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Estreou esta semana o novo documentário de Filipe Araújo, "O Casarão", conta a história de um seminário na Aldeia Nova, em Ourém, um lugar isolado num Portugal dominado pelo salazarismo e o cenário de memórias de infância do pai do Filipe. Foi este seminário, precisamente. Filipe, bem-vindo, obrigada pela disponibilidade. Obrigada por estar connosco.
Obrigado. Olá.
Olá, Filipe.
Olá.
Deixa-me fazer uma declaração de interesse, já aqui a abrir, porque eu sou amigo do Filipe já há muitos anos. Nos conhecemos há muitos anos, mas isso não nos vai impedir nem de fazer perguntas com rigor, nem de ouvir respostas também rigorosas.
E foi uma surpresa pra mim.
E foi uma surpresa, é verdade.
Perguntas difíceis, é o que vamos ter, Filipe. Este seminário, Filipe, está vazio, as plantas já se vão apoderando dele, os animais também. É possível ver isso também um pouco no trailer. Portanto, o ponto de partida foi precisamente o seu pai e um blog. Quer explicar-nos?
Sim, o meu pai faleceu em 2008 e eu andava à procura, a fazer um levantamento de bibliografia. E decidi googlar o nome dele, que era uma coisa que nunca tinha feito. Também naquela altura não íamos tanto. E em vez de encontrar mais bibliografia, encontrei este blog de antigos seminaristas da Aldeia Nova, onde o meu pai tinha passado a primeira metade da vida. E achei muito curioso, ao fim de 40 e tal anos, estes avós estarem ali reunidos online e a trocarem ideias como ponto de encontro. E comecei a ler. Comecei a seguir, encontrei inclusivamente um texto do meu pai, e foi a partir dali que percebi que aquele espaço, que tinha feito também parte do meu imaginário de infância, estava à venda, que ia desaparecer ou pelo menos ia ser descaracterizado. Já não havia mais sentido para os dominicanos manterem aquele espaço.
Que estava vazio, não é?
Que estava vazio já há algum tempo. É incrível. Eu fiquei a saber nessa altura que a idade média dos padres e das freiras na Europa era 85 anos. Estávamos mesmo perante um fim de ciclo. E eu nunca pensei, contudo, meter-me a fazer um documentário. Eu vinha de um filme de guerrilha que já me tinha dado dor de cabeça suficiente e tirado energias. Estava com outro projeto também em carteira para avançar. Eu simplesmente decidi pegar num amigo e ir lá ver se ainda existe alguma memória física. Eu gostava, pelo menos, de fazer uma fotografia e de reter pra mim alguma desta memória.
E que história é esta, Filipe? Que história é esta do Casarão? No fundo, que história é que tu contas no filme?
Na verdade, eu quando decidi avançar, queria contar uma história, que era a história destes rapazes e a história deste paradoxo, deste grupo de miúdos, destes quase 100 ou 100 e tal miúdos, que por ali passaram em plena ditadura, quando o país estava mais fechado, e a prepararem-se para algo que nunca viriam a ser, acabam por descobrir dentro de muros, ter o contato com a liberdade. Porque apanham também uma altura muito particular, que é a transição dos anos 50 para os anos 60. Há uma grande vanguarda dentro da Igreja, há um conjunto de padres novos que são ordenados e são enviados pra lá. Há também um padre, um frade, que chega do Canadá para os guiar como superior e de repente aquilo há uma revolução dentro deste espaço e a esquecer aquele imaginário da manhã submersa, que também foram as primeiras imagens que eu tive na minha vida de um seminário, aquela ideia de austeridade.
Ainda no filme do Lauro António.
Exatamente, que eu vi quando era adolescente, como praticamente todos, pela RTP. Essa era a ideia, pôr através de um conjunto de fontes. Só para recentrar: eu fui à Aldeia Nova, conheci o caseiro que tomava conta daquela casa, que tinha nascido à sombra daquela casa, que tomava conta daquela casa já há anos. Aquilo que sempre tivera sido o seu mundo. E foi ele que me mostrou tudo e foi a partir daí que eu decidi voltar, porque lhe quis, como agradecimento, levar o "Gente Feliz com Lágrimas" do João de Melo, que tinha também por lá passado, e descreve lindamente o ivate com esse espaço. Aliás, o nome "O Casarão" foi roubado ao "Gente Feliz com Lágrimas". E quando volto, ele diz: "Olha, vai haver um encontro de ex-seminaristas". E estamos em 2015. Eu decido ir ao encontro dos ex-seminaristas e basicamente esse é o último plano do filme, e o filme começa de trás pra frente.
E esse encontro, foram partilhando estas pessoas também consigo? Porque foram colegas do seu pai, alguns deles.
Sim. E é curioso que eu fui à procura do meu pai neles, mas apercebi-me que o meu pai já os tinha a eles todos dentro. E havia aqui, de facto, um imaginário comum muito forte. E daí eu ter pegado nos materiais, em cartas, em diários, em notas, num pedaço de literatura, em texto de blog, e a partir de várias fontes e de várias cabeças, vários seminaristas, tentar fazer uma colagem do que neles havia de comum. E isso era inicialmente a motivação. Só que entretanto, eu começo a frequentar a aldeia Numa altura era o pós-troika, em Lisboa e no Porto, os fundos de investimento internacionais a entrarem, o boom do turismo, ou seja, de repente tudo valia muito mais, havia este boom todo. E depois ia ao interior e àquela aldeia que já foi o farol e o epicentro de toda uma região, no final, aquilo estava completamente abandonado, estava às moscas.
Estava como o casarão.
Estava como o casarão, basicamente. Ainda vivem lá 200 pessoas, mas metade são reformados. Contámos na altura 40 casas vazias, 30 famílias emigradas. O único café foi fechado pela ASAE há anos e continua fechado. Ou seja, era no fundo uma aldeia rasgada por uma estrada onde os carros já não param.
Como disse, tenho a felicidade de te conhecer há muitos anos e sabia que estavas a fazer isto há muito tempo. Por que demorou tanto tempo a fazer?
Porque foi um processo muito orgânico também.
Tu começaste quando?
Eu fui lá em 2015 pela primeira vez. O primeiro plano, que é um plano de arquivo, na verdade, foi feito em 2015, mas só concorri ao ICA, por exemplo, ao apoio em 2017. Até lá era uma investigação pessoal.
E tens o teu trabalho.
E tenho que ir fazendo mais coisas pela vida.
Tens que ganhar a vida.
Também tenho que ganhar. Exatamente. Que aqui aprende-se e ganha-se muita generosidade. E só em 2018 é que foi o grosso mesmo das filmagens do casarão, que depois voltámos no final de 2019 para concluir. Há esse privilégio. É um filme que cruza um período de tempo bastante grande. Mas isto só para não me perder em relação ao que estava a dizer, foi quando eu voltei, ao fim da terceira, quarta vez que voltei à aldeia, que percebi que isto não podia ser um filme sobre o passado, isto era um filme de diálogo do presente com o passado. E o que acontece a estas pessoas e, de facto, de repente, apercebo-me que tenho à minha frente o carismático António Caseiro, que é o protagonista, é este guardião, esta ponte entre o presente e o passado, entre o mundo secular e o mundo religioso. E era perfeito. E ele acolheu-nos em casa, quando ainda não havia dinheiro, inclusivamente nos tratava às vezes do catering, foi mesmo incrível. E essa é a coisa bonita também do documentário. Eu quando comecei a filmar, o filho dele tinha 13, 14 anos, quando terminei, estava na universidade. E imaginem com quem é que foi viver? Com a minha mãe, que veio para Lisboa. De repente, ficámos da mesma família.
Mas como é que é a aldeia? Voltando a essa altura em que o seminário estava vibrante, era quase o lugar progressista ali na zona. E ia espelhando também essa comparação com o país muito fechado. A aldeia ia vivendo à volta daquilo?
Sem dúvida, tudo. Aliás, eles dizem: "Foi a primeira terra da região a ter as estradas, a ter a água, a ter eletricidade."
Lá está, o progresso era todo arrastado pelo seminário.
E depois havia este Frei João Domingos que vem do Canadá, traz também essa mundividência toda, porque convida professores de várias nacionalidades, eles dizem que até tinham um professor vietnamita. Há o cinema que chega das embaixadas, de repente estão a fazer projeções ali dentro. Havia um contacto com o mundo muito grande. Eles até de questões da vida sentimental falavam e sente-se que não havia um peso de tabus como estamos habituados. Há um seminarista que escreve numa carta que quando aquilo acontece é como se os santinhos com os corações a jorrar sangue deixaram de fazer sentido.
Essa imagem é muito poderosa e estamos a falar de uma altura de final dos anos 50, início dos anos 60, de um país muito atrasado, com muito analfabetismo, em que os seminários eram grandes centros de saber e de ensino.
A segunda metade do século XX.
Sobretudo para quem não tinha posses.
Claro. E há uma questão, eu às vezes costumo dizer que foi um elevador social, sem dúvida que foi, e um dos maiores, porque era via militar ou religiosa, mas eu acho que muito mais do que um elevador social, foi um elevador cultural. Aliás, é um elevador social porque é um elevador cultural.
Exatamente.
E de facto, pensemos que grande parte dos escritores da segunda metade do século XX passaram por seminários, mesmo aqueles que foram expulsos, nem que tivessem estado lá pouco tempo, passaram por lá.
Pelo menos aprenderam alguma coisa de latim.
Sim, exatamente.
Porque estes colegas do seu pai já viram o documentário ou ainda não?
Ontem foi a primeira sessão, foi muito particular. Deve ser sempre mostrar, partilhar o filme quando há implicados e no documentário acontece muito isso. São sempre momentos algo tensos, mas nós tivemos três momentos. Foi o momento de antes estreia em Coimbra, no Caminho do Cinema Português, em que foi a primeira vez que o António Caseiro se viu. E foi muito curioso porque o que ele me confidenciou no final, estava algo perturbado e dizia: "É que estes meninos todos que eu via aqui dentro da imagem, de repente já são homens, já são adultos. E depois havia também pessoas que já não estão cá." Ou seja, ele viu o tempo a fugir. E eu comentei, inclusive, na altura: "Mas sabe, António, o cinema é de facto como uma cápsula de tempo, é isso que nós estamos a fazer." E o que António estava a tentar fazer, e fez, com as mãos, que foi preservar e tentar tirar o que havia ainda, o que restava desta memória física, no fundo, é o que eu estou também a tentar fazer com a câmera. É deixar aqui qualquer coisa, uma pecinha para um dia, quando se olhar para este espaço, se calhar já não existe nenhuma casa, já nem sequer existe uma ruína, podermos, se tivermos curiosidade, ir atrás e ver o que é que ali foi, porque é um pedaço da história do país.
Tu tens vários documentários, eu sou suspeito, mas de elevada qualidade, que vale a pena espreitar. Como é que foi a convivência entre Filipe Araújo, realizador, a pessoa que faz documentários e gosta de contar estas histórias e de as preservar, e do Filipe, o filho? Como é que tu casaste as duas coisas?
É o projeto mais pessoal, apesar de também de ser o objeto, que acho que na minha filmografia ainda curta, mas que é o mais estranho, foi aquele filme que eu fiz com mais liberdade. E eu não senti esse peso durante o filme. Acho que as coisas fluíram todas bastante bem. Eu também tinha um conceito por trás e agarrei-me um bocado a ele para não me perder. Mas é isso, eu parti para o filme a pensar-
Mas estavas a conhecer melhor o teu pai, por exemplo?
Sem dúvida. E eu parti para o filme a pensar que lhe estava a fazer uma homenagem e percebi que aquilo tinha sido uma prenda que ele me tinha deixado.
Isso é muito giro.
Aliás, há um momento particular no filme em que ouvimos a carta da saída da Ordem, que corresponde mais ou menos no filme ao momento do desventramento da casa, e aquilo é a carta do meu pai. E eu nunca tinha lido aquilo na minha vida e aquela é a razão de eu existir. Mais um paradoxo, eu acho que sou outro paradoxo, mas pronto. Felizmente, ou se quisermos usar jargão religioso, um pequeno milagre, porque, de facto, esta gente, e depois também é muito curioso, porque muito poucos seguiram a via religiosa. Há uns quantos, e aliás, muito bons, o frei Bento Domingues, que é uma das pessoas mais desempoeiradas da igreja, mas conseguiram fazer uma síntese muito interessante entre esses dois mundos. Peneiraram o melhor dos dois, parece-me, e resultaram em humanistas felizes, íntegros e pessoas bem resolvidas. Hoje em dia temos muita tendência para estar nos extremos, nos radicalismos, e interessa-me muito esta zona. E eu acho que isso aprendi do meu pai, dos amigos, e sinto que saí reforçado de toda esta experiência do filme, também da produção.
E como é que se parte agora de uma coisa tão pessoal, de uma coisa que demorou tanto tempo, para outro projeto completamente diferente?
Parte-se para uma coisa ainda mais pessoal.
Ainda mais?
Ainda mais pessoal.
Então.
Porque esta é em primeira pessoa. E já começou, estamos com uma coprodução com Itália. Eu poderia dizer muito resumidamente que é um filme sobre os sonhos e as desilusões do projeto da União Europeia, a partir de um dos seus filhos, um europeu a chegar à meia-idade, em busca dos antigos colegas de Erasmus, de quem nada sabe há mais de 20 anos.
E esse já estás a fazer, não estás?
Estamos em escrita e desenvolvimento, sempre que já temos bastantes, sim.
Sendo que o Filipe tem aqui outra nota muito curiosa: é um eterno embaixador do Erasmus. Foste dos primeiros, talvez.
Foi uma figura que criaram, também muito curiosa, em 2012, quando foi os 25 anos do Erasmus. Cada universidade podia apresentar um professor e um aluno que tivessem feito Erasmus. Concorreram todo o país e enviavam as candidaturas para a Comissão Europeia. E calhou-me, tocou-me na rifa. Ainda andei lá nas cimeiras, ainda para mais foi durante aquela confusão toda da dívida soberana. Dividíamos conferência de imprensa, foi uma aventura curiosa, no mínimo.
Filipe, estamos a chegar ao fim do nosso tempo, mas "O Casarão" vai ser apresentado amanhã em Leiria, não é?
Amanhã. O filme está em exibição em Leiria, mas amanhã estarei presente para eu, o António, a família, e vai ser uma sessão muito especial. Primeiro porque é uma sala grande e depois porque eu penso que vai estar muita da aldeia ali em peso e vai-se ver ao espelho e vamos ver o que acontece também, vai ser outro daqueles momentos.
Vê se engasga até consigo, não é? Depois amanhã.
Vamos ver.
Mas é onde a apresentação?
Em Leiria, nos Cinemas City.
Nos Cinemas City.
E onde é que se pode ver o filme?
Para já, pode-se ver aqui em Lisboa, no Cinema City Alvalade e no Cinema City Leiria. Se tudo correr bem e se as pessoas forem às salas até domingo, segunda-feira, talvez se possa ver para a semana e por aí fora e abrir mais uma sala ou duas no Norte. Isto depende tudo muito da adesão do público.
E depois entra naqueles circuitos de plataformas? Como é que isso funciona?
A seguir fará cineclubes, cineteatros, depois mais tarde passará, isto é uma coprodução com a RTP, apoiada também pela Sociedade Portuguesa de Autores, portanto passará também em televisão e depois, claro, estará disponível para aluguer e nas plataformas de vídeo on demand e essas coisas. Mas é um filme para ver em sala, portanto eu, de facto, aconselho mesmo muito a ver em sala.
Tu defendes ainda que o cinema é para ver em sala de cinema? Eu calculo que sim.
Para mim, como experiência coletiva, acho que sim, e faz muita diferença. Nós ontem em Coimbra sentimos o calor e a vibração da sala. É uma experiência diferente. E depois acho que há filmes que ganham com isso. Este é um filme que ganha com isso, seja pela fotografia, seja pelo cuidado também do som e pelo ritmo. É um filme que requer também essa atenção, essa entrega.
Essa disposição para estar ali atento ao que se está a passar. O Filipe Araújo foi o nosso convidado de hoje, portanto é correr para as salas de cinema, onde está "O Casarão" este fim de semana, porque não? É uma sugestão que fica aqui neste "Conversas de Fim de Tarde". Filipe, muito obrigada.
Obrigado eu.
Até à próxima.
Um prazer.
Obrigada. Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.