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Sejam bem-vindos. Há momentos na vida de uma pessoa que mudam tudo. A viajante desta semana passou por um momento desses, levantou-se, respirou fundo e arregaçou as mangas. Para trás deixou um episódio de burnout e a pandemia, e iniciou um período de longas viagens de autocaravana pela Europa durante seis meses, num todo-o-terreno até ao Círculo Polar Ártico e depois desceu até ao Mediterrâneo. E fresquinha, uma viagem de um mês pelo Japão. Olá, Sofia Carvalho. Bem-vinda às Conversas do Fim do Mundo.

Olá.

Ainda com um jet lag japonês?

Ainda, mas muito contente por estar aqui.

É?

Muito contente. Sim.

Tu ouvias o programa. Ouvias e ouves?

Ouço.

Se calhar vais deixar de ouvir.

Não.

Claro que não.

Acho que vou repetir os episódios.

Obrigado. Acabas de aterrar, não é? Estás em Portugal há três, quatro dias, não é?

Há menos. Foi há dois dias.

Dois dias. Fizeste uma viagem longa no Japão, um mês. Conta tudo.

Tenho muita coisa para contar.

Vamos lá. O que uma psicóloga vai à procura no Japão?

O que a psicóloga Sofia vai à procura? A psicóloga Sofia vai à procura de novas culturas e novas formas de ver a vida. Eu acho que é sempre isso que eu procuro em todas as viagens que faço. Todas aquelas que falaste na apresentação, muito generosa. Todas essas viagens eu fi-las para conseguir chegar mais perto das pessoas. Eu acredito que a psicologia é uma ciência que precisa de conhecer pessoas. Eu formei-me em Psicologia Clínica, a base, a licenciatura em clínica, e senti nessa altura que já sabia.

Achavas que sabias.

Achava que eu sabia alguma coisa.

Aos 20 anos ninguém sabe nada.

Não. Nada.

Mas acha que sabe, não é?

Acha que sabe, que é o pior.

Acabei de destruir jovens adultos que ouvem este podcast.

Sim. Não sabem nada.

Sabem algumas, não é?

Sim, algumas. E na altura eu fiz a psicologia clínica e achei que era interessante, mas que me faltava conhecer um bocadinho sobre cérebros. E então eu fiz depois o meu mestrado em Neuropsicologia. Acabei o mestrado em Neuropsicologia e trabalhei durante muito tempo e depois percebi que eu precisava de perceber mais sobre pessoas. E é aí também que entram as viagens com esta vertente mais da psicologia na minha vida. Portanto, todas as viagens que eu faço, mesmo esta viagem que fiz agora pelo Japão, foi não só para conhecer paisagens, mas principalmente para perceber modos de viver. É sempre isso que eu procuro em todas as viagens que faço.

E o que percebeste dos modos de viver do Japão, Sofia?

Completamente diferentes de nós. E foi muito interessante perceber.

Mas diferentes em quê?

Nos gestos. Mesmo os próprios gestos. Por exemplo, o dizer que não ou dizer que sim com a cabeça, não quer dizer nem que não, nem que sim, é só sim, estou a ouvir ou estou a pensar naquilo que estás a dizer. Ou a própria maneira como eles-

Os japoneses são muito frios nos gestos, não é? Muito económicos.

Muito económicos. Eu aproveito essa palavra do económico.

Muitas vénias, não é?

Muitas.

E depois depende do sentido de cada vénia.

Sim.

Há vénias mais curtas e mais compridas.

Mais compridas. Eu fazia sempre o máximo que conseguia, que assim eu sabia que nunca estaria a ofender ninguém.

Portanto, estavas sempre a fazer vénias à imperadora, é isso?

Sempre. Ainda agora fui almoçar aqui a um restaurante e fiz a mesma coisa.

Foi?

Mas pronto, é o que é. Eu acho que o senhor só ficou assim a olhar e a pensar.

Pronto. É o jet lag. Estás desculpada.

Ainda é, ainda é o jet lag. Mas a verdade é que aqui percebe-se que eles são mais económicos, mas não quer dizer que não sintam as coisas. Têm só uma maneira diferente de expressar. É como nós, nós portugueses, temos uma maneira de nos expressar diferentes de outros povos e está tudo certo.

Nós somos latinos, portanto falamos com as mãos, damos pancadas nas mesas.

Se for preciso. Sim, é diferente.

Tocamo-nos uns aos outros.

Eles não se tocam.

Não se tocam.

Não se tocam. E é uma coisa muito interessante.

E causa estranheza, não é?

Causa estranheza.

Quando nós lhes tocamos, mesmo que involuntariamente, do gênero: "Vira-te para mim, por favor, que eu quero falar contigo."

Eles não gostam mesmo do toque. Uma coisa que eu achei muito interessante é que eles estão desconfortáveis com o toque, mas estão confortáveis com a nudez. Eu passo a explicar.

Explica. Qual é o contexto disso?

No Japão, uma prática comum é, eu vou chamar termas, porque é a mesma coisa, mas pronto, o onsen, que basicamente é ficar em água quente, vamos chamar-lhas termas.

Banhos públicos, é isso?

Sim, os banhos públicos. Obrigada.

Nada.

Os banhos públicos. E, por exemplo, nesses banhos públicos as pessoas estão sem roupa. Eu, por exemplo, estive na parte de Fukuoka e tem lá uma zona que se chama Beppu. Eu se calhar não estou a pronunciar os sítios certos, mas se procurarem, vocês encontram com estas palavras. E em Beppu há uma coisa que são os banhos de areia. Os banhos de areia, eu não sabia, eu fui sem saber o que era, mas basicamente a gente deita-se e somos cobertos por areia vulcânica aquecida.

Deve ser muito reconfortante.

É mesmo. No início é um bocado estranho, porque é muito pesado estar enterrado, mas depois dá para conseguir relaxar. Precisamos é de entrar naquele mood e conseguir relaxar. Mas nessa altura, e falando aqui da parte de eles se sentirem confortáveis, não se sentirem confortáveis com o toque, mas com a nudez, sim, em que nessa zona de Beppu, eu fui fazer os banhos de areia sem saber bem o que era Fui fazer os banhos de areia e era uma sala, para quem está a ouvir, vamos imaginar a vossa sala de casa. Em vez de ter uma porta, tem só uma cortina, aquelas cortinas que são até meio, como eles têm muito no Japão. E a partir dali, as pessoas estão sem roupa.

Ok.

Ok? Ou seja, há toda-

Sem qualquer pudor. Há toda a liberdade.

Zero pudor. E é muito engraçado.

Eles, se calhar, partem do pressuposto que ninguém está a olhar uns para os outros.

E não. Mas é interessante como um povo que não quer o toque, sente-se confortável com estar despido à frente de desconhecidos. Ali estávamos divididos por homens de um lado e mulheres do outro, mas não há qualquer pudor em relação a isso. E isso vê-se noutros sítios, noutros banhos públicos, onde as pessoas também estão sem roupa. Portanto, eu acho isso muito curioso, analisar que uma coisa é completamente desapropriado e outra não. É desapropriado abraçar o pai ou abraçar a mãe, mas se calhar vão todos sem roupa para os banhos públicos e está tudo tranquilo. E nós aqui é contrário.

Pois.

Não é?

Bizarro.

É diferente.

É diferente. O que é que achaste mais diferente no Japão em relação a nós, Sofia? A nós, aqui, europeus.

Este lado aqui do mundo. Eu, e tudo aquilo que eu falo é a minha experiência pessoal, claro que pode haver outras pessoas que vão e têm uma experiência completamente diferente, mas aquilo que eu reparei foi que eles funcionam muito no processo. E eu vou explicar o que eu quero dizer com isso. Eles são muito metódicos e as coisas são assim, ponto final. Enquanto nós não, tentamos sempre ali, são assim, mas e se dermos um jeitinho?

E então isso em Portugal, é isso elevado a 10 ou a 100 ou a 1000.

Ou a 1000.

Ou ao infinito.

Sim.

O velho desenrasca. Lá isso não existe. Lá no Japão, vai tudo de acordo com as regras.

São muito de regras. E, por exemplo, eu conduzi. Lá eu tive a oportunidade de andar com uma van, não vou chamar autocaravana, porque é mais pequeno.

Que é à esquerda, não é? Lá conduzem à esquerda.

Exatamente, conduzem à esquerda.

Foi estranho para ti?

Olha, foi estranho, mas depois foi estranhamente confortável, porque como eles seguem muito o processo, eu senti-me extremamente segura a conduzir do lado oposto que eu estou habituada. Ou seja, porque eu tinha a certeza que ninguém me ia buzinar, tinha a certeza que ninguém me ia colocar em risco e tinha a certeza que ia funcionar. E eu senti-me extremamente segura e por isso correu bem.

Isso é giro. É a confiança, não é?

É. É isso mesmo. O que eu senti lá é que posso confiar.

Boa.

Eu acho que isso é muito interessante.

Portanto, o processo japonês, digamos assim, impressionou-te.

Impressionou-me, sim. Não é que já tinha visto este estilo de resolução de problemas, queremos dizer assim, noutros sítios. Os nórdicos também funcionam um bocadinho assim, mas não é tanto. Há ali algumas nuances, é um bocadinho diferente.

Eles são mais, não é? No Japão.

Se calhar.

É mais evidente, não é?

Pode ser, sim.

O tal processo que tu falas impõe-se mais, se calhar.

Impõe-se e nota-se muito. Nota-se muito o processo. As pessoas fazem as coisas daquela determinada maneira e ponto final, e acabou.

As pessoas que vêm do Japão elogiam muito o silêncio.

Sim.

Mesmo em grandes cidades. Parece contraditório.

Mas é silencioso. E limpo.

E limpo?

E limpo. Silencioso e limpo. Quando estamos a viajar, e eu digo isto muitas vezes e não sei se consigo passar para palavras aquilo que é o que eu sinto. Quando às vezes estamos a viajar durante muito tempo em alguns países, chega uma altura que parece que não nos sentimos muito limpinhos. Não sei, aquela sensação de: parece que tomei muito banho, mas não estou a 100% limpo. Não sei se já sentiste essa sensação em viagem. Às vezes parece que tomamos muito banho e parece que não estamos 100%. Aquela sensação de acabei de tomar banho e tomei mesmo banho.

Sim.

No Japão estás sempre assim.

Ah é?

Porque é tudo tão limpinho, é tudo tão limpo, que tu estás sempre com a sensação de fim de banho.

Ok.

Acho que é isso.

Portanto, não há aquela coisa, imundice pública. Aquela coisa do passei a mão por muitos sítios, nas estações e não sei quê, onde os outros também metem as mãos. Isso não existe no Japão.

Não existe, ou pelo menos não existe na minha perspetiva.

Mas não te sentiste em ambientes higiênicos.

Não, é limpo.

Limpo, ok. Muito bem. Então por onde andaste no Japão? Começaste onde essa tua viagem de um mês?

Comecei pela zona de Fukuoka, acho que é assim que se diz, não sei. Comecei ali na zona de Fukuoka e fui subindo até Tóquio. Eu só fui até Tóquio, porque o tempo não dá para tudo e vou explorar o resto do Japão noutra viagem. Mas fiquei por ali pela zona de Fukuoka, dei mesmo lá a volta. Depois comecei a subir, ainda fiz os Alpes também, que aconselho a toda a gente fazer os Alpes japoneses, é qualquer coisa de fabuloso. E tive a sorte de ir agora no outono, outono inverno, e é espetacular, é lindo.

Aquelas árvores todas doiradas.

Todas.

Incrível.

E vermelhas, assim fluorescentes. Muito bonito e foi muito giro. Vi muitos vulcões, que é uma coisa que eu aprecio. Vi bastantes vulcões e foi muito bonito.

Uau! Esta viagem, é viagem, mas também é trabalho, porque tu és aquilo que se designa agora de nômade digital. És psicóloga online, portanto, trabalhas e viajas ao mesmo tempo. Como é que se compatibiliza isto? Como é que é o dia de uma viajante nômade digital, Cia?

Olha, o dia é muito igual ao dia de todas as pessoas. A diferença é que a cidade onde estás vai mudando.

Ok.

Claro que tem os seus desafios.

Portanto, o teu local de trabalho é o teu computador, é isso?

É o meu computador. Nesta viagem do Japão, foi um desafio um bocadinho maior, porque é um fuso de mais nove. É um bocadinho mais complexo, mas com organização é possível. É preciso é ser organizado. Eu acredito que o trabalho online é ótimo, mas é preciso aprender a trabalhar online. Eu não soube logo trabalhar em condições quando comecei a trabalhar no online. Só com o tempo é que eu comecei a perceber como é que podia organizar a minha agenda. E agora é mais fácil, mas é um dia muito parecido com o dia de toda a gente. Por exemplo, no Japão, eu só começava a trabalhar às 18h, que era quando aqui eram 9h. Eu tinha todo o dia para fazer as minhas coisas, saía, ia almoçar, fazia tudo, passeava e depois às 18h começava a trabalhar.

Até que horas?

Depende. O que é que eu tentei? Eu tentei gerir a minha carteira de clientes. Eu sou psicóloga clínica, não sei se já tinha dito. Eu sou psicóloga clínica e tenho também uma clínica online. Aquilo que eu fazia para conseguir garantir o melhor acompanhamento aos meus pacientes, era dar as consultas entre as 18h e mais ou menos as 23h.

De lá do Japão.

Sim, de lá. Aproveitei também o facto do fuso, porque tenho pacientes portugueses espalhados pelo mundo, e dava para fazer noutras horas, porque até conseguia conciliar melhor com os países onde eles estão. Mas eu tentava fazer aqui as consultas neste horário, que é um horário onde eu realmente consigo ter rendimento, porque também é uma coisa que é importante nós nos lembrarmos, é que precisamos de render no trabalho. Eu não estou só ali a olhar para as pessoas, eu estou mesmo a ouvi-las. A ouvi-las e a falar com elas. E conseguia fazer a gestão da clínica, por exemplo, de manhã. Na minha manhã do Japão. Ou seja, eu conseguia dividir o meu trabalho muito facilmente, digamos assim, entre tudo o que é trabalho de back office, eu conseguia fazer à hora que eu quisesse, porque não está dependente de ninguém. A parte das consultas, condensava ali naquele horário, e é totalmente possível.

O Japão é um bocadinho distópico, não é? Sentiste isso ou não, Sofia?

Eu ainda não tenho.

Ainda não sintetizaste a viagem toda.

Não, ainda não. Ainda estou aqui a tentar pensar muito acerca de tudo aquilo que vivi e experienciei na viagem, que isto demora algum tempo até conseguir pensar em tudo. Ouve-se muitas vezes, por exemplo, na internet, as pessoas a dizer: "O Japão está em 2050". Eu não acho que esteja em 2050, nem precisa de estar. Eu acho que muitas vezes aquilo que se fala do Japão é uma realidade muito pequenina. Ou seja, às vezes as pessoas falam só que lá há um iogurte que não suja a tampa, ou um frasco de geleia que fecha sozinho, ou um restaurante que tem robôs a atender. Mas o Japão é muito mais que isso. E uma coisa que eu apreciei ver no Japão, como psicóloga e como também alguém que gosta de pessoas, má hora que não gostasse, foi de ver muitas pessoas a trabalhar em coisas que já não é preciso ter pessoas a trabalhar.

Por exemplo?

Eu digo. Por exemplo, nas autoestradas, continua a existir o senhor do-

O porteiro.

Isso, continua a existir.

O senhor que cobra a portagem.

O senhor que cobra a portagem.

Caramba, num país tão desenvolvido.

Não em todas, mas em muitas. Por exemplo, nas estradas é comum existir o senhor, o sinaleiro. Coisas que cá não há, e se calhar nós estamos a pensar num país tão desenvolvido, e nós achamos: "Essas profissões já não existem". Existem, e existe muita gente a trabalhar em coisas que supostamente já não era preciso estar pessoas a trabalhar, mas estão, e eu acho isso fabuloso.

Tu achas que isso acontece por quê? É para promover a autoridade da pessoa, o respeito pelo funcionário? Não sei, estou a dar pistas, diz-me tu.

Eu vou te dizer a minha opinião, que não sei. Aquilo que eu percebi no Japão é que eles têm muito a cultura de se funciona, não se troca. Por isso é que lá se usa ainda muito dinheiro.

Já nós inventamos.

Mas funciona, não se troca. E então o que eles fazem? Por exemplo, usa-se muito dinheiro físico, coisa que cá já não se usa tanto, pelo menos eu cá raramente ando com dinheiro. E lá usa-se muito dinheiro físico. Funciona, não se troca. Se funciona as pessoas estarem na rua a ajudar as pessoas a atravessar a passadeira e tudo mais, então não se troca. E nota-se isso também, por exemplo, nos transportes públicos, onde os transportes públicos são todos antigos, mas extremamente bem cuidados, limpos, bonitos. E são antigos. Mas se funciona, não se troca. Isso é muito do Japão. Se funciona, não se troca. E também outra parte que é muito interessante para mim, para a psicologia, é muito a parte de eles também valorizarem mesmo aquilo que já não está tão bom. Eles têm lá um trabalho manual, não sei se é assim que se diz, que é o Kintsugi, é qualquer coisa assim. Se não for assim, é algo parecido.

Que consiste em?

Consiste em arranjar objetos que já são estragados, que estão estragados. E eu acho isso fabuloso, porque na psicologia é isso que nós fazemos. Arranjar aquilo que parece estragado, mas na verdade arranjado ainda fica melhor.

Ok, isso é giro. Muito bem. Estamos à conversa com Sofia Carvalho. Sofia, vamos abrir o álbum de viagem.

Vamos.

Vamos. Então, das tuas viagens, trouxeste algum objeto que seja especial e que guardes com especial carinho, Sofia Carvalho?

Olha, eu não diria que tenho um objeto. Mas uma coisa que eu guardo com muito carinho é o meu Land Rover, que é para mim o meu objeto de viagem, que é onde eu gosto de passear.

O tal que te levou-

O Aristides.

Tem nome?

Tem nome, claro.

Aristides.

Exatamente.

O tal que te levou ao Círculo Polar Ártico e depois ao Mediterrâneo.

Yes.

Vamos falar dessa viagem na segunda parte das conversas do Fim do Mundo e tentar perceber porque é que esse automóvel se chama Aristides. Regressamos já a seguir a uma curta pausa. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte das Conversas do Fim do Mundo. Esta semana com a psicóloga Sofia Carvalho. A Sofia teve um burnout e decidiu mudar de vida. Eu confesso, Sofia, tenho algum pudor em falar disso, porque nós, que estamos de fora e falamos de uma pessoa que teve um burnout, temos sempre esta tendência de achar que é um marco determinante na vida de uma pessoa e que há um antes e um depois. Conta-me tu tudo sobre isto. Há uma vida antes do burnout, não é?

É sim.

E há uma vida depois, ou não? É um marco. Fala sobre isso.

É sim, há uma vida antes e uma vida depois, mas não quero de todo romantizar a doença, porque se eu escolhesse, eu não tinha tido burnout nenhum. Eu, se pudesse escolher, não tinha nada, mas existe realmente uma vida antes e uma vida depois, mas não quero romantizar isso. Existe é uma tomada de consciência. Há uma tomada de consciência onde eu percebi que aquilo que eu fazia não me estava a deixar feliz. Não era aquilo que eu fazia, a maneira como eu fazia não me estava a deixar feliz.

Porque tu eras psicóloga, mas em ambiente corporativo.

Em ambiente corporativo, embora tenha sempre mantido a clínica privada. E eu percebi que o que me adoecia, resumindo, era a parte de estar sempre fechada. O facto de ter um horário a cumprir e faltava-me liberdade na minha vida.

És galinha de campo.

É isso.

Não leves a mal a expressão.

Não, perfeitamente. Eu precisava de mais liberdade, mais aventura, que o meu trabalho não me dava. Na altura, eu não te sabia dizer isto.

É curioso, porque há cada vez mais gente a dizer isso, não é?

Pois, será que é por acaso?

Devíamos ouvir mais as pessoas, não é?

Sim, eu acho que sim. Devíamos também ouvir mais e perceber que há maneiras diferentes de fazer as mesmas coisas. E eu consigo trabalhar na mesma, não querendo romantizar nada, nem dizendo que as pessoas têm todas que fazer o que eu faço, porque não têm, de todo. Têm que fazer aquilo que a elas lhes faz sentido, mas há outras formas de fazer as mesmas coisas e isso também se percebe muito. Nas viagens, nós percebemos que dá para fazer de outra maneira e chegar aos mesmos resultados e está tudo certo. E não há uma maneira certa nem errada, são só maneiras diferentes. E acho que é um bocadinho isso que aprendi com o passar dos anos, é perceber que dá para fazer diferente.

Foi depois desse burnout que tu decidiste trabalhar online, portanto, ou trabalhar à distância, dar as tuas consultas de forma remota e viajar ao mesmo tempo. Começaste por uma viagem de autocaravana que durou seis meses.

Sim, é verdade.

Essa autocaravana tinha nome?

Tinha, era a Vandida.

Vandida, muito bem.

Oh, pai, cada nome.

Seis meses, não foi?

Sim.

Foi para limpar a alma?

É um marco extremamente importante na minha vida. Claro que a parte das viagens começou antes, em 2017, na altura que casei. Eu casei em 2017 e fui para os Estados Unidos, onde casei, casei em Las Vegas.

Espera. Casaste aqui e foste para Las Vegas ou foste daqui e casaste em Las Vegas?

Eu casei duas vezes.

Portanto, as duas formulações estão certas. Casaste em Portugal.

E casei lá, mas foi muito simples. Eu cá em Portugal casei de manhã, casei só no cartório mesmo, foi só ir ao cartório, já levávamos as malas e tudo. E fomos logo para o aeroporto. Ou melhor, antes de ir para o aeroporto, ainda fomos comer uma torrada e beber uma meia de leite. É verdade isto, foi o meu copo d’água. Depois fomos para o aeroporto e fomos pra América e foi nessa altura, fiquei lá um mês, porque juntei a licença com as férias. Na altura, a minha vida era outra.

A licença do casamento português.

Exatamente.

Então, depois foste lá, fizeste uma viagem pelos Estados Unidos de um mês, não foi?

Sim, fiz lá um passeio pelos Estados Unidos e casámos outra vez em Las Vegas, que é muito giro, foi muito divertido.

Já levavam essa na manga ou já tinha acontecido?

Já, isto foi tudo planeado.

Ok.

Sim, isso foi tudo planeado e a ideia era só fazer mesmo o casamento lá em Las Vegas.

Foi digno de filme, ou não?

Foi extraordinário. Foi espetacular.

Quem foram os testemunhas?

Por acaso levamos dois grandes amigos nossos.

Ok, bom.

Que embarcaram nesta aventura e eles foram conosco. Senão teríamos outras pessoas como testemunhas.

Encontravam alguém, não é?

Sim, eles foram conosco e até é uma história muito engraçada.

Conta.

Eu vou contar, eles perdoam-me. Que nós casamos e antes de nós, Bruna e Rui, estou a falar de vocês, e antes de nós, casaram um casal chinês. E com a confusão toda, eles acabaram também por assinar os papéis desse-

Eles, os teus amigos?

Os meus amigos, exatamente.

Foram testemunhas de um casal chinês.

Exatamente.

Engraçado.

Portanto, ainda hoje há uma declaração de casamento de Las Vegas assinada por eles e eles sabem lá quem é que eles são. Porque os casamentos lá são de 15 em 15 minutos, aquilo é muito rápido, é muito intenso.

Que indústria.

É uma indústria, mas é muito divertido. Foi com Elvis e tudo.

Como assim?

Com o Elvis a cantar.

Uau!

Mas é muito giro, depois andar de vestido de noiva por Las Vegas é muito interessante.

Ai, vestida e tudo?

Claro! Sim.

Claro, diria.

Sim, se era para ser, era para ser. E foi muito giro, foi muito divertido. Aconselho.

Muito bem. Portanto, casaste duas vezes, uma vez em Portugal e uma vez nos Estados Unidos.

As duas muito rápidas.

Fantástico.

Mas foi lá nos Estados Unidos que eu percebi que se fazia consultas online e ficou-me aquele bichinho a matutar até 2020, porque eu percebi que lá, e faz todo sentido, só que na altura não sabia, é óbvio que é um país tão grande, é óbvio que tem que haver. Mas eu na altura, em 2017, não sabia, mas isso ficou-me. E ficou-me aqui a sementinha, e em 2020 eu fiz igual

Pois, e fizeste bem.

Fiz.

Muito bem.

Agora sei que fiz bem. Na altura não sabia.

Corre bem?

Corre.

Fantástico. E permite trabalhar e viajar?

Sim.

Isso é que é incrível. Então conta-me esta viagem de autocaravana pela Europa durante seis meses na Vandida.

Sim. Esta viagem foi muito interessante.

Foi depois do burnout, não é?

Foi.

Foi uma espécie de viagem para reiniciar a tua vida?

Eu e o meu marido reconstruímos a autocaravana, que era uma autocaravana de 93 e nós compramo-la já a dar as últimas.

Cocha.

Nem sei se tinha perna, para ser verdadeira.

Sim.

Mas nós reconstruímo-la, colocámos o interior à nossa maneira. É uma autocaravana daquelas grandes, de sete metros e meio, daquelas muito grandes que têm a cama por cima.

Sim. Em cima da cabine do condutor.

Sim, exatamente. E tinham uns beliches atrás. Não sei se estás familiarizado com estes layouts.

Não tenho uma, mas estou a ver.

Estás? Ok. E o meu marido, que é muito bom nesta coisa de fazer coisas.

É um bricoleur.

É espetacular. E o que ele fez? Ele tirou os beliches e fez-me ali o meu consultório.

Que maravilha! E lá foste tu pela Europa fora.

Fui eu a trabalhar.

A trabalhar na Vandida.

Foi a primeira vez. Exatamente. A primeira vez assim sem data de vinda. Foi a primeira vez que o fiz e foi muito bom. Nós não tínhamos dia de voltar. Nós voltámos quando nos apeteceu voltar, porque conseguimos.

Qual foi o trajeto?

Foi um trajeto muito fácil. Fomos daqui, Espanha e França.

Não foi Porto, Badajoz e voltar.

Não, não foi. Podia, servia como viagem teste, mas não foi.

Conta. Portanto, Portugal, Espanha e França.

Portugal, Espanha, França. Fizemos também os Países Baixos, que agora já não se diz Holanda. Fizemos os Países Baixos. De todos os países, só para tentar aqui resumir, o país que mais nos surpreendeu foi logo a Eslovénia, que nós não estávamos a contar que fosse tão bonito. Se calhar ingenuidade nossa.

É o fim dos Alpes, não é?

É espetacular, é muito bonito.

Grandes montanhas.

Muito bonito.

Florestas.

Florestas e também subidas de 18 graus com uma autocaravana.

Que aventura! A primeira é sempre a sofrer, não é?

Coitadinha. Mais valia ir a pé ao lado para subir. Mas foi uma viagem muito gira. Passámos também muito tempo em Itália. Passámos lá também muito tempo. Foi uma viagem muito gira e foi uma viagem que nos fez, principalmente a mim, fez perceber: é isto, é mesmo isto que eu quero. E foi muito interessante também, claro, conhecer as pessoas todas à volta.

Ok.

Em Itália rebentou-nos um pneu da autocaravana.

Em andamento?

Sim, rebentou, mas não aconteceu nada. Portanto, foi só o susto. Aconteceu-nos isso e fomos logo ajudados. Tivemos uma sorte de, na altura que nos rebentou o pneu, ser exatamente numa zona de gomistas, de borracheiros, que trocam os pneus.

Ok.

Portanto, foi logo no sítio. Calhou, aconteceu. Trocámos logo os pneus todos da autocaravana e o senhor que nos trocou os pneus, quando percebeu que nós trabalhávamos dentro da autocaravana, arranjou-nos logo sítio para nós ficarmos, emprestou-nos o carro deles.

Uau!

E passámos de uma autocaravana de sete metros e meio para um Fiat Panda quatro vezes quatro. Foi assim qualquer coisa de espetacular, nós no Fiat Panda.

Quando dizes nós trabalhamos, o teu marido também trabalha à distância, é isso?

Sim, ele é programador.

Ok.

Ele é programador, ele trabalha à distância. E também viajamos com a cadela. Sempre que são viagens de carro, a nossa cadela também vai conosco.

Ok, muito bem.

Portanto ela também fez parte desta aventura.

Portanto, uma longa viagem de seis meses de autocaravana, a Vandida, e como é que aparece, como é que se chama?

O Aristides.

O Aristides. Varreu-se-me o nome do Land Rover. Como é que aparece o Land Rover Aristides?

É assim, nós quando voltámos da autocaravana, acabámos por vender, porque achámos que era demasiado grande. Era mesmo muito grande e difícil de manobrar.

Ok.

Acabámos por vender e pensámos que queríamos fazer uma viagem com mais aventura, que a autocaravana não nos dava muita aventura. Dava alguma, mas não tanta, e acabámos por comprar um Land Rover com tenda de tejadilho.

Não era o teu escritório lá em cima?

Não. Podia, mas não. As consultas eram sempre garantidas em casas. Portanto, nós quando fizemos a viagem de Land Rover, nós fomos conduzindo e fomos parando, tendo casas.

Em alojamentos físicos.

Sim.

Ok, muito bem.

Para conseguir garantir as consultas, porque no jipe não conseguia garanti-las.

Quanto tempo durou essa viagem?

Nove meses.

Nove meses com o Land Rover. Foi a Europa toda, até lá acima?

Foi toda.

Chegaram onde? À Finlândia?

Chegámos à Finlândia.

Viram auroras boreais?

Vimos, embora não tenham sido as mais espetaculares que nós vimos.

Mas viram, isso é bom.

Sim, vimos.

Mágico.

Mágico. As melhores que vi foi na Islândia.

Ok.

Noutra viagem foi as melhores, mas na Finlândia foi espetacular também. E apanhei -38 graus.

Que frio!

É bastante. Mas estranhamente, não é tão desconfortável como parece quando se fala.

Pois. É seco, não é?

É diferente. E também tínhamos a sorte de estar alojados numa casa onde o host também simpatizou conosco e acabou por nos emprestar roupa própria para a neve e portanto não tivemos propriamente frio. E tivemos a sorte de estar num sítio espetacular. Fiquei mais ou menos um mês na zona da Lapónia, porque chegámos ao Círculo Polar Ártico, é lá naquela zona da Lapónia, de Rovaniemi, e ficámos lá mais ou menos um mês e o host emprestou-nos também a mota de neve para nós andarmos lá.

Um sonho.

Foi um sonho, um espetáculo.

Uau!

Fomos para a sauna da família.

Viver assim é espetacular.

Sim.

Trabalhar assim é bom.

Sim, foi espetacular. Ele emprestou-nos a mota de neve, explicou-nos como é que aquilo funcionava, claro. Depois deixou-nos ir e estarmos os dois a passear no meio de uma floresta, é muito bonito. Deixou-nos usar a sauna de família, uma sauna que já tinha muitos anos, que era mesmo antiga. Eu vou dizer que tinha 100 anos, mas se calhar estou a inventar, mas tinha mais ou menos 100 anos a sauna, uma sauna muito antiga que nós usamos. Ainda nos deu amoras do Ártico, o senhor. O que ele nos esteve a explicar é que cada família daquela zona sabe onde é que vai buscar as amoras todos os anos. E ele partilhou connosco também as amoras do Ártico que tinha do ano anterior, porque nós fomos no inverno, e partilhou as amoras que tinha do ano anterior. Estas partilhas são espetaculares.

É, não é?

As pessoas são o melhor.

São?

São, as pessoas são o melhor da viagem.

Pois.

Sim.

Mas também às vezes são más, não é?

Nunca encontrei nenhum.

Não?

Não. Em viagem nunca encontrei ninguém. Das duas, uma: ou sou muito ingênua e não reparo, e se calhar até é bom, é uma boa proteção, ou então realmente nunca encontrei ninguém. Sempre que nós precisamos, sempre apareceu ajuda.

Boa. E de onde é que vem o nome Aristides?

Isto do nome Aristides-

Para o Land Rover.

É sim, isto é engraçado. Eu tenho muitas vezes um sonho. Isto é engraçado. Eu sonho muitas vezes com dinossauros.

Com dinossauros?

Com um dinossauro.

Um.

Chama-se Aristides. E quando arranjamos este carro, por ele ser antigo e por ele ser verde, nós chamamos o Aristides o T-Rex.

Ah, ok.

É só isso.

Mas é giro.

Sim.

É giro. Muito bem, fantástico. Também viveram muitas aventuras a bordo do Aristides.

Claro, não tem aquecimento.

Não?

Pois.

Então como é que fizeram lá para cima no Círculo Polar Ártico?

Mantinha nas pernas, roupinha de neve e claro que tínhamos os alojamentos. Não se esqueçam disso, da parte dos alojamentos. Mas ele chegou a ficar sem bateria. Ele tem duas baterias, que nós colocamos duas baterias porque já sabíamos que mais tarde ou mais cedo ia ficar sem. Mas o que nós fizemos foi: pegamos num cartão e pusemos à frente do Land Rover pro ar frio não entrar.

Ah, ok.

E assim era frio, mas menos frio.

Pronto.

Só frio.

O engenho.

Sim.

A arte aguça o engenho, não é?

Sim. A necessidade.

A necessidade aguça o engenho. É verdade, obrigado.

E há muita necessidade nesta situação, por isso, sim, uma mantinha, roupa de neve. E vamos.

E a coisa vai.

E foi muito giro. E foi muito divertido.

E nós quando viajamos também estamos dispostos a quase tudo, não é?

Com certeza. Sim.

O que não é verdade quando estamos aqui na nossa vidinha tranquila, não é?

Sim. Eu acho que tento fazer isso ao máximo quando estou cá, conscientemente. Tento pensar: "Olha, se não estivesses cá, o que é que farias? E faz aqui". Mas é verdade que nós quando estamos em viagem estamos muito mais tranquilos para fazer as coisas e está tudo certo.

Pois.

E resolve-se.

É a predisposição, não é?

É.

Ajuda sempre.

E também ajuda estar num sítio bonito. A cana parece purpurina e vês alces. Isso também ajuda.

Exatamente. Na cabeça de um viajante nunca há lixo. É como as revistas de decoração, não há cabos elétricos.

Não.

Os eletrodomésticos.

Nós vamos eliminando as coisas. Sim, nós só vemos as coisas bonitas. É tudo bonito.

Muito bem. Olha, estamos a ficar sem tempo. Sofia, vamos fazer check-out?

Vamos.

Vamos lá. Então vou pedir-te para completares as habituais frases: na minha mala vai sempre...

Bicarbonato de sódio.

Bicarbonato? Explica lá isso. Tens digestões difíceis?

O meu marido quando ouvir isto vai se rir com isto.

Então.

E café também.

Café, ok.

Café. Mas a história do bicarbonato é que o bicarbonato dá para tudo. Há nódoas? Pomos bicarbonato. Estamos com azia? Usamos bicarbonato. É preciso fazer isto ou aquilo? Usa-se sempre o bicarbonato. Portanto, é isso que vai sempre na nossa mala.

Eu nunca imaginei que alguém pudesse dizer o bicarbonato de sódio. Pronto.

Se não vai na bolsa, começa a ir a partir de hoje.

Boa. A viagem com mais peripécias que realizei até hoje.

Eu acho com certeza que foi a do Land Rover.

A do Land Rover.

Com certeza, porque nós também fazíamos trajetos 4x4. E às vezes era um bocadinho mais complexo.

Lá vai uma mola, lá vai uma coisa que salta.

Sim.

Perderam muitas peças pelo caminho nessa viagem de nove meses.

Nós na Grécia subimos de Land Rover, de 4x4, aqueles trajetos de 4x4 no Monte Parnaso. Tanto subimos, tinha tanta pedra, tinha tanta coisa, tinha tanto tudo, que depois durante uns dias o carro estava sempre a fazer uns barulhos. Quando fomos a ver era um parafuso que tinha saído, com certeza por a gente ter subido. E quando nos apercebemos, vimos uma fotografia que tínhamos tirado quando estávamos lá no monte e ao traduzir o letreiro da fotografia percebemos que aquilo dizia: "Este caminho não pode ser usado. Tão por vossa conta e risco". Mas só percebemos isso no fim. Portanto, pronto. Foi-se perdendo umas peças.

No fim é quando convém.

É, ainda bem.

O carimbo de passaporte ou visto mais difícil de obter.

Eu diria que, meu eu não tenho. Como eu viajo com um cão, isso é que é complexo.

Ah, ok.

O mais difícil é viajar com um animal de estimação, em alguns países é complexo. E a minha cadela é pit bull, ainda é mais complexo, porque alguns países não pode entrar.

É uma raça perigosa.

Considerada perigosa.

Considerada perigosa. Ui, onde é que nós nos fomos meter.

Perigosa não tem nada.

A recordação de viagem mais cara.

Os pneus da autocaravana.

Ui.

Porque aquele rebentou, eu tive que colocar os pneus todos e tinha rodado duplo.

Ai, caramba!

Portanto, foi uma recordação bem cara.

Ui, nem quero saber. A refeição mais estranha, qual foi?

A refeição mais estranha. Eu acho que foi na Tailândia, quando me deram uma bola de gelado com arroz cozido. Foi a cena mais estranha.

Isso é prato principal ou é sobremesa?

É sim, até hoje eu ainda não percebi. Eu comi porque era um senhor já com alguma idade e eu tive respeito.

E era bom?

Era bom.

Pronto.

É sim. Quando não souber eu que fazer ao arroz, ajunto a uma bola de gelado.

Gostava de viajar com...

Olha, eu gostava muito de viajar com um casal brasileiro, que são os Vibe de Dois. Eles têm uma Kombi muito antiga, de 86, e eu acho que deve ser espetacular viajar com eles.

Uma Kombi é pequenina.

É pequenininha.

Ui, tudo apertadinho ali.

Deve ser espetacular. Sim.

Na reforma, quando precisares de menos objetos.

Se calhar antes da reforma.

Antes. Muito bem. Então vá, boa sorte com isso.

Obrigada.

Sofia, chegamos ao fim. Qual foi a música que escolheste?

Jorge Palma. "Enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar".

Muito bem! Já tens uma viagem planeada para os próximos tempos?

Eu não tenho uma viagem, eu tenho um projeto.

Podes contar?

Posso, acho que não há problema. É o projeto da Panamericana. Eu e o meu marido queremos fazer do Alasca até Ushuaia de autocaravana.

Ai, que inveja.

É um projeto, ainda vai demorar.

Não vai nada, isso passa rápido. Vais ver.

Vou fazer por isso.

Força, faz. Si, foi um gosto. Obrigado.

Obrigada.

Muito obrigado. Boas consultas e boas viagens.

Obrigada.

Continua.

E obrigada pelo convite.

Ora essa. A gente vai continuar. Jorge Palma a fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana. Já sabem, estamos de regresso de dois a oito dias. Sejam bons e boas viagens.

Enquanto houver estrada para andar. Enquanto houver ventos e mar, a gente não vai parar. Enquanto houver ventos e mar. Todos nós pagamos por tudo o que usamos. O sistema é antigo e não poupa ninguém, não. Somos todos escravos do que precisamos. Reduz as necessidades se queres passar bem. Que a dependência é uma besta que dá cabo do desejo. E a liberdade é uma maluca que sabe quanto vale um beijo. Enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar. Enquanto houver estrada para andar. Enquanto houver ventos e mar, a gente não vai parar. Enquanto houver ventos e mar. Enquanto houver ventos e mar, a gente não vai parar. Enquanto houver ventos e mar.