Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Olá, eu sou José Manuel Fernandes. Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio online e também em FM, 98.7 na Grande Lisboa, 98.4 no Grande Porto. Bem-vindos a 2022. Bem-vindos também a mais um "Conversas à Quinta. Hoje vamos falar do Partido Comunista Chinês e do Partido Comunista Chinês na era de Xi Jinping. O Partido Comunista Chinês está a terminar o largo ciclo de comemorações do centésimo aniversário da sua fundação. Isso foi também pretexto para o lançamento de um documento considerado fundamental, um documento feito pelo Comitê Central sobre as orientações gerais. Estes documentos são relativamente raros na história do Partido Comunista Chinês. Há memória de um feito em 1945, ainda antes da chegada ao poder, sob a liderança de Mao, mas numa altura já de ascensão, estava a Segunda Guerra Mundial a terminar. E depois há um outro de 1981, época de Deng Xiaoping, grande viragem na orientação da China para o modelo atual. E agora, no centésimo aniversário, temos este documento que de alguma forma pode querer significar que vamos ter, não sei como é que lhe chamaram, um "xiismo", um "xiipinguismo", qualquer coisa desse género, porque de facto Xi Jinping é provavelmente o dirigente comunista chinês com mais poder depois de Mao e de Deng Xiaoping, sendo que formalmente Deng Xiaoping nunca teve inclusivamente tanto poder como Xi Jinping tem hoje. Jaime Gama, podemos falar de um comunismo, se é que ainda podemos usar esta palavra, à la Xi Jinping?
É muito interessante até assistir ao que tem sido o debate na China e a construção de uma filosofia abrangente para justificar essa tradição do Partido Comunista Chinês de fórmulas enigmáticas, um pouco na linha de Confúcio, mais para trás. E estes grandes documentos mais não fazem do que reescrever a história para resolver disputas presentes e perspetivar o poder no futuro. E, na verdade, praticamente todas as guerras acabam na pequena disputa dos manuais de história e do texto dos livros de história. E o Partido Comunista da China também não escapa a isso. E no texto que foi aprovado no ano passado, em 2021, na verdade, Xi Jinping já tinha conseguido, em 2018, duas coisas importantes. Primeiro, banir da Constituição da China a possibilidade de uma terceira eleição do Presidente da República, e em segundo lugar, introduzir, quer nos estatutos do partido, quer na Constituição, na própria Constituição da República Popular da China, a noção de pensamento de Xi Jinping. Isto quer dizer igualá-lo a Deng Xiaoping e a Mao Tsé-Tung. Mas até mais recentemente, neste último texto, bem se pode dizer que há como que já Xi Jinping a descolar do próprio Deng Xiaoping. Já não há uma igualização dos três, há quase que um mitológico Mao, Xi Jinping e Deng Xiaoping.
Sendo que Mao é alguém que é mantido em formol, praticamente, não é?
Sim, é mantido como um vértice fundador, um pouco imaterial, é muito espiritualizado e muito também centrado em duas coisas. Em primeiro lugar, em afirmar uma originalidade própria do comunismo chinês, isto para se demarcarem dos soviéticos, dos russos, mas também de Marx. E, por outro lado, para articular tudo isso com a fundação da República Popular da China em 49. Aliás, estes dois centenários vão se ligar, vão convergir historicamente o centenário do partido e o centenário da República Popular da China. E Xi Jinping aparece aqui como alguém que leva a China mais longe, alguém que tranquilizou o Partido Comunista da China, que tem vindo a ganhar progressivamente uma posição de centro do Partido Comunista da China, de centro do Estado chinês sob a liderança do Partido Comunista e até de centro da própria China. Portanto, no próximo congresso do partido, que é em outubro deste ano O Xi Jinping vai ser sagrado imperador da China, porque ele não tem, contrariamente aos seus antecessores, designado nenhum sucessor. E era uma tradição na China o sucessor ser designado. Ele não tem nenhum challenger efetivo. Pode haver pequenas variações, mas a equipe vai se manter. E todos os rituais são rituais de centralização de poder, são rituais de consagração de uma figura vértice e de uma figura vértice que lidera uma China que quer liderar o mundo. Por isso, nestas frases emblemáticas dos documentos do Partido Comunista da China, há a ideia que se pretende dizer que até 1921, nós nos concentramos de fazer da China um país moderadamente próspero, mas em 49, em 2049, quando celebrarmos o centenário da República Popular da China, nós seremos uma nação completamente desenvolvida, rica e poderosa. Ou seja, Xi Jinping é o vértice desta mudança histórica. E a própria noção, isso é que é interessante e podemos analisar mais à frente, a própria noção de comunismo chinês é uma noção que dilui um pouco o que é a noção de comunismo clássica. Aliás, há um filósofo que gravita na órbita deste pensamento oficial, que é Jiang Qingong, que tem teorizado isso dizendo: "Marx, pois bem, Marx deu-nos o materialismo histórico, mas Marx tem uma visão de um comunismo judaico-cristão, de uma utopia, enquanto o comunismo chinês incorpora também o confucionismo e é um comunismo imanente, ligado hoje à noção de boa governação e de felicidade do povo, já não tanto à noção de luta de classes, nem de aspiração por algo utópico". Portanto, há uma teorização que envolve estas evoluções conceptuais que tem muito de arrogância, ou tem muito de noção de superioridade sobre este modelo chinês, que até há poucos anos os comunistas chineses achavam que podia ser posto em causa, por exemplo, com a liberalização econômica de Deng Xiaoping, mas que agora já veem como algo que também pode competir no plano mundial com outros sistemas políticos, designadamente com aquilo que chamam o individualismo liberal e que veem tipificado na crise do sistema político americano, que eles também exploram, por exemplo, com o assalto ao Congresso que foi feito no período do Donald Trump. Portanto, há aqui a construção de um pensamento de justificação do regime que se socorre de pensamento não marxista para, no fundo, justificar um poder absoluto, um poder total, um poder muito grandioso até no plano internacional.
José Megre Pinto, este aspecto que o Jaime Gama referiu, que é invocar um pensamento não marxista, não é totalmente original do ponto de vista do comunismo chinês. Talvez do ponto de vista formal, esse passo não tivesse sido dado com esta clareza, mas houve sempre a ideia de que a via chinesa era uma via diferente e que, portanto, inclusivamente a ortodoxia do modelo soviético não se aplicava à China, e isso é algo que vem já do tempo de Mao Tsé-Tung.
Sim, isso também nasceu de uma certa, no princípio, não há dúvida que no princípio, Mao Tsé-Tung está muito reverente com Stalin e com o comunismo soviético, mas desde logo, desde a sua primeira visita à própria União Soviética nesse tempo, Stalin tratou-o com algum desprezo, marginalizou. E também há sempre aqui um problema que nós nunca podemos deixar de pôr de pé, que é a questão das rivalidades nacionais entre modelos políticos que são afins ou que até são idênticos. Modelos políticos e ideológicos, nós temos isso no chamado mundo livre, temos isso. E também acabamos por ter no mundo do comunismo. Aliás, num dado momento, Mao Tsé-Tung desenvolve mesmo a China de Mao, desenvolve mesmo até uma rivalidade forte com a União Soviética.
Aliás, que seria até que poderia ser aproveitada por Nixon e Kissinger.
Exatamente, foi muito bem aproveitada, aliás, por Kissinger e por Nixon, mas não há dúvida que isso existia. Ora bem, aqui há uma coisa curiosa, porque o Xi Jinping procura, por um lado, aliás, é muito interessante, ele por exemplo, quando faz uma crítica Ele fala porque ele é um homem que enfrenta bastante, não ilude as questões. Portanto, ele sabe que uma das questões que foi grave e que eles, chineses, tentaram e conseguiram evitar a todo custo, e o Deng Xiaoping estava muito atento a isso, e por isso mesmo houve aquela brutal repressão de Tiananmen, era irem pelo caminho dos soviéticos, ou seja, o caminho de Gorbatchov.
O caminho da glasnost e da perestroika.
E o caminho da União Soviética. E é muito interessante, porque o Xi mostrou e tem um discurso específico sobre isso, que ele pergunta por que a União Soviética se desintegrou, por que o Partido Comunista Soviético se integrou? E ele acusa exatamente. Ele diz que houve uma abertura e uma discussão intensa em que tudo foi posto em causa, nomeadamente, foi posto em causa, e ele diz isso com tom censório. A história do Partido Comunista, foi renegado Lenin, foi renegado Stalin, criou-se um clima que ele aliás fala de niilismo histórico. Os órgãos do partido perderam as suas funções, os militares deixaram de estar submetidos à liderança do Partido Comunista. Ele apresenta muito isso, depois é muito interessante para comparar com os princípios dele, porque ele faz um diagnóstico da queda do
Do comunismo soviético.
Do Partido Comunista e da dissolução da União Soviética. E depois, se nós formos ver os seus princípios, os 14 princípios, ele tem cuidado exatamente em sublinhar, embora ele ponha uma linguagem também em parte politicamente correta, que diz que é para o bem comum e para o desenvolvimento das pessoas, mas nas coisas importantes, ele tem cuidado de dizer, por exemplo, que o Partido Comunista tem que ser o líder de tudo o que se fizer.
Mas não é infalível. Reconhece, ao menos, os erros. É uma coisa curiosa.
Sim.
Utiliza também aí uma linguagem diferente do que era clássica.
A linguagem, a questão da ideia, o assegurar que o Partido Comunista Chinês terá que ter sempre a liderança, é o primeiro ponto. E depois outra coisa, claro, que ele depois dá umas coisas mais politicamente corretas. Ele diz: "Ah, mas o Partido Comunista deve centrar-se sobre a questão do povo e do interesse público, etc." E depois aprofundar as reformas, e depois as coisas sobre a ciência, e depois a história do socialismo com características chinesas, que é aquele regresso às coisas confucianas, a invocação do Confúcio. Curiosamente, há um crítico qualquer que eu li agora por causa desse nosso programa, um chinês, penso que é um chinês, claro, que não vive na China, senão não diria essas coisas. Mas é um chinês que vive ou em Londres ou nos Estados Unidos, um desses sítios, e que diz com muita graça que se o Confúcio fosse ver estes princípios, não os acharia nada ligados ao confucionismo e se o Marx também os fosse ler, também não os acharia nada marxistas.
Sendo que no tempo da Revolução Cultural, Confúcio era uma das grandes alvos a abater, não é?
Vítimas, exatamente.
O Mao queria romper com Confúcio e com a herança de Confúcio.
Exatamente, porque era uma coisa considerada conservadora e tudo isso. Eu acho que aqui também há uma questão que eu acho que Xi Jinping, que tem, de fato, uma ambição de ser o senhor todo-poderoso da China, também pensou, e penso que ele tem condições e cabeça para isso, que tinha que também inovar ideologicamente. Aliás, não há nenhum líder destes que marcam e que ficam como marcos, mesmo nestes governos, neste mundo totalitário, que não tenha depois uma grande preocupação de contribuir para a teoria geral das coisas. Essa é uma preocupação que todos eles mostraram. O Deng Xiaoping, curiosamente, nisso não teve tanto essa preocupação, fazia uns discursos, mas o Deng foi sempre um homem que preferiu governar e mandar na sombra. Nem sequer exerceu oficialmente, tirando ser numa altura que foi, penso eu, presidente da Comissão Militar.
Exatamente. Presidente da Comissão Militar.
Ficou lá no standing committee do partido, mas fora disso nunca quis. Ao passo que o Xi, pelo contrário, o Xi tem todos os cargos, praticamente. É presidente, é secretário-geral, é presidente da Comissão Militar.
Eu penso que tem mais cargos, inclusivamente, que alguma vez teve o próprio Mao Tsé-Tung.
Sim.
Não diz se tem exatamente mais poder, mas tem mais cargos.
Tem para aí uma dúzia de cargos. Eu naquele meu livro da hegemonia estive a ver isso, e é impressionante. Praticamente não há nenhum cargo importante, quer na estrutura do partido, quer do Estado, que não seja ele o centro. Portanto, esta ideia também de ir buscar uma teoria, ser um teorizador, ter o seu pensamento, eu penso que é uma coisa que ele também entende, e com razão, que lhe dá força, que o enobrece do ponto de vista do partido. E ele, nesse aspecto, tem tido muita cautela, quer impondo-se como Líder definitivo e único, quer punindo as dissidências. Penso que agora haverá essa revogação, essa alteração, que penso que até já foi feita, dos mandatos pra ele ser entronizado de uma forma que pareça respeitar a ideia de liderança coletiva que têm sempre esses partidos, mas penso que esse é o objetivo.
Jaime Gama, uma das questões interessantes na forma como este documento é redigido, é a forma como ele procura, como aliás referiu, olhar pra história. Não é olhar apenas pra história do Partido Comunista Chinês, é olhar pra história da China e para aquilo que vai ser o lugar da China no mundo. Porque isso faz parte de todo o discurso deste poder de Xi Jinping, que é recolocar a China no mundo. Não é apenas recolocar a China como país do comunismo num só país, digamos assim. É um lugar diferente.
Sim, é no fundo a noção, e isso é objeto também de estudo nas escolas políticas da China, de que o destino da China é ser um império. E que a ordem mundial global deve ser estruturada com base em impérios, e o império da China tem aí um lugar. Portanto, isso é nítido. E é interessante ver também, isso é um ponto importante. Este ano vai haver os Jogos Olímpicos de Inverno e depois vai haver o congresso do Partido Comunista da China, quando houver as eleições para o Congresso dos Estados Unidos, e essas comparações vão jogar. Mas estes últimos documentos também se viram. Depois de um grande esforço que foi feito para mostrar a força e a capacidade militar, se nós analisarmos aquilo que são os suportes da mensagem, por exemplo, de Ano Novo, Xi Jinping, os filmes de boas festas da propaganda chinesa, agora é muito puxada pra frente as vitórias da China no desporto, as vitórias da China no espaço, no aeroespacial, a nova responsabilidade da China no ambiente. E também, o que é muito interessante, o papel dos cientistas e dos jovens na construção dessa China moderna e poderosa. E a noção de que há problemas concretos das famílias e das populações que ficaram por resolver e por isso que é fixado como objetivo atingir o vasto e o grande, mas também ser capaz de tocar no que é delicado e no que é mais minucioso, mais pequeno. Por isso, Xi Jinping, nas suas mensagens, sobressai o fato de visitar casas de família, de ter ele próprio vivido no campo e saber o que é a pobreza. Portanto, a noção de que a homogeneidade social na China é, neste momento, um fator importante para poder prosseguir, que a governação tem que se dedicar.
Já não são apenas as zonas especiais, criadas por Deng Xiaoping, é necessário levar a prosperidade ao povo todo.
No espaço mesmo. E depois esta noção de que vamos agora para o sonho. O Xi Jinping há uns anos atrás falava do "Chinese Dream", o grande sonho da China, mas agora é o grande sonho chinês de rejuvenescimento. E, portanto, a mensagem não é só a mensagem de Xi Jinping à China, é Xi Jinping como o intérprete da dinâmica do povo chinês associado a essa transformação. Isso está muito em sintonia com a filosofia política que rodeia o regime na atualidade, de que a China tem uma constituição formal, mas tem uma constituição não escrita. E que essa constituição não escrita é dada pela sociedade, que organizada em Estado, assume uma dimensão ética sob a liderança do Partido Comunista da China. O Partido Comunista da China é o motor da constituição não escrita, e Xi Jinping é o coração desse motor, se assim se pode dizer. Portanto, há aqui uma fundamentação da legitimidade do sistema, que é muito crítica em relação ao niilismo liberal, ao criticismo, à decadência das sociedades liberais, contrapondo os méritos da China por virtude de um sistema centralizado, que tem o seu destino no plano internacional, transformando-se em império. Por isso a sedução dos chineses hoje por autores como Carl Schmitt, pelo próprio Nietzsche, por Foucault, por Gilles Deleuze, por tantos outros que são repescados em antologia bem selecionada para o efeito a que se pretende Como suportes doutrinais desta construção de uma teoria política do poder centralizado, do poder vertical, da hierarquia, da disciplina, do comando único. Porque vamos ver, Deng Xiaoping está aqui muito em crítica. Deng Xiaoping foi o homem de uma reforma econômica, do socialismo de mercado, e libertou forças na sociedade chinesa, mas essas forças hoje têm vindo a ser aquilo que mais faz questionar o Partido Comunista da China quanto à capacidade da sua liderança em relação ao conjunto do país, até por contraposição com o que se passou com o Partido Comunista da União Soviética. Portanto, como fazer do Partido Comunista da China um partido liderante nesta nova sociedade, que tem ciência, que tem tecnologia e que não é a sociedade de que falavam Engels ou Marx ou o próprio Lenin e o próprio Stalin. É algo de mais avançado. E também o desafio da integração de Hong Kong e possivelmente também depois de Taiwan, seria essa a perspectiva. Será que isto vai significar reforma econômica Deng, mais integração de Hong Kong, o desmantelamento da hegemonia do Partido Comunista na sociedade chinesa do ponto de vista do coração do poder político. E Deng vai dar uma resposta de confiança aos comunistas chineses, dizendo: "Nós vamos para a frente porque vamos incorporar aqui as tecnologias, a ciência, a capacidade militar, a inovação, mas vamos manter aqui o Partido Comunista a comandar isto tudo". Por isso é que ele foi centralizando o poder, foi construindo, primeiro de uma maneira sócia, agora de uma maneira mais ostensiva, um culto da personalidade, e por isso vai ser essa sua terceira reeleição, sem possivelmente ter que designar um sucessor, um horizonte de vida política muito extenso. É certo que isto provoca problemas, porque as gerações mais novas também vão ficar aqui sem acomodação, mas isto é coesivo. E também há a parte militar, a componente militar neste projeto global, como é que intervém nas questões que vão desde as ilhas em disputa com o Japão, até ao mar do Sul da China. Guerra de montanha com a Índia, com tudo o que se passa quanto à ação de pressão sobre Taiwan, as medidas da autoridade sobre Hong Kong, as medidas muito duras sobre o Xinjiang e também sobre o Tibete. Ou seja, há aqui esta centralização, até em matéria econômica, sobre as companhias tecnológicas, sobre os grandes grupos privados chineses, a utilização da inteligência artificial como um sistema de informação em permanência para controlar o fluxo dos dados e, ao mesmo tempo também, os investimentos nessas companhias e dessas companhias. Portanto, há aqui uma operação que representa uma viragem do Partido Comunista da China com a tentativa de criação de uma nova doutrina, pensamento Xi Jinping, que está muito longe daquilo que era a visão utópica de um comunista chinês quando estava nas grutas ou caverna Yan'an, que pensava numa sociedade igualitária feita toda na base de camponeses pobres.
José Manuel Grapião Pinto, esta nova visão de Xi Jinping pode pôr em causa os equilíbrios regionais e mais do que regionais, até mundiais? Esta ambição imperial, esta noção de que a China tem que ser um império.
Vamos lá ver. Há aqui uma coisa que eu creio que é bastante interessante e importante. No Ocidente, na sequência da morte de Mao Tsé-Tung e da derrota do grupo dos quatro por Deng Xiaoping, com o apoio dos militares, tudo isso, houve, de certo modo, um certo alívio no Ocidente e depois a abertura manifestada, digamos, quer economicamente, com as zonas econômicas especiais, quer a redução do terror, que também temos que reconhecer que foi muito substancial. Quer dizer, de facto, o maoísmo e sobretudo naqueles últimos anos da revolução cultural, tudo aquilo parecia uma nave dos loucos, dos doidos, mas com custos humanos terríveis. Portanto, o fim disso foi e bem julgado com um certo otimismo e até com uma certa simpatia no Ocidente. Depois, houve a repressão de Tiananmen, que de certo modo foi um balde de água fria e foi o porre bem claro que, de maneira nenhuma, o Partido Comunista Chinês ia abdicar da sua liderança ou ia pôr em causa, de facto, o seu comando da sociedade. Entretanto, um bocadinho por causa das teorias que nós temos no Ocidente e as teorias mais ou menos otimistas, começou-se a dizer: "Não, isto vai acontecer como aconteceu nas nossas sociedades no século XIX, a abertura econômica no século XVIII e XIX, a abertura econômica vai acabar por obrigar, vai acabar por arrastar a abertura política".
Tínhamos a noção de que com uma classe média, a classe média ia ser mais exigente.
Sim, as classes médias querem liberdades intelectuais, etc. Só que não se pensou, quer dizer, isso por acaso podia-se ter pensado, porque embora tivesse sido uma experiência relativamente muito curta no tempo A experiência do nacional-socialismo alemão era exatamente o totalitarismo político numa sociedade que, do ponto de vista econômico, embora tivesse um certo dirigismo, continuava a ser uma sociedade com uma economia autônoma, com grandes empresas, com igrejas, com tudo isso. Portanto, não se pensou nisso. E é evidente que os líderes, quer o Jin Tao, quer Jiang Zemin, foram, de fato, líderes que conduziram muito àquela ideia da China, grande máquina do mundo, grande fábrica do mundo, enfim, já não só apenas uma fábrica do mundo, mas também um grande investidor nas próprias sociedades ocidentais, etc. E, portanto, houve um acomodamento de que a China seria, de certo modo, com certeza, que agora ia passar a ser uma potência, apesar de tudo, como as outras. Eu acho que a chegada de Xi Jinping, e talvez ele exprima movimentos mais fortes dentro do próprio partido, embora hoje ele, de fato, seja clarissimamente um líder, mostrou que isso não é assim. Mostrou que, de fato, um: o Partido Comunista e o poder político comandam efetivamente a sociedade e a economia, e até vimos, de uma forma curiosa, como o Xi Jinping teve o cuidado de punir, enfim, não com penas de morte, mas com uma humilhação profunda, alguns magnatas que acharam que pelo fato de serem poderosos e ricos, etc, que já se podiam permitir criticar algumas franjas do poder. Ele foi e fez isso com o Jack Ma, por exemplo, fez isso com um dos antigos dirigentes da Fosun também. Depois, a questão que pra mim é a questão talvez mais importante, que é a questão, e em que a China, de fato, avançou, aproveitou a confusão da pandemia e as regras da pandemia para, de certo modo, acelerar a imposição do sistema de direção central, quer em Hong Kong, quer mesmo em Macau, que não se fala, mas que enfim, também não houve grandes resistências. E resta agora uma coisa que é muito importante e que me parece que é um teste complicado e perigoso, ou seja, que é a questão de Taiwan, porque não há dúvida que a nova administração americana, aliás, como a antiga, e não houve diferenças da passagem de Trump para Biden. A diferença foi talvez uma diferença de método, de conversar, falar mais disso, mas não há dúvida que há uma consciência forte de que a China é um poder ascendente e que pode querer impor também o seu modelo ao mundo. E, portanto, os Estados Unidos, quer por razões de interesse nacional, quer por razões talvez mais ideológicas, da questão da liberdade e das liberdades no mundo, estão a resistir efetivamente a isso. Ora, a questão de Taiwan é a questão-chave nisso tudo, porque Taiwan, apesar de tudo, tem condições de independência, embora formalmente não declarasse a sua independência, mas tem condições de a manter. Não parece que hoje em dia a população de Taiwan esteja com muita vontade de ser integrada na China, sobretudo depois de ver o que está a acontecer em Hong Kong. Tem havido do lado ocidental, não só americano, mas australiano, japonês, etc, uma certa abertura em relação a Taiwan, com mais contatos, mais facilidades, mais declarações, mais tudo isso. Mas por isso mesmo, também os dirigentes chineses podem, olhando pra sociedade americana, que está mais dividida internamente do que nunca, do ponto de vista ideológico, e olhando para alguma fragilidade da direção política americana, podem pensar também e querer correr o risco, pensar que está aberta uma janela de oportunidade para resolver o problema Taiwan e que essa janela de oportunidade pode amanhã cerrar-se. Pode cerrar-se facilmente. E, portanto, vamos ter aqui uns tempos em que vamos ter que estar, enfim, nós não vamos, com certeza, intervir nem pra bem, nem pra mal, nós, portugueses, estou a falar, mas que o mundo vai reter um bocadinho a sua respiração para ver o que é que vai acontecer.
Sim, até porque resta sempre a questão de saber até que ponto é que vai a ambição da China. A China nunca procurou exportar o seu modelo de comunismo como fazia a União Soviética.
Não, mas Taiwan é China. Para os chineses, Taiwan é China.
Taiwan é China, como Hong Kong é China e Hong Kong tem bastante autonomias.
E Hong Kong já está a fazê-lo.
Já estão a fazê-lo. Portanto, há essa questão. Mas mesmo assim, no que diz respeito à questão dos modelos, é interessante que também tenha sido elaborado um documento chamado "Construindo uma Democracia Política na China", e que esse documento procure dar uma articulação ideológica, chamemos assim, ao modelo chinês, chamando-lhe de ditadura democrática popular. Exatamente. Onde o termo ditadura não está por acaso, eles dizem mesmo que a democracia e a ditadura é aquilo que garante que o povo seja senhor do país, porque se não houvesse ditadura, não se garantia que se protegesse o povo de uma pequena minoria. Isso está escrito nesse documento. No entanto, isto é um pouquinho orwelliano. Ora, até que ponto é que o mundo está preparado para seguir a China depois da experiência deste último ano e da forma como a China lidou com o vírus, ainda é uma questão que está um pouquinho aberta. O que é que lhe parece, José Megalha?
Bom, a forma de política zero vírus leva a encerrar três casos, cidades com 15 milhões de habitantes.
Maiores que Portugal inteiro, maiores que a Holanda inteira.
E que as pessoas são obrigadas a ficar nos seus apartamentos e só podem receber comida De três em três dias é uma manifestação da autoridade do Estado nunca vista. Assim como também o que é feito no Xinjiang e o que é feito sobre as próprias empresas e companhias, e a forma de lidar com a questão do Tibete já no passado e também a ameaça do uso da força na resolução da questão de Taiwan. Eu penso, aliás, que a própria China percebeu que em relação à sua agressividade no plano externo, teve que recuar de algum modo. E teve que recuar por quê? Porque por um lado, o grande plano da Rota da Seda também já não dispõe dos fundos de que dispunha, mas por outro lado, porque toda esta exibição de poder militar e de capacidades no plano nuclear e no plano da modernização das Forças Armadas, teve por resultado adverso a criação de alianças nos países da Ásia que até aqui nunca se tinham verificado. E tudo o que se passa desde a Índia ao Japão, Coreia do Sul, Austrália, as próprias Filipinas, a Indonésia, o próprio Vietnã, tudo isso demonstra que a conduta da China também não é muito apreciada pelos seus vizinhos da própria Ásia. Por isso é que talvez agora o programa espacial esteja nos filmes de Ano Novo da China, mais em evidência do que os porta-aviões e os atletas, mais em evidência do que os agentes de promoção da empresas no exterior, tudo o que a China tem feito. A China tem 20% da população mundial e 10% do solo arável do mundo e, portanto, tem vindo a construir uma cadeia logística, uma cadeia de cativação de recursos agroalimentares e minerais monumental no mundo. E até de penetração nos sistemas científicos e universitários, que também agora vem a ser estudada, detectada e visualizada. E, portanto, a China também percebe que isso é negativo. Andou demasiado pressa na ostentação e agora puxa os Jogos Olímpicos, a ciência, os jovens, os resultados dos atletas e a corrida espacial, como uma ação humana, da humanidade, já não só apenas da China. Portanto, há uma certa moderação numa hipervalorização da confiança em si mesma, e isso também é algo que deve ser notado. E este próprio congresso do Partido Comunista da China em outubro, eu estou certo que vai um pouco demonstrar isso. Mas ao mesmo tempo, há essa embalagem colossal que leva a ser agora cada vez mais assertivo na questão da superioridade do modelo político, que até aqui era defensiva, mas agora é ostensiva, e também na questão da ambição de ter um papel à escala internacional, comparável ao papel do império. Depois há essa teorização política na base de que o Estado chinês dirigido pelo Partido Comunista da China é um Estado ético, é um Estado espiritual e que o Partido Comunista é uma espécie de local onde se faz a simbiose entre o espírito subjetivo e o espírito objetivo. É uma versão um pouco hegeliana da história aplicada à China e misturando traços da cultura oriental, traços da vivência prática do povo chinês, e depois com suportes técnicos e científicos que foram incorporados a partir do Ocidente e foram utilizados para benefício próprio. Portanto, há também aqui um híbrido, só que é um híbrido enorme. E apesar das crises e do colapso, por exemplo, da grande companhia imobiliária, a verdade é que a China este ano passado, 2021, cresceu 7,9%, enquanto os Estados Unidos cresceram 5,5% e a União Europeia cresceu 5%. Ou seja, mesmo em crise, mesmo com o Covid. A própria forma como a China encara o Covid no plano interno com um autoritarismo completo em matéria de gestão política de saúde pública e ao mesmo tempo, para se redimir da questão que a relaciona com a origem do vírus, com a distribuição massiva de vacinas no mundo inteiro e com a forma como tem gerido a questão da oferta de vacinas para controlar posições políticas de Estados pequenos à escala mundial. Isso também é preciso ter em consideração. Portanto, há hoje também um olhar à China que faz decodificar bem as mensagens da China, não com aquela ingenuidade com que isso era feito há 15 anos.
Bem, entretanto o nosso tempo esgotou-se. Portanto, reencontramo-nos para mais um "Conversas à Quinta" dentro de uma semana.