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Sejam bem-vindos às Conversas do Fim do Mundo, esta semana com um jovem viajante que gosta e quer fazer o bem. Ele tem ideias e projetos para os países africanos de língua oficial portuguesa. Recentemente, ele percorreu-os numa viagem que durou cinco meses e uns dias. Viu paisagens, realidades, povos e modos de vida diferentes dos nossos, muito diferentes dos nossos. Gonçalo Monteiro, bem-vindo às Conversas do Fim do Mundo.

Olá, João.

De onde é que surgiu esta ideia de ir percorrer os PALOP?

Eu achei que era preciso fazer algo diferente na minha vida. Gostava de viajar, mas ao mesmo tempo não queria só viajar, também queria impactar. E comecei a pensar. Primeiro pensei no Sudeste Asiático, até fiz um roteiro para o Sudeste Asiático.

Planeaste uma viagem, foi?

Sim. Mas depois algo em mim, não fazia sentido. Não era o Sudeste Asiático, tinha de ser outra coisa. Comecei a pensar e não encontrava os destinos que eu queria. Até que houve um dia, isto é verdade, em que eu tive um pesadelo, que depois tornou-se um sonho, em que acordei em Angola. Aliás, estava em Angola, estava perdido no meio de Angola, estava numa paragem de autocarros e acordei de repente. O que é que aconteceu? Quando acordei, comecei a pensar: porquê Angola? E depois comecei a relacionar tudo. A minha avó materna nasceu em Angola. O meu avô fez a guerra colonial em Angola. Depois, a minha avó materna nasceu em Angola e a minha avó paterna nasceu em Cabo Verde. O meu pai nasceu em Cabo Verde.

Portanto, tens raízes africanas.

Exatamente.

Então tudo fazia sentido, não é? Fazia sentido que fosses à África e aos PALOP.

Em todos estes países, menos em São Tomé, o meu avô também fez voluntariado em Moçambique e trabalhou na Guiné-Bissau, menos em São Tomé, tinha algum tipo de relação familiar e o meu objetivo passou a ser honrar o passado com os meus antepassados.

Estava na cara que tinha que ser a África e os PALOP. Muito bem, então onde é que começou esta viagem de cinco meses?

Esta viagem começou no país que eu diria o mais difícil, entre as aspas, que é a Guiné-Bissau.

Muito pobre, um país muito pobre, não é?

É muito pobre, diria que há muita pobreza e também o tema lá foi relacionado com os direitos humanos, com a luta dos direitos humanos.

O tema, explica lá isso do tema.

Sim, os temas. O projeto que é o PALOP Para Todos é o projeto em si, o projeto geral, e depois em cada país-

Um projeto que tu desenvolveste.

Sim.

E que queres aplicar.

Sim, que apliquei e ainda quero continuar. O objetivo do projeto não é ter um fim, é ser uma continuação sem fim.

Tu tens 23 anos, não é?

Sim.

Tu queres trabalhar naquilo que se designa genericamente como ajuda ao desenvolvimento, é isso?

Sim, eu aponto mais uma carreira de empreendedorismo social, ou seja, também o ajudar, que é uma coisa que eu gosto de fazer, e relacionar com as coisas que mais gosto, neste caso, no projeto.

És um jovem utópico?

Sim, acho que sim.

Calçaste as botas e foste ao caminho. Foi isso?

Sim, foi isso.

Aí foste tu para a Guiné-Bissau, não é? Quanto tempo estiveste na Guiné-Bissau e a fazer o quê? E o que é que viste, Gonçalo?

Na Guiné-Bissau estive 22 dias. O principal objetivo era sensibilizar para os direitos humanos, os direitos das mulheres, os direitos das crianças.

Sensibilizar quem?

A população. Por exemplo, estive em tabancas. Tabancas são aldeias.

Mas como é que fizeste? Foste sozinho com um caderno debaixo do braço e chegaste lá e: "Eu sou o Gonçalo, venho de Portugal." Não.

Não, foi parecido. Mas fui com uma organização, que é a organização Protej, a Associação Protej, e juntos colaborámos nesta matéria dos direitos humanos. E depois estivemos em tabancas. Tabancas são aldeias em que existe um líder, uma comunidade, e a sensibilizar, porque realmente na Guiné-Bissau há vários problemas, como a mutilação genital feminina, problemas de casamento precoce e forçado, e eu ouvi histórias impressionantes de superação e que me marcaram para a vida mesmo.

Quando dizes sensibilizar, a sensibilização funciona ou não?

A sensibilização funciona. É difícil, não é uma coisa que acontece de um dia para o outro. Eu fui com a Associação Protej e com a UNICEF. Eles lá estão há muito tempo a fazer este tipo de sensibilizações neste tipo de tabancas. Mas, por exemplo, na primeira tabanca eu estive a ouvir, aquilo basicamente havia um tradutor e havia mais um tradutor do tradutor. É uma coisa fantástica.

Não se perdia algures aí a comunicação?

Com certeza que alguma comunicação se perdia, porque na Guiné-Bissau há um monte de línguas, não quero estar agora a dizer o número, mas são mesmo muitas. Mas a questão da sensibilização nesta tabanca, por exemplo, a mutilação genital feminina já não acontecia. O casamento precoce e forçado não aconteciam. E se acontecesse, as pessoas que cometiam esses atos eram expulsas da tabanca, da comunidade. Portanto, acho que até certo ponto funcionava.

Já havia alguma consciencialização.

Sim.

É um processo lento, não é?

Sim, é lento.

Olha, gostaste da Guiné-Bissau?

Gostei. Como eu disse, é um país difícil, mas gostei porque eu levo histórias para a vida. Por exemplo, um senhor que eu conheci, era uma criança e antes de nascer, os pais foram a uma vidente, que lhes disse que o filho ia ser como uma cobra Sim.

Como assim?

Que ia nascer como uma cobra, que ia parecer um humano, mas ia ser uma cobra, ia ser um monstro. E o que os pais fizeram? Abandonaram o filho num rio. Houve uma mulher que viu e foi buscar esse senhor, que morava na mesma rua que os pais. A avó percebeu isso, encontrou este senhor e entregou aos pais novamente. Nesta altura, a mãe já não estava casada com o pai, era a madrasta e o pai. O pai acorrentava este senhor que foi abandonado, batia nele, pagou à polícia para bater, fazia as necessidades acorrentado. É uma história de superação, porque é uma pessoa que com tanto ódio que recebeu, podia odiar, mas escolheu amar. Ele criou uma organização que protege as crianças, protege as crianças que passaram pelo mesmo que ele, as raparigas que sofrem mutilação genital feminina, casamento forçado e precoce. Ele disse uma frase sinal que foi: "O ódio não se combate com mais ódio, combate-se com amor." E é isto que eu levo para a vida. Acho que foi muito importante. A Guiné-Bissau foi um país difícil, mas muito importante.

Muito dura essa história.

Sim.

Uma criança abandonada, apenas isso, só porque era um feiticeiro ou um bruxo.

Isto é só uma das histórias. Há outra com uma rapariga que partilhou a sua história de vida.

Contigo?

Eu estava a fazer uma ação de sensibilização na Cruz Vermelha e ela pediu para falar e partilhou a sua história. Basicamente, foi obrigada a casar com um homem, que não queria casar, e os pais prenderam os pés e as mãos para que ela fosse violada pelo homem.

Que horror!

É algo que me tocou mesmo e é algo que eu levo para a vida. Mas essas pessoas escolheram também contar as suas histórias e eu aprendi muito. Eu costumo dizer e tenho uma frase que diz que há pessoas que lutam um dia e são boas, que lutam muitos dias e são muito boas, lutam muitos anos e são melhores, mas há as que lutam uma vida inteira e essas são as imprescindíveis. Eu tenho a certeza que na Guiné-Bissau aprendi com os imprescindíveis.

Muito bem. E se calhar aprendeste que vives na melhor parte do mundo, não é? Ou numa das melhores partes do mundo.

Estou num meio privilegiado pelos problemas que nós temos, mas depois da Guiné-Bissau é mesmo complicado.

Um soco no estômago. Tu tens 23 anos.

Sim, ainda tenho uma vida curta.

Uma vida curta. Como é que eu hei de dizer isto ou transformar isto numa pergunta? Sendo tão novo, impressionou-te de sobremaneira estas histórias, Gonçalo?

Impressionou-me, sim.

Achavas que o mundo era outra coisa ou não?

Eu tinha uma noção, porque já tinha ouvido falar da Guiné-Bissau, que realmente havia muitos problemas, mas ao mesmo tempo não pensei que fosse assim tão grave. Mesmo a questão da mutilação genital feminina, 40% das mulheres sofrerem de mutilação genital feminina, independentemente de ser cultura ou tradição. Eu acho que há coisas que não é questão de cultura ou tradição, são direitos humanos. Os direitos das mulheres são os direitos humanos. E isto impressionou-me. 40% das mulheres sofrerem desta prática.

É um longo debate.

Sim, é um longo debate.

Da tradição versus o direito.

Sim. É um longo debate e nunca pensei que a Guiné-Bissau estivesse neste patamar. Mas é um país que, do outro lado, o povo realmente luta e quer algo melhor para o seu país.

É o que as pessoas todas querem, o melhor para a sua vida.

Sim.

Depois foste para Cabo Verde.

Sim, Cabo Verde.

E eu aqui estou muito num tom mais alegre.

Sim.

Tocaste violino na rua?

Toquei violino na rua.

Tocaste dinheiro, foi? Não.

Não.

O que aconteceu?

O que aconteceu foi que em todos os projetos, em todos os países, fazia um dia do projeto. E em Cabo Verde decidi que as pessoas que me seguiam no Instagram escolhessem um dia e eu faria o dia para eles. Foram aconselhadas algumas coisas e eu depois pus a votação, escolheram tocar o violino na rua. E foi por isso que eu toquei violino na rua.

Ok.

Depois angariei algum dinheiro e comprei para um menino uns chinelos.

Porque tu tocas violino.

Toco violino desde os três anos e meio.

Uau!

Sim, ando há 20 anos.

Tocas bem. Boa! Há a hipótese de seres músico profissional ou não passa por aí?

Não, já houve há alguns anos, mas atualmente não.

Vais continuar a estudar gestão, porque é o que tu estás a fazer.

Exatamente.

Vais começar o mestrado, não é?

Vou começar o mestrado.

Boa sorte.

Sim, obrigado.

Queima bem as pestanas, Gonçalo. Então tocaste violino na rua, mas também tocaste num bar, não foi, lá em Cabo Verde?

Sim, com outros músicos.

É um país muito musical, Cabo Verde.

Sim, é por isso que eu escolhi o tema da arte para Cabo Verde.

O tema para esta parte da tua viagem de cinco meses pelos PALOP.

Sim, porque um dos sonhos-

Tu compartimentaste, não foi, a viagem em temas?

Sim, em temas. Como eu disse, na Guiné-Bissau foi a luta dos direitos humanos, aqui era a arte. E a arte porque eu queria ser professor de violino quando era criança. Os meus sonhos era ser médico cientista, violinista e homem do lixo. O homem do lixo, estávamos lá. Em termos do violino, eu ensinei violino a um menino. Também toquei e estive em projetos relacionados com a cultura do município onde eu residi durante um mês. Ainda estive noutras três ilhas, além de Santiago. Era algo que eu gostava de fazer Portanto, pus em prática o que eu gostava mais de fazer.

Muito bem, portanto foi uma viagem com grandes propósitos.

Sim.

Já vai explicar então essa história do querer ser homem do lixo. Tiveste a oportunidade de viajar pelo arquipélago de Cabo Verde?

Tive, sim, sempre de barco, nunca usando o avião, porque um dos pilares do projecto também era a sustentabilidade. Ou seja, sempre que eu podia, usava um transporte extra que não fosse o avião.

Foste à procura das tuas raízes cabo-verdianas, Gonçalo?

Sim.

Encontraste-as?

Encontrei. Encontrei em São Vicente, em Santo Antão também. Estive com a minha tia, que tive o privilégio de conhecer.

Conheceste nesta viagem?

Sim.

Não conhecias?

Eu já tinha falado com ela por videochamada uma ou duas vezes na minha vida, nem me lembro muito bem, mas ela acolheu-me na casa dela.

Tua tia, portanto, irmã da tua mãe?

Não, a irmã do meu pai.

A irmã do teu pai. Uau!

E realmente foi um privilégio, gostei muito de estar com ela. Também a minha avó.

Quão emotivo foi esse encontro?

Com a minha avó ou com a minha tia? Eu não a conhecia, mas nós somos muito parecidos.

Fisicamente, é isso?

Fisicamente. Eu conheci porque já sabia, já tinha visto algumas fotos. Mas mesmo em termos de personalidades, acho que somos parecidos, gostamos de brincadeiras, gozar um com o outro. E eu acho que me dei desde o primeiro minuto muito bem com ela.

Muito bem. Foi emotivo então esse encontro?

Foi emotivo.

Falaste da tua avó.

A minha avó, estive com ela cerca de três vezes na minha vida antes.

E foste conhecê-la também nesta viagem?

Sim, porque ela esteve nos Estados Unidos e depois em Cabo Verde e já esteve uma vez ou duas em Portugal. E também a conheci nesta viagem. Era o objectivo do projecto, um dos grandes objectivos.

Então tu tinhas ali tudo, estava tudo escrito na pedra e tu ias para o Sudeste Asiático, rapaz.

Exato. Eu ia para o Sudeste Asiático, mas estava lá alguma coisa a não fazer.

Tens raízes africanas. Tinhas e tens familiares em África. Tinhas tudo para ter uma grande, e fizeste uma grande viagem.

Ainda bem que eu escolhi estes destinos. Não trocava por nada.

Muito bem. Daí foste para São Tomé. Vamos guardar São Tomé, Angola e Moçambique para a segunda parte das Conversas do Fim do Mundo. Estamos a chegar ao final da primeira parte, vamos abrir o álbum de viagem. Gonçalo Monteiro, trouxeste contigo algum objecto que tenhas trazido desta viagem de cinco meses pelos cinco PALOP?

Sim, trouxe dois. Há um que não é desta viagem, é de um Erasmus ou mobilidade internacional que eu fiz no Canadá. Eu ando com este saco para todo lado. Não o levei para os PALOP, mas basicamente durante muito tempo andei com ele.

É um saco, vamos descrevê-lo aqui para os nossos ouvintes.

É um saco de pano vermelho da Faculdade

Um saco de pano vermelho da Faculté des Sciences et Administration da Universidade de Laval.

E ele já passou por tudo. Já esteve em vários cantos do mundo.

Boa! Bem usado, como se vê aqui pela pega. É bom!

É bom, é mesmo bom.

Ok, muito bem. Um saco da universidade. Estudaste lá, foi?

Estudei lá durante seis meses.

Seis meses, boa. E o outro objecto?

E o outro objecto da viagem foi um desenho. Foi um menino que me fez, foi a primeira coisa que me ofereceram. Realmente tocou-me bastante.

És tu com...

A camisola do Benfica.

A camisola do Benfica e uma bola azul.

E uma bola azul.

Muito bem. E o teu nome, Gonçalo, com um S. Um erro grave.

Com um S, mas pronto.

Gonçalo com S.

Sim.

Está perdoado esse menino.

Sim, está perdoado. Eu acho que as crianças realmente foram a alma do projecto.

Foi feito onde esse desenho?

Este foi na Guiné-Bissau.

Na Guiné.

E trago aqui um chá.

Afinal são três objectos.

Sim.

Com o chá.

Que eu usei em Angola. Eu não bebo chá normalmente, mas em Angola tive de beber chá.

Chá de menta?

Não podia usar plástico, portanto, a única opção de beber alguma coisa ao pequeno-almoço era beber chá e andei com isto para todo o lado.

Muito bem, porque tu desafiaste-te em Angola a viajar sem usar plástico, não foi?

Exatamente.

Podemos já falar disso. Que ideia foi essa e se foi muito difícil, Gonçalo?

O projecto em Angola era o projecto de poluição. E é aqui que entra o homem do lixo. Eu queria ser o homem do lixo. Eu não só queria honrar os meus antepassados, mas também queria concretizar os meus sonhos antigos.

Honrar os teus antepassados porquê? Tinhas algum familiar

Em Angola, também.

Que trabalhava na recolha do lixo?

Não. Quando eu era pequeno, queria mesmo ser homem do lixo. Eu via as pessoas que recolhem o lixo, e via como super-heróis. E estou a falar a sério.

E são!

Exato, e são super-heróis. E eu olhava para aquilo: "Eu quero fazer aquilo". Além de querer ser violinista e médico cientista, também queria ser homem do lixo. E em Angola há um problema que no mundo, não é só em Angola ou em África, é em todo o mundo, que é o excesso de plástico, depois afecta também em relação aos microplásticos que nós comemos.

Sim.

E eu em Angola decidi: "Ok, vou fazer um mês inteiro sem usar plástico. Vamos ver se é possível." Plástico descartável, que há certos tipos de plástico que é mais difícil. E fiz realmente os possíveis. Houve uma ou duas falhas que eu tive.

Ok.

Houve uma vez que...

Então vais partilhar isso tudo na segunda parte das Conversas do Fim do Mundo. Pode ser?

Combinado.

Fazemos aqui uma curta pausa, regressamos já a seguir. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte das Conversas do Fim do Mundo. Esta semana com o jovem viajante Gonçalo Monteiro, um dos mais jovens que por aqui passou. O Gonçalo tem apenas 23 anos. Pensou muito e lá se aventurou numa viagem de cinco meses e uns dias pelos cinco PALOP. Cada país tinha um tema. Em Angola, o Gonçalo lançou-se nesta aventura de tratar o tema da poluição e propôs-se a viajar por Angola sem usar plásticos. É possível viver sem plásticos?

É difícil viver sem plásticos, porque quando eu ia a algum restaurante, se eu pedisse um prato de carne, provavelmente essa carne vinha num plástico e eu não sabia. Mas eu sempre, quando eu cozinhava ou quando tinha a possibilidade de não usar plástico, eu não usava plástico.

Como é que fazias? Ias ao supermercado, por exemplo, comprar esparguete.

Sim.

Não compravas os esparguetes se vinha em plástico?

Não comprava o esparguete.

Mas isso é altamente limitador, não é?

É limitador, principalmente num país como Angola, que realmente há plástico em todo lado. Eu filmei um supermercado, que eu nem posso filmar os supermercados em Angola, mas fiz aquilo um bocado à paisana e era plástico em todo lado. Era mesmo quase impossível encontrar algo sem plástico, mas é possível. Depois não comia batata frita, não comia bolachas. As garrafas de água, eu levei um filtro de água, foi uma parceria que bebia sempre desse filtro de água. Portanto, o filtro de água filtrava as bactérias, os metais pesados. Eu podia beber água da torneira, portanto, aí estava safe. Mas de resto era complicado.

Tu comias comida fresca, foi isso que fizeste?

Sim, era comida fresca.

Só que é limitador, não é?

Sim, principalmente foi mais limitador quando fui pro deserto.

O deserto do Namibe.

Sim, que é também o deserto mais antigo do mundo. Eu, nesta viagem, em Cabo Verde eu não disse, mas eu estive com o meu pai. O meu pai foi lá visitar-me quando eu estive em São Vicente e aqui estive com a minha mãe. E nós fomos ao deserto, fomos com o grupo e a primeira coisa que me serviram foi um caranguejo e disseram que o caranguejo era ótimo. E eu olhava pra as pessoas a comer, mas não podia comer o caranguejo por quê? Porque estava embrulhado em plástico. É verdade.

Levaste a coisa mesmo a sério.

Sim. E depois, em relação à água, houve um dia em que eu tinha levado três garrafas de água, garrafas de água que não eram de plástico, e tinha programado as coisas à medida. Só que uma das garrafas partiu-se e eu fiquei só com duas e num dia foram-se duas garrafas à vida. E pro dia a seguir, nós íamos a um rio, eu podia ir lá encher o cantil, mas não tinha água pra esse dia, pra metade desse dia. E por causa disso, tive de aguentar meio dia no deserto sem água e fiquei completamente desidratado. E depois cometi um erro, que foi substituir a fruta pela água. Comi cinco fatias de mamão, cinco maçãs, isto tudo ao pequeno-almoço. Não sei quantas bananas, comi um monte de fruta. Resultado: tive de ir à casa de banho e realmente era um problema grave de estômago e ainda perdi mais água do que não tinha.

Foi uma lição que também ficou pra vida, não é?

Sim.

Olha, fala-me do deserto do Namibe.

No deserto ainda fez mais sentido o tema não plástico também, porque eu durante o deserto encontrei algumas focas e uma das focas estava enrolada numa rede de plástico. E quando eu olhei pra aquilo, ainda fez mais sentido. Dormi no meio do deserto, com amplitudes térmicas enormes.

Nunca tinhas estado no deserto, pois não?

Não, foi a primeira vez. Primeira vez no deserto. E é um deserto fantástico. Acho que foi das coisas mais relaxantes que eu tive durante o projeto, foi mesmo um alívio, pois eu não podia usar o telemóvel, não havia rede. Fiquei três dias sem usar o telemóvel e soube tão bem.

Fizeste um detox forçado, foi?

Sim, foi forçado, mas soube tão bem.

Olha, já agora explica-me lá como é que é pra um jovem de 23 anos viver três dias sem o telemóvel. Tu és nativo digital, não é?

Sim, sou. Viver sem internet pra um jovem de 23 anos, eu acho que é complicado, mas ao mesmo tempo, o primeiro dia é complicado e eu estava ali a ver se havia rede no telemóvel, mas depois eu estava no meio do deserto. Nem fazia sentido estar no telemóvel ou na internet. Tinha de aproveitar aquilo. E depois o segundo e o terceiro dia foram tão relaxantes. Não pensava em ir pras redes sociais. Eu não sou assim muito fã das redes sociais.

Sim.

Mas há sempre aquela altura do dia em que vamos pra redes sociais. E no meio do deserto, depois do primeiro dia, já não me vinha na cabeça. Só queria mesmo estar ali e viver aquele momento.

A realidade impôs-se, foi?

Sim.

Porque há essa dificuldade, não há? Entre os jovens de hoje. Já agora, desviando aqui um pouquinho a conversa das viagens, mas aproveitando que está aqui um jovem de 23 anos. Gonçalo, é difícil desligarem-se do mundo virtual os jovens hoje em dia?

Sim, é difícil. E, por exemplo, no meu projeto, eu tive que usar as redes sociais, que o meu objetivo também era inspirar outros, tal como eu fui inspirado. Mas eu sei que é através das redes sociais que as pessoas hoje em dia vão-

Comunicam.

Exato, e os jovens. E tive que fazer um esforço, porque eu não sou criador de conteúdo e sempre fui, por exemplo, contra o TikTok, mas tive que fazer esse esforço E realmente eu acho que nós jovens temos que pensar um pouco, não é preciso estar sempre no telemóvel, nem sempre na internet e quando estamos num grupo de amigos, por exemplo, às vezes eu vejo grupos de amigos em que estão todos ao telemóvel.

Nem se olham, não é?

Exato, isso pra mim não faz sentido absolutamente nenhum.

Ok, muito bem. Esta viagem terminou em Moçambique.

Em Moçambique.

Mas estiveste lá pouco tempo, não foi?

Estive pouco tempo. Fiquei cerca de duas semanas, mais ou menos.

Ok. Há diferenças entre os países? Há muitas, obviamente, mas gostava de te ouvir a ti, que percorreste estes cinco países africanos de língua oficial portuguesa. Que diferenças é que encontras entre cada um deles?

De todos eles, Cabo Verde é o mais diferente. Eu diria Cabo Verde, com pouco, faz mesmo muito. É um país que depois de vir da Guiné-Bissau, eu quando pisei em Cabo Verde, parecia um país superdesenvolvido, as infraestruturas, estradas estavam ótimas. E eu também vivi em Santiago, vivi numa parte em que eu não diria que era o oito, mas também não era o 80, ou seja, estava ali no meio. E realmente em Cabo Verde há esta classe média que não há nos outros países. Em Angola há uma grande discrepância entre o oito e 80. Na Guiné-Bissau, ainda é mais impactante. Em São Tomé, vive-se tudo um pouco assim no oito, mas é uma vida mais equilibrada. E em Moçambique também há este oito e 80. Em Cabo Verde, é um país que as pessoas também estudam muito e eu acho que é um país realmente muito diferente dos outros. Angola é um país que me diziam que eu ia ser assaltado.

Pois tu ias com muito medo, não é? De Angola.

Porque em São Tomé, houve um senhor que me disse que foi assaltado 18 vezes em Angola.

Ui, caramba!

A minha família angolana dizia que eu ia ser também assaltado, que havia essa possibilidade, os meus tios-avós. Mas não foi isso que aconteceu. Angola dá pra sentir a insegurança, em cada rua há um guarda armado em Luanda, mas eu andei sozinho com a minha mãe na rua e não me senti assim tão inseguro. E andei também à noite, não tantas vezes à noite, mas também andei e não aconteceu nada. E depois também há um preconceito que os angolanos dizem que são muito convencidos, também não acho nada, acho que são pessoas super cordiais. Eu acho que são muito cordiais e depois são supersimpáticos e não achei.

Tiveste a oportunidade de viajar por toda Angola ou não?

Sim, por muitos sítios de Angola.

País com potencial enorme, não é?

Enorme. Tem muitos recursos, é apenas desaproveitado.

Para além de ser gigante, não é?

Sim. Quem governa é que desaproveita Angola.

Mas isso é a história de toda a África, não é?

Pois.

Infelizmente.

Sim, eu acho que só mesmo Cabo Verde é que esquiva-se um bocado. É por isso também muita gente diz que Cabo Verde nem sequer é África. Mas realmente faz parte do continente africano e em termos de política é mais equilibrado. Mas Angola, viajei pelo país inteiro e vi coisas maravilhosas, paisagens magníficas.

Aí uma, é pra além do deserto do Namibe, que gostaste muito, não é?

Sim, a fenda do Naval. Estive nas quedas de Kalandula, que são as terceiras maiores da África. Estive nas Pedras Negras também, na Serra da Leba, em Menguela, e realmente foi espetacular.

Espetacular, não é?

Sim, eu chegava lá e abria a boca.

Boa. Olha, Gonçalo, o que aprendeste destes cinco meses a viajar por estes países africanos tão diversos?

Eu aprendi que nós devemos valorizar as coisas pequenas que nós temos. Por exemplo, nestes países, eu em quase todos eles, menos em Moçambique, vivi muito no oito. Portanto, muitas vezes tinha falta de eletricidade, falta d'água, em São Tomé era quase todos os dias. Tínhamos que tomar banho de garrafão d'água, mas ao mesmo tempo as pessoas, e eu também, eu estava mesmo feliz nestes países, porque era uma vida simples, uma vida em que falamos uns com os outros, com as pessoas das ilhas onde estive, dos países onde estive. E eu levo histórias de superação também, como eu disse, no caso da Guiné-Bissau, e também que é possível, e aqui também gostava de focar um pouco, que é possível viajar também de uma forma mais sustentável. Que eu em Angola fiz viagens de 16 horas de caminhonete, de 15 horas de caminhonete. Em Cabo Verde, fiz viagens de 10 horas de barco.

Uí!

E em Cabo Verde, também em São Vicente, fiz um duatlo caminhada, São Vicente, à ilha do meu pai, em que andei de bicicleta, em que corri e andei a percorrer a ilha, não usei qualquer transporte.

É jovem, isso não é pra todos.

Sim, não é pra todos. Mas, por exemplo, a bicicleta, usando uma bicicleta elétrica, é possível.

É possível. Olha, e em São Tomé andaste à boleia, não foi?

Foi à boleia, sim.

Não apanhaste aquele senhor de motorizada, que uma vez já foi referido aqui num episódio anterior, que não tinha travões.

Não.

Não apanhaste nada disso.

Não, queimei-me na moto.

Ah, queimaste?

Fui pro tubo de escape.

Ah, encostaste a perna no tubo de escape. Isso é um clássico. Não tens experiência em andar de moto, pois não?

Não, não tenho. E também houve algumas aventuras de moto, realmente um bocado assustadoras, mas em termos de boleias, aquilo era o máximo, andávamos sempre de boleia, eu e o meu grupo de voluntários Porque era a única forma que tínhamos sem pagar o transporte.

Mas porque não tinhas dinheiro ou porque o transporte é caro?

É porque eu para este projeto tinha um orçamento muito limitado.

E os são-tomenses dão boleia?

Dão boleia. Estando eu sozinho ou com os outros voluntários, dão sempre boleia. E é muito engraçado.

Boa dica, essa.

Sim, eu acho que é a melhor forma de viajar, depois conhecemos histórias novas, pessoas novas.

E é uma boa maneira de também conhecer os países, conversando com quem nos dá boleia.

Sim, é isso.

Espetacular. Olha, Gonçalo, estamos a chegar ao fim. Vamos fazer check-out?

Bora.

Vamos a isso. Então vou pedir-te para completares as habituais frases: na minha mala vai sempre...

Vai sempre uma câmera fotográfica, porque eu adoro tirar fotografias. E vai sempre o mini Eusébio.

Ah, tens um bonequinho?

Sim.

Uma figura de plástico, um Eusébio. Aqui está ele.

Um mini Eusébio.

Por quê?

Porque eu sou bem fichista. Acho que até um pouco ferranho. Aliás, em Moçambique, visitei o bairro de Mafalala, onde o Eusébio nasceu. É um bairro dos mais perigosos de Moçambique, mas fiz questão de ir lá e pisar o espaço onde o Eusébio pisou.

És mesmo ferranho, caramba.

Um pouco, acho.

"Um pouco, acho." Fazes bem. Gostas de futebol, é isso?

Gosto, sim.

Boa. A viagem com mais peripécias que realizaste até hoje?

Algumas viagens, mas eu acho que nesta viagem houve um dia em que foi um monte de peripécias. Isto foi em São Tomé. Primeiro, foram lá três senhores, disseram que era para mudar um tanque de água, mas o tanque já tinha sido mudado. Depois começaram a fazer toda uma conversa. Depois disseram que tinham falado com o Lai, e eu: "Ok". Se conhecem o Lai, era o organizador. Se conheciam o Lai, talvez não seja assim tão perigoso. Mas depois eu falei com uma voluntária e a voluntária passou o telemóvel para o Lai, e os senhores estavam a dizer que estavam a falar com o Lai, mas não estavam. E eu achei logo aquilo estranho.

Cheirou-te a esturro.

Exato. Fui para casa e depois comecei a ouvir passos.

Em casa?

Não em casa, mas eu tinha um mini quintal.

Nas imediações.

Sim. Tranquei as portas, depois passado um pouco saí e realmente eles tinham sido embora. Mas além disso, depois houve uma inundação, começou a sair água das paredes.

Na casa?

Sim, na casa. Depois uma pulga do pé entrou no meu pé e ficou lá, depois tinha de se tirar com alfinete e tiveram de ir lá uns motoqueiros desinfetar o alfinete para tirar a pulga do pé.

Tudo no mesmo dia?

Sim, uma tentativa de golpe de Estado, que evacuaram a embaixada portuguesa e tudo. Queimei-me depois no fogão e finalmente, antes de ir dormir, um rato na nossa cozinha estava a atirar a loiça toda para o chão. E eu só fui dormir.

Para pôr um ponto final nesse dia azarado. Muito bem. O carimbo de passaporte ou visto mais difícil a obter?

Não tive muitos. Na Guiné-Bissau, quando eu fui à embaixada.

Foi tudo fácil?

Sim, foi fácil. A única coisa que eu me esqueci foi do passaporte, portanto, tive que voltar lá no dia a seguir. Mas nada de especial.

Nada de especial. A recordação de viagem mais cara?

Há vários tipos de caro. Eu fiz uma subida ao Vulcão do Fogo, em que fui sem guia, e isso foi caro para a minha vida. Arrisquei um bocado.

Para o comum dos mortais é médio, é isso?

Sim. Em termos de objetos, eu normalmente não gasto muito no objeto, mas compro muitas coisas para a minha família, para os meus amigos. E eu tenho uma coleção de cachecóis de futebol e de cartas.

Cartas de?

Baralho de cartas. O mais caro é mesmo os cachecóis, acho.

Ok. De clubes de futebol?

Sim.

A refeição mais estranha?

Eu não sabia, quando eu estava a comer aquilo, já tinha bebido dois copos, isto foi na Guiné-Bissau, tinha bebido dois copos de grogue, já estava assim. Depois estava cheio de fome e ofereceram comida. Eu estava cheio de fome, comi. Depois passei o prato a outra pessoa e disseram: "Então gostaste do macaco?"

E soube-te bem?

Não era mau, mas eu nunca mais vou comer macaco. É demasiado próximo e aquilo causou-me uma confusão.

Se calhar até gostaste, mas depois de saber que era macaco.

Depois não.

Ok.

Eu fiquei traumatizado.

Olha, Gonçalo, gostavas de viajar com?

Eu vou escolher o Pedro on the Road.

O viajante português Pedro Moreira.

Sim, ele foi uma das grandes inspirações deste projeto. Por exemplo, quando eu fiz o duatlo por São Vicente, eu inspirei-me nele. E realmente, eu acho que ele é uma pessoa fixe. Eu já estive na apresentação do livro dele, estive num jantar também com ele. Não falámos muito, mas pareceu-me uma pessoa fixe e gostava de fazer uma viagem de bicicleta com ele.

Muito bem. Então olha, põe-te a treinar.

É isso.

Porque é preciso treinar muito.

Sim, eu fiz triatlo e ainda vou muitas vezes a pedal e tenho alguns objetivos para o futuro de viagens de bicicleta.

Muito bem. Faz e depois vem cá contar.

Combinado.

Gonçalo, chegamos ao fim. Qual foi a música que escolheste?

Eu escolhi "Petit Pays", de Cesária Évora, porque quando eu estava em Cabo Verde e ouvia esta música, a parte do "petit pays", da saudade, fazia-me lembrar de Portugal. E agora, quando eu estou aqui e oiço esta música, faz-me lembrar os países onde eu estive, onde eu criei realmente este impacto. Portanto, achei que fazia sentido.

Muito bem. A música também nos faz viajar, não é?

Sim.

E muito. Gonçalo, foi um gosto. Obrigado.

Muito obrigado.

Obrigado. "Petit Pays", música de Cesária Évora, a fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana. Já sabem, estamos de regresso daqui a oito dias. Sejam bons e boas viagens. Terra, povo cheio de amor, tem morna, tem coladeira. Terra, céu cheio de amor, tem batuque, tem funaná. Espalhado nesse mundo afora, sol, roche e mar. Terra, povo cheio de amor, tem morna, tem coladeira. Terra, povo cheio de amor, tem batuque, tem funaná. Oi, tanta saudade, saudade, saudade. Oi, tanta saudade, saudade sem fim. Oi, tanta saudade, saudade, saudade. Oi, tanta saudade, saudade sem fim. Lá nasceu bo é um estrela ki ka ta brilha, pi na mar bo é um areia ki ka ta moia. Espalhado nesse mundo afora, sol, roche e mar. Terra, povo cheio de amor, tem morna, tem coladeira. Terra, céu cheio de amor, tem batuque, tem funaná. Espalhado nesse mundo afora, sol, roche e mar. Terra, povo cheio de amor, tem morna, tem coladeira. Terra, povo cheio de amor, tem batuque, tem funaná. Petit país, je t'aime beaucoup. Petit, petit, je l'aime beaucoup. Petit país, je t'aime beaucoup. Petit, petit, je l'aime beaucoup.