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Na tarde em direto, hoje estamos à conversa com os Rei Marto, a banda indie rock que decidiu prestar uma homenagem a Amália Rodrigues. Lançou um segundo single, que vamos ouvir antes de cumprimentarmos o Simão, o Diogo e o João António. Esta chama-se "Amália, meu amor".

"Vives a vida triste, atrás de me ver sorrir. Sei que não quiseste isto, sem o fazer. Passamos a vida nisto, de tentar descobrir. Se nesta vida triste, nos vamos ver. Eu sei o que te põe no chão, Amália, meu amor. Que cantas para a solidão, bebendo com a dor. E quando põem a questão de não sorris mais. Eu sei, Amália, meu amor, somos os dois iguais. Vivo uma vida triste, achando que já te vi. Nos sonhos onde me viste e deixaste ser. Passamos a vida nisto, de tentar descobrir. Se nesta vida triste, nos vamos ver. Eu sei o que te põe no chão, Amália, meu amor. Que cantas para a solidão, bebendo com a dor. E quando põem a questão de não sorris mais. Eu sei, Amália, meu amor, somos os dois iguais".

A música nova dos Rei Marto chama-se "Amália, meu amor". São os nossos convidados de hoje, o Simão, o Diogo e o João António. Bem-vindos, boa tarde.

Boa tarde. Boa tarde. Olá. Bem-vindos.

Obrigada pela disponibilidade, por estarem conosco. Simão, começamos por ti, se calhar. Uma banda indie rock a fazer esta homenagem à Amália. Explica-nos tudo, como é que isto surgiu. Obviamente, por causa do centenário. Mas como é que começaram a discutir esta ideia e esta vontade de fazer tudo isto?

Olá, boa tarde. Curiosamente, não tem nada a ver com o centenário.

Falha minha.

Não. É uma música já do ano passado que foi pensada, pelo menos o poema estava pensado, mesmo porque sou um grande fã da Amália, então achei que valia a pena fazer uma música para uma pessoa que levou a música portuguesa tão longe e de uma forma tão única.

E, portanto, tiveram esta embalagem do centenário, não tendo a ideia surgido agora, para a lançar e para apresentar. Foi isso?

Exatamente. No ano seguinte à música estar mais ou menos pensada, a gente redescobriu essa ideia do centenário, nenhum de nós se lembrava. E quando se realmente lembrou, pensamos: "Ok, acho que estamos na altura certa de fazer uma boa música para uma boa homenagem", e arriscámos. E sentem que conseguiram fazer essa boa homenagem com esta música? Pelo menos deram o máximo que conseguiram. Demos o máximo. Acho que está fixe o resultado final, estamos bastante orgulhosos.

O Simão já nos disse que a Amália teve um papel também importante no percurso dele, e o Diogo e o João António, como é que vivem isto também? Igual, não é? Eu acho que todos nós temos uma certa ligação especial à Amália, fazendo música ou não.

Eu acho que quando se vive a música, acabamos por, mais tarde ou mais cedo, bater um bocado com as influências do nosso país. E acho que Amália, até por tanta coisa que tem vindo cada vez a aparecer mais para promover Portugal, etc., toda a gente quer voltar a ouvir fado, vamos ao Bairro Alto, ou melhor, íamos ao Bairro Alto e ouvíamos fado outra vez. E acho que acaba por nos tocar a todos, apesar de virmos de um gênero musical ligeiramente diferente, acabamos por respirar todos música e acabamos por estar em Portugal, por isso, siga para frente.

Claro, faz todo o sentido. E como é que foi lançar uma música em plena pandemia, um vídeo gravado também em tempo de pandemia, como é que foi? Isto tudo veio complicar os planos, não é?

Iá, porque isto foi mesmo antes de entrarmos de quarentena. Foram dois dias em estúdio a gravar o Sol e a Amália, e foi assim em tempo recorde, tentarmos o máximo, tantas horas antes, noutros dias, a ensaiar só duas músicas para tentar sacar aquilo à primeira, e resultou.

Portanto, dois dias para gravar duas músicas. Nós também já vamos ouvir a Sol. Também tenho aqui para ouvirmos e vamos fechar com ela, fica prometido para quem nos está a ouvir. Portanto, complicou-vos bastante a vida.

Sim. Aliás, nós estabelecemos este recorde, não tínhamos todos muito tempo, conseguimos esses dois dias e tivemos que investir tudo. O primeiro dia conseguimos logo gravar praticamente tudo à primeira e o segundo, basicamente só pôr vozes e misturar um pouco, mas valeu muito a pena e foi engraçado ser na altura que foi. E depois na quarentena, todo o desenvolver que houve, que ainda foi misturar o final, masterizar, pensar no vídeo, tanto do Sol como da Amália, qual é que vinha primeiro.

E foram fazendo isso tudo à distância, foram fazendo isso tudo através da net. Foi assim que foram fazendo esse trabalho por todos, foram falando todos à distância? Conta-nos um bocadinho o processo.

Sim, nós inicialmente pensamos: "Ok, pelo menos o mundo está todo na mesma situação, então ninguém está com vantagem nesta altura, podemos ver as coisas como sendo uma situação única para todo mundo". E nós pensamos: "Estamos com a net, siga, vamos fazer as coisas". E gravamos os dois vídeos à distância. A banda, íamos lançar a banda este ano, também acabou por ser lançada à distância, com muitas reuniões no WhatsApp e no Zoom. E basicamente fizemos tudo à distância. Agora, há três semanas voltamos a ver-nos pessoalmente, ao fim de dois meses, mas acho que é um bocado abraçar, ver isto como uma oportunidade e não como um desafio e tentarmos diferenciar-nos ao máximo.

Eu não sei se vocês sentem que por causa da pandemia, também se calhar estamos todos muito mais atentos a determinadas coisas que antigamente não dávamos grande valor. E portanto, para vocês que estão a dar os primeiros passos, como explicavam enquanto banda, enquanto conjunto, se calhar até têm aqui esse lado mais positivo. Têm aqui um espaço diferente.

Acho que sem dúvida, podemos tentar destacar-nos, pelo menos. Por isso, se virmos as coisas que a maior parte das pessoas vê como um obstáculo e virmos como uma oportunidade, é um bocado abraçar esse desafio, basicamente.

Tentar pôr o máximo a nosso favor e o que acabou por dar é que nós acabamos por gravar cada um no seu telemóvel. Parece uma coisa assim um bocado...

Portanto, tendo em conta essas contingências todas de início, e essas dificuldades, significa que, de alguma forma, tudo o que vier agora daqui em diante será mais fácil. Pelo menos, haverá essa benesse, já que houve tantas dificuldades, esta questão da pandemia, do confinamento, obrigou a que houvesse tantos condicionalismos à volta deste arranque dos Ray Marti, significa que daqui pra frente, tudo será, em princípio, um bocadinho mais fácil.

Nós esperamos que sim. Inclusive, estivemos hoje todos juntos, já a produzir músicas novas e esperamos entrar em estúdio brevemente. Também gravar as primeiras músicas é sempre a primeira vez, então é sempre um bocado mais complicado. Agora já temos um bocado mais óleo, por isso acho que é tudo muito mais fácil, de facto. Foi um bom teste esta pandemia.

Eu por acaso estava a pensar nisso, que já uma banda em condições normais, quando se junta pela primeira vez, começa a gravar as primeiras músicas, pode ser muito complicado afinar ritmos, por exemplo. E vocês, no vosso caso, ainda tiveram este extra, mas fico muito feliz que esteja a correr bem. Claro que estão também ansiosos, imagino, por estar em palco. A apresentar aquilo que estão a fazer neste momento. Há alguma perspectiva para isso acontecer em breve ou não?

Acho que nenhuma.

É difícil, porque não somos nós que controlamos isso, então a altura em que estamos não está a permitir. O que também podemos usar ao nosso favor para tentar aqui um build up mais estudado, de quando conseguirmos tocar ao vivo, já termos mais do que duas músicas cá fora, as pessoas já poderem ir com algumas músicas na cabeça, ir para nosso concerto já com algumas coisas que conhecem, outras por descobrir.

De qualquer forma, estamos todos ansiosos para começar a tocar. Isso é uma verdade. Nós começamos a tocar juntos no final de setembro do ano passado, e desde essa altura que nós estamos com muita vontade de pisar palco juntos, porque ainda não tivemos essa oportunidade. Mas de qualquer forma

Em relação ainda ao confinamento, acho que acabou por ser mais benéfico do que prejudicial para nós estarmos os três nesta situação, até porque temos todos trabalhos à parte e isto acabou também por dar mais algum tempo para pensarmos nisto. Deu para fazer as coisas com a cabeça que sempre quisemos fazer as coisas. Portanto, acho que até há coisas boas no meio disso tudo e nós conseguimos ir buscar muitas dessas coisas boas. Temos mesmo pena é de ainda não termos salas disponíveis para começar a tocar ao vivo, mas também dá para fazer o trabalho de outra forma e é isso que nós estamos a preparar agora.

Já agora, nós temos falado aqui muito do vosso arranque, do futuro, também nesta questão do confinamento. Acho que ainda não explicamos exatamente como é que tudo começou, como é que germinou este projeto dos Raymart, quem é que teve o primeiro impulso, quem é que deu o maior empurrão para que tudo isso acontecesse. Até porque é uma banda que, em Portugal, há muita gente que ainda não conhece. Expliquem-nos um bocadinho como é que isto começou tudo.

Eu, o Simão.

Assim à distância é melhor.

Eu, o Simão. Eu estava a viver em Bragança, estudei lá música e acabei por ficar lá a viver. Eu não sou de lá, sou natural da Trofa, mas fui para lá estudar no ensino superior e acabei por ficar lá alguns anos depois dos estudos. Sempre compus e gravei muita música em casa e quando chegou a altura de eu fazer alguma coisa realmente a sério, eu pensei num projeto de música em português, que por acaso, quando eu dei meu primeiro concerto, foi em Lisboa e vim cá fazê-lo. Correu muito bem. Fiz logo aqui uma data de amigos e na semana a seguir mudei-me para Lisboa. Desde lá, conheci o João António, ele foi pra casa dele, que eu fui viver quando cheguei cá. E pronto, foi assim mais ou menos que nos conhecemos. O início foi muito isso, foi a gente se conhecer pelo Instagram e eu conheci o João António porque fui viver pra casa dele e começamos a dar uns toques, que é o normal do pessoal das bandas, normalmente junta-se para começar a dar uns toques. E eu disse-lhes que gostava muito de levar o meu projeto, que na altura ainda era um projeto a solo, gostava mesmo muito de fazer daquilo uma banda a sério para tocar com as pessoas e ir para palcos e com gente à minha volta. E consegui arranjar os dois melhores possíveis para fazer isso comigo.

E ainda não estás arrependido.

Nada, pelo contrário. Isto tem crescido muito mais depois de eu estar a trabalhar com eles, que é uma verdade. Em Portugal é difícil também as pessoas ficarem conhecidas com tão pouco trabalho como nós temos neste momento, mas nós, ainda assim, estamos a ter uma boa entrada no panorama.

Estão a começar bem. O que vocês fazem fora da música, já agora, porque não se dedicam a tempo inteiro, não é?

Não.

Mais ou menos. Tentamos.

João António.

Esse é o grande sonho, não é? Imagino. Deixar tudo e dedicarem-se à música.

Ou pelo menos a parte da música. Por exemplo, não só tocar bateria, mas produzir, ter uma sala, um bar, uma coisa que suporte.

Muito bem.

Eu, pelo menos, sou software developer.

Muito bem. Ficamos todos à espera dos restantes, não querem dizer, não tem problema nenhum.

Eu sou arquiteto, o Faísca. Sou arquiteto freelancer e neste momento faço caixa no Jumbo.

Ok. E portanto, vão continuar?

E eu, o Simão.

Sim, Simão.

Queremos saber as vossas vidas todas, obviamente.

Eu sou o que tem o trabalho mais desinteressante, porque a única coisa que eu faço além da música é mesmo ir servir uns copos e uns pratos em restaurantes e bares quando precisam de mim.

Mas portanto, mantêm todos esse sonho vivo de viver disto, da música, de se dedicarem a tempo inteiro, de conseguirem ter aqui um projeto que vos permita sustentar também esse sonho.

Eu diria que sim, que não.

É mais aproveitar aqui este momento e este presente que vão tendo agora?

Sim, aproveitar o momento, mas ao mesmo tempo estamos com uma boa vibe enquanto banda, estamos com alguma confiança, estamos a gostar imenso das coisas que estamos a fazer. Não estamos a fazer e o nosso resultado final está ok.

Não querem dar passos em falso, mas para já estão a gostar daquilo que está a acontecer.

Sim, exato.

Eu acho que a partir do momento em que pensamos em trabalhar para algo, temos de o fazer por obrigação. E a música, pelo menos, é uma coisa que eu não quero ver isso já assim, pelo menos.

Ter a banda como profissão?

Ya.

Não é esse o objetivo que está no horizonte.

Eu, Simão Reis, gostava só de discordar dos meus dois colegas. Eu quero mesmo fazer disto profissão, acordar às 6:00 da manhã, meter-me num carro e ir tocar a qualquer lado. Eu adoro isso e adorava mesmo ter isso como obrigação, porque eu não sei fazer mais nada na vida, a não ser tocar e compor coisas. E gostava mesmo que se tornasse a minha vida profissional. Já não era fácil antes do confinamento, agora está um cadito mais difícil. De qualquer das formas, eu adorava que isso se tornasse uma obrigação, mesmo que eu tivesse que acordar 6:30 da manhã, porque sim, porque eu passei a vida toda a pedir a Deus ou ao universo, ou qualquer coisa, que pudesse fazer disto vida. Eu tenho esse sonho, acho que desde que me lembro de mim. Quero fazer disto profissão. Se eles não quiserem eu percebo, mas eu vou querer que eles toquem comigo na mesma. Mas de qualquer das formas eu gostava muito que isto fosse a minha profissão.

Simão, está a acontecer. Vocês já têm duas músicas. Nós já ouvimos Amália, "Meu Amor". Vamos terminar com a Sol, como eu prometi. O Simão, o Diogo e o João António são os Rei Marte e vamos ouvir essa música a terminar a nossa entrevista e ficam já convidados, quando tudo isto passar, tocam aqui nos estúdios da Rádio Observador. Pode ser?

Pode ser.

Então vai. Obrigada. Uma boa tarde para vocês, uma boa semana.

Até à próxima.

"Sol" é música dos Rei Marte. Pode sempre acompanhar os passos desta nova banda através das redes sociais, claro. Tem por lá mais informações. Tem por lá também a música que ouvimos no início desta entrevista, uma homenagem à Amália Rodrigues, chama-se "Amália, Meu Amor". Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos on-line, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.