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Bem-vindos. O viajante desta semana gosta da vadiagem. E por onde tem vadiado o convidado das "Conversas do Fim do Mundo" desta semana? É o que vamos saber na próxima hora. Segurem-se, porque vamos caminhar na Islândia, subir montanhas nos Balcãs, pedalar e caminhar pelo interior de Portugal, o interior esquecido. Diogo Tavares, bem-vindo às "Conversas do Fim do Mundo".

Obrigado, João.

Bem-vindo de novo, porque estiveste cá há dois anos, mais ou menos, com os teus parceiros, os Bons Selvagens.

Pois, sim, os meus grandes amigos de aventuras em Portugal.

Ainda temos uma passeata combinada, temos que agendar isso.

Não me esqueci.

Diogo, acabas de regressar de uma dupla viagem, foste à Guatemala e ao Quénia. Vamos começar pelo Quénia. Foi o teu primeiro contacto com a chamada África negra, certo?

Certo. Certíssimo. Eu antes desta viagem àquilo que eu posso chamar de África profunda, há mais de 20 anos estive em Cabo Verde e já fui várias vezes, também por causa da montanha, a montanha que nos chama, a Marrocos e ao Toubkal, ao Atlas. E já fui várias vezes, mas são dois tipos de África completamente diferentes.

Quénia, o que é que tu achaste?

Olha...

Há quem diga que a terra em África não se assemelha à terra de outros continentes. Confirmas essa teoria?

Confirmo. E é muito difícil de explicar. Para além da terra, que é aquele vermelho, aquele ocre inacreditável. É uma viagem que eu neste momento ainda estou a mastigar. Eu cheguei há dois dias, dois dias e meio. Estive lá pouco mais de duas semanas.

Mas não estás com jet lag. Não é jet lag, não é da diferença horária nem do voo, é mesmo porque foi intenso.

Sim, foi muito intenso. São três horas, não é muito diferente. Tu não deixas de andar a bater bolas com os aviões, porque estás longe de ter voos diretos, mas é pela intensidade e pela experiência que tive lá, é que faz com que eu ainda tenha que maturar um bocado a experiência.

Mas vamos lá, pra partilhar com os nossos ouvintes. Quénia, qual foi a coisa mais fascinante, excitante que viste no Quénia, nessa viagem que acabou há dois dias?

Isto parece um bocadinho clichê, são as pessoas. É a forma como as pessoas lidam com a realidade que têm. Com muita facilidade, eu comecei a viagem em Nairóbi.

Na capital do Quénia.

Isso, na capital, e fiz um voo direto para Mombasa, onde estive na zona de praia, com a costa do Índico. E tu ali num espaço de uma hora, uma hora e meia, tu recebes logo um extremo que tu estás muito pouco habituado. Eu vejo isso no Nepal, porque também é um sítio onde viajo com alguma frequência, mas é a relação que as pessoas têm com a realidade que têm, que está muito longe da tua, e a forma como lidam com ela diariamente.

Mas é o quê? São pobres e dão a volta à vida, é isso?

São muito pobres e dão a volta à vida com uma alegria e com uma entrega e com uma descontração que muitas vezes é desarmante.

Falavas de clichês. Também foste atrás dos Big Five? Também foste ver animais à solta na savana do Quénia?

Tu estás lá, não podes deixar de não.

Ah, foste?

Sim, fui fazer.

E viste?

Não os vi todos, infelizmente. Eu estive em Amboseli, num dos parques naturais mais emblemáticos do Quénia, para além da Masai Mara.

Terra dos Masai, não é?

Exatamente. Sim, no Amboseli também tu tens lá etnia e tens lá muita gente dessa etnia, dessa tribo. E tentámos, porque o que eles dizem em relação às safaris, mais do que chamarem safari, eles chamam-lhe um jogo. Aquilo é um jogo.

Jogo significa?

É uma procura, é um desafio. Tu estás em curso nos carros. Tu tens os caminhos, as várias possibilidades, porque o parque é muito extenso, e vais à procura daquilo que puderes encontrar.

Mas com uma taxa de sucesso grande, ou não? Há uma indústria do safari já criada.

Sim, eles estão lá.

Já desenhada para levar, como há nos golfinhos ou os cetáceos nos Açores.

Sim, eu vou te dizer. Mas calma. Há uma taxa de sucesso muito grande em relação a zebras, girafas e elefantes. Em particular, é onde tem a maior colônia de elefantes. Eu não sei se estou a dizer bem, se é colônia. Mas a maior concentração de elefantes no Quénia é ali. Portanto, elefantes tu vais ver de certeza.

Isso não se aplica aos leões.

Isso não se aplica aos leões.

Viste?

Vi.

Boa!

Vi duas leoas. Foi uma sorte.

E a excitação de ver um animal desses em liberdade assemelha-se à excitação, sei lá, de andar de baloiço pela primeira vez quando se é criança?

Sim. Fiquei tonto. Eu parecia assim, tipo, andava lá aos saltinhos. Estava com um sorriso incrível, provavelmente os olhos estavam a brilhar imenso.

Como agora?

Sim. Mas é exatamente isso, é tu teres a consciência de que aqueles animais estão ali em liberdade. Tudo bem que aquilo é um parque, é um parque gigantesco, que tu andas quilômetros e quilômetros e não vês as vedações. Mas o facto de eles estarem com vedações é exatamente por proteção deles. Apesar disso pode ser um bocadinho controverso ou pode ser alvo de conversa.

Mas é o que é.

É o que é. E é provavelmente por causa disso que as populações de cada uma dessas espécies em extinção e em perigo estão a aumentar, e isso é muito bom sinal, principalmente naquelas zonas onde há muitos furtivos, há muita corrupção, portanto é muito mais fácil ou é teoricamente mais fácil furar esse tipo de controle Mas é uma aventura muito grande. Estás à procura constantemente.

Foste em contexto de pandemia, portanto, tu dizias há pouco que chegaste há dois ou três dias. Há muitos turistas nesta altura do ano no Quénia?

Não, não há. Eu estou a fazer uma contagem pouco rigorosa, mas eu diria 30%.

30%?

30% do que se costuma ver. Eu digo-te isto porque tenho também a comparação da viagem que fiz na Guatemala, essa mais a nível profissional, que tu tens os sítios e sentes, e isso é um privilégio de estar a viajar neste momento, sentes que os sítios por onde estás a passar estão muito pouco massificados.

São teus, não é? Quase.

Quase, exactamente.

Boa. E no Quénia, para além dos safaris, depois da visita aos locais onde vivem os Maasai, o que se pode fazer no Quénia, Diogo?

O Quénia é um país que, apesar de ter a marca safari associada, como tu também tens na Tanzânia, apesar de na Tanzânia também teres o Kilimanjaro, que é um atrativo no sul da África, para ambiente de montanha. Tu tens montanha, tens o Monte Quénia, que é outro dos desafios, e onde eu não tive a oportunidade porque tive que gerir o meu tempo. E tens uma costa, a Costa do Índico, é maravilhosa, onde tens parques naturais incríveis, florestas subtropicais com animais que tu não estás habituado a ver. Tanto os animais como a própria vegetação, tu tens ali todos aqueles microclimas e onde podes passar umas férias muito pouco óbvias.

Significa isso...

Muito pouco óbvias, que vão muito para além de uma praia bonita, de areia quase branca e com palmeiras à volta, que tem de facto, o Índico oferece-te isso, mas tu tens muito perto dessa realidade, que essa sim, não deixa de ser turística e a fauna que tu lá vês é muito de pessoas que não são quenianos, que não são locais. Ali à volta, tu consegues encontrar muitas destas zonas onde têm uma intensidade de natureza muito grande e, ao mesmo tempo, entras em contacto com muita facilidade, e o facto de haverem muito poucos turistas agora ajuda-te muito, com a comunidade. É por isso que uma das primeiras perguntas que te respondi foi exactamente as pessoas, o que aquilo tem de especial e aquilo que me fascinou mais foi a relação que eu criei com as pessoas.

Costa do Índico, onde há muita pirataria. Vê-se isso a partir das praias de Mombasa e do resto da costa do Quénia?

Há muita história à volta disso, sim.

E contam-se lá?

Sim, contam. E faltam de vasta gama, que andou por lá.

Mas tu que estiveste lá agora, não viste nada disso?

Não. É paquetez. Tu passas pelas praias, tens muita gente a ir ter contigo, porque tu és um branco, é impossível tu passares despercebido. E vão ter contigo, perguntam se queres um coco, perguntam se queres comprar uma estatueta.

Nesta altura de pandemia, onde a indústria do turismo sofreu quebras assinaláveis, tu que acabas de chegar do Quénia, sentiste que neste país africano te abordavam com mais vontade, viam em ti uma fonte de rendimento, sentiste predado pela vontade de ganhar dinheiro com turista?

Sim e não. E eu vou te explicar porquê.

Então vá.

Sim, no sentido que nas praias onde habitualmente há mais turismo, e agora não há tanto. Se nós sofremos o que sofremos com este período de pandemia, um ano e meio, dois anos.

Eles ainda mais.

Temos uma estrutura social relativamente interessante, quer dizer, vivemos na Europa e com tudo o que isso implica. Agora imagina o que é a malta que não tem nada disso, não tem estrutura de Estado, não tem estrutura nenhuma.

Portanto, sentiste uma nota de dólar a flutuar pelas praias do Quénia.

Sim, não é que tu antes disto acontecer, não sejas na mesma, porque tu és um turista, não deixas de ser, apesar de a gente poder conversar sobre o que é ser um turista e o que é ser um viajante, e eu considero que existem diferenças, mas tu não deixas de estar a fazer aquele papel ali, e eles sabem disso. No entanto, e se calhar olham mais pra mim ou foram mais vezes pra mim do que se seria habitual, porque somos menos também, e eles continuam a ser os mesmos. Portanto, a necessidade deles é maior. E nós tentámos ser o mais sensível a isso possível, também dentro daquilo que é razoável. No entanto, depois também nos interessou, apesar de termos gostado de lá estar, interessou-nos também ir à procura de um sítio onde pudéssemos estar com pessoas que não estão à nossa espera. E é esse lado que eu considero que é aí onde tu estás a viajar, estás a ser um viajante e não estás a ser um turista. Porque fazes à procura desses sítios. E é aí onde tu consegues criar bastante mais camadas com as comunidades.

Muito bem. Vamos avançar?

Sim, claro.

Já vamos à Guatemala, país de onde regressaste também há pouco tempo. Foste lá antes de ir ao Quénia. Gostava só de perceber, Diogo, tu és atualmente líder de viagem, mas originalmente és um designer. Como é que acabas a fazer das viagens a tua vida?

Isto já começou há muitos anos, porque a minha relação com a natureza, com a viagem e com tudo o que está relacionado com a descoberta, começou nos escuteiros, quando eu tinha oito, nove anos.

Sempre alerta.

Sempre alerta. Também já lá andaste. Foi aí que eu ganhei esse bichinho, que eu ganhei essa estrutura.

Da vida ao ar livre.

Da vida ao ar livre e esse conforto de estar neste tipo de sítios, no conforto de estar em sítios onde não estás confortável.

Aprender a improvisar, aquela coisa toda, o gosto por subir árvores, subir montanhas, andar por aí.

E desafiares, exato.

Calçar as botas e ir à descoberta.

Ir à descoberta. Durante todo o meu processo académico, eu estudei design e trabalhei em design, tive uma empresa com um sócio durante bastantes anos, quase 10 anos. Mas onde eu gastava o dinheiro era sempre nestas coisas.

Nestas coisas? Nas viagens.

Nas viagens, ir pra montanha, ir fazer caminhadas, atravessar o país. Eu atravessei o país várias vezes já.

O país Portugal?

O país Portugal, perdão. De bicicleta, várias vezes, em várias direções. Sempre foi uma coisa que me teve no sangue.

Já tens o Portugal Divide no currículo ou ainda não?

Ainda não, está na lista.

Divide, que é ligar o ponto mais a norte ao ponto mais a este, ao ponto mais alto, ao mais a oeste e mais a sul, não é?

E no centro.

E no centro. Uma loucura.

Uma loucura. Neste momento está a acabar uma amiga minha, que eu creio que já tiveste aqui.

Já. Era para me cruzar com ela, a Tânia Mishima.

Exatamente.

Ia levar os meus miúdos a fazer guarda de honra, mas isso agora não interessa.

Que maravilha!

Mas desencontramos.

Mandamos lhe um beijinho daqui.

Já passou por cá. Mas dizias, fizeste muitas aventuras por Portugal, de bicicleta, a pé.

Informalmente, eu sempre fiz esse tipo de coisas, tanto para mim, que eu sempre gostei muito de viajar sozinho, e os escuteiros deram-me essa liberdade, essa independência e autonomia. Foi muito importante, para poder fazer estas coisas sem mais ninguém. E fazia muito para amigos também. Informalmente, organizava viagens: "Olha, vamos ali pro Toubkal e vamos fazer o Atlas e vamos passar pelas aldeias berberes e fazemos isto em cinco, seis dias de caminhada e depois vamos ao ponto mais alto, no Toubkal." A dada altura, eu comecei a me fartar e comecei a sentir-me desconfortável daquilo que estava a fazer. Estava demasiado tempo agarrado a um computador, demasiado tempo enfiado numa sala, demasiado tempo a fazer coisas que não gosto, porque depois a questão também é essa, é o tempo que nós perdemos a fazer coisa. Apesar de eu gostar de design, eu estudava e no mês estava, sei lá, 10% do teu tempo de trabalho a fazer aquilo que realmente gostavas. Criativo. O resto é atender telefonemas, clientes, orçamentos. Uma seca do caraças. E a minha ideia foi exatamente: eu só consigo virar este paradigma se eu for à procura daquilo que me dá mais prazer, aquilo que me faz, como estávamos há bocado a falar, brilhar os olhos.

E então aí mandaste, em bom português se diz, o design às urtigas.

Às urtigas. E lá foi. Foi um processo longo, porque tinha um filho com quatro anos na altura, tinha um sócio, que quase é um casamento. Quando tu estás num projeto a dois, num projeto profissional. Então eu também tinha que preparar a minha vida e também tinha que me formar um bocado e ir à procura de skills.

Mas arrumaste isso e dedicaste inteiramente às viagens. Mas nesse interim, ou seja, entre a meninice dos escuteiros e as pequeninas aventuras por Portugal e até seres designer, também viajaste por aí ou não?

Sim, viajei muito por aí, principalmente no período antes de acabar a faculdade, porque eu também estava a trabalhar nessa altura.

Estudaste e trabalhaste ao mesmo tempo.

Ao mesmo tempo. Então é um período que tu estás ainda na casa dos teus pais, ainda estás com os níveis de despesas muito baixo. Eu estava ali a acumular, tinha dinheiro. E estava num emprego relativamente interessante, eu fazia rigging.

O que é isso?

Rigging era aqueles gajos que estão pendurados nos concertos. Nos concertos, não. Não é durante os concertos, é antes e depois dos concertos que vão mandar para lá tudo o que é material técnico, tudo o que é PAs e iluminação e não sei o quê. Basicamente, eu chamava-lhe um trolha de luxo. Porque não deixávamos de ser um trolho, cartávamos com coisas e usávamos os motores e pendurávamos os mosquetões com motores pra cima. Só que era de luxo no sentido que recebias muito bem, porque a taxa de risco era muito alta também. Andavas lá pendurado.

É um trabalho bem pago.

Era muito bem pago. Então tinha dinheiro pra gastar e onde eu queria gastar exatamente era em viagens.

E gastaste tudo em viagens.

Torrei aquilo tudo em viagens.

Diz lá onde.

Foi principalmente na Europa, porque eu aproveitei essa altura pra fazer viagens, que eu nunca gostei de ser turista. Sempre ir à procura. Tenho uma viagem que foi pouco depois dessa altura, que fui pro México durante um mês e meio, com um amigo, backpack, só pra te dar mais ou menos o mote.

Bárbaro.

E comprámos o Lonely Planet pra não ir aos sítios que os gajos diziam. Foi um desafio do caralho.

Se aparece no Lonely Planet, eu não vou.

É para não ir, exactamente. E foi incrível. Há sempre o senão que não fomos aos sítios mais incríveis. Mas fomos aos segundos ou terceiros sítios mais incríveis.

Não te sentes defraudado? Isto é uma decepção enorme depois de acabar essa viagem?

Não, por quê? Porque ganhamos outras coisas, e principalmente o maior ganho foi humano. Porque as pessoas que lá estavam, onde a gente ia.

Então vamos lá. O que não aparece no Lonely Planet sobre o México, que tu um dia vais incluir no guia Diogo Tavares México?

Não sei. Não me lembro, caralho. Olha, mas posso dizer uma que foi incrível, que nós fomos pra aldeias indígenas, que eu não me lembro o nome, teria que ver, que eu tenho isso tudo anotado, porque eu ando sempre com bloquinhos também. Agora já não tanto, mas dantes andava, porque agora preciso ser mais leve na minha mochila. Tivemos contacto com imensa malta relacionada com ONGs, diretamente relacionado com nutrição. Os indígenas todos tinham problemas nutritivos e tinham problemas de obesidade mórbida, muitas vezes, porque é aquela ostentação, e o México tem muito isso, e quanto mais perto dos Estados Unidos, mais isso intensifica, que é exatamente aquela questão do wannabe.

Querer ser qualquer coisa.

Sim, querer ser. Quer ser americano, tens que ser americano com tudo o que isso implica. E a forma mais fácil de eles serem americanos é consumirem.

Big and fat.

Exatamente, é consumirem o que os Estados Unidos enviam para lá. E isso era um grande problema, porque eles deixavam de ter os seus hábitos alimentares, que eram hábitos de autossustentência, e tinham tudo ali nas hortas, e começaram a comer já verdíssimo.

E tornaram-se obesos.

Totalmente, sim, exatamente. Isto já foi uma viagem que eu fiz há mais de 10 anos, já foi há 15 anos, essa do México que eu estou a falar. E nós vimos os putos todos a despachar batatas fritas e aquelas porcarias, e aquilo era a refeição deles. Relativamente às outras viagens.

Rápido, estamos a avançar para o final da primeira parte.

Eu aproveitei, como tinha dinheiro, para ir visitar os meus amigos que estavam todos em Erasmus, que eu estava a acabar a universidade e tinha muitos amigos espalhados pela Europa. E em vez de lá ficar a fazer turismo, vá lá, eu bancava na casa deles e deixava-me estar. E eu fiquei sei lá, quatro semanas em Budapeste, três semanas em Berlim. Então o facto de estares nestes sítios com tempo, também faz com que tu absorvas as viagens de outra maneira. Foi isso que me fez aprender a viajar devagar.

Muito bem. Vamos deixar a Guatemala para a segunda parte, porque estamos quase a fechar a primeira parte, vamos abrir o álbum de viagem.

Vamos lá.

Diogo, há algum objeto que tenhas trazido das tuas viagens, e peço que sejas muito rápido, que guardes com carinho lá em casa? Vamos lá.

Olha, não.

Não há nenhum objeto.

Eu não sei. Normalmente eu ando com pulseiras e sou capaz de, naqueles sítios, arranjar algumas para trazer e para oferecer. Há um objeto muito importante que eu costumo comprar sempre que eu vou para viagens para fora, que é um postal.

Já ninguém compra postais. E mandas?

E é um postal que eu envio ao meu filho.

Boa.

É normal eu enviar também outras pessoas, mas esse eu nunca falho.

E escreves?

Escrevo, claro. E às vezes chegam depois de mim. Mas envio.

E perdem-se pelo caminho ou não, os teus postais?

Ainda não se perderam. Felizmente, ainda não se perderam. Já chegaram muito depois de mim, mas ainda não se perderam.

Muito bem. O que é que há para ver na Guatemala, conta-me tudo, a mim, João Miguel Santos, que gosto de civilizações antigas.

Olha, começas muito bem.

Começo bem, não é?

Acabas de ser o público-alvo, porque é o que tem mais. Cerca de 70% da população.

Maia, não é? Civilização Maia.

Exatamente. 70% da população provém daí, indígena.

É uma coisa muito ostensiva visualmente na Guatemala.

É, porque eles também fazem questão disso, porque é um dos grandes marcos daquilo que é a história, que é a cultura deles. No entanto, é muito interessante porque aquilo está muito carregado de teorias, e quando tu falas com os locais, têm uma tendência muito grande em vangloriar e até exacerbar.

Hiperbolizam, valorizam demais a importância dessa civilização Maia, é isso?

Sim.

Como povo...

Em relação à sabedoria, em relação ao conhecimento, em relação à sabedoria, em tudo.

Pioneiro na descoberta, por exemplo, de astronomia.

De astronomia e até de arquitetura, de técnicas de agricultura, da forma como olham para os astros e interpretam isso depois naquilo do dia a dia.

O que também não deixa de ser verdade. Não está muito longe da verdade.

Mas era aí onde eu queria chegar, que muitas das coisas que eles dizem faz todo sentido e ainda bem que o fazem.

Por exemplo?

Antes de dar um exemplo, vou dar uma coisa que é muito interessante, que é a forma que eles diabolizam o Mel Gibson.

O ator, o Mel Gibson?

O Mel Gibson.

O realizador, exatamente, porque ele fez um filme.

Que espatifou a cultura maia toda.

Basicamente, estou sendo muito redutor, mas transformou-os num povo assassino.

E a verdade, se calhar, está ali no meio. A questão é um bocado essa, porque isto já aconteceu há muitos anos, há muitos séculos. E como nós também quando andamos a colonizar, não andamos a fazer festinhas a ninguém.

Não há povos inocentes.

Exatamente. A questão é um bocadinho essa. E o que é interessante é a forma como se limam Como se lima a história. E essa parte é muito gira e o que eu procuro também.

Eles, os guatemaltecos, pintam a manta, isto é, gostam de dizer ao mundo que a civilização maia era boazinha?

Sim, exactamente. Tendem para-

Valorizam só o positivo.

Sim, exactamente. Tendem para fazer isso. E eu acho que faz todo sentido, quer dizer, é o que todos nós fazemos daquilo que é a nossa vida.

Do nosso passado coletivo. Temos esta mania de pintar o passado em tons cor-de-rosa.

Olha o feed dos Instagrams de cada um de nós. Não é isso que a gente faz?

É verdade.

Pronto. Mas é uma coisa muito interessante é eles fazerem isso. E de certa forma, que é uma das coisas que me atrai muito naquele país, é num país que é relativamente pequeno, mas tem uma diversidade inacreditável.

Guatemala.

Sim, continuamos na Guatemala. A natureza daquilo é uma coisa que me ultrapassa. Porque tu sentes ali, e eu agora vou falar dos vulcões e da atividade vulcânica, e que tu sentes a terra viva ali. E é de um verde exuberante. E depois tens a relação com o Caribe também. Tu num espaço muito curto de tempo, tu consegues fazer uma viagem que parece que não é num país. Eu acho que a gente pode fazer até um paralelo com o nosso, que o nosso também é assim. Tu tens um país muito pequeno e consegues ter uma diversidade tanto cultural como natural e geográfica muito grande.

Se bem que lá na Guatemala é muito mais colorido e vivo, do que aqui.

Sim.

Tu és designer, saberás isso melhor até do que eu. Portugal pinta-se em tons de verde seco. E a Guatemala imagino que...

É de uma exuberância. É muito engraçado, eu costumava fazer essa brincadeira, tudo que vês na Guatemala parece que bebeu uma Fanta. Superflashy.

Muito bem. E o que é que há para ver na Guatemala?

Olha, eu já te disse algumas coisas. Para além de toda a relação com a cultura e com a história maia e tudo aquilo que eles lá deixaram, que deixaram ruínas, que eles não gostam que lhes chamem ruínas, que eles continuam a chamar de cidades.

Engraçado.

Sim, e o que é muito interessante é que tu tens como Tikal, aquilo está 15% à vista e tu olhas para aquilo, aquilo é monumental, é inacreditável, e tu olhas para aquilo e está 15% à vista, o resto ainda está soterrado.

Há ali muito trabalho.

Há, muito trabalho. Sim. E depois é um país muito pobre, quer dizer, é considerado um dos países mais pobres do mundo. E está ali todo um processo de desenvolvimento que acaba por ser muito lento. Por outro lado, também o torna mais genuíno. Mas este é o lado do viajante, um bocadinho mais egoísta.

Tu tiveste a oportunidade de sair dos circuitos turísticos nesta viagem que realizaste?

Nesta viagem, pouco. Eu agora vou ter uma viagem em fevereiro, vou para lá outra vez e vou ter mais espaço de manobra para poder fugir ao circuito, exatamente para poder ir ao encontro desse lado mais genuíno, desse lado mais autêntico. No entanto, devido também ao facto, mais uma vez, nós estamos num período muito especial da história.

Por causa da pandemia.

Por causa da pandemia, onde continua a haver muita gente que não viaja. É um espaço e uma liberdade, e tu consegues estar em sítios onde habitualmente está apinhado de gente. Era aquilo que estavas a dizer há pouco, sentes que aquilo é para ti.

Que inveja.

Sim, é surreal, esse lado é muito bom.

Mas também deve ser um pouco triste, ou não? Saber que estás num sítio turístico potenciado para uma indústria. Também não dá uma certa pena sentir que há ali pessoas que têm uma expectativa de ganhar dinheiro, de viver daquilo e que depois não conseguem?

Era aí onde eu queria fazer a distinção. Eu não consigo sentir isso quando estou naqueles sítios, porque acho que é um privilégio conseguir estar naqueles sítios daquela forma. No entanto, há um impacto brutalmente negativo pelo fato de não estar a 100% ou não estar como costumava estar, porque aquelas pessoas dependem disso. E mais uma vez, e eu agora faço o paralelo com África, na Guatemala é a mesma coisa, são um país com recursos muito reduzidos ou muito precários. É um país muito frágil economicamente, bastante corrupto, e faço um paralelo com o Quênia, que estávamos há pouco a falar. E não há estrutura social. A questão é essa. Se as pessoas não recebem o dinheiro, recebem o dinheiro do dia a dia.

Claro.

Se elas não recebem naquele dia, não há a seguir. E nesse ponto, claro que sou sensível a isso.

Muito bem. Diogo, vamos avançar. Entre as muitas viagens que já realizaste, há duas. Vamos ver se temos tempo para as duas, mas vamos começar por esta. Andaste um mês e meio a passear pela Islândia, foi em 2015, ias para pedalar, mas tiveste um problema e depois acabaste a fazer a Islândia a pé. É um país que se pode fazer a pé, a Islândia?

Sim, pode fazer ele todo a pé.

Aliás, todos os países se podem fazer a pé, como é óbvio.

Se temos tempo, mas faz-se. Sim, eu inicialmente queria fazer essa viagem de bicicleta. Nós tínhamos umas F-Roads, que são as estradas que a gente pode atravessar, que só os veículos todo-o-terreno podem fazer, atravessa rios e rios E podias fazer de BTT. Só que passado 10 dias, tive um problema e o desviador atravessou um desses rios. Caiu a água, vem gelada, benditos Crocs, não corta nada Crocs. Vai pra Islândia sem os Crocs e depois diz como é que foi.

Porque tens que molhar muito os pés. E andar com sapatos molhados é terrível.

E depois tu estás sempre a levar com pedras, porque a água vem muito forte e acima de tudo muito fria.

Então tiveste um problema mecânico na tua bicicleta, tiveste que reconfigurar a tua viagem e acabaste por transformar-

Numa viagem de trekking, numa viagem de backpack. E fiz muitas boleias, e essa foi a parte muito interessante.

Boleias na Islândia, um país inóspito e quase desértico?

Espetacular. Sim.

É fácil?

É fácil, porque as boleias que me interessavam eram pelas estradas principais. Apesar de ter feito uma boleia de quase 18 horas, que foi com uns franceses, para uma das zonas onde ia começar um trilho. Estive 18 horas com essa família, foi incrível. Mas as boleias eram relativamente fáceis, ou era por turistas ou, acima de tudo, por islandeses. Isso foi que me deu uma ideia muito mais alargada do que é a Islândia vista por um islandês. E eles como também articulam muito bem inglês, então foi muito interessante.

País espetacular, não é?

É incrível.

País em que para fotografia não há melhor.

Tu podes ser o pior fotógrafo do mundo, tu nem precisas de apontar pra lado nenhum, tu tiras uma fotografia incrível, porque eu acho que aquela gaita foi toda desenhada.

E se sair mal metes a preto e branco.

Exatamente.

Fica expressivo, não é?

Aqui aumentas o contraste.

Exato. Fica cheio de negros e superexpressivo.

Fica toda arty. Está feito.

Muito bem. Também tens viajado muito pelos Balcãs, nas chamadas Montanhas Malditas. Que montanhas são essas, Diogo?

As Montanhas Malditas é o nome local que os albaneses deram a uma zona de montanha no norte da Albânia, que apanha a fronteira com Kosovo e com Montenegro.

Dito assim, parece uma coisa onde saltam homens armados detrás das árvores com Kalashnikov.

Provavelmente já pode ter acontecido isso e não há muito tempo. Porque aquilo é uma zona de conflito, esteve durante séculos em conflito e há muito pouco tempo, nos anos 90, aquilo ainda andava uma batatada. No entanto, agora aquilo é um país em reconstrução, é uma zona em reconstrução, onde está a ser reabilitado a nível de turismo. E aquela zona, todas aquelas montanhas, é brutalmente inóspita. Tu sentes que não estás na Europa, sentes que é uma zona superremota. Os sítios por onde eu passo ali, são zonas onde eles ainda continuam a ter a cultura do seminomadismo, ou seja, estão durante o inverno nas zonas baixas, e eu vou te já explicar porque eles chamam as Montanhas Malditas. Há várias teorias e há uma delas muito interessante.

Então vá.

Eles estão lá embaixo nas aldeias e durante o verão sobem para a montanha.

Como aqui há 50 anos.

Exatamente, há muitos anos.

Fazia a transumância.

A transumância. E então, o que acontece?

Portanto, existe transumância na Albânia, eles continuam a praticar.

Continuam. É o chamado seminomadismo, ou seja, eles estão durante quatro, cinco meses, o tempo quente lá em cima na montanha. E é aí onde eles nos recebem pra nós dormirmos, porque senão não tínhamos hipótese, senão era sempre com tenda. Então são famílias que nos recebem durante essa viagem. É isso que torna a viagem também muito especial, porque tu estás na casa deles, eles recebem-te ali.

A quantos mil metros de altitude?

Não é muito, são 2000, 2500. Mas tu estás é sempre numa cota muito alta. Tu não tens lá vrão ali naquela zona.

Pois, são montanhas novas, não é? São todas muito bicudas.

Sim, tem um ambiente muito alpino.

Não é como a Serra da Estrela, que é redondinha.

Redondinha.

E barriguda.

E eles chamam Montanhas Malditas exatamente porque aquilo no inverno é totalmente intransponível, eles não passam pro outro lado, é muito rigoroso. E depois há um mito, uma lenda que eles lá têm, que os deuses castigaram os homens porque eles foram ao encontro de umas ninfas lá de um lago, que é um lago inacreditável, lindíssimo. Eu sempre que vou pra lá tomo banho, portanto eu sempre faço pouco dos deuses.

Você sabe o nome desse lago? De cor.

Iscri.

Iscri.

Eu acho que estou aqui a patinar uma sílaba, mas que se lixe.

Trabalhos de casa, tens que melhorar o teu albanês.

É verdade, com certeza. Iscri, vai ser uma vergonha.

Mas avançavas aí a dizer, há essa lenda.

Sim, há essa lenda.

E tu tomas sempre banho nesse lago.

Sim, sempre que posso.

De água gelada, imagino.

É muito pau a vesquinha. Vou lhe chamar vesquinha. Esticas as peles.

Esticas as peles. Muito bem. Olha, tens um projeto muito engraçado que é o Vadiagem Outdoor, que basicamente consiste em criar aventuras ou experiências de aventura no interior de Portugal.

Sim.

Nesse sentido, tens várias coisas já montadas. Portugal é um bom país para fazer microaventuras de dois, três, quatro, cinco dias, Diogo?

Olha, eu posso parecer um bocadinho suspeito, porque é isso que eu faço em Portugal. No entanto, a resposta é um sim redondo, porque nós estávamos a falar de sítios como os sítios turísticos como a Guatemala, como por exemplo Nepal, que é um sítio onde eu costumo viajar também, onde tu tens o turismo de uma forma bastante massiva. Tu em Portugal tu consegues viajar e explorar a natureza e ter um contacto, uma relação próxima com a natureza e com as comunidades espalhadas pelo interior do nosso país. E tu não vês ninguém à tua volta, tu não tens turismo. Ou tens muito pouco ou é muito reduzido. E se fores pra um trilho, tu não vês ninguém durante vários dias, se for preciso.

É verdade. Aliás, uma das tuas aventuras é a Serra da Gardunha, a Serra do Açor. É impressionante como não há ninguém naquela zona.

Não há.

Eu fiz há dois anos de bicicleta e só pensava pra mim: se um chinês sobrevoar esta zona montado num helicóptero, logo à saída do Fundão, compra metade destes terrenos, porque aquilo está puxado de oliveiras. É riqueza abandonada.

É espetacular. E tu passas por esses sítios durante a primavera, é uma explosão de amarelo inacreditável por causa das giestas.

E da craqueja.

E da craqueja, boa. E a minha ideia exatamente nestas viagens é, em quatro, cinco dias, é experienciar aquilo que nós temos de melhor nestes vários territórios, que eu tenho uma no Gerês, tenho uma viagem no nordeste transmontano, e essa que exatamente que tu estavas a falar, que é da Gardunha ao Açor, de bicicleta.

O interior de Portugal não é um bocadinho triste?

É triste. Eu não sei se consigo dizer que é triste, porque eu acho que há um entusiasmo quando nos veem. Mas eu acredito que seja triste porque é um constante abandono.

Pois, porque é uma paisagem muito árida e muito abandonada.

E muito abandonada. No nordeste transmontano, mais uma vez, que é uma das zonas mais remotas do país, e com tudo o que isso implica, porque é falado que tu tens um abandono social muito grande ali exatamente pelo facto de falta de gente. É uma coisa que se nota muito. E eu fico muito feliz por poder, de uma forma brutalmente ínfima, poder contribuir para que mais pessoas, normalmente da zona urbana, possam se deslocar para lá para conhecer um bocadinho daquele território e das pessoas que lá vivem.

Há muita nostalgia, não há?

Eu acho que sim. Não sei se é daí que também vêm aqueles nossos termos como a saudade e coisas do gênero.

Mas há doses massivas de nostalgia no interior de Portugal. Sente-se isso e melancolia também.

Eu sinto isso no sentido que tu vais para esses sítios, principalmente no inverno. E agora vou ter uma experiência muito interessante lá em cima, no nordeste transmontano, vou conhecer as festas pagãs, ali naquela zona, que acontecem nesta altura do fim do ano. Estou superentusiasmado com isso.

Miranda do Douro, por aí?

Por aí, exatamente. Apanha Tó, apanha ali uma série delas que agora, como é óbvio, não me estou a lembrar. E eu estou com muita vontade de fazer isso. E são festas que são feitas das pessoas da aldeia para as pessoas da aldeia. E isso é que cada vez tu vês menos. E tendem a desaparecer porque as pessoas da aldeia vão deixar de existir na aldeia, ou porque se vão embora, ou porque morrem.

E sem gente não há vida.

Pronto, é um bocadinho isso.

Diogo, estamos mesmo quase aqui a queimar o tempo. Vamos fazer checkout?

Bora lá.

Vamos embora. Vou te pedir para completares as habituais frases: na minha mala vai sempre...

A máquina fotográfica.

Não dispensas a máquina fotográfica.

Não, não posso. Não posso porque gosto muito de fotografia, e acima de tudo é porque é uma espécie de bloco de notas, que eu já não uso tanto, mas é um bloco de notas porque eu agora ultimamente tenho escrito umas coisas relacionadas com as viagens e faço uma espécie de relatos daquilo que estou a fazer, e aquilo acaba por ser a minha bengala para mais tarde ir buscar informação.

O carimbo de passaporte mais difícil de obter, qual é que foi?

Eu vou tentar ser rápido. Pois, o carimbo mais difícil foi o Panamá.

Panamá, então.

Sim, o Panamá. Eu agora fiz escala no Panamá para ir pra Guatemala e eu estive mais tempo no Panamá a fazer escala do que a vez que queria ir pro Panamá realmente, porque eu estive 20 minutos no Panamá e tive que voltar pra trás por causa do passaporte.

Então?

Porque o passaporte não estava com o passaporte digital. Aquilo foi por causa dos americanos que mudaram para aquele passaporte digital e eu tinha o passaporte antigo ainda e não me disseram isso em lado nenhum, e então voltei pra trás. Foi assim das coisas mais frustrantes da minha vida em relação à viagem.

Voltar pra trás é voltar pra Lisboa?

Voltar pra trás pra Lisboa.

Portanto, foste aqui pro Panamá, chegaste ao Panamá, voltaste pra trás?

Pumba!

20 minutos no Panamá e toma lá Lisboa.

Oh, yeah, no mesmo avião.

Olha, a viagem com mais peripécias que fizeste até hoje, qual é que foi?

Olha, eu estive a pensar nessa pergunta e tinha duas, mas eu só podia escolher uma. Mas aquela que eu escolho eu fiz há uns anos na zona de Chamonix, nos Alpes franceses, que apanha a Suíça e a Itália também, uma volta muito grande, uma espécie de competição, ou uma espécie de corrida não competitiva, é mais isto, onde mete trail running e mete orientação e acima de tudo alta montanha. São 300 km pra fazer em menos de cinco dias ou seis dias, creio eu.

O Tour du Mont Blanc.

O Tour du Mont Blanc, mas numa cota muito mais elevada e com o componente orientação. Basicamente, passados 180 km, depois já vários dias e muito tempo sem dormir, eu dou por mim a mais de 3000 m com mais dois amigos, nós éramos uma equipe, e além de muitas peripécias que eu agora precisava de muito tempo de contar, aquela que foi mais marcante e que acabou por ser alvo de chacota e brincadeira, foi acabarmos acima dos 3000 m, perto da fronteira da Itália, lá em cima no Cu de Judas, os três num shelter de emergência, os três em conchinha a dormir. Porque a possibilidade de hipotermia era gigantesca e nós estávamos brutalmente exaustos, então precisávamos dormir ali.

Agarraram-se uns aos outros e rezaram.

E rezamos. Rezamos não, eu caí reto, porque eu estava completamente exausto.

Muito bem. A refeição mais estranha, qual foi, Diogo?

Olha, há bocado tinha falado da viagem do México, e foi exatamente no México, na Cidade do México. E aquilo é mais ou menos o ritual. Ritual não, aquilo é o dia a dia deles. E eu acho que aquilo com umas cervejinhas tinha ido lindo, porque eu não tinha cerveja ao pé, mas foram umas larvas e uns gafanhotos fritos. E é uma iguaria, eu adorei aquilo.

Adoraste?

Adorei. E só tive pena, como te disse, só tive pena, não tinha uma jola ali ao lado que aquilo tinha ido muito bem.

E é uma coisa que se vende assim corriqueiramente? E há em pacote pra quem quiser trazer?

Eu não perguntei, porque eu tinha uma viagem muito longa pela frente. No entanto, aquilo era um mercado, que é um mercado só vendem animais, e animais pra levar pra casa, animais pra sacrifício, porque eles têm rituais pra tudo e umas botas, principalmente oferendas pra deuses. Então, tinha lá de tudo. Tudo médio e pequeno porte, ratinhos, larvas e gafanhotos.

Diogo, a recordação de viagem mais cara, qual foi?

Olha, a recordação de viagem mais cara Eu sou muito pouco de comprar coisas e de coisas em geral. E aquilo que eu te posso dizer, para tentar responder o melhor possível à pergunta, são as pessoas que eu trago comigo, são as pessoas que eu conheço em viagens, são as pessoas que têm a oportunidade de criar essas camadas de relação e que me fazem conhecer os sítios de uma maneira mais intrínseca.

Mas nunca tiveste, como dizem os franceses, um coup de cœur?

Assim uma-

Não, nada.

Não, porra. Eu digo que tive muito tempo para pensar nesta pergunta e não tenho assim nada. Como te disse, são os postais, são estas coisinhas que eu ponho no pulso.

E é só.

Sim.

Muito bem. Olha, gostavas de viajar com?

Com o filho.

Com o teu filho André.

E não é gostava no futuro, no sentido que eu já viajo com ele. E tem sido uma coisa mais ou menos exponencial, que são viagens que vão à medida dele. Tenho agora uma viagem em abril, vou com ele pela primeira vez para fora do país e vamos explorar a Capadócia. Sim, na Turquia.

Vão andar de balão.

Sim. Ele agora vai ouvir isto.

Oh, bolas!

Sim, mas eu vou tentar tossir quando tu disseres balão.

Boa viagem, Diogo, e boa viagem, André.

Muito obrigado.

Diogo, que música trouxeste para fechar esta conversa do "Fim do Mundo"?

Eu trouxe uma música que se chama "Musgo na Voz" e além de ser uma música lindíssima, é uma música que é de dois amigos meus, que é o Norberto Lobo e o João Lobo. É uma música que eu oiço com muita frequência quando estou em viagem, portanto, vai me acompanhando também.

Muito bem. Diogo Tavares, obrigado por teres vindo às conversas do "Fim do Mundo".

Foi um prazer. Obrigado, João.

"Musgo na Voz", de Norberto Lobo e João Lobo, a fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana. Estamos de regresso de dois em oito dias. Até lá e boas viagens.

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