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Muito bom dia. A eleição de que mais se falou e de que provavelmente se continuará a falar foi de Zoran Mamdani, um muçulmano que pertence à ala mais à esquerda, a ala socialista do Partido Democrata, e que será o próximo mayor de Nova York. Mas se este político de 34 anos ganhou uma cidade que vota por regra nos democratas, na Virgínia e em New Jersey, dois estados politicamente mais oscilantes, ganharam duas mulheres, ambas democratas, mas mais moderadas. O que nos dizem estes resultados e o que nos indicam sobre o futuro político da América? José Manuel Fernandes, bom dia.

Bom dia.

Oi. Trump, podemos dizer, está a perder gás na América?

Há indicações que sim, Trump e o Partido Republicano, mas estas eleições são eleições especiais, que são apenas um sinal e que muitas vezes é contrariado nas eleições que vão ocorrer daqui por um ano e, sobretudo, muitas vezes também nas eleições que ocorrem daqui por três anos. O que eu quero dizer com isto para as pessoas perceberem? Os Estados Unidos, ao contrário do que acontece na maior parte do mundo, têm eleições em data certa, primeira terça-feira de novembro. Não sei se foi sempre na primeira terça-feira de novembro, acho que a princípio ainda era em outra data, mas é assim há 250 anos. Eles vão fazer 250 anos agora para o ano que vem.

Que era pra dar tempo às pessoas para chegarem à mesa de voto.

Não, isto é a distância também. É um dia certo, as pessoas sabem quando é que é, mas isso é a distância entre a eleição e a tomada de posse. A eleição é em novembro, no caso do presidente, a tomada de posse depois é só em janeiro. Questão aqui muito importante: de dois em dois anos elege-se toda a Câmara dos Representantes, o equivalente à nossa Assembleia da República. Dois em dois anos, sempre. Depois de dois em dois anos, renova-se um terço dos senadores, o Senado. Nós não temos nada equivalente no nosso regime português. E depois ainda há umas eleições e mais uma quantidade de outras coisas, e depois só de quatro em quatro anos é que é o presidente, novamente a Câmara dos Representantes toda, novamente um terço do Senado. Portanto, as coisas não batem certas umas com as outras e isso é prepositado no sentido de não haver um momento em que alguém ganha tudo e fica com o poder todo. Foi assim desenhado há 250 anos e continua a funcionar assim. E por isso é que eu sempre vejo com um grão de sal, como costumo dizer, grano salis, aquela ideia de que Trump ganhou, vem aí o fascismo. Calma lá. Primeiro: a principal preocupação dos pais fundadores nos Estados Unidos sempre foi limitar o poder executivo e dividir o poder para que, mesmo limitando, não houvesse um momento em que houvesse muito poder concentrado. E portanto, nesse ponto de vista, as eleições de ontem, que não são as eleições intercalares, as tais de dois em dois anos, são algumas eleições que não batem certo com estas e que também ocorrem na primeira terça-feira de novembro, foram, no caso de Nova York, para a Câmara de Nova York, no caso da Virgínia e New Jersey, para os governadores e não só, porque havia outros lugares também em jogo. E depois ainda houve um referendo na Califórnia importante e várias outras eleições menores na Geórgia e na Pensilvânia, várias outras eleições. E todas elas, primeiro aspecto, são eleições que ainda têm menos participação que as eleições intercalares e estas têm menos participação que o ano em que há eleições presidenciais. Para se ter uma ideia, a eleição de Nova York foi a eleição mais participada de que há memória nas últimas décadas, mas só votaram 40% dos eleitores. E mesmo assim foram hiperparticipadas. Votaram quase o dobro do que tinham votado nas últimas. É uma eleição onde vale muito a mobilização, a motivação dos eleitores. Por isso é que há aqui sinais, e já vou lá a eles, sinais importantes, sinais que são sobretudo importantes se pensarmos que a coligação, como se diz nos Estados Unidos, que elegeu Trump, pode estar em crise, mas não há aqui um sinal definitivo. Há outra coisa que é óbvia: a prova de que este princípio da divisão de poderes e do equilíbrio de poderes, que não é só a divisão entre poderes executivo, legislativo e judicial, é também no executivo não haver demasiado. E repare, o presidente da câmara é um poder executivo, o governador é um poder executivo. Portanto, haver esta repartição não desapareceu nos Estados Unidos de repente, aquilo não é, como alguns dizem, aquilo agora é o rei Trump e é uma monarquia republicana presidida pelo Trump. Não é exatamente assim. O que não quer dizer que não haja alguns sinais de preocupação, que são outras coisas. Relativamente ao que aconteceu ontem. O que aconteceu ontem dá-nos várias indicações. E eu vou deixar ficar Mamdani pro fim, porque é o mais juicy, o mais saboroso, o mais suculento. Primeira indicação, e que é uma indicação que eu próprio, como pessoa que vou seguindo esses assuntos, vejo mais uma vez com um grão de sal. Referendo na Califórnia. O que estava em causa? O que estava em causa no referendo na Califórnia foi um governador, que é Newsom, que é o governador que mais se tem oposto a Trump e é uma figura do Partido Democrata que está a emergir como um possível presidenciável Propunha acabar com os círculos. Na América, a eleição para a Câmara dos Representantes é proporcional, mas proporcional em termos do número de representantes por cada estado, mas depois maioritária no sentido de em cada círculo só elege um e elege à primeira volta. É como o Reino Unido, como Inglaterra. Ora bem, o que acontece muito nos Estados Unidos é que tu podes desenhar os círculos de forma a beneficiar ou prejudicar os partidos. Como é que isto se faz? Como o sistema é majoritário, faz-se de forma a que o partido adversário desperdice muitos votos. Como é que isso se consegue? Como basta ter uma maioria de um, se eu de repente tiver uma maioria de 5 mil, tenho 4900 que são votos desperdiçados. Portanto, se eu concentrar os votos num círculo, consigo isso. Por outro lado, se no meu partido eu garantir que eles ganham muitos círculos por margens pequenas, estou a desperdiçar poucos votos e a fazer com que o adversário nesses círculos tenha muitos votos desperdiçados porque não elegem ninguém. Isto começou há muito tempo. Julgo eu, não me queria aqui enganar, mas julgo que isto começou em 1812. A primeira vez que isto foi feito. Foi em 1812, em Boston, portanto Massachusetts, por um governador chamado Elbridge Gerry, daí a ideia de Gerrymandering. Gerry é a primeira parte da palavra. Qual é a segunda parte da palavra? Mandering. Mandering vem de salamandra, em inglês. E foi aquilo que na altura viu, porque as salamandras, por acaso ainda ontem vi uma lá perto da minha casa, estava a passear e vi uma salamandra, com a chuva elas aparecem logo todas. As salamandras são aqueles bichos que são pretos com umas manchas amarelas.

Ou laranjas.

As manchas são um pouquinho caóticas. E o que ele fez, na altura, este senhor, este governador, foi desenhar os círculos de Massachusetts de forma que elas eram umas manchas esquisitas e cujo objetivo basicamente era arrebanhar os eleitores da forma mais favorável ao seu partido. Isto na altura os partidos eram diferentes, aquilo era uma coisa que se chamava, na altura, Partido Republicano Democrático, portanto ele conjuntava os dois nomes atuais. Mas repara, isto passou-se há mais de dois séculos e nunca deixou de ser feito. Nunca deixou de ser feito. A Califórnia.

No Texas.

Exatamente.

Pelos republicanos.

Exatamente. Foi feito no Texas pelos republicanos para irem buscar mais cinco representantes, que as eleições são para o ano, Câmara dos Representantes, e havia na Califórnia uma regra que era quem desenhava os círculos era uma comissão independente e, portanto, não era determinado por este tipo de jogos. E o que eles fizeram ontem foi dizer assim: “Acabou-se, se o Texas faz, nós também fazemos.” Isto eu diria que não é a coisa mais entusiasmante para quem gosta de regras democráticas, mas percebe-se a lógica e isto também fez do governador da Califórnia uma espécie de herói para o Partido Democrata, porque já estão a dizer: “Ele salvou-nos as midterms, as eleições intercalares, porque nós provavelmente com o que tinham feito no Texas, com o que vai acontecer noutros sítios,” e agora, de repente, está toda a gente a fazer isto por todo lado. Imaginem que em Portugal nós fazermos com os nossos círculos eleitorais, que estão iguais desde o princípio, fazermos isto em função dos interesses do partido que está na altura no poder, porque é isso que estamos a falar. Eu diria, não fico muito entusiasmado, percebo, mas a lógica americana sempre foi outra. Ponto um. Ponto dois, as outras eleições que aconteceram, há dois pontos relevantes. Primeiro, as duas governadoras que foram eleitas, duas senhoras. Abigail Spanberger, na Virgínia, e Mikie Sherrill, em New Jersey, são figuras que podemos considerar moderadas ou mesmo centristas no Partido Democrata. E é significativo aqui que Mikie Sherrill, New Jersey fica do outro lado do Hudson em relação a Nova Iorque. Quem vai, por exemplo, a Nova Iorque e aterra em New Jersey, onde há uma comunidade portuguesa muito grande, vê do outro lado, e às vezes passa por um túnel, vai para Nova Iorque, para Manhattan. Ela recusou-se a apoiar Mandani até o fim, não fez o apoio a Mandani como muitos democratas quando perceberam que ele ia ganhar, começaram a fazer. Ela manteve as suas distâncias. Há aqui, se quiseres, dois sinais que mostram um bocadinho qual é o problema do Partido Democrata, que é saber se deve ir por uma linha mais moderada ou se deve adotar a linha radical de Mandani, já vamos ver até que ponto ela é radical. E desse ponto de vista, a eleição de ontem não foi definitiva, não deu sinais absolutos do que é que pode acontecer, até porque, repara, quer a Califórnia, quer Nova Iorque, são duas regiões hiperdemocratas, e aí os democratas ganharam sempre, em princípio. Repara, os democratas já perderam por duas vezes nas últimas décadas a Câmara de Nova Iorque. Uma vez perderam porque foi quando escolheu Giuliani, o caos era absoluto e havia a necessidade de fazer qualquer coisa. A segunda vez que perderam, perderam para Bloomberg, Mike Bloomberg, e perderam precisamente numa eleição a seguir à eleição da presidência pelos democratas, naquele caso concreto, Obama. Cria-se uma dinâmica sempre nesta eleição, como elas são pouco participadas, às vezes há o voto contra quem está no poder. É preciso não tirar lições absolutas. Mas há outro aspecto importante destas duas eleições para governadores, que é o voto de algumas minorias, particularmente dos latinos, mas também em boa parte dos afro-americanos, dos negros. Na última eleição presidencial, e não só nesta região, uma das coisas que Trump conseguiu foi ir buscar este voto que se via como uma espécie de voto cativo dos democratas. Há inclusivamente livros escritos há 20 anos que diziam: "Vem uma maioria democrata para sempre, porque os latinos estão a tomar conta disto." Estão a se tornar uma minoria muito grande. Aliás, o politólogo que escreveu isso é descendente de portugueses. Eu estive uma vez com ele em Washington e ele agora diz: "Bem, para onde é que foi a maioria democrata porque de repente os latinos começaram a votar republicano e votar em Trump." Ora bem, nestes dois estados, New Jersey e Virgínia, os latinos em boa parte regressaram ao Partido Democrata, o que pode ter algo a ver com uma expressão que eu ouvi e que tem alguma graça, que é: Trump às vezes pode ter razão, mas nunca sabe parar a tempo. Basicamente, as pessoas concordam, mesmo os latinos, que é preciso limitar a imigração, mas os latinos ou browns, portanto têm a pele um pouco mais escura, não gostam muito de andar a ser parados na rua pelo ICE, o ICE é a polícia de imigração, a pedir os documentos para ver se são legais ou ilegais. Isso não acham assim muita graça e não acham muita graça a outras ações mais musculadas ou enérgicas ou brutais que quiseres precisamente do ICE. E portanto, disseram: "Epa, tudo bem controlar a imigração, mas isto, o que o ICE está a fazer, o que o Trump está a mandar o ICE fazer é demais." E podem ter voltado outra vez para os democratas. Mas é um voto flutuante, mas é uma indicação importante. Aqui é uma indicação importante. E Nova Iorque? Bem, Nova Iorque, há aqui várias coisas interessantes ao mesmo tempo. Por um lado, vale a pena ver quem é este Mandani. Mandani, de facto, é alguém que fez soar muitos alarmes. Enfim, o New York Times tentou que Mandani não fosse eleito. Tentou, mas não conseguiu. Os jornais valem cada vez menos nessas coisas. Mandani é, de facto, alguém que parece tudo, menos alguém indicado para gerir uma Câmara Municipal que vai mandar, entre aspas, numa cidade de 8,2 milhões de habitantes, uma coisa do tamanho quase de Portugal, 300 mil funcionários, um orçamento absolutamente descomunal. E como é que ele vai mandar nisto? Bem, ele nunca trabalhou na vida. Ele saiu da universidade, tentou ser um cantor de rap, não conseguiu, depois esteve nas ONGs, depois teve um trabalho num filme, a mãe é cineasta, trabalhou um pouco num filme da mãe e depois foi eleito para o Congresso Estadual. Nos Estados Unidos, depois também há Congresso a nível estadual, e é tudo o que ele fez. Não tem experiência de gestão nenhuma ou até da vida real nenhuma. Depois, apesar de ele falar muito dos trabalhadores e ter feito um discurso em que falava dos desgraçados que andam a distribuir comida em Nova Iorque e não sei o quê, dos pobres, ele é tudo menos isso. A história da vida dele é tudo menos isso. Ele é filho de um casal que veio do Uganda. O pai é professor da Universidade de Columbia e um dos teóricos, enfim, talvez não seja um dos teóricos, mas um dos seguidores dos teóricos dos chamados estudos pós-coloniais. Uma visão antiamericana e antiocidental da história da humanidade. E sobre isso, ele tem dito coisas que até nos deixam ficar de cabelos em pé, porque ele defende o Idi Amin. Ele diz que o Idi Amin era um freedom fighter, um lutador pela liberdade. Idi Amin é um dos piores ditadores que a África teve. Repara, apesar de ele, que é de origem indiana, estava no Uganda, mas é de origem indiana, ter sido expulso do Uganda, perdoa isso ao Idi Amin, porque o Idi Amin tinha um bom motivo, que era expulsar os britânicos. Ele foi na onda também, foi com a água do banho. Mas acha mesmo assim que o Idi Amin tinha uma boa motivação e ele podia continuar por aí adiante, esta é a motivação do pai. A mãe é uma cineasta de filmes documentais, basicamente na linha mais extremista de Hollywood que há muito. Portanto, foi este o ambiente em que ele cresceu, mas foi um ambiente privilegiado. Ele foi para que escola? Ele podia ter ido para uma escola, que é uma boa escola, quando acabou o ensino obrigatório ou básico e foi para o College, para a universidade, ele podia ter ido para uma escola de Nova Iorque, o City College, que é uma escola onde habitualmente os filhos dos trabalhadores de Nova Iorque, classe média baixa, vão, que é uma boa escola e que custa, na altura em que ele foi estudar para lá, bem, lá as propinas, mesmo numa escola para classe trabalhadora, são $6.300 por ano. Mas não, ele foi para o Maine, para o Bowdoin College, onde os seus paizinhos pagaram $60 mil por ano de propinas. $60 mil por ano de propinas. Quer dizer, eu creio que para 90% dos portugueses não ganham isto num ano Quanto mais, isto está tudo em propinas. E o que é que ele propõe? Ele propõe medidas que mesmo em Portugal o Bloco de Esquerda não se atreve a propor. Quer dizer, ele propõe uma coisa que o Bloco de Esquerda propõe, que é congelar as rendas. Só para clarificar, não estamos a falar de congelar todas as rendas. Em Nova Iorque já há um problema de controle das rendas, e só falamos das rendas que são controladas. Depois há rendas livres, mas são as mais caras. Nas rendas controladas, que são aquelas que, por regra, têm como senhorios pessoas que têm um ou dois apartamentos, coisas assim, casas mais modestas. Aqui, é um universo grande, mas é um universo que já está sob pressão, porque todos nós sabemos, as rendas não têm crescido ao ritmo que tem crescido o custo da manutenção. E há não só um número já muito elevado de pessoas que preferem puramente não arrendar. Em Nova Iorque já há 60 mil apartamentos destes que não estão arrendados. Nós estamos a ver, isto é Lisboa em grande. Lisboa começou em República, vai para o Salazar, com rendas congeladas, coisas do gênero, em grande. E ele agora quer levar isso ainda mais longe. Não é claro que ele vá consegui-lo, porque os acordos, as necessidades de equilíbrios em Nova Iorque podem impedi-lo de conseguir congelar completamente as rendas. Depois quer autocarros gratuitos, transportes públicos gratuitos. Isto representa um investimento de quase mil milhões de dólares. Brutalidade o que vai custar. Mas com esta característica, e que tem muito a ver com aquilo, e isto não vai mudar, provavelmente vai piorar. Neste momento, metade dos passageiros dos autocarros em Nova Iorque, não é só Manhattan, são os vários outros bairros, já não paga, porque é o caos. Aquilo já se instalou o caos. Mais, aquilo que já vem dos últimos presidentes de câmara, nomeadamente Bill de Blasio, que foi um também que começou muito esquerdista, e através daquilo que é o procurador local, o acusador local, é que há crimes que não são sérios. Por exemplo, roubar no supermercado não é sério. Não é um crime sério, portanto, não vamos perseguir essa pessoa. Não pagar bilhete não é uma falha grave, não vamos perseguir. Portanto, de repente, nos autocarros primeiro. No metro é mais complicado, porque há umas barreiras e é preciso saltar por cima das barreiras, não é sempre uma coisa tão fácil. Mas eu já vi em Nova Iorque as pessoas chegarem lá, um grupo de miúdos e pumba, tudo por cima daquelas barreiras e não há ninguém que os pare. Mas isto chegou ao ponto de uma cadeia, o equivalente lá não é o Walmart, que é o equivalente ao nosso Continente, mas uma cadeia desse gênero, de preços baratos, preços de desconto, abriu num bairro pobre, no Harlem, na zona do Harlem, e teve que fechar ao fim de não sei quanto tempo, porque estava sempre a ser roubado. As pessoas depois não eram perseguidas no sentido de terem que responder em tribunal, eram apanhados e a seguir o mundo vai-te embora. Apanhado, vai-te embora. Resultado: aquilo deu tanto prejuízo que eles tiveram que fechar o hipermercado lá do sítio, o outlet lá do sítio. E portanto, ele para resolver isso propõe-se fazer outra coisa que é abrir mercearias, mega mercearias, não sei se são mercearias pequenas ou grandes, isso aí não é totalmente claro, mercearias públicas, para garantir que o preço das coisas baixam. Nós já tivemos isto em Portugal. Curiosamente, no tempo do Marcelo Caetano. Não sei se começou com o Salazar, mas no tempo do Marcelo Caetano.

Estás a falar dos postos das juntas.

Dos postos da...

Da Junta Nacional das Frutas.

Da Junta Nacional das Frutas, que eram os postos. Havia um que ainda há pouco tempo, eu às vezes passava por lá, ficava ali à entrada de Loures.

Ficaram a desfazer-se.

Numa rotunda. Que era uma altura que começou a haver inflação, e então o Estado, na altura o Estado conservativo.

Mas era só para hortaliças. Hortaliças, frutas e legumes. O que é espantoso é que o povo não comprava lá. As pessoas, porque as hortaliças tinham um aspeto miserável, eram muito pequeninas, raquíticas. Ao pé eram piores. E as pessoas, até porque depois eles mantiveram-se mesmo a seguir ao 25 de Abril, e para fúria das elites, as donas de casa, que na altura era quem fazia as compras, não compravam e diziam muito mal daquilo. Estas coisas acabam sempre assim.

Quando é o Estado a fazer isto, o Estado não tem os mecanismos de concorrência e de disputa de coisas que têm as empresas privadas. Repara, nós temos várias cadeias de supermercados que fizeram baixar os preços e melhorar a qualidade da oferta. É evidente que, entre outras coisas, para conseguirem isso, fazem uma coisa que muita gente pode discutir, que é a enorme pressão sobre os produtores. No princípio foi terrível, imensos produtores em Portugal faliram, imensos tiveram que fechar. Mas a nossa agricultura, ao fim de não sei quantos anos, está muito melhor do que era antes. Quer dizer, antes a gente andava só a comer produtos espanhóis nessas bancadas de hipermercado. Hoje em dia já há muitos produtos portugueses lá porque as empresas agrícolas ganharam dimensão. Agora, tu fazes a marcha atrás outra vez, quer dizer, não é marcha atrás outra vez, lá nos Estados Unidos nunca experimentaram este tipo de modelo. E há mais coisas deste gênero, que inclusivamente não se sabe quem vai pagar, porque são coisas que são, por exemplo, creches gratuitas para toda a gente. Isto tem que ter funcionários, estamos a falar de milhões e o Estado não está organizado assim, uma cidade não está organizada assim. Quem vai pagar? Ele acha que quem vai pagar são os milionários, portanto, ele vai aumentar as taxas dos milionários. Tudo isto não é óbvio que ele consiga, porque algumas dessas coisas dependem da Do Estado. Naquele caso, é uma governadora do estado de Nova Iorque. A governadora quer ser reeleita, portanto não quer mexer em impostos. As eleições são para o ano, portanto mexer em impostos pode fazê-la perder, até porque há uma proto candidata republicana bastante agressiva, seria um escândalo ganhar Nova Iorque, mas não é impossível. Às vezes há republicanos que ganham mesmo nos estados mais democratas quando há questões deste gênero, porque depois há um fator local importante. Agora, o que é que vai acontecer aqui? Há teorias para tudo. Há aqueles que defendem, por exemplo, George Will, que é um grande colunista americano, conservador, que isto vai ser ótimo, vai ser uma espécie de vacina. É a teoria do Kissinger, uma espécie de vacina socialista, as pessoas vão ver como o desastre aquilo é, aquilo vai colapsar tudo e vai garantir ao Partido Republicano que tem ali a vacina para as pessoas não caírem naquela tentação. Bem, há muitos nova-iorquinos que dizem: "Vão vacinar outros, nós não dá muito jeito." Vão vacinar outros. Mas há quem diga até que Trump é adepto desta teoria. Por quê? Porque apesar de Trump ser um homem de Nova Iorque, se Trump está com más sondagens, e está, os nova-iorquinos estão com sondagens abaixo de cão. E portanto, votar contra Trump era uma grande motivação desta eleição. E Trump foi apoiar o outro candidato, o rival, que era Andrew Cuomo. Há histórias, inclusive histórias partilhadas nas redes sociais, de eleitores indecisos, que quando souberam que Trump ia apoiar o Cuomo, foram votar em Mandani. Não sei até que ponto isto vai funcionar ou não vai funcionar. Há uma diferença entre: "Mas há muitas experiências dessas noutros sítios da América, há mais gente parecida com o Mandani na costa leste." São Francisco, às vezes, outros sítios assim do gênero. Sim, mas Nova Iorque, toda a gente está a falar de Nova Iorque, os jornais estão o tempo todo a falar de Nova Iorque, as estações de televisão que estão em Nova Iorque. Nova Iorque é o umbigo do mundo. Toda gente está a olhar para o que se lá vai passar. Até que ponto é que isso se vai sentir no prazo de um ano, que são os midterms, ou no prazo de três anos, que são as presidenciais, é difícil de saber. Não sei, não faço previsões. Vamos ver o que acontece realmente em Nova Iorque. Mas do ponto de vista do Partido Democrata, o tema não está resolvido, porque há muito mais Mandanis noutros sítios. Mandanis, quer pela sua origem, são muçulmanos, anti-Israel, pró-palestinianos, mas quando digo anti-Israel, são pessoas que acham que o Estado de Israel não deve existir. Mandani não foi capaz de responder a isso numa cidade que é a maior cidade judia fora de Israel, que é Nova Iorque. Já não é tanto como no passado. Costumava haver dois milhões de judeus em Nova Iorque, agora já só há um milhão, o que também é significativo. Há esta tensão, porque é mais ou menos claro que outros Mandanis provavelmente não ganhariam na Virgínia, nem ganhariam em New Jersey, e muito menos ganhariam em swing states, estados que ora votam num lado, ora votam no outro, ou cidades que ora votam num lado, ora votam no outro. Há uma tentação na mobilização das primárias, que é aquilo que muitas vezes determina isto. Mandani chega aqui por causa das primárias no Partido Democrata. A mobilização é dos militantes, é dos fanáticos, às vezes. Fanáticos para todos os lados. Foi isso que permitiu que Trump chegasse onde chegasse, porque Trump não tinha a divisão dos republicanos e fez com que ele conseguisse singrar e fosse nomeado a primeira vez e depois tomasse conta do partido. Será que pode acontecer uma coisa parecida, semelhante no Partido Democrata? É o pesadelo das lideranças democráticas. Mas pode também ser um sinal dos tempos, porque um país muito polarizado e com tendência para ir para os extremos, porque ao mesmo tempo que isto está a acontecer, também está a haver um lado cada vez mais extremista nos republicanos. Há uma enorme discussão lá, por causa de antissemitismo na direita, uma coisa do Tucker Carlson e mais o presidente da Heritage Foundation, que é uma fundação fundamental na direita americana, por causa de uma entrevista com um nazi, que é um gajo chamado Nick Fuentes, deve ser um latino, não sei, mas pelo nome, e que é basicamente um antissemita. Um antissemita, racista, assumidamente. Tem os seus canais nas redes sociais. Última nota, apenas para chamar a atenção de que há esses aspectos, que é perceber o que é que vai acontecer, sobretudo porque muitos desses candidatos que estão a aparecer e apareceram em muitos sítios nos Estados Unidos, de facto, têm uma base muçulmana, mas há muitos muçulmanos moderados, não é o caso de muitos deles. Não é Mandani, mas já há vários até, inclusive no Congresso, de origem de vários países. Também há o contrário, mas não figuras eleitas. Isso pode ser importante para perceber para onde é que vai o Partido Democrata. Para acabar, só dizer uma coisa: há, no discurso de posse de Mandani, algo que foi muito citado. Acabou o tempo de uma não diria só grega e política. Ele não se está a referir naquele caso concreto aos republicanos. Está-se a referir a uma coisa, que é: ele também tinha como adversários o pior possível. Aquilo era gente que era preciso tapar o nariz e os olhos para por lá a cozinha. O republicano era muito fraquinho, mas o Andrew Cuomo, que foi governador, há cinco anos teve que se demitir por causa de escândalos sexuais e outras coisas. O Andrew Cuomo era filho do Mario Cuomo Também tinha sido governador. Aquilo era, de facto, uma dinastia. Na América há várias dinastias, mas as pessoas a certa altura fartam-se das dinastias. Aquilo não é uma monarquia. Fartaram-se um bocadinho da dinastia Kennedy, fartaram-se da dinastia Clinton, não sei até que ponto é que estão ou não fartos daquilo que se chegou a ameaçar ser uma dinastia, que era a dinastia Obama ou a dinastia Bush. Foi havendo várias dinastias. Em Nova Iorque era a dinastia Cuomo, que acabou muito mal há cinco anos. A tentativa de regresso, para um nível inferior, para todos os efeitos, ser presidente da Câmara de Nova Iorque não é a mesma coisa que ser governador do estado de Nova Iorque, de Andrew Cuomo, que não é uma pessoa nova, já está perto dos 70 anos, era de facto quase um soco no estômago daqueles eleitores. As pessoas não tinham muita motivação para votar nele. Isto é que explica que, apesar de tudo, ele não ganharia com isso, porque o Mandani teve mais de 50% dos votos. E o republicano se tenha mantido até ao fim, apesar de ser uma figura irrelevante, uma figura bizarra, sempre com um barrete vermelho na cabeça, umas coisas um bocado estranhas.

Mas é à Nova Iorque.

É à Nova Iorque. Isso também ajuda a explicar o fenómeno Mandani. Agora, de repente, vejo por todo o mundo, ontem Pedro Nuno Santos, depois a seguir à noite o candidato do LIVRE a falar: "Voltou a esquerda verdadeira".

Desde que o Tsipras ganhou umas eleições que não se viu entusiasmo assim.

Vê-se um grande entusiasmo. Vamos ver o que é que sucede, sabendo quais são os problemas que Nova Iorque está a viver, onde o crime está a aumentar, os sem-abrigo estão a aumentar, a delapidação do património está a aumentar e há uma vontade. Ele já não diz deixar de financiar a polícia, mas vai controlar muito a polícia. A polícia, neste momento, já está manietada em Nova Iorque, já não atua como devia atuar, designadamente quando há pequenos roubos, são considerados crimes não sérios, como se a gente pudesse determinar na lei o que é sério ou não é sério, não pensa em ser o juiz a fazer isso. Temos uma situação que acontece em Nova Iorque, eu ouvi hoje uma expressão interessante, de Nova Iorque como cidade que é cada vez mais uma Disneylândia, no sentido em que é muito bom para visitar e muito mau para viver. Muito caro e em muitos aspetos mau para viver. Muito bem, Diana Soler, bom dia. É jornalista em Relações Internacionais, está aqui conosco no "Contra Corrente". Que conclusões tira destas eleições que decorreram na terça-feira nos Estados Unidos?

Acho que há várias conclusões a tirar. Eu acho que o Zé Manel já falou de uma série delas, mas há duas ou três que eu gostaria de acrescentar. Em primeiro lugar, é esta satisfação internacional com a eleição do Mandani, que além de ser manifestamente exagerada, não tem em conta quem verdadeiramente Mandani é e quem é que Mandani é. Agora de uma forma mais abstrata, digamos assim. Mandani é um homem que concentra em si o mais radical da esquerda norte-americana. E por que eu digo isto? Precisamente por aquilo que o Zé Manel estava a explicar, quer dizer, é uma pessoa que vem de uma vida de privilégio, mas que ainda assim é muito forte nas questões da agenda identitária, da questão da Palestina e de Israel. Uma agenda essa que já está mais do que percebido, que é uma agenda que é em si só também autoritária, porque é uma agenda que implica alguma engenharia social para ser bem-sucedida.

Como assim?

Vamos ver. Nós ouvimos muitas vezes falar da agenda identitária, da questão da esquerda identitária, e muitas vezes não vamos ao fundo da questão. O que é a esquerda identitária ou a agenda da esquerda identitária? É uma agenda que determina que a hierarquia social está esgotada. Está esgotada por razões de pós-colonialismo, por razões de que há, nestas visões, um grupo de oprimidos e um grupo de opressores, e as pessoas são oprimidas ou opressoras consoante o sítio onde nascem e aquilo que representam no seu nascimento. E não há uma grande margem de manobra para uma pessoa deixar de ser opressora e passar a ser oprimida e vice-versa. Ora, o que isto quer dizer? Quer dizer que os oprimidos são todos os grupos sociais que eram vistos há 10, 15, 20, 30 anos como as minorias, as franjas, as minorias étnicas, as minorias religiosas, as minorias sexuais. as que se lembrar. E há um programa nessa esquerda identitária de transformar a sociedade, de forma a que os oprimidos possam ter, pela primeira vez na história, mais força que os opressores. E isso tem se feito, de que forma? Através da transformação da linguagem. Há uma série de coisas que nós não podemos dizer já em Portugal e podíamos. Nos Estados Unidos é 300 vezes pior, e eu vivi lá uma série de anos e sei do que estou a falar. Um permanente apontar de dedo aos ricos e aos poderosos, porque fazem parte dos opressores máximos e têm que ser combatidos por essa mesma razão. Uma reescrita da história em que todo o colonialismo é uma ideia negativa e que é reproduzida nos comportamentos até os dias de hoje. Toda uma ideia de que tem que se reparar perante aqueles que foram vítimas de segregação e de todo tipo de discriminação social, tem que haver reparações para essas pessoas. E portanto, no fundo, esta agenda, se nós olharmos para ela, é uma agenda que exclui um grupo social nos Estados Unidos, que são os brancos, que são os mais ricos. E isto não é os brancos mais ricos, é os brancos, os mais ricos, os homens. E portanto, cria também no seu próprio íntimo, uma agenda muito anti-americana, porque já não é uma agenda de diversidade, como foi a agenda pós-moderna nos anos 60, por exemplo, já é uma agenda de exclusão daqueles que não são diversos, vamos pôr as coisas assim. E portanto, isto faz com que a agenda seja autoritária, e isto passou um bocadinho para a Palestina. Ou seja, as pessoas que acreditam nesta agenda identitária, o Montefiori escreveu um artigo muito interessante sobre isso na Atlantic, logo no princípio da guerra Israel-Palestina. Esta agenda identitária, explicou ele, ia passar para a Palestina. Portanto, pessoas que nada sabem sobre a Palestina, que nada sabem sobre o conflito, até porque esta agenda é muito mais subscrita por uma geração mais nova e, por aquilo que os estudos dizem, pouco informada, é anti-israelita e pró-palestiniana, porque os palestinianos são os oprimidos. E portanto, há toda uma transformação social que este grupo, como o Mandani, quer impor, que é uma agenda que eu acho que é danosa em qualquer sítio do mundo. Da mesma forma que eu acho que a agenda dos pós-liberais de direita é danosa, porque também contém um certo autoritarismo e também contém engenharia social, eu acho que a agenda da esquerda também é danosa, precisamente pelas mesmas razões. E Mandani encarna isso. E depois encarna uma outra coisa, que é muito típica do populismo de esquerda, que é promessas eleitorais inexequíveis. O Zé Manuel falou de algumas delas, mas há mais. Nomeadamente, questões que têm a ver com o ambiente, que não são inexequíveis, simplesmente. O New Green Deal, que esteve no Congresso norte-americano, apadrinhado pela Alexandria Ocasio-Cortez, era uma fantasia na perspectiva da possibilidade da implementação. E portanto, Mandani não só vai nessa linha da agenda identitária, como vai na linha Ocasio-Sanders, que é uma linha que em si só, também é enganadora no sentido em que é impossível de implementar, não há meios para o fazer. E isto tudo para dizer também uma outra coisa: é que estas agendas não vieram do nada. E portanto, os Estados Unidos estão com problemas sérios do ponto de vista da democracia, estão com problemas sérios do ponto de vista da distribuição de riqueza, e desde a crise de 2008, franjas, quer à direita, quer à esquerda, que eram verdadeiramente franjas, que não tinham poder nem capacidade de terem êxito eleitoral, estão-se a tornar cabeças de cartaz e ganham efetivamente eleições. E outra coisa muito preocupante é que estas pessoas são altamente carismáticas. E quando a maior democracia do mundo é gerida por pessoas que têm agendas que podem ser nocivas para os Estados Unidos, e que a principal característica que esses líderes têm é serem carismáticos, nós estamos aqui um bocadinho numa fase dramática, para não dizer pior.

Um pouco o triunfo do vazio, não é?

Não é vazio. O problema é que isto não é nada vazio, isto é muito cheio. São agendas já muito bem articuladas.

Trump, em muitas perspetivas, é um carismático.

Trump é um exemplo acabado de carismático. Sim. Aliás, isto já é uma posição pessoal, eu até acho que Trump, mais do que qualquer outra coisa, é uma figura que, por ser carismática, neste segundo mandato, no primeiro não foi assim, aglomerou um conjunto de gente que de alguma maneira o manipula e que também tem uma agenda muito bem urdida, que também implica uma transformação brutal dos Estados Unidos da América. Eu não estou a falar do Steve Bannon, que todos sabem da entrevista que ele deu à Economist, estou a falar de gente ligada ao catolicismo de direita, gente ligada à Universidade de Notre Dame, principalmente, e à entourage intelectual do Patrick Deneen, que se tornou menino dos olhos dos republicanos e que é uma pessoa que também tem uma agenda altamente estranha da perspectiva da engenharia social. Estamos aqui a falar de um período muito negro, que vai ficar pra história como um período muito negro da história dos Estados Unidos.

Helena Matos, repito a pergunta que fiz ao José Manuel Fernandes: Donald Trump está a enfraquecer?

Olha, essa é uma das conclusões, e não é que ele esteja a enfraquecer, é que se ele não estiver no boletim de voto, os republicanos têm problemas. Portanto, essa é uma das conclusões. A mais-valia de Trump eleitoral parece ser muito superior àquilo, muitas vezes, dos nomes que vão pelo Partido Republicano. Isto não acontece nem sequer exclusivamente nos Estados Unidos e muito menos exclusivamente neste campo político, no campo de Trump. Nós tivemos ontem, por exemplo, o anúncio de que no Brasil Lula da Silva se pensa recandidatar à presidência, porque aí o caso ainda é muito mais complicado. Sem Lula, aquela área política não conseguirá, muito provavelmente, ganhar as eleições. Mesmo estas eleições já só foram ganhas por Lula. Temos muitas vezes, em um mundo muito polarizado, a figura do líder, do caudilho, do chefe. Ganhou uma relevância muito grande.

Total carisma que falava Diana Soler no fecho da primeira parte.

Sim.

Mas também não funcionou muito bem a estratégia de Trump de colar Zoran Mandani ao extremismo.

Isso não acho. Eu acho que pode ter sido o seguro de vida do Partido Republicano e uma péssima notícia para os democratas do centro. Ou seja, o programa deste senhor já foi experimentado noutros sítios e sabemos que acaba geralmente em desastre. O que acontece? Nós estamos em um país que reage muito rapidamente às coisas econômicas, até porque felizmente para eles não tiveram tantas políticas socialistas e, portanto, não têm muito aquela inércia de tentarem um bocadinho mais. Não se sabe como é que vai ser daqui pra frente. Mas note que, por exemplo, uma das razões para o desastre dos democratas em determinados condados nos Estados Unidos nas eleições presidenciais passadas, era o problema do preço dos ovos. E eles são muito rápidos a reagir com a carteira. E aquilo que nós temos aqui proposto pra cidade de Nova York é um programa de empobrecimento e declínio. E, por outro lado, muito focado também numa coisa que é, mesmo que vá à frente, um aumento de impostos muito expressivo sobre os mais ricos. Ora, a população de Nova York tem um problema, são números quase de Portugal, mas a saída dos mais ricos da cidade, que não é difícil, mesmo que não seja muito expressiva do ponto de vista daqueles 8 milhões, que oscilam, neste momento está 8 milhões e 200 mil, já foram um bocadinho mais, claro, depois temos aqui a pandemia pelo meio, mas a saída dos mais ricos tem, ou terá, ou pode vir a ter um peso ainda mais complicado naquilo que é a saúde financeira da cidade. Portanto, as medidas anunciadas pelo vencedor, pelo Mandani, são, em geral, de desfecho conhecido, só que, como muito provavelmente esse desfecho vai ser um desastre, e o seu próprio radicalismo, aquela ideia de anunciar ontem uma equipa só com mulheres, que é uma coisa que já não está assim tanto na ordem do dia, pode tornar-se muito complicada para os outros democratas, nomeadamente, estamos a falar na Califórnia, em que, porventura, o governador da Califórnia está na corrida para vir a ser o candidato pelo Partido Democrata às próximas presidenciais, e a última coisa que lhe interessa é ser colado às políticas do senhor Mandani, das quais, aliás, ele não subscreve. Foi muito interessante a forma como, por exemplo, o Obama reagiu. Obama não esteve na campanha em Nova York, ao contrário do que aconteceu na Virgínia, em Nova Jérsia. Portanto, vai ser difícil gerir isto, por um lado, pelo radicalismo das propostas, por outro lado, muito provavelmente pelo seu falhanço. E isso vai ser mau para quem, pelo Partido Democrata, estiver na próxima corrida presidencial. Portanto, esta é uma vitória Que é muito interessante do ponto de vista daquilo que representa hoje uma parte do Partido Democrata, mas é, em termos locais, uma minoria muito mediaticamente visível, na minha opinião, uma má notícia para o Partido Democrata a nível nacional, porque é óbvio que qualquer pessoa que esteja a fazer a estratégia do Partido Republicano vai dizer: "Eles são todos como o Mandani. Estão a ver o que é que vem aí." Depois acho que houve outra coisa interessante. Estas duas coisas, uma grande vitória em Nova Iorque para os democratas, má notícia para os democratas a nível nacional, porque vão ser colados ao Mandani. A questão de qual é que é o valor do Trump no boletim de voto, ou seja, quando ele não está, os republicanos têm problemas. E depois uma extraordinária notícia que eu saúdo com felicidade, alegria, um extraordinário entusiasmo: o wokismo morreu. Morreu! Acabou. Embora eu discorde absolutamente da agenda do senhor Mandani, ele falou de dinheiro, falou de custo de vida, falou de transportes gratuitos, de supermercados.

Depois nomeou as senhoras todas.

Depois nomeou as senhoras todas, as senhoras vão se todas zangar, já sabe.

Ainda bem que és tu que dizes isso.

Pois, claro. Mas é o óbvio. Ou seja, o wokismo não morreu, como eu estou aqui a dizer, e ainda estamos com ondas disso, muitas ondas disso, em vários sítios no mundo. Olha, por exemplo, Portugal tem neste momento uma coisa absolutamente patética, que é um homem que resolveu que é mulher, que está preso, aliás, tem levado a sua vida a entrar e a sair de cadeias, resolveu que era mulher, foi para uma cadeia de mulheres. Entretanto, arrependeu-se de que queria ser mulher. Ele não fez mais nada para ser mulher do que mudar o seu sexo nos seus documentos de identificação e agrediu pessoas na cadeia de mulheres onde estava, anda num dentro e fora também no Hospital de Caxias, porque é completamente diferente estar-se numa ala feminina ou numa ala masculina. Todas estas coisas. Temos as ondas de choque de tudo isto, mas temos, aliás, também neste momento até uma investigação muitíssimo interessante no Telegraph sobre a forma como, por exemplo, a BBC tem manipulado a sua informação, nomeadamente a propósito das questões de Gaza, mas também a propósito das questões dos transgender. Mas temos aqui a questão do wokismo enquanto grande assunto de campanha. Por exemplo, Kamala Harris usou isso na campanha, penso que com pouco sucesso, como se viu. E o discurso do Mandani é muito mais centrado nas questões da economia, dos ricos, dos pobres. São coisas, do meu ponto de vista, muito mais da ordem do racional e nesse sentido eu creio que estamos a assistir a uma mudança de discurso. É claro que tudo isto é por ondas e por ciclos, mas que o facto de naquela que é a democracia mais influente no mundo, neste momento tenhamos um foco nas questões econômicas, a mim parece-me ser muito interessante. Também já se está a assistir noutros países a mesma questão. O caso da Europa é evidente. Aqui não tanto nas questões econômicas, em vários países europeus, e não estou a dizer necessariamente todos da União Europeia, mas muito mais focados nas questões da segurança, da imigração, são coisas de programas dos quais se discorda, se concorda, mas em que não estamos a discutir a determinado momento a atomização dos cidadãos em minorias dentro de minorias, que por sua vez, depois combatem as outras minorias. Essa parece-me ser desse sentido. Já as questões do ponto de vista étnico-racial ou como se lhe quiser chamar, isso não, até porque nós estamos aqui com alguém que é muito invocada a sua questão religiosa, a questão da origem da sua família, e como o José Manuel aqui referia, é claro que ele é um produto de um meio muito privilegiado. E quando eu dizia há pouco a questão do Tsipras, eu acho que o Tsipras teve ali o seu momento de realidade. Pois foi quando percebeu que ninguém lhe emprestava dinheiro.

Foi quando deram poder, não é?

Não. Foi quando ele precisou de dinheiro e ninguém mais lhe emprestou dinheiro. Ninguém mais. Só as chamadas troicas e a União Europeia e pronto. E ele não seguiu, e muito bem, os conselhos do Varoufakis, que anda por aí entronizado pela esquerda.

Já escrevi um artigo sobre o Mandani.

Ainda não dei para isso.

Já escrevi um artigo distribuído pelo Projeto Sindicato.

O projeto era, entre outras coisas, sequestrar o governador do Banco Central. E há aí esse momento. Eu creio que o grande teste, no caso do Mandani em Nova Iorque, vai ser quando se começar a confrontar com duas coisas: o resultado destas políticas e o resultado destas políticas sobre as pessoas que ele pretende ajudar, porque em geral, o problema destas políticas é que elas tornam muito mais difícil a vida daqueles que se pretende ajudar. E depois ver como é que as elites vão reagir a isto, porque nós temos aqui elites muito privilegiadas.

Não vão vender as casas em Nova Iorque de um dia para o outro. Uma parte da classe média já está a sair.

Pois, é isso.

Uma parte da classe média já está a sair, porque é uma cidade cara, muito cara, demasiado cara, e as pessoas estão a sair para outras cidades onde com os rendimentos que têm possam viver melhor.

Isso é, aliás, uma movimentação muito interessante dentro dos Estados Unidos. Uma movimentação de população, por exemplo, da Califórnia pro Texas. Há passagem de população, ou seja, reagem. Há ali, porventura, uma classe média que reage mais rapidamente do que as outras classes, por razões óbvias, porque não quer deixar de ser média e também não é suficientemente rica para se conseguir proteger dos embates das mudanças e, portanto, ver o que vai acontecer. Mas eu aqui também incluiria algumas elites em relação ao que vai ser a aplicação deste projeto em Nova York, que sim, aí concordo, Zé Manel, não sei se a Diana também referiu isso, uma disneyficação da cidade. Coisa que também aconteceu em Paris, e não é apenas pelo custo de vida, é muitas vezes também pelas questões da insegurança. Nota-se isso muito aqui na Europa em relação a Paris, e que é quando esta opção em relação ao chamado pequeno delito, é precisamente o contrário daquilo que fez o Giuliani.

Rudolph Giuliani.

Sim, em Nova York. O pequeno delito é mesmo o delito a que se tem de atender se não se quiser vir a ter médios e grandes delitos. Temos agora esta discussão por causa do Rio de Janeiro.

Sim. Desculpa interromper, mas naquela altura, quando o Rudolph Giuliani, em Nova York, tinha níveis estratosféricos.

Extremamente altos. Exatamente.

Enfim, havia um descontrole total das armas, por exemplo.

Exatamente. Agora temos de ver se não chegaremos a um descontrole.

Aliás, um dos programas de Rudolph Giuliani foi mesmo a entrega de armas mediante o pagamento de 50 dólares por revólver, creio.

E uma particular atenção a coisas-

Não, e castigos duríssimos para os infratores.

Depois acompanhado até daquela política das janelas partidas, consertar todas as janelas e as fachadas de edifícios abandonados.

Mas as janelas partidas é um dos programas mais interessantes, e que apoio e subscrevo inteiramente. Portanto, acho que há muitas vezes coisas que nós nos habituamos a ver em bairros não privilegiados e que não se toleram nos bairros privilegiados, nomeadamente as janelas partidas. Portanto, há aqui muitas vezes também uma visão muito elitista face a isso.

A tese é só para os nossos ouvintes ficarem a perceber. A tese é: num bairro onde há fachadas abandonadas ou com sinais de degradação, isso é um indutor do pequeno delito, e até do crime generalizado.

Sim, e depois o pequeno delito, e depois o médio delito, e depois fica o tráfico de droga. O ciclo é conhecido. Aí é que eu creio que vai estar a prova real.

Sim.

Diz, Helena.

Diana.

Não, estávamos aqui a ver uma outra coisa.

O Zé Manel e a Diana estavam aqui com uma side conversation.

Não, estávamos a olhar para um artigo do Rui Teixeira.

Sim, que é o tal politólogo que eu falei.

Que escreveu um livro há 20 anos a dizer que os democratas iam ganhar as eleições até o fim da vida, porque quem votava eram as minorias e os mais jovens, e que agora escreve um livro que talvez se chame "Where All the Democrats Gone", ou uma coisa assim.

"Para onde foram todos os democratas?"

E tem mesmo a ver com isso. Eu acho que nós estamos aqui neste momento, e esta vitória conduz-nos a um outro fenômeno dos dias de hoje e que é muito visível, que é a extraordinária visibilidade de determinadas correntes, sobretudo as mais radicais. Nós, aliás, em Portugal, vivemos neste momento esta coisa absolutamente espantosa desta hiper visibilidade, por exemplo, do candidato André Ventura. Tivemos a hiper visibilidade da protagonista Mariana Mortágua, ou seja, o sistema midiático valoriza muito e dá uma visibilidade extraordinária a estes candidatos, ou a estas personagens políticas, e depois acabamos muitas vezes por ter grandes surpresas nas noites eleitorais, porque aquilo que nós achávamos que existia não era bem aquilo que existe. E creio que neste momento, aqui, em relação à vitória do Mandani no Partido Democrata, eu acho que é particularmente interessante a vitória de candidatos democratas moderados, o esforço que eles estão a fazer para recentrar o Partido Democrata, e é essa a pergunta que eu tenho: em que medida é que esse esforço não pode ficar muito mais difícil com esta vitória de Mandani e com a extrema visibilidade que sai desta vitória?

Pronto, espreitaste o meu caderno e roubaste uma pergunta que eu ia fazer ao Orlando Sá, mas diga, Diana.

Eu ia só acrescentar uma coisa a isso. O Cuomo, com todos os defeitos que tem, com a personagem terrível que é, que ninguém percebe como é que continua a concorrer a eleições, disse uma coisa que é absolutamente verdade.

O problema dele é o que faz, não é tanto o que diz.

Exatamente. Por acaso é verdade. Mas há uma guerra civil no Partido Democrata, e alguns de nós chamam a atenção para essa guerra civil há muito tempo, que muitas vezes as pessoas preferem não ver, porque eu acho que se criou esta aura de que o Partido Democrata podia salvar a América. Podia salvar a América do populismo, podia salvar a América dos extremismos, podia salvar a América de se tornar uma não democracia, podia salvar a América de uma série de coisas. E o que nós nos esquecemos de analisar é que o próprio Partido Democrata tem uma facção que é altamente antidemocrática. E que essa facção agora, devido aos populismos, devido à graça ou à visibilidade que essas personagens excêntricas acabam por ter, no fundo, acaba por trazê-las de alguma maneira ao de cima e acaba por criar para essas pessoas muitos votantes, sem os próprios votantes pensarem bem Quem é que essas pessoas são? São votos altamente emocionais e quase nada racionais. Por um lado, temos o voto no Mandani, que é um voto que está relacionado com a classe média de Nova Iorque, que perdeu poder de compra e que tem o problema da habitação, e que ele diz que vai resolver tudo com medidas que nós percebemos que não vão resolver nada. Mas, por outro lado, quer dizer, há o Mandani personagem. Eu estava agora a dar uma vista de olhos no Instagram, que está cheio de fotografias do Mandani e da sua mulher, que andaram a passear-se ontem em Nova Iorque e a comemorar a vitória, que são uma espécie de estrelas de Hollywood. Muito giros, muito bem vestidos, muito apaixonados. Depois há estas encenações também para as redes sociais e para o mediatismo, que apela altamente ao voto emocional. Na direita também há isto com Trump, de uma maneira completamente diferente.

Aliás, o exercício de poder de Trump nesta altura aponta muito para isso.

Com certeza.

Aquela demolição daquela ala da Casa Branca para fazer um salão de bailes dourado.

Em estilo rococó. Ninguém acha aquilo uma coisa muito normal, mas há toda essa mediatização que também não ajuda. Agora, também há aqui um ponto central e eu termino já. Há, entre os republicanos e os democratas, neste momento, uma luta por aquilo que é chamado a classe operária, que era uma expressão que já não se ouvia há muito tempo.

Então e não é tão bom?

É ótimo, mas eu só estava a dizer que não se ouvia há muito tempo. A classe operária. O que eu quero dizer com isto?

A common people, não é?

Não é só o common people, é mesmo a classe operária.

A working class.

A working class, no sentido em que, pela primeira vez, os maiores sindicatos americanos, ou uma parte dos maiores sindicatos americanos, fizeram o endorsement, apoiaram Donald Trump nas eleições presidenciais, precisamente porque os democratas falharam à working class. E agora os novos candidatos, por muito que a Helena ache que já não são woke, eu continuo a achar que são, mas perceberam que só conseguem continuar ou voltar a ganhar eleições se também falarem para o seu eleitorado natural, que foram perdendo aos poucos para os republicanos, sendo que o culminar dessa perda foi precisamente o segundo mandato de Trump. Portanto, isto também é outro ponto a que vale a pena prestar atenção a partir de agora.

Muito bem, convidámos o Orlando Sá Moes, especialista em Relações Internacionais, para estar conosco aqui hoje, também no Contra-Corrente. Bom dia, Orlando.

Muito bom dia, muito obrigado pelo convite.

Antes de lhe perguntar como é que o Partido Democrata vai analisar esta vitória, eu gostava de o ouvir sobre os resultados. Na sua opinião, foi um voto anti-Trump ou há aqui também mérito do Partido Democrata nestas vitórias?

Muito bom dia. Eu tenho estado a ouvir e, de facto, já foram tocados muitos dos pontos que me parecem essenciais. O candidato capturou esta energia do momento, a esperança das pessoas, tendo em conta também esta curta atenção que as pessoas têm de prestar, às vezes, atenção. E estamos num clima em que houve um entusiasmo, como há um entusiasmo às vezes em torno de tudo aquilo que parece ser muito simples e fácil. Eu acho que, em parte, isso coincide com uma altura, uma fase da história em que estamos, em que a informação, ela própria, está cada vez mais acessível, facilitada, e ele entrou, apesar de ser, grossos modos, conhecido, através das redes sociais e, portanto, fazendo uso das novas tecnologias, enquanto que os adversários fizeram uma campanha um bocadinho mais tradicionalista.

Aliás, há uma grande disparidade até nos orçamentos utilizados na campanha.

Exatamente. E o que condiz, ou pode se sobrepor, precisamente à própria tática e estratégia que ele teve, que como foi dito, e bem, há aqui um traço de quase de estrelas de Hollywood, o cineasta, e que no fundo, vai desde a origem dos Estados Unidos, que muitas vezes os representantes estão mesmo a representar, literalmente, ou seja, também sabem estar e sabem aparecer. Ora, esta campanha foi levada por um certo dramatismo, uma espécie quase de referendo a Trump, por muito que as camadas de poder são totalmente diferentes. Mas também muitas das propostas dele são mais propostas de cariz federal ou até estadual, e que ele conseguiu de facto cativar, também como já foi dito, e bem, os adversários não eram assim tão fortes. E numa altura que as pessoas olham para o futuro, aquela frase do Clinton, que as eleições são sobre o futuro, parecia que o Cuomo vinha muito de trás e com o percurso que já teve, já foi governador 10 anos, o pai dele também já teve funções. Quer dizer, já era um legado, essa dinastia que as pessoas quiseram cortar, isso por vezes acontece. O Trump também pode estar a ser um pouco vítima do próprio dinamismo que incitou na América, de voltarmos a este discurso do nós contra as elites. Bom, agora o Trump também já é um pouco o establishment, também é um pouco representação daqueles que estão no poder e que, além disso, tem vincado muito o seu poder, centralizado e até Tem estas atitudes de convocar a guarda nacional para cima dos estados ou de cidades, o que não era um traço do Partido Republicano, que defendia mais muitas vezes o poder dos estados e até o poder local. E aqui temos um movimento contrário. Concordo com o que foi dito. Por um lado, a política de identidade parece ter sofrido aqui um revés, porque a ênfase foi muito na affordability, que foi a palavra da campanha, portanto, é o custo de vida, que aliás foi abraçado por alguns republicanos. Ramaswamy tem aparecido, que é um dos líderes, até fez parte do governo de Trump, a dizer que mesmo os republicanos têm que repensar a sua estratégia, porque a dimensão económica conta sempre. Ainda bem que a dimensão económica conta, porque em parte pode tornar o debate um pouco mais racional e também servir naturalmente de vacina, como também foi dito ao início, porque isto são medidas que têm o seu custo, normalmente é o chamado custo de oportunidade, ou seja, as alternativas preteridas são muitas e muitas vezes as cidades não são os melhores fornecedores dos bens que querem embaratecer e muitas vezes os efeitos da distorção que é feita no mercado acaba por ser mais pernicioso precisamente para as pessoas comuns. Portanto, aqui temos que dar algum prazo. Apenas antes de terminar, lembrar que ficámos muito espantados em fevereiro com o fenômeno que aconteceu quando analisámos as eleições na Alemanha. Foi a vitória do Die Linke, também de uma extrema-esquerda, em Berlim. As grandes cidades também podem ser um pouco sujeitas a este efeito do discurso diferente capturar a atenção das pessoas, ainda que possa ser uma questão momentânea. E de voltarmos a este discurso da generosidade, dar as coisas grátis, mas também do humanismo, de não sermos os antiimigração, porque de facto o combate às formas de imigração ilegal nos Estados Unidos, que foi muito musculada, pode ter sido exagerada, como também já foi lembrado, pode levar a situações em que parece que a perseguição através da polícia, que aparece armada contra pessoas simples e comuns, pode estar a ir longe demais e isso pode ser visto como uma medida de Trump. E fazer das eleições uma mensagem a Trump, como foi dito, e bem, também pode ajudar nesta ideia do contrabalanço de poderes. Estamos um ano depois da eleição e os eleitores também estão a dar um travão. Mas como foi dito, e bem, ainda bem que há uma boa parte do Partido Democrata que aliás não só não festejou como não mencionou. Gostaria de recordar o Gavin Newsom na véspera, cita que poderá haver possibilidade de grandes vitórias em New Jersey, em Virginia e mesmo na Califórnia, porque o referendo, apesar de tudo, é lançado pelo Partido Democrata, mas ele não menciona Nova Iorque, o que significa que há a divisão que está agora a ser também alvo do nosso debate.

Orlando, desculpa. Deixa-me só fazer uma pergunta, tu estás na universidade, tens contacto com o estudante universitário, o público universitário. Ao falares de Nova Iorque ou ao falares de Berlim, às vezes fala-se que são cidades onde esse público, que eles chamam undergraduates, portanto, os estudantes universitários, têm uma influência muito grande e radicalizada. Em Portugal não é óbvio que seja assim, mas sentes que isso pode também influenciar o espírito de algumas dessas grandes cidades?

Sim, pode. Isso seria uma discussão muito grande que temos que fazer também um dia sobre o que é a ideia de universidade e os seus fins e a maneira como, de facto, as zonas, no caso dos Estados Unidos, é claro, mais democráticas são precisamente as de contexto mais dessas universidades. Ora, também como foi dito, por muito que o contexto seja algo que seja usado até pelo próprio.

É a dissociação, não a doutrinação das universidades.

É, e é que muitas vezes há esta ideia de uma perca de entusiasmo em relação ao mundo ocidental e a absorção de tudo aquilo que lhe pode ser crítico. E este novo presidente de Nova Iorque também consegue fazer-se eleger um pouco por essa via de querer criticar, querer destituir o mundo ocidental. Ele é muito crítico da posição não só dos Estados Unidos, mas do sistema democrático liberal. E o que é facto é que muitas vezes são estas elites intelectuais que guiam as pessoas nesse sentido. As universidades, apesar de serem fruto de uma época medieval, em que, pelo contrário, se tentou avançar precisamente num diálogo entre várias origens plurais, origens daquilo que se chama de mundo ocidental e em diálogo com todos, o que é facto é que neste momento precisa de outro tipo de defesa. Agora, o que é interessante aqui é que não vem das pessoas comuns a expressão dessa arrelia para com o mundo ocidental, vem da parte de próprias elites e muitas vezes também universitárias. É o fenômeno "The Closing of the American Mind", de Allan Bloom, que é muitas vezes citado. É um perigo ao qual temos que estar atentos.

Orlando, Mikie Sherrill ganhou em New Jersey, Abigail Spanberger ganhou na Virgínia. São duas moderadas dentro do Partido Democrata.

Duas moderadas e que aliás falaram em pragmatismo, na vitória do pragmatismo.

E temos a vitória de Mandani, que tem uma visão mais extremista ou mais radical.

Essa sim, mais contrastante, assumidamente socialista, que aliás citou Eugene Debs, aquele candidato cinco vezes a presidente, que era mesmo um grande socialista que nunca teve tração nos Estados Unidos, precisamente por ser a terra das oportunidades, em qual todos gostariam de alcançar uma posição social de destaque e esse sonho que percorria as pessoas fez com que nunca houvesse tração e também a maneira como os Estados Unidos foram vendo o fracasso dessas experiências. E se calhar Nova Iorque não ficará melhor de facto com o Mandani e é o fracasso dessa experiência que pode servir de vacina como chegou a ser dito.

Mas o que lhe parece que o Partido Democrata vai fazer nos próximos meses? Vai tentar tirar partido desta vitória de Mandani e vai entrar dentro de um processo de reflexão, divisão, contestação?

Eu acho que por muito que localmente possam aparecer figuras interessantes e que momentaneamente consigam capturar a atenção, o que é facto é que pode ainda não haver uma figura nacional que depois possa ser definitivamente agregadora. E ainda temos o facto de que as estatísticas até mostraram que a principal divisão nesta eleição até foi mais entre jovens e menos jovens, e os mais jovens votaram Mandani, do que propriamente entre classes sociais. O que significa que o que estamos a ver é que o Partido Democrata mais jovem é também o mais radical. Por parte desse radicalismo, ainda não tem surgido uma figura definitivamente mainstream que possa ser catch all e que possa ganhar umas eleições presidenciais. Mas é algo que ainda estamos a uma distância, ainda precisam de vir as intercalares e precisamos de conhecer um bocadinho melhor os nomes para vermos em que sentido é que o partido vai. Nem sempre é no sentido da moderação que se ganham eleições, infelizmente, porque nos últimos anos temos visto com o fenômeno MAGA que assim não foi, e portanto é difícil estarmos a prever.

Ainda falta algum tempo e também é preciso consolidar a governação de Mandani para perceber o que vale este candidato que conseguiu esta vitória na cidade de Nova York. Orlando, muito obrigado por se ter juntado a nós.

Muito obrigado.

Agradeço ao Orlando Sá Moreira, especialista em relações internacionais. Dou as boas-vindas à Mafalda Prates Fernandes, cientista política, está agora conosco também no Contra Corrente. Bom dia, Mafalda.

Bom dia.

Bom dia. Olhando para os resultados eleitorais de terça-feira, conhecendo como a Mafalda conhece os Estados Unidos, o que foi determinante para estas vitórias democratas nas últimas eleições?

Em primeiro lugar, eu queria só começar por dizer que estas não foram eleições intercalares. Eu acho muito importante acalmar um bocadinho o quão as pessoas estão a interpretar e a sobreinterpretar estes resultados, porque a verdade é que isto foi um ano eleitoral, ou seja, nestes anos eleitorais em que não há eleições, nem presidenciais, nem intercalares, apenas são eleições locais, que aconteceram em anos não típicos eleitorais por diversas razões, mas são eleições que ocorrem em muito poucos sítios. Neste caso, as três eleições mais importantes aconteceram obviamente em estados e em cidades, principalmente democratas, urbanas e democratas. Eu queria apenas começar por dizer que isto não são intercalares e acho que o primeiro grande sinal que nós teremos sobre como é que os Estados Unidos como um todo e o eleitorado como um todo interpretam estes primeiros dois anos da administração Donald Trump, serão para o ano, exatamente daqui a um ano, em 2026. Eu não interpretaria estes resultados como sinalizando uma mensagem do eleitorado nacional em relação a Donald Trump. Agora, é evidente que eu diria que principalmente nos estados da Virgínia e de New Jersey, são mensagens para acalmar um bocadinho os impulsos mais agressivos e mais extremistas da administração. Por quê? Geralmente, este padrão acontece quase sempre. O padrão típico da política norte-americana nos últimos 100 anos é basicamente o seguinte: um presidente é eleito, nos primeiros dois anos tende a ser bastante agressivo e tende a fazer aquilo que eles chamam um overreaching, isto é, sobreestima o quão longe pode ir, o quão pode puxar a sua agenda, sobreestima até um bocadinho o seu apoio, que depois acaba por ser geralmente travado nas eleições intercalares. Os últimos dois anos tendem a ser mais de divided government, portanto das Casas do Congresso e da Presidência mais divididos, enquanto os primeiros dois anos, como são atualmente, normalmente são mais unificados, isto é, pertencem ao mesmo partido. Esse é em geral o padrão que se tende a observar. Estes sinais parecem indicar um bocadinho isso, especialmente nestes outros dois estados que eu falei, muito menos do que em Nova York, que eu considero um caso muito especial e muito específico, que não tem significado nacional, nem é uma mensagem a Donald Trump. E nesses dois estados, principalmente, eu diria, por exemplo, a Virgínia, neste caso, é muito importante porque a Virgínia é basicamente um estado que se divide em dois. O norte da Virgínia é basicamente um subúrbio rico de Washington, DC, é onde vive muita gente com níveis elevados de rendimento, níveis elevados de educação e muitos deles trabalham para as agências federais de topo norte-americanas. Estes são os trabalhadores, muitas vezes são trabalhadores moderados, não são trabalhadores extremistas, nem do ponto de vista republicano nem democrata, e são trabalhadores federais que não gostam daquilo que está a acontecer agora, que é um government shutdown. Já estamos no período mais longo de sempre de um government shutdown e são eleitores que provavelmente não apreciaram muito e não apreciam muito esta situação em que estamos agora. E por outro lado, o sul da Virgínia é basicamente já um estado do Sul e há esta combinação um bocadinho sui generis do estado e eu acho importante aqui também dizer que na Virgínia, que apesar de há uns anos era um swing state, atualmente já não é um swing state, é um estado mais democrata e este resultado não é muito surpreendente, apesar de em 2021 os republicanos terem conseguido uma importante vitória com o cargo de governador e foi uma vitória republicana baseada em duas coisas, muito baseada Nos encerramentos das escolas durante o Covid, foi uma eleição em 2021, e também nas mudanças de currículos. Esse candidato republicano de 2021 fez muito uma campanha baseada nas acusações de que os currículos escolares estavam um bocado demasiados extremistas, demasiados ideológicos, etc. E foi por isso, essencialmente por esses dois fatores, que houve essa importante vitória republicana em 2021. Mas em 2017 tinha ganho um democrata e isto é um estado mais moderado, digamos assim, e não é muito inhabitual o que aconteceu. Agora, é verdade que as duas senhoras que ganharam, quer na Virgínia, quer em New Jersey, são a ala moderada do Partido Democrata e eu temo, aposto que há muita gente a dizer isso, e eu não tive a oportunidade de ouvir o início do programa, mas provavelmente a Helena ou a Miguel já disseram isto, eu temo que haja um erro de interpretar Mamdani como o futuro do Partido Democrata, quando a nível nacional, as outras duas senhoras são muito mais o tipo de partido que conseguirá apelar de novo a uma maioria nacional. Eu vou só dar aqui um exemplo, são ambas mulheres muito educadas e são mulheres que vêm do setor da segurança nacional. A da Virgínia é uma ex da CIA e da New Jersey é da Navy.

Da Marinha. Ela foi pilota de avião, se penso eu.

Exatamente, da Marinha.

Não é uma brincadeira.

Não. E o que isso também significa? Significa que ambas fizeram campanhas muito pragmáticas, muito centristas e estes backgrounds dos candidatos acabam também por sinalizar uma certa moderação que, por exemplo, um candidato como Mamdani sinaliza justamente o contrário. Eu diria que para captar o tipo de eleitorado mais nacionalizado, e que dá para, por exemplo, ganhar estados "swing states" nos vários sítios do país, estas duas senhoras são muito mais o tipo de candidato que consegue uma vitória. Mamdani, eu sou um bocadinho cética sempre em relação a estes fenómenos muito repentinos. Acho que, em primeiro lugar, a vitória de Mamdani é uma vitória relativamente curta. Nós não podemos esquecer que os últimos dois mayors de Nova York ganharam com 66% dos votos democratas e ele apenas ganhou com 50%. Nós estamos a falar de, só para ter uma ideia, uma queda de 16 pontos percentuais em relação quer a Eric Adams, quer a Bill de Blasio, que foram os últimos dois mayors democratas. Isto mostra logo que ele não é um candidato com um apoio tão largo dentro do Partido Democrata como se pode pensar por esta onda mais excitante, mais pop, que acaba por nas redes sociais vingar, e também pela juventude do candidato e tudo isso.

É uma pop star, Mamdani.

Claro, e isso obviamente acaba também por emocionalmente captar muita gente. Mas é preciso ver que, obviamente nós não temos este contrafactual, na minha perspetiva, dada a diferença que eu faço entre o Cuomo, que era um candidato com imensos problemas, é um candidato com 11 acusações de assédio sexual, é um candidato muito desgastado, percepcionado como do establishment, um bocadinho corrupto. Se tivesse havido um candidato independente da ala centrista do Partido Democrata, eu apostaria que esse candidato teria ganho e não Mamdani. Eu acho que também se deve um bocadinho ao fato do opositor principal ser uma pessoa com tanta bagagem negativa. E depois é preciso ver também que o mayor de Nova York não tem poder a nível nacional, não tem um orçamento assim tão grande e eu não sei até que ponto é que estas políticas todas mais radicais conseguem ser implementadas ao nível local. Eu sou muito cética em relação a isso. Pode resultar concorrer candidatos destes em alguns distritos muito específicos, urbanos, jovens dos Estados Unidos, mas isto não é um partido nacional, não é? É preciso ter sempre isso muito em conta e também por isso é que eu queria pôr um bocadinho de água na fervura e esperar pelas próximas eleições intercalares.

Mafalda, mas há uma das coisas que acontece muitas vezes nos Estados Unidos, aconteceu, aliás, é o que leva Trump ao poder, que é o fenómeno das primárias. As primárias tendem a radicalizar os partidos. E nas primárias, como votam poucas pessoas, por comparação com a votação global, podem aparecer muitos Mamdanis a perturbar as primárias dos democratas um pouco por todo lado, ou não?

É verdade que há essa suspeita há muito tempo e há muitos acadêmicos que também já propuseram isso, que o sistema de primárias ajuda ou facilita. As pessoas que votam em primárias são pessoas geralmente ideologicamente mais convictas que o eleitorado geral, que é mais centrista, mais moderado, presta menos atenção à política, e tendem a ter elevados graus de participação, de ideologia, de doutrina, e acabam por muitas vezes escolher candidatos como Donald Trump ou como Bernie Sanders ou Mamdani. Eu diria que a nível nacional, em geral, se houver um candidato suficientemente bom da ala centrista do Partido Democrata, acabará por ganhar. E acho que, apesar de tudo, há muito eleitorado democrata no país todo que não é tão radical e que não votaria para uma pessoa como Mamdani ou Alexandria Ocasio-Cortez. São figuras muito polarizadoras, não apenas para o eleitorado republicano, mas também para o eleitorado mais centrista.

Achas que ela vai candidatar-se à presidência?

É possível. Muita gente diz, e é verdade, eu diria que o primeiro Caminho, antes disso seria candidatar-se a senadora de Nova Iorque em 2026 ou 28, não sei agora de cor qual é que é a data. Isso, apesar de tudo, se calhar seria mais possível, mas não há dúvidas que ela é uma pessoa com ambições nacionais.

Anda a fazer comícios pelo país todo.

Exatamente.

Encher de gente.

Isso é evidentemente uma tentativa de Bernie Sanders tentar passar o bastão, digamos assim, porque já está muito idoso, e tentar passar o bastão. Mas a verdade também é que Bernie Sanders é uma pessoa mais especial que Ocasio-Cortez neste sentido. É uma pessoa que vem da América rural, que durante muitos anos teve um discurso antipartidos, ele não era membro do Partido Democrata, é uma pessoa que, por exemplo, se defendia no Vermont, etc. Há mais a ideia de que ele chega mais facilmente.

E porventura com uma base sindical, uma base de ligação aos sindicatos maior.

Exatamente. Mas também chega mais facilmente à diversidade de eleitorado que há nos Estados Unidos e ao eleitorado mais rural. Eu acho que é muito difícil que uma candidata como a Alexandria Ocasio-Cortez, que é uma candidata muito urbana, consiga captar tanto eleitorado por todo o país. Agora, claro que não há impossíveis. Claro que em 2007 ninguém pensava que Barack Obama ia ganhar no Iowa ou em 2016 ou 2015 ninguém achava que Donald Trump iria conseguir a nomeação. Não há impossíveis, obviamente, mas eu sou mais cética e acho que apesar de tudo, o Partido Democrata, tendo o eleitorado nas primárias, se houver candidatos suficientemente bons, obviamente que se o talento político estiver do lado mais radical, pode acabar por acontecer e isso obviamente seria um bocadinho dramático, que ambos os partidos escolhem candidatos das alas muito extremistas, mas infelizmente parece que é um bocadinho esse o caminho que o país está a seguir.

Há essa tentação, não é?

Sim, claro. De responder a ações extremistas de um partido com mais extremismo. Eu vou dar um exemplo. Nestas eleições houve também aquela proposta do governador Gavin Newsom de tentar redesenhar os mapas eleitorais na Califórnia para conseguir fazer mais cinco lugares democratas. E isto foi diretamente em resposta ao fato de no Texas terem feito isso e terem redesenhado os mapas para tentar mais cinco lugares republicanos. O que acontece? Na Califórnia era preciso ainda votos porque a Constituição não permite esse tipo de revisões, mas ganhou. Isto é um ciclo vicioso, não é? As sondagens que existem em nível nacional é que a maior parte do eleitorado é contra aquilo a que se chama o "partisan gerrymandering", é contra esta ideia de que os políticos devem, no fundo, fazer o mais de redesenhar os distritos ao máximo para maximizar os seus lugares, e não gostam deste tipo de coisas. Mas o que acontece é que neste ciclo vicioso, uma pessoa pensa: "Se eles estão a redesenhar para conseguir mais cinco lugares, eu vou também redesenhar para conseguir mais cinco lugares", e entramos neste ciclo vicioso, sendo muito complicado de sair dele. Acho que apesar de tudo, vai haver mais candidatas como as duas governadoras que ganharam em New Jersey e na Virgínia em 2026 do que como a Mamdani, mas evidentemente isso é simplesmente uma previsão, pode estar errada, mas é a minha perspectiva. E também acho que é importante que comecem um bocadinho as gerações mais novas. Isso também já aconteceu com J.D. Vance, todas estas pessoas entraram na política recentemente, já depois de 2015, 2016. E é importante porque o Partido Democrata tinha as principais figuras já muito desgastadas, muito idosas. Os Estados Unidos têm a idade média dos representantes mais elevada das democracias avançadas, e é importante que esta renovação geracional aconteça, até porque eu suspeito que parte, por exemplo, da excitação com um candidato como Mamdani consegue, é o fato de o eleitorado mais jovem sentir-se muito cansado. E também diria mesmo até alguns fenômenos que existem do lado do Partido Republicano, porque o eleitorado mais jovem sente-se muito cansado destes representantes desta mais velha guarda que estão há muitos anos lá e que não vão sair de lá, porque demora muito tempo até que isso aconteça.

Não há limitação de mandatos.

Exatamente, não há limitação de mandatos.

Exceto para o presidente.

Sim.

Mafalda, obrigado.

Sim. Claro.

Agradeço, Mafalda Pratas Fernandes, por ter estado aqui conosco no "Contra Corrente". José Manuel, o que fica deste resultado? O que aqui vem na política americana? Trump, nomeadamente, o que ele vai fazer?

Eu acho que Trump vai ser Trump, quer dizer que vai cortar o dinheiro todo para Nova Iorque, mas isso é Trump a ser Trump.

Que também não consegue. Há muitas decisões que vêm do Congresso, não é?

Há decisões que vêm do Congresso, há outras decisões que são mais discricionárias e para todos os efeitos, mesmo o dinheiro nos Estados Unidos está muito descentralizado. Estamos a falar apenas daquilo que são fundos federais, e a maior parte deles, não direi todos, mas cada vez há mais agências federais com intervenção no terreno. Estamos a falar de coisas que podem ser temas de infraestrutura. Há muitos problemas infraestruturais em todos os Estados Unidos e em Nova Iorque também, mas muitas das coisas dependem da Câmara. Os partidos nos Estados Unidos são coligações em todos os sentidos, e são coligações não apenas do ponto de vista das várias sensibilidades ideológicas, como são coligações sociais, e estas coligações estão sempre a mexer-se. É por isso que o partido do fim da escravatura, que foram os republicanos, transformou-se mais tarde num partido que tinha um lado mais racista do que os democratas, sendo que os democratas do Sul eram mais racistas que os republicanos. Isso é uma espécie de girândola que vai sempre andando à volta e virou agora para o partido das elites, que eram os republicanos, transformar-se no partido das classes populares brancas. E o partido que às vezes é um partido de jovens, torna-se no partido dos verdes, isto vai girando. Vamos ver o que é que vem a seguir, porque estas coligações fazem-se e desfazem-se muito facilmente.

Diana Soler.

Duas coisas muito rápidas. A primeira é: esta eleição teve também importância porque Donald Trump a nacionalizou. Donald Trump foi o maior adversário de Mandani, fez questão de ser o maior adversário de Mandani, comentando tudo aquilo que aconteceu e fazendo questão de dizer que os republicanos só ganhavam quando tinham o nome de Trump no boletim. Portanto, o partido republicano sou eu.

O New York Times hoje escreve um artigo, cita Donald Trump através de uma fonte confidencial. Aparentemente, Donald Trump considera Mandani um slick and good talker, um astuto e bem-falante político.

Sim. E depois há outra coisa que eu gostava de dizer, que é muito importante, que é: o sistema político-partidário norte-americano não tem liderança, não há um secretário-geral do partido. E portanto, quando o partido não ganhou as presidenciais, como é o caso dos democratas, a menos que alguém, informalmente, como Trump fez relativamente aos republicanos, tome conta do partido, ficam os partidos um bocadinho à deriva, à espera das próximas primárias em que alguém se torne o líder do partido outra vez. E portanto, eu acho que os democratas também estão a padecer de falta de liderança. E por isso estas presidenciais que aí vêm, as primárias das presidenciais, essencialmente, vão ser importantíssimas, porque os democratas ficaram sem líder. Biden já não tem capacidade e Kamala Harris foi de tal forma derrotada que já ninguém acredita nela.

Ela, pelos vistos, acredita.

A própria, é a única. Eu sei que ela escreveu um livro a lamentar-se de tudo o que aconteceu e que a culpa não era dela, era do Biden e tudo mais alguma coisa. E portanto, ela até se pode candidatar outra vez, disse a própria, mas eu não acredito que alguém acredite em Kamala Harris para o futuro dos Estados Unidos. Ela falhou e falhou redondamente, quer se goste, quer não. Agora, estas primárias têm esta particularidade: quem for eleito candidato a presidente pode vir a tornar-se, além de presidente, o líder informal dos democratas. E isso determina nos próximos anos vazio de poder dentro dos democratas e depois uma total incógnita sobre quem é que vai e que fação é que vai governar os democratas daqui para a frente.

Muito bem, Diana Soler, agradeço-lhe ter estado no "Contra a Corrente".

Obrigada.

Chamo-me Manuel Fernandes e Helena Matos, temos encontro marcado para amanhã. Até amanhã.

Até amanhã.