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Dêem-lhe um papel, um x-ato e um spray e este jovem fica entretido horas a criar obras de arte. JR Chuah é o artista luso-britânico contemporâneo de corte de papel e stencil, cujo trabalho se foca nos impactos das mudanças climáticas, nos recifes de coral e que com as suas obras já salvou centenas deles. Aos 19 anos, é a personalidade mais jovem na categoria Artes e Cultura da lista europeia dos 30 sous 30 de 2022 da revista "Forbes", que lhe deu duas distinções. Radicado em Inglaterra, aproveitei a sua vinda de férias em Portugal, terra da mãe, para conhecer o rapaz, o artista, a obra, o talento. Apresento-lhe JR Chuah na sua estreia absoluta numa entrevista à rádio em Portugal. Olá, JR, e muito obrigado por teres aceitado este meu convite. Bem-vindo ao "Observador".
Olá, muito obrigado pelo convite.
É engraçado porque tu és JR Chuah, é o teu nome artístico. Tu és Joseph Vasconcelos Read. Já percebi, tua mãe é Vasconcelos, teu pai é inglês. Tua mãe é portuguesa, teu pai é inglês. Por que tu escolheste o JR, eu percebo, John Read, e o Chuah vem de onde?
É o Joseph Read. O Chuah em japonês significa central. É o nome de uma estação, de uma linha no Japão. JR Chuah Line, esse é o nome em Tóquio.
Chama-se mesmo assim, JR Chuah Line?
Sim, mas também dá com o meu nome, então eu gostei muito. Eu sempre quis usar esse nome.
Ok. Tu nasceste há 19 anos no Reino Unido, no mês de agosto vais fazer 20 anos. E moras em Suffolk, que é na ponta leste de Inglaterra. Tu ias à escola em Ipswich. Era o teu liceu, secondary school. Tu de repente ficaste muito conhecido nesses dois anos em que tu tens já exposições em todo lado, as pessoas gostam muito. Tu já expuseste em sítios tão diferentes como em Milão, na Austrália, no Japão. Tu como é que eras em pequenino? Tu já tinhas muito jeito para as artes, tinhas um bom professor de desenho, tinhas boas notas a desenho?
Sim, eu gostava muito de fazer arte quando eu era pequeno. Eu queria ser um realizador de filmes. Eu gostava muito do Studio Ghibli, que é um estúdio no Japão para desenhos animados.
Fazendo animê?
Sim. Mas a arte era muito bonita e eu gostava muito das pinturas.
Visualmente.
Sim, eu estive sempre a fazer filmes com as minhas primas e com a minha irmã. E depois eu aprendi o corte de papel japonês.
Esta técnica.
Sim, no Japão.
Chamada isekogatagami.
É kirigami, mas também, isekogatagami é uma parte dessa forma.
Já lá vamos. Por que o Japão? Tu foste ao Japão, se não me engano, há sete anos, em 2015. Foi a primeira vez que tu foste. Mas tu tinhas o quê? Tinhas 12 anos. E foste por uma razão especial, uma viagem com os teus pais, qualquer coisa? Como é que aconteceu teres ido ao Japão, que te marcou a vida toda?
Sim, foi por causa do Studio Ghibli, essa arte. E também da arte, muitos artistas japoneses e arquitetos que eu gostava muito, e eu estava muito inspirado por esses artistas diferentes. Eu fiquei muito interessado na cultura japonesa e eu queria ir lá. E depois os meus pais marcaram aquilo de surpresa e nós fomos ao Japão. E foi uma semana, mas foram as melhores férias pra mim.
As melhores férias que tu tiveste.
Sim. E depois eu continuei a aprender japonês sozinho.
Mas tu falas?
Sim, eu estou a estudar japonês na universidade, na faculdade agora.
Arigatou gozaimasu. Muito bom.
Sim, eu já estive a aprender japonês há sete anos, ou quase oito anos agora, sozinho e com a faculdade.
É uma língua muito difícil de aprender, não é? Demora muitos anos.
Sim, é muito difícil. Eu estou sempre a aprender muitas coisas novas.
Claro, novas. E falar e escrever, também é muito difícil escrever. Tu também consegues escrever bem? Aprendes ao mesmo tempo a falar e a escrever?
Sim. O meu curso na faculdade é japonês, então eu estou a aprender a escrever, a falar e a ler. E pro ano eu vou pra Tóquio, vou viver lá por um ano e vou estudar na faculdade no Japão a aprender japonês e usar mais arte.
Muito fixe. Tu, ainda és tão novo, ias muito a museus, tu preferias, gostavas de visitar museus, ias também em Londres e em Ipswich, visitavas museus com os teus pais. Sempre gostaste muito da arte.
Sim, em Londres nós íamos a muitos museus.
Às National Galleries.
Sim, todas as férias nós íamos era sempre pra ir a galerias de arte. A minha família é toda muito criativa.
É isso que eu ia dizer. Há mais alguém da tua família que tenha a ver com pintura ou artes?
Sim, eles gostam todos muito de coisas criativas, mas é mais o meu interesse, que não é o trabalho. Pra mim é que é mais o meu trabalho agora.
Joseph, viver em Inglaterra é, a nível das artes, uma coisa que deve ser muito vibrante, mais do que se calhar do que cá Portugal. Apesar de não viveres em Londres, mas viveres onde tu moras, em Suffolk, a vida lá artística também é muito promovida e há muita coisa a acontecer ou Londres é que é mesmo o único centro, quase de arte pujante em Inglaterra?
Sim, eu acho que Londres é o centro pra arte em Inglaterra, mas também há muitas cidades em Inglaterra que têm muitos museus Que eu gosto muito. Mas a minha área não há muitas pessoas e em Suffolk é muito bonito.
É mais isolado.
É bom para os artistas trabalharem, mas não há tantos museus e coisas.
Sim.
Mas há uma feira em setembro e eu vou estar lá antes de ir ao Japão. Vou vender umas peças ou mostrar as peças ao público.
À população e o público passa lá. Aliás, tiveste agora isso em Londres. Aconteceu em Londres, não foi? Um mercado que acabou agora, esta feira de artes onde estiveste lá também e vendeste e conversaste com as pessoas. Muito bem. Queria perguntar, eu sei que 2015 foi um ano muito importante para ti, porque é quando foste ao Japão, mas também quando nasceu esta tua mensagem que tu queres transmitir, porque tiveste uma aula de Geografia lá em Ipswich, no Liceu, onde viste este bleaching, esta lixiviação dos corais e os corais ao morrer, libertam um pigmento e começam a ficar todos brancos, estes recifes de corais, e isso impressionou-te muito. Esse ano aconteceram essas duas coisas, o Japão e essa aula de Geografia que te marcou muito e disseste: "Eu vou fazer a minha arte baseada nisto e para chamar a atenção para as pessoas mudarem de hábitos e ajudarem o planeta". Portanto, estamos a falar de uma aula que tu tiveste há sete anos. Tinhas 12, 13. E esta aula de Geografia sobre o branqueamento que tu aprendeste sobre os recifes de corais, marcou-te e disseste: "Quero fazer arte sobre isto, alertar para isto", não foi?
Sim, eu comecei a criar, depois daquela viagem ao Japão, eu estava a criar muitas peças com kirigami ou isekitagami, aquele estilo de corte de papel.
Exatamente. Tu pegas num papel com um x-ato e fazes aqueles cortes finíssimos.
Eu uso uma faca pequena para cortar todas as formas.
Essa faca é um x-ato ou é o quê? É uma faca especial japonesa, é o quê?
Não, é só uma faca de corte de papel.
Ok. Mas que é muito afiada, parece um x-ato.
Sim, mas eu uso muitas facas diferentes para criar formas diferentes. Eu tenho umas peças enormes, de dois metros.
Essa é a maior de todas, é uma coisa gigante. Pesa 40 quilos.
Eu estou a criar uma peça agora de dois metros, outra vez.
Outra grande.
Essa demorou dois anos para acabar.
Que é a tua preferida, não é?
Sim, essa ainda está no meu estúdio agora, então ela é enorme. Mas eu também estou a criar muitas peças pequenas, que são boas para ter uma coleção de muitas peças pequenas com cores diferentes. E essas eu uso uma faca diferente para criar as formas mais pequenas. Sim, com todas as peças há um estilo diferente, uma técnica um bocadinho diferente.
É giro isso, porque se as pessoas pensarem, deem-lhe um papel e uma faca que parece uma bisturi, é uma faca que corta muito bem. E ele faz e começa a cortar e vê-se na net, tu estás em todo lado, no teu JRChuo, C-H-U-O, no site, é fácil ir ao teu site e ver-te a trabalhar, que é espantoso, é impressionante, é muito curioso. E as pessoas pensam, mas ao fim de algum tempo, se caso ele esgota, não tem mais ideias, se ele corta sempre a série de pétalas, não sei o quê. Mas não, tu tens séries diferentes e coleções diferentes, que são completamente diferentes as cores de fundo, se é em perspex, se tem plásticos de cores, tem não sei o quê. Fazes os tamanhos, até os dois metros, até começarem coisas pequenas. É muito curioso a variedade das tuas obras. Nunca se esgota, tens sempre coisas muito diferentes, depois juntas isto, juntas aquilo, e depois com caneta e com não sei o quê. É muito curioso. Tu no Japão percebeste ou visitaste, acho que era uma fábrica de quimonos, uma técnica de stencil que eles usavam, é o tal isekitagami, que eles usavam stencil para tingir os quimonos e isso impressionou-te muito. Disseste: "Olha, que arte tão bonita, quero imitar isto."
Sim, essa foi a primeira vez que eu descobri o kirigami. Kirigami significa cortar papel em japonês. Esse é o nome daquela técnica japonesa.
Nós cá só conhecemos o origami, que é o dobrar.
Sim, é parecido ao origami, mas origami é dobrar o papel, kirigami é cortar.
Kirigami.
Mas o isekitagami é para pôr as formas nos quimonos.
Os desenhos para tingir os quimonos com os desenhos, estampar, não é?
Sim, então eu descobri essa técnica nesse sítio no Japão. Eu só continuei a aprender aquilo sozinho.
Isto era em Quioto?
Sim.
Quioto. Muito bonito. Quando voltaste para Inglaterra, começaste então a praticar esta técnica por ti próprio e nunca mais paraste. "O papel é muito importante para mim", uma frase tua, "porque é uma forma de arte que está a morrer". E depois tu também usas estas estéticas tradicionais japonesas, como o wabi-sabi, é assim que se diz?
Sim.
Que é a beleza na imperfeição. E esta enso, que é uma forma de arte espiritual que se acredita que expõe o verdadeiro caráter do artista. Isto tem a ver com a estética budista, o círculo enso, isso tudo tem a ver com o que tu fazes?
Sim. Eu estou a aprender muito agora na universidade, na faculdade, sobre estas estéticas japonesas e eu estou a usar essas ideias muito mais no meu trabalho agora. E aquela técnica dá-me assim, eu fico muito calmo.
Tu relaxas-te muito.
A criar estas peças. Eu gosto de usar muitas ideias diferentes em cada peça
Estávamos a falar disto, além de artista, JR, tu frequentas o curso de Estudos Japoneses, portanto Estudos de Ásia e de Médio Oriente na Universidade de Cambridge, onde aprendes sobre aspetos da cultura japonesa e a arte do kirigami, do recorte do papel. Os teus estudos têm ajudado também muito a tua arte. Isto é um curso que começaste em 2020 e vai até mais dois anos, em 2024. Bachelor of Arts Asian and Middle Eastern Studies em Cambridge. Ganhaste, entretanto, umas bolsas, e uma bolsa a Travel Scholarship, uma bolsa para viajar para ir ao Japão o ano passado. E da Trinity College também, uma scholarship para continuares a estudar isto. E um prémio. Acabaste por ser um bom aluno nesse curso, as pessoas gostam de ti, sabes imenso, aprendes imenso e tens muito jeito para treinar isto. É o que tu gostas e que fazes isto maravilhosamente bem. Diz-me uma coisa, JR, este símbolo dos corais, que no fundo é o que tu espalhas mais, cada vez mais nos teus trabalhos, portanto ao recortar este papel com estas formas, que podem ir desde um palmo de diâmetro até dois metros, e que exige uma paciência, são milhares de cortes, 20 mil cortes, se não me engano, que tem a maior todas que tu fizeste. Este tema é os corais. Tu antevês-te a mudar de tema qualquer dia e a passar a recortar sobre outros temas?
Eu acho que eu vou continuar a criar peças inspiradas pelo branqueamento dos recifes de coral, porque é uma coisa muito importante para mim, e eu acho que os corais são muito importantes ambientes marinhos e não há muitas pessoas a criar arte pelos recifes de corais, mas eles são tão importantes como as florestas e as outras áreas.
Realmente, as pessoas ouvem falar e que é importante, que estão em extinção. Os corais são uns animais, as pessoas muitas vezes não sabem isso, acham que são florestas de algas, mas não, são animais que constroem aquilo. E vemos aquelas fotografias às vezes tristes daqueles mares completamente o interior tudo meio morto e aquilo parece lixiviado, parece que foi lavado com lixívia, tudo branco, quer dizer que estão a morrer ou estão mortos. E portanto, é muito importante para o ambiente e é a tua cruzada, digamos assim.
Sim, pelo futuro dos humanos também. É muito importante.
O papel que tu usas nesses teus trabalhos é algum tipo de papel especial?
Eu uso papel washi, que é um papel tradicional japonês. Mas isso é só para as peças mais pequenas, mas agora eu estou a mudar mais para papéis mais fortes, porque aquele papel é um bocadinho fraquinho.
Fraquinho demais?
Sim, então eu preciso usar os papéis mais fortes, porque eu preciso dos papéis para estarem rijos.
Ok, têm que ficar mais duros para se aguentarem dentro de uma moldura. Muito bem. Aquilo depois como é que é? Tu pões, depois de recortar o papel todo, fica tudo uma malha incrível que tu consegues fazer. Depois aquilo é apertado entre dois vidros ou dois acrílicos e fica ali.
Sim, eu ponho entre dois acrílicos, normalmente, mas agora eu estou a usar mais coisas diferentes, para ser mais fácil para pôr na parede. Eu estou a mudar o-
O suporte. É muito curioso, porque é sempre muito diferente. Tu cortas todos os teus desenhos à mão, sempre?
Sim. Eu ainda faço tudo à mão. Todas as peças são completamente originais e elas todas demoram muito tempo.
Cada peça é formada por milhares de cortes. Vale a pena ir ao teu site, JR Shuwo, eu gosto sempre de dizer, porque é impressionante o processo de criação, pode demorar entre duas semanas até dois meses. Esta peça grande que lá tens, o Shinjuku, eu tenho aqui a referência, pesa 45 quilos, levou dois anos a concluir e revela a evolução da sua técnica de corte de papel. Em constante evolução durante este período. Tu atualmente, como é que era? Vinhas depois da escola, ficavas uma hora ou duas a cortar? Todos os dias, durante dois anos?
Não era todos os dias, mas era assim, quando eu tinha tempo. Eu por aí três ou quatro vezes por semana, umas horas.
Ficavas ali umas horas dedicado a cortar.
Mas eu agora não posso pôr aquele na parede, porque aquele está enorme.
É tão grande que-
Aquele pesa tanto que não dá para pôr na parede. Aquele só está encostado no meu estúdio.
Há aquela fotografia que tem ao pé de uma guitarra, é esse, não é?
Sim.
Já sei, é incrível. Tem por aí 20 mil cortes pequenos, é a tua peça preferida. Mas agora estás a fazer outra dessa escala também, desse tamanho.
É para um projeto privado. Eu vou usar o que-
Te encomendaram?
Sim.
Ok.
Eu vou criar muitas peças de spray, usar o papel como stencil.
Stencil, exatamente.
E depois saem muitas peças. Eu posso fazer por aí 20 peças de spray.
Com o mesmo desenho?
Sim, com cada kirigami, com cada corte.
Com cada corte. E com cores diferentes ou não?
Sim.
E fica também uma série, muitos inspirados na mesma base, digamos assim. Essa peça grande que estamos a falar, o Shinjuku, foi selecionada há um ano pela Saatchi, pela Galeria Saatchi Art, como uma das escolhas do curador para The Other Art Fair London. A Outra Feira de Arte de Londres, chama-se assim, foi esta que decorreu agora.
Sim, é já o segundo ano agora.
Acabou agora, a semana passada?
Eu fiz três vezes agora. Fiz uma online e depois as outras em Londres. Ao vivo. Em King's Cross.
Estiveste lá em King's Cross estes dias, isto foi para aí de 30 de junho até 3 de julho, estes dias, nesta The Other Art Fair, a outra, The Other Art Fair London. É muito curioso o nome, eu gosto muito do nome disto, que a Saatchi organiza em Londres. Hoje em dia, que tu estás tão conhecido com o teu trabalho e que já te pões em sítios fantásticos e tudo, e tens encomendas já. Todos os dias trabalhas, Joseph? Todos os dias?
Sim.
Agora, em férias, não. Agora enquanto estás cá, não.
Sim, eu estive a trabalhar também.
Também cá?
Sim, eu tenho muitas peças depois daquela feira. Muitas peças que eu preciso acabar.
E então trouxeste o trabalho de casa.
Sim, eu trouxe para cortar na praia. Estava lá em Comporta a cortar as peças na praia.
Foi?
Eu gosto muito de trabalhar ao lado do mar.
Ao ar livre, ao lado do mar.
Ou ao lado da piscina, ao lado da água. É mais relaxante para mim.
Mas na Comporta conseguias mesmo com os mosquitos?
Foi difícil, mas ao lado da praia estava ok, mesmo ao lado do mar.
Ok. Tu precisas de, estando a cortar ao lado da praia, em plenas férias, na Comporta, como estiveste agora, não estava muita gente em cima de ti a ver?
Não havia. Há muitas áreas daquela costa mesmo lindas, não há ninguém.
Isso é verdade, porque a Comporta são uns 30 km de praias onde podes ir isolar-te. Tu gostas de estar isolado para criar. Vê-se no teu site, vê-se tu a trabalhares, a parede cheia de quadros teus e no chão, e depois lá ao fundo estás lá tu sozinho a cortar, ali no chão abaixado, ali agachado no chão.
Fica muito mau para as costas, mas agora tenho uma mesa grande de 2 m, que eu posso pôr as peças maiores.
Como se fosse a fazer um puzzle ou uma coisa assim.
Sim, agora tenho uma cadeira e uma mesa que eu posso trabalhar.
Já não faz tão mal às tuas, back pain, às tuas costas.
Sim.
Mas é engraçado, porque tu enquanto estás a criar, ouves música, por exemplo?
Eu gosto mais de não ouvir música, eu gosto só de ouvir podcasts ou só o silêncio, porque a maioria do tempo é só silêncio ou música zen japonesa. Eu gosto de estar muito relaxado para eu poder criar as peças como eu quero. E aquilo até é preciso pensar muito sobre onde é que eu vou cortar as formas.
Porque aquilo, quando se vê, JR, quando aquilo se vê, é aflitivo, porque é uma lâmina com um corte muito delicado, muito pequenino, e depois faz imensa impressão se tu cortas. Tu não te cortaste nunca, nos primeiros tempos não cortavas os dedos imenso?
Sim, umas vezes no princípio cortava.
Porque aquilo é muito afiado.
Sim, agora depois de quase oito anos.
Tu tiras cada pétalazinha, cada vez vais tirando. E eu pensei: "Mas se isto raspa um bocadinho, ou se ele se distrai, ou se tosse".
Sim, é preciso ficar muito concentrado na peça.
Focused.
Sim.
Muito giro. Agora a gente vê há filmagens de ti a cortar, e eu penso: "Se ele está quase a acabar e de repente aquilo foge, e quando cortas mais para o lado e apanhas outras que já estão cortados, a peça não vai para o lixo?" Como é que é?
Sim, umas vezes vai. Se o corte é muito grande, eu preciso mandar aquilo embora, mas a maioria do tempo eu consigo, aquilo não afeta a estrutura da peça. Então está ok. Mas umas vezes é preciso ir para o lixo.
Falaste que gostas de estar às vezes a ouvir podcast e tu foste convidado para um podcast chamado Modern Art Is Rubbish.
Esse é o meu tio.
É o teu tio?
O meu tio, sim.
Tem um podcast só sobre arte moderna e porcaria?
Sim.
Mas é genial. É semanal?
Sim. É só ele e um amigo a falar, mas é muito bom.
São os dois a comentar coisas de arte.
Sim, é muito interessante.
A ideia é giríssima, o Modern Art Is Rubbish, eu fiquei curiosíssimo de ouvir. E já foste um convidado dele?
Eu nunca fui convidado, mas eles já falaram sobre mim no podcast.
Já comentaram.
Eu já fui noutros. Eu fui em mais dois podcasts, eu acho, no ano passado.
As formas e as cores, os motivos que tu fazes nos teus trabalhos são inspirados em padrões e formas que encontras na natureza, os recifes de coral. Usas as tais técnicas japonesas. A paleta de cores que tu usas são brilhantes, muito bonitas, que se inspiradas nas cores marcantes que emitem alguns corais antes de serem branqueados pelo aquecimento das águas do oceano, com o resultado das mudanças climáticas. A tua forma de arte alerta muito para este problema da mudança climática e das alterações climáticas. É uma coisa que está na ordem do dia, hoje discute-se muito e o que é que podemos fazer para evitar, porque realmente é o que está a acontecer muito, este fim dos corais. As tuas cores também nunca te compararam a tua arte a esta arte pop, porque a gente olha para uma série de quadros teus e aquilo parece muito coisas de Andy Warhol e o género de cores. Tu tens muito esse tipo de cores.
Sim, eu também tenho muita inspiração pelo pop art, pelo movimento também.
Muito bem. Vi uma entrevista tua recente onde falavas que tens estado a estudar a incorporação de tecnologia nos teus trabalhos para manipular as pinturas e os desenhos e produzir microversões dos teus trabalhos. Isso é o quê? Muito pequeninos?
Sim, então eu tenho umas peças pequenas, chamam-se Miniature Reef, são inspiradas pelos corais, pela estrutura dos recifes de corais.
Dos recifes de coral?
Sim. E essas peças usei tecnologia para criar as peças mais pequenas, e depois eu corto aquilo tudo outra vez.
À mão. Mas isso corta-se sempre à mão?
Sim. Então é tudo cortado à mão, mas as cores são criadas no computador em vez de spray. Uma coisa mais recente para mim.
Muito bem, esse ainda não conhecia. Ainda vou ver. É engraçado, tu falas que o objetivo é capturar esta trágica beleza dos corais moribundos, criando estes desenhos marcantes. Alguns dos teus trabalhos têm cores fluorescentes, que é curioso, que chamam a atenção para a complexidade da tua obra de arte e para este problema que tu estás a alertar as pessoas. Ao mesmo tempo, tens uma mensagem positiva, tu queres que as pessoas não fiquem tristes com isso, mas aquilo é uma forma alegre.
Sim.
É engraçado, tu queres que as pessoas sejam otimistas e vejam uma coisa divertida, porque o teu trabalho é divertido e alegre, mas ao mesmo tempo que nos faz pensar num problema grande que está a acontecer. Mas é engraçado tu quereres essa coisa positiva, otimista.
Sim, as cores são muito positivas também. É essa imagem de celebrar os recifes de coral.
A beleza da natureza.
A delicadeza e a beleza dos corais.
"Delicadeza" é a palavra certa para o que tu fazes. E para esses corais, que têm esse trabalho natural, que é uma coisa muito delicada, a construção.
Sim, as formas todas são inspiradas pelas formas dos corais.
Exatamente. Tu tens também uma parceria com a Coralive. Estamos a falar de uma ONG ambiental suíça, que está a construir um dos maiores viveiros de corais. Portanto, parte dos lucros das vendas das tuas obras reverte para a Coralive e com o teu trabalho já conseguiste patrocinar mais de 100 corais.
Sim, já estou quase em 200 corais agora nas Maldivas e em Madagascar. Antes de vir cá a Portugal, eu participei naquela feira, The Other Art Fair.
Ok, que falámos, que é em Londres.
E agora vou plantar mais corais e vamos chegar a 200 corais plantados.
Porque eles têm viveiros. Eles têm mesmo viveiros. E então é nessas terras que tu disseste, em Madagascar e nas Maldivas, onde eles vão plantar lá?
Sim, então cada peça que eu vendo, eu faço uma doação, uma porcentagem dos lucros de cada peça.
Para a Coralive.
Sim. Eles, com cada peça, dois ou três corais, para as mais pequenas e para as maiores são mais.
São mais, pois claro.
Eu só comecei isto este ano, então agora eu quero crescer até 1000, muito rápido.
Queres chegar à meta dos 1000 corais. Muito bem, e é muito engraçado tu teres este objetivo com o teu trabalho e com o que tu vendes. Aliás, tu esgotaste três coleções de 50 trabalhos cada um, para colecionadores de arte em quatro continentes já, e com isso já conseguiste salvar quase 200 corais. É impressionante. Quando tu vendes, custa-te separar de obras tuas? Quando tu vendes ou dás a alguém uma obra de arte, custa-te ou gostavas de guardar todas, ou há obras que tu vais guardar e não vais nunca vender?
Sem ser aquela Shinjuku.
Aquela gigante dos dois metros.
As outras todas agora, porque elas demoraram dois anos para acabar.
Essas não custam tanto tu venderes.
Eu gosto das pessoas, eu gosto das minhas peças estarem em sítios diferentes, não todas no meu estúdio. Assim eu posso continuar a criar coisas novas.
Tu foste reconhecido em muitas publicações de renome, a Tatler, a Estética e a Forbes Magazine. A Forbes é impressionante, porque fez este artigo, que saiu agora já este ano, este "Com menos de 30" de 2022, e tu tiveste duas distinções, não só na categoria Artes e Cultura, onde és o mais novo, e por isso tiveste também uma distinção na categoria Os Mais Jovens. É preciso dizer que nesta revista, entre outros destacados, temos o Khaby Lame, o famoso tiktoker, a banda italiana Måneskin, por exemplo, que ganhou a Eurovisão em 2021. Tu és outro dos destacados. Ao longo destes dois anos, também a Saatchi, por exemplo, fez também alguma coisa contigo, não foi? Escolheu-te para esta The Other Art Fair em Londres, já há um ano, e agora voltaram. Aconteceu agora na semana passada. E foste nomeado um dos top contemporary artists de 2021 da Art Market Magazine. Várias revistas que falam de ti e do teu trabalho, está a espalhar-se, entrevistas, também eu vi na televisão uma série delas, está tudo lá fora. Dois anos de exposição, que começaram desde em Suffolk, na tua terra, passaram por Londres, a Espanha, Fuerteventura, Itália, Milão, na Tokyo International Art Fair, Tóquio, em 2021, ano passado. Deve ter sido pra ti uma grande honra teres sido destacado lá. Depois em Cambridge, Adelaide, na Austrália, e no Dubai também. O teu próximo quadro, se calhar já estava pronto e já mostraste na feira, tinha um metro de altura. Este foi mostrado agora em Londres?
Sim, eu tive uma peça grande de um metro. Estava em Londres e chama-se Raponggi Reef.
Raponggi é o nome de uma terra?
Sim, aquele foi criado pela aquela exposição em Tóquio, porque a exposição era num sítio que chama-se Raponggi.
O recife de Raponggi.
Sim. Então era inspirado pela aquela zona do Japão.
Esta foi vendida lá, agora nesta Art Fair, na The Other Art Fair. Tu nunca expuseste cá, JR.
Sim, ainda não, eu quero muito.
Mas gostavas?
Sim, eu quero muito.
Alguém podia te contactar. Há algum sítio onde tu gostasses mais? Pode ser o Museu de Arte Contemporânea no Chiado, ou pode ser no CCB, ou pode ser no Coimbra.
Eu estou feliz em qualquer sítio em Portugal, porque eu quero vir ter as minhas peças cá em Portugal também.
Isso era muito interessante. Continua, portanto, a ser para ti o importante, a motivação principal, esta questão de salvar os recifes que estão realmente a desaparecer. E para isso continuas a fazer arte e a criar arte com as tuas facas e a tua técnica japonesa e a tua atmosfera zen a criar estas coisas maravilhosas. JR Chu, infelizmente nós não temos tempo para mais, mas quero te agradecer muito teres vindo ao Observador.
Muito obrigado pelo convite.
Desejo que continues a vender, até pelo bem do ambiente, do nosso planeta e de todos nós, e para salvar os recifes que tu estás a conseguir salvar com a tua arte. Tu começaste aos 12 anos. É incrível, tens 19 anos, já tens uma arte tão exposta no mundo e tão notável e reconhecida em todo o mundo. Quero te agradecer muito a tua vinda e desejar-te muita inspiração para que continues no teu trabalho. Muito obrigado, JR. Muito prazer.
Muito obrigado.