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E de repente vem alguém com um frontal e durante muitos minutos só víamos o frontal. E ali naquele suspense de quem será esta pessoa? Será que vamos sobreviver a esta noite?

Sejam bem-vindos às Conversas do Fim do Mundo. Esta semana não temos um, mas quatro viajantes que fazem maioritariamente de Portugal o seu mapa-mundo. São quatro amigos que aproveitam os fins de semana para explorar o interior do país, quase sempre, se não sempre, em incursões pedestres. Das serras de Portugal trazem há três anos textos, fotografias e desenhos que partilham depois nas redes sociais. As muitas aventuras que viveram juntos já os levaram a percorrer a pé bosques centenários, a molhar os pés em cascatas escondidas, a subir a penedos, falésias e fragões e a saltar riachos e ribeiros. Chamam-se Diogo Tavares, líder de trekking, José Josué, professor, Marta Castro, animadora sociocultural e Rui Henrique, designer gráfico. Bem-vindos às Conversas do Fim do Mundo.

Olá.

Olá.

Ah!

Estamos cá.

Tudo bem.

Vamos começar pelo fim. Como é que vocês entraram em 2020?

Eu e o Josué passámos em família, agarradinhos.

Não foi numa gruta?

Pois, mas eles dois é que foram, porque nós agora estamos numa modalidade familiar nova. Eu e o Josué fomos pais há pouco tempo e então nem sempre vamos, nem sempre estamos nas aventuras.

Então quem passou o ano numa caverna foi o Rui e o Diogo.

Exatamente. Já se vai tornando uma espécie de tradição. Nós há dois anos fomos para a Serra de Sicó para umas grutas, que são umas lapas.

Os buracos de Casmilo.

Os buracos de Casmilo. E foi incrível, porque o sítio é espetacular, mesmo muito bonito. E a coisa de passar o fim do ano foi só mais um pretexto para nos desafiarmos todos uns aos outros e irmos passar mais uma noite à volta de uma fogueira. Este ano voltámos a repetir a brincadeira, não perdemos o conceito, mas mudámos a geografia e fomos ali para uma zona que é da serra de Aire e Candeeiro, e escolhemos uma das lapas, que é a Lapa da Serreira.

Algar de Serreira.

Algar de Serreira. Eles dão vários nomes a isto. E onde ao espírito Neandertal, passar mais um fim de ano com amigos. Infelizmente, a Marta e o Josué não foram conosco, porque tiveram a volta do mais recente projeto e aventura, o Manuel Gaio, mas acabámos por ir com uma série de amigos e aproveitámos o tempo também para passar durante três dias à volta daquela serra, que era uma serra que nós conhecíamos pouco e tem coisas incríveis.

Muito bem, está contada então essa história de entrada em 2020, dentro de uma gruta na serra de Aires e Candeeiros. Como é que vocês escolhem as vossas aventuras de fim de semana?

Para já temos, não sei se é bem um objetivo, mas acho que queremos palmilhar tudo o que houver para palmilhar em Portugal, principalmente em sítios pouco habitados. E então vamos vendo conforme a disponibilidade que temos e os dias que temos para a aventura e a distância que fica de onde vivemos, que é Lisboa.

O Diogo é líder de trekking, portanto tem já uma carreira ligada ao outdoor, ao ar livre. Vocês os três, não. Rui, Josué, Marta, vocês tinham algum contato especial com o ar livre antes de se juntarem os quatro e formarem os Bons Selvagens, ou não?

Sim, já tínhamos algum contato, mas foi este que nos deu uma regularidade e conhecer mais e com objetivos comuns. Já todos tínhamos feito algumas caminhadas e também viagens de bicicleta e houve uma altura que dissemos: "Olha, temos que fazer isto de um modo mais organizado, dar um nome." E foi por aí que criamos este grupo.

Eu no que toca às caminhadas, estava cheia de medo.

Então?

Porque não tinha a estaleca para andar dias a fio a caminhar e achava que não ia conseguir. E nas primeiras ia mesmo com medo de ver como é que me aguentava. Porque as experiências que tinha eram coisas mais pequeninas e ir em autonomia, então aí para mim foi mesmo novidade.

O vosso objetivo é percorrer todo o país a pé?

Por que não?

Sim.

De uma vez, não.

No sentido que se houver alguma coisa que nos atraia lá, alguma particularidade, é um bocadinho por aí. Nós vamos à procura dessas que estejam relacionadas com a natureza ou com as próprias condições geográficas. E acima de tudo, também criar um contato com essas comunidades.

Temos sido sempre muito bem recebidos e há sítios onde passamos que as pessoas sentem uma vontade enorme: "Vocês venham mais vezes, venham para aqui que nós precisamos de pessoas como vocês". E ir um bocado ao encontro daquilo que o Josué e a Marta estavam a falar, que é: aproveitamos o pretexto de estarmos juntos e ir continuando a desenvolver. Eu e o Rui tínhamos um bocadinho mais experiência neste tipo de atividades ou de aventuras, mas nós os quatro em conjunto, durante este processo, todo este percurso dos últimos três anos, temos estado a aprender imenso uns com os outros com estas experiências, principalmente também na forma como nós fazemos estas viagens, na forma como nós tratamos a nossa comida, nos alimentamos. Tem sido um processo bastante evolutivo.

Evolutivo em que sentido?

Evolutivo no sentido de que estas boas práticas, no sentido de escolhermos os transportes que fazemos, tornar a nossa alimentação e inclusivamente a roupa que nós escolhemos para comprar, para levarmos conosco, fazê-las de uma forma consciente e perceber que a produção deste material é mais sustentável. Olhamos para isto como um todo e todo este processo nós temos conversado à medida que fazemos as nossas viagens e tentamos, acima de tudo, transpor o mais possível este tipo de hábitos e boas práticas na nossa vida, no dia a dia.

Então vamos lá, por onde é que já andaram em Portugal? Marta, vamos lá.

Eu sou a pessoa errada para isso. Pergunta ao Henrique.

Isto começou a termos mais consistência quando tivemos um desafio de uma marca comercial. Quer dizer, nós é que desafiamos a marca para nos apoiar, então obrigou-nos a ter ali um plano.

Um calendário.

Um calendário. E tínhamos ali, não sei, umas seis ou sete. E nós logo à partida: "Espera aí, Portugal tem este território, vamos aqui escolher os vários sítios onde queríamos ir" e pensamos talvez os sítios mais altos, os sítios mais inóspitos. Então escolhemos ali uns seis ou sete locais, desde a Serra da Estrela até a Madeira, Açores.

Era o programa.

O Vale do Côa.

O Vale do Côa, o Vale do Nabão, em Tomar.

Não era para ser, mas passou como alternativo porque nesse ano não choveu. Queríamos pernoitar numa ilha de uma barragem no Alentejo, só que estávamos com receio de chegar lá e não haver ilha. Então fomos para a Costa Vicentina.

E nós queríamos ir, como já dissemos, a quase todos os sítios. Eu acho que neste momento, em termos de território, falta-nos o Algarve, talvez. Apesar que já pisamos no Algarve, porque atravessamos o rio ou ribeira de Odeceixe para o outro lado.

Tecnicamente, já foram ao Algarve.

Já fomos ao Algarve.

Com as mochilas no ar, assim com uma ambição.

Mas de resto acho que já estivemos em todo o lado.

No Minho, não.

Já estivemos. Até o raio já esteve no Minho, mas ainda estava na barriga da mãe.

Com seis meses.

Estava.

Muito bem. E o que vocês procuram nos vossos fins de semana?

Cada um tem um bocadinho os seus objetivos. Eu, por exemplo, sinto que ainda tenho muito para conhecer de Portugal e é fixe isso, porque sinto mesmo quando chegamos a um lugar, é Portugal e tu até achas que conheces bem o teu país e de repente: "Uau, que paisagem, uau!". E acho que esta novidade de território, para já, tenho que continuar a ser surpreendida.

O que te surpreendeu mais até agora, Marta?

Olha, o último passeio que fiz foi agora.

Lousã.

Fomos à Lousã, onde já tinha andado, mas um bocadinho ao de leve. E agora fizemos ali um percurso mesmo muito bonito. E o tipo de percurso foi muito bom, porque era assim mais desafiante. Eu gosto quando temos que usar os quatro membros, não gosto quando temos que andar só. Só andar não vale.

E foi quase toda em vereda, que é uma coisa muito difícil de encontrar cá em Portugal. E essa foi praticamente toda em vereda e teve um aspecto engraçado, é que esteve quase sempre assim meia neblina, meia a chover, mas nós até parece que caminhamos entre os pingos, porque choveu torrencialmente à noite, os dois dias.

Muito, mas durante a manhã...

Então esse percurso começava onde?

Miranda do Corvo.

Miranda do Corvo, sim. Era um percurso sinalizado, balizado?

Não. Quer dizer, nós quando montamos os percursos tentamos perceber o que existe no terreno e fazemos uma pesquisa desses percursos que já existem e depois tentamos colar coisas e ver onde é que os sítios mais bonitos. E aproveitamos o Google para perceber se é vereda, se são estradão.

O Diogo e o Rui têm mais experiência nisso. Eu ando a tentar aprender, mas ainda preciso aqui de fazer uns workshops.

E quando fazem incursões pelo interior do país para andar a pé, nesses tais fins de semana de aventura, vocês procuram ajuda de pessoas, dos chamados locais ou não?

Nós tentamos e queremos muito, mas nem sempre conseguimos. Aliás, a maior parte das vezes não conseguimos.

Não conseguem porque não encontram as pessoas?

Sim, não é assim tão-- depois também não temos muito tempo para fazer esses contactos e para preparar. Mas já aconteceu. Uma das vezes foi lindo, porque foi a pessoa que percebeu por onde é que nós íamos e contactou-nos a dizer: "Olha, posso-me juntar a vocês?" E foi o Rui, ali na Serra da Estrela. O Rui Ribeiro. E foi um cenário muito engraçado, porque entretanto era de noite, estávamos no Covão da Meia Tábuia e estava escuro. E de repente vimos alguém a chegar. Estávamos à espera que ele chegasse, porque ele disse que se ia encontrar.

Mas não o conheciam.

Exato, não o conhecíamos de lado nenhum. E de repente vem alguém com um frontal e durante muitos minutos só víamos o frontal, quase. E ali naquele suspense de quem será esta pessoa, será que vamos sobreviver a esta noite?

E puseram-me a dormir comigo.

Ya. Tu és um valente.

Juntou-se a vocês, literalmente. Depois fizeram um passeio pela Serra da Estrela.

Sim, e foi espetacular, porque o Rui Ribeiro é um especialista naquela área. E isso é um bocadinho ao encontro daquilo que tu estavas a perguntar. Quando nós

Procuramos estas pessoas exatamente para nos darem mais do que aquilo que a gente já sabe.

O especialista não tem que ser especialista de trekking ou guia, mas basta que seja alguém que conheça bem o território ou a zona onde está, a sua própria cultura, tudo isso.

E que vos aponte o caminho.

Nós somos um bocadinho sedentos disso. Gostamos muito de conversar, gostamos muito de ouvir, mas para quem nos está a ouvir, se nos quiserem levar, nós somos muito fáceis.

Portugal é um país que é vendido pela sua diversidade, pelo seu caráter surpreendente. Vocês acham mesmo isso?

Sim, eu acho que sim. Acho que é muito diversificado em termos de paisagem e nós temos a sorte de estar aqui em Lisboa, o que nos permite, a uma hora de distância e muitas vezes de transportes públicos, podermos estar tanto na Costa Vicentina como podemos estar na Serra de Aire, que fica aqui num raio muito próximo e são locais completamente distintos. Por exemplo, quando fomos à Serra do Sicó, eu pessoalmente não conhecia, passava nas estradas nacionais ali à volta, nunca tinha ido para aquela zona. E começas a perceber que entre a A1 e agora a A13, há ali uma serra que parece que estás ao pé de Castelo Branco. É uma zona extremamente rural e que a maior parte de nós passamos ali ao lado e não sabemos que aquilo existe. Parece que entras ali num outro mundo completamente distinto e isso dá-nos muito prazer de estar nesses locais.

Qual foi o sítio mais surpreendente que já viste até hoje de Portugal?

Se estou numa floresta, às vezes até me emociono, porque eu gosto muito de árvores. Há sítios nos Gerês, a Mata de Albergaria, que é um sítio talvez arrepiante, mas há outros. Eu desde que esteja dentro de um bosque, ainda agora na passagem de ano estivemos num bosque de carvalho português, num sítio que se chama Sítio do Elias, que está aberto a quem quiser passar ali um bocadinho.

Mas o que é que há no Sítio do Elias?

O Elias, se ele nos estiver a ouvir, obrigado por aquele espaço que disponibiliza a nós todos. Ele montou ali um alpendre num bosque de carvalho português. Criou ali umas mesas tipo piquenique, tem um sítio para churrasco, uma lareira e umas prateleiras onde tem umas garrafas. Nós não nos arriscamos em beber nada.

É uma espécie de estação de serviço, uma estação de apoio ao viajante a pé na Serra de Aire e Candeeiros.

Sim, e ele tem lá um caderninho pra gente deixar notas.

Ah, boa!

E quem lá for, que respeite o local, porque merece ser respeitado e deixe lá uma notinha a agradecer ao Elias pela simpatia daquele sítio.

Muito bem. Diogo, qual foi pra ti o sítio mais surpreendente de Portugal que já conheceste? Com estes três amigos, os Bons Selvagens.

Sim, a grande maioria das vezes foi na companhia deles, de facto. Mas olha que eu pra te responder a isso, teria que fazer uma lista. No entanto, eu posso destacar um, que é o Vale do Côa, mais precisamente ali na zona da Faia Brava, que é a primeira, senão a única ainda, a única reserva privada em Portugal. E aquele espaço, pela dimensão, pelo lado selvagem, até porque tu tens lá animais à solta, selvagens. No vale, tens os grifos, tens os abutres-do-Egito, tens os britanos, tens as águias livremente a voar. É um sítio que tem esse impacto.

Josué, tu és o homem das ilustrações fantásticas, deixa-me dizer.

Obrigado.

Dos Bons Selvagens. Qual foi pra ti o local mais inspirador que conheceste até hoje em Portugal?

Olha, se calhar repetir aqui a referência do Diogo.

O que é que há de diferente?

É o próprio vale, que é diferente a nível geográfico. É um vale que depois, ali na zona da Faia Brava, como o Diogo falou, que fecha um pouco mais que cria ali planaltos e não se vê tanto uma inclinação da montanha. Quase um canhão também. E por isso, muito bonito. Também gostava de falar de outro sítio, é mais pela proximidade de Lisboa e que nos criou um grande espanto, que é a Serra de Grândola. Como é que tão próximo de Lisboa, a uma hora e meia, e que durante um fim de semana nos surpreendeu também, apanhamos ali quando fomos, foi na primavera, apanhamos ali uma explosão de cheiros, de cores.

Pássaros.

De tudo. E foram dois dias que nos surpreenderam.

Estou à conversa com os Bons Selvagens. Já a seguir abrimos o álbum de viagem. Diogo, José, Marta e Rui, qual o objeto mais carismático ou com maior significado que trouxeram ou adquiriram até nas vossas viagens, incursões a pé por Portugal? Quem quer responder a esta pergunta? Vá lá, Rui.

Para já, nós não somos muito apologistas do comprar. Nós queríamos dar aqui a volta à questão, porque nós compramos, e isto é uma coisa que transportamos para o nosso dia a dia. Estamos no processo, como o Diogo dizia, num processo de crescimento entre nós e às vezes temos as discussões. Temos que comprar, como é óbvio.

Mas não são viajantes de trazer coisas dos locais.

Não, somos viajantes-

Compramos queijo, minis.

Sim, exato. Coisas para comer.

Charcutaria de qualidade.

Mas nós levamos é alguns objetos conosco, como vamos em autonomia, portanto, normalmente levamos tudo de casa para não estarmos dependentes dos locais. O que temos que levar é

Cada um de nós leva o que acha essencial para essas nossas autonomias.

Mas não trazem coisas do campo?

Por acaso nós temos estado a fazer, mesmo em relação a isso, a tentar não trazer. Às vezes o Rui Henrique apanha uns pauzinhos porque gosta de fazer de conta que está a fumar um cigarrinho, mas tentamos não mexer muito. Se calhar isto parece exagero, mas o simples facto de retirar uma pedrinha, se toda a gente que passar retirar uma pedrinha, o lugar fica desprotegido. E as pedras protegem o território. Então tentamos não trazer muito, a não ser lixo.

Apanham o lixo que os outros deixam no caminho?

Não todo, porque às vezes é lixo muito pequeno e também não faríamos outra coisa senão apanhar. Ou então é demasiado grande, mas, por exemplo, lembro-me de conseguiste trazer na tua mochila, Rui, uma placa de metal de um cimo na Serra da Estrela.

Foi do Vale da Candieira.

Exatamente. Uma coisa grande.

Se é do Vale da Candieira, estamos a falar de 1600 metros de altitude.

Sim.

Mas era uma placa metalona.

Um dos sítios mais inóspitos da Serra da Estrela.

Voou até lá, provavelmente.

Já com gelos, foi andando. Mas a ideia, a premissa é tentarmos fazer com que o lixo que a gente possa apanhar não ponha em causa o nosso objetivo principal, que é a viagem, que é aquele percurso. Sempre que temos oportunidade, tentamos fazer essa-- eu acho que também é o nosso compromisso para com aquele espaço, para com o sítio onde nós estamos. Já nos estão a dar tanto, então também é a nossa contribuição. Para além do não deixar rasto, tentamos que o impacto seja positivo e tentamos fazer dessa forma.

Estou à conversa com os Bons Selvagens, grupo de quatro amigos que se dedica a explorar as belezas naturais de Portugal. Na segunda parte, vamos precisar de impermeáveis. Já vai saber por quê. Até já. Segunda parte das conversas do Fim do Mundo desta semana. Estamos à conversa com o Diogo, o Josué, a Marta e o Rui, quatro amigos que aos fins de semana se juntam para explorar as serras, planícies, florestas e matas de Portugal. E não só. Na primeira parte ficámos a saber que também descem à escuridão de cavernas e grutas, onde já realizaram boas farras. Vamos ao início de tudo. Como é que se conheceram? Josué, avança.

Conheci a Marta no local de trabalho.

Tanta aventura e foste conhecer a tua mulher no local de trabalho.

Na biblioteca.

Na biblioteca, ainda por cima.

Foi?

Eles são os eruditos do grupo. Eu e o Diogo somos assim mais das cavernas.

Eles são os bons, vocês são os selvagens.

É isso.

Já.

Nunca tinha pensado nisso. E depois acho que já conhecia o Rui por causa do blog que ele tem e que eu também tinha e via que ele fazia uns projetos com que eu me identificava e começámos também a realizar uns projetos. O Rui desafiou-me para fazer uns projetos em conjunto.

Portanto, foi a bicicleta que vos juntou.

Sim, que nos juntou. Depois, o Rui conheceu o Diogo, também por andar de bicicleta, por causa de um projeto que o Rui organizou e convidou-nos. Eu, na realidade, conheci o Diogo na Infante Santo e não parámos e eu só lhe disse: "Diogo, eu conheço o teu blog." Não sei se era Instagram, não, que eu não tenho.

Eu assistia também.

Qualquer coisa na rede, que já não me lembro o que era.

Iam subir a Infante Santo de bicicleta.

Sim.

Não tem tanto glamour como na biblioteca. E depois, mais tarde, cruzámo-nos numa loja de bicicletas, que é a Recicla, que é de um amigo nosso, e depois aí começámos a trocar mensagens.

Para quem não conhece, a Avenida Infante Santo liga a Avenida 24 de Julho, junto ao rio, até lá acima à Estrela, numa longa e imensa rampa, que toda a gente faz muito devagarinho, portanto, tiveram muito tempo para conversar.

Não, aquilo foi rápido, porque íamos a descer. Eu acho que ia a descer. Eu ia a descer, de certeza. O Diogo já não me recordo.

Eu acho que íamos em sentido oposto.

Muito bem. E depois decidiram formar os Bons Selvagens. Por quê? Por que sentiram essa necessidade de criar este grupo informal de quatro aventureiros que vão aos fins de semana por esse imenso Portugal em busca de aventura?

Eu acho que estávamos viciados em passeio. Nós queríamos era passear. Eu lembro-me, na altura, nós, eu e o Josué, já fazíamos algumas viagens de bicicleta. O Rui também nos começou a desafiar. Depois também nos juntávamos na cidade, no dia a dia, a circular de bicicleta. É uma coisa que alimenta alguma adrenalina ao dia a dia e nas viagens tens um desfrutar do percurso diferente. E esta coisa de estar em andamento, mas é um andamento calmo, tranquilo, que vais ao teu ritmo, fazes o que tu queres. Isto começou a entusiasmarmonos muito.

Um processo muito natural, porque tínhamos todos essa vontade em termos individuais e acabámos por nos contaminar muito. "Então, olha, agora vamos fazer isto, vamos fazer aquilo."

Pronto, e tínhamos isto em comum e encontrámo-nos assim. Era mais que óbvio, tínhamos que ir fazendo umas coisas em conjunto. Não sei porque nos quisemos organizar, mas achamos que faltava esta coisa de contagiar, de poder comunicar com terceiros e contagiar-nos uns aos outros, porque há mais malta que faz isto. Não somos os únicos.

Mas era a aventura?

Sim, a aventura e esta coisa de Portugal, porque há mais malta que faz isto, mas quando vamos por aí encontramos muito pouca gente ou nenhuma. Ou seja, há pessoas a fazer, mas era fixe que fôssemos mais. Os trilhos precisam de ser batidos. Se o trilho for batido é porque as pessoas que vão para aqueles lugares também os vão respeitar à partida.

Portanto, há aqui também um desígnio e uma missão. É isso? No vosso grupo.

Quase.

Josué, dizias a dizer?

É um pouco isto que a Marta estava a dizer. Tínhamos essa vontade de querer estar mais vezes ao fim de semana longe da cidade, das rotinas e por isso queríamos estar mais organizados, fazer um calendário e acho que é isso que vamos continuando.

Também ajudou ter aquele desafio, porque fomos um bocadinho obrigados a criar o calendário.

Por causa da marca, não é?

Nós procurámos uma marca para nos dar esse apoio e criou-nos o calendário. Depois isso acabou e nós continuamos a criar calendário. Todos os anos criamos um calendário.

E é um processo desafiante cada vez mais.

Sim.

Congegar agendas.

Nesse ano fomos uma vez por mês, eu acho. E foi muito bom.

No primeiro ano.

Sim.

Foi em 2000 e...?

17.

2017. E começaram pela Serra da Estrela, não foi?

Eu não sei.

A vossa primeira experiência foi na Serra da Estrela em 2017. A vossa ideia original era subir o Vale de Manteigas, subir aos Três Cântaros, dormir num dos cântaros, subir ao Planalto da Torre, dar a volta pelo Vale da Candeeira até Manteigas. Mas não foi bem assim. O que é que aconteceu?

Um fiasco.

Resumiu-se tudo numa manhã.

Então, vamos lá. Marta ou Rui, quem quer contar? Rui, acordaram de manhã em Manteigas, um dia primaveril. Não.

Acordámos cheios de energia, vamos lá.

E puseram-se a caminho.

E pusemo-nos a caminho. Eu recordo-me que ali as primeiras uma ou duas horas não choveu.

Não.

Enquanto estávamos a sair de Manteigas, estava tranquilo, mas quando começamos a entrar mesmo naquela zona pouco habitada do vale, começa a chover. Não sei se foi torrencialmente, se foi assim uma chuva.

Ininterruptamente.

Pronto, mas não parou. Começou a chover e não parou. E o que acontece? Que quando chegámos ao que vão dar metade, estávamos completamente ensopados.

O que vão dar metade, para quem não conhece, é logo ali seis ou sete quilómetros depois de sair de Manteigas, não é?

Sim, é na base do Cântaro Magro, que é onde nasce o Zêzere. É um sítio simpático para fazer uns piqueniques e nós quando lá chegámos estávamos completamente ensopados. Apesar de a temperatura não ser baixa, como chegámos muito molhados, eu pessoalmente tremia.

O Rui estava com os lábios roxos. E não era do vinho.

Eu estava a desfalecer. Comemos ali tudo o que tínhamos.

Mas por quê? Não estavam preparados?

Não sei.

Eu não estava mesmo preparada porque seria a minha primeira experiência. Deu para perceber ali muita coisa. Por exemplo, eu fiquei com o saco de cama todo ensopado porque não o tinha devidamente protegido, sabendo que até ia chover. Pronto, agora há coisas que eu já faço automaticamente e que fui aprendendo da melhor maneira, que é passando pela experiência.

Então e depois? Depois de longe de casa, o que é que decidiram fazer?

Devemos estar com fome.

Chamámos um Uber, não foi? Não chamámos nenhum.

Tínhamos uma mesa, começámos para já a fazer uma refeição.

Devorámos tudo.

Só que entusiasmámo-nos e comemos tudo.

Sim, a coisa foi que avaliámos.

Comeram numa manhã a comida toda do fim de semana.

Tudo.

Nós avaliámos ali. E bebemos o vinho todo, foi tudo.

Foi tudo, fizemos um all-in. Mas pronto, avaliámos primeiro a situação. Estamos encharcados, saco de cama molhado, tenda também tudo molhado. Temos um dia e meio pela frente, se calhar não faz sentido continuarmos assim, porque os níveis de conforto também vão baixar drasticamente. E pronto, esta foi mais ou menos a conclusão lúcida que nós tivemos.

E ainda não tinham começado verdadeiramente a subir.

Exatamente, a gente ainda não tinha começado a montanha a sério. E então, depois de estarmos os quatro confortáveis com isso, olha, vamos mandar isto tudo abaixo e acabámos por comer tudo. E comemos bem, descemos.

Muito bem.

Depois o tempo melhorou.

O tempo melhorou bastante.

Pois, na descida estava espetacular, estava sol. Ficou mesmo bom.

Mas pronto, já tínhamos decidido.

Depois viemos pelo alcatrão.

Viemos pelo alcatrão. Perdemos altitude rapidamente. E no dia a seguir acabámos por acordar sequinhos outra vez. Dormimos lá numa pensão embaixo, fizemos da pensão um estendal total e no dia a seguir, quando acordámos já com outra lente e fomos lá acima dar uma volta aos cântaros. Estava um dia incrível. Lembro-me de vocês terem feito uma sesta espetacular. Fizemos de domingueiros.

Porque fomos de carro até lá acima.

Até lá acima, até à torre.

Até à torre, sim, depois ali já estamos a altitude.

Mas ali já percorreram os Três Cântaros, não é?

Exatamente.

Fomos brincar.

Mas evitámos ir, isto é quase um statement. Evitámos a torre, o centro comercial e essa calamidade.

O que quer dizer statement? Uma afirmação. E porquê? Já agora, por que diz isso, Diogo?

Porque eu acho que é uma pena, e estou a ser delicado na palavra, nós no sítio mais alto do nosso país, que devia ser uma ode à natureza, eu acho que é uma pena, é uma vergonha teres um centro comercial. Eu acho que tu podes criar um impacto positivo na economia daquela região com muitas outras coisas que não aquela.

Achas que não dignifica a região?

De todo. Acho que exatamente por causa disso, exatamente pela falta de condições de receber tanta gente ali, há também uma falta de civismo muito grande, porque a partir das 16h aquilo arrefece drasticamente. Tu olhas para os parques de estacionamento e tu tens quilos e quilos de plástico, de lixo e detritos que as pessoas, em 10 minutos, a primeira rajada, aquilo vai tudo pra montanha. Portanto, é um conjunto de fatores que faz com que eu acho que aquilo é muito mau.

Então, a Serra da Estrela correu muito mal e pensaram desistir ou não?

De todo.

Não.

Não, de fazer projetos futuros.

Continuar.

Acho que foi a partir daí, foi logo uma grande lição e começou a correr tudo bem.

Depois a segunda viagem que realizaram juntos foi onde?

Foi ao Nabão, ao Canhão do Nabão. Também foi numa gruta.

É uma cavidade.

Uma cavidade. E que gostámos ao ponto de já a repetimos. Levámos, porque também gostamos não só de partilhar com amigos, mas também eu tenho dois filhos. Tenho o mais velho, o Diogo também tem, e também gostamos desse lado de educar. E por isso levamos de vez em quando para eles começarem a aprender e conhecerem não só alguns sítios do país, mas viver estas experiências connosco.

Todos os nossos passeios são acessíveis a toda a gente. Nós não fazemos coisas difíceis tecnicamente. Tudo o que nós fazemos, qualquer pessoa que caminhe, que tenha uma mínima capacidade de caminhar cinco ou seis horas num dia, às vezes é menos, tem capacidade para pegar na mochila, planear um percurso e fazer o que nós fazemos.

O vosso projeto é muito engraçado e muito meritório. Acham que Portugal, do ponto de vista dos seus recursos naturais, está mal aproveitado?

Está desleixado, eu diria. Depois, se calhar, o Rui Henrique pode falar mais disto. Eu digo isto porque temos muito estas conversas e eu concordo muito com o ponto de vista do Rui Henrique, mas aquilo que eu poderia dizer, e eu sinto isso quando caminho, no sentido mais empírico da coisa, está muito desleixado. E acho que, de facto, ganharíamos todos como país, como economia até, porque temos que olhar sempre para o país como uma fonte económica, mas mesmo que não fosse essa a nossa visão obrigatória, acho que, de facto, está subaproveitado.

E isso acontece por quê, na tua opinião, Marta?

Acho que é uma questão de visão. Acho que terá a ver, obviamente, com as pessoas que vivem perto dessas zonas mais naturais, ou seja, a ruralidade, ela própria também está a diminuir e por isso os espaços rurais também ficam mais abandonados e mais desleixados. Mas acho que em termos de visão política, não se entende ou não se quer, pura e simplesmente, investir nesse lado, em cuidar desse património natural, que é essencial.

Desculpa interromper, Marta. Eu acho que há muito pouca cultura de utilização da natureza em Portugal, ou quase inexistente. E é transversal. A única coisa que tu consegues ver assim à primeira vista é o surf. E ainda bem, porque tens das melhores costas da Europa, se calhar a melhor costa da Europa para o fazer. Portanto, é provavelmente o único desporto em contacto com a natureza, que tu consegues ver que é de uma ponta a outra do país. E eu acho inexplicável como, por exemplo, na educação, no Ministério da Educação ou nas escolas, por exemplo, perto das montanhas, por que não têm disciplinas e não têm coisas relacionadas com montanha? E isso acho que é uma coisa que tem que funcionar com as gerações, não é?

Eu queria só dizer aqui uma coisa.

Diz.

Porque se calhar estava aqui a pensar no que a Marta estava a dizer, e o Diogo, e dá aqui uma ideia que é fácil de encontrarmos um sítio natural ou um sítio bonito em Portugal. Não é fácil de encontrar.

Não?

Não, há muitos, mas não é assim tão fácil de: "Ah, vou para ali, encontro logo rapidamente um sítio bonito pra passear". O bonito, isto aqui é tudo relativo. Estou a falar um bocadinho mais na nossa visão, que gostamos de estar num riacho em que tenha uma galeria ripícola bonita, frondosa. E isso requer alguma investigação da nossa parte para chegarmos a estes sítios. Existem, há muitos, e felizmente nós vamos sempre encontrando alguns que não conhecíamos, porque a maioria do nosso território é visto de uma maneira económica. Isso quer dizer que a gestão do terreno em si, do território, é o que nós vamos plantar aqui para alimentar o sistema económico que existe, não só em Portugal, no mundo. Portanto, um território não é visto de uma maneira de vamos preservar o que é aqui natural, vamos simplesmente o que isto vai nos render.

Estou à conversa com os Bons Selvagens. Amigos, vamos fazer checkout?

Vamos embora.

Vamos lá.

Vamos completar as seis habituais frases, vocês já sabem quais são. Portanto, a primeira é: na minha mala, neste caso, na vossa mala vai sempre Rui?

Vai sempre um GPS, talvez um par de cuecas.

Eu dispenso.

Vá lá, Diogo.

Eu ponho o meu canivete.

Canivete.

Eu ponho o caderno de desenhos.

E eu vai um jornal que não leio.

Explica melhor isso.

O jornal é bom para secar botas molhadas. Aprendi na Serra da Estrela, naquela não viagem à Serra da Estrela.

Naquela manhã que eram para ser três dias. Ou naqueles três dias que ficou tudo numa manhã.

Mas me podias emprestar o jornal, nunca percebi que levavas sempre um jornal.

Olha o carimbo de passaporte mais difícil de obter, sendo que vocês só foram uma vez para o estrangeiro, para a Serra de Gredos, em Espanha nem sequer foi necessário o passaporte, mas aqui do ponto de vista metafórico, qual foi o trunfo de viagem mais merecido? O pico que conquistaram? Josué, estão todos a apontar para ti. Defende-te.

Não me estou a lembrar.

Quem é que subiu ao alto de uma serra de gatas? Quem é que chegou lá de gatas, esbaforido?

Não, eu acho que a maior serra mesmo, a maior de todas, é mesmo sair de casa.

A aventura que já realizaram com mais peripécias até hoje foi essa da Serra da Estrela ou houve mais?

Nós elegemos essa.

Mas também falámos da do João Lourenço.

Então vá, João Lourenço. Vá lá, Feriões Reunidas João Lourenço.

Temos um amigo que nos é bastante caro, que volta e meia passamos para o lado dele a bola e é ele que prepara, porque ele conhece também bastante bem o país. E fazer os passeios com ele é sempre assim.

Qual foi a peripécia mais periclitante?

Nós dormimos num sítio que era uma colónia de férias de média altitude. Era onde?

Na serra da Garlaminha.

Exatamente. Os fogos desse ano tinham passado por lá, então todo o cenário era altamente sinistro, porque estava tudo queimado. A própria colónia de férias também estava abandonada. E depois à noite fez-se fogueira e só se falou de OVNIs e fantasmas e tudo mais.

E então? E passaram a noite em claro, foi isso?

Não.

Dormiram à Chuck Norris, com um olho aberto e um olho fechado. Olha, temos que avançar. A refeição mais estranha que já comeram ou que já confecionaram nas vossas aventuras?

Não sei. Tirando a charcutaria local, que pode ser estranha, mas não para nós, estamos bastante habituados a esse tipo de alimentação no nosso dia a dia. Mas acima de tudo, procuramos criar um plano de refeições adaptado àqueles dias que vamos estar fora, e com cada vez mais estas preocupações de sustentabilidade, mas não descuramos uma cerealg, pela manhã, porque só precisamos de misturar água quente.

Portanto, tentam sempre comer alimentos sustentáveis?

Sim.

Muito bem, para fechar. Gostavam de viajar com?

Contigo. Esta que tínhamos na cara.

Muito bem.

Assim fica já o desafio.

Muito bem. Ainda não chegámos bem ao nosso destino. Trouxeram música para fechar o programa?

Sim.

Que música é que trouxeram? Quem quer explicar?

O Rui.

Vá lá, Rui. Explica lá.

Trouxemos um projeto de um artista que não é muito conhecido, que é o Homem em Catarse, e de um álbum que ele criou, em que cada música é dedicada a uma cidade do interior, tem um bocadinho a ver connosco. Aliás, o disco chama-se mesmo Viagem Interior. Acho que tem aqui um duplo sentido, a viagem interior ao nosso interior pessoal, de cada um de nós, que é um bocadinho, se calhar, o que nós fazemos aqui nos Bons Selvagens, porque estamos sempre nesta coisa de nos desafiarmos uns aos outros, de nos tornarmos melhores pessoas dentro do grupo e para a sociedade. E tem o lado da viagem pelo nosso interior, que é o sítio onde nós encontramos o nosso território de eleição. Trouxemos essa música, que se chama Bragança, que é o sítio que se calhar a Marta há pouco falou que não temos muito tempo para lá ir de fim de semana, mas todos gostaríamos de ter mais tempo para explorar a zona de Montesinho e todo o Trás-os-Montes, que merece.

São nove horas de viagem, como diziam os Xutos & Pontapés.

Já demorámos essas nove horas, eu e o Diogo, de carrinha para lá chegar.

Muito bem. Rui, Diogo, Josué, Marta, muito obrigado por terem vindo às Conversas do Fim do Mundo desta semana.

Obrigado nós pelo convite.

Foi bom.

Bragança de Homem em Catarse a fechar as Conversas do Fim do Mundo desta semana com os Bons Selvagens. Foi uma bela conversa, que pode ouvir de novo nas plataformas podcast e em observador.pt. Partilhe connosco as suas fotografias de viagem e aventura pelo mundo com as hashtags #conversasdofimdomundo e #radioobservador. Boas viagens. Até para a semana.

Aqui também é Portugal. Aqui também é Portugal. Aqui também é Portugal. Aqui também é Portugal. Mais perto de França, tão perto de França. Mais perto de França e a bonança é maior. Há aqui também a Portugal. Há aqui também a Portugal. Mais perto de França, tão perto de França. Mais perto de França e a bonança é maior. E os lobos do rio de Onor, não se ouvem em Lisboa. E os lobos do rio de Onor, não se ouvem em Lisboa. E os lobos do rio de Onor, não se ouvem em Lisboa. E os lobos do rio de Onor, não se ouvem em Lisboa. Como muda-se um país de um ébrio de proa?

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