel Vale de Almeida, Diana Benavente, Irene Pimentel, mesmo Manuel Lof, eu só estou a citar alguns nomes mais conhecidos, assinaram um longo texto a atacar um colega deles, um colega do ISCTE, Riccardo Marci, que teve a ousadia de tentar perceber o CHEGA. Marci, eu julgo que é assim que se escreve, porque é um cientista político italiano, que há muitos anos que está em Portugal, em vez de falar de cor, passou um ano, passou pelo menos longos meses a estudar como é que o CHEGA se tinha transformado naquilo que hoje é, que é um fenómeno de popularidade. Em vez de ficar fechado no seu gabinete, ele foi pra rua, fez entrevistas ao líder, andou a falar com militantes, andou a falar com dirigentes, fez trabalho de campo, como se costuma dizer, e depois aplicou, como cientista político, as grelhas de leitura da ciência política. Não os dogmas, mas as grelhas de leitura, porque elas existem. O resultado não foi exatamente aquilo que talvez estivéssemos à espera e sobretudo não foi exatamente o que os nossos cientistas ativistas, a nossa extrema-esquerda universitária queria, por isso é que ela hoje quer, por assim dizer, silenciar Marci. Devo dizer que não tenho memória de nada semelhante de alguma vez ter acontecido em Portugal, sobretudo no Portugal democrático.

Mas disse que eles querem silenciá-lo. O texto não é mais para sinalizar a discordância?

Eu acho que seria legítimo se fosse debater com Riccardo Marci. Eu não li o livro dele, só li algumas entrevistas que ele deu, nomeadamente uma que deu ao Observador, mas deu outras. Suspeito que não estarei de acordo com todas as teses que ele defende. Estou curioso de ver melhor a argumentação, mas seja lá o que for, achei interessante e estimulante muitas das suas reflexões, sobretudo porque desafiam alguns lugares comuns, algumas ideias feitas sobre o que é o CHEGA, a sua composição, a forma como o partido está a crescer. Exatamente o contrário do manifesto, que basicamente afeta ideias feitas, lugares comuns, e para afirmar que de alguma forma eles são intocáveis. Ora bem, a ciência, na minha perspectiva, não deve ter programa, não se faz ciência para chegar a uma conclusão, pelo contrário, muitas vezes se faz ciência para desafiar conclusões e sobretudo não se deve fazer ciência para perseguir um objetivo político. Ora bem, este manifesto escreve-se, preto no branco, e isto depois de condenar uma suposta neutralidade científica, isto é escrito assim, defende-se uma espécie de programa político, e vou citar: "Ver para além das fachadas, relacionar, cotejar o que é dito e o que é feito, encontrar contradições, desocultar. Eis os desafios de um trabalho científico exigente e consciente da sua responsabilidade na construção de sociedades mais justas e igualitárias."

E não concordas?

Eu não posso concordar, porque não sei quem é que define o que é uma sociedade mais justa e igualitária, sobretudo quando penso, por exemplo, que Manuel Lof e Fernando Rosas têm uma ideia de sociedade justa e igualitária que é a sociedade comunista, porque uma é do PCP e a outra é do Bloco e nenhum deles os esconde. Eu imagino que eles, por exemplo, também não estejam de acordo com aquilo que eu idealizo como sociedade justa e igualitária. Portanto, não nos podemos pôr de acordo sobre isto. E não podemos fazer uma ciência com base na política. Eu não posso querer impor ciência em nome de sociedades ideais, sobretudo sociedades ideais definidas por comitês destes. Senão o resultado é termos estes professores só quererem ver as contradições do CHEGA, mas fecharem os olhos, por exemplo, a contradições do Bloco, contradições do PCP, que são os partidos deles. E isto dá em ciência militante, ciência ativista, que só admite um tipo de leitura da realidade, mas pelo visto já é um tipo de ciência e de cientistas que já perdeu a vergonha, e já perdeu a vergonha também em Portugal. No caso dos Estados Unidos, os estragos começam a ser neste momento muito grandes, porque já saíram para além das ciências sociais.

Muito grandes, imensos, nesse caso, em que sentido?

No sentido que se começa nalgumas áreas, e bem vastas, a caminhar para um tipo de dogmatismo Que pode levar a casos, julgo que nunca levarão ao limite, de casos tão graves como o famoso caso Lysenko dos anos 30 e 40 na União Soviética de Stalin. Stalin achava que a genética, vamos falar da genética, tão importante, não estava de acordo com a teoria marxista-leninista e por isso perseguiu durante décadas os geneticistas soviéticos. Quem quiser perceber qual é o impacto da política na ciência, é estudar o caso Lysenko para perceber bem. As consequências, como deves imaginar, foram trágicas para os cientistas e trágicas para o atraso científico na União Soviética. E trágicas também, diga-se de passagem, para a agricultura na União Soviética. Neste momento, nos Estados Unidos, já há linhas de investigação em estatística, por exemplo, em física, em biologia, em psicologia, que começam a ser descontinuadas por receio de contrariarem a ortodoxia que neste momento divide a sociedade, ou o povo que querem que divida a sociedade, em racistas e antirracistas. Portanto, tudo tem que ser arrumado nessas gavetas. E já houve papers retirados de revistas científicas com receio de que as suas conclusões, que ninguém punha em causa na metodologia, no rigor, não fossem vistas como suficientemente antirracistas. Nas ciências sociais, então não se fala, a ortodoxia é a regra. As faculdades estão transformadas em máquinas de reprodução dos mesmos dogmas. Quem desafina do coro perde financiamento, perde emprego, perde carreira, perde tudo. Aliás, nalguns casos, basta um simples tweet para bum, está tudo estragado. Neste aspeto, as coisas começam a não ser muito diferentes em Portugal. Ricardo Marques é italiano e talvez por isso é que ele tenha a coragem ou a ousadia de sair do rebanho. Mas aquilo que eu gostava, já devo dizer, era de ver um dos seus críticos, ou mais do que um, se possível, a pegar nas suas tamanquinhas, ir para o terreno e tratar de responder à mesma questão que inquietou Ricardo Marques, que é: como é que o Chega passou de 700 militantes para 10 mil em apenas um ano? Isso é que era interessante, só que isso dá muito trabalho, mas mesmo muito trabalho.

José Manuel Fernandes no "Contra-Corrente" da Rádio Observador. Amanhã há nova edição aqui na sua rádio, online e sempre em podcast.

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