Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Começou esta quinta-feira a edição número 57 do Moda Lisboa. É a edição que marca o regresso do público depois de, no ano passado, a edição ter sido essencialmente online e tudo por causa da pandemia. Mas há coisas que não mudam. A aposta nos novos criadores mantém-se. Hoje foi dia da primeira fase do concurso Sangue Novo e estão escolhidos os cinco novos designers que vão competir pelo prêmio na próxima estação. Quem já foi Sangue Novo no Moda Lisboa foi a nossa convidada de hoje, a designer Constança Intrudo apresentou a primeira coleção precisamente no Moda Lisboa em 2018. Este ano volta ao evento para apresentar a nova coleção Primavera-Verão 2022 e é já no sábado. Constança, obrigada pela disponibilidade. Bem-vinda, boa tarde.

Olá, tudo bem.

Bem-vinda.

Constança.

Obrigada.

Já vamos falar da tua coleção, mas isto em semana de Moda Lisboa, ninguém dorme. Como é que o teu dia a dia tem sido nos últimos tempos?

O meu dia a dia, na verdade, é sempre bastante frenético e mesmo fora das semanas da moda, temos sempre muito trabalho.

Sim, imagino que sim.

Mas sim, especialmente agora tem sido. A coleção já foi apresentada na semana passada, em Paris. De maneira que agora já estamos focados noutros projetos e já estamos a preparar o Moda Lisboa, assim como outros projetos.

Certo, e Constança, a tua coleção, e como dizias, foi já apresentada em Paris, onde foi muitíssimo bem recebida. Portanto, isto foi assim um boost de confiança extra pra tua presença no Moda Lisboa, que é já no sábado, o desfile.

Foi, claro, é sempre muito bom e gratificante ouvir o feedback positivo sobre a coleção. E agora vamos introduzir novidades para o Moda Lisboa. Vamos ter uma performance live com a artista que colaborou conosco nesta coleção, a Isabela Toledo.

Portanto, aí vais ter novidades para apresentar no sábado. Mas, de facto, Constança, isto são semanas da moda com dimensões bastante diferentes. Como é que vives cada uma delas?

Sinceramente, vivo exatamente da mesma forma, porque o que acontece, na verdade, eu estou a apresentar o meu trabalho e seja onde for, pra mim já é um momento muito bom. E portanto, seja em Paris, seja em Lisboa, o entusiasmo é sempre o mesmo.

Certo.

E hoje em dia também com esta visibilidade toda que a internet permite ter, na verdade, acaba por quase não ser assim tão diferente.

E o Moda Lisboa tem esta componente que já no início aqui reforçamos também, portanto, regressa o público aos desfiles. Já em Paris também foi assim, como é que foi esse reencontro?

Foi bom. Eu confesso que estava bastante ansiosa, porque eu desfrutei muito dos tempos de pandemia no sentido do que diz respeito ao meu trabalho e à forma como o apresentei. Eu gostei, especialmente, da introdução do digital. Tenho sim um certo fascínio por tudo que é o futuro e se for uma novidade, eu aceito-a bem. Portanto, confesso que foram tempos interessantes também e que voltar ao físico era algo que me estava a deixar assim um pouco ansiosa e, na verdade, correu bem, também adaptei-me muito bem. Mas o Moda Lisboa tem uma coisa muito boa também, que é uma componente digital muito forte, que soube acompanhar muito bem estes tempos e portanto, também vai ser interessante agora explorar outra vez isso digital, porque o Moda Lisboa vai ter um livestream, que em Paris não tivemos, e essas ferramentas para apresentar digitalmente.

Constança, muito se falou também desse regresso à normalidade do período pós-pandemia. E quando se falou também desse regresso à normalidade, deixa-me perguntar-te uma coisa que é: estamos mesmo aqui, e tendo em conta essa tua experiência também em Paris, já com o público, estamos a falar de normalidade ou há aqui uma coisa nova? Ou seja, depois de tanto tempo em que as pessoas estiveram em casa, em que estiveram privadas de muitas liberdades, sentiste aqui algo diferente no ar, ou seja, há aqui um apetite maior também por marcar presença, por falar também com os designers, por estar atento a tudo, para ter mais experiências do que é o costume. Conta-nos um bocadinho disso também.

Confesso que eu ainda não senti muito isso. Eu senti que a criatividade, olhando para as semanas da moda e para todos os desfiles que aconteceram, seja de marcas grandes ou pequenas, eu achei que a criatividade estava no seu melhor, sinceramente, e que foi uma das melhores seasons de sempre. Acho que isso também foi muito fruto deste isolamento e destes constrangimentos todos. No entanto, senti que a internet aproximou-nos tanto uns dos outros, que eu não sei até que ponto é que há uma necessidade assim tão grande das pessoas, no físico, se aproximarem fisicamente de nós, porque eu acho que a proximidade que o digital trouxe, talvez ainda foi maior do que alguma vez eu tive com o público, por exemplo.

E tu tiraste partido disso também nesta tua coleção que vais apresentar agora no sábado e que já apresentaste em Paris. De que forma é que este isolamento também se traduziu no teu trabalho, Constança?

Bem, este isolamento foi realmente muito bom pra uma autodescoberta. O meu processo criativo tornou-se mais honesto, até. E pra mim isso é muito importante. Há uma relação muito grande entre eu e o material, entre os tecidos e durante os tempos de pandemia, eu tive realmente uma grande proximidade com os meus materiais e a relação que já era íntima tornou-se ainda mais. Portanto, pra mim, foi fundamental, acho que o meu trabalho tornou-se melhor

Mas sentiste que, de certa forma, o desacelerar do ritmo, que na verdade eu não sei se na tua criação isso aconteceu, se continuaste a produzir dentro do mesmo ritmo ou não, mas sentiste que esse desacelerar geral ajudou à criatividade, ajudou a estimular a tua criatividade de forma diferente?

Ajudou imenso. Eu acho que é muito importante nós sentirmos entediados. E eu procuro sempre sentir-me entediada para procurar outra coisa. E durante a pandemia, eu realmente fui obrigada a sentir-me bored. E eu acho que isso foi muito importante, e sente-se no trabalho de várias pessoas, de vários designers e artistas.

Explica-nos um bocadinho o que tu vais apresentar. Nós não conseguimos mostrar a tua coleção na rádio, não temos essa possibilidade. Mas tu tens aqui uma coleção que visualmente usas, por exemplo, cores muito fortes, arriscaste aqui nas cores, usas o rosa, o azul, o verde, o laranja. Se nos pudesses explicar o que te inspirou exatamente para aquilo que vais apresentar no sábado no Moda Lisboa, o que foi, Constança?

A exploração da cor é sempre uma constante no meu trabalho. E eu estudei Design and Textile Print Design e o meu curso focava-se muito pela experimentação de cores, tingimento, etc. Portanto, a cor está sempre presente no meu trabalho. Eu tive um tone down, de certa forma. As cores da estação passada foram menos vivas. Porque também olho mais para a natureza, era o que eu podia olhar. O mundo estava vazio, portanto não havia aquele frenesi que traz a cor, muitas vezes. Mas a inspiração desta coleção são artistas de poesia concreta dos anos 60 e 70. E esta coleção parte de um livro que eu comprei em Paris, do N.H. Pritchard, que é um poeta americano, que são os poemas de poesia visual. E são os poemas dele dos anos 60 e 70. E o livro é preto e branco. Eu acho que isso realmente foi o motivo principal pelo qual a coleção acabou por ter tanta cor. Como que a partir de uma referência tão monocromática, depois na exploração dos materiais, foi onde eu me senti livre para poder dar uso à cor.

Mas qual foi o teu ponto de partida neste caso? Foi esse livro? Tu normalmente que referências é que tens? Para quem não conhece o teu trabalho, é sempre algo com que te cruzas no dia a dia, no teu cotidiano? O que te vai levando depois a tentar desenvolver um trabalho? Pode ser uma coisa mais simples, mais complexa, vai variando?

Não varia muito, sinceramente. A minha pesquisa, normalmente, o meu ponto de partida é uma referência não visual, muitas vezes livros, na maioria das vezes. Porque eu acho mais estimulante começar por uma coisa que não tem qualquer referência visual, que não se parece a nada, portanto, que dá asas depois à minha imaginação e à criatividade para eu explorar as palavras para transformá-las em materiais. Porque o meu trabalho passa muito por um processo criativo, passa muito por trabalhar o têxtil, e só depois de meses a trabalhar materiais e têxtil e cor, é que eu desenho e passo para o corpo. Portanto, claro que há muitas pessoas que me inspiram e claro que há muitas coisas do dia a dia que me inspiram, mas as minhas referências normalmente são literárias.

Muito bem, portanto, tu partes da parte que não é visual, para depois fazeres as tuas criações. A tua coleção vai ser apresentada também em streaming, já falámos sobre isso, o desfile é no sábado. Mas Constança, eu há pouco falava desta competição dos novos criadores, o Sangue Novo, e tu tens também aqui um papel, porque és uma das juradas. O que é importante dar a estes jovens, este palco, o que é necessário dar a estes jovens? É importante fazê-lo? E o que te surpreendeu naquilo que foste já vendo este ano?

Eu acho que este concurso é importantíssimo num contexto de moda, em qualquer sítio do mundo, mas principalmente em Portugal, porque é quando a expressão pessoal e criativa de um designer é valorizada sem qualquer fim comercial. E portanto, eu acho muito importante, é uma coisa que eu acho que há muita sede aqui, que é pensar na moda também como forma de arte e como forma de expressão. E este concurso foi mesmo isso, foram vários designers novos, a maioria acabado de sair da faculdade, que todos tinham projetos superinteressantes. No entanto, os finalistas foram realmente aqueles que se mostraram ser eles próprios mesmo e que mostraram ter um grande potencial e que podem trazer algo novo e fresco.

E é uma competição em que podemos dizer que quem a integra está mais ou menos em pé de igualdade. Ou seja, tu falavas desse fato de haver aqui criadores que vêm praticamente diretos da faculdade, das universidades, depois para esta competição. O fato de não haver aqui grande historial, já também profissional e comercial destes jovens criadores, significa que estão todos, como dizias, portanto, numa espécie de patamar de igualdade para depois haver essa avaliação.

Sem dúvida. Nem todos, há uns que já têm mais alguma experiência. Sim, exatamente, isso também reflete depois no trabalho. E claro que ter um propósito comercial é superimportante e ter essa visão. No entanto, não nos podemos esquecer que nós somos realmente um país, falando da indústria da moda em Portugal, em que estamos muito focados no que se usa e no que é usável e no que eu usaria. E a moda não é só isso. Portanto, eu acho que o Sangue Novo tem um papel muito importante, porque realmente abre os olhos da sociedade portuguesa e faz-nos ver realmente que a moda é muito mais Do que aquilo que eu usaria ou que outra pessoa gostaria de usar. Pela maneira como outra pessoa se quer expressar.

Constança, e tu já tens alguma, bastante experiência também nesta área e por isso mesmo é que tens também este papel de jurada e fazes parte também deste certame da Moda Lisboa, que é tão importante não apenas a nível nacional, mas também internacional. Mas és ainda considerada também uma das jovens, não sei se promessas, mas um dos jovens valores da moda portuguesa e do design de moda. Consideras também que neste momento há estruturas necessárias para os jovens criadores irem dando esses primeiros passos, não apenas na Moda Lisboa, mas noutros festivais, noutros eventos? Tu sentiste muitas dificuldades quando foste dando esses primeiros passos ou sentiste que, caso haja qualidade, que há essas portas abertas e que há esses palcos para se mostrar o trabalho?

Sim, eu acho que quando há qualidade e quando a pessoa sabe realmente o que quer. Por vezes, não é preciso saber o que se quer, é só ter alguma ambição. Vamos conseguindo desbloquear e ir deitando abaixo todos esses obstáculos que vão aparecendo. Acho que é muito importante também, e foi uma coisa que foi muito conversada com todos os participantes, eu pelo menos tentei fazer, é também perceber que nós temos que ir atrás das oportunidades e não podemos esperar nada das instituições, e sim lutar também pelos nossos objetivos e acreditar no nosso estilo, ir em frente, errar e continuar. Eu acho que é muito importante transmitir isso, que é uma coisa que eu sinto muita falta, porque tenho muita gente no meu ateliê que trabalha comigo e jovens que vêm da faculdade. Jovens como eu, que eu também não sou bastante nova. Mas acho importante também que saibamos que temos mesmo de ir atrás das oportunidades e que o não virá sempre e que nós temos de continuar.

Insistir, mantendo essa visão. Há pouco aquilo que dizias é importante, Constança, a questão da pressão dos números, enfim, daquilo que é para vender, do lado comercial da moda, em contraponto àquilo que é o lado artístico da moda, que é esse aquilo que te interessa explorar.

Interessa-me ambos e cada vez mais o lado comercial me interessa mais. Eu estudei em Londres numa faculdade hiper criativa e tive experiências em marcas diferentes em Londres e em Paris, umas mais comerciais, outras menos. Portanto, sempre tive uma visão da moda muito abrangente. E portanto, o comercial é super importante, porque também um designer arranja soluções para as pessoas. E portanto, também é muito importante, se algo é comercial, também significa que as pessoas se sentem bem a usá-las e sentem-se confortáveis, etc. E portanto, isso é um lado que eu estou a explorar agora mais, porque tenho uma visão muito artística da moda.

E já agora, seguindo aqui o teu raciocínio, deixa-me perguntar-te uma coisa que é: normalmente, quando se fala de moda e se olha para a televisão, para um ecrã de um computador, o que vemos é uma espécie de desfile para as elites. É assim normalmente que as pessoas olham para os desfiles de moda em Paris, em Milão, na Moda Lisboa. Sentes que há um trabalho feito neste momento para aproximar mais, e nisso que falavas também do ponto de vista mais comercial, para aproximar aquilo que é essa visão mais artística e depois o lado mais utilitário da coisa?

Sim. Eu confesso que luto muito contra essa ideia e é uma conversa que eu tenho recorrentemente com várias pessoas que me abordam e falam dessa questão da moda não ser acessível para todos ou dos desfiles não serem acessíveis para todos. E eu também acho que é muito importante nós designers adaptarmos-nos, mas também o público, mesmo quem não tem nada a ver com moda, também ter a capacidade de abrir a sua mente a coisas novas e de pensar: "Ok, eu não uso, eu não usaria nada disto ou eu não me poria assim, mas o que eu posso encontrar neste desfile que pudesse mudar um bocadinho a minha perspectiva ou que eu pudesse gostar?" E eu acho também que é um exercício que tem que ser feito dos dois lados e que eu tento fazer isso no meu trabalho. Mas sem dúvida que acho que a moda hoje em dia está a caminhar para uma coisa mais democrática. Está a tornar-se mais democrática e democratizada. E portanto, sim, acho que esta questão toda do casting, termos real people agora, que durante os anos 90 foi uma coisa que parecia quase impossível de conceber, termos pessoas de todo o tipo.

Já não falamos daqueles estereótipos das mannequins, também, por exemplo, e dos mannequins que tinham que ter uma determinada fisionomia para estar de acordo com aquilo que eram os cânones vigentes na moda mundial, não é? Entretanto, já há essa democratização de que falas também, por exemplo, no momento de um desfile das pessoas que usam aquilo que é criado pelos criadores.

Exato. Isso é super importante. Como é que eu hei de dizer? Essas pessoas são quem faz a moda. As pessoas são quem faz a moda e o trabalho de um designer.

São as pessoas reais que circulam pelas ruas todos os dias.

Sim, mas um modelo também é uma pessoa real e nós também temos de conseguir ter a capacidade de percebê-lo.

De trazer esse lado real também para os desfiles. Para aquilo que parece tantas vezes inacessível, mas que na verdade está cada vez mais democratizado, como dizias.

Sim, claro que sim. Eu acho que também a internet permite isso. Nós criamos uma persona, de certa forma, que podemos não ser nós muitas vezes. E eu acho que também isso fez com que as pessoas se sentissem mais perto de um manequim. Vem agora uma possibilidade de também ser um, como é que eu hei de dizer?

De ser também cada um de nós, sermos, no fundo, um manequim na vida. No nosso dia a dia.

Exatamente, eu acho que a internet cria um bocadinho essa-- nós podemos não ser assim no nosso dia a dia, nós podemos não ir trabalhar assim, mas nós podemos ser assim durante um mês. Eu acho que a moda e os desfiles também são isso.

Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.