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Bem-vindos de regresso ao "Conversas à Quinta". Hoje vamos recuar novamente na história, vamos até na Alemanha de 1923, República de Weimar, e é um dos anos mais críticos da história da Alemanha, depois tudo se complicaria um pouco mais adiante. 1923 é um ano que ainda hoje, em muitos aspectos, continua presente na memória do país por várias coisas que aconteceram. Talvez as mais relevantes foi o grande ano da hiperinflação, aquela altura em que pra pagar o pão quotidiano era preciso levar sacos de notas, uma inflação como não há memória na Alemanha, que criou trauma relativamente à evolução dos preços que ainda hoje perdura na Alemanha e faz parte da ortodoxia da união monetária, muito condicionada pelas exigências alemãs. E foi também o ano em que ocorreu a primeira tentativa de tomada do poder por Hitler, o Golpe da Cervejaria em Munique, em 8 e 9 de novembro de 1923, está praticamente a fazer 100 anos, correu mal. Hitler seria preso e seria na cadeia que ele depois escreveria seu famoso "Mein Kampf", "Minha Luta", o livro que marcaria, não é pro melhor, é mesmo pro pior, os anos seguintes. Jaime Gama, este ano é muito marcante na história da República de Weimar. Muito marcante porque até começou de uma outra forma que não podemos dissociar da gradual ascensão de Hitler, que foi a ocupação da zona industrial do Ruhr pela França pra exigir o pagamento das reparações de guerra.

Sim, a ocupação do Ruhr pelos franceses e pelos belgas para estabelecer um mecanismo de pagamento em espécie da dívida alemã. Isso, obviamente, levou a reações da parte da Alemanha. Numa primeira fase, o governo alemão de Stresemann ainda vai na linha de declarar uma resistência passiva, mas mais à frente vem a fazer cessar essa resistência passiva dos alemães. Esses dois fatores combinados levam a um grande surto nacionalista na Alemanha e isso tem a ver com o que se vai passar a seguir na opinião pública alemã.

Jaime Nogueira Pinto, estas condições, este ano horribilis da República de Weimar, este primeiro ano horribilis da República de Weimar, é aquele que muito, ainda hoje, de alguma forma, perdura na nossa memória, precisamente por causa da hiperinflação. Curiosamente, a ocupação do Ruhr é uma coisa menos presente.

Sim, é menos presente. Vamos lá ver. Aqui também temos que ver os fatores. Hitler já tinha começado nesta época e temos que ver, há um momento no pós-guerra, o pós-guerra na Alemanha tem toda essa carga de humilhação do Tratado de Versalhes, mas tem também um fator que são as insurreições de tipo comunista dos espartaquistas em Berlim.

E em Hamburgo.

Exatamente. Mas sobretudo as de Berlim em janeiro de 1919, com a repressão que o governo social-democrata, usando os corpos francos. Os corpos francos são nesta altura muito importantes porque o Tratado de Versailles praticamente vai proibir a Alemanha de ter Forças Armadas, vai ter umas Forças Armadas extremamente reduzidas, sobretudo em termos de Marinha e da Aeronáutica e mesmo em Exército de Terra. E portanto, há os corpos francos, que são antigos combatentes, a maior parte até são mesmo, quase todos são oficiais ou graduados, e que o governo social-democrata vai recorrer a eles pra dominar as insurreições espartaquistas em Berlim. E são dominadas de uma maneira bastante brutal. Nessa altura é morta a Rosa Luxemburgo, é morto também o Karl Liebknecht, e há ali uma série de tentativas, há uma espécie de guerra civil de baixa intensidade. No meio disso tudo pululam, de facto, os grupos nacionalistas, nacionalistas radicais, muito baseados exatamente nessa humilhação a que a Alemanha está a ser sujeita, quer pelo Tratado de Versailles, quer pelas consequências econômicas dessa humilhação, pela grande inflação. E no meio desses grupos todos, de facto, apareceu o tal partido de Anton Drexler, que depois Hitler vai participar, Hitler entra nesse partido, Hitler ainda está no serviço militar. Atua um bocadinho também, por um lado, independentemente, por outro lado, também com algumas antenas dos serviços de informação militar, ali em Munique. E ele entra pro partido do Drexler, começa a fazer, de facto, os seus exercícios Oratórios naquelas várias cervejarias onde se começa a fazer a política e é um orador com grande sucesso, rapidamente vai chegar à chefia do partido, que ele rebatiza. É preciso ver que este ano de 23 também é importante, porque na Europa tinha havido, com sucesso, a revolução bolchevique e tinha havido no ano anterior, em 22, também com sucesso e num sentido contrário, num sentido também revolucionário, mas do lado daquela que podemos chamar uma direita mais radical, direita radical do movimento fascista de Mussolini, que tinha também chegado ao poder através de um movimento de tipo revolucionário, que a Marcha sobre Roma acabou por ser.

Temos que considerar, para todos os efeitos, que estamos perante movimentos que não devem ser vistos como conservadores, e sim como revolucionários.

Direita revolucionária.

É porque às vezes há uma confusão.

Claro que há uma grande confusão, porque chama-se extrema-direita a tudo isso. E a extrema-direita no século 19 eram os movimentos monárquicos tradicionalistas, que eram ainda pelo poder absoluto do rei. Estes movimentos não têm nada a ver com isso, estes movimentos são duplamente revolucionários. São revolucionários porque também são, num certo sentido social, revolucionários. As proclamações do fascismo em 19, por exemplo, preveem a nacionalização dos bancos, preveem a secularização e ocupação dos bens da Igreja em Itália. Portanto, é um movimento bastante radical. Aliás, Mussolini vinha desse lado, era um militante do Partido Socialista, era um militante da ala radical do Partido Socialista. E o nacional-socialismo alemão também tem uma forte conexão com esse tipo de movimentos, embora, curiosamente, talvez fosse mais conservador, até porque Hitler pessoalmente, pelos seus costumes, pelos seus comportamentos, era, de facto, nesse aspecto, um pequeno-burguês muito conservador. Ao passo que Mussolini, não, Mussolini tinha uma vida quer sentimental, em todos os seus aspectos era bastante mais avançado, bastante mais revolucionário. Mas voltando a esses movimentos, esses movimentos tinham, não só nos princípios, que eram, de facto, bastante revolucionários, como nos próprios métodos, eles adotam os métodos que copiam muito dos modelos bolcheviques, quer dizer, têm secções de segurança, portanto armados. Têm a pessoal de segurança dos seus próprios partidos, que vão ser as Sturmabteilung, as SA, uniformizados. Esses partidos são, e já o fascismo também com os camisas negras, já tinha exatamente com os Arditi, já tinha exatamente esse tipo de organização. Portanto, são aquilo que a gente pode chamar de direitas revolucionárias. São direitas na medida em que são nacionalistas, na medida em que são, de certo modo, ainda tradicionais nalguns valores sociais, mas para além de defenderem fortes linhas totalitárias ou autoritárias, autoritárias e totalitárias, são mais totalitários que autoritários, têm depois, de facto, uma linha de rutura também com os valores instituídos. Portanto, são movimentos nesse aspecto bastante diferentes. E o hitlerismo, o nacional-socialismo nasce, depois a grande força deles, em Munique. E vai ser em Munique que vamos depois assistir, penso que valerá a pena depois determo-nos um pouco nisso, em toda esta conspiração que vai levar ao golpe, ao chamado Bier Hall Putsch, ao golpe da Cervejaria, porque houve essa tradição muito importante das conspirações e das reuniões à volta das cervejarias de Munique, ainda lá estão, aliás.

João Gama, neste caminho para o golpe, se podemos falar em caminho, no ambiente de grande evolução que foi este ano de 1923, há também uma evolução política que é a tal opção que estava a falar há pouco aqui o Jaime Gama Pinto, também de grupos mais extremistas, designadamente ligados ao Partido Comunista Alemão, o KPD. Há uma tentativa de rebelião em Hamburgo e a repressão dessa rebelião acaba por levar o SPD, os sociais-democratas, que estavam no governo, a abandonar o governo. Isto, de alguma forma, facilita, abre o caminho aos dois extremismos ou, por enquanto, isso vai acabar por estar dominado no final do ano com a derrota, quer do golpe de Hamburgo, quer do golpe de Munique.

Temos que nos situar

O presidente da Alemanha é um social-democrata durante todo este período, Ebert. E há a chamada Coligação de Weimar. A Coligação de Weimar é uma coisa que absorve vários partidos à direita e também, por via de Ebert, os social-democratas. E a Coligação de Weimar, que é, no fundo, o governo que se constitui para instaurar a República, depois da queda do imperador e de vários reinos em que a Alemanha se dividia, e para aceitar a assinatura do Tratado de Versalhes, com todas as consequências que depois daí derivaram.

José Megal, só para concretizar. De facto, o presidente é social-democrata, foi formado um governo no princípio do ano, Grande Coligação, que era composto pelo SPD, pelo partido católico, Partido do Centro, por um partido liberal centrista, que era chamado DDP, Partido Democrático, e depois pelo partido mais clássico de centro-direita, o Partido do Povo, o DVP.

Sim, é isso mesmo. E isso tem consequências na Baviera, porque na Baviera há uma nuance. E a nuance é que na Baviera o partido dominante não é o grande partido liberal, esse partido popular, é o Partido do Centro, que na Baviera tinha passado a adotar o nome de Partido Popular da Baviera. Há aqui estas construções. E a Baviera é um Estado onde há duas tentações: a tentação de repor uma Baviera independente, restaurar a monarquia, ou então usar a Baviera para fazer uma marcha sobre Berlim. E isto vai estar muito no conflito de Hitler e do Golpe da Cervejaria com o poder instituído na Baviera, porque o poder instituído na Baviera é um poder conservador e que, aliás, tem com Hitler uma competição tática para saber quem comanda essa operação, um pouco de reorganização de Weimar e de reorganização da política em Berlim. Isso é muito interessante. Mas nós temos que ver que toda a Alemanha é devastada por insurreições comunistas. A Baviera chegou a ser uma república soviética com o Partido Comunista dirigido por três russos. É muito interessante. Hitler chegou a ser soldado do Exército Vermelho da Baviera. Foi até preso por causa disso, foi submetido a interrogatórios e depois foi libertado, porque houve uma república soviética que durou um mês ou um mês e meio na Baviera e depois foi suprimida. Portanto, há esses levantamentos comunistas. A Rússia soviética, ainda não havia União Soviética, Lênin atribuía uma enorme importância à conquista da Baviera pelo significado que isso teria na Europa Central e à conquista da Alemanha, porque o modelo era um modelo que se podia reproduzir, era a derrota na guerra, a subversão. A Alemanha estava madura pra isso e havia muitíssimas insurreições. Naturalmente, há reações de sinal contrário, que têm por origem sociedades patrióticas, segmentos das Forças Armadas. Antes do golpe falhado de Munique, há dois outros golpes. Há o golpe de Kapp, que é um golpe feito em Berlim e que também fracassa e que está muito bem estudado. E há neste mesmo ano de 23, antes do golpe de Hitler em Munique, há um golpe que é o chamado Küstrin Putsch, que é um golpe feito por um rezou secreto dentro do exército do Reich e que também falha porque é destruído, aniquilado pelo general von Poch. Portanto, estes movimentos são movimentos que fazem parte deste clima de pré-guerra civil em que sempre viveu a República de Weimar. No caso da Baviera, há também um problema que é o da articulação entre o partido nazi e esses grupos nacionalistas. E atenção, previamente ao golpe, Hitler troca os comandos locais, porque destitui Röhm na Baviera de comandar as SA e atribui o comando dessas unidades e desses grupos das sociedades patrióticas e vai buscar Göring para comandar as SA, que são a força que intervém propriamente no cerco da cervejaria, onde tudo decorre depois da chegada do Ludendorff. Mas os grupos nazis da Baviera também consideram que têm que fazer qualquer coisa do ponto de vista de um putsch, porque as suas bases estão a fugir-lhes novamente para os comunistas O clima insurreccional na Alemanha com a inflação que estava, com o traumatismo das dívidas de guerra, com toda esta reorganização militar, passa por criação de milícias reconhecidas umas, outras não reconhecidas pelo governo, tudo isto é muito complexo. E a Baviera proclama um estado de emergência e até quase vai ao ponto de proibir certas iniciativas do Partido Nazi. É um triunvirato que está no poder na Baviera neste momento, constituído por quem? Constituído por um homem ligado ao Partido Popular Bávaro, portanto, o partido católico da Baviera, pelo chefe da polícia e por um general, que era o general von Lossow, que era o delegado do exército do Reich que comandava o exército da Baviera e que é destituído pelo alto comando de Berlim, pelo general que estava incumbido de reorganizar o exército. E ele não aceita a demissão, portanto, ele também está numa posição de relativa rebeldia contra Berlim. Mas é contra este grupo, este triunvirato, que já está num estado de emergência e que está contra Berlim, que o Hitler vem avançar com o golpe da cervejaria, sem se ter certificado de ter muitos apoios dentro do exército ou da polícia. Ele cometeu um erro de avaliação.

Jaime, nós vamos ter que ir-

Vamos pra segunda fase.

Vamos tentar agora passar à segunda parte do programa. Temos que interromper. Regressamos dentro de alguns minutos. Estamos de regresso ao "Conversas à Quinta". Estávamos no golpe da cervejaria, ver o que é que tinha corrido mal. Jaime Gama, você vai explicar que Hitler, de alguma forma, teve que recuar, não é?

Hitler vai ser derrotado. Ele, aliás, parte pro golpe já derrotado, porque há uma reunião nessa famosa cervejaria, o Bürgerbräukeller, que está a ser feita pelo alto comissário que está a governar em emergência a Baviera. E os nazistas invadem essa reunião com Göring e com Hitler. Invadem e Hitler dispara uns tiros de pistola pra poder falar e rapta, e Göring é o comandante da força que cerca, raptam os três membros do triunvirato do governo de emergência da Baviera e levam-nos a aceitar o golpe que querem fazer, que é uma marcha sobre Berlim. A ideia é amotinar Munique e fazer uma marcha sobre Berlim, que alguns deles também gostariam de fazer, mas não liderados pelo Hitler. E depois, Hitler percebendo que a sua irradiação pra dentro das Forças Armadas e da polícia não era completa, ele tinha estado preso uns meses antes, tem necessidade de ir buscar a figura do Ludendorff, que era um general com prestígio. Depois vai ter um resultado eleitoral de 1% contra o Edinburgh, numa eleição presidencial dois anos depois. Mas que ele pensa que vai ter ali um grande papel. Acontece que o Ludendorff deixa sair os membros, quando fica sozinho lá na cervejaria, deixa sair os membros do triunvirato. E os membros do triunvirato vão reorganizar o exército todo, vão reorganizar a polícia, prendem o Röhm, que tinha assaltado o Ministério da Guerra da Baviera, e voltam tudo aquilo contra os revoltosos. E os revoltosos, quando partem da cervejaria pra fazer uma marcha a pé até o centro da cidade, onde havia um comício numa das praças, já partem derrotados. Até há um testemunho posterior de um dos participantes que diz que parecia uma marcha fúnebre. Mas eles têm a ideia que podem fazer parar as tropas contra eles por causa do Ludendorff, que podem fazer uma amotinação popular a favor deles, só que tudo isso falha. Eles acabam tendo que fugir. Hitler foge, esconde-se nos arredores e acabam por ser presos. Ludendorff não é preso porque era um grande general, herói da guerra, mas os outros chefes principais são. E se não são, fogem pra Áustria, fogem pra outros países. Portanto, este golpe é um golpe que fracassa, mas Hitler vai aproveitar, pois é julgado com grande benevolência pelo presidente do tribunal, que era pronazi, sai de lá um herói retórico, é condenado por alta traição, cinco anos, mas só cumpre nove. É levado pra uma prisão luxuosa, onde eram feitas as prisões dos participantes em duelos, onde escreve o "Mein Kampf", dita o "Mein Kampf", a primeira parte do "Mein Kampf", a Rudolf Hess e a Omm unisona que estavam com ele na cela. E, portanto, faz disso o seu renascimento. Mas ele é contestado na liderança deste movimento. Ele tem, neste campo, alguns rivais. Um é Ludendorff, Röhm, Strasser, que também aparece e que lidera uma facção muito importante do Partido Nazi, e também o próprio Goebbels, que aparece e começa ali a ter um papel. E o Partido Nazi é ilegalizado, e Rosenberg é quem é incumbido de assegurar a reestruturação

do Partido Nazi. Não leva muito bem, era mais intelectual do que propriamente organizador, não leva muito bem a fundo as suas missões. E na Baviera, o Partido Nazi teve dificuldade em progredir, porque este partido que povoava Bávara, que era um partido católico, estava extremamente bem organizado através da igreja, através das organizações de agricultores, que tinha uma forte implantação conservadora na sociedade bávara. E se é certo que o hitlerismo agitava muito intelectualmente em Munique, mas não era a única corrente que agitava, porque havia outras também neste campo, não conseguia facilmente penetrar o mundo rural e a Baviera mais profundo.

Jácome Grapião, primeiro, como é que explica, apesar de tudo, a falta de organização deste golpe, esta ingenuidade de pensar que todos eles poderiam marchar juntos sobre Berlim e depois a própria condescendência com Hitler e com os revoltosos, como aqui o Jácome acabou de escrever?

É preciso ver primeiro esse erro, não há dúvida que depois, a partir daqui, é muito interessante, porque este golpe falhado leva Hitler e os seus seguidores a mudarem radicalmente de estratégia e a procurarem um caminho pela via legal, pela via das eleições, que vão, finalmente, sobretudo, à carga da grande crise de 29, que lhes vai abrir, de facto, uma alameda para o poder, com as eleições sucessivas e sobretudo com as eleições de 32, em que vão ser o primeiro partido. E, portanto, há aqui depois toda uma reflexão de fundo que é muito interessante, que é exatamente a paragem, o pôr fim ao golpismo e à ideia de golpismo. Digamos, a benevolência com que Hitler é tratado e com que esses movimentos são tratados, explica-se porque, de facto, na Alemanha há uma profunda humilhação por causa da maneira como foi tratada pelo Tratado de Versailles, pelos vencedores, pela maneira como foi tratada e humilhada. E, portanto, na consciência do povo alemão e das elites alemãs, há uma espécie de sentido, vamos dizer, quase de solidariedade ou pelo menos de sentido de atribuir grande desconto, grande benevolência, grande desconto, digamos, em termos penais e criminais, àqueles que se revoltam contra o sistema, contra a ordem de Weimar. Mais tarde, é evidente que nos anos a seguir a este ano dos golpes, as coisas vão melhorar bastante na Alemanha e vai haver um certo período de estabilização e o Partido Nacional Socialista vai ser durante vários anos um pequeno partido e vai depois voltar, de facto, a crescer, porque a crise de 29 vai renovar as condições sociais e econômicas que vão facilitar o caminho a um movimento altamente radical. Mas eu queria aqui acrescentar um aspecto que me parece muito interessante, embora sendo um aspecto marginal, que é a maneira como Mussolini, que já está no poder, vai para o poder em outubro de 22. Mussolini tem um sentimento de uma certa distância e até, às vezes, quase de hostilidade em relação ao movimento nacional-socialista. Hitler tenta várias vezes ser recebido por Mussolini. Mussolini só o recebe, já ele, Hitler, é chanceler, só o recebe, se não estou em erro, em Veneza em 33, já Hitler é chanceler, chefe do governo alemão. E Mussolini tem um certo sentimento em relação de estranheza e até quase de hostilidade e quase de desprezo, porque primeiro achou o livro de Hitler, "Mein Kampf", achou muito maçador, o que aliás, tinha razão, que o livro, de facto, é um livro bastante maçador. Tem uma parte que é uma espécie de autoajuda de receitas políticas, que isso, como todos os livros de autoajuda e receitas políticas, é maçador, mas há quem goste e quem precise, sobretudo. Tem ali alguns aspectos interessantes, biográficos, mas não é, de facto, um livro muito interessante. Depois, Mussolini também com aquele seu machismo latino, achava que no movimento nacional-socialista havia, ele sabia isso, o informavam disso, os seus serviços, etc, havia muitos homossexuais, havia com o caso de Röhm e outros. Portanto, não lhe agradava nada isso E depois a insistência no antissemitismo também era uma coisa que ele não gostava e não achava importante. A única pessoa no movimento nacional socialista que ele tinha uma certa-- e recebeu algumas vezes, era Göring, por quem ele tinha uma certa admiração, tinha sido um herói da aviação e um combatente. Ele tinha uma certa estima e respeito. Mas é muito interessante isso, aliás, porque depois o Mussolini é atirado para os braços de Hitler, sobretudo por causa da atitude das potências perante a guerra da Etiópia e depois também por causa da guerra de Espanha.

José Megalha, como é que Hitler depois recupera e vai chegar ao poder? Que lugar ocupa este golpe da cervejaria na mitologia nazi?

Na mitologia nazi é muito importante, porque depois é um local de peregrinação. Os 14 mortos são quase constituídos em santos com estações de Via Sacra. Há sempre paradas, há sempre um regresso a Munique. Hitler tem uma fascinação por Munique, porque é a primeira terra onde ele se fixa depois de sair da Áustria e porque também é ali que gravita um pouco toda a sua vida depois da Primeira Guerra Mundial. É ali que tem também uma primeira namorada e que conhece a segunda, que vem a ser a mulher Eva Braun. E as características da cidade também o fascinavam, de modo que ele faz depois de Munique uma espécie de centro fundador do nazismo e as romagens ao memorial onde houve o tiroteio com a polícia são fenômenos constantes, depois há a grande escola de Waders e tudo isso. Nisso tem essa importância. A prisão, onde Hitler aproveitou para ler um pouco de Nietzsche e Chamberlain, é algo que ele depois vai mitificar bastante. A primeira prisão como desordeiro não dava bastante para isso, mas esta já permitia mais recriar essa imagem de um Führer fundador, um Führer com ligações a uma grande cidade da Romanha. E depois a circunstância dele ter utilizado o julgamento como uma grande lição de propaganda. É um pouco como o discurso do quartel da Moncada, do Fidel Castro, porque ele fala ali quatro horas sem interrupção, ataca todos os seus acusadores e até diz: "A história me julgará". Portanto, são frases apropriadas para cenas com este ritual. Mas, na verdade, tudo aquilo é um falhanço. Agora, como disse o José Nogueira Pinto, e bem, isto leva a uma mudança de tática, porque ele a partir daqui também com o golpe falhado de Kapp e o outro golpe falhado da Reichswhr negra ou secreta, chegou à conclusão que não era capaz de ir ao poder com o apoio das Forças Armadas e com o apoio da polícia. Ele não conseguia fazer isso contra a República de Weimar, porque obviamente essas instituições sendo muito conservadoras e podendo até ter alguma simpatia pelas coisas que ele dizia, alguns dos seus elementos, mas não se queriam subordinar àquele movimento vindo da rua, um pouco folclórico e em quem não reconheciam grandes méritos. Aliás, é isso que se passa no confronto dele com a própria situação existente na Baviera. Este homem que o derrota, Gustav von Kahr, que era o comissário, ministro presidente, comissário com poderes especiais na Baviera, que é um homem político católico, partidário ao Partido Popular, ele não seria bem membro, mas era alinhado, no fundo, era o equivalente ao partido do centro na República de Weimar. E este homem depois tem um papel importante no julgamento e na acusação. Não é por acaso que na Noite das Facas Longas, em 34, ele vai ser raptado imediatamente por dois SA, levado para a prisão de Dachau e executado sumariamente. Dizem até depois investigações que o cadáver foi diagnosticado com quase mutilação por picareta. Isso é um assunto que é discutido na historiografia alemã antinazista com grande profundidade. Mas a verdade é que Hitler sai deste golpe abatido num primeiro momento e depois reganha o partido. E ele só volta mais tarde a aparecer em discursos. Um ano depois, faz um primeiro discurso. Depois é levantada na Baviera a interdição ao partido E há também uma querela sobre a autorização, desautorização dos SA poderem usar pistola, todo esse problema de como regular as tropas de choque hitlerianas. Mas ele depois procura expandir muito o partido para norte. E essa expansão do partido para norte é aquilo que lhe vai levar a penetrar áreas onde até aí o nazismo não tinha penetrado, mas que são fulcrais pro caminho que ele decide seguir, que é o de conjugar um partido muito musculado, fortissimamente agressivo, com milícias, com secções de assalto, com o voto e com a propaganda essencial para a conquista do voto. E aí Goebbels, nessa componente, tem um papel verdadeiramente essencial, mas Röhm e Strasser vão a ser aniquilados violentamente, porque a reconstituição do Partido Nazi é feita mais sob o comando de Hitler, mas sem esses que podiam ser rivais e competidores. E o próprio Ludendorff, que no fim acaba até demarcando-se de Hitler e dizendo que ele não tem capacidade para ser governante, mas Ludendorff também é entregue ao projeto de ser candidato presidencial em 25 e perde com Edimburgo tendo 1%, o que é uma derrota vergonhosa para quem tinha tantas aspirações a liderar toda a Alemanha na redenção do Tratado de Versalhes.

Bem, nós entretanto terminamos mais um "Conversas à Quinta". Reencontramo-nos dentro de uma semana para mais um tema.