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Sejam bem-vindos às Conversas do Fim do Mundo. O viajante desta semana é geólogo e tem percorrido várias partes do mundo em busca de metais. Europa, América, África. Nessa missão de encontrar riquezas no subsolo, já andou por lugares onde outros não vão e dormiu em sítios onde muitos não ousam dormir, como, por exemplo, uma aldeia no deserto do Namib, em Angola. Mas não só. Rui Fructuoso, bem-vindo às Conversas do Fim do Mundo.
Olá, viva. Obrigado.
Nada, hora essa. Rui, então conta-me lá como é que foi essa experiência de dormir um mês, não foi, no deserto do Namib, em Angola?
Sim, foi a convite de uma empresa para fazer parte de um trabalho de estudo no deserto do Namib, no meio do nada, basicamente. Éramos só nós e havia em redor pequenas tribos.
Só nós, a equipa, não é? A equipa de geólogos, é isso?
Sim, éramos uma pequena equipa.
Iam à procura do quê? De encontrar o quê?
Nós estávamos a estudar uma montanha, um carbonatito, que é o nome científico desta estrutura.
Porque é feito de carvão, é isso?
Não, é carbonato.
Que é feito de carbono.
Carbonato.
Ah, carbonato.
Fomos para lá fazer esse estudo e pela logística da distância e principalmente de ser muito distante da cidade mais próxima, que é a cidade do Namib, hoje em dia chama-se Musamdes, tivemos que ficar lá acampados. Éramos só nós, a equipa de geólogos e técnicos locais, e depois tínhamos em redor algumas tribos de mucubais, que são um povo seminómada que vive por ali.
Que não falam português, apesar de estarem em Angola. Ou falam?
Não.
Não falam.
Por norma, têm um dialeto próprio, mas nós tínhamos, vamos chamar-lhe, um fixer, que era um mucubal que em criança estudou numa escola portuguesa. Então ele sabia falar português e por vezes ia à cidade. Era a pessoa que ficou conosco e fazia a tradução com alguns dos mucubais que iam passando pelo nosso acampamento.
Muito bem. Deve ser uma experiência incrível poder dormir um mês no deserto e depois contactar, não sei se havia muito contacto, mas pelo menos estar ali próximo de autóctones.
Sim. Eu já tive experiências de isolamento, mas nesta escala acho que foi a maior, porque primeiro é um deserto muito extenso. No mapa é mesmo localizado no meio do nada. E sim, tínhamos este contacto diário. Muitas vezes eu acordava muito cedo e muitas vezes quando acordava havia dois ou três mucubais à lareira, na nossa lareira, e tentávamos comunicar da forma possível. Outras vezes eu ficava sozinho no acampamento a trabalhar nos dados e aparecia sempre uma ou outra criança mais curiosa, que até tenho uma história engraçada com uma delas.
Partilha.
Uma vez chegou um rapaz, não tinha mais que 12, 13 anos, num cavalo branco enorme, e fica com uma cara muito séria, muito desconfiado. Eu sabia, e depois partilharam comigo que ele ouve falar muito das histórias de fantasmas e possivelmente achava que eu era um fantasma. Então ele ficou ali muito desconfiado e eu tentei criar uma aproximação e quebrar ali um bocado o gelo. Chamei-o para a minha beira, eles gostam muito de garrafas vazias, e comecei a lhe oferecer garrafas.
Por quê?
Para transportar leite e água.
Ah, ok.
Essencialmente, mas principalmente o leite, e depois para conseguirem vender entre si. Ele veio para a minha beira, sentou-se assim ao meu lado e comecei a lhe mostrar fotografias do telemóvel, fotografias de Portugal e um pouco do mundo. E uma das fotografias tinha aqui o Gerês com neve, tudo pintado de branco, e estava a passar assim depressa e ele ficou muito admirado e pediu-me para eu voltar atrás. Depois ele ficou com um ar muito estranho a olhar para a fotografia. E depois é que me apercebi que ele possivelmente não sabia o que era neve.
Pois.
Ia dando uma de tentar explicar o que seria neve e gelo. Abri uma arca, que tínhamos lá uma arca com algum gelo ainda, e comecei a atirar o gelo para ele ter essa percepção do que seria neve. E ele realizou o que seria e ficou super admirado, ficou bastante excitado e nos dias seguintes estava constantemente a chamar outras crianças para vir ao acampamento para eu lhe mostrar as fotografias e fazer o mesmo. E foi engraçado, porque para nós é quase certo o que é neve e o que é gelo, mas para aquelas crianças que viviam ali no deserto não faziam ideia do que seria. E foi engraçado ver esta reação e esta percepção.
E tocavam no gelo, Rui?
Sim. Ficaram muito assustados.
Assustados?
Sim. Até pela sensação.
Sim.
E era engraçado, eles depois riam-se e fugiam. Foi uma experiência bastante engraçada de convivência.
Filmaste isso?
Não, por acaso não.
Ah, vá lá!
Tirei fotografias com o miúdo.
Sim
Mas não tenho vídeo disso.
Não tiraste nenhuma fotografia?
Não é daquelas coisas.
Viveste o momento.
É isso.
Boa. E deixou-te boas recordações. Possivelmente, até nunca tinham visto um homem branco.
Sim.
Também não?
Não. O rapaz que estava conosco e falava português disse que não, que era a primeira vez que estavam a conviver, e foi engraçado. Bem como outras pessoas mais velhas. Eu conheci pessoas com 60, 70 anos, que depois o nosso "fixer", vamos chamá-lo assim, até me disse que eles não tinham ideia de que sequer tinha havido a guerra colonial ou a guerra civil.
A sério?
Sim. Foi bastante curioso.
Portanto, passou-lhes mesmo ao lado ali naquela zona sul de Angola, não é?
Sim, e foi o que esse rapaz, o Boteca, me explicou, foi que ele possivelmente estaria numa zona mais interior, mais isolada. Depois, mais recentemente, moveu-se mais para ali para a zona onde nós estaríamos. E então eles não tinham essa percepção de que tinha havido essa guerra colonial e depois a guerra civil. E então o contacto que eles têm com pessoas que não são desta região é muito baixo. Ao longo da costa, há um tráfego muito grande de turistas a fazer a costa, que vão até à Foz do Cunene, que é com fronteira com a Namíbia, e é muito famoso para quem gosta de 4x4. Mas a parte interior já não. E até que é bastante inacessível. Não há caminhos, os acessos são maioritariamente a pé. São zonas muito isoladas.
Portanto, zonas muito inóspitas e isoladas. Olha, fala-me destes mucubais, esta tribo ou este povo com o qual tu te viste ali a conviver durante um mês.
Sim, é um povo seminómada. Eles basicamente vivem do gado. Estão um pouco distribuídos por toda a Angola. Eles fixam-se em alguns destes locais do deserto e vão movendo em pequenas tabancas. Eles não têm propriamente um regime agrícola tradicional, eles vão vivendo do que aparece. E vão fazendo estas trocas comerciais de cabras e de bois. O nosso acampamento era uma zona de passagem destes animais. Por vezes havia alguns com burros que transportavam farinhas. Há várias tribos, eles estão divididos por várias tribos, mas vão comunicando entre si. Até que numa noite eu ouvi uns tambores e era uma festa que estava a acontecer em que estavam a matar vários animais. Então, numa forma de celebração, estavam várias tribos a ir para esse local. E foi uma coisa também engraçada de ver. Mas claro, eles têm adereços.
Tu assististe? Aproveitaste para assistir?
Não, por acaso não.
Então!
Não.
Ias-te levantar cedo no dia a seguir.
Também. Eu perguntei a este rapaz, ao Boteca, e ele disse que não seria, porque tinha que falar primeiro com os sobas, que são os chefes das tribos, e como ele não o fez, não seria ideal.
Seria de má tom aparecer, não é?
Sim, talvez.
Já de si é mau aparecer numa festa para a qual não fomos convidados. Ainda mais, imagino, no deserto do Namibe, possa ser ainda mais constrangedor e gerar algum mal-entendido.
Sim.
Olha, conseguiste encontrar os metais que te propuseste procurar?
Sim.
É o encontrar?
Sim, aquilo foi mais um bocado para conhecer. Havia uma ideia do que existia, havia um estudo já feito no passado, mas não em detalhe. Então aquilo foi mais um pouco para ter uma noção e fazer um mapa, ou seja, a cartografia dali da região. Mas sim, a ideia inicial não se cumpriu, porque achava-se que tinha determinados minerais do grupo das terras raras e depois verificou-se que não. Mas é sempre curioso e é sempre interessante recolher dados e validar esses dados, que é o mais importante.
O mais importante.
E foi isso que fomos fazer.
Tu és geólogo, como eu dizia na introdução do programa, da conversa desta semana. És geólogo, tens andado por aí pelo mundo em busca de metais, fazes prospecção de metais para várias empresas. Isso já te levou a sítios tão bizarros e tão estranhos quanto o quê, Rui Frutuoso?
Como a Sérvia.
A Sérvia? A Sérvia é rica em quê?
Um pouco de tudo, na verdade. Muito rica em cobre, tem algum ouro, mas maioritariamente é um país que atualmente tem explorações grandes de cobre. E depois é um país que mais recentemente descobriu-se um grande depósito também de lítio, que é um mineral específico até só daquela região. Mas é um país que no passado, durante a época soviética e da Jugoslávia, foi explorado para vários metais.
Ok, rica em lítio, portanto vai ser o nosso concorrente no futuro.
Não, porque o tipo de mineralização é diferente.
Ah, ok.
E a utilização também, ou o processamento será mais difícil.
Muito bem. Também já estiveste a fazer prospecção nos Estados Unidos, não é? No Nevada.
Sim. Estive no Nevada, também a fazer um trabalho bastante interessante. O nosso objetivo era visitar antigas explorações da década de 40, 50. Eu e o meu colega tínhamos uma picape em que enchíamos de mantimentos e de tudo que era necessário para sobreviver durante quatro, cinco dias. E lá íamos pelo deserto adentro, zonas altamente isoladas e remotas Cobri grande parte do norte do Nevada em busca destes locais e foi uma experiência espetacular, porque os Estados Unidos têm zonas muito remotas. E depois era chegar no meio do nada, encontrar zonas que foram exploradas durante esses períodos. E era bem ao estilo do "There Will Be Blood", do filme do Daniel Lewis, em que se vê aqueles buracos e aquelas estruturas de madeira.
Sim.
E aquilo foi uma experiência espetacular.
Espetacular. Não se deu o acaso de ires para a Área 51?
Não.
Não, mas querias lá ir.
Mas ao mesmo tempo tínhamos outra equipa que andou lá perto e foi na mesma altura que houve aquela corrida à Área 51, de civis que tentaram entrar.
Sim.
Foi nesse período e eles estiveram lá mesmo ao lado.
Estamos a falar de uma base da Força Aérea dos Estados Unidos envolta em grandes teorias da conspiração. Alegadamente, é lá que está guardado um corpo de um extraterrestre.
Sim.
Não é?
É verdade.
Uma área super isolada e muito guardada.
Sim, supostamente.
Supostamente está lá um ET, mas é muito vigiada.
Sim, é verdade.
Também todo o resto do estado do Nevada, ou não?
Vai havendo umas bases militares aqui e ali. Eu só de passagem em algumas estradas principais, mas dos locais onde estive, não assisti a isso. O que há sim é aqueles grandes ranchos em que depois lá dentro é o verdadeiro faroeste.
Do quê? De cultos estranhos e bizarros?
Não, no estilo cowboy. É como se tivéssemos viajado no tempo.
Tudo legítimo, cavalos e chapéus.
Cavalos, cultos, chapéus, verdadeiros rancheiros. É engraçado. A América é muito diferente entre si. Basta ir de uma cidade para outra. É um bocado como Portugal, mas ali é uma escala completamente diferente.
Exatamente. País continente, os Estados Unidos. Não é como nós. Muito bem, vamos ter a oportunidade de falar mais sobre as tuas viagens para encontrar metais e também viagens que realizas por Portugal, porque tens um fascínio pelo chamado Portugal rural.
Sim.
O chamado país profundo, seja lá o que isso for. Mas agora vamos abrir o álbum de viagem. Rui Frutuoso, guardas em casa algum objeto que tenhas trazido das tuas viagens e que seja muito especial?
Tenho vários, na verdade. Eu sou um colecionador de objetos tradicionais e gosto muito de artesanato, em especial de coisas antigas. Mas das minhas viagens, o que guardo, e tenho aqui uma prateleira específica, é para rochas e minerais. Dos locais por onde vou passando, normalmente apanho uma pequena rocha e vou guardando isso. Não gosto de comprar, eu gosto de ser eu a encontrar. Não é a coleção mais bonita, mas é a que me faz lembrar dos sítios por onde vou passando e das histórias. Tenho aqui uma coleção de pequenas rochas.
São as tuas, que tu apanhaste. Há alguma raridade?
Não.
Alguma rocha com pedacinhos amarelos brilhantes?
De ouro não, também não. Só o ouro dos tolos.
Também não? Diz.
Só o ouro dos tolos, que é pirite.
É assim que se chama o ouro dos tolos, a pirite?
Sim, porque antigamente as pessoas encontravam pirite e achavam que seria ouro.
Qual é a diferença entre pirite e ouro?
O ouro é um elemento nativo, é ouro puro. Já a pirite é ferro e enxofre. Tem um brilho metálico muito semelhante ao ouro, mas é completamente distinto.
Ok. E não há ouro na tua prateleira. Portanto, senhores ouvintes, têm ideias de ir assaltar a casa do Rui Frutuoso. Não vale a pena.
Não, eu costumo dizer que sou um geólogo um bocado seca, porque eu prefiro as rochas que têm uma história mais conceptual do que beleza. Por exemplo, uma das amostras mais bonitas que eu tenho é um seixo rolado, que esteve num glaciar, possivelmente de uma amoreira, e esse glaciar desprendeu-se, foi por mar adentro, o gelo foi derretendo e esse seixo caiu no sedimento fino do fundo do oceano. E essa rocha foi encontrada ali em Valongo. Eu prefiro amostras que têm esta história por trás, esta história geológica, do que às vezes aquelas amostras perfeitas e bonitas.
Portanto, gostas de sentir que o tempo passou por uma determinada rocha, é isso?
Sim, é isso mesmo.
Boa. Muito bem. Estamos à conversa com o geólogo Rui Frutuoso. Fazemos aqui uma curta pausa na conversa desta semana. Regressamos já a seguir. Estamos de regresso para a segunda parte das Conversas do Fim do Mundo. O viajante desta semana é o geólogo Rui Frutuoso. Ele tem percorrido uma parte do nosso mundo em busca de metais. Já nos disse que não encontrou ouro, portanto, não vale a pena sonhar com o Rui Frutuoso. Vale a pena, claro que sim. Rui, o trabalho de geólogo já te levou a sítios como Sérvia, Espanha, viveste um ano na Irlanda, na Suécia, também já percorreste os desertos do Nevada, viveste um mês em Angola, no deserto do Namibe, e já nos falaste dessa experiência na primeira parte. Também já andaste pela Escócia. Diz-me, Portugal, comparado com os outros países, nós somos geologicamente ricos ou geologicamente pobres?
Há duas respostas. Somos geologicamente ricos, e a paisagem fala por si. Há uma diversidade de rochas muito grande, e é um país com muitos contrastes. Basta fazermos, por exemplo, de norte a sul, se começarmos em Caminha e formos até ao Algarve, até Sines, é completamente diferente. Até Sines, não, até ao Algarve. É completamente diferente, e isso demonstra a riqueza da nossa geologia.
Ok.
E depois, como alguns geólogos antigos costumam dizer, Portugal é um país rico em minas pobres. Portanto, há aqui duas respostas.
Em minas pobres, o que isso quer dizer? Ninguém dá valor ao nosso subsolo, é isso?
Não é isso, é em termos de dimensão e de ocorrências.
Não temos escala.
Não temos escala, sim, é isso.
Ok. Portanto, não vale a pena sonhar com grandes riquezas.
Não.
Do nosso chão não vem daí grande fortuna, é isso?
Sim, é isso. Ou seja, à escala global, não.
À escala global.
Há coisas maiores.
Muito bem. Conheces bem ou conheces a realidade das minas em África, certo?
Sim. Algumas.
Algumas.
Mais pedreiras.
É um mundo tão negro quanto o pintamos tantas vezes?
Sim, infelizmente é. À escala global também. Podemos falar da América do Sul também ou da Ásia. Mas sim, é verdade. Está longe, não há regras, não há fiscalizações e está muito associado à falha de direitos humanos e de questões ambientais. E nós somos todos um pouco responsáveis por essa questão.
Nós, enquanto cidadãos que consumimos, é isso?
Sim, não haver esta responsabilidade social do que compramos, de onde provém a matéria-prima. E nós quando compramos o barato, por vezes estamos a alimentar essas questões.
Pois. No que diz respeito às pedras e à geologia, desculpa resumir as coisas assim a pedras, mas no que diz respeito à geologia, como é que se reflete isso? O que nós compramos que pode refletir essa realidade, Rui?
Em tudo, porque a geologia está em tudo, na verdade. Seja em termos de rocha ou em termos de petróleo ou os derivados do petróleo, porque tudo tem geologia, tudo provém de recursos naturais e os recursos minerais estão presentes em quase tudo que consumimos. E as fontes de onde provêm esses materiais têm que ter, vamos dizer assim, um certificado da sua proveniência e de que forma foi retirada. E isso não é exigido, não há essa exigência por parte de quem transforma os materiais e depois de quem vende e depois por quem compra.
E poderia ajudar bastante, não é? Nas condições de vidas das pessoas.
Sem dúvida.
Muito bem. Olha, também és rapaz para viagens em Portugal.
Sim.
E lá fora também. Mas tens uma particularidade aqui muito engraçada, eu achei muita graça a isto. A tua lua de mel foi feita a fazer o trilho dos Anapurnas, não foi?
Sim. É verdade.
Tu não era melhor ir pra uma cabana com mar azul?
Não.
Não?
Não. Um grande não. É verdade. Eu e a minha esposa tínhamos aqui uns planos iniciais, que era ir até a Patagônia. Também tínhamos a Islândia, que era um país que fomos adiando durante muitos anos.
Já lá foste, à Islândia?
Ainda não. Tenho uma viagem marcada agora pra setembro.
Boa. Um paraíso pra os geólogos, não é?
Sim, é verdade. Ou seja, é uma aula de geologia.
É uma aula viva, não é?
Ao vivo. É isso mesmo.
Aula viva de geologia incrível.
Mas depois surgiu esta oportunidade de ir ao Nepal, que era um sonho antigo meu, e foi quase de imediato aceito. E pronto, foi um desafio grande. Ou seja, não é propriamente uma lua de mel como a grande parte das pessoas sonham. O nosso foi completamente contrário, foi caminhar durante vários dias e ir até o campo base dos Anapurnas, que era um sonho antigo e foi fenomenal.
Por que era um sonho antigo?
Porque sempre gostei muito de montanhismo, de escalada, todo este universo ligado aos primeiros alpinistas. E o Nepal traduz muito isso, depois é toda aquela história e misticismo do Nepal. E eu sempre fui um bocado fascinado por essas histórias e por essas paisagens E é o teto do mundo também. E então eu sempre gostei muito do Nepal e sempre fui um fã de todo o universo associado a isso. E então sempre achei que era aquelas coisas que pareciam que estavam distantes e que obrigatoriamente tinha que fazer.
Tu eras aquele miúdo que abria as enciclopédias e ficava deslumbrado com as imagens?
Sim. Eu costumo dizer, eu tenho uma paixão muito grande pelo Parque Nacional da Peneda-Gerês. Talvez a maior asneira que os meus pais fizeram foi fazer lá férias, porque a partir daí nunca mais quis voltar. Quis sempre voltar e quis sempre passar o máximo de tempo possível por ali. E a partir daí surgiu este amor pela montanha, pelas paisagens, tudo que seja fotografia de paisagem e principalmente de montanha, tem um grande fascínio.
Muito bem. Também já fizeste os Alpes de mochila às costas, certo?
Certo.
Quantos dias, Rui?
Foi cerca de uma semana, volta de 10 dias, se não estou em erro. Mas sim, também era um local que eu não conhecia e então nada melhor do que fazer mochila às costas a pé e percorrer vários locais.
Em Portugal não há montanhas dessas. Os Alpes são uma montanha nova, jovem. É assim que se diz na geologia?
Sim. É.
Porque nós em Portugal só temos montanhas velhas. São aquelas baixinhas, barrigudas, redondinhas.
Que já foram varridas pelo tempo, pela erosão. E sofreram com este evento que forma as montanhas, que se chama orogênia. Sofreram com a orogênia alpina, no caso as nossas montanhas, daí terem sido arrasadas. Supõe-se que, por exemplo, aqui os nossos maciços eram maiores do que os Himalaias.
Uau! Quando dizes nossos maciços, é Serra da Estrela?
Serra da Estrela, Gerês, todo o norte de Espanha. E sim, os Alpes é uma escala diferente também.
Portanto, é Portugal há não sei quantos milhões de anos atrás.
Sim, é isso. Portugal, esta orogênia, tem cerca de 300 milhões de anos e depois o caso dos Alpes é muito mais recente. Mas depois também em termos visuais.
Pois é, são bicudas.
Sim, é completamente diferente. E ali sim, já podemos chamar alta montanha. Enquanto aqui em Portugal é baixa montanha.
Baixa montanha. Mas para começar é bom.
Sim, eu costumo dizer que, por exemplo, caminhar na Serra do Gerês é muito mais difícil do que alguns sítios no mundo.
Por quê?
Eu já tive essa experiência. Porque é uma serra muito mais agreste. Os caminhos são muito fechados, o granito tem esta característica de ser difícil de progredir. E eu tenho esta percepção e vou falando isso com muitos amigos.
Mas por quê? Porque se transforma em areia, é isso?
Sim, também. E depois a vegetação fecha muitos caminhos, os acessos são muito mais exigentes fisicamente. Coisa que eu, pelos sítios que vou passando, às vezes não sinto o mesmo. Eu nos Alpes não senti tanta dificuldade em caminhar e claro, quando passamos para uma zona mais glaciar, aí sim, e tem outros riscos.
Zona glaciar com gelo.
Sim, com gelo. Temos que manter os caminhos, em certos casos é preciso usar cordas. Mas falando num ambiente similar aqui à serra, eu costumo dizer que a serra é muito mais difícil.
Ok, muito bem. Então fala-me dessa viagem de 10 dias a caminhar pelos Alpes de mochila às costas. Onde é que começaste, Rui?
Comecei em Geneva, que é onde é o aeroporto.
Suíça.
Em Suíça. Depois visitei algumas cidades um pouco para fazer aquele roteiro turístico e visitar amigos.
É um postalinho, não é, a Suíça?
Sim. Mas rapidamente quisemos sair e ir para a parte de montanha, e então começamos ali no Supe ad Waiger, em Grindelwald. Fizemos lá uma série de trilhos, fomos para a parte do glaciar acima e depois fizemos lá alguns trilhos, fomos para Zermatt, sempre usando transportes públicos e caminhando. E em Zermatt, que era um dos nossos objetivos, era ir até o Matterhorn e ficar lá dormir no abrigo de montanha. E depois fui caminhar um pouco pela região e fazer alguns trilhos, e depois ir para Chamonix, já na parte francesa.
Ok, para a estância.
O Supe de Monte Branco. E também fizemos lá alguns trilhos.
Tens ideia de quantos quilômetros andaste nesses 10 dias, Rui?
Não, por acaso não. Foram alguns quilômetros.
Não ligaste o Strava.
Não.
Então não existe. Se não ligaste o Strava, não existe.
Eu por acaso, por vezes gravo no relógio, mas neste caso não. Deve ter algumas outras. Sim, aproveitar.
Há uma forte indústria, não é, de caminhada nos Alpes?
Sim, é a Meca, vamos dizer que é a Meca dos grandes trilhos e depois dá para fazer um pouco de tudo, de escalada, alpinismo, caminhada, trail, e ali sem dúvida que é a Meca. E depois as paisagens são paisagens incríveis e são relativamente acessíveis.
Pois. Tudo verdinho, tudo bem tratado.
Sim, depois há tudo também, há aquela parte muito verde, muito alpina, aquela típica vegetação alpina. E depois entramos naquelas zonas em que a vegetação é mais rasteira E até chegar à parte dos glaciares, que é só rocha e gelo.
Muito bem. Portanto, há para todos os gostos e há para todas as condições físicas.
Sim.
No teu caso, foi muito difícil, do ponto de vista físico, esta viagem de 10 dias a pé pelos Alpes, Rui?
Não. Nem por isso.
És um jovem cheio de força.
Eu e a minha esposa estamos habituados também a fazer muitos trilhos de vários dias aqui pela serra de Gerês, um bocado mais pelo norte de Portugal. E nós, pelo menos todos os meses, vamos fazendo caminhadas. Então, vamos dizer, estamos adaptados a este tipo de viagem. Também íamos ficando em refúgios, o que dá outro conforto também. Mas não considero que tenha sido difícil.
Tens também um fascínio pelo chamado Portugal rural. Por quê, Rui?
Não sei.
Não sei.
Não consigo explicar.
Gostas de tudo o que é inacessível e pouco explorado, é isso?
Sim.
Te dá essa sensação de exclusividade. "Sou o primeiro a chegar aqui", é isso?
Nem é tanto isso.
Nem é tanto.
Eu gosto muito destas tradições antigas, que têm até um certo misticismo. Porque há este paganismo que ficou em Portugal e um pouco por toda a Europa.
Que é sobretudo visível aí no norte, não é?
Sim. Eu sempre fui um bocado curioso, primeiro em assistir e depois documentar. Eu tenho sempre esta percepção de que um dia estas coisas desaparecem. Então eu gosto de captar e ter estas coisas documentadas.
Portanto, corre em ti uma veia de antropólogo num corpo de geólogo, é isso?
É verdade. Por exemplo, eu passo muito do meu tempo em Trás-os-Montes e no Alto Minho. São locais em que me sinto bem, e estas tradições e estas festas pagãs são algo que acho estranho, dada a nossa história recente. A religião cristã está muito patente e durante o Estado Novo houve esta tentativa de acabar com muitas destas tradições. E isto permaneceu. Então eu acho curioso como em locais superdistantes e que sofreram este isolamento durante o Estado Novo e, mais recentemente, com o êxodo rural, ainda permanecer. Eu sempre fui muito curioso.
É uma espécie de afirmação cultural, não é?
Sim.
Dessas aldeias e dessas regiões.
Sim, é verdade. E depois também muitas destas tradições foram ocultas das pessoas que não eram destes locais, e agora começa a haver um bocado esta abertura. Eu gosto muito destas festas e tento percorrê-las.
Percorrê-las. Muito bem, fantástico. Olha, Rui, estamos a chegar ao fim. Isto do tempo, sabes como é que é, não é?
Voa.
Vamos fazer o check-out?
Vamos lá.
Vamos lá. Então vou pedir-te para completares as habituais frases: na minha mala vai sempre...
Na minha mala vai sempre um canivete.
Um canivete? Muito bem.
Eu desde criança ando com canivetes e tenho sempre um canivete nas mochilas. É um objecto que tenho sempre comigo.
Boa. A viagem com mais peripécias que realizei até hoje?
Eu aqui vou dizer Sérvia.
Sérvia.
Como um bom país dos Balcãs, é um local onde tudo acontece. É um verdadeiro filme do Kusturica.
De filme tudo.
Desde, por exemplo, ser convidado para uma festa, que é a celebração dos santos da família, é uma festa mais especial que o Natal. E de repente ser quase o protagonista de uma festa e, claro, muita rakia, muita música, e isto ocorre assim do nada. Verem-nos, convidarem e aceitar e de repente estar num filme do Kusturica.
Do Kusturica.
Acho que não há forma melhor de traduzir o que se passa nestes locais.
Sentiste no "Gato Branco, Gato Preto", não é?
Sim, totalmente.
Olha, o carimbo de passaporte ou visto mais difícil de obter?
É que não tenho.
Não tens. Foi sempre tudo fácil. Então avancemos.
Durante as minhas entradas em Angola, porque foi o período de Covid, foi sempre ali um bocado estranho, mas acho que é o normal. Portanto, não posso dizer que tenha sido nada difícil.
A recordação de viagem mais cara?
Nada especial. Não tenho assim nada estupidamente caro, na verdade.
Ok.
Normalmente até são momentos caros, digamos assim.
Momentos caros. A refeição mais estranha, qual foi?
Nada assim de distinto que tenha comido em Portugal. Mas eu vou dizer, no Nepal, comi as entranhas de búfalo, ou seja, tudo que era da boca até o ânus, tudo misturado, e comi um prato bastante picante.
Sim.
E estava bastante bom.
Estava bastante bom. Mas sabias o que estavas a comer?
Sim, sabia.
Portanto, és boa boca.
É arriscar.
É arriscar. Olha, gostava de viajar com...?
Eu aqui vou dizer a minha esposa. É a minha grande companheira de viagem.
Jogas pelo seguro.
Tenho muitos sítios para onde gostava de ir e, sinceramente, é a melhor pessoa que vejo para me acompanhar, porque é quem me consegue divertir nos momentos mais tristes e dar aquele ânimo. Acho que, sem dúvida, seria ela.
É com a tua mulher que vais à Islândia?
Sim, vamos os dois.
Boa. Agora em setembro. Boa viagem.
Obrigado.
Olha Rui, chegamos ao fim. Que música escolheste para fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana?
Escolhi uma música que se chama "Resham Firiri". É uma música nepalesa. Escolhi esta música porque na nossa lua de mel, quando chegámos ao acampamento base dos Annapurnas, os nossos guias e carregadores decidiram fazer-nos uma surpresa, que foi arranjarem-nos umas roupas tradicionais Gurung, que é o povo daquela região. Fizeram uma pequena celebração num pico com vista para os Annapurnas e depois de terem feito uma cerimónia, cantaram e dançaram esta canção.
E ficou. Muito bem.
E ficou.
Rui Tostões, foi um gosto. Obrigado.
Muito obrigado eu.
Obrigado. "Resham Firiri" no fecho da conversa do "Fim do Mundo" desta semana. Estamos de regresso hoje a oito dias. Já sabem, sejam bons e boas viagens.