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Da Mary Melodies, com todos: o Friz Freleng, o Chuck Jones.
Esta masterclass piano, plano visual e arrojada, influência do cartoon moderno.
Exatamente. Que, de alguma forma, tem parentes, ou é levado, também pela Europa. E temos o Dušan Vukotić, que se fosse hoje, um croata, na altura um iugoslavo. Que fez um filme fabuloso, que, aliás, ganhou um Oscar, de tão fabuloso que era, e que temos um original na exposição do Vasco Granja, na Cidade Nacional de Belas Artes, que inauguramos agora na sexta-feira, às 18h30, mas que também vai ficar até o princípio do mês de abril. Estão todos convidados a ver este espólio fabuloso do Vasco Granja, onde mais uma vez podemos mergulhar numa boa parte deste modern cartoon. Temos coisas do McLaren, um modernista, um experimentalista, temos coisas do Yellow Submarine, temos coisas do Lápis Mágico. Quem tem a minha idade, lembra-se da série da televisão, o Lápis Mágico, do professor Baltazar. Temos originais de todas essas preciosidades.
Esta exposição: Olá Vasco Granja, a arte dos amigos, do pai e da pantera cor-de-rosa.
Exatamente.
Então inaugurou este sábado, na Cidade Nacional de Belas Artes, vai estar até 4 de abril. Não percam. Estão 125 desenhos postos sob papel, e estat, realizadores de grandes nomes da animação. Já falámos de alguns deles, Richard Williams e o Norman McLaren. É uma das grandes exposições que vai acontecer também e o homenageado que merece, figura maior da divulgação do cinema de animação cá em Portugal. Uma homenagem incontornável. Estávamos a falar também de todas as secções que vão ter, como sempre, muito boas.
Exatamente. Isso. Portanto, tínhamos também um filme muito interessante, do Sylvain Chomet, que toda gente conhece também pelas "Triplettes de Belleville" ou pelo "O Ilusionista", ou "O Mágico". O Sylvain Chomet, que fez um filme sobre o Marcel Pagnol, que é um cineasta, escritor, assim um pouco também outsider na cultura francesa, e que tem uma característica engraçada: eu falei com o neto dele, porque gostávamos que ele viesse cá falar sobre o filme, e ele diz-me uma coisa.
Estudou em Coimbra.
Exatamente. E ele diz-me uma coisa que é: "Você sabe que o meu avô, o Marcel Pagnol, foi embaixador português no norte de África, em Marrocos, quando nós não tínhamos embaixada em Marrocos." Era o embaixador. Tem uma nomenclatura.
Sylvain Chomet, de facto, eu lembro-me do este "Belleville Rendez-vous" que eu adorei.
É verdade, exatamente.
É um dos sete que está na competição de longa-metragem.
Exatamente.
Aí está, é já de quinta, dia 12, até sexta, 22 de março, que a Monstra Festival de Animação de Lisboa celebra as suas bodas de prata. A 25ª edição traz 11 dias em que vamos poder ver quase 500 filmes do melhor cinema de animação de todo o mundo, ou não estivessem quase 60 países representados. Vamos poder ver 47 produções nacionais, entre mais de 100 estreias nacionais e quase 30 mundiais, homenagens, retrospetivas, masterclasses e oficinas, debates e exposições, partilhas e encontros, e claro, as propostas para os mais novos e para as famílias, na incontornável Monstrinha. Esta edição traz o tema da natureza e sustentabilidade. O país homenageado é a Letónia e Vasco Granja vai ter uma exposição dedicada. Para saber alguns destaques, converso com Fernando Galrito, antropólogo, realizador e professor, um homem de cultura que aos oito anos já fazia e projetava filmes para os amigos na sua vila natal ribatejana, e há 25 fundou em Lisboa este icónico festival, do qual também é diretor artístico. Olá, Fernando, e mais uma vez, bem-haja por ter aceitado este meu convite. É sempre um grande prazer falar contigo, tu és a pessoa que sabe tudo sobre este tema e esta arte maravilhosa que engloba quase todas as artes, é tão bom.
É verdade. Estamos a falar, parafraseando uma frase que escrevi no final do texto sobre a exposição, precisamente do Vasco Granja, que é talvez a arte mais bela e mais livre que existe. Pelo menos na minha opinião, e acredito que na maioria.
E é fantástico. Ainda há bocado aí nos bastidores falávamos disso, porque de facto, entre os 58 países, se não me engano, representados, temos filmes do Irão, temos filmes da Rússia, de Israel, Estados Unidos, é muito curioso isso. Sobretudo do Irão, que teve uma grande evolução. Eu sei que já temos falado dos filmes que vêm do Irão.
Sim, é verdade.
E agora está mais em causa.
Sim, ultimamente o Irão tem progredido. É verdade que estamos a falar do Irão, ou melhor, já falávamos do Irão por questões menos interessantes, do ponto de vista político, mas agora ainda pior, por causa desta questão da guerra.
Exatamente.
Mas pronto, apesar de tudo, tentamos sempre na nossa programação desviar ou não ligar às questões da guerra, às questões políticas. É verdade que um ato de fazer um filme é sempre um ato político também.
Claro.
Porque temos sempre um olhar, olhamos as coisas. Mas independentemente daquilo como nós olhamos cada uma dessas práticas.
Há uma classe artística.
Achamos que a arte deve.
Se expressa assim.
Exatamente. E porque a arte tem essa capacidade também de olhar sobre as temáticas. Eu até diria que o cinema de animação, e nós se recuarmos uns anos atrás, estou-me a lembrar, "A Valsa com Bashir" é um filme de animação que conta e fala de uma forma livre, mais uma vez, daquilo que é o conflito israelo-palestiniano, por exemplo. Já há muitos anos, ele era muito bem abordado através de um filme de animação feito por um israelita. Ou seja, tentamos que toda a gente mostre o seu olhar através da sua arte, neste caso, o cinema de animação, que mostramos com muito prazer na nossa programação, e que é a arte principal do nosso festival. Mostramos os filmes que vêm de todo o mundo, sempre que achamos importantes, sempre que eles falam de coisas que nós achamos que é importante também partilhar com os outros, porque nós temos essa vantagem. Anualmente recebemos, só na competição, este ano, foram 3580 filmes.
É extraordinário.
E desses 500 tivemos que reduzir para cerca de 200, quase 300 na programação. Nós temos essa vantagem, que é vermos muitos filmes e depois escolhemos alguns que gostamos de partilhar com o nosso público. E essa escolha não tem problemas de países, não põe isso à frente, põe a questão da qualidade, da animação, da mensagem. E naturalmente, claro que tentamos que essas mensagens não sejam mensagens Politicamente arrasadoras daquilo que nós estimamos muito e que há 50 anos celebramos felizmente em Portugal, que é a liberdade.
Exatamente, que é tão importante. Estavas me a dizer também que mesmo nesses filmes que vieram do Irão, e tens este ano, nota-se essa evolução. Nos últimos anos, nota-se um bocadinho essa evolução. Antigamente começavam todos com uma mensagem para o Alá.
Exatamente.
Hoje em dia já não.
E essa mensagem deixou de aparecer.
Começavam sempre os filmes por isso.
Exatamente. Temos cada vez mais, eu diria quase exclusivamente mulheres. Este ano estamos a passar oito filmes do Irão e são todos feitos por mulheres. Temos seis filmes realistas também, oito russos, se a memória não me falha. Para além, no ano passado, não só em animação, nós vamos passar 110 filmes francófonos, entre França, Suíça, Canadá, etc. A festa da francofonia também entra na nossa programação, ou seja, daquilo que são os tais 58 países presentes na nossa programação. A única observação que fazemos é que o filme tem que ter qualidade e tem que falar de coisas que interessam. E, neste caso, como tu disseste no princípio, demos também um olhar especial àquilo que é a temática do festival, a nossa relação com o mundo, a nossa relação com a natureza.
Com este planeta.
Com o planeta. E este equilíbrio que estamos completamente a desequilibrar e que começamos a sofrer, também nós aqui na pele, há bem pouco tempo.
Falaste também do povo palestino.
Exatamente.
E tens uma secção aqui: Para Gaza com amor, uma anime jam global.
Exatamente. É um projeto muito interessante, feito por uma mulher fantástica, a Joanna Quinn, uma inglesa, realizadora de cinema de animação, duas vezes candidata ao Oscar, e que vem falar deste projeto que ela lançou.
Portanto, é uma masterclass também?
Ela vai falar sobre como é que lançou este projeto.
São 56 microfilmes.
Exatamente.
É extraordinário. O que ela fez? No fundo são atores de todo o mundo, incluindo seis são portugueses.
Exatamente. Há portugueses dentro destes 50 países.
Microfilmes é ótimo, pode ser 15 segundos a um minuto.
Exatamente, sim. São filmes relativamente pequenos e cada um fala ou dá o seu olhar sobre esta questão do ataque israelita à Palestina. E tudo isto é inspirado numa mulher que, na Palestina, apesar de todas as condições adversas que existiram à sua volta, continua a fazer filmes de animação com as crianças palestinianas.
Da rua?
Da rua.
É extraordinário isso.
Extraordinário este trabalho.
Aliás, eu até estava que ela viesse, mas é difícil, imagino.
E é esta inspiração que vem para este projeto da Joanna Quinn e que tem filmes fabulosos e que nós, já no primeiro sábado do festival, ou seja, no dia 15, convidamos todos também, não só para verem os filmes, mas também para falarem com a Joanna Quinn e com quem estiver presente sobre esta temática. E sobre as obras, porque há obras realmente muito bonitas, muito sensíveis à questão.
E também falaste dos israelitas, porque mesmo entre os filmes israelitas que estão a concurso ou que vieram para esta mostra, há os que se nota que não são muito a favor do governo deles.
Exatamente.
Nem todos estão alinhados com o Bibi.
Claro, completamente.
E é por isso, essa liberdade que tu falas, que é uma das marcas do cinema de animação.
Exatamente. Essa liberdade nota-se na forma como, especialmente os jovens estudantes olham este conflito. E muitos deles olham com um olhar crítico, porque acham que-
Não há um melhor caminho.
Não há um melhor caminho. E todos nós temos o direito a existir e todos nós devemos ter o nosso direito à autonomia e a viver.
E a conviver em paz.
E a conviver em paz, essencialmente é isso.
Muito importante isso, porque como de fato é uma ferramenta, uma arte extraordinária. Este ano estavas a dizer que há 490 filmes. Pergunto sempre isto: tu tens um grupo que visiona contigo? O teu filho Tiago já te ajuda?
Exatamente.
Já? Que idade ele tem?
O Tiago agora tem 22.
Sim, tem mais que idade para estar a ver e é extraordinário ter um olhar crítico.
Já ajuda também numa parte da produção do festival. Faz algumas oficinas comigo ao longo do ano, já fazemos oficinas também de animação. E ele foi responsável, juntamente com outra pessoa da equipa, a Susana, a realista, na escolha dos filmes da Monstrinha.
Quer dizer, ok.
Ou seja, ele tem uma sensibilidade também especial.
Que se tem tudo, dos zero aos três anos. Todos os infantes, até à parte com os pais.
Exatamente. E a Monstrinha, como tu dizias, também é um caso de sucesso no nosso festival.
É extraordinário, já tem um trailer próprio.
Exatamente.
É muito giro.
Estamos a falar do ano passado, 35500 crianças.
Crianças envolvidas. Começaram com duas mil e tal pessoas a assistir, há 25 anos, já passaram o milhão.
É verdade.
Se tudo somar.
Sim, já passaram o milhão. E sabes que é engraçado, sei lá, para falar de um colega teu, um radiolista.
Sim, radiolista.
Que uma vez entrevistou-me, fora do período do festival, e eu disse assim: "Mas você sabe que não está na..." "Não, eu quero falar sobre animação, mas eu conheço muito bem a Monstra porque eu cresci com a Monstrinha."
Quer dizer. Já vem dessa geração que apresentou.
Encontramos muita gente que cresceu na animação. Assim como, como dizias há pouco, e falávamos no Vasco Granja, eu e muitos colegas meus crescemos também a ver os filmes, os programas do Vasco Granja.
Maravilhosos filmes que acabavam com o cognac.
Exatamente.
E que língua é? Eu sei que é russo.
Sim, vários países usavam. Às vezes a palavra é muito parecida.
Cognac era o fim. Eu lembro-me também disso. Nós também falamos sempre isto, este mito que a animação é para crianças. Durante muito tempo, associou-se a animação ao cinema infantil.
Exclusivamente, mas não é o caso.
Fernando, o que a animação permite contar que o cinema com atores, às vezes, não consegue?
Há duas coisas que eu acho que, para além de outras mais, são interessantes no cinema de animação. Por um lado, há uma capacidade poética. Não quero pôr em causa a capacidade dos nossos atores ou dos grandes atores que existem pelo mundo inteiro. Mas há uma capacidade poética de dizer coisas e de sensibilizar de uma forma às vezes tão simples. Há muitas vezes, e aconteceu muitas vezes no nosso festival, nós passarmos filmes que são apenas linhas em movimento e as pessoas saírem quase com uma lágrima nos olhos. Ou seja, aquela performance, aquela dança, aquele bailado sobre o ecrã é tão bonito, tão sensível, que tal como uma música do Carlos Paredes nos pode fazer a nós ou qualquer outra pessoa de uma cultura qualquer que não está habituada a ouvir essa música. O cinema de animação tem essa capacidade poética e essa liberdade para fazer isso. E depois há uma outra questão, que eu acho que o cinema de animação, entre outros aspectos, tem também uma capacidade de sintetizar muito bem questões de dentro da sua narrativa. E às vezes não precisas de muitos diálogos, não precisas de muita contextualização para entender e para a mensagem passar.
É mais direta e com belas imagens ou com música.
Exatamente, de uma forma menos aprofundada. Aliás, o país convidado este ano do festival, a Letónia, tem um filme que trouxe a Letónia para os olhos do mundo e para os ouvidos também, que é o "Flow", que ganhou o Oscar o ano passado e que teve, de repente, milhões de espectadores que se calhar, se não tivesse o Oscar, é verdade, talvez não os tivesse. Mas felizmente que teve o Oscar, porque é um filme de uma sensibilidade e que conta a história de um grupo de animais que numa enxurrada, ou seja, numa grande invasão da água, numa grande enchente, eles conseguem, apesar da sua diferença, em termos culturais, para usarmos uma expressão mais humanizada, em termos de tamanho, em termos daquilo que comem, eles conseguem levar o barco a bom porto. E às vezes nós colocamos a questão quando chegamos ao fim do filme: será que se fossem humanos ali dentro daquele barco, chegariam os animais todos ao fim?
Faz-nos pensar.
Exatamente. Ou seja, de uma forma simples, apenas com animais e com um barco que atravessa várias cidades destruídas, nós temos uma lição de vida que todos os humanos, acho eu, deveriam olhar e deveriam ver.
Este filme, "Flow", é de 2024, o prémio de melhor filme de animação nos Oscars de 2025. Deste Gints Zilbalodis, estes nomes são impronunciáveis. Mas de facto, a animação mesmo na Letónia é reconhecida como uma das mais inovadoras da Europa.
É verdade, nos últimos anos.
Muita técnica, variedade técnica, liberdade artística.
Ainda durante o tempo da União Soviética, eles eram um dos grandes estúdios de animação stop motion e que depois com a sua independência, eles criaram ainda uma maior diversidade, não só no stop motion, mas depois também em todas as outras áreas ou técnicas dentro da animação. E são hoje, realmente, eles que têm muito menos, são cerca de três milhões, creio eu, têm um orçamento para o cinema de animação maior que o nosso e produzem muito mais longas-metragens, séries, etc.
Já agora, falamos também desta exposição que está no Museu da Marioneta, foste lá inaugurar.
Pronto, acho que já inaugurou. Eu convido todos a irem.
Até 19 de abril. Aliás, prolonga-se depois do festival até 19 de abril. Esta coisa dos 60 Anos de Animação de Marionetas da Letónia, o estúdio Animācijas Brigaде. Que é uma coisa que está lá no Museu da Marioneta e que vale muito a pena. Eu vi as fotografias da tua inauguração.
Exatamente, são fantásticas.
Que é extraordinário.
Nós temos quase uma centena de marionetas. Desde o mestre que começou todo este processo. Aliás, temos um filme que está ainda em produção. Nós trouxemos uma parte do cenário que já não estava a fazer falta para ser rodado e é um encantamento, sem dúvida. Todos nós temos cenários de 14 filmes diferentes e tanto as marionetas como os cenários são de uma sensibilidade e vale muito a pena ver. Estão todos convidados a irem ao Museu da Marioneta e apreciarem, porque são filmes que depois, se vierem também entre 12 e 22, se vierem à MONSTRA, podem ver alguns dos filmes dos quais os cenários estão lá presentes.
Isso é muito giro, esse complemento. Quando nós olhamos para o cinema de animação atual, na última década, na última década e meia, o que é que mudou mais? A tecnologia, as histórias ou o público? Ou tudo?
Eu diria que mudou um pouco tudo. Agora com inteligência artificial. Eu sou sempre um pouco suspeito para falar destas coisas, porque tenho um olhar muito mais positivo sobre estas questões. Eu comecei a fazer cinema em película Que nós olhávamos as imagens que fazíamos.
Exatamente.
Aliás, eu às vezes começo as minhas aulas com um pedaço de película entre os dedos e pergunto aos alunos: "Vocês sabem o que é isto? É um holóide. "É um bocado de celulóide." Não, isto é um segundo. Eu tenho aqui 24 imagens, eu estou agarrando o tempo. Eu consigo agarrar o tempo. Quando os fazíamos em película. E depois aparece o vídeo e as imagens desaparecem e passamos a ter-
O movimento.
Exatamente. O movimento não se vê, só se vê na projeção. E depois aparece os zeros e uns e tudo passa para dentro do computador.
Do digital.
Exato. E depois dentro do digital aparece o 2D, depois aparece o 3D, em que eu já tenho um ator com câmeras e crio um avatar em 3D e eu copio exatamente os movimentos do meu ator.
Vez o que é que se faz, o chroma key, os avatares, como é que se faz, e o filme.
Exatamente, o avatar é isso.
Todos os pontos azuis.
Exatamente, o avatar é um avatar. É uma personagem criada digitalmente que replica os movimentos de um ator.
O deepfake e a inteligência artificial.
Exatamente. Agora vem a inteligência artificial. Quer dizer, antes nós fazíamos os keyframes e depois havia um intervalista que fazia os intervalos à mão.
Exatamente.
Depois apareceu o computador que fez os intervalos por nós. Agora aparece a inteligência artificial, como diz um amigo meu, a estupidez artificial, porque ela copia tudo que nós já fizemos, na realidade, ela vai buscar o nosso conhecimento.
Só que faz mais rápido.
Vai a buscá-lo mais rápido. E tem mais memória do que nós.
Exatamente. E já faz tudo numa sequência.
E que vai trazer outros olhares. Mas eu continuo a acreditar que se não haver alguém que tenha uma boa história, que tenha um bom grafismo, que faça uma boa proposta, não acredito que, por enquanto.
O futuro. O futuro Deus queça.
O futuro não sabemos ainda.
Exatamente.
Mas acredito que nós continuamos a ser fundamentais para a criação.
Exatamente.
Eu dou aulas numa escola em Caldas da Rainha, onde há um departamento de design. Quando apareceram os computadores, os jovens foram todos: "A gente quer fazer tudo em computador, digitalmente". Hoje já vemos jovens, como a escola tem um conjunto de tipos da tipografia antiga, etc, que regressam aos tipos.
E voltam aos quadros.
Batem com a tinta no papel. É verdade que voltam a pôr aquilo no computador, mas há uma relação entre o manual e o digital.
Como a música, que voltou muito ao vinil e esse tipo de coisa.
Completamente.
Não precisa, no final, daquele som imperfeito, mas que faz parte.
Exato. A imperfeição acho que faz parte de nós próprios. Há imperfeições que era bom não termos, como dá-los da natureza ou criarmos guerras, mas há outras imperfeições que somos bons.
Pode-se aprender com isso. Eu só me lembro dos japoneses e a arte do caco ser junto com ouro e que é tudo uma técnica e tudo uma arte também em si próprio. Valoriza muito a peça.
Exatamente. Eu acho que essa ligação entre os mundos, digamos assim, seja o mundo natural e o mundo digital, a criação artística manual, mas depois que também pode ser retrabalhada digitalmente e vice-versa. Eu acho que no fundo, sempre tivemos uma tecnologia a ajudar-nos.
Exato.
Seja uma pedra lascada, seja hoje um computador. E acho que temos que acreditar é que somos nós que temos que ter essa primazia e não nos deixar ultrapassar pela máquina, é mais isso.
Muito bem, Fernando Galrito, temos que fazer aqui um rapidíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já. Estamos a conversar com Fernando Galrito, ele é o fundador e diretor artístico da Monstra, o Festival de Animação de Lisboa, cuja 25ª edição vai exibir quase cinco centenas de filmes, de 12 a 22 de março, em vários espaços da capital, mas tem este epicentro, já sabe, aqui no Cinema São Jorge. Estava a pensar também que a animação, Fernando, vive muito da liberdade visual. Esta liberdade também nos permite abordar temas mais difíceis ou complexos. É bom para isso?
Sim, eu penso que sim. Eu diria até que às vezes é melhor. Porque tem uma capacidade de dizer as coisas de outra forma, que às vezes a realidade ou precisa de mais tempo, ou nem sequer tem capacidade para o fazer. Eu posso alterar completamente o meu mundo, a minha personagem, quando eu trabalho em animação. Não posso pedir a um ator que estique o braço.
Fique com uma altura de 6 metros como o avatar.
Exatamente. Ou seja, há essa liberdade criativa, mas ao mesmo tempo há essa capacidade também de dizer as coisas de outra forma. E muitas vezes, o que é muito interessante também, é o cinema de animação recorre muito ao não diálogo. Há muitos filmes de animação com um poder enorme de contar histórias, de dizer coisas, que não precisa de diálogos.
Uma comunicação não-verbal, digamos.
Exatamente. À saída de uma sessão de uma longa-metragem no Cinema São Jorge, há uns anos, há uma criança que vem com o pai e que olha para ele e diz assim: "Pai, eles não disseram nada, mas eu percebi tudo."
Que giro. É um bom sintoma, exatamente o que consegue a animação.
Exatamente. Esse lado metafórico, diria eu, esse lado da metáfora que a imagem animada, que tem essa liberdade expressiva. E temos exemplos fabulosos disso, que ultrapassam um pouco, às vezes, esse lado tautológico e compreensível.
A limitação de linguagem, neste caso.
Exatamente.
E outra coisa engraçada, falaste isso há bocado, a questão de ser universal, porque às vezes há palavras em português que não há noutras línguas e vice-versa, mas conseguem transmitir as emoções e transmitir as coisas, e todos percebem, é uma coisa universal.
Exatamente, tem essa vantagem, essa universalidade.
Uma linguagem universal.
Exatamente. E ao contrário, às vezes, daquilo que a gente pensa Uma boa história portuguesa pode tocar tanto um chinês como um canadiano, um sul-americano.
É como diz o Tolstói: "Queres ser universal? Pinta a tua aldeia."
Exatamente. É isso.
É incrível. Está dito há 100 anos e é verdade, é uma grande verdade.
E nesse aspecto, eu acho que é uma das características interessantes da nossa animação portuguesa, é que falamos das nossas coisas. E isso faz com que o nosso cinema de animação seja, por um lado, universal, seja adorado em todo o mundo e seja, eu digo isto quase com toda a certeza, a arte portuguesa mais galardoada no mundo inteiro. O cinema de animação, se nós reunirmos na escadaria do Parlamento, os prêmios todos que o cinema de animação já teve, enchemos a escadaria. E não acredito que haja outra arte que o consiga fazer.
Falando do Ice Merchants, por exemplo, esse tipo de coisas.
Exatamente.
É curioso. De fato, isso me faz lembrar de imagens de animação de um filme das lendas de Trás-os-Montes, dos diabos em casa.
Exatamente.
Com as casas de granito. É extraordinário. Em termos de produção, Fernando, fazer animação hoje é mais democrático ou continua a ser uma arte que exige muitos recursos e muito tempo?
É sempre uma arte que precisa de muito tempo. Tem esse problema.
Hoje até tem competições com o telemóvel. Quer dizer, até se pode fazer. Os filmes estão cada vez mais apurados.
Exatamente. Até porque mesmo usando o computador, há um trabalho ao frame muito grande. Ou seja, estamos a pensar que para fazer um segundo de cinema, precisamos de 25 imagens. Se eu carregar no botão e a máquina fizer 25 imagens por mim, o filme fica feito ao fim de uma hora, se eu quiser um filme de uma hora. Se eu quiser fazer um filme de 10 minutos, eu tenho que fazer 6 mil imagens, pelo menos, 12 mil imagens, melhor, uma a uma, ou pelo menos uma boa parte delas tenho que as desenhar eu próprio ou manipular a marionete em frente da câmera. Ou seja, há esse lado primeiro da construção e depois da animação, do criar o frame a frame. E depois o cinema de animação tem esta loucura, diria eu. O Lobo Antunes dizia que a literatura era viral. E eu digo há muitos anos também, se calhar não tantos como o Lobo Antunes, que o cinema de animação é viral, é um vírus que entranha em nós. Só para dar um exemplo, nós vamos fechar o festival no dia 21, na festa de encerramento. Vamos fazer a estreia mundial de um filme que se chama "Virgem Fandango", que é uma homenagem fabulosa às mulheres ao longo da história mais antiga até os nossos dias. Nós temos 28 mulheres retratadas importantes na história das mulheres no mundo inteiro, onde estão, naturalmente, mulheres portuguesas. Estou-me a lembrar da Catarina Eufêmia, por exemplo.
É um curta-metragem musical, não é?
Exatamente, produzido em Portugal.
Com esta técnica de azulejos.
Exatamente.
Que é o quê? Isto é o quê? Eu estou a dizer que isto é da Marcy Page.
Da Marcy Page. É um filme em que ela desenha 12 mil azulejos para fazer este filme.
Que giro!
Ou seja, ela agarra num azulejo virgem, branco, desenha com tinta de azulejo, vai para o forno, põe o vidrado, volta a ir ao forno e depois grava.
Frame a frame.
Frame a frame. Ou seja, temos 12 mil frames, aliás, uma parte desses frames, desses azulejos.
É uma estreia mundial, atenção, temos que ser isso.
Completamente. Nós vamos ter a exposição no Cinema São Jorge, e é uma loucura. Ou seja, há este lado do querer também criar dentro das possibilidades impossíveis, quase, que estão à nossa frente. Nós vamos ter conosco a Michèle Lemieux, uma canadiana.
Também vai dar uma masterclass?
Exato, vai dar uma masterclass sobre o ecrã de alfinetes. Ou seja, ela faz filmes num ecrã que tem meio milhão de alfinetes lá espetados. E que são esses alfinetes que vão para cima e para baixo e que criam sombras uns sobre os outros, que criam as imagens que ela anima. É uma técnica fabulosa, mas que, mais uma vez, podem imaginar o trabalho que está por trás disso. Mas ao mesmo tempo, por exemplo, vamos ter também uma masterclass e uma retrospectiva organizada por também um americano, o Hamid Hamidi, um grande historiador da história do cinema de animação. Vamos comemorar os 75 anos do Modern Cartoon. Ou seja, o cartoon que cortou com aquilo que era o "redondinho" do Walt Disney, para criar linhas quebradas. E então nasce o Gerard McBoing, nasce o Mr. Magoo, e nascem todos aqueles os anos 40, 50, 60. Também víamos no programa do Vasco Granja, da Mary Melodies, com todos, o Friz Freleng, o Chuck Jones.
Plano visual e arrojado, a influência do cartoon moderno.
Exatamente. Que de alguma forma tem parentes, digamos assim, ou é levado de alguma forma também pela Europa. E temos o Dušan Vukotić, que se fosse hoje um croata, na altura um jugoslavo. Que fez um filme fabuloso, que, aliás, ganhou um Oscar, de tão fabuloso que era. E que temos um original na exposição do Vasco Granja, na Cidade Nacional de Belas Artes, que inauguramos agora na sexta-feira, às 18h30, mas que também vai ficar até o princípio do mês de abril. E estão todos convidados a ver este espólio fabuloso do Vasco Granja, onde, mais uma vez, podemos mergulhar numa boa parte deste Modern Cartoon. Temos coisas do McLaren, um modernista, um experimentalista. Temos coisas do Yellow Submarine, temos coisas do Lápis Mágico. Quem tem a minha idade lembra-se da série da televisão O Lápis Mágico, do professor Baltazar. Temos originais de todas essas preciosidades.
Olá, Vasco Granja, a arte dos amigos do pai da Pantera Cor-de-Rosa.
Exatamente.
Muito giro. Então inaugurou este sábado, na Cidade Nacional de Belas Artes, vai estar até 4 de abril. Não percam, estão 125 desenhos postos sobre papel e estatuetas de realizadores de grandes nomes da animação. Já falamos de alguns deles, Richard Williams e o Norman McLaren. É uma das grandes exposições que vai acontecer também. O homenageado que merece, figura maior da divulgação do cinema de animação cá em Portugal. Uma homenagem incontornável. Estamos a falar também de todas as secções que vão ter, como sempre, muito boas. Apóstitos Massa Classe que vamos ter. Também vai haver este da Alexandra Ramires e da Laura Gonçalves, a força de fazer a várias mãos.
É isso. São duas mulheres portuguesas que fazem filmes em conjunto há muito tempo e cada filme que lhes sai das mãos é uma obra de arte.
Só este "Percebes?", este último de 2024, ganhou quase 50 prêmios.
É verdade.
Melhor curta-metragem no Festival de Annecy, por exemplo.
Exatamente, que é o maior festival de cinema de animação do mundo.
É extraordinário.
E o terceiro, às vezes as pessoas não ligam muito: "Ah, é animação". Não, é o terceiro maior festival de cinema do mundo, depois de Cannes e Veneza. É o terceiro maior festival de cinema e que pouco a pouco vai ganhar ainda mais espaço. Dentro também daquilo que é uma área do festival que nos interessa.
Estava a destacar algumas coisas.
O cinema de animação em Portugal, o lado autoral, se nós conseguirmos manter este apoio que existe, aumentá-lo, naturalmente, um pouco mais, seria melhor. Mas há uma outra área, que é a área que nós chamamos mais industrial, digamos assim, das séries, das longas, que têm sido um pouco, digamos, mais fragilizadas, para usar uma expressão mais simples.
Um eufemismo.
Um eufemismo, exatamente, dos apoios. E nós achamos que é importante não só o Estado, mas também as empresas privadas meterem também mais dinheiro, porque sabemos fazer e já mostrámos isso. E, ao mesmo tempo, porque estamos numa Europa, porque estamos num mundo onde é bom fazermos coisas em conjunto, o festival anualmente, e este ano mais uma vez, nós vamos fazer um grande encontro de produtores de cinema da América Latina, da Espanha, de Portugal e dos países bálticos. Estamos a falar da Estónia, da Lituânia e da Letónia, o nosso país convidado. E a nossa ideia é, com este encontro, e estamos a falar de 26 estúdios que vão estar presentes, conhecer-nos melhor uns aos outros e podermos ver que se calhar temos sinergias, temos interesses comuns e independentemente, para além do dinheiro que cada um de nós tem, se juntarmos, conseguimos fazer obras maiores, mais profundas. E, ao mesmo tempo, misturar as nossas culturas, porque a Europa também tem essa carga.
Para mim também é bom outra coisa, Fernando, vou te dizer. É para soltar um bocadinho desta hegemonia dos norte-americanos. E é bom a gente já estar a querer mais independência nessas coisas, sabermos nós gerir os nossos meios e fazer coisas com qualidade, que sabemos, cá está o teu vídeo, o capital está cá.
Exatamente. A Europa, Portugal, deu provas mais do que suficientes que é capaz de fazer as suas coisas.
Muito bom.
Eu, às vezes, vou te ser sincero, aqui que quase ninguém nos ouve. Estou a brincar, espero que seja uma boa audiência. Mas tenho pena que a gente não tenha, quando fala de um grande filme, não seja um filme que foi aos Oscars. Por exemplo, nós vamos estrear um filme em Portugal, o Decorado, que é uma coprodução espanhola e portuguesa, do Alberto Vasquez, e que é um filme fantástico, que põe o dedo em muitas feridas daquilo que acontece das fake news atuais.
É uma comédia negra.
Exatamente, uma comédia negra sobre esta coisa.
Foi nomeado para os Goya?
Exatamente. E ganhou o Goya. Acabou de ganhar o Goya.
E o Prémio Quirino de Animação Ibero-americana.
Exatamente.
Com a produtora Sardinha em Lata, o nome da produtora portuguesa que eu adoro.
É verdade.
Muito importante. Sobre este rato que está a passar por uma crise existencial.
Sim. E nós não falamos nisso. Se for no Oscar, abre no telejornal. Se foi um Goya, não houve nome que ninguém tenha falado nisso.
Responde aos Césares franceses e aos Baftas ingleses.
Exatamente. Mas mesmo aí ficamos. E eu acho que é importante nós começarmos a dar, e concordo perfeitamente contigo, começarmos a dar espaço e valor às coisas que são feitas. Primeiro, por nós também, mas depois pela nossa Europa. Porque apesar de tudo, vivemos aqui.
Muito boa ideia esta questão de abrir aos países bálticos, foi um bocadinho por ser a Letónia o país convidado ou já era uma coisa que estava em vista?
Estava em vista. Aliás, a Letónia, nós preparamos o festival com três anos de antecedência. Mas quem vier no dia 21, ao encerramento, vai ver o cartaz e vai saber quais vão ser os países para 2027.
Do ano seguinte.
Exatamente. E já sabemos também qual vai ser em 28. A Estónia, ou os países bálticos vêm porque têm uma coisa que é ótima para nós. Têm custos de produção, especialmente neste lado mais iguais aos nossos.
Ok. É muito similar.
Se quisermos coproduzir com a França, é ótimo, tem muito dinheiro. Só que eles pedem 10, 4 ou 5, ou seis, ou sete vezes mais euros por minuto do que nós. Ou seja, uma coisa que a gente queira coproduzir, temos que ter também mais dinheiro para trabalhar com eles.
Ter mais músculo para poder-se equiparar.
Se falarmos com a Alemanha, a mesma coisa, etc. Se entramos nos Bálticos, se entramos no Brasil, América Latina, Espanha, estamos mais ou menos ao mesmo nível. E é esse também o nosso objetivo, que nós nos conheçamos e que possamos fazer coisas em conjunto.
E ver se há energias que possamos potenciar uns com os outros.
Completamente.
As boas práticas, é muito importante isso, passarem de uns para os outros, como é que vocês fazem isso, como é que fazem aquilo. Então terem mais ou menos o nosso nível também é bom, porque ajuda-nos a ver como é que vocês têm feito e podemos ajudar com ideias uns aos outros. Este público mais jovem, Fernando, que cresce com os videogames, tiktaks e imagens digitais, tem hoje uma relação diferente com a animação?
Tem uma relação diferente e mais próxima. É verdade que, por enquanto, às vezes, pendem muito para o lado japonês, essencialmente, ou quem copia o japonês. É verdade que nós também temos filmes japoneses na nossa programação Quem nos estiver a ouvir e gostar dos animes, nós não temos os animes puros, mas temos filmes feitos por japoneses. Temos o filme-
"Shão"!
Exatamente. Nós temos o filme que ganhou o ano passado o prêmio especial do júri.
Do Annecy. Festival de Annecy.
Exatamente. Vai estar na nossa programação.
"Yashahiro," ó aqui.
Exatamente. De quem eu tenho um desenho original, que é o meu tesouro.
Ah, tens? Incrível! Vai estar na competição de longas-metragens. São sete películas, cinco das quais são estreias nacionais.
Exatamente, é isso. Estreamos também um filme muito interessante, do Sylvain Chomet, que toda mundo conhece também pelas "Triplettes de Belleville" ou pelo "Ilusionista", ou "O Mágico". O Sylvain Chomet, que fez um filme sobre o Marcel Pagnol, que é um cineasta, escritor, um pouco também outsider na cultura francesa, e que tem uma característica engraçada. Eu falei com o neto dele, porque gostávamos que ele viesse cá falar sobre o filme, e ele diz uma coisa.
Estreou no festival de Cannes.
Exatamente. E ele diz uma coisa que é: "Você sabe que o meu avô, o Marcel-
Marcel Pagnol
...Pagnol, foi embaixador português no norte da África, em Marrocos, quando nós não tínhamos embaixada em Marrocos." Era o embaixador. Tem uma nomenclatura.
Sylvain Chomet, de fato, eu lembro este belo de um rendezvous que eu drei.
É verdade, exatamente.
É um dos sete que está na competição de longa-metragem.
Exatamente, é isso. Temos o filme chinês também, "A História do Fogo", que é um filme fabuloso. Quem gosta de animação pura, não pode perder também esse filme.
"A História do Fogo" é uma coisa fantástica. E tu dizes que é chinês, mas que não emula os processos japoneses, é chinês puro.
Chinês puro.
São, de fato, diferentes.
É um filme chinês, sob todos os aspectos, não só no argumento, mas também nas formas, na animação.
Uma história que sobre o fogo. É um macaco criado por humanos, que vai a uma montanha sagrada em busca de fogo e após enfrentarem alguns perigos e dificuldades, transforma-se num ser humano. Mas, de fato, é uma linguagem, a imagem, a gente nota que é uma coisa chinesa.
Exatamente. É fantástico também esse filme. E temos um filme a fechar, um filme mais para famílias, um filme checo, uma história de magia.
"O Conto do Jardim Encantado", é esse.
"O Conto do Jardim Encantado", exatamente. E que é muito engraçado, porque é inspirado num livro de um autor que escreveu o livro em várias zonas entre a República Checa, a Eslováquia, a Hungria, ou seja, ele foi saltitando. E é muito engraçado que o produtor do filme e o realizador fizeram o filme também nesses países por onde ele passou. Ou seja, o filme é um filme em marionetes, animação de marionetes ou stop motion, por usar uma expressão mais conhecida.
Esses três irmãos que passam o fim de semana com o avô.
Exatamente.
Morreu a avó e ele está sozinho, solitário.
E o avô leva-os em várias histórias mágicas. E cada um desses trajetos é feito por um estúdio diferente.
Quer dizer. E, aliás, esteve na Berlinale em 2025.
Exatamente.
A estreia mundial foi lá.
Foi lá, exatamente.
De fato, há sempre novidades extraordinárias. Diz, destacava outra coisa.
Não, ia dizer para as pessoas que gostam das questões dos Oscars, abrimos a competição com o filme "Amélie", mais uma vez um filme francês, que está também na corrida aos Oscars. E como é à tarde que antecede a noite dos Oscars, vamos passar também o "Arco", que está nas salas de cinema, e que também é um filme de animação de origem francesa, ainda que conte uma história um pouco entre a Europa e o Japão, e que vamos passá-lo também fazendo uma espécie de uma tarde dedicada aos Oscars dentro da Mostra.
Da programação.
Exatamente. No dia 15, antecedendo a noite dos Oscars, fazemos os nossos Oscars de animação no Cinema São Jorge.
A cerimônia de abertura vai ser já nesta noite, dia 12, na quinta-feira, no Cinema São Jorge, às 19h. Começa com estes dois filmes da Letônia, que é o país convidado este ano, "The Kiosk" and "The Winds and the Hours".
Do Vladimir Leyschev, que é o homem que criou o nosso cartaz.
Exatamente, deste ano.
E que também vai fazer uma masterclass sobre o seu trabalho.
E vai-se ver este filme concerto, já agora, é o último destaque, praticamente, que podemos fazer, este "Pedro e o Lobo", que celebra 90 anos desta obra do Prokofiev.
Do Prokofiev, e 20 anos do filme.
Que vai ser a música interpretada ao vivo ali.
Exatamente, a música pela Academia de Sopros da Santa Cecília, pelos alunos da Academia de Santa Cecília, que vão tocar ao vivo a peça do Prokofiev, e acredito que vai ser um momento mágico também na nossa abertura do festival, onde também vamos estrear um filme português, do Humberto Santana, é um filme um pouco autobiográfico e que conta um pouco a sua história quando militou nos movimentos maoístas no pós 25 de abril.
Aliás, como muitos dos nossos governantes atuais.
Aliás, ele fala nisso.
O empreendedor da criação porária. Isto é uma curtíssima? É uma curtíssima.
Não, são 11 minutos.
Que este ano além das curtas e das curtíssimas, que são aquelas dos telemóveis, que é de dois minutos, vais ter uma coisa nova que é as médias.
As médias, umas minutos, um quarto de hora. Exatamente, vamos ter uma secção dedicada às médias-metragens.
Há apetência cada vez e vocês vão abrangendo tudo, o que é extraordinário. Porque, de fato, há muito material.
É isso. E quem gosta de videoclipes, o nosso clip anime é dedicado exclusivamente a videoclipes portugueses. Isso também é uma sessão a não perder.
Muita coisa. O nosso tempo já acabou, mas Fernando, para dizer que vai decorrer de 12 a 22 de março, esta 25ª Mostra. Parabéns, que são as bodas de prata. Vai andar à solta em Lisboa toda esta animação. A programação completa está neste site. A gente pode ver no mostrafestival.com. Aí inscrições, marcações, tudo, bilhetes, sabemos tudo. Fernando Garrito, mais uma vez bem-hajas pela tua disponibilidade em vir aqui ao Observador.
Obrigado.
Que corra tudo muito bem com o Mostra e o Monstrinha, que arrancam já para a semana, na quinta-feira. Voltamos todos a reunir-nos e a poder celebrar entre fãs do gênero e amigos, esta mensagem, esta força e, sobretudo, esta liberdade. Falou-se muito disso hoje, que permite a beleza da animação. Bem-hajas, Fernando. Até breve.
Obrigado. Até breve. E venham todos à Mostra.
Está combinado.