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Sejam bem-vindos. A viajante desta semana é uma das portuguesas mais viajadas da atualidade. Já foi a quase todos os países do mundo e há muitos anos que viaja a correr maratonas. Trezentas e vinte e duas em 44 países e em todos os continentes. Até fiquei cansado. A primeira de todas, Nova York, em 1991. A última corrida foi há duas semanas em Springfield, nos Estados Unidos. É neste país que trabalha, em Wall Street, e é da terra do Tio Sam, que acaba de chegar. Welcome, Domitília dos Santos.

Obrigada.

Eu achava que a Domitília ia chegar de fato de treino com uma fita na cabeça, qual Forrest Gump. Mas não, não é? A Domitília é uma grande viajante. É verdade que já deu a volta ao mundo três vezes e meia?

É verdade.

Uau! Incrível! Vive nos Estados Unidos há muitos anos, diria.

Desde 68.

Desde 1968.

23 de dezembro de 68.

Uau, uma longa vida a viajar. Já foi a quase todos os países do mundo. Já lhe vou perguntar qual é aquele que gosta mais, depois de Portugal. Confirma-me que é Portugal.

Exatamente.

Muito bem, é o seu preferido. Domitília, como é que começou a paixão pelas viagens?

Eu fui com 19 anos estudar para a Inglaterra, para Londres, e estive lá a estudar na London School of Economics, e na altura da Páscoa, meti-me no comboio, fui até Florença e depois de Florença fui de comboio até Faro. E quando cheguei a Faro, a minha mãe olhou pra mim e disse que eu parecia uma senhora da rua, mendiga, tantos dias dentro do comboio.

Isso foi em 1900 e...

Estamos a falar em 1975.

75? Ok.

75.

Em plena revolução.

Revoltação dos anos 20. Exatamente.

Portanto, imbuída pelo espírito hippie revolucionário da época, Domitília, aí vem ela, sul da Europa abaixo, por aí abaixo.

Exato.

Muito bem. Mas depois seguiram-se outras viagens, seguramente, claro que sim.

Depois regressei para os Estados Unidos outra vez.

Estados Unidos ou Reino Unido?

Não, estava no Reino Unido a estudar. Depois fui a Florença passar a Páscoa. De Páscoa fui pra Faro, de Faro voltei pro Reino Unido. Fiz trabalho voluntário naquela altura, como se lembram, a Inglaterra estava a entrar na União Europeia. Trabalhei para um member of parliament. Depois voltei para os Estados Unidos, acabei a universidade e comecei logo na faculdade de Direito, onde acabei o curso em 1979. Quando acabei o curso em 79, o meu sonho sempre foi trabalhar para as Nações Unidas, porque a minha mãe tinha me posto na Berlitz para falar francês quando eu tinha 10 anos, e queria trabalhar nas Nações Unidas, porque era lá que eu ia conseguir viajar. Eu gostava muito de viajar. Só que eu fui às Nações Unidas e foi a maior tristeza, porque cheguei lá e-

Foi uma desilusão

...uma desilusão tremenda.

Chegou a trabalhar nas Nações Unidas, não foi?

Dois anos como a social legal officer, como advogada. Eu nunca cheguei a viajar. Eu disse: "Então, o que é que se passa aqui? Aqui não há nada para ir viajar". Aí comecei a viajar, fui à Venezuela.

Ok, foi para as United Nations, mas sem as nations.

Exatamente. Comecei a viajar nessa altura.

Ok, muito bem. O que é que procurava na altura? Aventura, conhecer o mundo?

Não, países, era só por país. "Olha que engraçado, e se fosse a este país, se fosse àquele país". Eu tenho este espírito de why not, e com muito risco, com muito perigo. As pessoas dizem: "Não tem medo de viajar?" Eu não tenho medo. Acho que o medo desapareceu quando eu acordava às 3 da manhã pra ir pra Olhão e pra Sambraz da Alportel com a minha mãe vender as batatas e as laranjas que nós tínhamos pra vender e acordávamos muito cedo. E portanto, não tenho medo nem de correr à noite, nem de andar na rua de noite.

Nem de correr, porque a Domitília, como eu dizia na introdução, já correu 322 maratonas em 44 países e em todos os continentes, inclusive na Antártida.

Eu já fiz os sete continentes duas vezes. Já fiz os Estados Unidos da América duas vezes e fiz quatro ultramaratonas. A maratona com mais quilômetros que eu fiz foi a maratona de Javelina, em Arizona, que foram 162 km, 100 milhas.

Uau!

Essa foi a maratona mais longa, demorou-me 28 horas e 32 minutos.

Vinte e oito horas!

Sim, senhor.

Uau, isso é inacreditável. Incrível. Treina todos os dias, então?

Não. Esses dias já passaram.

Ah, é? Qual é o seu regime de treinos agora, Domitília?

Não, há dois dias estava a ler um artigo no Washington Post, e tinha um senhor num artigo a escrever que ele vai passar os seus 90 anos a subir o Kilimanjaro. Eu disse: "Olha, que boa ideia, vou passar os meus anos a fazer isso no ponto que vem".

E vai fazer?

Em 28, se estiver viva.

Uau! Vai correr até o topo do Kilimanjaro pra assinalar o seu aniversário.

Eu já fiz em Colorado, fiz o Pikes Peak, que foi 15 mil feet. Portanto, o Kilimanjaro é 19 mil, não deve ser assim um pouco mais. Portanto, acho que não vou ter muita dificuldade. Mas ainda não está decidido, não sei, acho que está muito comercializado. E eu confundo sempre o Kilimanjaro com o Everest. Sei que uma coisa tem a ver com a outra, mas quando ouço uma coisa, penso que estou falando outra. Portanto, não sei se vou fazer. Mas é o objetivo.

Muito bem. Também tenta, pelo menos, celebrar o seu aniversário sempre em contexto de viagem, não é?

Sempre, em países diferentes, pra ter memórias diferentes. Um ano é às Maldivas, no segundo ano é em Quênia, no terceiro ano pode ser em Dominica, no quarto ano pode ser em Haiti, onde é que eu passei os meus anos.

No Haiti?

No Haiti, a fazer trabalho voluntário com a Mãe Teresa. Já fiz trabalho voluntário em 10 países, sempre com a Mãe Teresa. O primeiro foi na Etiópia. Portanto, coisas interessantes. Só que este ano, por exemplo, o meu aniversário não teve jeito nenhum, foi em Nova York. Não teve nada de significância.

De assinalável. E por que procura celebrar sempre o seu aniversário-

Pra ter memórias.

Mas vai sozinha, não é?

Sempre sozinha É muito raro eu viajar em grupo. Por exemplo, na Maratona dos 77 foi em grupo, quando eu fiz o Down Nights na Itália foi em grupo, quando eu fiz o Caminho de Santiago foi em grupo. Coisas pontuais tenho feito em grupo, mas outras não. Eu sempre sozinha. Para o ano, se Deus quiser, vou fazer Tuvalu, Samoa e Tonga, três países em 10 dias, para os meus anos.

Uau! Espetacular. Tem alguma história inusitada, incrível, relacionada com o seu aniversário, Domitilia? Em contexto de viagem. Ou então, vou perguntar de outra maneira: qual foi o mais bizarro até hoje?

Do meu aniversário?

Não me diga que foi Nova York.

Não. Foi em Dominica. Onde é que eu estava?

Na República Dominicana?

Não, Dominica, a ilha Dominica. Não é Dominica Republic, é Dominica.

Ok.

É uma faculdade de medicina. É uma ilha muito pequenina, então lá muitas pessoas que tratam dos barcos e ficam lá num hotel muito belas. E eu lembro-me no dia dos meus anos, geralmente vou fazer massagem, e eu pedi para fazer a massagem e aparece um senhor com umas velas acesas, um quarto escuro, a fazer massagem. Eu pensei: "Onde é que eu estou? Mas isso é uma coisa louca". Mas eu gosto de fazer essas coisas bizarras. Mas tenho coisas mais estranhas do que essas.

Então parte, partilhe.

A mais estranha foi a viagem de Togo e de Benin, que foi o ano passado. Foi uma viagem muito arriscada, mas que no fim acabou tudo bem, mas com muita turbulência. Foi assim, eu saí de Nova York, cheguei a Londres, disseram: "Não, a senhora tem que ir para o Gateway". Está bem. Depois de Gateway fui para Casablanca, conheci uma senhora que ia para Togo, disse à senhora: "Se precisares de ajuda, eu posso te ajudar com as tuas malas", uma coisa que eu nunca tinha feito. Ela tinha cinco malas para fazer o check-in, eu ia em business, ela ia em econômica. Ela fez o check-in, chegamos a Casablanca, mudamos, ela contou uma história dela, que ia voltar de regresso para o resto da vida dela em Togo, tudo bem. Chegamos a Togo às 05:00, não havia malas.

Ui.

E eu disse: "Oh, meu Deus, e agora a mala dela tem o meu nome". "Não te preocupes, o meu primo vai estar à minha espera, os meus primos estão à minha espera. Leva-me para o hotel." No dia a seguir combinamos para ela me dar uma visita guiada. Eu vou para o hotel, encontro um rapaz muito simpático, o nome dele é Esso. Eu disse: "Isso, é como em português isso. Olha que engraçado." Começamos a falar, eu dei-lhe o meu passaporte e disse: "Olha, mas está aqui Benin. Se calhar eu gostava de ir a Benin." "Mas eu consigo o teu visto." Conseguimos o visto em dois minutos. Então está bem, no dia a seguir eu vou para Benin. Ela aparece no dia a seguir às 06:00 com o primo e com a tia. Fomos fazer a visita guiada, chegamos à praia, ela disse: "Tenho que me ir embora, que tem dia raio". Eu disse: "Mas por quê? Está ali o restaurante." "Não, tenho que me ir embora." Deixou-me sozinha com ele. Isto é ainda mais interessante.

No Benin?

Não, em Togo. Estamos a falar em Togo. No dia a seguir, ela vinha me buscar para irmos para Benin e nunca mais vinha. Uma hora à espera, duas horas à espera. E eu a falar com o diretor do hotel. Começamos a falar de serviços, a minha experiência nos hotéis, porque já tive em vários hotéis. Eu passo 200 dias ou mais por ano em hotéis.

Ok.

E tive a qualidade do serviço. E expliquei tanto ao senhor que ficou na cabeça dele, já vai ver por quê. No dia a seguir, a senhora aparece com o primo, fomos de carro, chegamos à fronteira com Benin, pediram o passaporte e a senhora disse: "Não tenho passaporte." Ela olhou para mim e disse: "Eu preciso de dinheiro para voltar para casa." Eu dei $10, ela voltou para casa e deixou-me sozinha com o primo. Bem, eu sozinha com o primo, que não conhecia de lado nenhum. Havia imensas motas, fez-me lembrar o Vietname, aquilo era motas e mais motas. Estava calor, eu quase adormeci. De repente, ele bate numa mota e a senhora cai e eu acordo. E ele sai do carro em francês e diz: "Não saias." Eu olhei para trás e vi tal aguentarem pôr um balde d'água em cima da senhora. Eu disse: "Pronto, matou alguém. E agora? O que é que vai acontecer aqui neste país?"

Bolas.

Fiquei a tremer. Chegamos a Benin, o dia do Benin era o dia do budismo. Ele não sabia, nunca tinha ido lá. Saímos de lá, ele queria ir almoçar, não havia lugar para almoçar. Fomos ao Sofitel em Benin. Tudo bem, saímos do Sofitel, vínhamos na estrada a regressar para Togo, o que acontece? O carro para na portagem, não tem gasolina. Preciso de dinheiro. Dei-lhe $10. Comprou gasóleo, aparece um homem com gasóleo, mete a gasolina do carro, chego ao hotel às 22:00. No dia a seguir, ou no dia depois, íamos para ir embora, fiz massagem, estava a arranjar as mãos no hotel, aparecem cinco pessoas dentro do spa e dizem: "Surprise!" Eu disse: "Surprise, por quê?" Eram cinco empregados do hotel com um saco amarelo. Dentro do saco, estava uma camisola do clube de futebol de Togo. E por trás dessa camisola, o que é que tinha lá atrás? Domitilia Afonso dos Santos.

O seu nome.

Eu fiquei: "What?" No dia a seguir, fiz o check-in às 05:00, fui para o aeroporto. Quando as malas tinham chegado, tinha sido um telefonema do diretor do aeroporto. As pessoas falam mal da África, afinal, em Nova York, ninguém me telefonava às 05:00 dizer que a minha mala tinha chegado. O senhor tinha me chamado. Quando eu cheguei ao aeroporto, a senhora disse: "Vá falar com aquele senhor." O senhor olhou para mim e disse: "Olha, vou te pôr em primeira classe, porque o voo está lotado e tu vais em primeira classe." Olha, fabuloso. Tudo bem, a correr bem, já me vim embora. Depois desta tragédia toda. Depois, quando cheguei à imigração, o homem da imigração diz: "Onde está o teu QR scan?" Eu disse: "Qual QR scan? Cinco da manhã, como é que eu saio deste país agora?" Lá telefonei para o meu Esso, ele falou com o homem da imigração e eu finalmente saí de Togo. Foi a viagem mais turbulenta.

Sempre sozinha.

Sempre sozinha. Era uma turbulência em cima de outra coisa, uma coisa a seguir outra coisa, e sempre pum, pá, pum. E passou. Foi ótimo.

Estou a ver que a Domitília é uma grande aventureira.

Muito. Eu gosto muito de dar o benefício da dúvida às pessoas.

Portanto, entrega-se assim rapidamente a qualquer desconhecido, é isso?

A qualquer desconhecido. Onde é que eu fui? A Camaroon, a Gâmbia e a Costa do Marfim.

Costa do Marfim, sim.

Então, às 11 da noite: "Eu vim te buscar". E depois aparece um outro homem com outro carro. Eu digo: "Mas quem é você?" "Não, porque eu não pude vir, trouxe aqui o carro do meu irmão, ele é meu irmão". Já não é o mesmo carro. Eu disse: " estes dois agora podem me levar pra qualquer parte. O que vai acontecer agora? Estou nas mãos de Deus, eu tenho muita fé".

É uma mulher de fé?

Muita.

É crente?

Muita.

Muito bem. Também procura viajar e conhecer-

É uma das coisas que eu faço sempre quando chego-

Locais religiosos?

Não, vou sempre visitar uma igreja católica.

Por quê?

E é difícil encontrar uma igreja católica em muitos países. Não há, estão fechadas. Os países que têm igrejas católicas, as portas estão fechadas. Mas, por exemplo, em Bangladesh tinha uma porta aberta.

Ok.

Portanto, há países assim que surpreendem.

Muito bem. Portanto, gosta de ir conhecer as igrejas dos países e dos locais para onde viaja e já viajou muito. Vamos continuar a falar das suas viagens, mas estamos aqui a chegar ao final da primeira parte. Domitília, vamos abrir o álbum de viagem. Guarda algum objeto, Domitília, que tenha trazido das suas viagens e que seja especial?

Eu sou uma pessoa minimalista. A minha casa é mesmo zen, japonês, no estilo japonês. Só que quando eu fui, não sei onde é que foi, já estive no México em qualquer parte, mas foi no Banyan Tree, quando eu fiz o check-out.

Isso é o quê?

Banyan Tree é uma cadeia de hotéis.

Ok.

E o senhor deu um cesto branquinho, que ainda tenho, com uma tampa em cima e você tira a tampa e dentro tem uma tartaruga. Eu digo: "Mas que engraçado, por que o senhor me está a dar isto depois de eu pagar a conta?" "É assim, todas as tartarugas voltam à casa onde nasceram".

Ok.

Eu achei divinal, uma ideia ótima. E esse eu tenho guardado, acho uma coisa especial.

E a tartaruga funcionou? Voltou lá?

Não, voltou a outro país. Voltei a outro hotel, mas não lá. Em Hawaii, tenho um bracelet de madeira, que é típico de Hawaii. Nas Caraíbas é mais vestidos de verão ou chapéus, coisas assim. No Japão, comprei brincos, um colar de pérolas e duas peças de arte, em Tóquio, a segunda vez que fui a Tóquio.

Segunda vez.

Já estive em Tóquio duas vezes.

Japão é os Estados Unidos, não é?

É.

Estados Unidos é aquela coisa. Quer dizer, o Japão também é um país muito confuso, não é? Como?

Passei os meus anos em Osaka, com as pétalas das cherry blossoms a cair em cima.

Das cherry blossom, das cerejeiras em flor, não é?

Exatamente. Lindo.

Boa, espetacular, não é? Portanto, faz anos para aí em maio, é isso?

Quatro de abril.

Falhei por um mês.

É, quatro de abril.

Estamos à conversa com Domitília dos Santos. Vamos fazer aqui uma curta pausa nas Conversas do Fim do Mundo. Regressamos já a seguir. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte das Conversas do Fim do Mundo, esta semana com Domitília dos Santos, portuguesa que vive há muitos anos nos Estados Unidos. Gosta de viver nos Estados Unidos, Domitília?

Gosto da diversidade.

É?

Gosto que as coisas são muito fáceis, mas tenho muitas saudades de Portugal. Eu acho que a comida dos Estados Unidos não presta. É sempre a mesma comida: galinha, peixe, salmão, galinha, salmão, bife, é a mesma coisa. Aqui temos a nossa sopa. Tenho muitas saudades da nossa comida portuguesa. E tenho muitas saudades das festas dos ranchos algarvios, das feiras de Faro em outubro. Tenho muitas saudades de tudo. Eu sou uma pessoa que foi transportada do Algarve para os Estados Unidos, mas é como aquilo: é uma laranjeira, mas não é a mesma laranja. O sabor da laranja no Algarve não é a mesma laranja que foi podada e posta nos Estados Unidos.

Nos Estados Unidos.

É, não é a mesma coisa.

Muito bem. É a vida, não é? É o que é. Então, mas pode sempre regressar a Portugal.

Estou a gostar, tenho casa no Algarve.

Exato.

Estou a pôr tudo lá agora, graças a Deus.

Vem de vez, é isso?

Não tão cedo, mas estou a trabalhar num projeto lá na minha casa.

Boa, muito bem. Grande viajante, Domitília dos Santos, já foi a quase todos os países do mundo. A Domitília tem uma particularidade, vamos falar dela, porque isso também é uma dificuldade. A Domitília queria ir a todos os países do mundo, mas não pode, porque tem o visa americano, que é um problema.

Eu não sou americana.

Eu sei. Que raio de país, sempre a arranjar problemas com o mundo inteiro.

E agora mais. Mas eu estou muito feliz de ter feito os países todos até agora.

Até agora.

Os omãs, o Saudi Arabia, tudo, esses países que ninguém agora pode viajar. Já fiz esses países todos. Só os dois países que eu fiquei com não ter feito era Síria, a guerra abriu três semanas antes de eu ir, a Belarus, são dois países que eu podia ter visto. Daquela parte do mundo. São os dois países que eu podia ter feito naquela altura. Mas em janeiro, se Deus quiser, vou fazer Islamabade, Paquistão, vou fazer a maratona, portanto, vou conseguir ir. Fiz Cuba, ainda bem que fiz Cuba naquela altura. Fiz Venezuela, portanto, muito satisfeita de ter feito tudo. Eu acho que as pessoas não devem. Viajar é um dos presentes melhores que nós podemos ter na nossa vida, mais importante do que comprar objetos. Eu digo sempre em Portugal aos meus alunos, quando eu dei aulas na Católica, que você com 50 € ou menos pode ir a Madrid no voo das 5 h da manhã, voltar às 11 h da noite e gasta menos do que pôr um gel nas suas unhas ou comprar um bilhete de concerto. E nunca pode dizer: "Você tem dinheiro, pode viajar". Mas nunca é sobre o dinheiro, é uma questão de opção e viajar é a experiência melhor, porque as experiências ninguém tira. Sim. Agora o carro que você comprou, o vestido, gastas, o carro parte-se, tudo, mas a viagem fica na sua memória para o resto da vida.

É verdade.

E aprende-se muito com as pessoas. Aprende-se muito.

Por falar em aprender, a Domitilia é uma mulher bem-sucedida.

Eu não acredito na palavra sucesso.

Ah, é?

Não acredito.

Então não acredita?

Não.

Tem uma vida confortável, tem uma boa carreira.

Está bem, mas não é sucesso. Qual é o sucesso? Não há limite.

Está bem, mas quando se compara com outras mulheres ou outros seres humanos, como a Domitilia, vai bem lançada na vida, não vai?

Eu sou muito agradecida a Deus me ter posto neste mundo e o meu irmão me ter posto nos Estados Unidos, os meus pais terem ido comigo aos Estados Unidos, e só posso dar graças a Deus todos os dias por ter essa benção, porque nunca o poderia ter feito. Eu penso às vezes se eu tivesse ficado em Portugal, o que é que teria acontecido comigo, mas lá no céu sabem o que estão a fazer. E acho que aprender a escutar o que é que nós estamos aqui neste mundo a fazer e também saber que todos somos humanos. E uma das coisas que eu procuro nas minhas viagens é sempre tentar encontrar em cada pessoa a humanidade da pessoa. Uma das coisas que me marcou bastante foi a viagem que eu fiz, que eu visitei Auschwitz, aqui em Cracó. Na Europa. Onde é que foram os campos de Auschwitz.

Ah, Auschwitz. Ok.

Eu acho que crianças com sete-

Desculpe, era o sotaque novaiorquino, não estava a captar.

Crianças com sete, oito anos não deviam de ir a Paris nem ao Disneyland, deviam de ir a Auschwitz.

Por quê?

Porque eu acho que é uma lição tremenda para as pessoas saberem o que é a humanidade, o que aconteceu e que nunca deverá acontecer outra vez. E se não podem ir ali, podem ir a Washington, podem ir ao museu de Washington também tem lá. Fui lá, esse do Washington, só aguentei duas horas e tive que sair, que já era demais. Aprende-se mais nessas viagens do que se aprende em um livro ou com outras pessoas. Viajar dá-nos a oportunidade de refletir, e eu acho que todos nós temos muita falta de refletir. As pessoas neste mundo, de um dia para o outro, é tudo dia a seguir um, seguir uma coisa a seguir à outra, ninguém tem tempo de parar e refletir. Há um senhor que dá aulas na Kellogg University, que é o Sérgio Rebelo, e que escreveu um livro que é "368 Horas", que é as horas da semana, e ele diz que reflete 15 minutos todos os dias antes de se deitar.

A Domitilia faz isso?

Faço, faço muito isso.

Aproveita também as viagens para pensar?

É isso. Por exemplo, nos aviões eu durmo e penso. Muito raramente vejo filmes e durmo mais, porque para mim dormir é um luxo, e leio livros. Portanto, eu consigo ler dois, três livros por mês, é o meu objetivo. Três, quatro livros por mês. "Como é que você arranja esse tempo?" Porque tem que ir pro avião para dormir. Para dormir e para ler. E para dormir também.

E para dormir, dar um bocadinho, não é? Porque às vezes o corpo também pede. Qual foi a viagem ou qual foi o país mais impactante até hoje, Domitilia?

De beleza?

Não, aquele que provocou em si maior transformação individual.

Etiópia, quando eu fiz o trabalho de Etiópia, voluntária durante um mês, durante uma semana. O país mais bonito que eu tive até hoje é a Nova Zelândia, sem dúvida. Você chega lá à Nova Zelândia e diz, por exemplo, o Table Mountain, na África do Sul também, que você quase pode levantar o braço e toca no céu. Mas quando você chega à Nova Zelândia, diz: "Deus criou este país e ninguém lhe tocou. Está virgem". Uma coisa linda, fabulosa.

Ok.

Mas há tantos países bonitos. Vale a pena viajar.

Falava da experiência da Etiópia.

Foi chocante.

O que viu e o que transformou em si?

Foi chocante porque a Mãe Teresa tinha esquecido de me buscar no aeroporto. Eu cheguei lá à casa da Mãe Teresa, tinha uma sala para pessoas que estavam a morrer de SIDA, tinha uma sala para crianças, tinha uma sala com pessoas tuberculosas e tinha uma sala com pessoas que estavam a morrer. E eu aprendi que a palavra laranja era "portokalia", como Portugal. Então eles gritavam dizendo: "Portokalia!" E eu dava-lhes as laranjas. Todos os dias no portão estavam pessoas com grandes pés, aquelas pinças enormes a tirar os rasgos dos pés. E ver as pessoas morrerem. Numa semana, vi oito pessoas morrerem na minha frente. Eram quatro filas de homens e eu limpava-lhes os pés, limpava-lhes as mãos, dava laranjas, chegava lá ao fim, estavam mortos. "Não, não está morto." "Está morto." Foi assim um choque tremendo durante uma semana.

Para eles era uma grande normalidade. Para si, um fato extraordinário.

Exato, foi a primeira vez. Depois, na sala de tuberculose, onde eles davam grito e pontapés, depois comer comida reciclada da Lufthansa. Os croissants da Lufthansa da primeira classe, o arroz da Lufthansa, era o que nós comemos durante a semana. E eu tenho um grande medo de ratos e a irmãzinha vinha comigo a despejar o trigo e dizer assim: "Olha, Thai, venha cá para tu veres os ratos." Eu disse: "Não, eu não posso ver os ratos". E dormia com os ratos em cima e eu não soube que dormi com ratos durante quatro dias, sem saber que eram ratos.

Uau.

Eu fazia a cama e via aquilo, dizia: "Mas o que é isto?" Então puxei a cama da parede pro meio, por causa dos ratos. Eu tinha um medo imenso de ratos.

De ratos. A Domitilia vem do primeiro mundo, não é?

Não, porque não se esqueça que em Faro eu estou no campo.

Sim.

Eu apanhei alfarrobas, amêndoas, eu tive a terra na frente dos ciganos. Eu sei fechar uma grela d'água, que já não se faz hoje em dia. Sei podar árvores, sei semear cenouras, maçãs, isso tudo. Portanto, eu sou uma camponesa.

Uma camponesa.

Exatamente.

Mas vive há muito tempo nos Estados Unidos.

Desde os 68.

Desde 68. Ou seja, não nega as suas origens, isso é ótimo, mas vive há muito tempo em Nova York, é o primeiro mundo. Às vezes não se vive muito divorciado do que é o mundo da realidade, Domitilia?

Não, porque Nova York tem-

Não estou a falar da Domitilia, estou a falar daquele mundo.

Sim. Porque Nova Iorque é uma cidade como a Lusitana, a cidade nunca dorme.

Nunca dorme.

Exatamente. E é muito diferente de Portugal. Quando eu chego a Lisboa, sinto-me em casa, quando eu chego a Nova Iorque, sinto-me em casa. Os dois contrastes.

Mas sente que nos Estados Unidos há uma grande percepção sobre como é o mundo? Ou há essa consciência?

Não, acho que as pessoas nos Estados Unidos, nos últimos 20, 30 anos, têm mais conhecimentos, porque eu lembro perfeitamente em 1980, eu dizia às pessoas que era de Portugal, ninguém sabia o que era Portugal. E hoje em dia, toda a gente sabe onde é Portugal. Temos 20 mil americanos a viver em Portugal neste momento.

E temos um grande embaixador, não é?

E agora fazemos parte do Security Council das Nações Unidas.

Ah, sim!

Portugal já é bem conhecido nos Estados Unidos.

Somos um membro não permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Espetacular. Domitila, Nova Zelândia é o país mais bonito que viu até hoje. Qual foi o lugar que diz assim: "Caramba, é ali que eu quero ir vezes sem conta, se só puder ir a um sítio"?

Não, porque eu tenho tantos lugares assim. Olha, fiz uma maratona aqui em Portugal, no meio dos eucaliptos, não sei a quantos metros de altitude, e disse ao meu amigo que estava a correr comigo: "Olhe, quando eu estiver doente no hospital em Faro, você desliga-me as máquinas, põe-me numa cadeirinha de rodas, traz-me aqui para cima e deixa-me aqui e vem buscar o fim da tarde". É aqui que eu gostava de acabar, com o cheiro dos eucaliptos, em Portugal. Era ótimo para acabar assim. Mas outros países, não. Eu digo: por que repetir se há tantos países para visitar? Mas repetir, por exemplo, o Japão, já estive lá cinco vezes, mas foram cidades diferentes. Eu não vou sempre ao mesmo lugar, portanto, para mim faz-me confusão ir todos os anos, por exemplo, para um hotel no Algarve. É sempre a mesma coisa, é sempre ver as mesmas pessoas. Eu gosto muito de ter exposição e de ser chocada, portanto, de chegar a um país, não conhecer ninguém e ver pessoas pobres. Chegar a outro país, à Arábia Saudita, e ver o alto da riqueza, os contrastes. Isso para mim é muito importante, porque faz-me crescer, faz-me apreciar a vida mais.

A vida mais. O que as viagens lhe têm ensinado, Domitila de Santos?

Que nós todos somos humanos, que nós todos temos que dar o benefício da dúvida às pessoas. Aprender a ser mais paciente quando os aviões atrasam no aeroporto, aprende-se alguma coisa. E eu, nesse aspecto, sou muito utilitariana, portanto, eu sou capaz de, enquanto três horas, o que eu posso fazer em três horas? Eu posso pagar as minhas contas, eu posso fazer isto, eu posso ler um livro. Portanto, não perco assim tempo e sei gerir o tempo muito bem, bem organizada, como se diz. Nesse sentido, as pessoas perguntam sempre: "Mas desculpe lá, o dia tem 24 horas para mim, mas para si não tem 24 horas, tem 40 horas. Como é que você consegue fazer isso?" E as viagens me têm ensinado muito isso.

Sim, nunca se irritar. É isso.

Não, eu tenho um motto que é: "This too shall pass". Next. Eu não tenho estresse, é like next, ok, next, next. Nada é permanente na vida, passa. E depois eu digo sempre, se alguma coisa acontece, há uma razão para que isso acontece. Eu posso não saber naquela altura, mas daqui a um ano, daqui a um mês, daqui a uma semana, e tenho assim uma espécie, eu acho, de um sexto senso.

Um sexto sentido, sim.

Ontem ainda aconteceu isso no escritório. Estava a pensar numa coisa e disse: "bim!" E se eu não tivesse feito isto ontem, eu não tinha conseguido. E consegui, mas foi uma coisa assim, um toque, é um sexto senso muito afinado.

Muito bem. Vem com a experiência também, não é?

Mas desde pequenina sempre fui assim, uma espécie assim. As pessoas: "Mas você é bruxa ou o quê?" Palpites.

Palpites. Muito bem. Domitila, estamos a chegar ao final do programa. Vamos fazer checkout?

Fazer checkout.

Vamos lá. Então vou pedir lhe para completar as habituais frases: na minha mala vai sempre...

Os sapatos, os sneakers.

Tênis, para correr.

Para correr, sempre.

Qual foi a maratona mais bizarra que fez até hoje?

Mais bizarra?

A Domitila digo que já tem 320 e tal.

Não faço a pequena ideia. Bizarra em sentido da chuva, bizarra de milhas, de quilômetros?

Aquela que recorda mais, mais vezes.

A que recordo mais foi na que eu fiz o melhor tempo em Disney, na Flórida. Fiz o meu melhor tempo.

Ok.

E fiz o melhor tempo porque fui atrás de um senhor que tinha uns calções com a bandeira americana. Estamos a falar em 1996 e eu achei: como é que um homem pode andar com uns calções com a bandeira americana? E foi por causa dos calções dele que eu corri mais depressa, porque eu não me queria perder a vista dos calções do homem.

Fixou a bandeira nos calções do homem, mordeu-lhe os calções e nunca mais largou.

Quando eu alcancei o homem, ele disse: "What's the matter?" E eu disse: "Olha, obrigada pelos calções, porque eu queria saber..." Isto em 96. Hoje nem pensava nisso, hoje era normal.

Ok, muito bem. A viagem com mais peripécias que realizei até hoje.

A que eu descrevi, a do Togo.

Ah, a do Togo.

A do Togo.

Em que se meteu num carro com aquele rapaz.

O carro, o acidente, a camisola, o visto, tudo. Foi uma coisa atrás da outra. Mas muitas, a Etiópia, Ruanda, Namíbia, achei um país fabuloso. Gostei muito da Namíbia, há muitos países. Eu voltaria, mas ainda me faltam muitos países para ver.

Pois.

44.

Faltam-lhe 44?

44, é.

Ok. Mas desses 44, os 44 são difíceis para si, porque tem o green card.

Sim, mas por exemplo, Sudão, Iêmen, nunca vou conseguir chegar lá, por agora. Acho que nunca vou conseguir.

Então inscreva-se numa maratona.

Exatamente. Congo, há uma maratona em Congo, vou fazer essa. Coreia do Norte também, mas essa também não vou fazer, porque depois não entro nos Estados Unidos, mas eu acho que o Congo podia entrar. Somália, Mauritânia.

Se correr a maratona da Coreia do Norte, depois já não pode regressar aos Estados Unidos.

Acho que não se pode regular.

Big problem.

Isso aí também tem que ter alguma prudência.

O carimbo de passaporte ou o visto mais difícil de obter?

Argélia.

Argélia foi difícil?

Argélia, difícil, três semanas. Nos Estados Unidos, em Nova York, fui lá quatro vezes. Conta bancária, fotografia, nunca mais conseguia. A seguir, Índia. A seguir foi Quénia, e qual foi a outra? Se eles querem o visto em Washington, eu não vou a esse país, porque eu não vou mandar o meu passaporte no FedEx. Hoje em dia os vistos já são feitos quando você entra.

Na entrada do país.

Na entrada. No ano passado foi em Djibouti, entrei no avião e depois percebi que não tinha as vacinas. Cheguei lá, nem perguntaram.

Foi?

Foi o risco.

Sempre há de andar.

Foi o risco.

Teve que fazer ali um bypass.

Não, ninguém perguntou.

Omitir que vivia nos Estados Unidos.

Não, ninguém perguntou. Eu tenho sempre passaporte português, ninguém me perguntou. Mas se me perguntassem, eu tirei a ficha das minhas vacinas todas e diz: "Ok". Meta para o colhão.

A recordação de viagem mais cara?

Foi essa do Japão, onde eu comprei os quadros, a joia, os brincos e o colar. Foi a mais cara. Mas também mais recentemente, há dois anos, foi no resort nas Caraíbas, entre Turks and Caicos, e foi em Mônaco.

No Mônaco?

No Mônaco, para a corrida dos carros, a Fórmula 1.

Fórmula 1, sim.

Era para me encontrar lá com um casal e a última hora estava no aeroporto de Lisboa e disse: "Não temos quarto para ti". Eu disse: "O quê?" E tive que pagar uma pipa de dinheiro para ficar no hotel, no Fairmont. Foi caríssima.

Mônaco é tudo caro, não é?

É, tem. Mas esta foi caríssima.

Está bem, não lhe vou perguntar quanto custou.

Mas foi bom.

Então viu a Fórmula 1?

Vi a Fórmula 1 a fazer ginástica, no ginásio, no hotel. E fui conhecer aquela fábrica do Fragonard, dos perfumes.

Sim.

Que eu não conhecia. Adorei. Há sempre coisas positivas, é a maneira de olhar. Eu tento olhar sempre para o copo estar mais cheio do que vazio.

Gosta de olhar para o copo mais cheio.

Há sempre uma coisa positiva, há sempre. Não sei como, mas há sempre uma maneira positiva.

Claro. Deixe-me perguntar-lhe, a Domitila gosta de experimentar tudo? Experimentar tudo é mesmo experimentar tudo, andar na rua sozinha, entrar nos sítios, sempre?

Sozinha, sempre. Mas, por exemplo, nas Maurícias, fui de barco e ia fazer kite. Para fazer kite no mar. E cheguei ao meio do mar e não tive coragem. Tive que "check-in out". Em Palu, a mesma coisa. Vi o senhor lá e disse: "Quanto é que leva?" "50 dólares." "Amanhã venho aqui, se ele levar 30, vou fazer." No dia a seguir: "Não, se ele fizer 20, vou fazer." No terceiro dia fez 20 e disse: "Não faço, tenho medo."

Ok. Kite surf é isso?

Sim, sobe e depois desce sozinho.

Paraquedismo.

Paraquedismo. Mas um dia eu vou fazer. Ainda vou fazer.

Então vamos combinar isso, um dia. Também tem vertigens.

Eu gosto muito de montanhas. Passam, vão passar. Eu queria ser piloto, mas não conseguia. Não posso por isto, por causa disso fico logo assim. Os ouvidos.

Ok. Fica baralhada.

É.

Muito bem. A refeição mais estranha, qual foi, Domitila?

É o Mate, na Casa Cristão.

Ok. O que é que comeu?

Chegou ao hotel, é sempre a mesma coisa. Onde é que é a música clássica, onde é que é a ópera, onde é que é ballet, onde é que é as igrejas, onde é que é o spa, qual é as visitas guiadas, como é que eu posso ter um motorista. À tarde, à noite há um show de belly dancing. Ok. Fiz o show de belly dancing.

A dança do ventre.

Cheguei lá, sozinha, sem tempo, trouxeram uma sopa e eu comecei a comer e disse: "Mas o que é isto?" Ele diz: "Horse meat".

Oh, não.

Comi horse meat sem saber.

Carne de cavalo.

E agora, a mais recente.

Mas era delicioso ou não?

Não, continuei.

Nem sequer.

E agora, mais recente, estive em Ashgabat, que é a capital do Turcomenistão, que eu achei uma viagem perigosíssima. Cheguei lá às 05:00. Perguntaram-me o passaporte, dois em dois minutos. O senhor estava lá à minha espera, com os pés todos brancos, depois dormir no hurt, whatever. Mas foi uma espécie de Togo, também, cada vez mais arriscada.

Gostou do Turcomenistão?

Gostei, mas não para repetir, porque não há pessoas, só há prédios. Há prédios, ruas e paisagens, mais nada, mas não há pessoas, está tudo tapado. Tudo em casa, tudo vestido, mas a cara não está tapada. Muslims.

Islâmicos.

Todos a defender a Rússia.

Pois, é um país satélite.

Mas podres de ricos. Os hotéis baratinhos, 100 dólares, pareciam os hotéis do Trump.

Uau, sério?

Todos chiques. Eu disse: "Olha, eu fico já aqui no hotel." "Não, amanhã tens que ir para outro hotel." E eu mudava sempre de quarto, porque eu acho que os hotéis são todos feitos com tapping da CIA. E então eu dizia: "Eu não quero este quarto, quero aquele quarto. Vou esbaralhar." Eu tenho muitos truques nessas coisas.

Portanto, acha que estaria sob vigilância dos serviços secretos russos? Whatever.

Ya. Eles começam a dizer: "Você fala muito bem português. Você é portuguesa, mas fala muito bem". Eu disse: "Sim, mas eu vivo em Portugal." Fica assim, fica por aí.

Ok. Gostava de viajar com?

Ai, meu Deus, isso é que é tão difícil. Uma pessoa com quem. Gostava de fazer uma viagem com o Papa, gostava de ter viajado com a Mãe Teresa, gostava de ter viajado com a Judi Dench, com o Onassis, com a Helen Mirren. É isso.

Tanta gente, não é?

É, essas pessoas.

Muito bem.

Com objetos, não.

Com objetos, não?

Não.

Podia ser com mais tempo.

E viajar com mais tempo.

Com mais tempo.

Eu gosto de viajar assim, porque é mais pressured. Eu gosto ou não gosto. Posso sempre voltar. O Japão voltei cinco vezes, mas a cidades diferentes. Com mais tempo. Mas não é isso geralmente que eu faço.

Muito bem. Dona Emília, chegamos ao fim.

Obrigada.

Qual foi a música que escolheu para fechar a conversa do fim do mundo desta semana?

Paul Jenkins, The Benedictus.

Muito bem, espetacular. Dona Emília, muito obrigado.

Obrigada eu.

Tenho que agradecer porque aterrou e veio quase direto aqui para falar comigo. Gostei muito.

Obrigada.

Regresse sempre e vamos mantendo contacto.

E tem que ir a Nova Iorque.

Irei seguramente.

Está bom, prometo.

Benedictus a fechar a conversa do fim do mundo desta semana. Estamos de regresso todos os oito dias. Já sabem, sejam bons e boas viagens.