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Sejam bem-vindos. O viajante desta semana dá-lhe forte no pedal e há muitos anos. Em cima da bicicleta ele já fez o Portugal Divide, ou seja, foi do ponto mais a norte ao ponto mais a sul, passando pelo ponto mais alto, o mais a leste e o mais a oeste do país, o North Cape 4000, ou seja, 4000 km a pedalar até ao Cabo Norte. Já atravessou as terras do Tio Sam, o Race Across America, do Pacífico ao Atlântico, façanha parecida na Europa com o Race Across Germany, pedalou os mais de 1000 km do mítico Paris-Brest-Paris. También já correu o Cape Epic, na África do Sul, crazy. E no último verão voou para o Quirguistão para participar na Silk Road Mountain Race, uma corrida de quase 2000 km com um total de 30 mil metros de subidas e descidas em estradas milenares de terra batida e que atravessam montanhas, rios e lagos. João Pombinho, bem-vindo às conversas do Fim do Mundo.

Olá, muito obrigado pelo convite.

Ora essa, grande atleta. Mais ou menos, dirás tu.

Talvez. Não tanto um viajante, embora desfrute muito dessa vertente e tenha incorporado isso sempre que possível nas últimas escolhas de provas.

Muito bem. Vamos começar por esta última. Eu fiz aqui um pequeno resumo. Tu fizeste mais coisas em cima das tuas várias bicicletas. Sei que tens várias, não é?

Sim.

Mas vamos começar por esta última referida aqui na introdução, o Silk Road Mountain Race, 2000 km a pedalar no Quirguistão, em autonomia total. Ias sozinho, tu e a tua comida, mais nada.

Os meus pensamentos.

E os teus pensamentos. E uma paisagem deslumbrante, não é?

Absolutamente deslumbrante. O país não é, de forma nenhuma, um deserto. Às vezes há algumas ideias pré-concebidas sobre todos os "istãos" que há ali naquela zona. É um país lindíssimo em termos de beleza natural e é um verdadeiro paraíso para viajantes de aventura, hikers, malta de bicicletas, cavalos, o que seja.

Porque tem grandes vales, tem grandes rios e grandes montanhas.

Tem sobretudo variedade. Tem variações de altitude súbitas, às vezes em 15 km. Costuma-se dizer, não começando do fim, mas uma história particular na chegada foi que estava na Terra de Karakol e do nada, aquilo que eu imaginava que fosse Bagdá, uma coisa extremamente árida, e de repente olho para o lado e vejo uma placa a dizer "ski resort". E eu: "Isto não bate certo."

Ski resort?

Sim, a verdade é que a 15 km de distância, estávamos aos 4000 metros e portanto, nesta altura, aquilo está carregadíssimo de neve. Se juntarmos a isto o facto de nesses vales e mesmo no verão-

Nesta altura, verão cá.

Foi em agosto, exatamente. E acompanha grandemente a latitude, acho que não tem uma variação muito grande da nossa. A diferença, claro, é a altitude e aí sim, permite-nos encontrar tão depressa paisagens completamente áridas, quase lunares, em altitude, como depois nos vales, alguns vales perfeitamente verdejantes, quase uma mini Suíça com cavalos a correr por todo lado.

Uau!

Eu não imaginava. E de repente vemos um lago completamente azul, dois dias depois um lago completamente verde, aquelas joias fazem lembrar pedras preciosas.

É engraçado porque nos vídeos e em toda a promoção que acompanha a Silk Road Mountain Race, isso não é mostrado, é sempre mostrado um Quirguistão muito árido, muito cheio de pedras e muito arenoso. Areia grossa.

Tento um pouquinho deixar isso como, não digo uma surpresa, mas não destrinçar logo. Ou seja, ficam algumas coisas para descobrir. Obviamente que quem tem interesse já viu alguns race reports, já foi procurar sobre o país e já viu em avanço algumas dessas coisas. Mas eu diria que sim, na promoção da prova, ela vive muito à conta de ser tida como uma das, senão a prova fora de estrada mais dura do mundo. Em autonomia, o organizador Nelson Trees faz um pouco por isso e por merecer esse estatuto, tanto que vai variando o percurso ao longo dos anos e vai evoluindo também para manter essa particularidade.

Quanto tempo demoraste a fazer os 2000 km?

Isto é quase vergonhoso. Eu não tenho a certeza absoluta, mas acho que foram 13 dias e qualquer coisa.

Por que é vergonhoso?

Devia lembrar, não é? Uma coisa realmente emblemática, a verdade é que eu virei última noite e não me lembro se foi do 13º para o 14º dia. Creio que sim.

Tu és responsável pela tua comida, se bem que há abastecimentos a meio ou não da prova.

Abastecimentos, na aceção mais benigna do termo, não há. Há checkpoints, há três checkpoints durante a prova. Sensivelmente aos 500, um pouquinho antes, na realidade, depois pouco antes dos 1000 e aos 1800. Nesses sítios há comida disponível, mas a verdade é que em três, nos dois primeiros, temos direito a um prato. E então nós vamos famintos quando lá chegamos, não chega para nada. E que normalmente a comida é diversificada o suficiente. É refrescante ter aquele sabor, ter de repente um bocadinho de tomate fresco, etc. Porque nós tipicamente já andamos há dias a viver de pequenas mercearias de beira de estrada, quando as há, nas terras pequenas, ou de comida desidratada que levamos.

O que é que se come durante uma prova destas, João? Nessas mercearias. É o que aparece?

As mercearias são algo surpreendentes. Foi uma das coisas que me fez mais impressão antes do que se come e o que se bebe. Demorei alguns dias a adaptar-me, não se encontra água lisa naquelas mercearias, encontra-se água com gás.

Ok.

E encontram-se, surpresa, 15 variedades de bebidas energéticas. Ou seja, não há água lisa, mas há todas as cores do arco-íris de bebidas com tauringa e tudo o que possa imaginar no meio de um país algo subdesenvolvido.

Água com gás não serve, não é? Para um ultraciclista.

Para além de saber mal, ficar quente rapidamente, meter aquilo no camelback como imaginas com a trepidação, é terrível, faz uma bolha de ar E é super difícil de gerir.

E enjoo estomacal, não é?

É o último caso. Também quando chega lá a sensação é de chacoalhada. O truque da água lisa é simples. Eu, uns dias depois, antes de fazer a pergunta parva, inibi-me de a fazer porque percebi. Iam apontar para fora da mercearia e dizer: "Tonto, há ali um rio, por que não bebeste ali?" E a verdade é que toda a água lisa, mais de 90% da água lisa que bebi durante a prova, foi adquirida a partir de ribeiros, riachos, lagos, obviamente sempre com alguma forma de purificação. Tipicamente com um filtro mecânico, de compressão de malha, um filtro por vezes químico também, com algumas pastilhas. No último caso, quando a água era muito má, tinha que ferver também até que ela estivesse num estado consumível.

Onde é que dormiste nesses 13, 14 dias?

Dormi duas ou três vezes debaixo de telha, em alojamento. Havia casos em que passávamos próximo o suficiente de localidades para dormir em casas de hóspedes. A maior parte das vezes foi em tenda. Tive claro a tenda, sacama, o setup completo. E essas eu diria que foram as partes mais de aventura.

Muito bem. Quirguistão, tiveste a oportunidade de ver o país durante a prova, João?

Tive amostra o suficiente para querer lá ir, mesmo à margem da prova. Despertou uma curiosidade, quis e faço tenção de viver o país provavelmente com os meus filhos, com a família, de uma forma diferente, num registo também mais slow travel, porque acho que tem tudo isso para desfrutar. Por vezes, durante a prova, a vontade era muito grande, parava à beira de um lago e dizia: "Quero fazer um café e passar aqui duas a três horas a desfrutar, a tomar um banho". Senti um pouco falta dessa paz de espírito. Por outro lado, a prova tem muitas coisas boas, por ir no registo de prova, obriga-nos a ter um rumo e a não relaxar, o que também tem o seu quê de positivo.

Uma disciplina de seguir.

Sim. Mas para desfrutar o país eu sinto claramente que ficou aquém, o que é dizer bem do país. Em muitos sítios eu diria: "Fiz em regime de corrida, mas não é assim tão bom que eu voltasse cá noutro regime." Não é o caso. Deixei ali um conjunto grande de bookmarks. Vê-se ali tipos de pessoas diferentes, pessoas mais urbanas, pessoas in the wild, sei lá, a três, quatro, cinco quilómetros em casas que não têm rigorosamente nada à volta.

Sim, há nomadismo no Quirguistão.

Aliás, é curioso que dois deles são yurt camps que servem de checkpoint, só são anunciados tipicamente um a dois meses antes da prova, porque é aí que a organização confirma o local definitivo onde os nómadas se instalaram esse ano como yurt camp. Há uns mais permanentes e que até fazem depois a vertente da neve. Como sabemos que elas são aquelas cabanas de feltro e portanto aquilo aguenta o verão e aguenta o inverno. Agora a verdade é que o nomadismo associado à pastagem dos animais é específico de verão e tem a ver com onde é que há acumulações de água, onde é que há menos predadores e portanto variando de ano para ano, é uma coisa que é quase last minute. E a rota tem sempre uns ajustes.

Muito bem. Quantas horas pedalavas por dia, João?

Variou, mas eu tentava pedalar desde o nascer do sol até uma hora, duas após o pôr do sol. Tipicamente era assim.

Isso dá quanto? 10, 8, 10, 12?

Não, sempre mais de 12 horas.

Mais de 12?

Acho que nunca pedalei menos de 12. Havia dias que pedalei 18.

Uau!

Tem que se aproveitar. Quando estamos bem, quando a bike mecanicamente está bem, quando temos calorias, estamos despertos, é de aproveitar.

Quando o vento está de feição. Há muito vento no Quirguistão ou não?

Algum.

Costuma ser o pior inimigo dos ciclistas.

Sim, não tão duro como a RAAM e as suas planícies infindáveis.

A RAAM, o Race Across America.

Exatamente. Ali havia dias inteiros no Kansas, sobretudo, de vento de frente. Uma coisa inacreditável. No Quirguistão não há disso, mas há platôs de sei lá, duas, três, quatro horas de vento forte e nas zonas mais desabrigadas e em altitude, o vento ganha o real feel em termos de temperatura.

Pois, a sensação térmica baixa muito.

Aí o truque é não estarmos molhados, nem sequer transpirarmos. Preferimos mais alto e frio, mas estarmos secos, do que fecharmos muito com muitas shells, muitos layers, transpirar por dentro e depois quando o frio vem já é inevitável o chill, o arrepio interno, aí a coisa muda de figura.

Portanto, fazias subidas em força e com pouca cadência.

Sim, tentava gerir isso, sobretudo as camadas. Mudava muito o setup de camadas. Durante uma subida, se tivesse que parar para despir o casaco duas vezes, não hesitava em fazê-lo, porque a penalidade por não fazer isso bem é depois um desconforto muitíssimo maior nas horas a seguir.

Muito bem, superaste então uma das provas, senão a prova mais dura de off-road.

Mountain bike como tal, acho que o Tour Divide nos Estados Unidos teve esse título durante muitos anos. Era um dos meus sonhos e é uma coisa que ainda gostaria de fazer um dia, mas a verdade é que desde que a Silk apareceu, tem tido esse título, mas sempre há duas ou três provas. Seguramente é pódio, é top três. E nessa medida foi um desafio interessante.

E tu conseguiste, não há muitos portugueses a terem alcançado este feito.

Haverá dois, três, quatro no máximo. A prova é recente, também é verdade. É uma prova que tem sete anos.

Isso. Por quê, João?

Esta prova em particular, para além do desafio em si mesmo, vou ser muito transparente. Eu iria lá mesmo que o país não fosse lindíssimo, iria lá mesmo que não tivesse aquela mística toda da Rota da Seda. Agora, isso tornou inevitável e tornou urgente a ida, porque eu sou fascinado por história. Não sou propriamente um estudioso, nem um conhecedor, mas gosto. Tenho algum gosto. E a mística toda à volta desta prova, os povos que ali estiveram, a forma de viver, o próprio nomadismo, para mim é o trunfo principal desta prova. É o maior atrator, provavelmente, se calhar metade dos participantes estão lá por isso, para além do desafio físico, que é a história e a mística da prova.

E a organização vende isso bem.

Sim, completamente. O Nelson Trio vive lá.

Toda a comunicação da Silk Road Mountain Race É toda em volta disso.

Alavanca bastante nisso, mas com alguma justiça. Acho que não é "overhyped", vamos dizer assim. Para quem quer desfrutar dessa vertente, pode, deve e consegue fazê-lo ali.

Muito bem. Registo bastante diferente do Race Across America.

Completamente diferente. O Race Across America, performance-

Fizeste em 2023, não foi?

Foi 2023.

Um registo totalmente diferente. Aqui já é com apoio, não é?

Sim, é obrigatório ter uma crew de apoio com duas viaturas, sobretudo à noite, das 19h às 7h, baixo de faróis, obrigatoriamente. Se o carro para, eu tenho que parar e vice-versa, por uma questão de segurança.

Ok.

Mais do que sinalizar a presença do rider para as outras viaturas, é também estar atento ao estado de sono do rider. Não é incomum o rider adormecer. E infelizmente já houve acidentes ao longo dos anos fatais, invasão de faixa contrária, chocar com camiões de frente, coisas do género. A RAM tem essa particularidade, sobretudo nas horas da noite, é obrigatório o acompanhamento.

Tu pedelavas de noite?

Sim, absolutamente. Aí pedalei em média 18 horas por dia. Tem que se fazer 400 km por dia, em média, senão não se termina.

Atravessaste a América de uma ponta a outra em oito dias e 16 horas. Eu fui ver o registo.

Não, 11 dias.

Ah, 11 dias. Mas olha, atenção, porque a organização anda a vender que tu completaste em oito dias e 16 horas. Não sei se ouvi a linha errada. Mas foi quanto, diz tu? 11 dias?

O time limit era 12 dias e nós fizemos a coisa da forma o mais sustentada possível, sem arriscar estar ali a comer meio-dia ou o que seja, mas chegar garantidamente e sustentadamente antes do time limit. E portanto, chegamos umas três, quatro horas dentro do time limit. Não foi tão à queima quanto já vi alguns casos, mas foi o plano que encontrámos de garantir que de uma forma sustentável chegávamos lá. O que não falta numa prova como a RAM são contrariedades, se não mecânicas, físicas, psicológicas, de ânimo, que é esta própria crew. Tive muitas. Posso dizer que foi um catálogo vasto.

Conta lá algumas.

Foi um catálogo vasto.

A solidão é difícil neste tipo de provas?

Não tanto. A RAM tem algo de particular que é difícil de explicar a quem não viveu por dentro. Mas quando se olha para uma Silk Road Mountain Race, diz: "Aquilo é tão remoto, como é que sentes vontade de continuar? Como é que lidamos com contrariedades?" Na RAM é muito fofinho. Tens a crew ali atrás, tens o carro, tens conforto. E essa é a maior dureza psicológica de uma prova assistida como a RAM. É que tu não podes parar e tens que constantemente negar um conforto que está disponível. Está ali cinco metros atrás. Tu estás com frio, estás aos 3000 metros gelado, os monstros de frio, vai para o carro aquecer-te, mas o tempo não para.

Pois.

Estás no deserto cheio de calor, vai para o carro, dorme uma soneca. Tudo é bom motivo. Está um vento de 40 km/h de vento de frente. Mas vai para o carro e espera até ao fim da tarde. Só o facto de haver uma escolha é quase tortura psicológica. Nós temos que dizer permanentemente: "Não pares."

A escolha gera angústia.

Justamente. No North Cape, na Silk Road, todas as provas em que fui sozinho, é sempre muito mais fácil de gerir psicologicamente, porque a alternativa é: estás com frio, vais parar ao frio. É pior.

Porque aceitas logo à partida.

Não há escolha. No fundo, a melhor opção acaba por ser sempre, ou 99% das vezes, andar em frente e seguir. Não há um conforto próximo. Foi uma das coisas giras da Silk, sem querer voltar muito atrás, mas é que até desistir da Silk é difícil. Aquilo é tão remoto que nós temos tracking de satélite, temos um one way para pedir SOS, e tipicamente implica desistir da prova.

Ok.

Ninguém volta, ninguém está num avião senão um dia e meio, dois dias depois. Porque sair de lá ou ser evacuado, procurar um táxi, pegar na bike, montá-la, é uma sova enorme. Até a facilidade com que se desiste ou não da prova ajuda a este psicológico de continuar.

Até desistir é difícil.

Exatamente.

Portanto, é preciso pensar muito bem antes de se inscrever numa maluquice destas. É uma maluquice?

É e não é. Acho que ser maluquice ou não é um bocado temperado pela paixão que temos, pela vontade que temos de aprender, de nos prepararmos para a prova. Eu tive que estudar certamente, não sou um tipo de montanha. A Silk tem essa particularidade.

Tu és planície, vens de Évora, não é?

Sou de Évora, justamente, sou um animal de planície. É curioso porque mais facilmente aceitam um montanhista que dê uns toques de bicicleta do que um grande ciclista que dê uns toques de montanhismo. A Silk, para nos inscrevermos, temos que estudar a rota. A rota é publicada antes e o guia de prova, e a própria inscrição envolve duas ou três horinhas a preencher um formulário multipáginas, que é situacional. Ou seja, as perguntas que são feitas, imagina: estás ao quilômetro 600, atravessaste um rio, tropeçaste, molhaste-te, são 11 da noite, o que é que fazes? E tu tens que demonstrar conhecimento sobre onde é que estás espacialmente, aware sobre a hora da noite que é, que material é que levas, quais são as tuas ações seguintes. E é esse conforto que tu tens que dar à organização para seres um dos selecionados para a prova. Eles têm sempre overbooking.

Sim. A prova deste ano já está esgotada, não é?

Sim.

Pelo que percebi, abriu há dias e fechou em dias.

Facilmente isso acontece. É uma prova que já é muito concorrida, mas tem esse fator de seleção que se percebe precisamente pela variação do ambiente externo. O estar em altitude, o gerir a aclimatação, o gerir o frio, etc. É algo que tem que se estudar. Quem não tem naturalmente e quem não está naturalmente nesse meio, tem que ir atrás do prejuízo. E para mim é a parte que mais me dá gozeira atrás do prejuízo.

Muito bem. João, estamos quase a chegar ao final da primeira parte, vamos abrir o álbum de viagem. Então guardas contigo ou tens contigo algum objeto que tenhas trazido das tuas muitas Viagens de bicicleta

Sim, este é simples. Trouxe um kalpak, é o chapéu tradicional do Quirguistão, e que é um artefato tão importante que até tem um dia nacional. Dia 5 de março é o Dia Nacional do Kalpak no Quirguistão. Aquilo funciona pra calor, dá sombra, é um chapéu de feltro, para frio e até pra chuva. A malta usa isto na cidade, usa isto na montanha e antigamente até dava pra saber a vida inteira de um homem só de olhar pro chapéu. O chapéu tem umas cores e umas insígnias de acordo com o estatuto social, se está casado, se não está, a idade, o patamar social e é uma coisa muito identitária e muito nacional. E trouxe um, trouxe por curiosidade.

Muito bem, estamos à conversa com o ultraciclista João Poubinho. Fazemos aqui uma curta pausa nas conversas do "Fim do Mundo" desta semana. Regressamos já a seguir. Estamos de regresso para a segunda parte, esta semana com o ultraciclista João Poubinho, que tem um longo e preenchido currículo de desafios vencidos e longas viagens de bicicleta em Portugal, Estados Unidos, também na Europa. João, o que tu fazes são viagens de bicicleta ou desafios ciclísticos?

Acho que começam por ser desafios, é isso que me leva lá e acabo desfrutando sempre que possível da viagem.

Da viagem, muito bem. Já fizeste coisas incríveis. O Portugal Divide, já descrevi no início do programa. Foste até ao Cabo Norte.

É verdade, fui a partir de Itália.

Foi a partir de Itália. 4000 km, não é?

Nesse ano tive a sorte de serem mais. No ano que foi pelo bloco de leste foram 4450.

Ok, "tive a sorte de serem mais". Tu gostas mesmo é de papar quilômetros de bicicleta.

Tive a sorte, porque nesse ano, passando pelo bloco de leste, fiz 11 países. Tipicamente faz cinco ou seis, ou seja, vai a direito, entre aspas, reto em direção ao norte, a partir de Itália. Tipicamente faz logo a Suíça, Alemanha, atravessa o ferry na Dinamarca e completa. Este ano começou também em Itália, mas foi pela Eslovênia, Hungria, Eslováquia, Polônia, depois Lituânia, Letônia, Estônia, ferry pra Finlândia e só no último dia Noruega. Foi uma amostra mais rica, vamos dizer assim.

Deu para desfrutar?

Deu pra desfrutar muito.

Deu?

Das culturas locais, conhecer as paisagens. Atravessar um continente, sobretudo quando se muda muito a latitude, neste caso, e é uma viagem sul-norte, até a amostragem climática é muito vasta, o tipo de situações em que nos encontramos. E isto foi feito no pino do verão. A saída foi de Itália, Eslováquia ainda estava um calor extremo e depois a coisa começa a amenizar e nos últimos dias, Finlândia e Noruega, apesar de ser verão, parecia que já estávamos num planeta diferente.

Sim.

Toda essa variedade ao longo do caminho dá-nos sensações diferentes, experiências diferentes, o amanhecer não é igual com calor ou com frio. É mais interessante.

É mais interessante. Fizeste o Silk Road Mountain Race também no verão.

Sim.

Foi um belo verão, esse. Este último, não é?

Ainda bem que não foi o mesmo verão, mas sim, acabou por ser-

Ah, não foi no mesmo?

Não, não foi no mesmo.

Ah, ok. Eu estava a achar que tinha sido tudo no último verão.

Aí tinha que ter encontrado o meu principal obstáculo, que é o milagre da multiplicação das férias. Ainda não tive essa sorte. Foi 2021. Foi Portugal Divide, North Cape e a chegada então o Race Across Germany, que foi a qualificação pra RAAM.

Muito bem.

Esse sim, foi um verão preenchido.

Foi.

Foi, porque comecei o verão sem nunca ter feito uma ultra multi-dias e acabei o verão qualificado pra mais dura do mundo. Foi mesmo preenchido.

Também já fizeste o Transpirineus, o Cape Epic na África do Sul.

Sim, aí já em MTB. Isso foi o ano passado. E as portuguesas, o Gravel Birds.

Que é uma no Alentejo.

Baixo Alentejo e parte norte do Algarve. E também o Heading South West, na zona mais norte do país, com a saída e chegada a Aveiro, mas subida até a zona da Serra da Estrela, depois tudo até à cima, Minho, e o regresso também é espetacular. O nosso país é algo de lindíssimo, ainda bem que temos essas provas para nos ajudar a conhecê-lo.

Muito bem, essa última, o Heading South West, é de 700 e tal quilômetros, ou tem uma versão mais comprida.

Pra ser franco, eu não me recordo. Tenho ideia que é mais próximo dos 1000. O Gravel Birds é que foi na ordem dos 700 e qualquer coisa.

Muito bem.

Este ano, curiosamente, o Gravel Birds vai ter uma versão mais longa, porque o ano passado o Sofián saiu e fez o santo favor de acabar a prova de seguida. E portanto, imagino que a organização tenha dito: "Sim, senhora, vamos lá pôr aqui 1000 km pra não haver estes esfarseteiros."

Pra quem não sabe, estamos a falar daquele ciclista que foi notícia há uns meses, porque esteve 50 ou 51 dias detido na Rússia.

A história cruza-se com a Silk, curiosamente.

Ele já ganhou a Silk, não foi?

Ele é o rei da Silk, ele já ganhou a Silk várias vezes.

Ok.

Eu tive o prazer de conhecê-lo quando foi o Gravel Birds e trocar umas impressões com ele no fim. Ele no verão iniciou no Cabo da Roca, em Portugal, a tentativa de recorde do mundo de atravessar até Vladivostok, atravessar o continente todo, digamos, Eurásia. E a prisão dele ao atravessar, ali com alguns contornos, não digo de desespero de últimos dias, mas algumas decisões menos ajuizadas, mas que se compreendem perfeitamente, acabou por atravessar uma fronteira com um estatuto menos legal do que devia e esteve preso esses dias. Durante a prova dele, cruzou-se com algumas pessoas que iam iniciar a Silk E que no início, na ida para a partida, ele estava justamente a cruzar o Quirguistão e houve também um leve contacto com a prova. Foi bastante interessante.

Muito bem. Tu és ultraciclista, não é? Fazes longas distâncias.

Pode-se dizer que sim.

É um tipo de ciclismo que está em grande expansão nos últimos anos, não é? Mesmo aqui em Portugal.

Sim.

Há cada vez mais gente a praticar isto.

Diria que sim.

De forma absolutamente amadora, o que é extraordinário, não é?

Mas é precisamente isso que eu ia referir. O ultracicismo, parecendo por vezes intimidatório pelas distâncias, pelo número de dias, dá depois a outra face, que é: as coisas podem se fazer num regime mais calmo, não tem que ser alguém que esteja atleticamente no seu pico. Curiosamente, acaba por ser talvez mais acessível e prestar-se a um regime de slow travel. As provas têm essa particularidade. Se repararmos na duração máxima de cada prova, ela consegue se fazer num ritmo bastante lento, desde que se consiga tapar os obstáculos e resolver os desafios que vão aparecendo. Uma prova que um pro ou uma elite faz em dois dias e meio, três, se formos ver a duração máxima da prova, se calhar são cinco ou seis dias. É perfeitamente razoável alguém que se prepare minimamente, mas que tenha espírito de descoberta, que estude um bocadinho a prova, consegue fazê-lo dentro desse limite de tempo. É surpreendentemente acessível e é muito recompensador. Quem ainda nunca fez um overnight de bicicleta, eu convido a fazer, nem que seja ao pé de casa. Andem 30, 40 quilômetros, levem um saco-cama, uma tenda, um bivy bag, durmam uma vez às estrelas, acordem de manhã com o sol e os passarinhos. É super refrescante.

Sugestões para quem quiser começar a fazer isso em Portugal, João.

Olha, há imensos sítios, há imensos sites que têm não só os percursos, mais se calhar até o gravel. Eu diria, provavelmente, para tentar fugir um bocadinho aos carros, ter uma passagem mais relaxada por esse tema.

Gravel, para quem não está familiarizado com a linguagem do ciclismo, são umas bicicletas tipo bicicleta de estrada, mas com os pneus mais gordos e andam em terra batida.

Sim, são mais confortáveis.

Estradões.

Estradões, justamente. Estradões de cascalho, tipicamente, evidentemente também rolam bem em alcatrão. E é, de facto, atrativo, porque é algo que também se faz bem a solo, é algo que se faz bem em grupo e desfruta-se da experiência de grupo, pessoas se calhar com mais conhecimento. Forma-se uma mini equipe, vamos dizer assim, com perfis diferentes e tipicamente desfruta-se muito de acompanhar os outros.

E há muita gente, não é? Imensos fóruns, imensos sites, imensas comunidades.

Felizmente, têm.

E temos um país incrível para fazer isso.

Pois é, absolutamente espetacular.

Muito bem. Olha, de todas, qual foi a que mais gostaste até hoje? Foi a Silk?

Elas apreciam-se de formas muito diferentes. Talvez a mais variada e mais rica tenha sido a Silk. A que mais gostei, que me realizou mais enquanto desafio, foi de longe a Race Across America, por tudo o que significou, porque fomos com uma causa, fomos fazer uma recolha de fundos para a IPO. Porque tivemos que montar uma equipa, um grupo de amigos que foi, alguns deles que se conheceram semanas antes da prova, nas saídas de treino e tudo, e viemos lá quase família. Foi extraordinário pela forma como a coisa foi montada, foi quase uma startup, não menos que isso.

Quantos elementos tinha a tua equipa?

A equipa tinha sete, mais um. Era os Magnificent Seven, mais o Rider.

Mais o João Paulinho.

Lá em pessoa. Depois é claro que à distância acabamos por ter mais elementos. Foi uma máquina que se montou com objetivo comum, com o objetivo de sermos os primeiros na história a fazer isso aqui a partir de Portugal e com essa missão maior. Um sentimento de realização, as dificuldades que passámos em conjunto, são algo que eu acho que é irrepetível. Outras desfrutarei de outra forma, mas essa ficou marcada.

Muito bem. Tenho muita curiosidade pelo Paris-Brest-Paris.

Sim.

1200 quilômetros, que desejavelmente se realizam num dia e pouco, não é? Ou dois dias. Como é que é? Não, mais.

Não.

Para já é preciso qualificar.

O elemento é que são cinco dias. Aproximo disso, tipicamente faz-se ali entre os três e os quatro. A média do pelotão anda por aí. O percurso de qualificação obriga tipicamente a fazer o que chamam um brevet, uma saída desse género de 200 km, outro de 300, outro de 400 e outro de 600. Este é o percurso regular.

Tem que provar que é um duro.

Não diria. Até é um regime de prova que é muito mais de cabeça, de planeamento, de alguma resiliência, mas a forma como se organiza os brevets e quem os organiza e escolhe as rotas, é muito memótica esta que estávamos a falar, de desfrutar o país, de estradas secundárias que não sejam perigosas, tipicamente com o piso em bom estado. Descobrem-se muitas pequenas pérolas a fazer esse próprio percurso de qualificação. Não é um sofrimento, não é um desafio físico por aí além, é muito de precisamente nos preparar para depois estarmos aptos a fazer os 1200 do PBP, que é interessantíssimo porque é a prova do género mais antiga do mundo. Se não me falha a memória, é desde 1893, é uma prova com muita história, com muita mística e que eu nesse ano fiz também, um mês e qualquer coisa depois da RAM, e aproveitei para fazer a qualificação junto como forma também de preparação para a RAM. Eu fiz esses tais brevets no lead up para a RAM, novembro até maio, coisa que ovalha. A RAM é em junho e depois em agosto é o Paris-Brest. O que tem de espetacular o Paris-Brest? Eu costumo descrever a prova dizendo que aquilo é absolutamente fantástico e depois também lá há uns tipos que andam de bicicleta no meio daquilo. O Paris-Brest é lindíssimo, aquilo que se vê fora da estrada. Montam-se banquinhas de apoio, as famílias a puxar por nós, fazem comidas.

Sentiste um ciclista do World Tour ali a fazer uma etapa do Tour?

De maneira nenhuma. Eu senti-me super acarinhado num país que vive o ciclismo, não se calhar com aquela paixão inflamada que se vê em Itália, mas com uma paixão mais como modo de vida. A França respira ciclismo, vive-o, há muito mais ciclismo para além do Tour. E isso fica muito à vista, sente-se na pele e é quase enternecedor ver aquelas famílias à beira da estrada. Havia famílias com três gerações à beira da estrada, a esperar pelos ciclistas com um chapéu de sol, com umas cadeirinhas para nos sentarmos, com um bolo que tinham acabado de fazer. Havia até uma família, eu lembro-me sempre disto, tinha um cartão de visita daquela família e que dizia algo como: "Bem-vindos, os ciclistas do Paris-Brest". Tinha as fotografias deles, os nomes e no verso do cartão dizia: "Até daqui a quatro anos". Uma família que imprime um cartão de visita para isso. Acho que é lindo, é extraordinário.

Muito bem. Os franceses são muito ciosos das suas coisas, não é? E o Paris-Brest faz parte da cultura francesa.

Exatamente. E sendo antigo, a particularidade é que aquele miúdo que estava à beira da estrada, o bisavô daquele miúdo literalmente estava à beira da estrada a ver os loucos da altura. Porque na altura havia muito menos gente a fazer este tipo de distâncias que não fosse profissional, era uma coisa quase daredevil, no fim de 1890 e tal. E a prova que nasce assim começa a ganhar pessoas, começa a ganhar um momento enorme e hoje em dia, se calhar, não tenho a certeza, mas largos milhares de participantes.

Muito bem. E este ano há qualificação porque para o ano vai haver, em 2027, edição do Paris-Brest, Paris Randonneurs.

Toda a gente que gosta de ciclismo a pensar seriamente, porque é um evento que vale muito a pena participar.

E permite ver uma França que não está no top dos cartazes turísticos.

Diria que sim. Em 2027, eu não ganho a comissão por dizer que estás na prova, mas passo a publicidade este ano, algo que vai me custar muito não ir. Provavelmente não vou, mas que tem uma passagem no Mont Saint-Michel, no mítico e lindíssimo Mont Saint-Michel, há um desvio no percurso da prova para ter aquela delícia visual e aquela experiência de ir até lá.

Anda lá, qualifica-te.

Se houver a oportunidade, não deixem de ir.

Muito bem. João, estamos a chegar ao fim. Vamos fazer checkout.

Muito bem.

Vamos lá.

Vamos a isso.

Vou pedir-te para completares as habituais frases. Então, na minha mala vai sempre...

Tinha que pensar. Uma coisa que nunca falha é uma mini multitool.

Multitool é aquele...

Vamos dizer um alicate multifunções.

Isso é que te queria dizer.

Quase um canivete suíço. Neste caso, é um canivete suíço, se calhar, com um bocadinho mais de força funcional. Às vezes precisamos de nos desenrascar, precisamos de várias formas e aquilo que eu consigo identificar, que vem em comum em todos os tipos de viagem, que são muito variadas, em termos de setup, é mesmo esta multitool.

Muito bem. A viagem com mais peripécias que realizei até hoje?

Em termos de variedade, a Silk, pelos motivos que já falei, mas claramente aqui uma menção honrosa para a RAM.

A RAM, a Race Across America. Muito bem. Qual foi a maior peripécia que te aconteceu nesta viagem, no Race Across America, João?

No Race Across America é muito difícil encontrar uma. Eu diria, provavelmente, a subida e descida do ponto mais alto da prova, aos 3300 metros, que é a altura da prova.

Onde é que é?

É no Colorado. Chama-se Wolf Creek Pass e é dois dias depois do deserto. Nós dois dias antes estamos literalmente a zero, às vezes acho que até menos um ou menos dois metros de altitude, é uma bacia no deserto, 50 graus intensos durante horas a fio. E um dia e meio depois estamos aos 3300 metros com zero graus atmosféricos.

Caramba!

E se formos lá de noite, como eu fui, se calhar é um rio frio de menos cinco a menos 10 a descer durante horas estes 3300 metros na outra vertente. Digamos que foi aquilo que fez mais mossa, foi a mossa mais difícil de gerir ao longo da prova.

Do inferno ao céu em poucas horas.

Justamente. Foi para aí ao quarto dia e o resto foi um bocado gerir a crise porque causou mossa.

E como é que se gerem essas valentes tareias em cima da bicicleta, João?

Muitas das formas de gestão nós já as temos conosco, são mecanismos biológicos. É fácil também quando um corpo ainda não foi exposto a eles, panica, em primeira instância. E o treino tem muito a ver com isso. É expor o corpo progressivamente a stressors que são ou desconhecidos ou que ainda não foram experimentados e deixar os mecanismos biológicos agirem. Cada corpo é um corpo, mas há muitas coisas, muitos mecanismos de reação em comum. Eu costumo referir sempre um dos ditos mais famosos do ultraciclismo, que é "don't ever scratch at night". Scratch é desistir da prova, porque à noite tudo parece mau. À noite as dores são amplificadas, o sono, o frio, a falta de descanso. E há uma regra de ouro que é: se queres desistir, guarda um bocadinho, espera que o dia nasça e se ainda quiseres desistir depois do dia nascer, então desiste, mas "don't ever scratch at night". Isto diz muito sobre como é que os organismos biológicos lidam, até hormonalmente, com o nascer de um novo dia. Tem muito a ver com o ciclo de resiliência e passar por isso uma, duas, três, quatro vezes em condições diferentes é o que nos apetrecha para depois, na vez seguinte, irmos mais longe.

Muito bem. O carimbo de passaporte ou visto mais difícil de obter?

Formalmente, carimbos de passaporte nunca foram extremamente difíceis, mas esta aqui é da época. Foi um visto médico. Estávamos em altura de Covid, no Norte Cape E eu tive que forçar um bocadinho a barra com as equipas de vacinação ali no estádio universitário. Chamei a enfermeira-chefe de parte, expliquei-lhe que a prova é que ia representar Portugal, fiz o choradinho todo para antecipar uns dias a minha segunda vaga de vacina. E a verdade é que como o regime legal ao longo destes 11 países era diferente, a tolerância sobre as datas de vacinação também o era. E portanto, dependendo do dia que eu ia chegar a determinado país, eu estava legal ou não legal a entrar nesse país no estatuto Covid. O único que eu entrei e posso dizer que entrei ilegalmente foi a Eslováquia, que entrei a salto às 15h, quando os guardas foram descansar. Mas levava a lição bem estudada e portanto se eles me apanhassem a entrar, podiam negar a entrada. Se me apanhassem já lá dentro, eu tinha o direito a ser conduzido em menos de 24 horas ou conduzir-me até à fronteira mais próxima na direção do qual eu tivesse um voo reservado. E portanto eu, estando a fazer o país sul-norte, eu sabia que conseguia atravessá-lo em menos de 24 horas. Depois de entrar, se fosse apanhado, ia nessas 24 horas sair do país para norte, fazendo valer disso.

Tens olhão.

Foi um trick shot. Tive que me preparar para isso.

Claro, muito bem. A recordação de viagem mais cara, qual foi?

Esta é fácil. A minha bicicleta de titânio. Uma bicicleta que foi feita nos Estados Unidos, que usei como segunda bicicleta na Race Across America e trouxe-a. Comprei-a lá, usei-a pela primeira vez lá, serviu de backup bike e trouxe-a e hoje em dia é a minha faz-tudo, é a minha gravel bike. Faz estrada, faz fora de estrada, é uma meia das horas.

A refeição mais estranha?

Eu não sei o que é isso. Um dos mini heróis neste tipo de provas é o meu sistema digestivo. Eu tipicamente faço um mês de probióticos antes deste tipo de provas. Preparo-me convenientemente. Tenho o orgulho de dizer que atravessei a Silk e o Quirguistão sem nunca ter tido qualquer problema gástrico, intestinal, o que quer que seja, que é uma das grandes chefeiras da prova. Temos uma sobreposição.

Mas a ideia que eu tenho é que os ultraciclistas comem tudo o que apanham à mão. Ou não?

Há algumas fotos de alguns ciclistas à porta de supermercados.

Gelados batidos e gomas.

E pickles, latas de pickles. Bebe-se o sumo dos pickles, bebe-se o fundo do óleo das latas de sardinha ou de cavala, ou o que quer que seja. Então nos países nórdicos, aquele peixe hediondo fedorentíssimo. É tudo calorias.

Tudo combustível.

Tudo combustível. Deixa de haver refeições estranhas, há calorias.

Olha, gostava de viajar com...?

Essa é dureza. Deixa-me pôr-te assim. Se calhar é um photo finish entre o David Attenborough e as minhas filhas. Porque podia receber e transmitir. Se puder levar os dois, ótimo.

Muito bem. João, chegámos ao fim. Qual foi a música que escolheste para fechar a nossa conversa?

A música que escolhi foi uma que eu gosto muito, não por coincidência ouvia muito também durante a Silk e chama-se "My My, Hey Hey" do Neil Young. Tem uma particularidade, tem duas versões, uma versão soft e uma versão hard. Eu ouvi as duas, dependendo do estado de espírito. Vamos aqui ouvir a primeira. Tem uma ideia que me é particularmente próxima, que é "it's better to burn out than to fade away".

Muito bem.

E assim vou.

E assim vais. Já tens viagens planeadas para este ano na tua bicicleta?

Claro que sim.

Onde?

Eu nunca vou para uma prova sem ter inscrita outra. É uma regra sagrada que eu tenho.

Qual será a próxima prova?

A próxima prova não vai ser de bicicleta, vai ser a Maratona das Areias, Marathon Des Sables.

Uau!

No Rocco, portanto vou correr.

Porque tu és amecox e também fazes Ironmans, não é?

Verdade. Corro menos do que pedalo.

És um super-homem.

Estou a formar.

Muito bem. Boa sorte, João.

Obrigadíssimo.

"My My, Hey Hey", música de Neil Young a fechar a conversa do "Fim do Mundo" esta semana. Estamos de regresso hoje há oito dias, já sabem, sejam bons e boas viagens.