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Sejam bem-vindos. Há muitas razões para partir de mochila às costas ou mala na mão rumo ao desconhecido. Uns vão para viver aventuras, outros para ver como vivem outros povos. Há quem vá atraído pela beleza de paisagens de cortar a respiração e há quem procure mergulhar no azul sem fim que são os nossos oceanos. E há até quem pratique a nobre arte de viajar, porque gosta somente de um determinado meio de transporte: comboio, bicicleta, moto, enfim, já tivemos de tudo por aqui. O viajante desta semana viaja para ver pássaros. Sim, pássaros, essas criaturas de asas. Olá, Augusto Faustino.

Olá.

Bem-vindo às "Conversas do Fim do Mundo".

Olá, João.

Augusto, se te disserem no calor de uma discussão: "Ó Faustino, vai contar pássaros." É um favor que te fazem, não é?

Sim, é um favor e é um motivo alegre para pôr a mochila às costas, como disseste.

Muito bem.

Para ver mais umas avezinhas.

Mais umas avezinhas. De onde é que vem essa paixão por viajar para ir ver pássaros, Augusto?

Vem de um prazer que eu sempre tive de estar no meio da natureza e de viajar também, só que não era feito de uma maneira organizada. Até certa altura era mais um aspecto daqueles todos que tu referiste ao princípio. Viajava para ver outras coisas, outros povos. E uma vez, casualmente, numa viagem à Índia, fui parar a um sítio espetacular, Bharatpur, que é uma cidadezinha relativamente próxima de Nova Delhi, entre Delhi, Agra e Jaipur. Nessa cidade há um parque muito especial e peculiar, que tem uma riqueza de aves brutal. Acabei por começar a olhar para as aves e a achar piada. Dentro do parque havia uma lojinha onde se vendia, entre outras coisas, um pequeno livro de identificação das aves, que comprei, e comecei a olhar para as aves. "E esta? E esta? E onde é que eu posso ver esta? E aquela?" E pronto, assim começou isto, que é quase uma doença.

Foi há quantos anos, Augusto?

Estamos a falar em 97.

97, muito tempo. Uau!

Portanto, já há alguns anos que fui infetado.

É uma doença, dizias.

É doença num bom sentido.

Pois, das boas. Daquelas boas.

Das boas, exato. Há boas doenças e más doenças. Esta é uma boa doença. E por que é uma boa doença? Porque indo atrás das aves levou-me a ir conhecer locais, pessoas e situações que muito dificilmente teria ido. E, por outro lado, fez com que conseguisse fugir um pouquinho desta viagem, que não sei se é bem viagem, mais ligada ao turismo das massas, de irmos todos ao mesmo sítio fazer as mesmas coisas. Há muito pouca gente a ir atrás dos passarinhos e isto fez com que eu pudesse ir ver sítios onde normalmente as pessoas não vão.

Muito bem, vamos ter a oportunidade de falar desses sítios. Gostava só de perceber a quantos países já trazido Augusto Faustino para ver pássaros.

Eu não te consigo dizer isso, porque eu não faço nunca as contas, não sei.

Mas tens uma ordem de grandeza, umas dezenas?

Sim, dezenas, 70, talvez 80. 70, talvez.

Uau! 70 países.

Sim. Depois também é porque não vamos comparar o Vaticano, vais ver pombos e pardais. Se fores ao Brasil, provavelmente poderias passar a vida toda sempre a ver espécies novas. Portanto, aqui o país acaba por ser uma referência política, geográfica. Eu tenho uma T-shirt que gosto muito, que tem uma frase que diz: "Birds see no borders." As aves não veem fronteiras, para as aves não há fronteiras. Isso é muito interessante, porque o país acaba por ser uma referência para nós humanos, mas para a natureza é um pouquinho irrelevante.

Não conta, não é?

Exato.

Não conta. Muito bem. Então isso já te levou a países tão diversos como, Augusto?

Portugal, que é um país incrível para ver aves.

É, para apaixonados de aves é um bom local.

É um bom país se considerarmos também os Açores, sobretudo os Açores e a Madeira, mas mesmo o continente também é muito interessante. Mas sim, claro, nada a ver com os países, por exemplo, da América do Sul, que é onde existe a maior biodiversidade.

E é mais colorida, não é? Também.

É muito mais colorida. Algumas zonas de África, sobretudo as zonas equatoriais, com as florestas ou do Sudeste Asiático também. Portanto, normalmente são zonas de maior biodiversidade, onde existe o maior número de espécies de aves e onde elas tendem a ser mais coloridas. Mas claro, também há sítios onde se vai para ver uma espécie. Cabo Verde, por exemplo, tem poucas espécies, mas tem algumas espécies que só existem lá, que nós chamamos de espécies endêmicas. Ou seja, tu se quiseres ver aquela espécie, tens que ir àquele sítio, às vezes àquela ilha.

E isso tu já fizeste? Já foste de propósito daqui de Portugal para um determinado sítio só para ver uma ave endêmica, Augusto?

Já, várias vezes.

Conta, qual?

Por exemplo, estávamos a falar de Cabo Verde. Há uma espécie muito interessante em Cabo Verde, que é a calhandra-do-raso. Como diz o nome, existe só numa ilha que não é habitada, a ilha é o Raso. E é muito interessante essa espécie. Essa espécie até acabei por vê-la num outro contexto também, porque ligado, por vezes, a esta coisa da viagem, por isso simples, para ir ver as espécies Eu sou veterinário, sou professor de veterinária e tenho alguns projetos ligados com o que eu chamo de patologia ambiental, ou pelo menos a tentativa de restaurar as condições ambientais mais favoráveis. E estive envolvido num projeto com a Associação Portuguesa de Proteção das Aves, que é a SPA. Aproveito aqui para fazer um pouquinho de publicidade, a Sociedade para o Estudo das Aves. Recomendo a todas as pessoas. É uma ONG portuguesa que trabalha para a proteção e para o estudo das aves que vivem em Portugal, mas que se associou a uma ONG cabo-verdiana, a Biosfera 1, neste caso, para melhorar o estatuto desta ave, porque ela existia neste ilhéu, o Ilhéu Raso, que é muito pequenininho, e que dependendo das condições climáticas, tem anos em que não há chuva, a população reduzia-se muito. E então decidimos fazer um projeto de translocar algumas destas aves, porque foi um ano em que choveu muito e que havia muitos indivíduos. Passamos para uma ilha também deserta ao lado da Ilha de Santa Luzia. E fizemos essa translocação. Mas antes disso, eu viajei para este ilhéu para ver esta ave que só existia lá.

A calhandra do Ilhéu Raso.

Do Raso, exatamente.

Do Raso, que é uma ave muito pequenina, tem 12, 13 centímetros.

Exato. Que é um bocadinho assim, não é das aves mais bonitas que existem. Agora, isto também é muito interessante. "Ah, é pouco colorida." Eu adoro, sobretudo, os pardais, é o meu grupo favorito, são os pardais, que a maior parte das pessoas não daria grande valor.

O que é que há de excecional para gostar de um pardal, Augusto?

A subtileza dos castanhos misturados com as cores, o facto de ao mesmo tempo de viverem ao nosso lado, passarem despercebidos e as pessoas não se aperceberem. Por exemplo, em Portugal existem, de verdadeiros pardais, três espécies. A maior parte das pessoas não os distingue. São aquelas coisas que estão desaparecidas à vista de todos. Eu gosto particularmente dessas situações que não são imediatas.

Muito bem. Então foste de propósito para Cabo Verde para descobrir ou para ver essa tal calhandra do Ilhéu Raso. Fantástico. Gostas muito de pardais, mas quem gosta de pássaros, onde pode admirar toda a sua variedade e todo o seu potencial cromático é mesmo a América do Sul, não é? Também já lá foste.

Sim, a América do Sul é o sítio onde existe uma grande biodiversidade.

Sul e Central também, não é?

Sul e Central, exatamente. Sobretudo porque para além do facto de ter a floresta, tem a Cordilheira dos Andes, na América do Sul, e também existe uma cordilheira central numa parte dos países da América Central, o que faz com que exista um gradiente ecológico, que vai desde as florestas a nível do mar, que vão subindo até às montanhas e eventualmente desaparecem as florestas, transformam-se em florestas de altitude e acabam por desaparecer, e depois temos florestas do outro lado. Se começarmos, por exemplo, na Amazônia, subimos, chegamos ao cimo dos Andes e depois descemos para o Pacífico, e de cada lado existem espécies diferentes. Existe uma quantidade de espécies brutais. À medida que se sobe na montanha, as espécies mudam e podemos ter o Equador, deve ter umas 1600 espécies.

O Equador, país?

O Equador, país, exatamente, que é um país pequeno.

1600 espécies de aves.

Imagina.

Está claro. Muitos ouvintes devem estar a questionar: "Mas o Augusto vai para esses sítios e está disposto a fazer o quê para ver uma determinada ave?"

Tudo.

Tudo?

Tudo. Desde subir a montanha mais íngreme, o que for preciso. Normalmente, há várias maneiras de fazer isto. Pode-se fazer da maneira mais fácil. A maneira mais fácil é contratar um guia e ele leva-te ao sítio. Existe neste momento já um chamado turismo ornitológico bem desenvolvido, em que tu podes sair daqui com tudo organizado e a pessoa vai lá mostrar, se for preciso até te leva ao colo e aponta-te com um ponteiro de laser para a ave, tu olhas, bates as palmas e vens-te embora. Claro que isso não tem metade da piada que te dará. Normalmente, o que uma pessoa faz é estudar onde é que ela existe, onde é que são as observações, onde é que foram feitas. Existem os trip reports, que são relatórios de observadores que já estiveram nesses locais e que dizem: "Olha, consegui ver aqui, nesta altura". Estudas as aves, estudas o canto, sobretudo importante na floresta, porque nas florestas o que acontece é que ouve-se muito, mas vê-se pouco. E conhecendo os cantos é mais fácil saber onde estão as aves. E vai-se para os locais e tenta-se estar atento e procurar.

Pois, espera-se.

Espera-se, ou caminha-se devagarinho, ou por vezes, por exemplo, para algumas aves, a estratégia pode ser caminhar rápido. Por exemplo, para as perdizes. Uma perdiz na floresta, se andar muito devagarinho, ela ouve-nos muito antes de nós a conseguirmos ver. Esconde-se ou caminha e foge. Portanto, das duas, uma: ou nós sabemos de um sítio onde ela costuma passar, sei lá, um regato que vai beber água, então sentas-te ali e estás duas ou três horas à espera, ou então para perdizes pode ser o caso mais fácil de tentar ouvir a voz, o canto, e caminhar rapidamente para ver se a apanhas. Há várias estratégias.

É uma ave muito assustadiça, é isso?

As perdizes dentro de uma floresta são extremamente difíceis de encontrar.

Ok.

E de veres. E depois existem umas outras aves que nós não temos cá, que existem na América do Sul, como existem umas com os nomes parecidos, são as pitas. As pitas são umas aves do Sudeste Asiático. Também existem em África. Têm umas cores incríveis. Podíamos chamar uns melros grandes, uns tordos grandes, que vivem basicamente no chão Mas são extremamente difíceis de ver, porque ou cantam de manhã e depois podem estar muito tempo silenciados e muitas das vezes a única coisa que se ouve são as folhas quando elas caminham ou saltam no chão. Às vezes nós estamos dois ou três dias e depois estamos ali 20 segundos a ver uma pita e isso enche o coração pra 20 anos. Tenho memórias para sempre, que vão desaparecer comigo, a não ser que haja um Alzheimer, que depois vai limpar algumas das memórias, mas memórias que vão ficar para sempre com a minha consciência de ter visto algumas destas aves.

Muito bem, espetacular. Esse desejo de ver pássaros, que já te levou a pelo menos 70 países, já te levou a sítios que são inacessíveis à maioria dos comuns mortais?

Sim e não. Não, no sentido que nós humanos vamos a todo lado. Hoje em dia é extremamente difícil encontrar um sítio onde não haja humanos ou pelo menos não tenham estado. Isto é uma das coisas que me faz um bocadinho de impressão, por um lado, porque por outro lado, também eu indo lá, também estou a fazer com que isso não seja. Mas os humanos têm esta coisa de estamos presentes em todo lado. Mas sim, levou-me a alguns sítios onde a presença humana é pouco evidente, onde há poucas pessoas. Como disse há bocado, por exemplo, essa ilha em Cabo Verde. Estava a passar férias em Cabo Verde e tive uma vontade. Soube que existiam uns ilhéus, na altura não tinham ninguém, não eram habitados, são os ilhéus Rombo. Os ilhéus Rombo estão entre a Ilha Brava e o Fogo. E eu pensei: "Isto deve ser espetacular, ser o único habitante de uma ilha". Estava na Fajã d'Água, que é um sítio espetacular, não sei se já estiveste alguma vez em Cabo Verde, se já estiveste na Ilha Brava. A Ilha Brava é particularmente interessante, uma ilha muito fora do circuito turístico em Cabo Verde, e a Fajã d'Água está no lado oposto onde chega o barco, portanto ainda há menos pessoas que vão lá, mas é uma coisa para dizer que parece que estás no Taiti. É mesmo incrível. E então eu passei lá uns dias, que era o único turista que lá estava, e então contratei dois pescadores para me levarem a estes ilhéus. Eles iam pescar, abandonavam-me lá na ilha de manhãzinha e depois voltavam à noite ou ao entardecer para me vir buscar, para eu ter esta experiência de ser o único habitante de uma ilha. Claro, também era interessante, porque nesta ilha existe uma série de colônias de aves marinhas, como não existem pessoas, portanto, as aves vão lá nidificar, também era uma oportunidade para ver os ninhos.

Ok, então tu foste lá.

Fui lá, estava lá a passear. A certa altura, eu andava com os binóculos a ver e a certa altura, por acaso, olhei pra enseada onde tínhamos desembarcado e o barco já lá estava. Ainda faltavam umas horas pra hora combinada, o barco já lá estava com os dois pescadores a esbracejarem um bocado desesperados por mim. Eu vi que estavam a tentar chamar, encaminhei-me rapidamente, aquilo ainda demorou uns 40 minutos, porque ainda demora um caminho. Não há caminhos, era um bocado articulado chegar lá. Cheguei lá e eles estavam muito aflitos, porque o mar estava a se alterar completamente, portanto estava se a aproximar uma tempestade e nós tínhamos que fazer o caminho de volta. Aquilo podia ter corrido muito mal, porque efetivamente desatou uma tempestade. Obviamente, eles tinham pouco combustível no barco, tinham colocado combustível suficiente pra uma viagem normal, não para vencer ondas de quatro e cinco metros, que foi aquilo que começou a aparecer. Para dizer, quando chegamos à Fajã d'Água, estava a população já toda no cais, à espera. Chegamos já de noite. Foi horrível. Foi uma das poucas vezes na minha vida em que pensei que aquilo ia correr mal. Perdi o equipamento fotográfico todo, porque o barco encheu-se de água. Foi uma tragédia. Mas valeu a pena, porque durante quatro ou cinco horas fui o único habitante de uma ilha. Tive aquela sensação.

Foste o rei da Fajã d'Água.

Não era da Fajã d'Água. A Fajã d'Água era a aldeiazinha de onde eu saí.

Ah, ok.

Era o rei dos ilhéus.

Do ilhéu. Foste rei do ilhéu durante umas horas.

Ilhéu de cima.

Ilhéu de cima. Muito bem, espetacular. Faustino, estamos aqui a chegar ao final da primeira parte. Vamos abrir o álbum de viagem. Augusto Faustino, guardas contigo algum objeto que tenhas trazido das tuas viagens e que seja especial?

Guardo vários, mas há um em especial que, no fundo, ele veio ter comigo, não fui eu que o trouxe. É uma carta. Foi uma carta que me foi enviada por um nepalês, o Bi, porque ele tinha o nome tão complicado que eu tratava só pela primeira letra, não conseguia pronunciar o nome dele. O Bi vivia numa aldeiazinha ao lado de um parque que existe na base do Nepal, no Tarai. A maior parte das pessoas vão ao Nepal pra ver as montanhas, os Himalaias, são espetaculares, mas isto fica na parte plana, junto à Índia. Ele vive ao lado deste parque Bardiya e era, estamos a falar em 2000, um especialista em mamíferos. Aqui uma coisa importante: no Nepal, ao contrário da Índia, onde não se pode caminhar nos parques naturais onde existem tigres, é possível no Nepal. Então, juntamente com este guia, tive a oportunidade de andar ao lado de tigres, de elefantes e rinocerontes, que é uma experiência completamente diferente. O Bi conhecia os mamíferos muito bem, mas não conhecia nada de aves. Eu expliquei, fui lhe ensinando um pouco quais eram as aves. Estávamos a ver, eu andava com o telescópio, mostrava-lhes as aves e ele ficou muito agradecido. Quando eu cheguei a Katmandu, saí de lá, comprei um guia das aves do Nepal e enviei. Isso foi uma viagem grande que eu fiz, estive quase um ano fora. Quando cheguei à casa dos meus pais, em Portugal, na altura vivia na casa dos meus pais, a minha surpresa foi que tinha uma carta do Bi a agradecer-me o livro das aves que eu tinha enviado. Aquilo foi muito enternecedor, porque obviamente estava escrito em inglês, mas ele não dominava o alfabeto, então era praticamente desenhada a carta. Não era uma escrita, era um desenho, que eu não sei como é que ele fez para fazer aquilo. Eu guardo essa carta religiosamente como uma das melhores.

Muito bem, como prova da gratidão desse nepalês que agradeceu. Muito bem, espetacular. Bom, vamos fazer aqui uma curta pausa na conversa do "Fim do Mundo" desta semana com o Augusto Faustino. Passamos já a seguir a uma curta pausa. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte das conversas do "Fim do Mundo", esta semana com o viajante Augusto Faustino, professor universitário de veterinária. Viaja, entre outras razões, mas sobretudo para ir conhecer pássaros, para ver pássaros. Augusto, também já aderiste à moda das lentes teleobjetivas e fotografar tudo o que é bicho que voa?

Que voa e que não voa.

E que não voa, porque há os que nunca saem da terra.

Há outros que não voam, mas eu também gosto do resto da natureza. As aves pra mim são o chamariz principal, é o meu objetivo, mas gosto de ver os bichos todos. Gosto de tirar fotografias. Para tirar as fotografias das aves tens que ter um equipamento especial, tens que ter uma lente teleobjetiva, 500 milímetros é o ideal. Claro, não tenho daquelas coisas, não sou profissional, as fotografias que eu tiro é pra mim e pra mostrar aos meus amigos. Mas sim, vou. Agora já um pouco menos artilhado, porque antigamente ainda andava com o tripé e com o telescópio.

Ah, ok. Agora já não vais nesses números. E com o gravador. Gravavas o canto das aves.

Exatamente.

Para depois incluíres em bases de dados?

Em base de dados ou para meu gosto, depois em casa. Antigamente, tinha um gravador de cassetes. Agora já existem aqueles gravadores digitais que são muito mais levezinhos, ou melhor, neste momento até quando faço gravações é com o telemóvel, porque já nos acompanha pra todo lado. Mas as primeiras vezes eu chamava a mim próprio uma árvore de Natal, porque estava cheio de coisas penduradas. Parecia o gravador, o telescópio, os binóculos, a máquina, parecia uma árvore de Natal.

Isto tudo tu fazes em que registo? Viajas sozinho, Augusto Faustino?

Depende muito das situações. Eu gosto muito de partilhar a minha existência e, entre elas, eu gosto também de partilhar as coisas boas, de preferência. Sempre que posso, vou com amigos. Às vezes não acontece e vou sozinho, também não me importo, mas prefiro ir com outras pessoas. Muito raramente, uma ou duas vezes, fui com grupos organizados no sentido de contratar uma agência de viagens especializada, que já tem uma viagem organizada pra aquele sítio, e então vais encontrar pessoas que não conheces de lado nenhum. Isso é muito raro, não gosto muito.

É muito raro.

É muito raro.

Quantas espécies de aves é que já avistaste até hoje, Augusto Faustino?

Isso é um segredo. A maior parte das pessoas não gosta de dizer, mas eu não me importo.

Mas por que é um segredo?

Porque a maior parte das pessoas são muito competitivas, e então se tu revelas o número que já tens, dás a possibilidade aos outros de ultrapassarem. Se ninguém souber.

Ah, ok. Não fazia ideia que os avistadores de aves eram tão competitivos.

Há uma competição enorme. Para mim, isso não faz muito sentido. Ou melhor, não faz sentido pra mim, pode fazer sentido, cada pessoa encontra o seu sentido na existência. Esse número varia um pouco. Não existe um número único de aves, de espécies. Algumas aves podem ser consideradas subespécies, dentro da mesma espécie, dois grupos diferentes. Para outro classificador, já podem ser duas espécies diferentes. Não existe um número definido.

Ok. Mas grosso modo, dirias que já avistaste quantas aves?

Grosso modo, estou entre 5500, 5600.

Ui, isso é muito.

Das 11 mil, ultrapassei metade das espécies. Estou um pouco acima.

Ainda te falta então metade, não é?

Exatamente.

E qual foi a mais rara que viste até hoje?

A espécie mais rara que eu vi até hoje é uma espécie que existe no Brasil. É uma espécie muito pouco vistosa. Chama-se Entufado Baiano, em português.

Entufado Baiano, ok. E por que é tão difícil avistar este pássaro?

Porque só há três que se conhecem.

Ah, só há três quê? Três exemplares?

Exatamente.

Em todo o mundo?

Só existe neste sítio na Bahia, que é uma pequena colina que ainda tem floresta nativa e o resto foi tudo cortado para cana de açúcar. Tu viajas quilômetros e quilômetros numa plantação infinita de cana de açúcar pra chegar a este sítio, que tens um montezinho com um pouco de floresta e lá encontras os três últimos espécimes do Entufado Baiano. É uma coisa um pouco triste por um lado, porque uma pessoa vê o bicho e sabe que provavelmente já não vai voltar. Agora também há a possibilidade de noutra florestazinha que se calhar nunca ninguém foi lá ver, possam existir mais alguns. O problema é que andando ali à volta é muito difícil encontrar florestas, porque elas foram todas cortadas naquele caso específico para a cana-de-açúcar.

Augusto, explica aqui a este ornitofóbico que conversa contigo.

É uma pena, porque as aves são verdadeiramente lindíssimas. E depois usam os mesmos sentidos que os humanos. Imagina, por exemplo, um animal que usa o sentido do cheiro para comunicar. Normalmente são pouco vistosos, porque para eles o importante é ter um cheiro muito intenso para os outros o reconhecerem como forte, como vigoroso. As aves não, os sentidos principais das aves são a visão e o ouvido, que são os nossos sentidos principais também. É por isso que nós conseguimos comunicar e impressionarmo-nos por elas tão facilmente. E portanto, são espetaculares. Se tu vires o voo de uma andorinha, por exemplo, eu tenho a certeza que podes não gostar de aves, faz-te impressão a proximidade, mas se eu te mostrar uns binóculos uma andorinha a voar, a beber água, a bater na água para levantar as gotas, para apanhar a gota no ar, tu vais ficar impressionado, certamente.

É essa subtileza que te maravilha nas aves.

Sim, depois o facto também de poderem voar, as migrações. E depois também o fato de ser fácil de ver. Vamos imaginar que nós agora iremos para o Brasil para tentar ver mamíferos. Saías de uma viagem de um mês no Brasil, muito dedicada, conseguias ver 20, 30 mamíferos, talvez. E alguns não conseguias identificar bem, porque os ratinhos tinhas que ver a dentição. Nunca vais conseguir ver a dentição de um ratinho para identificar a espécie na natureza. Aves vais regressar com 300 espécies novas que conseguiste ver. Portanto, é muito mais fácil observarmos as aves do que observarmos um mamífero ou um réptil. São muito mais vistosos, são muito mais evidentes e, portanto, é mais fácil ver um número grande de espécies.

Ok, já agora isso leva-me à pergunta, há aves em todo o planeta, certo?

Sim, as aves são ubíquas, sim, em todo lado.

Ok, inclusive nos polos?

Inclusive nos polos, exatamente. Tens os pinguins no Polo Sul, por exemplo.

Pois. Esquecemos sempre dos pinguins, não é?

Exato, os pinguins, que são espantosos. As pessoas dizem que os pinguins não voam. Eles voam dentro d'água. E no Polo Norte também tens gaivotas que vão praticamente até ao Polo Norte.

Incrível. Aos polos nunca foste, pois não?

Aos polos, verdadeiramente, não. Já estive no Ártico. No Ártico, uma vez fiz uma expedição à Chukotka. A Chukotka seria o Alasca russo. Inscrevi-me numa expedição organizada pela Academia de Ciências Russa, que estava a fazer um levantamento das aves. E também há uma ave que se chama o pelrito-colhereiro, uma ave muito interessante, que nidifica nessa zona e está em grave risco de extinção, porque ela depois no nosso inverno, migra para zonas pantanosas no Sudeste Asiático. Essas zonas de pântanos do Sudeste Asiático têm muitos problemas de conservação, porque se imaginarmos a China, o Vietname, são zonas onde houve um crescimento humano muito grande e, portanto, essas zonas desapareceram. Muitas foram transformadas para a agricultura, para os arrozais, etc. E, portanto, esta ave teve um declínio enorme. Então havia esta expedição para as zonas de nidificação na Chukotka. E então não foi verdadeiramente no polo, mas era na zona da tundra, onde já não existem florestas.

Ok, e o que se vê por aí?

Aí é espantoso, porque tu tens as aves todas que migram, que vão lá passar o nosso verão. Por quê? Porque existe um recurso muito grande de alimentação, que são mosquitos, existem milhões de mosquitos. Existe um dia que nunca acaba, portanto elas podem alimentar e procurar alimento durante todo o dia, que são 24 horas. E depois também existem menos predadores, porque só os predadores que migram para lá é que estão ativos. Lá no inverno, pouquíssimas espécies permanecem lá. Portanto, para estas espécies é útil correr os riscos de uma migração para ter o maior sucesso a terem os filhos, que têm que se desenvolver rapidamente e vir embora. Portanto, eu estive cerca de dois meses nesta expedição e era um território incrível, porque imagina, a província da Chukotka tem o tamanho da França e tinha 30 mil habitantes.

Uau!

Isto era na capital, a zona da Anádyr, depois fomos para uma província que se chamava Beringovski, no estreito de Bering. Beringovski, a província tinha o tamanho de Portugal, mais ou menos, e tinha 3 mil habitantes, dos quais 1500 viviam na cidade, depois os outros 1500 estavam espalhados numa zona do tamanho de Portugal. Sem uma única estrada, não há estradas. Portanto, ali movimentávamo-nos com um tanque militar adaptado, que andava lá pelo meio dos pântanos, que tinha que ter uma autorização especial, porque no verão é proibido, eles só circulam no inverno e circulam onde? No mar, porque o mar congela. Então vão com o tanque para o mar e ele é sempre a andar para a frente. Ali não, agora no verão aquilo era... E então fomos ter a uma comunidade de pescadores que pescava salmão para retirar as ovas para o caviar.

Ah!

E foi uma experiência incrível, porque eu estava perdido num sítio. Fui adotado por uma avó Chukchi, que é o nome do povo lá, que no fundo são parecidos com os Inuítes. E pronto, ela alimentava-me todos os dias de manhã, o meu pequeno-almoço eram ovas de salmão Mais uma memória que ficou. É uma experiência. Não é verdadeiramente o Ártico, porque ainda existe vegetação, etc.

Mas é gelado, não é?

Sim, e há permafrost. Tu escavas meio metro e tens gelo por baixo.

O permafrost que é aquele solo sempre congelado, não é? Isso é uma história boa, foste bem recebido, mas já deves ter vivido experiências negativas, ou não, Augusto Faustino?

Muito raramente.

Na procura de pássaros. Conta lá uma.

Tive uma experiência negativa, por exemplo, uma vez que estava no Peru, na Amazônia peruana e sem saber fui dar a uma plantação de coca. E obviamente que o agricultor, vendo-me chegar com máquina fotográfica e binóculos, não gostou nada da ideia e então tive que, com uma grande desculpa: "Não há problema. Mirar aves." Tentar escapar e lá consegui escapar muito rapidamente.

Eram as chuleiras da DEA americana, daquela agência.

Da DEA ou outra coisa qualquer. É interessante porque no Peru a coca não é proibida. As folhas de coca são legais e pode-se comprar em qualquer lado, nos hotéis em Cusco, masca-se. O que é proibido é transformá-las em coca.

Ok.

Obviamente, este senhor tinha medo que fosse uma coisa qualquer, porque aquilo era ilegal, se calhar cortou a floresta de maneira ilegal. Não sei. Mas onde é que eu queria chegar? É incrível para os sítios todos onde eu já estive, as poucas vezes em que tive situações negativas, normalmente estão ligadas ou com essas atividades ilegais. Lembro-me de outra vez nos Camarões, também estava a comer num restaurante e ao lado, numa estrada que atravessava a floresta, estava uma pessoa embriagada a dormir e acordou a certa altura e viu que eu estava aos binóculos. Tinha binóculos comigo e entrou-lhe na cabeça que eu andava a fazer uma prospecção de minério, não sei por quê. E então insistia que eu tinha que lhe pagar, porque ele era o responsável por aquela terra e como andava a fazer prospecção de minério, tinha que lhe pagar. Mas obviamente porque estava embriagado. Eu acho que a maior parte das pessoas são boas, os seres humanos são bons, porque senão viajar era praticamente impossível.

Pois, se fosse uma atividade perigosa, ninguém viajava. Tu nunca tiveste problemas, então.

Muito raramente.

Muito raramente.

Muito raramente. A única vez que fui assaltado com violência foi em Maputo, ao lado do Palácio do Presidente da República. E mais uma vez eram dois miúdos que eu acho que estavam semi-narcotizados, com cola ou uma coisa qualquer, não sei muito bem. Acho que normalmente são franjas. As pessoas, regra geral, são boas.

São boas. Muito bem. Olha, Augusto, estamos a ficar sem tempo, estamos a chegar ao fim. Vamos fazer o check-out?

Vamos.

Vou pedir-te para completar as habituais frases: na minha mala vai sempre...

Os binóculos.

Binóculos. Não passas sem ele. Um caçador de aves.

Sinto-me nu sem os binóculos. Claro, essencial também o passaporte e o cartão de crédito, mas os binóculos têm que estar sempre presentes, mesmo na viagem mais curta e mais simples. Não passo sem eles.

Isso. A viagem com mais peripécias que realizei até hoje.

Provavelmente ao Uganda. Desde ter pela primeira vez na minha vida sentido disparar uma Kalashnikov ao meu lado, até termos tido um acidente que destruiu o carro e termos que fazer parte da viagem, em vez de num automóvel, estava com um amigo meu, ou uma vez tivemos que alugar duas motas enquanto o carro estava a arranjar, então andámos três dias sentados atrás de dois senhores de mota com as mochilas todas, a ter que depois apanhar um barco. Foi uma coisa cheia de peripécias que aquilo parecia que cada dia que passava ia acontecer uma coisa nova e diferente.

Valeu a pena?

Valeu a pena. Adorei.

É um país também rico em aves, não é? Uganda.

Uganda é espantoso em aves, é espantoso também na cultura e também em mamíferos. É um bom sítio pra ver tanto chimpanzés como gorilas. É espantoso.

Muito bem. O carimbo de passaporte ou visto mais difícil de obter, qual foi?

O mais difícil de obter foi aquele que não consegui obter, ou melhor, que eu obtive depois de ser necessário. Foi uma viagem que tentei fazer ao Tajiquistão. Eu estava no Uzbequistão e portanto a partir do Uzbequistão tentei ir ao Tajiquistão. Achava que tinha conseguido através da internet. Isto foi pouco depois da história do Covid, estamos em 2022. Só que com as confusões todas do Covid, etc., aparentemente houve um problema na emissão do meu visto. Eu ainda fui à fronteira do país, numa impressão que tinha o visto, afinal não era o visto, era a intenção do país em dar-me o visto, portanto, o visto ainda não existia e apesar de grandes discussões, quase cinco horas na fronteira, tive que voltar pra trás, portanto, nunca consegui entrar no Tajiquistão.

A recordação de viagem mais cara?

A recordação de viagem mais cara que tenho são as espécies que não consegui ver.

Ok.

Paradoxalmente, são aquelas que ficam a pensar: "Como é que eu vou ter que fazer agora pra ver esta?" E portanto, são a fonte de novas viagens.

Boa, já tens alguma em carteira?

Eu tenho sempre muitas em carteira, as metade que me faltam. A última viagem que fiz foi com um grande amigo meu, fomos a Marrocos E tinha em Marrocos três espécies que queria ver e uma delas não consegui ver, uma abetarda. As abetardas são aves maioritariamente terrestres.

Encontramos em Castro Verde.

Em Castro Verde, exatamente.

Aqui no Alentejo. É o símbolo, aliás, de Castro Verde.

Exato, essa é a abetarda-grande, a nossa abetarda é lindíssima. Eles têm uma abetarda a que chamamos em português abetarda-do-deserto ou ubara, que é o nome árabe, que está em perigo de extinção, sobretudo por causa da caça, porque os árabes adoram caçá-las com a falcoaria, com os falcões. Então vêm os xeiques dos Emirados e do Qatar, vão para Marrocos.

Caçar abetardas.

Exatamente. E então é extremamente difícil ver uma. Andámos uma semana para trás e para a frente, não conseguimos ver e agora vou desistir de Marrocos, porque esta é a terceira vez que tento ver as abetardas em Marrocos e não consigo.

Óptimo.

Portanto, vou vê-las num sítio mais fácil, muito provavelmente nas Canárias, em Fuerteventura, que existem também lá e lá são mais fáceis porque não deixam os xeiques irem lá caçá-las.

Ok, boa sorte.

Obrigado.

A refeição mais estranha, qual foi?

A refeição mais estranha que ingeri não é verdadeiramente uma refeição, é o pão que se come na Etiópia. E o estranho da situação é que, aconteceu na primeira vez que fui comer ao restaurante, quando cheguei à Etiópia, pedi um prato de carne, uma carne cozida, e o senhor chegou, espalhou o que eu pensava ser a toalha na mesa e pôs um monte de carne no meio. Eu fiquei a olhar para aquilo e comecei a comer a carne directamente. E ele olhou para mim e disse que não. O que eu pensava que era a toalha era o pão. Portanto, o pão é estendido, que é a tal injera, é estendido na mesa e tu vais ratando a toalha e com esses fragmentos vais tirando a carne e vais comendo o pão com a carne lá dentro. Não é verdadeiramente o sabor, o sabor bom, o pão é bom. Não é tanto o estranho do sabor.

Sim.

É pelo aspecto de tu estares a comer a toalha. Achei divertidíssimo. Um país que eu recomendo verdadeiramente.

Etiópia.

É fantástico.

Gostava de viajar com? Augusto.

Com qualquer pessoa que goste de aves e que goste de liberdade e de horizontes. Mais do que a pessoa em si, eu gosto muito de partilhar as minhas viagens e as minhas experiências, porque acho que a vida faz mais sentido quando é partilhada do que uma experiência solitária. E portanto, se houver estes pressupostos de liberdade e de gosto de horizontes e ultrapassarmos os horizontes, adorava viajar com qualquer pessoa.

Muito bem, ótimo. Augusto Faustino, qual foi a música que escolheste para fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana? Deixa-me adivinhar, são os Eagles.

Não são os Eagles.

Não é o Seal também.

Também não é o Seal, mas é um autor que gosto particularmente, por isto que acabei de dizer, por falar da liberdade e falar de horizontes, que é o David Bowie. Desde a minha juventude sempre me ajudou a olhar para a vida como uma coisa livre e que temos que explorar os nossos limites e ultrapassar, não nos deixar aterrorizar pelo medo dos horizontes. O disco que eu mais gosto é o "Low" e dentro do "Low", o "Sound and Vision" viria ser a música que nos podia acompanhar no encerramento desta nossa conversa.

Fantástico. É uma música que, de resto, passa aqui na Rádio Observador. Augusto Faustino, foi um gosto. Muito obrigado.

Obrigado eu pela possibilidade e foi um prazer também.

Ora essa, muito obrigado nós. "Sound and Vision", música de David Bowie, a fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana. Estamos de regresso hoje oito dias. Já sabem, sejam bons e boas viagens.