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Bem-vindos de regresso a mais um "Conversas à Quinta". Hoje vamos falar de um aniversário de que toda a gente está a falar: os 70 anos da Rainha Isabel II como Rainha de Inglaterra, Rainha do Reino Unido. Ela subiu ao trono pela morte do seu pai, estava na altura no Quênia. Foi uma subida ao trono inesperada, não se esperava que o pai morresse tão jovem. E ela própria não nasceu pra ser rainha, ela só se tornou herdeira do trono depois do seu tio Eduardo VIII ter abdicado num caso muito controverso, por causa de um divórcio e de um amor com uma americana. Isabel II é uma das monarcas que mais tempo tem estado no trono. Não é aquela que mais tempo esteve no trono, por exemplo, Luís XIV esteve mais tempo no trono. Ele esteve 72 anos e mais alguns dias no trono, mas Luís XIV subiu ao trono ainda criança. Isabel II já não. No entanto, é bem possível que Isabel II venha bater o recorde do Luís XIV. Mas talvez mais importante que isso, é que os tempos são muito diferentes. O mundo em 1952, quando Isabel II chegou ao trono, era muito diferente do que é hoje. A Inglaterra, o Reino Unido dessa época também eram radicalmente diferentes, ainda havia um império. Estava a acabar o tempo do império, mas ele ainda existia. Não tinham ocorrido as grandes transformações dos anos 60, 70, 80, por aí adiante. E, no entanto, Isabel II conseguiu pilotar, de alguma forma, a Casa Real Inglesa por estes tempos conturbados e fazer dela uma casa conhecida, popular, reconhecida. E ela própria tornou-se uma rainha muito popular. Jaime Gama, esta mulher que nem tem grandes estudos, nem tem uma formação muito especial, parece ter dedicado a sua vida à Casa Real de uma forma absolutamente exemplar. Isso deve-se a quê? A uma intuição especial, a uma dedicação muito particular, a um sentido de missão como já não se usa?

Olha, deve-se à cultura e à tradição do Reino Unido, porque isso tem muita importância, deve-se a acasos, porque não estava previsto que fosse rainha, nem sequer o pai, rei, e deve-se também, seguramente, a características da própria e do caráter. Há poucos livros que falem sobre a infância dela e as formas como ela se comportava. Até isso é um bocado violar a tradição, escrever sobre isso, mas uma governanta que ela e a irmã tiveram foi muito assertiva quando disse que enquanto uma era alegre, a Princesa Margarida, que a Rainha Isabel já desde pequena era muito meticulosa e muito cumpridora do dever, que ela, por exemplo, se lhe ofereciam vários bombons, alinhava logo os bombons do mais pequeno pro maior e começava comendo do mais pequeno para o maior. E que até de noite acordava e ia ver se tinha roupa bem posta nos seus lugares, a sua roupa pessoal para se vestir no dia seguinte. Portanto, uma pessoa muito bem comportada e muito autodisciplinada. Isso seguramente foi algo que também orientou a forma como ela depois soube agir quando foi rainha. Portanto, compenetrada do seu sentido de dever, organizada, fria, reservada, autocontrolada, mas também fazendo uma vida normal do ponto de vista da sua vida pessoal, a forma como namorou, como casou, depois também a forma como desenvolveu essa relação inicial com os filhos, como também soube ir a par e passo, ocupando o seu lugar no sistema da realeza britânica, preparando já com o pai a sua sucessão e depois também tendo uma qualidade: a qualidade de resistir e durar e de saber adaptar-se à evolução daquilo que foi o vasto conjunto de transformações por que passou o Reino Unido, o Império Britânico, o mundo, a vida moderna. E isso ela soube gerir, porventura, como ninguém, criando a barreira de proteção adequada. Isso é um facto.

Jaime Nogueira Pinto, esta figura da Rainha é uma figura que hoje nos é bastante simpática, de uma forma genérica, e em vários momentos foi inspiradora até pros britânicos. Estou a recordar, por exemplo, da intervenção que ela fez quando foi a primeira vaga de Covid, numa altura, precisamente, em que Boris Johnson não se sabia ainda que ele ia ser internado nesse dia e que estava bastante doente. Como é que acha que tem evoluído a relação dela com o povo britânico?

Eu acho que, de certo modo, é muito interessante, porque acho ela e o marido

O falecido Duque de Edimburgo. Eu acho que eles conseguiram, mantendo-se de certo modo fiéis a si mesmos, mantendo todo o decoro, toda a atenção, um certo estar por cima, estar atento, mas ao mesmo tempo estar acima das coisas do dia a dia. Acho que eles conseguiram ser esse grande eixo da Casa Real e da dinastia, enquanto, quer na geração dos filhos, quer na geração dos netos, aconteceu aquilo que aconteceu com a própria irmã da Rainha, com a própria Princesa Margarida, foram acontecendo aqueles novos costumes, as coisas que alteraram as tradições, houve separações, houve adultérios, houve segundos casamentos, agora até há um caso complicadíssimo de assédio. Mas ela conseguiu, e em momentos com grandes dificuldades e que apesar de tudo, tiveram uma certa devassa. Aliás, eu lembro-me daquele filme, "The Queen", que era um filme notabilíssimo. Mas via-se que também era uma personalidade que é humana, que também, de certo modo, ao modo dela e na condição e na classe dela, também é profundamente humana. E depois, com uma coisa que também é extraordinária, quer dizer, que de facto a vida, a agenda social, política, pública destas pessoas, aliás, é carregadíssima, e ela conseguiu ter sempre esse equilíbrio. Ela é uma pessoa fria, distante. O Duque de Edimburgo era mais, às vezes era um bocado politicamente incorreto. Há várias histórias, vários jokes, várias histórias famosas com o Duque, que de vez em quando era politicamente incorreto e dizia algumas coisas. Eu lembro-me, por exemplo, uma que ainda há tempos pediram-me que escrevesse qualquer coisa sobre isso e eu por acaso estive a ver e citei, que foi quando foi convidado e perguntaram se ele fosse convidado a visitar, isto pelos anos 60, se fosse convidado a visitar a União Soviética. E ele disse: "The bastards killed half of my family, but anyway, if they invited me, I will go." Dizia assim umas coisas. A Rainha não, à Rainha não se lhe conhece esse tipo de deslizes. Mas conseguiu exatamente sobreviver, sempre com uma boa imagem, sem ser popularucha. Acho que é difícil. Aliás, há alguns livros, até mesmo nalguma ficção, eu agora estava a tentar lembrar-me de um livro muito interessante, daquele famoso dramaturgo inglês, que agora de repente farreou-se-me o nome, mas que tem uma coisa exatamente passada, correu uma história, claro, que é inventada, é ficção, mas que ele encontra a Rainha e ela está a ler uma série de textos de ficção também, e há ali umas conversas. Portanto, é uma figura que, por um lado, está acima de, mas por outro lado, também tem uma certa proximidade com a comunidade inglesa. É evidente que a gente às vezes também tem uma tendência para emoldurar um bocado estas coisas. É evidente que a monarquia britânica teve estes tempos modernos mais felizes e mais constitucionais, porque também começou mais cedo, quer dizer, cortou mais cedo que nenhuma outra monarquia, cortou a cabeça ao rei. A Inglaterra cortou a cabeça ao Rei Carlos I, 150 anos antes da França. Portanto, é evidente que o sistema de evolução constitucional, a partir de 1688, a partir da gloriosa revolução de Guilherme e Maria, a partir daí. Mas também é uma história com muita brutalidade, com muita violência, que mais tarde se projetou, sobretudo a nível imperial. E que continua modernamente. A Inglaterra continua a ser uma sociedade com momentos de violência, e tem também os seus radicalismos, etc. Agora, de facto, e até talvez por isso, mais interessante seja o modo de viver e de se adaptar, e adaptar, mas não adaptar de uma forma meramente passiva, que a Rainha Isabel II tem conseguido. Eu acho que não é só uma história de revistas cor-de-rosa. Ela é uma pessoa que tem qualidade humana e graças a isso tem conseguido exatamente manter todo este equilíbrio, que não é fácil.

João Gama, ser rainha de Inglaterra é de fato um emprego a tempo inteiro e Isabel II tem provado que é assim mesmo. Mas ela não é apenas rainha da Inglaterra, ela também é chefe de Estado do Canadá, é chefe de Estado da Austrália e, por estranho que pareça, pelo menos a Austrália, fez recentemente um referendo e não quis trocar de chefe de Estado, não quis passar a uma república, como os Estados Unidos, por exemplo. Como é que se explica este fenômeno, este alcance universal? Até porque a rainha já foi à Austrália, mas foi o primeiro soberano inglês a ir até a Austrália.

Sim, uma das fontes de suporte da coroa britânica essencial é a Commonwealth. A Commonwealth, aliás, permitiu ao Reino Unido gerir de uma forma menos traumática a sua descolonização. E isso é algo que tem a ver com o papel desempenhado pela coroa. É certo que a coroa deixou de ter o título imperial na Índia, mas passou a manter esse título de presidir à Commonwealth e, para além disso, em alguns países da Commonwealth, não em todos, mantém as filiais de Estado, muitas vezes porque essa é a solução que se afigura melhor a esses países do que enveredar por uma discussão interna sobre a sua própria Constituição, que não se sabe bem onde é que poderia desembocar. E também na própria Inglaterra, quando em alguns momentos se põe a questão de uma tentação republicana, também a discussão depois é feita ao contrário e há uma demonstração por absurdo de que a solução monarquia seria melhor. Mas a rainha não só é a representante da dinastia, que é uma dinastia que só na Primeira Guerra Mundial se chama de Windsor, porque é uma dinastia Saxe-Coburgo-Gota e antes foi a dinastia Hanôver, portanto, é até uma dinastia alemã e com toda a complexidade e o melindre de que se reveste na Inglaterra. E ainda por cima, no caso vertente da rainha, tendo feito o casamento com um Battenberg, Mountbatten, mas Battenberg, portanto, também de origem alemã.

Sim, e tinha duas irmãs, ou pelo menos uma irmã que foi acusada de ser nazista.

Sim. E portanto, também esse cuidado como se constrói a dinastia, a Casa do Windsor, demonstra uma grande perspicácia e um grande talento. Mas a rainha é não só chefe do Estado, ela não governa, ela é um verdadeiro símbolo do Estado e da unidade na Inglaterra. Ela é quem preside à Commonwealth, que é uma coisa muito importante. Ela é a comandante supremo das forças militares britânicas e ela também é chefe religioso, na medida em que é a suprema autoridade da Igreja Anglicana de Inglaterra. Portanto, há aí uma componente muito forte. Depois, a circunstância de ela não governar, não emitir opiniões políticas. Praticamente o único discurso que ela faz de sua autoria é a mensagem de Natal, porque os restantes são todos vistos pelo próprio Executivo, permite-lhe não entrar em conflito com nenhum segmento da sociedade britânica e obter, através da gestão de cerimonial, da gestão de atos simbólicos, o endosso para o respeito em torno de si. E a maneira como ela exerce o cargo, com profissionalismo, com sentido do dever. O juramento que ela faz é um juramento de servir o povo de Inglaterra e de obedecer à lei inglesa no seu sentido amplo, não tanto à Constituição escrita, porque não há Constituição escrita, mas há um conjunto de preceitos e de jurisprudência que regem essa forma como a rainha está acima do conjunto das instituições que são responsáveis pelo governo em concreto e que de certa maneira também limitam a possibilidade desse governo poder exorbitar das suas funções. E como disse o Duque de Edimburgo, isto quase que é mais difícil do que ser submetido a eleições de quatro em quatro anos, porque isto é ser submetido a uma eleição todos os dias. Ou seja, a apreciação sobre o desempenho da rainha é também muito exigente, mas a margem de abrir conflito com segmentos da sociedade é mínima e a proteção que há: a rainha não dá entrevistas, a rainha não dá conferências de imprensa, a rainha não responde a perguntas dos jornalistas, nem pode por eles ser abordada. Ninguém pode tocar na rainha. Quando o presidente Giscard d'Estaing quis dar o braço à rainha ou tentou E quando Michelle Obama também pôs as mãos nos costas da rainha, isso foi um escândalo na Inglaterra. Portanto, há ali também uma proteção que permite gerir com qualidade, gerir por cima. E isso é o que faz da monarquia constitucional inglesa um regime político bastante interessante, porque a instituição real, num caso destes, valoriza a própria democracia por cima. Não está em antagonismo com ela, valoriza por cima. E não haja dúvida que a rainha Isabel deu-se de forma irregular com os vários primeiros-ministros. Isso é muito interessante.

De facto, ela relacionou-se com 14 primeiros-ministros diferentes. Começou com Churchill, que ela admirava profundamente e por quem tinha enorme respeito, e agora está com Boris Johnson. É uma diferença colossal, Jaime Gama.

Sim. Churchill é uma espécie de preceptor desse ponto de vista. Ela aprendeu muito com o pai também. E o pai, até no princípio, não era favorecedor de Churchill, porque preferia Lord Halifax e era um admirador de Chamberlain. Mas depois a rainha percebeu que Churchill tinha alguma profundidade. Ela era muito jovem e isso foi uma boa formação. Mas depois ela também geriu governos com trabalhistas. Isso já tinha começado no tempo de Jorge V, com a primeira vaga dos governos trabalhistas a seguir à Primeira Guerra Mundial.

Sim, que eu comentava ali.

Isso é um dado novo. Depois ela apanhou governos conservadores ainda geridos por aristocratas, quando o Partido Conservador era hegemonizado por aristocratas, mas depois também apanhou os primeiros-ministros conservadores plebeus. Dava-se muito mal com Edward Heath. Dava-se melhor até com Harold Wilson, que era trabalhista. A relação dela com a senhora Thatcher não foi brilhante, exceto no período da Guerra das Malvinas, porque a senhora Thatcher também subiu tanto no protagonismo que até passou a vestir-se como a rainha, e isso não foi bem visto. E quando os emissários da senhora Thatcher no Palácio de Buckingham procuraram criar uma agenda para coordenar o vestuário, um conselheiro da rainha disse: "A Rainha de Inglaterra não se preocupa com a forma como as outras pessoas se vestem". Portanto, ficou aí resolvido esse assunto. E depois há a relação complexa com Blair, porque Blair no princípio tem uma posição de querer reformar a monarquia britânica, que não é muito do agrado da rainha, mas depois acaba, no caso da morte da Princesa Diana, por ser um pouco quem salva a monarquia, quem dá uma mão à própria Rainha Isabel, e a monarquia refunda-se um pouco ultrapassada a essa grande dificuldade. Portanto, há uma relação complexa, porque a rainha tem uma conversa de uma hora semanal com o primeiro-ministro. Essa conversa é secreta. Parece que há notas que ficaram arquivadas em segredo para a história, mas a rainha no fundo pode aconselhar, ouvir em privado o primeiro-ministro, pode fazer propostas, pode encorajar, pode dar conselho, mas só no estrito campo de uma relação de reserva e de confidencialidade, porque a soberania do povo representada pelo Parlamento também é um fator determinante na Constituição informal de Inglaterra. E isso também é um resguardo da própria rainha, porque não se vê confrontada com a ilusão da governação. E a Rainha de Inglaterra, por exemplo, viveu todo esse período após a Segunda Guerra Mundial, em que a Inglaterra tinha que sair de um grande período de austeridade, ela associou-se a isso. Ela que tinha sido voluntariamente militar, condutora de viaturas militares durante a Segunda Guerra, porque isso também foi um exemplo, e o do pai, que não foi para o Canadá, ficou em Inglaterra e ficou em Londres. Isso também reconciliou imenso a monarquia com o povo britânico.

Sim, porque houve a sugestão dela e a irmã irem para o Canadá.

Isso também foi algo de muito importante. Mas isto para dizer que a rainha não é ilusionada pelas questões da governação. Ela, no fundo, simboliza aquilo em que todos os ingleses, seja de que tendência for, se podem ver reunidos simbolicamente para prestígio do seu país, para dignificação das suas instituições, para configuração de uma vida em comum, dignificada por esse vértice do sistema, que é muito bem defendido por uma verdadeira cumpridora dos seus deveres.

Jaime Gama Pinto, há uma coisa curiosa que foi Tony Blair, quem o Jaime Gama falou há pouco, criou aquela figura da Princesa do Povo quando foi a morte de Diana. É curioso que nestes 70 anos, neste jubileu, a rainha tenha sido várias vezes apontada, referida, tratada na imprensa britânica como a Rainha do Povo, que era um papel Uma forma de olhar para ela que não tinha nesse período mais conturbado do final dos anos 90. Como é que se dá essa transfiguração?

Isso, de fato, é capaz de ter sido uma transformação que se operou. Eu lembro quando foi exatamente a morte da Princesa Diana. Não sei se intencionalmente ou pela natureza das coisas, até porque talvez a Rainha e a família real, de um modo geral, não tivessem em grande estima, nessa altura, a Princesa Diana, a nora. Houve ali um certo choque com aquilo que pode ter sido uma espécie de homenagem natural da época. Eu lembro que as flores começaram a aparecer. Até se via bastante bem naquele filme "The Queen", onde a Helen Mirren fazia de Rainha. Enfim, isso estava relativamente documentado com algumas conversas, não sei se imaginadas, se a partir de fatos reais, entre a Rainha e o Príncipe Philip. Agora, eu acho que o tempo, o modo, a idade e tudo isso também vai contribuindo, talvez, para tornar, de fato, as pessoas mais próximas dessa imagem de Rainha do povo. Não sei se hoje os mídia também não fabricam muitas vezes essas coisas porque acham graça. A Rainha Isabel não é propriamente aquilo, mas também é capaz de ser um bocadinho como a sua antepassada, a Rainha Vitória, que tinha aquela famosa frase: "Quero pôr as minhas melhores joias que hoje vou ver o povo, vou ver as classes populares." Muitas vezes, o povo, eu nunca sei muito bem o que é isso. O povo são as classes baixas, são as classes médias, é esse conjunto todo. Muitas vezes também gosta exatamente de pessoas que de certo modo estão longe, gosta de admirar, gosta da pompa, gosta da circunstância. Não sei se hoje gostará tanto. Mas voltando outra vez ao que estávamos a dizer há bocadinho, acho que a Rainha Isabel II, nesse aspecto, tem uma excelente capacidade de equilíbrio, o que com certeza também não será unicamente espontâneo. Ela também é uma pessoa de responsabilidade e sabe que tem uma função pública a representar. Portanto, com certeza que também se adapta a isso. Eu, aliás, há bocadinho não me lembrava da tal peça, que era uma peça do Alan Bennett, que se chama "The Uncommon Reader", onde exatamente se via muito esse lado. Ela é uma leitora atenta e ele descobre nessa peça os gostos literários da Rainha Isabel. É interessante. Claro, o Alan Bennett não é propriamente um autor popular, embora seja um autor bastante conhecido na Inglaterra, mas essa peça dá exatamente uma imagem muito simpática da Rainha, atenta à literatura e seguindo os movimentos literários e lendo exatamente as suas próprias. Portanto, é uma peça que, se não estou em erro, tem a ver muito também com o próprio bibliotecário do palácio. Eu acho que todo esse conjunto de comportamentos e o equilíbrio desse conjunto de comportamentos pode até permitir que haja esse cognome, que se fale nisso, em Rainha do povo. Não sei se será exatamente nos mesmos termos que a gente imagina, mas acho que sim, acho que também não fica deslocado.

José Gama, o sucesso da Casa Real Britânica é transponível para outros países? Nós temos mais Casas Reais na Europa, mas nenhuma delas tem a dimensão, a história da Casa Real Britânica.

Umas delas têm por trás de si o Império Britânico.

Sim, mas podemos falar que, apesar de tudo, temos aqui ao lado a família real espanhola. Se bem que a família real espanhola não é ininterrupta.

Foi instaurada e restaurada.

Foi restaurada. Houve períodos de república.

Restaurada e instaurada.

E a Casa Real Britânica, exceto o período de Cromwell, foi sempre a Casa Real, não é?

Sim. E tem uma política comunicacional inteligente e bastante bem feita. Por exemplo, a forma como é organizado este jubileu começa com um concurso de pudins feito em toda a Inglaterra, tendo por júri aquela famosa casa Fortnum & Mason. Depois, plantar árvores. Todas as sociedades britânicas de jardinagem, de ambiente, florestas, estão empenhadas em plantar uma árvore do jubileu. Depois, as crônicas das escolas. Os alunos vão escrever como é que estão a ver a Inglaterra para os próximos 70 anos. Depois, a organização de almoços populares das associações, dos clubes relativos ao jubileu. Depois, a forma como organizam Paradas, o papel do cerimonial e do aparato militar, as corridas de cavalos, como toda essa tradição é posta a rolar para fazer esta celebração. É um planeamento muito bem organizado. E depois a quantidade de gadgets, porque a rainha britânica tem a componente alteza real, distinção, noblês, elite, mas depois tem a parafernália da pop art, dos gadgets, a cunhagem do pence, faz rodear a figura da rainha de um grande endosso popular, é transversal a todas as classes. De resto, a rainha também foi seguindo um circuito. Blair deu muito impulso nessa direção de projetar a rainha na chefia do Estado, de uma forma mais abrangente, coisa que a rainha também usa no endosso e cultivo que faz, associações de deficiência, charities, todo esse conjunto de pequenas unidades muito enraizadas na sociedade britânica e que a colocam também numa percepção positiva do lado do povo mais humilde, mas que também se sente representado pela realeza britânica da rainha Isabel II.

Já me garanto. Na intervenção de Natal, na última mensagem de Natal, ela tem uma mensagem muito curiosa, muito importante, que é uma mensagem que é feita por alguém que invoca claramente o menino Jesus, o menino daquela noite, para um povo que neste momento talvez já não seja tão cristão como foi no passado, mas ela não deixa mesmo assim de ser a monarca de todos. Há aqui uma evolução da própria sociedade inglesa que ela, sem perder as raízes como chefe da Igreja Anglicana, parece conseguir conservar, invocando sempre a sua condição cristã.

Sim, mas quer ela, quer o príncipe Felipe. Aliás, isso numa dada altura até foi objeto de algumas críticas à esquerda. São pessoas de fé, são crentes e nunca fizeram também batota sobre isso. Pela mesma razão que há líderes não crentes de populações que são muitas vezes crentes, também acontece o contrário. Quer dizer, não há dúvida que a Inglaterra passou por uma descristianização, como toda a Europa Ocidental. Toda a Europa Ocidental no último meio século, praticamente. Essencialmente a partir dos anos 60. Em termos de Igreja, é o Vaticano II que marca. Há uma clivagem, há uma descristianização grande na sociedade. Não vou dizer que foi por causa do Vaticano II, mas é uma referência também. Quer dizer, dá a impressão que quando se tornou mais fácil, também as pessoas saíram mais. Mas no caso da Inglaterra, tem uma igreja oficial que é um caso peculiar, mas a crença em Deus e os princípios cristãos foram sempre fortes neste casal da rainha Isabel e do príncipe Felipe. E, portanto, não é estranho que ela, e não está com certeza a ofender o laicismo de muitos dos seus súditos, tenha esse princípio. Aliás, hoje, às vezes a própria Igreja também é nesse aspeto menos exigente. Portanto, também é curioso que não seria estranho que não fosse, mas eu acho que ela não admira, porque não parece que seja também uma mera fórmula política de conveniência. Penso que é uma pessoa de convicções religiosas, como aliás era o marido, que tinha até essa sua divisa: "Com a ajuda de Deus". O príncipe Felipe tinha essa divisa. Portanto, eu acho que nesse aspeto não é estranho e não me parece que seja intrusivo, nem que seja ofensivo para os que não forem crentes, que são muitos também entre a população inglesa. Esse tipo de alusão ou de mensagem, exatamente numa época que é a época do nascimento de Cristo.

Agora, podemos dizer uma coisa. Há um certo paradoxo trágico na rainha Isabel. É que os problemas não têm sido problemas dos inimigos da Inglaterra, não têm sido problemas do povo inglês para com ela, ou dos intelectuais ingleses para com ela. Os problemas mais complicados que ela tem são os criados pela sua própria família.

Claro.

Isso é que tem sido o grande problema do reinado da rainha Isabel.

Exatamente.

Descontando depois a imprensa tabloide, porque a rainha Isabel começa este seu percurso, o pai fez a primeira mensagem de rádio Ela teve a coroação televisionada, contra a vontade do Churchill e do arcebispo de Canterbury. Ela quis isso. E depois apagou toda a aparição da imprensa tabloide, dos vexames, que criaram à realeza problemas complexos de gestão. Mas ficamos com a família.

Sim, sobretudo da família.

Foi um coquetel de ingredientes para essas dificuldades. Não ela. Nunca houve contra a rainha Isabel uma rebelião republicana, nem uma amotinação contra a coroa ou a realeza da rainha Isabel.

Ela é que salvou um bocado essa imagem.

Mas teve que se proteger até de membros da própria família.

O Jaime deve se lembrar também, até penso que são umas fotografias que eu vi nos anos 50, no "Século Ilustrado", das primeiras fotografias da princesa Margarida a sair bêbada de uma coisa qualquer. Foi, na altura, um grande escândalo.

Toda essa tragédia que depois cai sobre os ombros da rainha.

Exatamente.

Ela vai conseguindo sempre resolver os vários problemas que lhes vai afligindo. E o mais recente foi o príncipe André.

Sim, ela sobrevive. Ela é uma resistente como ninguém. Ela própria um dia disse: "Se quiserem abolir a realeza, eu sairei de mansinho pelos meus próprios pés, com passinhos curtos." E o duque de Edimburgo: "Nós aqui temos que enfrentar uma eleição, não é de quatro em quatro anos, é todos os dias. Isto é muito difícil." E este jubileu também marca uma espécie de: "Vamos premiar a rainha pelo desempenho, pela forma como tudo isto tem sido resolvido, por uma certa imagem de sobriedade que ela também dá à sua aparição pública. Um certo puritanismo que é do agrado dos anglo-saxónicos, que não o praticando, admiram-no por outro lado.

Sim, é que ela não é uma puritana. Ela, de fato, vive de acordo com os seus princípios. Não é uma farisaica. Os puritanos têm um lado muito fariseu, por vezes. Não é o caso dela.

Mas, entretanto, já excedemos um pouco o nosso tempo. De fato, falar sobre a rainha Isabel II é fascinante. Poderíamos estar aqui mais bastante tempo a conversar, mas ficamos com um próximo "Conversas à Quinta" para a próxima quinta-feira. Até daqui a uma semana.