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O Kadhafi durante uns 15, 20 segundos dá uma volta à loja, vem ter conosco e em inglês diz-me: "Então são portugueses, o que fazem aqui?" O engraçado é que nenhum de nós três tinha aberto a boca.

Sejam bem-vindos às Conversas do Fim do Mundo. O viajante desta semana já conhece 111 países. Confessa que os melhores são os mais complicados. O primeiro mundo não o puxa, mas não resistiu às belezas naturais da Noruega. Gosta do imprevisto em viagem, do risco. Já viu o pior que o mundo tem para mostrar e o paraíso tibetano, Shangri- Lá. Vive no Porto, terra de gente calorosa, mas considera que os habitantes do Sudão são os seres humanos mais afáveis do universo. Chama-se Rui Barbosa Baptista, é jornalista, guia ou líder de viagem, como preferirem, e em viagem conheceu ou cruzou-se por mero acaso com um dos presidentes africanos mais polémicos do século XX. Rui, bem-vindo às Conversas do Fim do Mundo.

Obrigado, João.

Vamos começar por aqui. Em 2005 estavas em viagem na Líbia.

Não, não foi na Líbia, foi na Tunísia, curiosamente.

E quem é que aparece à tua frente?

Muammar Kadhafi. Olha, foi uma situação engraçada, que foi no último dia de férias. Estou em Hammamet, numa Medina turística, estou eu e duas amigas, a loja está vazia e de repente começam a entrar uns cameramen, uns seguranças e como a loja era num piso inferior, começo a ver uns sapatinhos, a jelaba, a vestimenta, começo a ver quem é a figura e subitamente é o Kadhafi. Obviamente, tento logo pegar na máquina fotográfica da minha amiga para fazer um registo.

Portanto, percebeste logo que era o Kadhafi.

Exato. Pois, é fácil. É uma das figuras mais midiáticas da história do século XX. Ele mete uma mão no braço do segurança, não me deixa fotografar e disse: "Tenha calma." Perguntou-me se eu queria falar com o presidente. Eu: "Naturalmente, presumo bem." O Kadhafi durante uns 15, 20 segundos dá uma volta à loja, vem ter conosco e em inglês diz-me: "Então são portugueses, o que fazem aqui?" O engraçado é que nenhum de nós três tinha aberto a boca.

Como é que ele sabia?

Como é que ele sabia, não faço ideia.

Kadhafi sabe tudo.

Exatamente. O que é certo é que estivemos ali sete, oito minutos numa conversa amena, supersimpática, e ele conhecia muita coisa sobre Portugal. O Porto tinha sido campeão europeu no ano anterior. Falamos de futebol, falamos do vinho do Porto, falou-me do seu desejo de vir conhecer Portugal. E o engraçado é que no fim virou-se para nós: "Bem, presumo que querem uma foto juntos." E eu: "Claro, presumo muito bem." O fotógrafo oficial dele tirou a fotografia e ele perguntou-nos o hotel para entregar a foto no dia a seguir. Como nós viajávamos de madrugada, não havia esse espaço temporal. E ele: "Se tiver a gentileza de me dar a sua morada."

O Kadhafi pediu a tua morada para te enviar uma fotografia.

Exatamente. Eu tinha mudado de casa há meio ano e é uma vergonha dizê-lo, mas ainda não sabia a minha morada de cor. Então demos a morada de uma amiga minha que passado duas semanas recebeu uma notificação dos correios, foi lá e tínhamos lá três fotografias em tamanho A4 com nós com o Kadhafi, sendo que houve a particularidade de ser um envelope branco e sem qualquer mensagem. Ou seja, não sei a que título os correios abriram, retiraram tudo o que havia e entregaram apenas um envelope branco com as três fotografias. Mas ao menos o Kadhafi tirou fotografia conosco e teve a amabilidade de nos mandar.

Ficaste com que impressão do Kadhafi, desse encontro?

Ele não tinha necessidade nenhuma de estar ali a agradar a três estranhos, porque eu por acaso sou jornalista e ele não fazia a mínima ideia.

Estamos em 2005, muito antes da chamada Primavera Árabe.

Exatamente.

Ou seja, este contexto serve para dizer que ele até poderia estar a fazer uma operação de relações públicas com os pobres turistas portugueses, mas quer dizer, na altura ele nem sequer precisava disso.

Exatamente. Não era caso. Uma pessoa extremamente afável, simpática, culta, interessada e parecia uma pessoa normal como outra qualquer. Não estava altiva, nada a apontar-lhe.

Sentiste-te intimidado pela presença da figura Kadhafi?

Não. Confesso que foi uma surpresa daquelas. Obviamente, tu estás ali a olhar para artesanato, que era aquilo que eu queria comprar, e de repente aparece-me ali o Kadhafi, não é propriamente aquelas coisas que estás à espera. Mas não, até porque a postura dele também foi de humildade, de igual para igual. Ou seja, ele não se pôs na pose de figura de Estado. Não, era como se fossem dois estranhos que acabaram de se conhecer e tiveram uma conversa normalíssima.

O que ele estava a fazer na Tunísia?

Percebi que havia uma cimeira internacional, agora já não me recordo de quê. Mas apareceram dirigentes de todo o mundo. Foi em Tunes, mas ele deu lá um salto à Hammamet e coincidiu com a nossa presença.

E comprou alguma coisa o Kadhafi?

Depois daquela conversa, confesso que não sei, mas pelo menos comprou um pouco mais a vontade de vir a Portugal e eu sei que ele veio passado dois anos, salvo erro, em 2007. Acho que ele esteve cá e cumpriu o tal desejo, que inclusivamente acho que montou uma tenda berbere.

Ali ao largo, perto do Rio Tejo.

Exato.

Rui, é esse imprevisto que te seduz no mundo das viagens?

Acima de tudo é o imprevisto, porque hoje em dia a nossa rotina, somos escravos do relógio, das horas, de tudo. Para teres uma ideia, a menos que eu organize uma viagem, aí que sou responsável por outras pessoas, eu nunca marco absolutamente nada. Se chego à noite, marco a primeira noite, caso contrário, não. Porque o imprevisto tem-me levado aos melhores sítios, ou seja, tem-me feito também perder algumas coisas interessantes, mas acho que ganho muito mais do que aquilo que perco, desde pessoas, desde lugares. O facto de não haver um roteiro, uma rota e ter essa capacidade de mudar o meu destino neste segundo Enquanto estou bem aqui, ótimo. Quero sair? Não estou preso porque paguei mais duas noites ou porque tenho mais uma noite. Não. Siga para bingo e arriscar sempre.

Tu já conheces 111 países. Qual é a percentagem desses 111 que conheces em lazer e em trabalho? Porque és jornalista, suponho que muitos deles tenhas conhecido em contexto profissional.

Mas uma minoria, devo dizer-te.

Portanto, és um jornalista pouco viajado, mas um viajante muito jornalista.

Exatamente. Em trabalho, obviamente, tive a oportunidade de conhecer uns 30 países, alguns voltei visitar, outros não, mas a esmagadora maioria é de minha iniciativa, portanto são as minhas férias, folgas, trocas. Eu sou um engenheiro, o melhor engenheiro do mundo a conjugar tudo isso para poder usufruir o maior número possível de dias por ano.

Quantos dias viajas por ano? Tens ideia?

Posso dizer que nos últimos três, quatro anos ou mais, não sei, mas tenho conseguido gerir entre viagens a trabalho e lazer, porque muitas vezes aproveito e faço, tenho ficado às vezes três, quatro meses fora do país.

É bom.

É bastante bom. Aliás, a minha contabilista brinca comigo a dizer que se eu continuar neste ritmo, deixo de pagar impostos em Portugal, o que seria excelente. Ela até mandou o artigo, são 150 e tal dias, acho eu, o mínimo para termos de pagar impostos cá.

Estás à beira de ser considerado um residente estrangeiro. Porque dizes que o povo do Sudão é o povo mais afável do universo?

O do Sudão é um dos mais afáveis do universo. Eu escrevi uma crônica a chamar-lhe isso, mas seria injusto para com os iranianos, apesar de tudo, se não os metesse em primeiro lugar. Aliás, eu sei que as pessoas gostam de listas, rankings, pódios, etc. Eu não sou muito disso, mas o Irão, ainda assim, os iranianos, são um povo incomparável neste planeta.

Por quê?

É um povo extremamente afável, altruísta, amigo, culto e que faz tudo pelos outros. E é um povo que está a ser profundamente injustiçado pela comunidade internacional. Nós fechamos os olhos à realidade, somos intoxicados diariamente pelo que vemos nos mídia, na televisão. Só pra teres uma ideia, eu sou jornalista e prescindi de televisão em 2010, porque estou farto de comer lixo.

Mas essa afabilidade dos iranianos, que há vários viajantes que a sublinham, isso acontece porque eles são intrinsecamente assim?

São.

Ou porque eles sabem que o mundo tem uma má imagem deles e portanto tentam contrariar essa imagem?

João, eu já lá fui duas vezes, a última este ano, e as pessoas que foram comigo iam com o nariz torcido. Em 24 horas renderam-se ao país e às pessoas, porque tu vês tudo. Imagina, eu logo no primeiro dia, este ano, peguei em dinheiro num sítio pra comprar água e deixei mesmo bastante dinheiro, umas centenas de euros, em cima da mesa e desapareci. E passado cinco minutos, o senhor vinha ofegante encontrar-me e não faltava uma nota. Eu nem sequer conferi, obviamente, mas quem teve esse tipo de gesto. E situações destas, de altruísmo, é o pão nosso de cada dia. O Sudão são pessoas fantásticas, superafáveis, uma série de pessoas que nem calçado tinha. Pagaram-me cafés, chás, arranjavam tradutores pra conversar comigo. O único problema é essa questão da comunicação. Enquanto o iraniano fala muito melhor o inglês e é um povo extremamente culto, no Sudão não tem a mesma cultura, não tem a mesma facilidade de comunicação, mas tem um coração do mesmo tamanho, digamos assim.

E a afabilidade nota-se como no Sudão?

Em tudo. Imagina, numa cidade no fim do mundo, andar sob as estrelas às duas da manhã e param vários carros. Normalmente, uma pessoa pensa: "No meio do Sudão, aquilo que vai acontecer é vão assaltá-lo". Não, era as pessoas preocupadas comigo: "Está tudo bem, estás perdido, precisas que te leve a algum lado?" No meio de Sudão, percebes? Ando num mercado e são as pessoas que querem tirar fotos conosco, que nos oferecem comida, que nos oferecem tudo o que podem. Ou seja, têm pouco e dão-nos tudo aquilo que têm, ao contrário do nosso mundo ocidental, que temos muito e pra darmos um bocadinho, é o cabo dos trabalhos.

Tu dizias-me há pouco, antes de começarmos este programa, que em contexto de viagem, já estiveste quase pra morrer. Conta-me essa história. Foi onde? Foi no Laos?

Foi no Laos. O Laos abriu ao turismo, salvo erro, em 2004, e eu fui lá em 2006, ou seja, eles ainda não estavam propriamente preparados, as regras de segurança não são muitas. Pra teres a ideia, eles não queriam virar uma segunda Tailândia. E então duas das regras que eu me lembro que via em todos os sítios, os hosts onde ficava, uma era: proibido dormir com alguém que não fosse o seu cônjuge. Mas isso tinha mais a ver com os locais. E a outra, que esta sim, mais séria e triste, era: proibido realizar filmes pornográficos com menores, por causa do turismo sexual na Tailândia. Aquilo que aconteceu foi: eu decidi, com dois amigos, fazer uma descida de caiaque de um rio. Vamos descontraídamente, eu vou num K2, que é um caiaque com dois lugares, eu vou atrás. E aquilo que acontece é que havia duas inglesas, cada uma a pesar mais de 100 quilos, que iam no mesmo caiaque, e eu ia mais ou menos olhando pra elas. Sendo que o grupo foi espalhando, o primeiro guia foi à frente do grupo e o segundo, em vez de vir a fechar o grupo, vinha à frente das miúdas. Eu olho pra trás e vejo as miúdas na água À distância que estavam, cerca de 100 metros, eu não sabia se estavam a afogar ou não. O caiaque junto à cabeça, eu viro-me para trás. Eu e o amigo começamos a fazer gestos para o guia que vinha a meio do caminho, tranquilamente entre nós, até que ele percebeu aquilo e eu ouço um palavrão do meu amigo da frente, que fica cortado ao meio, faço duas piruetas e caio projetado nuns rápidos, ou seja, bati numa pedra e, azar dos azares, entramos nuns rápidos. Como eu estava sem colete salva-vida, achei que aquilo era um dia soalheiro, tranquilo, sem problema algum. Atenção, porque nós às vezes facilitamos. Entrei nos rápidos, eu não sei quantos segundos foram, mas eu tive aquela consciência do: "É agora, então é isto". Bati com as pernas em todo lado, fiquei cheio de escoriações e quando finalmente consigo respirar, foi como renascer. Não tive tempo para saborear isso, porque eu deixei de ver o meu amigo. Eu pensei que lhe podia ter acontecido alguma coisa.

Esse episódio de perigo e sequer algum exagero, quase morte no Laos, reforçou a tua teoria de que os melhores países são os mais complicados ou não?

Sim, claramente. Posso dizer que aquilo foi uma adrenalina tal. Aconteceu-me uma coisa que nunca experienciei na vida. Eu à noite estava no quarto.

Ainda no Laos.

Desligo as luzes nessa mesma noite. Eu fechava os olhos, eu estava a imaginar como ia escrever a história, eu estava a ver a história, as vírgulas, estava a mudar tudo de sítio. Foi uma experiência que eu nunca-- eu estava completamente alucinado com uma adrenalina incrível. No dia a seguir pensei: "Não, ok, de manhã não vou acordar os meus amigos. De manhã, quando vou escrever, é o mesmo que veio uma onda, apagou tudo e 80% das recordações lá foram". Quando vivemos situações dessas, a regra é: escreve o quanto antes, toma notas, porque realmente as experiências ficam com as sensações mais à flor da pele.

Países como a Suíça, a Noruega, a Finlândia não estão na tua shortlist dos destinos favoritos?

Não, gosto muito da Europa, mas posso dizer-te que raramente aceito desafios para ir para a Europa, porque por haver um bocadinho mais do mesmo, prefiro ir para o belo interior português, que temos aldeias fantásticas, com pessoas incríveis e comida fabulosa, aliás, como podes ver. Prefiro estar na pacatez de Portugal do que ir para sítios que não puxem tanto por mim.

Também puxa por ti, Portugal ou não?

Claro. Aliás, deixa-me dizer-te uma coisa que é engraçado. Um dos motivos pelos quais viajo, eu acho que um dia quero acabar os meus dias num sítio relaxado, porreiro, interessante e então vou fazendo mentalmente uma lista, mas cada vez que viajo mais, mais me convenço que afinal o fim dos meus dias vai ser cá mesmo, no interior português. Não numa cidade, mas no interior português.

Por quê?

Primeiro, as nossas raízes não deixam de estar cá, mas nós somos um país com pessoas fantásticas, que merece um bocadinho mais e melhor da classe política, de quem nos vai governando ao longo destas décadas. Mas são os nossos sabores. Temos uma gastronomia que é única, temos paisagens divinas, temos uma diversidade incrível e há realmente muitas coisas a puxar-me para ficar cá.

Estamos à conversa com Rui Barbosa Batista, o viajante desta semana. Já a seguir: Álbum de Viagem. Rui, dos 111 países que conheces, trouxeste de algum desses países um objeto que ainda hoje te toque ou que sintetiza os teus mais de 20 anos a viajar?

João, deixa-me dizer-te uma coisa. Quem for à minha casa, e estás convidado para um dia, quando fores ao Porto, vais lá.

Obrigado.

Eu não tenho nenhuma peça de decoração comprada em Portugal. São tudo memórias de viagens e eu recordo-me onde comprei cada uma daquelas coisas. Sobram-me recordações.

Já sabem, amigos do Rui Barbosa Batista, ele está a precisar de um galo de Barcelos na cozinha.

Basicamente, aquela que eu escolhi não são castanholas, apesar do som.

É o quê?

Isto são duas rudimentares colheres de pau, como podes ver, que trouxe este ano do Irão. E a história é simples. O Irão, eu tinha ido lá a primeira vez há uns três anos, um país fantástico, como eu já disse, e com preços muito aceitáveis para nós. Voltei lá este ano e fiquei chocado com aquilo que vi, desde fazer quase uma hora de táxi e pagar €2, desde comer em palacetes por €3, €4. Obviamente, com as sanções decretadas pelos Estados Unidos, quem mais está a sofrer é o povo, não é propriamente o governo e os governantes. Estava em Isfahan, que é uma cidade incrível e num dos mercados mais fantásticos do mundo. A zona central, obviamente, não perde turismo e todos eles vão mantendo os negócios, mas nas zonas mais periféricas, digamos assim, no mercado, essas pessoas sentem muito. Então passei por uma lojinha em que estava um senhor que não falava inglês, mas fazia uns aviãozinhos em madeira. Com a ajuda de uma miúda, traduziu-me ali uma pequena conversa e então mesmo não tendo espaço na mochila, resolvi comprar-lhe um aviãozinho de madeira. Quando percebi que ele me estava a pedir depois à volta de €1 por aquele avião. O facto de eu lhe comprar aquilo, ele ficou tão entusiasmado que me deu estas duas colheres de pau. E o valor simbólico daquilo, ou seja, eu dei-lhe algo que é nada, dei-lhe o preço de um café, ele ficou tão sensibilizado e deu-me estas duas colheres de pau, que as tenho lá religiosamente guardadas e uso-as, porque assim sempre que lhes toco, lembro-me desse senhor.

São pra ti a materialização da gratidão iraniana.

Exatamente, é mesmo isso.

Estamos à conversa com Rui Barbosa Batista, que já conhece 111 países. Na segunda parte, vamos saber o que liga este português ao Bangladesh. Até já. Segunda parte das Conversas do Fim do Mundo. Esta semana com Rui Barbosa Batista, viajante, blogger, jornalista e empreendedor social. Rui, já visitaste 111 países, um deles foi o Bangladesh, onde viste com os teus próprios olhos a realidade do povo Rohingya. Que projeto tens neste país que me permitiu te catalogar como empreendedor social?

Eu sou empreendedor social primeiro porque sou voluntário numa IPSS portuense centenária, que é a Cooperativa de Solidariedade Social do Povo Portuense. Mas essa questão do Bangladesh, Nomad, que é uma agência de viagens aventura, tenho uma bolsa de exploração anual que premeia projetos que tenham impacto social, impacto positivo na sociedade. E eu e o Luís Otávio Costa, que é meu colega e jornalista do Jornal Público no Porto, apresentamos um projeto de fazer um trabalho sobre o quotidiano dos refugiados Rohingya no Bangladesh, refugiados que vêm de Myanmar. Fomos lá em fevereiro, estivemos lá uma semana, uma semana bem dura, deixa-me dizer, a todos os níveis. E agora aquilo que está a ser feito, além do Otávio ter feito trabalhos para o Público e eu para a Lusa, está a ser feito um megasite com textos, fotografia e vídeo. Temos tido algumas conversas, conferências, talks, aquilo que lhe queiras chamar, em alguns sítios onde somos desafiados a falar sobre essa experiência.

Portanto, vocês estão a dar a conhecer a realidade deste povo que é o mais perseguido da África.

É a minoria étnica mais perseguida do mundo. São palavras da ONU, é um genocídio, e estamos todos simplesmente a assobiar para o lado e ninguém se preocupa muito com isso.

Quando é que esse projeto vai ver a luz do dia?

Essas conversas vão decorrendo um pouco por todo lado, ou seja, desafios que nos façam. A parte do site, essa parte mais institucional, eventualmente no início de 2020. É um projeto que envolve muita tecnologia e vai devagar.

Pensas regressar ao Bangladesh por causa deste projeto?

Sim, seguramente, porque foi uma experiência incrível, fantástica, e acho que é importante, tanto no Bangladesh como noutros sítios, também dedicarmos o nosso tempo. E se eu tenho essa possibilidade, sendo eu jornalista, se puder aliar às viagens causas que de alguma forma defendam os interesses ou transmitam a mensagem de um povo, é melhor ainda. É uma viagem que dá um duplo prazer. E nesta situação, o que vi é mau demais e como tal, certamente penso lá voltar.

É o pior do mundo, como eu disse na introdução deste programa, na primeira parte?

Sim. Eu um mês antes tinha estado em Kibera, no Quénia, que é a maior favela da África, e foi algo realmente muito mau em termos de condições. Mas depois, quando chegas a um sítio onde chegaram 750 mil pessoas no espaço de mês e meio, dezenas de milhares de crianças que chegaram órfãs, sem ninguém. Quando tens 1,2 milhão de pessoas confinadas a um espaço de poucos metros quadrados, em que a única coisa que lhes é dada é óleo de palma, arroz e lentilhas, que estão proibidos de trabalhar, proibidos de aprender a língua do Bangladesh, proibidos de viajar, proibidos de estudar depois dos 14 anos. Tens ali jovens que muito provavelmente daqui a 30, 40, 50 ou toda a vida não vão sair daquele campo, daqueles metros quadrados. Uma coisa é ler, ver e depois mudar de canal, outra coisa é ir lá, estar lá uma semana a experienciar, ouvir aquelas histórias e a chocar-nos com cada palavra que ouvimos.

O que te atrai nesses locais? Não era mais fácil viajar para um país e ver o bom, o belo e o bonito, os monumentos, os melhores restaurantes, ficar instalado nos melhores hotéis?

Eu sei que vai haver muita gente, ou algumas pessoas que não vão gostar muito daquilo que eu digo, mas para mim ser blogger ou instagramer e andar pelo mundo a tirar fotografia, agora com óculos de sol, agora sem óculos, agora à esquerda, à direita, etc. Eu acho isso demasiado vazio, é ligar demasiado ao umbigo e pouco ao planeta. Eu gosto mais do mundo tal como ele é e não do: "Olha eu no mundo". Eu não sou a estrela, eu não sou a figura das minhas viagens. Aquilo que eu procuro transmitir, seja no blog, seja no Instagram do Born Free, é o mundo realmente como ele é. Pouco interessa, eu não sou ninguém. Aliás, nem os meus pais me veem nas redes sociais, portanto, não imagino que interesse possa ter para as outras pessoas a minha vida noutros sítios.

Quero falar do teu percurso como viajante. Tu tens 48 anos.

48.

Já visitaste 111 países. Nesta história de duas décadas de viagens, há aqui uma progressão de maturidade, ou seja, tu no teu caso, por exemplo, és hoje um viajante mais maduro do que eras no início da tua carreira como viajante profissional?

Sim, é assim. Não sou profissional, sou um viajante apaixonado. Basta isso.

Está feita a correção.

Eu quando comecei a viajar, obviamente que era aquele deslumbre e às tantas também entrava um pouco o "prêu": "Olha eu aí, olha eu acolá". Era giro esse tipo de partilhas, mas Às tantas estava mais centrado em mim do que nos outros e percebi que se isso acontecer, vou receber muito menos dos sítios por onde vou. Para teres ideia, eu a primeira vez que fui a Montevidéu, estava com dois amigos.

No Uruguai?

No Uruguai, exatamente. E encontrei-me num banco de jardim e começo a falar com quatro velhinhas de 70 e tal, 80 e tal anos. E a conversa estava tão interessante, cinco minutinhos, os meus colegas: "Olha, Rui, temos de ir, temos muito pra explorar". Eu: "Fazemos assim, encontramo-nos no hostel à hora X". Eu passei quatro ou cinco horas com aquelas velhinhas, que passavam a vida a querer mandar-me embora pra ir conhecer raparigas bonitas do Uruguai. Eu aprendi muito mais sobre aquele país naquelas quatro, cinco horas de conversa, sobre as senhoras, sobre as suas vidas, etc, do que se tivesse a ver um monumento, tirar fotografias, a andar, a ver restaurantes, etc. As pessoas são e continuarão a ser sempre o número um daquilo que me atrai nos países.

Mas obviamente não viajas da mesma maneira hoje que viajavas há 20 anos.

Não.

Ou não procuras hoje, digo eu, não sei, desmente-me se estou enganado, mas não procuras hoje o que procuravas há 20 anos.

Claro, não, é exatamente o contrário. Há 20 anos preparava melhor as viagens. Agora não preparo de todo. Sei o ponto em que entro, sei o ponto onde saio, sei duas ou três coisas que quero ver pelo meio, e depois vou-me orientando. Há 20 anos, provavelmente andava à procura desse bonito, que continuo a procurar, obviamente. Eu também não sou masoquista, eu não ando só à procura daquilo que é mau. Mas para teres ideia, vim agora de uma viagem da África. Onde é que eu posso encontrar, como no Senegal, por exemplo, estou numa aldeia piscatória em que no mesmo espaço convivem pescadores, pelicanos como animais de estimação, cordeiros, porcos a entrar a sair de casa, etc. Eu pus umas fotos no Instagram e pessoas pensavam que aquilo era montagem. Não, aquilo é real, tu estás ali. Portanto, se nós só andarmos nos resorts, nas coisas bonitinhas, tudo azulinho, bonito, etc, não encontramos nada disto.

Qual foi a paisagem mais deslumbrante que viste até hoje?

No hemisfério norte, há várias na Islândia, que tem paisagens dramáticas, mas ainda assim, a minha grande dúvida é entre a Patagónia e a Terra do Fogo, na Argentina, onde já tive o prazer de ir duas vezes, e a Ilha Sul da Nova Zelândia. São paisagens praticamente intocadas, o homem ainda não teve tempo de destruir aquilo.

São similares?

São. As paisagens são muito similares. Tens glaciares, tens montanhas abruptas, tens uma diversidade de fauna e de flora incrível. Ao contrário de Portugal, que temos a cultura do eucalipto, que as pessoas ainda não perceberam que lá no horizonte a coisa nos vai correr mal.

Olha, 111 países. África continua a ser no teu mapa-mundo o continente que tem mais buraquinhos por preencher.

Exato.

E reparei que nunca foste à Angola.

Não.

Há alguma razão especial? Eu não estou aqui a defender Angola, mas por acaso saltou-me à vista, que é o maior país do PALOP.

Exatamente. Já estive por aí várias vezes, mas deixa-me dizer-te uma coisa então. Como eu felizmente tenho tido a oportunidade de ir a todos os sítios que desejo, eu tenho alguns fetiches que insisto em manter no horizonte. Para teres uma ideia, o meu fetiche desde criança é o Quirguistão. E ando a adiar ano após ano, por quê? Eu não quero visitar todos os países que desejo para depois só me sobrarem aqueles que não têm piada nenhuma, alegadamente. Ou seja, Angola está num desses países que tenho muita curiosidade, cada vez mais curiosidade, e estou à espera dessa oportunidade, mas acredito que nos próximos dois anos, Angola terei o privilégio e o prazer de a visitar.

Portanto, temos de dizer que vais deixar o melhor para o fim, é isso?

Exatamente. Sempre te peço falésias.

Quais são os países que estão agora no teu horizonte? Queres nos falar do teu futuro como viajante? O que é que já tens aí na manga?

Olha, eu nem sei se te deva dizer isto, porque se algum editor estiver a ouvir, estou em sarilhos. Pode ser que vou pro México e pra Guatemala agora em breve, levo um grupo de amigos. Esta semana mesmo, há dois dias, abriu o turismo na Arábia Saudita. Acabei de pedir pra abater duas folgas em atraso, portanto, vou à Arábia Saudita até o fim do ano. Em janeiro, vou à Tailândia, em trabalho do blog. Em fevereiro, tenho previsto, eu não sei se deva continuar a falar isto.

Continua.

Sem meter meses, depois vou ter a Mauritânia, fazer o comboio de ferro. Vou à Colômbia novamente, vou voltar à minha Colômbia, irei à Síria e pronto, é mais ou menos isso. E há uma, é a única que está na dúvida, que é também a convite, que é ir à República Dominicana e ao Haiti.

Muito bem. Tens consciência de que a maioria dos nossos ouvintes estão a pensar nesta altura: "Pois eu, se calhar, vou à terra no Natal".

O que é ótimo. Eu não dispenso também a terra no Natal.

Olha, Rui, como é que tu planeias as tuas viagens? É por oportunidade, é pelo preço? Fixas um objetivo, determinas um objetivo, como é que é?

Não, olha, felizmente é pela vontade. Há uma regra que eu tenho. Eu tento ir alternando os continentes por um simples motivo, que é para não ir duas vezes seguidas a um registo muito similar. Vou agora à Ásia, depois irei a outro país asiático, que provavelmente a realidade pode não ser tão diferente. Saboreio muito melhor se meter uma África ou uma América do Sul pelo caminho. Às vezes, é questão de oportunidade, para teres ideia. Há pessoas que relaxam de 1001 formas e eu quase todos os dias ligo um pesquisador de voos e às vezes surge uma oportunidade e é mesmo por impulso Foi assim que eu fui por € 221 ao Japão.

Uou!

Percebes? Às vezes é essa questão da oportunidade, outras vezes é vontade, outras vezes é desafio ou cruza um artigo à minha frente e eu: "É isto!". É muito de impulso.

111 países, já aqui o disse várias vezes, duas décadas como viajante. Quando é que sai o teu livro "Viagens"? Vai haver livro?

Vai haver livro, aliás, porque senão há vários amigos que deixam de me falar se eu não avançar com isso. Posso dizer que já vou a dois terços e acredito que eventualmente no fim do primeiro trimestre de 2020, finalmente será uma realidade.

Já tem título?

Não. Não tem título, curiosamente. Já estive a pensar nisso, mas é complicado. Vai ser basicamente não falar sobre os destinos, mas todo o tipo de experiências que podemos encontrar em viagem, ou seja, desde fronteiras complicadas, transportes caricatos, as situações em que pode correr mal, pessoas inspiradoras e esse tipo de diversidade, de riqueza que eu fui absorvendo um pouco por todo o mundo.

Tu segues pessoas inspiradoras? Segues outros viajantes?

Não.

Não segues.

Eu não tenho tempo. Eu sei que não devia dizer. Há um ou outro amigo, obviamente, das viagens vou espreitando, etc, mas eu não tenho tempo para seguir ninguém.

Nem mesmo aqueles estrangeiros?

Não.

Que têm grandes máquinas de produção em torno deles, nada.

Não. Nada disso, passa-me à large.

É legítimo. Estamos a chegar ao fim da conversa do "Fim do Mundo" desta semana com o Rui Barbosa Baptista, viajante há mais de 20 anos e já com 111 países visitados. Rui, preparado para fazer check-out?

Vamos nessa.

O check-out consiste em completar meia dúzia de frases. Bom, vamos levantar voo. Rui, na minha mala vai sempre...

Vai sempre, acima de tudo, um espírito aberto, uma vontade de interagir o máximo possível com os locais e uma humildade sem limites para perceber que provavelmente vou mais para aprender do que para ensinar. Não há nenhum objeto, tirando o passaporte, que leve duas vezes, tirando a pasta de dentes, obviamente, mas não há nenhum objeto.

O óbvio habitualmente é a máquina fotográfica.

Pois, como eu sou um desastrado de primeira, é mesmo o telemóvel. É só isto.

Já te aconteceu viajar sem forma de captar imagens ou não?

Já. Nos últimos anos, confesso que não, até pela questão do blog.

Do telemóvel.

Exatamente. Eu confesso que o meu interesse pela fotografia começou a surgir mais ou menos nos últimos dois anos, precisamente pelos meus amigos que eram naquela: "Tens sítios fantásticos, vais a sítios incríveis onde ninguém vai, tens fotografias que são uma chacha. Compra uma máquina em condições, um telemóvel de jeito, etc". E pronto, há dois anos comprei um telemóvel minimamente aceitável.

Muito bem. A viagem mais difícil de realizar até hoje foi?

A Etiópia foi uma experiência gira, porque eu tinha feito Uganda, Ruanda, Burundi, depois dei um salto ao Quénia e fui pra Etiópia, nessa parte com dois amigos. Entretanto, fiquei sozinho três semanas, fui à Depressão Danakil, que é a zona mais quente do planeta, estive a dormir cinco dias ao relento, uma experiência fantástica, e depois andei duas semanas pelo norte da Etiópia, que é muito primitivo e é complicado. Todas as manhãs eu tinha que lutar com 50, 100 pessoas para entrar numa Hiace de nove, onde chegamos a ir 27. Sim, percebes? Ou seja, posso te dizer que eu nessas três semanas perdi cerca de 6 kg e portanto estou a precisar de voltar à Etiópia.

Portanto, se quiser perder peso, uma viagem numa Toyota Hiace com 27 pessoas lá dentro.

Exatamente. Parecia um concurso, mas não, é o dia a dia.

A viagem com mais peripécias que fiz até hoje foi essa.

Sim, provavelmente sim, porque aquilo era a cada minuto acontecer sempre imprevistos, coisas novas. Depois eu não levava tecnologia, nunca sabia muito bem no mapa onde é que estava, depois achava que já tinha chegado e pensava que não, afinal ainda ia ter umas 10 horas de viagem. Fantástico!

A refeição mais estranha que comi?

As várias mais estranhas que comi foram na China. Eu já lá estive quatro vezes. Essencialmente depois dos Jogos Olímpicos de Pequim, que tive o privilégio de fazer a cobertura noticiosa, andei um mês pela China e eu levava só um papelinho que dizia: "Não quero cão, não quero rato e gosto de vegetais". Dizia apenas isso. Portanto, houve uma série de coisas que eu comi, que até hoje não sei, porque as pessoas não falavam inglês. Portanto, eu via, umas gostava, outras não, mas confesso que houve muita coisa que eu não sei se era animal, se era vegetal, pelas texturas realmente exóticas e esquisitas.

Mas tens assim alguma suspeita?

Eu acho que uma vez comi cobra, acho que aquilo era cobra, pelo que me disseram. Já comi crocodilo, uma vez comi uma espetada na Namíbia que tinha assim uma série de carnes exóticas, mas ultimamente tenho tido uma consciência ecológica um pouco mais desenvolvida e então a carne está praticamente a desaparecer da minha dieta.

A recordação ou experiência de viagem mais cara?

Mais cara? Quando fui cinco semanas para a Austrália e para a Nova Zelândia, não foi uma situação barata. Foram alguns milhares de euros. Tive uma refeição, que essa sim foi a mais cara, que foi à volta de €500, mas felizmente tenho um amigo que tem umas posses incomparavelmente superiores às minhas e essa refeição foi a convite desse amigo. Eu só consegui saber uns dias depois o valor da refeição, que ele teve a gentileza de não me deixar saber.

Comeram o quê?

Foi cá em Portugal. Foi peixe, e até nos ofereceram a comida, só pagámos as bebidas. Tinha sido um vinho que tinha ficado em primeiro lugar no Wine Spectator e foram duas ou três garrafas. Abrimos com um champagne, que eu nem sou propriamente um apreciador, e terminamos com um Tokaj. Ele é conhecedor de vinhos e é alguém que viaja pelo mundo para conhecer restaurantes e foi uma prenda justa para com o seu amigo.

Rui, gostavas de viajar com, para fechar este checkout?

Com a Maria das Dores. Já ouviste falar da Dona Mariazinha? É a minha mãe.

Nunca viajaste com a tua mãe?

Viajei uma vez e estou mortinho para viajar mais. E viajei apenas no Douro. Fui três ou quatro dias com a minha mãe. Devido a uma série de questões, é um bocado complicado ela vir comigo para o estrangeiro. A minha mãe acho que ainda é melhor viajante do que eu. Eu se não tenho olho nela... A minha mãe fala com toda a gente, inclusivamente com pessoal estrangeiro, mesmo sem falar qualquer língua, fala com os portugueses, experimenta isto, experimenta aquilo, ou seja, eu tenho de ter mão nela, porque ela tem um espírito de curiosidade, de exploração, de entrega, de ajuda, que a minha grande curiosidade é ter essa experiência de ir lá para fora para um desses países que mais me cativa e levar a minha mãe.

Portanto, é bem provável que se a tua mãe estivesse contigo em 2005 na Tunísia, quando apareceu o Kadhafi, o Kadhafi acabasse aquela conversa de sete minutos a convidar a tua mãe para jantar.

Provavelmente.

Muito bem, está feito o checkout com o Rui Barbosa Batista. Rui, agora sim, chegámos ao Fim do Mundo. Como sempre, a honra de fechar o programa é tua. Que música trouxeste?

Antes de dizer qual foi a música, apenas dizer que esta música tem um significado. É uma história de amor, não entre mim e uma mulher, mas entre mim e um país que é a Colômbia. Posso dizer que na minha idade adulta, o único período mais negro, mais cinzento que tive, acabei por tomar a decisão de fazer uma viagem de urgência e essa viagem foi à Colômbia, onde encontrei pessoas verdadeiramente incríveis. Aliás, junto a Colômbia, ao Sudão e ao Irão, como as pessoas mais encantadoras deste planeta. Indo direto à tua pergunta, a música é do Juanes e chama-se "La Vida es un Ratico".

Muito bem, "La Vida es un Ratico", de Juanes, a fechar o programa desta semana. Já sabe, partilhe as suas fotos de viagem no Instagram com a hashtag #conversasdofimdomundo e #radioobservador. As melhores são colocadas em destaque no Instagram do Observador. Até à próxima e boas viagens.

Que cambie todo, pero no el amor. Es la misión más grande que tenemos tú y yo. En esta vida hay que aprender, entender y saber. Porque estos tiempos son difíciles y es más escasa la verdad. Que cambie todo, pero no el amor. Nuestra familia es más importante, ya lo sé. Y la debemos proteger y volver a tejer. Porque estos tiempos son difíciles y es más escasa la verdad. Porque estos tiempos son difíciles y estamos sentados tan lejos el uno del otro. Porque estos tiempos son difíciles y estamos atados de manos y corazón. No dejemos que se nos acabe, que todavía hay muchas cosas por hacer. No dejemos que se nos acabe, que la vida es un ratico, un ratico nada más. No dejemos que se nos acabe, que vienen tiempos buenos y los malos ya se van, se van, se van. Quédate tú. Que cambie todo, pero no el amor. Es todo lo que yo te pido, no te pido más. Dame la mano, por favor, no me dejes caer. Porque estos tiempos son difíciles y es más escasa la verdad. Porque estos tiempos son difíciles y estamos sentados tan lejos el uno del otro. Porque estos tiempos son difíciles y estamos atados de manos y corazón. No dejemos que se nos acabe, que todavía hay muchas cosas por hacer. No dejemos que se nos acabe, que la vida es un ratico, un ratico nada más. No dejemos que se nos acabe, que vienen tiempos buenos y los malos ya se van, se van, se van. No dejemos que se nos acabe, que todavía hay muchas cosas por hacer. No dejemos que se nos acabe, que la vida es un ratico, un ratico nada más. No dejemos que se nos acabe, que vienen tiempos buenos y los malos ya se van, se van, se van. Quédate tú.