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No ano passado celebrou 80 anos de vida. Este ano celebra 40 de carreira literária. É meia vida dedicada à ficção, metade de uma vida, toda ela dedicada às letras, à cultura, ao saber contar. Teolinda Gersão. Pode não ser um nome fácil, mas é um nome grande na ficção portuguesa contemporânea, aclamada como uma das grandes contistas portuguesas. Bem-vinda, Teolinda. É um prazer estar consigo. Muito obrigado por ter aceitado este convite do Observador.

Obrigada, eu, João Sacadura, é com muito prazer.

Não foi a última vez. Eu estive consigo, sem contar na Feira do Livro, há 10 anos exatamente, mas na TVI. Entretanto, nós vivemos esta fantástica viagem literária, uma boa ideia da Porto Editora. Há 10 anos, Teolinda faz agora, mais ou menos, eu recebi na TVI, a propósito precisamente dos 30 anos de carreira, e nessa altura disse-me: "Os livros são modo de encontrar os outros. Se um dia desaparecerem, nenhuma outra coisa os substituirá. A literatura vincula um campo de experiências que não está em mais lado nenhum, nem na história, nem na filosofia". Teolinda, receia pelo futuro dos livros nesta era que é tão audiovisual?

Não, eu receio é pelo futuro dos que mandam na cultura e na economia e no país, etc. Porque não se compreende como é que as livrarias não podem vender livros ao postigo. Portanto, mesmo sem as pessoas lá entrarem e sem as pessoas mexerem nos livros, manusearem, que isso realmente pode ser origem de contágios, mas se forem vendidos ao postigo por uma pessoa com luvas, não há qualquer risco de contágio. E as bancas de jornais, pelo contrário, estão cheias de jornais e de revistas ali à disposição de toda a gente e são antivirais, estão imunes a qualquer vírus, etc. Portanto, a lógica que nos governa é esta.

É muito estranho, é verdade.

A cultura é o que se sabe.

É isso que eu ia dizer. Infelizmente estamos habituados a esta coisa de a cultura ser o parente pobre. Agora, por exemplo, nestas campanhas presidenciais, a Teolinda reparou que ninguém nunca falou de cultura?

Claro que não, não lhes interessa nada.

A Teolinda viveu na Alemanha, foi lente na Universidade de Berkeley e esteve em tanto sítio. Não pensa e não sabe, uma mulher informada que é, que ler e apostar na literatura e na cultura não é algo que nos faz pensar melhor e ser melhores cidadãos, e melhores políticos e melhor tudo?

Eu pessoalmente sei isso, e os escritores todos também sabem, e os leitores também sabem, mas quem interessava que soubesse, não sabe. E nós já ouvimos, por exemplo, um presidente do Brasil com Lula da Silva gabar-se de que nunca tinha lido um livro.

Impressionante.

E se fôssemos procurar exemplos semelhantes, encontraríamos às dúzias. Infelizmente, em alguns países atrasados e provincianos como Portugal.

É verdade.

Infelizmente. Eu luto muito contra isso. Sempre lutei, sempre disse o que pensava, sempre fui muito crítica daquilo que merece ser criticado, mas obviamente que quem tem poder não tem ouvidos nem quer saber.

É verdade. Está agora a celebrar 40 anos de vida literária. O Centro Nacional de Cultura, por exemplo, tem uma série de iniciativas em rede que já começaram, aliás, no ano passado. Também está prevista uma sessão na Sociedade Histórica e Independência de Portugal, várias reedições e a editora também já começou a fazer isso. Um romance novo, que já vamos falar, que vai ser lançado terça-feira online, "O Regresso de Júlia Mann", mas já lá vamos.

Desculpe só interromper.

Diga.

Não vai ser terça-feira online.

Afinal não?

Não. Enquanto estivermos nesta situação de livrarias fechadas, etc, não faz sentido nenhum lançar não.

Adiou-se. Estava programado para dia nove. Sim, senhora. Pronto, vamos ficar à espera então dessa data, deste romance, que eu já tive a sorte de ler e já vamos falar dele. Antes disso, Teolinda, sem querer cansá-la muito, a que é que sabem estes 40 anos? Qual é o sabor de boca e de espírito que a anima quando pensa: "Caramba, 40 anos de vida literária". O que é que lhe fica?

Bom, para começar, eu tenho 81 anos.

Parabéns, fez anos sábado. Parabéns, é verdade.

É verdade, mas não acredito, para dizer a verdade. Vejo que está lá no VI. No caso, recuso-me a ter cartão de cidadão enquanto não for obrigada, porque ele caduca e o VI não caduca, é vitalício. Portanto, alguma vantagem tenho em menos papelada, menos burocracia, coisa em que nós somos também uns artistas. Não pode haver mais burocracia do que aquela que nós temos. Mas eu realmente não acredito no que diz o VI, enquanto tiver saúde, lucidez, energia, gosto de viver e muitíssimos interesses. Portanto, continuo a não pensar na idade e sinto-me muito feliz, porque toda a vida quis ser escritora e isso de fato aconteceu. Quarenta anos de vida dedicados à literatura é metade de uma vida, mas felizmente há muitas outras coisas na minha vida além da literatura. Há a família, as pessoas que eu amo, os muitíssimos amigos, os companheiros de escrita e há o sentido de pertença a um país que eu amo muito e critico muito, mas as duas coisas, na minha perspectiva, não são separáveis. E há também um sentido de que pertenço a esta época e a este mundo terrível em que estamos, cheio de erros, de ganância, de corrupção, etc. A nível mundial, estamos numa época muito negra, mas isso só aumenta a nossa responsabilidade e esse sentido de pertença e de interesse por tudo que se passa à minha volta, não só em Lisboa, não só em Portugal, não só na Europa, como no mundo inteiro, isso também faz parte da minha vida de uma maneira central.

Muito bem. Eu lembro que a Teolinda nasceu em Cernache.

Não. Isso é um erro.

É de Coimbra mesmo?

Foi em Coimbra. A minha família, os meus pais, os meus avós e bisavós nasceram em Cernache. Os meus pais, quer dizer, o meu pai, em Cernache, de fato, que na altura ficava a 10 km de Coimbra, agora com a nova estrada São Pedro. De qualquer modo, não é um arrabalde de Coimbra, é uma aldeia próxima. Mas não nasci lá, não sei quem é que pôs isso na internet. Aliás, aparecem muitas coisas falsas na internet. Tenho de ver se alguém corrige isso por mim, porque eu nem sei, nem tenho tempo, mas de fato há muitos erros.

Ainda bem que aproveitamos esta oportunidade para corrigir as coisas. A verdade é sempre importante, claro.

Há um site oficial em que as coisas estão certas. Não está atualizado, mas também terei que pedir a uma pessoa que se encarregue de o atualizar.

Quando a Teolinda se reformou em 1995, tinha ganho o grande prêmio da Associação Portuguesa de Escritores, dedicou-se inteiramente a partir daí, portanto já lá vão 26 anos, à escrita literária. E disse nessa altura: "Por causa do desejo de saber mais, de entender melhor a vida e o mundo, e também a mim própria, a certeza de que esse é o meu caminho e de que poderá ter utilidade para outros". Também disse que esse dedicar-se assim à escrita nunca lhe permite o tédio, nem mesmo o envelhecimento. Temos a prova disso. O fato de ter feito, faz agora 40 anos, portanto, ter lançado "O Silêncio", o seu romance estreia, e ter logo ganho o Prêmio Clube de Ficção, foi uma autêntica bomba, não? Quer dizer, isso abalou muito logo. Teve algum medo do sucesso na altura e dessa exposição?

Não, de fato, não. Eu estava na altura, sentia-me preparada para tudo e sentia que tinha alcançado a maturidade e a minha voz, a minha maneira de escrever, e isso era o que me importava. Se tivesse sucesso, melhor, mas se não tivesse tido, teria continuado a escrever na mesma.

Teolinda, nós temos que fazer aqui um ligeiríssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já.

Ok, até já. Obrigada.

Estamos a conversar com Teolinda Gersão, a escritora que celebra 40 anos de vida literária. Teolinda, estávamos precisamente a falar do que se passou há 40 anos, quando lançou "O Silêncio" e depois ganhou aquele prêmio. Vergílio Ferreira disse nessa altura: "Li o romance de uma estreante e li-o com gosto, direi com prazer". É curioso porque há três anos recebeu, pelo conjunto da sua obra, precisamente o Prêmio Vergílio Ferreira, que lhe chamou cúmplice nesta loucura de encher a vida a escrever romances. Ainda é das coisas que faz hoje com mais gosto, retirar-se para escrever na sua rotina matinal?

Eu tenho necessidade de silêncio e de alguma certa solidão nas alturas em que estou a escrever. Não escrevo sempre, todos os dias, o ano inteiro, mas quando começo a escrever um livro, realmente aí tenho uma rotina e gosto de me isolar e de escrever de uma maneira continuada. Foi isso que me fez deixar o ensino, porque estava constantemente a ser interrompida pelas aulas, pela preparação das aulas, por orientações de testes, seminários de mestrado e de doutoramento. Aliás, eu gostei imenso de ter sido professora universitária, sobretudo nos seminários de mestrado e de doutoramento, e tive alunos maravilhosos, fantásticos, que estão aí hoje a fazer coisas maravilhosas Mas a partir de certa altura, dei conta que fora desses cursos e desses seminários especiais para doutoramentos e mestrados, o nível de ensino deixou de me dar prazer, porque os alunos que chegavam tinham uma preparação fraquíssima. Os outros eram alunos muito especiais, a maioria deles já tinha terminado um curso superior em várias áreas, porque eu dava cursos temáticos de literatura comparada e tinha alunos que vinham de arquitetura, de psicologia, de economia, de muitas áreas e que tinham uma preparação intelectual muito grande. Depois, voltando aos alunos que chegavam do liceu, muitos tinham média negativa e entravam na faculdade sem saberem nada, sem terem lido nada, sem terem a menor vocação para letras, iam para ali como quem tem um hobby qualquer para passar o tempo, porque a universidade era gratuita e porque tinham vaga e entravam. E isso deixou de me dar prazer, porque eu pensei: "Eu estou aqui a fazer o quê? Eu não consigo dialogar com pessoas que não gostam de ler e para quem a leitura não faz sentido e que não estão realmente interessadas no que fazem, não têm cultura geral nenhuma, nem procuram tê-la". Portanto, esse mito de que é a geração mais preparada de sempre, etc, é um mito. O nosso sistema de ensino está muitíssimo degradado e eu acho que começa na escola pré-primária, em que as desgraçadas das professoras têm um trabalho louco a fazer trabalhos manuais espetaculares e a preparar festas de Natal e festas de fim de ano com as crianças e não têm tempo nem disponibilidade para estar com elas, para conversar com elas, para as ouvir, para lhes ensinar cantigas populares, contar histórias, ouvi-las. Não têm tempo nem espaço para isso. Está tudo errado, na minha perspectiva. E no liceu também, quer dizer, não há tempo nem espaço para eles se exprimirem, fazerem uma redação, por exemplo, de tema livre, para dizerem o que sentem. O único espaço que têm é nas artes visuais para se exprimirem. De resto, não encontram, em disciplina nenhuma. E isso é completamente antipedagógico.

E faz muita falta, é verdade.

E faz imensa falta. Portanto, eu pensei: "Eu vou aproveitar o meu tempo de uma maneira mais útil" e realmente pedi a reforma bastante jovem, mas não estou nada arrependida. Foi uma opção. Tive algumas penalizações econômicas por causa disso, mas são escolhas e nunca me arrependi.

Claro, passou a fazer aquilo que mais lhe apetecia fazer, que mais tinha no coração fazer. E deixe-me dizer, Tio Linda, ainda bem. Para os seus leitores, acho que estou a ser voz de muita gente. Ainda bem que fez essa opção. É muito curioso, porque a Tio Linda já lia e escrevia antes de entrar para a escola, aprendeu a ler em casa. Portanto, esta vocação das letras e de escritora já vem desde muito pequenina. Teve uma grande sorte, que é um dom, que é: teve um pai médico que tinha uma ótima biblioteca e portanto ler era natural. Teve um pai que a levava a caçar tesouros, ir aos alfarrabistas, que estão a fechar cada vez mais em Lisboa, aqui, por exemplo. A Tio Linda mora no Chiado, se não me engano, portanto na zona do Chiado também se deve aperceber disso.

Sim, está tudo a fechar. Exatamente.

O que faz uma grande pena, não é? Mas já escrevia poemas e contos. Não publicou nada quando era pequena, mas deixou um espólio e deixou instruções para nunca publicarem. Ainda tem isso tudo guardado?

Quem fez isso foi meu pai, que escrevia poemas e alguns contos, mas deixou dito que não queria que fossem publicados. Aliás, os meus pais deram de presente ter publicado um livro quando eu tinha 14 anos, que não faz parte do corpus dos livros que eu escrevi. Era muito jovem.

É o tal "Liliana", certo?

Exatamente. Mas fui sempre escrevendo e entre os 14 e os 41, que foi quando saiu o "Silêncio", eu escrevi sempre para a gaveta. Portanto, eu tive a paciência e a humildade de dizer: "Eu vou ver quando eu me sentir realmente preparada, então eu publico". Entretanto, tinha filhas muito pequenas, fiz o doutoramento, quis também chegar a uma fase da vida mais calma, em que já tinha mais disponibilidade para conseguir escrever, mesmo que fosse só no verão e nas férias.

Essas coisas que escreveu mais nova, ainda antes do "Silêncio", as suas filhas e os seus netos, hoje, se calhar, nunca pedem para ler?

Muitas coisas eu aproveito, porque havia muitas coisas que tinham interesse. Por exemplo, nos "Guarda-Chuvas Cintilantes", fui buscar muitas coisas anteriores. E ainda nas "Águas Livres", que é também um livro de cadernos, que eu chamei cadernos, que são livros um pouco heterogêneos e diferentes dos outros, em que têm pequenos contos.

Tem diário.

Leituras, têm muita coisa. Mas há um conto que eu publiquei na Colóquio Letras. Não, ainda era Colóquio Artes.

Sim.

Chamado "Mulher Dormindo" e que era um bom conto. Eu quando tornei a lê-lo, disse: "Isto ficou aqui meio esquecido, mas eu vou incluí-lo nas Águas Livres". E realmente é um conto que também está traduzido para inglês e que saiu em uma excelente revista literária inglesa e é de 65. Portanto, eu fui sempre escrevendo e muitas coisas aproveitei e não deitei nada fora, porque normalmente eu começo por escrever uma versão de uma coisa que estou a pensar. E depois aquilo é muito trabalhado, a primeira versão é lúdica e é deitar para o computador as coisas tal como aparecem, sem ordem nenhuma. Depois tenho que as fazer encaixar e entrar em um contexto e limar, etc. Essa parte depois é muito trabalhosa, mas eu guardo sempre a primeira versão, em que há muita coisa que depois posso aplicar noutras circunstâncias. E às vezes, muitos anos depois, ela surge noutro contexto qualquer.

Por isso é que uma vez, sobre os "Guarda-Chuvas Cintilantes", escreveu: "A escrita é uma armadilha. E de que maneira!" Muito curioso. E é giro, e a sua escrita tem, isso é uma coisa que eu gosto muito nos seus livros, Tio Linda, é de uma concisão, de uma clarividência, de uma escrita muito clara. E a sua forma de escrever hoje em dia é muito despojada, mas é densa, é dura, às vezes é muito dura, mas é de uma clareza incrível e eu tenho certeza que isso dá muito trabalho. Só me lembro do padre António Vieira, que dizia: "Peço desculpa por esta carta ser tão longa, mas não tive tempo para fazê-la mais curta". E deve dar trabalho limar e desbastar até chegar a esta clareza com que exprime e com que conta as suas histórias.

Certo, dá muito trabalho, sem dúvida. Mas eu gosto desse trabalho também de oficina.

Como é que do setor 18 chegou ao sexto ano de piano e acho que ainda hoje deve tocar a sua clave nova com os seus auscultadores. Gosto muito. A música influenciou a sua escrita? Porque eu tenho aquela noção que é muito importante a cultura da escuta e hoje em dia ninguém ouve ninguém. Perdeu-se esta oralidade, as pessoas lerem contos em voz alta. Sente saudades disso? Acha que isso é verdade?

Eu acho que em Portugal isso não existe. Nos Estados Unidos, na Alemanha, eu sou testemunha de que as pessoas afluem a ouvir um autor ler excertos dos seus livros e as salas estão cheias e os bilhetes são pagos. Portanto, isso noutros países acontece. Em Portugal, simplesmente não existe.

Não temos essa tradição. Às vezes, com poesia, a Fundação Odom Luis, em Cascais, faz isso.

Na escola, onde não se lê em voz alta. Se formos ouvir um aluno do 12º ano, às vezes, ler um texto, ficamos a ver que ele não está a perceber nada daquilo que está a ler, pela forma como lê. Não sabem ler. Gaguejam e tropeçam em cada palavra, por falta de hábito.

Portanto, essa leitura à escrita faz falta, então.

Não temos essa cultura. Faz imensa falta, claro que sim.

Acho que é importante. E a música pode ter ajudado também na musicalidade da sua prosa? Sente isso ou não?

A nível de som, de procura, não. Nesse aspecto, não. Como, por exemplo, já foi dito que a poesia é antes de tudo música, etc. Hoje temos um conceito muito diferente de poesia. Mas não, não é de todo nesse sentido. É no sentido de que a música é uma arquitetura. E eu, que não tenho talento musical e que nunca seria uma boa executante, gosto muito de decifrar as partituras, ver como estão compostas. E sou muito bom ouvinte, porque aprendi música e acho que toda a gente devia aprender. Também é uma coisa que, felizmente, nesse aspecto, felizmente evoluímos no bom sentido. Hoje há muito mais escolas de música e os alunos sabem muito mais música do que sabiam há décadas. Sem dúvida, nesse aspecto, houve um caminho positivo. Mas eu acho que saber ouvir e perceber como é que um texto musical é composto, porque realmenteHá ali uma arquitetura fantástica e depende de autor para autor, de época para época, etc. É preciso saber um bocado para perceber isso. Mas a mim dá muitíssimo prazer escutar outra linguagem em que não há palavras, mas que é uma linguagem.

Claro que sim. Universal, exatamente.

Sem dúvida, influenciou-me a nível inconsciente, mas eu sei que essa influência está lá. Também está lá na minha escrita a influência das artes visuais, é uma escrita muito visual, do cinema, do teatro. Enfim, tudo quanto nos toca e aquilo que nós vamos aprendendo e que nos rodeia, tudo o que temos à disposição. O cinema de uma maneira muito direta e o teatro influenciaram, sem dúvida, a minha maneira de escrever.

Falou nos filmes, é verdade. Eu sei que a Teolinda é quase tão viciada em filmes como em livros. Não é só o café e o pastel de nata que gosta. Estamos quase a terminar, Teolinda. Mesmo a terminar, queria lhe falar duas coisas. Primeiro, é os contos. É muito importante e eu gosto muito da sua escrita, porque a Teolinda é uma grande contista. E diz sempre que é uma forma implacável, que não permite erros. É muito difícil escrever contos. Durante anos, a Teolinda achou que não era capaz de escrever contos. O Jorge Luis Borges é que dizia: "Mesmo que os outros gêneros morressem, o conto ia perdurar, porque é tão velho como o homem e porque contar histórias é nos inato". Para muitos escritores, são pontos de partida, mas para a Teolinda foi de chegada. A meio da sua carreira literária, que agora celebramos 40 anos, só depois de 20 anos de começar é que se aventurou e se atreveu, como costuma dizer, no conto, que é um gênero que eu gosto muito, mas que em Portugal, infelizmente, não é o que tem mais saída. É uma pena.

Depende. Eu penso que as pessoas têm sido, de algum modo, entre aspas, convertidas a ler contos, talvez pela velocidade da vida de hoje.

Oxalá.

Não sei. Talvez também porque as pessoas evoluem e começam a perceber que em outras culturas, como por exemplo nos Estados Unidos, o conto nunca deixou de ser uma forma muito lida e muitíssimo procurada.

No mundo anglo-saxónico, talvez, em geral. Em Inglaterra também gostam muito, há muita tradição dos contistas.

Sim, e na América do Sul também.

Exato. Nós cá, infelizmente, não temos, mas realmente é mais difícil de escrever que um romance, um conto. Acha que sim?

Acho que cada um tem as suas dificuldades específicas e não sei qual deles é mais difícil. Cada um é difícil à sua maneira, sem dúvida.

Uma das reedições recentes, para celebrar agora estes seus 40 anos de carreira, é esta, "A Casa de Cabeça de Cavalo". "A Casa de Cabeça de Cavalo" é um romance de 1995. Aliás, que saiu em Braille, uma coisa muito importante, em 1999, que chegou a fazer uma versão com bonecreiro e que ia tirando marionetes de um saco. Coisa muito curiosa também, é premiado, Grande Prêmio do Romance e da Novela da APE. Tem uma coisa com os nomes. O seu nome não é fácil, Teolinda, mas realmente neste livro, que eu reli ainda na semana passada, com muito gosto, tem esta coisa dos nomes. Os personagens é Balbina, Adérito, Sebastiana, Hemitério, Horária, Arcângela, Umbelina, Cristalina, Floriano, Benceia, Ercília. Por que esta coisa dos nomes? Vai sempre buscar os nomes tão engraçados, por quê? Mas vai, eu reparei. Só aqui neste romance estão para aí uns 15, que são incrivelmente raros.

Januário.

Exato. Também há os Hermenegildo, Severino, Teodósio, Estela. Mas há a Benta, o Adérito, a Horária.

Sim, Badala.

A Virita, a Ermita. Muito engraçado. Por que os nomes? É importante para si?

O meu, eu odiava quando era criança, porque ninguém se chamava assim, exceto a minha mãe. E eu disse muitas vezes à minha mãe: "Mas que diabos passou pela sua cabeça para me dar o seu nome? A mãe gosta do seu nome. Ninguém se chama assim", não gostava nada, eu odiava. Depois habituei-me, obviamente, e hoje não o mudaria. Mas a minha mãe dizia: "Olha, foi mesmo porque eu queria que tu te chamasses Astrid, porque era o nome da rainha da Bélgica". E a minha mãe era muito infantil. A minha mãe casou muito jovem, tinha acabado de fazer 20 anos e eu nasci oito anos mais tarde. Portanto, a minha mãe já tinha 28, não era assim tão jovem, mas ainda sonhava com esses nomes de princesas e neste gênero. Mas como o meu pai foi registrar-me e não aceitaram o nome Astrid, que era um nome estrangeiro, ainda bem, graças a Deus que não aceitaram. Ele falou para a minha mãe: "Olha, não aceitam aqui". E a minha mãe disse: "Olha, põe o meu. Pronto, não me lembro agora de mais nada".

E assim ficou.

Sim, exato. Mas eu acho graça aos nomes

Fora do normal.

Fora do normal, dependendo dos contextos. Na "Casa da Cabeça de Cavalo", onde nada é normal.

Exato, e estão todos mortos.

Estão todos mortos. É um livro que-

É incrível

...passa de 100 anos.

Exato.

Do século XIX.

Exatamente. Num cenário todo ele fantasmagórico.

E havia nomes estranhos que eram usados e às vezes quando eu encontro algum, tomo nota, porque nós na televisão todos os dias também encontramos nomes estranhíssimos. Nós em Portugal também somos especialistas em nomes, muitos nomes. Eu às vezes acho curioso isso.

Nós temos agora um minuto. Tia Linda, estamos mesmo a fechar e portanto queria falar deste seu regresso de Júlia Mann à Paraty. Já saído este ano pela Porto Editora, em 2021, são três novelas que se entrecruzam. E falamos de Júlia Mann, precisamente a mãe, eu aprendi, não sabia que era a mãe do Thomas Mann e do irmão. Esta mãe que era brasileira e que parece que ela deixou mesmo este gosto: gosto muito de falar com os meus filhos. Isto é mesmo o título de uma coletânea de memórias que ela deixou. Pequenos contos, cartas. Ela morreu em 1923, mas era uma mulher muito à frente do seu tempo, que atravessou grandes dificuldades e a Tia Linda pôs-se a investigar esta mulher neste livro maravilhoso que tem este diálogo entre o Sigmund Freud a escrever cartas ao Thomas Mann e o Thomas Mann a responder ao Sigmund Freud. É incrível, mas esta mulher também é muito inspiradora. Não fazia ideia, aprendi consigo.

Sem dúvida. Eu também, a certa altura, conhecia bem a obra do Thomas Mann e do Heinrich Mann, e havia muitas personagens em que, confessadamente, eles diziam que se tinham inspirado na figura da mãe. E eu tive vontade de ver o que ela teria a dizer, ela própria. E encontrei esse livro e mandei vir, e também outro livro que se chamava "Nós Éramos Cinco", escrito pelo filho mais novo, o Victor Mann, que também fala da história da família. E há muitas outras coisas. A Katia Mann nunca escreveu nada, mas houve memórias que ela foi contando e que também deram um livro de memórias não escritas, porque ela não quis escrever. Era mulher do Thomas Mann e o escritor era ele. Portanto, ela não escreveu nada. Mas há memórias muitíssimo interessantes também dela própria sobre a família. Há muita bibliografia, mas eu centrei-me, sobretudo, naquilo que foi escrito pela própria Júlia.

Muito giro.

Essa é a fonte direta que me interessava seguir e depois também saber o que lhe aconteceu naquela época tão conturbada da Primeira Guerra Mundial, da ascensão do nazismo, etc.

Exatamente.

Felizmente para ela, já não assistiu a muitas coisas más que aconteceram depois na vida dos seus filhos, mas a que ela já não assistiu.

Muito bem. É incrível, fica aqui esta dica, este convite para este "O Regresso de Júlia Mann a Paraty", no último romance, últimas três novelas juntas deste livro, que a Porto Editora editou, de Tia Linda em gestão. Tia Linda, nós não temos tempo para mais, mas quero agradecer muito pela sua disponibilidade em estar conosco no Observador. Muitos parabéns por seus 40 anos de carreira literária e muito obrigado por partilhar conosco a sua ficção na escrita e a sua realidade na sua vida. Muito obrigado, mantenha-se segura.

Muito obrigada e eu, João Paulo Sacador, gostei muito, como sempre, de falar consigo e muito obrigada à Rádio Observador.

Bem-haja.

Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto