Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Sejam bem-vindos. Quando tudo isto passar, ou seja, quando nos livrarmos das tempestades, das inundações, das enxurradas e dos ventos fortes, há um país para voltar a descobrir. O viajante desta semana tem percorrido Portugal nos últimos anos em cima da sua moto ou motos e tem escrito sobre as suas viagens no blog "Viagens ao Virar da Esquina", que já conheceu até uma versão em livro. Henrique Saraiva, bem-vindo às conversas do Fim do Mundo.
Obrigado, João.
Henrique.
É um prazer.
Isto não está bom pra quem gosta de duas rodas, pois não, ultimamente. Tens viajado de moto?
Há cerca de 15 dias, três semanas, que não lhe pego.
Pois.
Isso é quase patológico.
Já está a mexer contigo.
Já, muito. Não que a chuva possa ser ou não um problema em si. Quando nós viajamos por onde quer que seja e principalmente quando fugimos ao verão, o verão também tem o problema do excesso de calor, que também não é agradável, a chuva acaba por ser algo com que nós nos confrontamos com facilidade.
Mas é perigoso, não é? E ultimamente as estradas andam perigosas. Perigosas, cortadas, instáveis, derrubadas.
Atualmente, sim. Eu julgo que a questão da chuva, pra quem anda de moto e pra quem viaja de moto, tem mais a ver com algum desconforto, por um lado. E por outro lado, porque as condições de circulação também são piores. E em terceiro lugar, obviamente, se nós queremos viajar pra conhecer e pra ver, quando está a chover, vemos muito pouco.
Pois.
E isso aí perde um bocado o interesse da viagem.
Muito bem. Qual é o teu registro como motoviajante? São viagens, sobretudo ao virar da esquina, não é o título do teu blog, ou seja, viagens por Portugal, mas dentro de Portugal, tu és off-road?
Não.
És road? És road.
90% ou 95% road, se tiver que passar por um caminho de terra, de preferência que seja terra batida em boas condições, etc. Não tenho propriamente nem os skills próprios pra isso, não tenho experiência, embora em tempos tenha feito até um curso de condução em off-road. E por outro lado, o tema é mais simples até do que pode parecer. É que há uma questão que tem a ver com a aderência. Ou seja, se eu tenho uma moto com pneus pra andar em estradas, se for pra terra muito como mais hard, mais complicada-
Vai correr mal
...a coisa pode ter uma elevada probabilidade de correr mal.
Muito bem, vamos falar das tuas viagens ao virar da esquina. Portugal, Henrique, é um país para viajantes de moto? Pergunto isto porque habitualmente associamos as duas rodas àqueles vastos territórios, África, Ásia Central, as Américas. Portugal é um país pequenino e é bom pra viajar de moto?
Muito bom. Aliás, o espírito das viagens ao virar da esquina, quando nasceu, foi precisamente esse. Nós temos, felizmente, bastantes viajantes no nosso país que se espalham pelo mundo, vão à procura da aventura mais longínqua, talvez um bocado aquele espírito que nós temos desde os anos 50.
É verdade. Deve haver um gene qualquer aqui ainda por descobrir no nosso sangue.
E depois há os que, como se costumava dizer, os que ficam cá a dizer mal dos que foram. Bem, não é o caso. E na altura, quando comecei a viajar, passei a ter mais tempo disponível e queria viajar com frequência. E normalmente essas viagens mais longínquas, quem as faz, faz uma, leva o mês das férias ou o mais tempo que seja, mas faz uma por ano, duas no máximo dos máximos.
Pois.
E eu queria viajar com frequência, queria começar a viajar em janeiro e acabar de viajar em dezembro.
Isto porque tu agora tens tempo, estás reformado, não é?
Exatamente.
Que sorte.
Desde 2018. E portanto, tenho essa facilidade por ter o tempo disponível e comecei a fazer pequenos passeios. O primeiro, se quisermos quando-
Conta
...quando atingi o meu estado de liberdade plena, foi um dia de manhã, eu cessei a minha profissão no final do ano 2017, e no dia 3 ou 4 de janeiro peguei na moto e disse assim: "Bem, eu tenho que ir a qualquer lado". Peguei na moto, estava um frio de rachar, mas um sol lindíssimo. Fui em direção às praias da zona da lagoa de Albufeira, Praia do Meco, Cabo Espichel, Sesimbra, Arrábida, e disse assim: "É pra isso que eu quero". E portanto, a partir daí, mais perto, mais longe, mais dias, menos dias, mas já percorri praticamente o país todo. Falta-me um recantozinho na zona de Bragança e do Douro Internacional, onde eu ainda não fui. É a parte que me falta.
Aconselho.
Eu sei.
Aconselho.
E entretanto, na altura quando, nos últimos tempos, ainda trabalhava, escrevia uns pequenos textos. Aliás, na altura praticava BTT a nível amador, muito amador, e depois em algumas provas em que-
Recreativo ou lúdico.
Completamente.
Gastronômico ou recreativo ou lúdico.
Por aí. A parte do gastronômico no fim era muito interessante.
É uma vertente.
É uma vertente. E Portugal é bom pra isso.
Ui.
Na empresa, de vez em quando, fazia uns textos com um certo cariz até quase humorístico ou irónico sobre as nossas provas de BTT.
Ok.
A escrita sempre foi algo que eu gostei desde miúdo, sempre gostei muito de escrever.
Ok. E foi assim que nasceu então o blog.
E acabou por nascer com estes pequenos passeios de mota.
De mota. Vamos falar deles, porque isto é um programa de viagens, as pessoas ouvem o "Conversas do Fim do Mundo" e querem tirar notas. Vamos lá, Henrique.
Vamos provar que o fim do mundo pode ser aqui ao virar da esquina.
É verdade, mas é mesmo verdade. Não é a distância que conta.
Desculpa, então, Pedro. Respondendo à tua questão
Sobre o viajar de mota em Portugal
Em Portugal. Portugal tem uma característica muito particular e que eu penso que as pessoas, ou pelo menos não é comum termos essa noção. Nós temos um país pequenino, muito variado, muito heterogêneo. Eu acho que uma das coisas mais engraçadas que nós podemos ter é, por exemplo, quem faz a Nacional 2 tem essa percepção. Normalmente, a Nacional 2, por uma questão que não tem nada que ser, mas começa em Chaves e acaba em Faro. Porque em Chaves é o quilômetro zero, em Chaves é o 738,5. Quem vem na zona centro e começa a chegar a Abrantes, a transição é fantástica, porque nós vimos de uma zona do país em que o terreno está todo enrugado, parece que foi todo amarfanhado, serras, subidas, descidas, etc.
Cheia de pinheiros, eucaliptos.
Chegamos a Abrantes, temos uma vista fabulosa. Se formos ao castelo, o Castelo de Abrantes é lindíssimo, temos uma vista fabulosa pra sul da planície alentejana, a Lezíria, um bocado da Lezíria e planície alentejana. É fantástico.
Portanto, olhas pra trás e vês um país, olhas pra frente e vês outro.
Tal e qual.
É, não é?
E se falares com as pessoas também vês que têm hábitos culturais, gastronômicos diferentes. E andas mais 100 km pra norte ou pra leste ou pro oeste, pro oeste ou pra leste não podes andar muito mais. E vais encontrar diferenças. A zona da Beira Baixa é totalmente diferente da zona da Beira litoral.
Deixa eu ver se eu consigo perceber, fazer aqui um exercício teórico. Portanto, se um estrangeiro quiser conhecer bem Portugal, senta arraial em Abrantes e dá ali um raio de 100 km.
Num raio de 100 km talvez seja escasso, mas se alongar um bocadinho a viagem, tem a Serra da Estrela.
Ok.
Tem a zona de Castelo de Vide, Marvão, mais abaixo pode ir até Évora. Se quiser pouco mais, 120, são capazes de ser mais, 140 km está em Lisboa.
Tem o Atlântico.
Se for em linha reta, tem Leiria, coitados. Um abraço pra eles. Leiria e depois as praias ali daquele litoral, Balial, por exemplo, que é lindíssimo. Portanto, é fácil.
Ok.
Embora não fosse essa, talvez, a minha sugestão. É a minha ideia.
Então, qual é a tua sugestão?
A minha sugestão, já nós falamos nela, era, por exemplo, fazer a Nacional 2. Porque a Nacional 2 tem uma vantagem grande. Por um lado, atravessa o país longitudinalmente.
De alta a baixo.
De alta a baixo. Permite termos a percepção de toda essa variedade, todos esses cambiantes, seja da morfologia do terreno, seja das tradições e da cultura das pessoas, seja até às vezes dos próprios sotaques.
É verdade.
E depois a gastronomia também.
Começas a viagem a assobiar e acabas a cantar.
A cantar, exatamente.
Sem desprezo pra quem assobia e pra quem canta.
Nada, zero. E com a vantagem também de que quando a estrada foi traçada, isso é uma história engraçada, quando a estrada foi traçada, ela tinha como objetivo precisamente ser a espinha dorsal do país em relação à rede rodoviária que na altura estava a ser criada. Isso data de 1945, o plano rodoviário de 1945, por inspiração do Duarte Pacheco. E a estrada começa em Chaves, que não é capital de distrito, passa em Vila Real, que é capital de distrito, passa em Viseu, que é capital de distrito, pelo caminho de Lamego, e a partir daí chega a Faro, que é capital de distrito. Ou seja, é uma estrada que passa pelo interior. É uma estrada que nos dá tudo aquilo de mais genuíno que nós possamos ter no nosso país, de uma forma relativamente condensada. São 700 e tal quilômetros, três, quatro dias já não é mau pra fazer, depende também depois de como é que se faz. Há quem faça a pé e demora mais tempo, quem faça de bicicleta demora um pouquinho mais e há quem faça de carro e perde metade da beleza da estrada.
Portanto, tu já fizeste de mota?
Já fiz de mota. Já fiz duas vezes na totalidade e a maior parte do percurso várias vezes, porque entro aqui, paro acolá e saio.
Entras e sais.
Porque é inevitável.
Fizeste sempre de Chaves pra Faro?
Sim, por acaso nunca fiz de sul pra norte.
Ok.
E é uma lacuna, porque as estradas devem ser sempre feitas nos dois sentidos. Porque aquilo que nós vemos à ida é diferente daquilo que nós vemos à vinda.
É verdade.
Mas as coisas às vezes não dá pra fazer isso, mas é uma realidade. Isto a propósito de, agora perdi-me.
Da Nacional 2?
Da Nacional 2.
De ter uma boa visão do país.
Dá uma boa visão do território. E depois, ela deveria ser, e isto é uma luta que eu tenho desde há muito tempo, e aliás, é uma luta que eu já abandonei há uns anos, porque eu acho que é talvez dos produtos turísticos destinados a quem viaja, principalmente de moto. Há alguns troços da Nacional 2 Que hoje em dia já estão desqualificados como sendo da Nacional 2. Dou um exemplo, o troço que vai desde a Sertã, praticamente até Abrantes, mas principalmente da Sertã até Vila de Rei, depois passado um pouquinho Vila de Rei, Sardual e Alfrezede, foi construída provavelmente nos anos 80, uma via rápida que hoje em dia está classificada como Nacional 2, mas que não é Nacional 2 genuína. A genuína passa, por exemplo, pelo Penedo Furado. É uma estrada interior, hoje em dia é uma CM qualquer coisa e é bastante sinuosa. Se nós formos de carro, aquilo para o condutor pode ser interessante para os passageiros, provavelmente.
Na tua opinião, o que é que deveria ser feito em relação à Nacional 2?
Eu acho que a Nacional 2 hoje em dia já tem muita visibilidade até no estrangeiro. Já se veem revistas estrangeiras a comentarem a Nacional 2. Os espanhóis veem.
Há livros.
Há livros, há tudo. Todavia, vive muito de iniciativas isoladas ou separadas.
Na tua opinião, devia ser "vendida" entre aspas.
Um produto integral.
Devia ser promovida como um produto integrado.
Um produto turístico integrado. E haver o cuidado de perceber que uma coisa é a serventia da Estrada Nacional 2 para quem a utiliza no seu dia a dia, quem necessita da estrada e utiliza a estrada, e outra coisa é a Estrada Nacional 2, produto turístico, que se deveria aproximar o mais possível daquilo que é a parte genuína.
Pois.
Há zonas que já não é possível. Por exemplo, quando foi construída a Barragem do Cabril, houve uma parte que ficou submersa, mas há a variante, dá para ir apanhar a estrada um pouco mais à frente.
É para fazer.
É para fazer.
É a nossa Route 66, não é?
Dizem isso, eu detesto essa designação.
Caramba, onde eu me fui meter.
Não, sabes por quê?
Por quê?
Nós temos um bocado o hábito.
De copiar, é isso?
Não é de copiar, mas dizer: isto é a nossa qualquer coisa de.
Pois.
Não, aquilo é nosso, aquilo não tem nada a ver com a Route 66. A Estrada Nacional 2 atravessa o país de uma ponta a outra. A Route 66 não atravessa os Estados Unidos de uma ponta a outra. Aliás, a Route 66 hoje em dia até já parte não existe.
Exato.
Mas é mítica.
Sim.
É daquelas rotas míticas que existem no mundo.
Então é trazer um realizador de Hollywood para fazer aqui um filme na N2.
Olha, se calhar era uma boa ideia. Quem é que pega nela?
Quem sabe? Olha, Henrique, estamos a chegar ao final da primeira parte, vamos abrir o álbum de viagem. Então, trouxeste contigo ou tens contigo algum objeto que tenhas trazido das tuas viagens e que seja especial, Henrique?
Tenho. Como disse há bocado, eu fiz já integralmente a Nacional 2 de duas vezes. A primeira vez foi em quatro dias com uns amigos. A segunda vez foi num só dia, percorri a Nacional toda de uma ponta a outra. O objetivo na altura era fazer um teste a uma moto que tinha acabado de sair e, portanto, fazer um teste como deve ser, nada melhor do que fazer uma boa viagem, uma viagem desafiadora. Resolvi fazer isso e resolvi, não tornei a repetir, convidar no blog, na página de Facebook, quem quiser se juntar, venha daí. E acabamos por ser, se bem me recordo, 10 motos, uma delas um casal, portanto 11 pessoas, e viemos por aí fora. Entretanto, também houve várias peripécias pelo caminho, uns perderam-se. E entretanto havia um compromisso moral, porque como a marca da moto também estava envolvida, havia a necessidade de fazer ali um pouco de charme comercial nos concessionários. O que acontece? Em Viseu perdi muito tempo, em Leiria perdi muito tempo. Em Leiria, neste caso em Vila de Rei, perdi muito tempo com o concessionário de Leiria, quando cheguei aos de Évora, cheguei quatro horas atrasado e eles já lá não estavam. Resumindo e concluindo, aprendi que as coisas têm que ser bem organizadas. Bem, onde é que entra o objeto que eu trouxe? Quando chegamos ao final, o grupo, um dos membros, um que ficou como amigo e que tinha uma empresa que trabalha metal, alumínios, etc, ofereceu-me um marco da Estrada Nacional 2.
Que é o que tens aí.
Que é este que eu tenho aqui. Portanto, é um marco que tem 40 centímetros de altura, mais ou menos, e que reproduz os marcos tradicionais da Estrada Nacional 2: Chaves, quilômetro zero, Faro, quilômetro 738,5. E ficou como recordação dessa viagem, que curiosamente foi no dia 25 de janeiro de 2020 e, portanto, duas ou três semanas antes de ficarmos fechados em casa.
Pois. Portanto, foi ali mesmo in extremis.
Foi.
Muito bem, estamos à conversa com Henrique Saraiva, é o motoviajante, autor do blog Viagens ao Virar da Esquina. Vamos continuar a viajar por esse imenso Portugal na segunda parte das Conversas do Fim do Mundo. Até já. Estamos de volta. Esta semana nas Conversas do Fim do Mundo recebemos Henrique Saraiva, autor do blog Viagens ao Virar da Esquina, blog onde o Henrique vai relatando a sua experiência como motoviajante. Henrique, esta necessidade que tu tens de escrever e de colocares em blog e também agora num livro, as tuas experiências como viajante de moto tem a ver com o teu passado de marketeer e com a necessidade de comunicar?
Provavelmente sim, ou o passado de marketeer veio precisamente da necessidade anterior ou da vocação anterior de comunicar. O gosto pela escrita tenho desde que quase que me conheço. Sou viciado em leitura. Aliás, felizmente acho que é o único vício que tenho é precisamente de livros. Eu leio compulsivamente.
És um grande leitor.
Leio compulsivamente. Aliás, há vários tipos de viagens. Nós podemos dizer que temos uma grande viagem, que é a nossa vida, é a maior de todas, e depois podemos viajar literalmente, pegar no veículo, qualquer que ele seja, e ir por aí fora. Ou podemos viajar através das experiências alheias, da literatura. E a literatura dá-nos muito campo para essas viagens, são viagens que depois acabam por ser construídas na nossa própria imaginação. E eu ao ler um autor, um livro sobre uma qualquer viagem, a certa altura, eu pelo menos sinto isso, nós estamos a viajar com ele, construímos a viagem na nossa mente, que poderá ou não ter aderência àquilo que é a realidade, mas nós construímos aquela viagem.
Os livros são uma boa fonte de inspiração para as tuas viagens de moto, Henrique?
São. Este livro que tens à tua frente, o "Viagens ao Virar da Esquina". A primeira crônica que aí está, ou a primeira história, é uma das mais recentes. E é curiosa, porque é uma viagem a duas mãos. É uma viagem de Lisboa a Cascais e de Cascais até Sintra.
Chama-se Uma Viagem à Desgarrada.
E o meu parceiro de viagem chama-se Ramalho Ortigão e fez essa viagem 150 anos antes. Ou seja, eu ao ler um dos livros do Ramalho Ortigão, autor que eu admiro particularmente.
Do "As Praias de Portugal".
Exatamente. E eu fiz essa viagem de Lisboa a Cascais e depois até Sintra, comparando o que eu via ou o que eu vi no presente com aquilo que eram as impressões do Ramalho Ortigão há 150 anos. Ele que fez a viagem de vapor desde o Cais do Sodré até Cascais, e depois foi pela estrada de Sintra, que eu não sei sinceramente qual é que era a estrada de Sintra a que ele se referia, porque hoje em dia há muitas.
Isso.
E portanto, arrematei o texto praticamente onde ele também remata, que é naquele que é o hotel mais antigo da Península Ibérica em funcionamento, que é o Lawrence, em Sintra. Um hotel que é muito focado, quer em algumas obras do Ramalho Ortigão, como também do Eça.
É um livro muito interessante, com muitas viagens que tu realizaste aqui no Ao Virar da Esquina. Henrique, pra quem nos ouve e está aqui já agarrado ao bloco e à caneta, à espera de boas dicas para viagens em Portugal, quando chegar aí a primavera, por exemplo, quem vive lá pra cima pra zona norte do país, deve ir onde? Viajar pra onde de moto?
Para quem vive no norte, eu sugiro-
O que recomendas?
Eu sugeriria um percurso, que teria que ser feito até meados de junho, porque a partir daí o calor começa a ser demasiado e torna-se desagradável. Um percurso que poderia começar em Vila Velha de Ródão, por exemplo.
Ok. Nas margens do Tejo.
Nas margens do Tejo, tem o Castelo do Rei Vamba, que tem uma lenda engraçada, uma história engraçada do tempo dos visigodos. Vir por aí fora, ir ver Nisa e os seus bordados, ir a Castelo de Vide, que é uma terra muito bonita.
E já mais fresca, não é?
E mais fresca. Lá vamos às tais comparações que eu não gosto, chamam-lhe a Sintra do Alentejo.
É isso que ia dizer.
Ir a Marvão, que é fantástico, é lindíssimo, o castelo no cimo do penhasco, onde se dizem que se consegue ver as águias de costas, e é verdade, que eu já vi. Logo ali embaixo, ao sopé da Serra de São Mamede, uma antiga cidade romana, a cidade de Emília. Depois toda a serra de São Mamede, Portalegre, uma cidade também lindíssima. Depois seguir Campo Maior.
Ok, ir à Serra de São Mamede ou não?
Sim. Claro que sim.
Portalegre, atravessar a serra de São Mamede.
Ou atravessar de Marvão para Portalegre por dentro da serra.
Ah, ok. Tem umas cascatas, não é?
Exatamente, tal e qual.
Mas aí tem que ser apegado, não é? Ou dá pra passar de moto?
Podes passar e a certa altura depois terás que fazer algum pequeno troço a pé ou não. Mas dá pra passar. Portalegre eu iria até Campo Maior e sem fazer publicidade, iria ao museu, chamava-se Museu do Café, hoje é Centro de-
Pesquisa do Café, não é?
De Interpretação da História do Café. Uma obra notável do Rui Nabeiro. É fantástico e recomendo vivamente a visita.
Tem mesmo lá um ecossistema montado.
Tem, entre outras coisas, sim. E muita memorabilia anterior. Conta toda a história da parte do contrabando do café. É interessantíssimo. A vila em si também é engraçada, também é bonita, uma típica vila alentejana. Daí seguiria em direção a Elvas. Elvas é a ou uma das maiores praças fortificadas da Europa. Tem os fortes O Forte da Graça é notável. É lindíssimo e a própria cidade é muito bonita e vale a pena ver.
Ok, pronto.
E agora queres o contrário?
Agora sim, lá em cima na região Norte. Talvez a 222, será?
A 222-
Sim, que é a nacional que vai de Vila Nova de Gaia.
Vai até Almendra. Vai até o Pinhão e um bocadinho antes do Pinhão vira-se à direita e vai até Almendra.
Ou seja, pela margem esquerda do Douro. Deste lado. Sul.
A parte que eu gostei mais em termos de condução, foi a parte desde o Pinhão até Almendra, porque é estrada de serra.
Ok.
Depois dentro de Rio, adiante, começa a ser mais interessante. E depois há aquela parte entre Peso da Régua e Pinhão, que dizem que é a melhor estrada do mundo, pelo menos foi em tempos classificada como isso. Sob o ponto de vista paisagístico, não há dúvida que é uma estrada lindíssima, sob o ponto de vista de piso também, tem bastante trânsito, mas não é propriamente... Eu penso que talvez para circular de carro, sim, circular de moto não é muito desafiante. Eu nesse aspeto, se calhar em vez da 222 preferiria fazer a nacional 103, que é a que vai de Braga a Chaves, Bragança. Também é espetacular. Em janeiro, fevereiro do ano passado, fui para o Alto Minho, estive uns dias no Alto Minho, Ponte de Lima, Ponte da Barca, depois toda a parte do Rio Minho, a descida do Rio Minho, Viana do Castelo, e no final resolvi entrar no Gerês pela fronteira da Portela do Homem.
Sim.
Ou seja, por norte. Saí para Espanha um bocadinho. Quando cheguei à fronteira, antes da fronteira, tinha caído uma carga de água monumental. Aquela descida pela Mata de Albergaria até cá abaixo ao Gerês, às Caldas do Gerês.
Sim.
Lindíssima, porque as árvores todas molhadas, as cascatas nas encostas a correr. Fantástico. Não havia viva alma, inverno e chuvoso. Espetacular, uma coisa deliciosa. Depois chegámos cá abaixo ao pé da barragem da Caniçada, voltámos para cima, fomos até à barragem da Vilarinha das Furnas, portanto fizemos a subida toda pela outra encosta, São Bento da Porta Aberta, etc. Também muito bonito, esse santuário fantástico. E tive o desgosto, uns meses mais tarde, de ver que parte do trajeto que eu tinha feito tinha ardido no verão.
Caramba.
E é uma das coisas que choca e atualmente esta situação que nós vivemos ainda na zona centro e aqui na zona do Tejo e na zona de Porto Covo, por exemplo, com o desaparecimento de partes de estrada, etc, choca ver estradas onde eu passei há meia dúzia de dias, digamos assim. É chocante, mas pronto, são os fenômenos da natureza, são as alterações climáticas, se calhar a incúria humana também em alguns casos.
É tudo à mistura.
É o que nós temos.
Muito bem. Já que estamos a falar de estradas nacionais, e tu já percorreste tantas, Henrique, o que é que nos aconselhas a ir ver quando chegarem os dias bons? Enfim, na expectativa de que elas estejam inteiras e tenham sobrevivido a estas tempestades.
Muito cuidado agora quando voltarmos a andar na estrada, porque não só as que estão destruídas, mas também as lesões que vão ficar agora nos próximos tempos e que nós podemos dar a saída uma curva e parar com um buraco na estrada e pode ser aborrecido. Eu recomendo, talvez zona centro, há uma estrada que eu adoro particularmente e que depois permite ligar com outras. Há uma estrada chamada Portal do Inferno. O nome é sugestivo.
Isso é onde?
Fica entre São Pedro do Sul e Arouca, atravessa a serra da Freita.
Muito bem.
Só que tem uma particularidade. Quem fez aquela estrada não fez aquilo que é habitual na maior parte das estradas portuguesas, em que as estradas seguem pelas encostas dos montes. Ali, no caso, há um troço em que vai mesmo pela cumeada, ou seja, nós temos o declive pra direita, temos o declive pra esquerda, estamos lá em cima, temos uma vista panorâmica fabulosa, mas estamos mesmo lá em cima e a estrada é estreitinha, tem umas curvinhas.
Ok, é uma que passa no Baloiço de Manhoso, aí em São Pedro do Sul, será?
Não. São Pedro do Sul passa-se em Sá e depois atravessa-se o meio da serra em direção a Arouca. Com a vantagem que depois em Arouca, pode-se fazer uma de duas coisas: ou ir em direção a Castardaire, passar em Alvarenga ao lado dos passadiços do Paiva e fazer o Vale do Paiva até Castardaire, ou ir de Arouca em direção a Castelo de Paiva. Salveira é 245 e a 244. E tentar fazer esse circuito, porque quer uma quer outra são espetaculares e são estradas pouco conhecidas, espetaculares de moto. Repito, há estradas que são muito boas pra nós fazermos de moto, pra quem vai de carro podem não ser tão simpáticas, porque são muito sinuosas e principalmente quem vai de passageiro, a tendência pro enjoo pode ser grande. De moto não se põe o caso. Essa zona aí acho muito interessante.
Eu não ando de moto, portanto a pergunta pode ser um bocadinho idiota, mas aquelas estradas que serpenteiam são estradas boas para se fazerem de moto?
Claro, isso é o auge. De facto pra quem viaja, há sempre essa preocupação. Eu comentava há bocado contigo que na última viagem que fiz maior, Andaluzia e sul de Espanha, nós tínhamos a estratégia de fazer um dia de viagem e um dia de permanência numa cidade. O dia de viagem era um troço de 250 a 350 km que levava o dia inteiro.
Caramba.
Portanto, as viagens de moto e aquilo a que nós chamamos o mototurismo, são viagens que não têm velocidades médias elevadas. Eu normalmente quando faço o meu planeamento, aponto pra uma velocidade média de 50 km/h.
Isso é baixinho.
É muitíssimo baixo. Por quê? Para já, porque as estradas não permitem velocidades. As estradas que nós queremos não permitem velocidades. Em segundo lugar, faço uma curva: "Epá, que paisagem bonita". paro tiro uma fotografia.
Pois.
Depois: "Olha aqui um baloiço", paro e vai andar de baloiço. Depois paro, vai tirar outra fotografia. E portanto, são viagens que demoram muito tempo.
Muito bem. Não vais parar, pois não, de viajar de moto?
Não.
Estamos a chegar ao fim, Henrique. Havia muito mais para falar.
Sem dúvida.
Nomeadamente de Espanha, onde tens também feito algumas viagens. Nós não temos ideia, mas aquilo é um país continente, não é?
Face à nossa pequena dimensão, aquilo tem muito pra explorar. Muito. E de moto, então, é fantástico. É um país fantástico pra andar de moto.
Muito bem, vamos fazer check-out. Então, Henrique, vou pedir-te para completares as habituais frases. Na minha mala vai sempre...
Uma máquina fotográfica e um livro. Máquina fotográfica, hoje em dia pode ser o telemóvel. Se for com uma mala de viagem pequenina, o telemóvel serve.
E o livro é literatura...?
Eu tenho o hábito de ler, principalmente quando me deito. Portanto, pra cama, meia horinha, uma horinha de leitura.
Bom hábito, esse.
Todos os dias. Tem que ser um livro que me apeteça ler naquela altura.
Ok, não tem necessariamente a ver com o lugar da viagem.
Não, pode ser ou pode não ser.
Ok. A viagem com mais peripécias que realizei até hoje. Já estás a rir.
Eu estou me a rir por uma razão. As minhas viagens normalmente não têm muitas peripécias. Eu tenho uma questão peculiar, que não gosto de surpresas.
Ok.
E tenho a noção que reajo mal face aos imprevistos. Ou seja, não tenho boas reações àquelas pessoas que são completamente desenrascadas. "Epá, perdi os documentos. Epá, que se lixe. Vamos embora."
Ok, se furares a meio de uma viagem...
Sei o que é que tenho a fazer, mas já me estraga o dia.
Ok. Então, peripécias.
Recorro muito ao planeamento e o planeamento impede as peripécias. Uma peripécia engraçada foi nos Pirineus, em junho também, portanto, quase no verão. Só que os Pirineus são muito instáveis em termos de clima. E a certa altura apanhámos à saída de Andorra um início de chuva. Eu levava um equipamento, o fato de moto, que eu julgava que era impermeável. Julgava, mas não era verdade. Quando já passo a fronteira pra Espanha, portanto, tinha andado pouco, comecei a sentir o joelho zume, digo assim: "Isto está a repassar". Bem, foram 250 km até Figueres, a terra do Dalí, debaixo de chuva inclemente. Passei uma estrada de montanha, a certa altura vejo estrada de montanha, isso vai doer. Três graus centígrados, chuva permanente, completamente ensopado. A certa altura cruzamos com um carro da Guarda Civil. Eles deveriam estar a fechar o coiso, porque entretanto caiu um nevão nesse dia na maior parte dos Pirineus e aí também deve ter caído, nós não apanhámos. E portanto, quando cheguei a Figueres, ao hotel, eu estava completamente ensopado.
Chegaste era um pinto.
E serviu-me de emenda, porque hoje uma das coisas que vai na minha mala de viagem é um fato, ou pelo menos uma cobertura, completamente impermeável, porque pode sempre chover.
É isso. Olha o carimbo de passaporte ou visto mais difícil de obter.
As minhas viagens são de proximidade.
Domésticas, não é?
Domésticas ou pouco mais e portanto não tenho atualmente grandes histórias disso.
Mas?
Eu recordo-me de miúdo, a minha primeira ida a Badajoz.
Ui.
Com meu pai.
No tempo em que havia fronteiras entre Portugal-
Não, antes do 25 de Abril.
Antes do 25 de Abril.
Em que implicou em Elvas uma visita à PIDE, porque meu pai ainda por cima era funcionário público, precisava de uma autorização especial pra sair do país.
Ah.
E então, em Elvas, houve uma visita à PIDE para pedir uma autorização pra podermos passar a fronteira. Essa é a primeira imagem que me lembro. Recordo-me também das touradas nas passagens de fronteiras nos anos 74 e 75, por causa das divisas. Era sempre uma salada atravessar pra Espanha. E depois tenho a parte quase anedótica que há uns anos, quando tirei um visto pra ir aos Estados Unidos, com as perguntas que eles fazem pra atribuição do visto. Eu guardei o documento, tenho o documento guardado.
Qual foi a pergunta mais insólita? Lembras-te?
Se eu ia pros Estados Unidos, se estava a pensar cometer atos de terrorismo.
Respondeste que sim, claro.
Sim.
Estou a ser irónico.
Obviamente. Embora aquilo tenha uma razão de ser. Como a mentira, o perjúrio, é altamente condenado na legislação deles, se eu disser uma coisa e fizer o contrário, eu estou a incorrer em perjúrio e portanto eles correm comigo imediatamente. Acho que hoje já não é preciso isso, eles correm na mesma. Mas pronto, isso são outros quinhentos.
A recordação de viagem mais cara?
Atualmente, praticamente nunca trago recordações de viagem, até porque viajar de moto não é o melhor pra trazer recordações, normalmente o espaço é curto. As mais caras foram duas máquinas fotográficas, uma comprada em Andorra e outra nos Estados Unidos, já aqui há uns anos valentes.
Muito bem. A refeição mais estranha?
É outra história. Viagem pela Estremadura.
Espanhola.
Espanhola. Depois de um dia intenso em Mérida, em Trujillo, muitos quilômetros, quando chegamos ao sítio onde íamos pernoitar, um dos camaradas de viagem tinha a moto sem gasolina. Nós esperávamos que houvesse um posto de gasolina nesse sítio, não havia, estava em obras, tivemos que voltar pra trás, tivemos que voltar a Trujillo. Bem, foi uma confusão e entretanto aproximou-se a hora de jantar. Primeiro sítio onde vamos, vai-se ao TripAdvisor, qualquer coisa do gênero, e está aqui um restaurante e tal, temos grelhados, vamos embora. Quando chegamos à porta, era uma estrela Michelin
Oi!
Quatro marmanjos vestidos de fatos de mota, sujos, depois de um dia de muita viagem e bastante calor. Fomos impecavelmente recebidos, como também seria de esperar. Mesa central da sala. Nós os quatro, depois havia as outras pessoas à volta. Impecavelmente tratados. Comemos muitíssimo bem. Não foi muito disparate em termos de preço, mas foi principalmente pelo contraste, quer dizer, num restaurante com algum tipo de luxo, estarem ali aqueles quatro marmanjos com blusões de mota.
Um cliente é um cliente.
Um cliente é um cliente. Foi espetacular, foi uma situação perfeitamente inesperada.
Boa.
Não sou muito de refeições estranhas ou não estranhas, porque eu sou um pouquinho esquisito com o comer e, portanto, a gastronomia não é o meu forte.
Gostava de viajar com?
Gostava de experimentar viajar com os meus filhos, fazer uma viagem com os meus filhos.
De mota?
De preferência, mas duvido que isso seja possível, porque alguns deles não estão para aí virados.
Vão experimentar, vão à pendura, todos pendurados.
Já todos andaram.
Fantástico.
Não é muito por aí.
Olha, Henrique, que música trouxeste para fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana?
Bem, esta música é uma música dos Death combo. Chama-se "Povo que vais descalço". E foi a música que serviu de banda sonora para o vídeo sobre o making of do meu capacete da Calçada Portuguesa, que foi feito precisamente para apoiar a candidatura portuguesa a Património Cultural e Material da Humanidade pela UNESCO, da Calçada Portuguesa.
Está aqui o capacete.
Esse capacete é um capacete Nexx, único, que tem uma pintura que retrata três dos padrões mais clássicos da calçada portuguesa.
Parece que levas um passeio na cabeça.
Completamente. Este making of foi passado no festival no Lisbon Motorcycle Film Fest em junho de 2023, e a banda sonora foi, com algumas peripécias também.
Feita pelos Death Combo.
Foi pelos Death Combo e eles graciosamente acederam a que a música fosse a banda sonora deste filme.
Muito bem. Death Combo a fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana. Henrique, muito obrigado.
Obrigado eu.
Estamos de regresso, dois ou oito dias. Até lá, já sabem, sejam bons e boas viagens.