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É considerado por muitos o nosso maior poeta: Fernando Pessoa. Homem múltiplo e prolífico, génio vaidoso e inspirado, dono de uma mente desassossegada e explosiva numa vida triste e banal. Por quem batia o seu coração? Como eram as suas companhias femininas? Como marcaram todas aquelas que se cruzaram com ele, familiares e amigas, portuguesas e estrangeiras, cá e lá fora? Isso mesmo investigou a Sara Rodi, escritora, argumentista, ghostwriter e blogger, que nos vem apresentar "O Quanto Amei", o seu romance sobre Fernando Pessoa e as mulheres da sua vida. Olá, Sara, e bem-hajas por teres aceitado este meu convite. Bem-vinda ao Observador.
Olá, eu é que agradeço o convite.
É um prazer estar aqui contigo. É muito engraçado, tu cresceste em Évora, viveste em Évora dos 4 aos 18, onde, como tu dizes: "Apanhei gafanhotos, toquei flauta em cima de um sobreiro, escrevi poemas debaixo de um céu estrelado." Portanto, só vieste depois para Lisboa para estudar e para tirar a tua licenciatura em Ciências de Comunicação. Mas esta passagem por Évora marcou a tua vida, estes horizontes largos?
Marcou, sem dúvida. O Alentejo é inspirador. E eu, de facto, já não me lembrava dos gafanhotos. Não sei onde foste descobrir isso, mas é verdade. Eu vivia numa quinta e tive esse privilégio de crescer no campo com pais, sem telemóveis, nem todas aquelas tecnologias que nos roubam tanto tempo hoje em dia.
Exatamente.
Portanto, acredito que sim, que foi marcante para mim.
Tens esta urgência da escrita, como tu gostas de dizer. Sempre sentiu urgência de escrever. A dada altura, juntou-se-lhe a urgência de medrar a ler e então passaste a escrever. Aos seis anos, tiveste o tal famoso caderninho que ofereceste à tua professora, onde puseste inscrito um sonho que lhe ofereceste, provavelmente ela ainda terá esse caderninho. É engraçado também porque o primeiro heterónimo do Fernando Pessoa também foi criado aos seis anos, este o "Chevalier d'Epinay", um ano depois do pai dele morrer. Toda a vida escreveste caderninhos, pelos vistos, que ainda estão lá em casa para um dia revelares aos teus filhos quem era a mãe.
Sim, é verdade. Essa primeira história, por acaso, eu perdi-lhe o rasto. A minha professora, infelizmente, na altura já tinha bastante idade e já faleceu. E eu perdi o rasto a essa história. Lembro-me perfeitamente dela, mas já lhe perdi o rasto. Depois tenho muita coisa em casa. Tenho muitos cadernos, muitos diários, muitos livros de poemas. Passei por várias fases à medida também que fui crescendo. E é engraçado porque há algum tempo me convidaram para ir ao meu liceu em Évora e a minha professora de português, tive a sorte, a felicidade de ter professoras de português extraordinárias, ainda tinha bilhetinhos meus que eu lhe oferecia com poemas meus na altura e ela tinha tudo guardado.
Isso vale dinheiro. Há 20 anos já foste a escritora revelação, não acontece, eu lembro-me disto, imagina. E depois fizeste uma série de guiões, entrevistaste José Saramago, é uma coisa que temos em comum.
É verdade.
Tu adoras as obras dele, tal como eu.
Sou fascinada.
O que é que achaste na entrevista dele como homem, como pessoa?
Eu era uma estudante universitária na altura. Eu confesso que estava eu mais duas colegas minhas e nós íamos cheias de medo, porque ele era um monstro da literatura. Eu ainda por cima era fascinada pelos livros dele, portanto, lembro-me que falei muito pouco, claro, a não ser as perguntas que tinha que fazer, mas lembro-me que houve pouco espaço depois para conversa, mas possivelmente porque eu também não a desenvolvi. Lembro-me que fiquei bastante intimidada pela presença dele. Hoje em dia, olhando para trás, tenho muita pena, porque teria tantas perguntas para lhe fazer.
Claro.
E já depois da morte dele, estive em Lanzarote, na casa dele, estive sentada naquela cadeira onde ele vivia, onde olhava para o mar, a pensar nas inúmeras perguntas que eu gostava de lhe ter feito.
Exatamente. Tu, entretanto, passaste pela televisão, colaboraste em imensas séries e novelas, escreveste, argumentista, digamos que era o teu trabalho principal. E tiveste esta atividade do ghostwriting e ainda hoje fazes alguma coisa ou não?
Hoje já não consigo, já deixei de ter tempo. Fiz durante muito tempo, foi uma grande aprendizagem, porque trabalhei com muitos autores.
São pessoas, imaginas, Isabel do Carmo, não tinha muito jeito para edição, mas as perguntas eram importantes de ser feitas, editar um livro sobre dietas e coisas.
Claro, sim.
E até aquela stripper, não sei o quê.
É verdade.
Começaste a ir investigar.
É porque eu nunca trabalhei ao nível do romance, portanto, eu não fiz ghostwriting de romance.
Se chegasse aí, seria a minha fronteira.
Sim, exatamente.
Criar uma ficção e atribuir a outra pessoa, isso não.
Porque aí eu tenho a minha forma de escrever, tenho o meu estilo, portanto, seria já pôr demasiado de mim no livro. Mas trabalhei muito com diversos profissionais ou pessoas que tinham uma história muito boa para contar e que não tinham necessariamente de ser escritores. Portanto, eu estive no meio, estive ali na fronteira entre aquilo que era a história e aquilo que era o leitor, o íntimo diário.
Fizeste mesmo até uma empresa, não era?
Foi, a dada altura eu estava com tanto trabalho que criei uma equipa. Porque isso é um trabalho que exige uma disponibilidade da nossa parte para ouvir o outro, saber como é que ele quer transmitir. Exige também que nós não nos agarremos ao nosso ego. Exige uma disponibilidade da nossa parte para nos colocarmos na pele do outro. E na altura, percebi que havia ali algumas pessoas à minha volta que também tinham esse Lá está, nem todos têm essa vocação, mas percebi que havia pessoas com essa vontade.
E eras contratada por editoras?
Sim, trabalhei para várias editoras e, na altura, éramos uma equipa e fez muito sentido. Agora, claro, eu senti rapidamente e ao fim de algum tempo, que eu não tenho vocação para empresária. Gosto mesmo de ficar sossegada no meu canto a escrever.
Já eres mãe de quatro crianças, dos 17 aos 11, isto já dá bastante trabalho.
Eu encaminhei e, felizmente, todas essas pessoas que na altura trabalharam comigo, estão todas a trabalhar e muito felizes com a sua carreira profissional.
Nenhuma é sem abrigo?
Não.
Pronto. Depois, também como autora de livros, fizeste duas biografias importantes. Esta, por exemplo, de Dona Teresa Távora, "A amante do Rei", que escreveste já em 2013, saiu pela Esfera dos Livros, e escreveste também esta incrível, esta vida da Dona Stefânia. A "Dona Stefânia: um trágico amor" em 2012, também pela Esfera dos Livros. Esta princesa alemã que veio casar com o nosso Dom Pedro V.
Mulher extraordinária.
Extraordinária, que aliou-se a este marido. Era uma grande relação de paixão e cumplicidade, como tu explicas, mas que afinal acabou por morrer virgem, com difteria, muito nova, 22 anos. O rei pouco depois, com 24, também doente, com febre tifoide. Ele e dois irmãos, mas também eram 11. Depois de terem bebido uma água estagnada numa caçada em Vila Viçosa. Engraçado, um livro que apresentou a Filomena Mónica já nesta altura, estamos a falar em 2012. Tu agarras sempre as mesmas pessoas para escrever umas biografias. O Fernando Pessoa não é bem uma biografia, mas é muito a vida dele também.
Sim, eu tenho que retificar, porque também são romances, esses dois livros. Embora, lá está, baseado naquilo que se conhece, tal como este. Com uma forte componente histórica. E gosto de me basear nos factos.
Mas arranjas sempre umas vidas complicadas e agitadas e muito nesta questão do amor e das relações, que é engraçado.
E das mulheres.
E das mulheres, é engraçado.
A questão das mulheres esquecidas. Mulheres que durante muito tempo não foram retratadas pela nossa história.
Exatamente. E por isso vale muito a pena. Ficam já estas duas e estas dicas agora antes de irmos ao Fernando Pessoa já a seguir. Esta "Dona Stefânia: um trágico amor" da Esfera dos Livros e também este "Dona Teresa Távora, a amante do Rei". Dois romances biográficos, melhor dizendo, que vale a pena conhecer também da nossa convidada Sara Rodi. Sara, nós já voltamos à conversa e já voltamos para falar do Fernando Pessoa. Até já. Estamos a conversar com Sara Rodi, argumentista, romancista e ghostwriter. Ela vem nos apresentar "O quanto amei", o seu romance sobre Fernando Pessoa e as mulheres da sua vida. É uma edição Planeta. Sara, estamos aqui a falar deste romance empolgante e emotivo sobre a vida de Fernando Pessoa, através do olhar das mulheres que o influenciaram, desde a mãe, à irmã, às avós, às tias, às tias-avós, escritoras, místicas e claro, a sua Ofélia e a misteriosa dama loira inglesa. É um título lindo, devo dizer isto. Uma coisa que gostei muito é "O quanto amei". Eu acho que as pessoas quando anunciam o título dizem: "O quanto amei: Fernando Pessoa e as mulheres da sua vida." E eu pensei: "Não, mas o título é 'O quanto amei'". Eu acho isso lindo. E o tema é Fernando Pessoa e as mulheres da sua vida. Como é que escolheste este título tão bem imaginado?
Não foi o título original, por acaso. Inicialmente, eu durante muitos anos, porque este livro fez uma viagem comigo. Inicialmente, eu chamava-lhe "As mulheres do desassossego", que era um título que também me agradava. Mas depois a verdade é que percebemos que o desassossego está muito ligado ao livro do desassossego, que não é central neste romance. E foi a editora que me desafiou a encontrar um outro título. E "quanto amei" é uma expressão que aparece num poema de Fernando Pessoa e dada a altura, andei ali a reler e à procura daquelas palavras certas, até que me deparei com "o quanto amei". E de facto, "o quanto amei" tem tudo a ver com este livro, o quanto ele amou, o quanto as mulheres o amaram ou o quanto não amaram também.
Exato. Eu sei que este romance foi um desafio da editora, mas que te surgiu esta grande curiosidade. Tu que, tal como eu, tal como nós da nossa idade, demos na universidade, na faculdade ou no liceu Fernando Pessoa. Como os teus filhos agora acabam de dar. Surgiu também por causa de uma fotografia.
Foi. Neste caso, não foi a editora que me desafiou. A editora queria que eu fizesse um novo livro e propôs-me. No fundo, deu-me alguma liberdade para trabalhar.
Escolher o tema?
Exatamente, para procurar uma mulher. Eu já tinha trabalhado sobre Dona Stefânia, sobre Dona Teresa Távora. Fui à procura de uma mulher, mas eu queria trabalhar sobre Fernando Pessoa. Mas claro, aquilo a editora fica um bocadinho: "Mas Fernando Pessoa é Fernando Pessoa". E eu própria não sabia bem o que queria, nem como queria. Sabia que de facto foi ali uma altura que eu estava realmente com muita vontade. Nas nossas leituras, foram surgindo diversos escritos que me intrigaram e houve dois momentos muito fortes. Primeiro, uma carta que Fernando Pessoa escreveu à sua tia Nica, revelando as suas experiências esotéricas, místicas.
A tia Nica era tal que era meio médium, não era?
Era, sim.
Foi aquilo que o arrastou para este esoterismo.
Exatamente. Na carta, Fernando Pessoa revela inclusive as suas experiências mediúnicas e é uma carta interessantíssima que eu fiquei bastante intrigada com tudo aquilo que lá estava. Quem era esta tia também e até que ponto o terá influenciado por este caminho. E depois quando fui à procura da tia, descobri uma outra fotografia em que Fernando Pessoa está rodeado.
De mulheres.
Exatamente. A mãe não está nesta fotografia, mas tem as tias-avós e tem a sua avó louca.
A avó Dionísia.
A avó Dionísia, que é uma personagem absolutamente fascinante. E depois a partir daí fui tentar perceber. Aí sim, falei com a editora e disse-me assim: "Não, eu tenho aqui um caminho, não é bem Fernando Pessoa, mas são as mulheres em torno de Fernando Pessoa." E depois a partir daí começámos a dialogar. Comecei a dialogar com a Sofia Monteiro, minha editora já há muitos anos. Começámos nesse diálogo, mas claro, eu sempre lhe disse: "Eu tenho que ver o que tenho em mãos, eu não sei o que vou encontrar." Claro que este não podia ser um livro para fazer num ano, nem dois, nem três, porque Fernando Pessoa, eu costumo dizer, é um novelo. Nós puxamos fios e saem muitos outros novelos. É um sem fim. E este livro, obviamente, se peca, e mesmo assim já tem 455 páginas, por não incluir tudo aquilo que eu gostaria. Mas de facto, a dada altura tive que parar.
Renuncaste material para muito mais?
Sim. Só de escrita minha, eu cortei 100 e muitas páginas. E tinha muito material para incluir.
Uma vida também dá para isso.
Sim.
Uma obra de ficção baseada em mulheres bem reais. Não é bem uma tentativa de biografia. Em que género tu encaixarias isto? É um romance biográfico, por exemplo, se é que existe?
É uma mistura de várias coisas, porque por um lado está entroncada em factos reais, por outro lado, tem momentos que são ficcionados, puramente ficcionados. Eu posso dar um exemplo, não quero estragar a leitura desse capítulo.
Sim, não pode ser spoiler.
Mas posso dizer que no momento em que morre a mãe de Fernando Pessoa, eu acabo por cruzar Fernando Pessoa com Einstein, que esteve em Portugal nesse período, e tem uma conversa sobre mulheres. Imagino que eles nunca se tenham encontrado. Poderia ter acontecido.
É uma hipótese.
Ele esteve cá nesse período, efetivamente, em Lisboa. Ou seja, há vários momentos que são assumidamente ficcionados, mas onde eles estão a falar de coisas que realmente aconteceram. Einstein também tinha um problema. Não posso dizer também, porque Fernando Pessoa era outra natureza. Mas Einstein tinha uma relação com as mulheres também bastante atribulada.
Problemática.
Sim.
Muito bem, vai ser o teu próximo romance. Tu trabalhaste nesta altura, foram sete anos a investigar, é impressionante. E trabalhaste numa casa com quatro filhos e em plena pandemia. O teu escritório, ouvi dizer que é no último andar da tua moradia, tem uma vista privilegiada sobre o mar. Foi complicado trabalhar estes anos? Outra coisa que eu sei é que tu ouviste uma música permanentemente, este Bolero de Ravel. Tu aconselhas as pessoas a ouvir esta música ao ler o teu livro.
É verdade.
Os teus filhos já não podiam ouvir Bolero de Ravel ao fim de sete anos.
É verdade. Eu muitas vezes ouvia com os meus fones, isoladamente, mas de facto, os meus filhos muitas vezes me perguntavam: "Mas o que é que a mãe está a ouvir?" E depois era sempre a mesma música.
Tu fazes isso com todos os livros.
Faço.
Alguns ritmos que tu escolhes.
Exato. E por acaso o Bolero de Ravel surgiu-me e depois vim a perceber que era deste período, de 1920 e tal. Até é possível que Fernando Pessoa tivesse ouvido e também tivesse gostado, quem sabe. Mas uma das coisas que aconteceu nesta pandemia é que eu larguei o meu bendito escritório lá em cima, porque tive que estar mais próxima. Ali é onde eu me tranco, onde eu fico sossegada. E claro, com os meus filhos também na famosa tele escola, eu acabei por ter que estar mais próxima. Rendido-me, vim mais para junto deles e procurei trabalhar mais perto deles.
Este livro, ao mesmo tempo, Sara, e foi sendo reescrito, porque ao longo destes sete anos, algumas coisas foram descobertas. A última paixão dele foi revelada, a questão das atas daquele prémio internacional que a mensagem não ganhou, foram reveladas e ficaste a saber porquê, as razões políticas e aquilo tudo. Portanto, volta e meia tinhas uma surpresa e tinhas que voltar a reescrever coisas.
Sim, é verdade. A primeira parte foi de facto tentar perceber tudo aquilo a que assistia. E valeu-me, tive aqui uns investigadores pessoalões que me ajudaram imenso. O António Séis Delgado, que agora inclusive vai apresentar o meu livro em Évora, que depois me passou para os Jerónimo Pizarro, que me apresentou o José Barreto, que depois entretanto me passaram para o António Cardiello.
Faltou o Richard Zénite.
É verdade. E há mais uns quantos, sim.
Mas realmente estes pessoalões, é incrível a força do Fernando Pessoa, porque é o colombiano, é o espanhol, é o americano, é o italiano.
Não, completamente.
Os especialistas vêm. É impressionante.
Sim, é fascinante. E tive este privilégio, de facto, de poder conversar com eles e de perceber onde é que estava a informação. E foi num almoço muito engraçado onde estava esse historiador, José Barreto, que na altura ele me disse: "Não, mas não é só Ofélia." Foi ele que me falou dessa dita mulher loira.
A tal loira misteriosa.
Exatamente, misteriosa, inglesa. E ele tinha escrito há pouco tempo um artigo académico sobre ela. E depois também foi através dele que eu cheguei à tal lata do prémio.
Que não atribuiu o prémio a ele.
Exatamente. E portanto tive que ir sempre reescrevendo e eu só pensava. Aliás, o meu livro já era para ter saído há algum tempo, era para ter saído primeiro ano passado, depois entretanto em janeiro, e depois com este confinamento acabou por ser mais tarde. E eu só dizia à minha editora: "Bem, não podemos deixar passar muito tempo, porque senão vamos descobrir outras coisas e eu vou ter que reescrever novamente o livro."
Muito bem, estamos a falar deste escritor compulsivo. Em 47 anos escreveu 30 mil papéis, cerca de 60 livros de 500 páginas. É uma coisa impressionante, com anotações. Ele escrevia de pé, apoiado numa cômoda alta. Teve um ou dois, talvez, livros publicados em vida dele. Há muita coisa escrita sobre ele em todo o mundo. E ele próprio definia-se dizendo: "Sabes quem eu sou? Eu não sei." Era uma pessoa que o Octávio Paz também dizia isso. É um poeta desconhecido de si próprio.
Era muitos.
Heterónimos. "Eu sou muitos", dizia ele.
Plural como o universo, exato.
Impressionante. Ele usou 206 nomes na vida dele. É uma coisa impressionante. E há 10 anos saiu no Brasil e cá, esta uma quase autobiografia do José Paulo Cavalcanti e Filho, onde ele diz, e que está referenciado também, claro, foi uma das suas fontes, que diz: "Homem vaidoso, que vestia nas casas mais caras de Lisboa, mas não pagava as contas, escreveu sob mais de 100 nomes, o primeiro inventado aos seis anos, criou o slogan da Coca-Cola, que levou à proibição da bebida cá por Salazar, inventou os matraquilhos, provavelmente era gay, previu o ano em que ia morrer e que não morreu de cirrose." Isto encaixa um bocadinho no homem cujas relações descreveste?
Mais ou menos.
Há coisas que sim.
Sim, nem tudo. Claro que depois há aí algumas questões que dependem um bocadinho também da nossa visão, porque de facto há muitos Fernandes Pessoas e nós quando estamos a descobrir, às vezes parece que olhamo-lo de uma determinada maneira e depois rapidamente, se nos basearmos de facto nos textos que ele escreve, de repente já nos parece outra pessoa. A questão de ele ser ou não homossexual também tem sido bastante discutida, inclusive no mundo acadêmico.
A última teoria dizia que ele seria do armário. Quer dizer, que não há provas que tenha concretizado alguma coisa.
Sim.
Teria essa apetência.
Sim, também se fala que ele poderia inclusive ter ausência de desejo, portanto ter alguma questão mesmo-
Orgânica.
Sim.
Falta de libido.
Sim, exatamente. Hormonal. Há aqui várias questões.
Tu consultaste e chegaste à conclusão que quê?
Não posso chegar à conclusão nenhuma, mas de fato aquilo que eu senti é que havia pulsão dele por mulheres. Portanto, ele apaixonou-se. Eu acredito que por isso, sim.
Bissexual, talvez.
Sim, até porque a homossexualidade na altura, no meio intelectual, era algo que era bem aceito. Ele tinha amigos homossexuais, era conhecido.
O António Botto.
Exato. E ele defendia, inclusive, sempre os defendeu, mesmo tudo aquilo que eles escreveram na altura, que foi até bastante polêmico. Ele sempre os defendeu e, portanto, não era nada que ele provavelmente achasse estranho ou não achasse possível. Mas acredito, por tudo aquilo que li, que ele se apaixonou, efetivamente. Que ele teve pelo menos algumas paixões, duas que estão neste momento mais claras, mas acredito que outras. Agora ele provavelmente resolvia o seu desejo na escrita.
Sublimava, digamos.
Sublimava de uma certa forma, acredito que sim.
Ele viveu a vida inteira rodeado de mulheres e então aqui entra a mãe Maria, esta general, as meio-irmãs que ele tinha, esta Mimi, pronto, Manuela Nogueira, que ainda é viva, se não me engano.
Sim.
Que devolviam ao Fernando Pessoa a sua infância perdida. Esta avó louca. É muito engraçado tu falares nisso. Há pouco tempo aqui tive uma convidada a falar do Egas Moniz, que ele chegou a ir à consulta do Egas Moniz.
Exato, também parece.
Ele vivia com este medo de herdar esta coisa da avó. Tinha o pânico de enlouquecer, como a avó Dionísia. Então teve no Egas Moniz, em 1907. Ele queixava-se de neuroastenia, medo de enlouquecer, como a sua avó. E acho que depois o Egas Moniz escreveu a dizer: "Não, receitei-lhe, recomendei-lhe algogenários que isso é que..."
Exato. Aliás, eu fiz um capítulo sobre isso. Está aí também.
É uma coisa que vem desde o fim.
Sim, o Egas Moniz, claro. Egas Moniz é uma figura, não é? Que inclusive tinha feito uma tese, na altura, sobre a sexualidade. É perfeitamente possível que eles tenham conversado sobre diversos assuntos ligados também ao mundo feminino.
É engraçado, porque falas aqui também da tia Anica, já falámos, das sessões espíritas e não sei o que mais. A eterna namorada Ofélia, esta última paixão, a inglesa Madge, que apareceu entretanto. A própria Annie também tem um capítulo, esta que veio com o Aleister Crowley, que simulou aquele suicídio na Boca do Inferno. São histórias incríveis que nós relembramos ao ver o teu livro, é fantástico. E depois falas muito também do papel da mulher na vida pública, estas escritoras, e estas feministas, esta luta que havia naquela altura, além das empregadas, das vizinhas, das mulheres por quem morriam de amores os amigos dele. No fundo, é um outro olhar para o Fernando Pessoa. Isso mudou muito a tua maneira de ver? Ao teu filho eu sei que mudou.
Sim, é verdade. Essa questão das mulheres foi algo que se foi impondo à medida que eu fui escrevendo, porque eu comecei por pesquisar sobre as mulheres que eram conhecidas, mas de fato, esse período foi um período riquíssimo da história da mulher em Portugal, da história das lutas feministas.
A Carolina Beatriz Ângelo, por exemplo.
Sim, é deste período. Sim, exatamente. Portanto, era incontornável falar disto. E claro, foi o tempo de Florbela Espanca, a própria Judite Teixeira, que se diz que foi a nossa poetisa do modernismo, que foi esquecida e que a Dom Quixote recuperou agora há poucos anos. Portanto, era incontornável falar sobre isto. Foi algo que se foi impondo à medida que o romance se foi desenrolando.
Falas também da irmã Teca, esta que morreu há relativamente pouco tempo, se não me engano. E também era uma irmã que ele teve esta relação em Durban, que ele conheceu. Tinha oito anos de diferença do meio-irmão. Mas é uma pessoa que também o marcou muito.
Sim, a Teca era uma mulher muito, por aquilo que obviamente li, era uma mulher muito de pés assentes na terra, portanto, muito prática. Ou seja, fazia ali um contraponto com o Fernando Pessoa muito engraçado. Eles na infância davam-se muito bem. Ele desafiava-a também a criar os seus heterônimos para o seu jornal. Portanto, tinham uma relação muito engraçada. E de fato, ela depois acompanhou, desde que veio para Portugal também com a mãe, na altura que depois morreu o padrasto de Fernando Pessoa, eles vieram para Portugal.
Estavam em Durban.
Exatamente, sim. Depois mudaram-se para Portugal, para aquele apartamento onde é hoje a Casa Fernando Pessoa, na Coelho da Rocha. E, portanto, esta irmã passou a estar sempre muito presente na vida de Fernando Pessoa. Foi um grande apoio. Creio eu que terá tentado ajudar o irmão, no fundo, a ser uma pessoa mais feliz, com uma vida mais normal, entre aspas. Que eu acredito que seja um desejo legítimo de uma irmã, de alguém que no fundo quer ajudar o irmão sem o compreender na sua profundidade.
Esta Ofélia Maria Queiroz, a namorada, era a mais nova de oito irmãos. O sonho dela era ser professora de matemática. Ela quando conheceu o Fernando Pessoa tinha 19 anos, ele tinha 31, se não me engano, isto é tudo tirado do teu livro. Teve realmente um caso com ela, aliás, duas vezes, em dois períodos. Não terá consumado, só uns beijos e uns toques nos seios, é uma coisa que é mais ou menos documentada. Uma relação meio conturbada e quase secreta. E ele próprio dizia: "Para a alegria e o amor não nasci. O amor é a mais carnal das ilusões." Ele teria dado o primeiro beijo aos 32 anos e teria sido ela, com 20, que lho arrancou no escritório dela. O que tu achaste deste namoro? Escreveram cartinhas e bilhetes um lá para o outro.
É delicioso.
É famoso o flagrante polito, por exemplo.
Exato. Isso já na segunda fase. É delicioso porque nós lemos toda aquela profundidade dos textos de Fernando Pessoa e depois deparamo-nos com cartas que, como ele diz, todas as cartas de amor são ridículas. Deparamo-nos com cartas onde ele é quase uma criança, um adolescente. A maneira como eles conversam com o outro através das cartas, e eu imagino que depois entre eles não fosse assim tão diferente, era um romance muito pueril, em que nós descobrimos um Fernando Pessoa apaixonado, alegre, divertido com tudo aquilo, romântico também. Descobrimos uma série de vertentes de Fernando Pessoa que não estão espelhadas em tudo aquilo que ele escrevia.
Nem na personalidade, as pessoas que conversavam com ele diziam que ele não era assim. Mas depois na escrita transfigura-se um bocadinho, é uma epifania quase.
Exato.
Ao mesmo tempo, encontraste muitos preconceitos dele, que ele tinha uma mente muito da época, mas ele dizia coisas contra o gênero, contra a classe. Era a favor da escravatura e muito racista. "Os pretos não representam nada útil neste mundo", dizia ele. Contra a religião, era germanófilo, mesmo durante a Primeira Guerra. Apoiou e desapoiou o Salazar. Falava mal do comunismo, falava mal de Fátima, de outros autores. Conseguiste encaixar bem esta personalidade tão múltipla e tão diferente, com opiniões tão marcadas por esta época?
Sim, ele era um pensador. Ele refletia bastante sobre os temas. E é muito curioso, porque nós hoje temos acesso a tudo aquilo que ele pôs na sua arca. Mas temos de nos lembrar que a maior parte destas coisas não foram publicadas.
Pois, que ainda estão em estudo muitas coisas.
Muito pouco foi publicado. Eu penso que ele refletiu no papel e nós hoje temos acesso às suas reflexões. Mas ele ia mudando de opinião. Ele lia muito, pensava bastante e é muito possível que ele num dia pensasse uma coisa e no outro dia pensasse outra. Isto fruto do seu tempo também, porque era um tempo em que estas reflexões sobre a mulher, inclusive sobre a escravatura, tudo isto eram as discussões do momento. E nós temos que as enquadrar também no contexto, nesta época. E claro, se ele fosse obrigado a publicar alguma coisa, possivelmente ponderaria muito mais sobre aquilo que iria escrever sobre isto. Claro que nós estamos a vasculhar a sua arca, portanto, temos acesso àquilo que ele talvez viesse a publicar, mas também àquilo que são os seus desabafos, os seus escritos e que todos nós, provavelmente, se formos vasculhar tudo aquilo que nós escrevemos ao longo da vida, encontramos muitas opiniões e muitos textos que estão muito longe daquilo que nós pensamos neste preciso momento.
Tens a certeza que nada do que tu escreveste nos teus caderninhos que estão em casa, na estante da sala, à mão de semear, os teus filhos não vão ver?
Por isso é que eu não os mostro.
Muito bem. Tu chegaste a escrever uma carta a imaginar que era a mãe dele que lhe escrevia e isso comoveu-te profundamente.
Eu chorei muito, sim. Essa carta doeu-me profundamente. Fiz isso e fiz o exercício de escrever também em nome da Ofélia quando ele morreu. São duas cartas que não estão publicadas no entretanto. Não houve espaço para elas e eu também achei que não devia entrar nessa intimidade, dessa forma. Mas chorei bastante porque eu também tentei compreender estas mulheres. E no caso da mãe, a mãe passou por muita coisa, morreu-lhe o marido, depois morreu-lhe um filho, que era o irmão mais novo de Fernando Pessoa. Ela não trabalhava, teve que vender as suas coisas, mudar para outra parte. Ela passou por muita coisa e com um filho pequenino. Temos que pensar em um filho pequenino que era uma criança especial. E eu acredito que ela, por tudo isto e ao longo da sua vida, claro, depois refez a sua vida, em Dar es Salaam tinha outras condições, teve outros filhos, mas eu acredito que ela tenha sido muito marcada por tudo aquilo que viveu e que Fernando Pessoa também tenha sido marcado por isto. E eu acredito que ela tivesse esse desejo também legítimo, tal como a Teca. Aliás, eu acho que a Teca herdou o desejo da mãe de tentar fazer de Fernando Pessoa alguém mais feliz. Porque Fernando Pessoa, a verdade é esta: ele escreveu o que escreveu, mas ele tinha muitas crises que ninguém sabia muito bem explicar, crises depressivas em que ele ficava na cama.
A neurastenia.
Exato. E mesmo a questão do álcool, ele bebia um pouco demais, ainda que eles nunca o tivessem visto bêbado. Para uma mãe, para uma irmã, para alguém que gostava muito dele, eu acredito que às vezes pensassem: "Olha, não escrevas tanto, Fernando, vive, faz alguma coisa da tua vida." Eu, enquanto mãe, me revi. É quase como se eles no final do livro também tivessem feito as pazes. No fundo, Fernando Pessoa aceitando aquilo que a mãe desejaria para ele, enquanto um desejo legítimo de uma mãe. E acredito que a mãe também lhe pedisse perdão por nunca ter sido, se calhar, a mãe que o compreendesse. Mas claro, isto vai tudo muito aquém dos factos. Estamos a falar de intuição, estamos a falar de ligações.
Fica então este livro, esta sugestão, "O Quanto Amei: Fernando Pessoa e as mulheres da sua vida", uma edição da Planeta, aqui pela Sara Rodi, que termina com este enterro onde só há homens, tirando talvez uma mulher, mas não vamos ser spoiler, não vamos dizer mais nada. E fica então esta sugestão de leitura sobre este grande poeta. Nós não temos tempo para mais, mas Sara, quero te agradecer pela tua disponibilidade, a entrevista ao Observador. Oxalá regresses com novos projetos em breve, muita inspiração. Bem-hajas, mantém-te segura tu e os teus lá de casa.
Muito obrigada. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto