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José Manuel Fernandes quer hoje dedicar o seu contracorrente a um ministro que tinha andado muito calado, mas que ontem quebrou o silêncio.

Bom dia.

Bom dia.

Que antes não tivesse quebrado. Eu estou a referir-me a Pedro Nuno Santos. Aliás, nem sei se é para se lhe chamar assim. Ou se lhe hei de chamar antes Pedro Nuno Santos, tremem as pernas dos banqueiros, Santos. Como te recordas, o Pedro Nuno é agora Ministro das Infraestruturas, é o líder do pedronunismo. O nosso país de facto é tão pequenino que até já temos um pedronunismo, mas foi aquele dirigente do PS que um dia disse que todos os nossos problemas se resolviam se não pagássemos as dívidas. Nesse dia, explicou ele, até as pernas dos banqueiros alemães haviam de tremer. Agora isso já mudou. Agora ele usa gravatas, já não se dá aos mesmos excessos, mas não perde uma oportunidade para o disparate. E ontem eu diria que foi dia de disparate.

Então diz lá onde é que achas que ele esteve mal.

Ontem houve uma comissão parlamentar e ele foi falar sobre a TAP. Eu até nem sei bem por onde hei de começar, porque houve várias coisas que ele disse e ontem esteve bastante mal. Mas vou começar por uma frase onde eu diria que está tudo errado da primeira à última palavra. A frase é a seguinte: "Se é o povo português que paga, é bom que seja o povo a mandar." Primeiro ponto: o povo português paga o quê? Para já não paga nada, porque aquilo que a TAP pediu não foi nenhum pagamento. A TAP pediu que o Estado português fizesse o mesmo que tem vindo a fazer os Estados por essa Europa fora, aliás, por esse mundo todo, que é garantir o empréstimo da TAP. Para a TAP conseguir levantar dinheiro. A Finlândia já fez isso, a Suécia fez isso, a Noruega fez isso, a Alemanha está a negociar para fazer o mesmo. Portanto, nada aqui de levantar dinheiro, é apenas garantir o empréstimo. Não há aqui nenhum dinheiro do povo português neste momento. Depois, vamos supor que hipoteticamente o empréstimo corria mal, eu diria, não sei se esse dinheiro seria dinheiro do povo. Acho que mais depressa seria dinheiro da União Europeia, porque neste momento Portugal está de mão estendida na União Europeia, porque se não vem dinheiro da Europeia, nós estaremos bem aflitos. Finalmente, há uma coisa que eu acho que dizer que era o povo a mandar, é uma falácia, porque eu acho que o povo nunca mandou nas empresas nacionalizadas.

Não, mandavam os governos.

Na prática, mandavam mais depressa os partidos. Na TAP, eu próprio vi uma vez, como costumo dizer, com estes ouvidos que a terra há de comer, um administrador a dar ordens aos gritos no hall de um hotel para cederem numa negociação sindical, porque não queria greves nem problemas, porque nesse ano havia eleições, e ele não queria problemas para o PS e portanto era bom ceder aos sindicatos. Bem, devo dizer que ouvi eu, ouviram mais uns quantos jornalistas que nem queriam acreditar no que estavam a ouvir. Mas adiante, isto já são águas passadas, já foi há muitos anos.

Já foi. E entretanto disseste que havia mais frases que querias comentar.

Sim, havia. Uma delas, quase logo a abrir a audição parlamentar, foi, eu diria, de um mau gosto absoluto. Para Pedro Nuno Santos, e cito: "A música agora é outra na TAP." De facto. Mas a música agora é outra e por quê? A TAP fez alguma coisa de mal para ter os aviões quase todos em terra? Não foi o vírus que acabou com as viagens? Não foram os governos que proibiram a maioria dos voos, que fecharam as fronteiras, que fecharam os aeroportos? Vamos lá ver. A TAP está em dificuldades e isso é um problema para a companhia, sem dúvida, mas também é para os trabalhadores e também é para o país. Quer dizer, a obrigação do governo é fazer o que estão a fazer os governos em todo o mundo, que primeiro é ajudar a empresa a sobreviver, é ver como podem garantir a maioria dos postos de trabalho, é ver também se conseguem ajudar a TAP, neste caso concreto, a manter as quotas de mercado quando recomeçar a atividade. Mas aparentemente para Pedro Nuno Santos isso não é importante e as dificuldades da TAP são antes uma oportunidade, eu diria, de desforra, para não dizer mesmo de vingança. Ele olha para os sócios da TAP não como parceiros, mas como adversários. E agora que eles estão em dificuldades, que eles digamos assim, estão embaixo, estão no chão, ele faz um pouco como os pugilistas traiçoeiros. Tenta dar-lhes nas partes baixas. A música é outra. Isto não é só má criação e arrogância, eu diria que no mínimo é ser pouco leal.

Mas José Manuel, ele nunca escondeu as críticas à gestão da TAP.

É verdade, e ontem voltou a repetir e volto a citar: "A TAP não estava a ser bem gerida antes do Covid." Eu de facto gostava de vê-lo lá e vê-la gerir melhor. Eu vou só recordar algumas coisas. Entre 2015 e 2019, que é quando esta gestão lá está, a TAP passou de 75 para 105 aviões. Mais 30. De 110 para 135 mil voos por ano. O número de passageiros passou de 10 milhões para 17 milhões, também por ano. Contratou mais 2 mil trabalhadores, sendo que desses 2 mil, 600 são pilotos. Passou a voar para mais 14 destinos. Quase duplicou o índice de satisfação dos clientes. Eu não sei se isto é má gestão. Claro que a TAP tinha uma dívida elevada. Não podia deixar de ter, quer dizer, está a renovar a frota quase toda, está a comprar aviões novos. Isso não se faz sem dinheiro. Mas aquilo que é importante são os resultados operacionais. O resultado do exercício ano a ano não tem comparação com os resultados de 2015. E são esses que estão a pagar a dívida.

Mas Pedro Nuno Santos não deve ter desistido ainda do sonho de nacionalizar a TAP.

Pois, ele não desistiu de certeza, mas há uma coisa que ele esquece. Como eu disse, o dinheiro que ele diz que é do povo e que no fim do dia é da União Europeia, quer dizer que no final do dia também vai ser a União Europeia a ditar as regras. E como eu disse, esta crise foi aberta como uma exceção. E essa exceção é para todos os Estados e todos os Estados estão a salvar as suas companhias aéreas. Mas este vai ser um parêntesis que vai fechar-se. Quando esse parêntesis se fechar, quando a situação se regularizar, vão regressar as regras da concorrência. E nessa altura, eu suspeito que o pedronunismo vai ficar muito, mas muito depressa fora de moda. Aquilo que eu espero, e espero sinceramente, é que pelo caminho, esse pedronunismo não dê cabo da TAP.

"Contracorrente" na Rádio Observador com José Manuel Fernandes, à conversa com Carla Jorge Carvalho.

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