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É com muito prazer que damos as boas-vindas às nossas convidadas extra de hoje, Margarida Vieites e Patrícia Matos, que nos vêm falar de sucesso emocional. É este, aliás, o título do livro que escreveram a meias e agora lançam, com os testemunhos de 24 personalidades que revelam como gerem as emoções, como conseguem autoconfiança. São histórias e dicas contadas por famosos como Ricardo Quaresma, Sérgio Figueiredo, Ricardo Araújo Pereira, Naide Gomes, Maria José Matias, Santana Lopes e muitos outros. Obrigado desde já, Margarida e Patrícia, bem-vindas.
Olá, boa noite.
Obrigado por terem aceitado este convite.
Obrigada.
Bem-vindas ao Observador. Vou começar por Margarida e perguntar uma coisa: Margarida Vieites, este nome vem de onde, Margarida?
Exatamente, Margarida Vieites. É espanhol, é de origem espanhola.
Ah, ok. Vieites, entonces.
Exatamente.
E não conheço mais nenhuma cá. A tua família está cá já há muito tempo ou foste a primeira a emigrar para cá?
Somos os únicos aqui em Portugal.
Incrível. Aposto que toda a gente se engana mil vezes para dizer o teu nome.
Exato, eu seletro, normalmente.
Pronto, fazes bem. A Margarida é especialista em relações, em mediação familiar, mediação de conflitos, também aconselhamento conjugal, uma área a que ela se dedica já há mais de 20 anos.
Exatamente.
Muito bem. Pela idade do que ela parece, não, tu a ver, são as duas muito bonitas, deve ter começado aos 15.
Foi aos 16.
Foi um ano depois. Foi nomeada para o prêmio de Mulher Ativa já uma vez, em 2008. É consultora de muitas instituições. É fundadora de um projeto chamado Espaço Família e do Love Doctors. O que é o Love Doctors?
Exatamente. O Love Doctors é uma página no Facebook em que eu e um colega publicamos regularmente artigos. Eu escrevo na Visão, e regularmente publicamos artigos que têm a ver com o amor, e não só com o amor.
E por que os doctors? Não é amor com os profissionais de saúde, só?
Não, é porque é os doutores do amor.
Ah, ok.
Exatamente.
Os Love Doctors. Tudo junto. Muito bem. Este é o teu sétimo livro que dedicas, entre várias pessoas, e à Margarida, a tua filha, sim, dedicas ao teu pai, que tu dizes que te ensinou o outro lado da vida. O que querias dizer com isto?
Exatamente. Eu nasci em África, nasci em Moçambique, em Lourenço Marques, e vim para cá muito pequenina e depois regressei a Luanda, onde eu estive cerca de dois anos e meio. E quando regressamos, foi exatamente dois meses antes do 25 de abril. E um dos acontecimentos, uma das grandes aprendizagens que eu fiz com meu pai, foi exatamente quando retornaram todas aquelas pessoas sem os seus haveres, sem nada, que perderam absolutamente tudo.
Um grande drama deste regresso.
Exatamente.
Com a roupa praticamente que tinham no corpo, continham lá vidas feitas.
Exato. E então o meu pai uma vez levou-me aos hangares do aeroporto, que era onde estavam as pessoas. Onde estavam acumuladas as coisas. E essa foi uma das grandes aprendizagens que meu pai me deu, foi nesse sentido, de me mostrar que havia pessoas com muito menos do que nós.
Exatamente.
Nós éramos muito privilegiados na altura.
Tem tudo a ver com a conversa de hoje e com o livro.
Tem tudo a ver com sucesso emocional. E meu pai sempre tentou ao longo da vida, embora nós fôssemos super privilegiados, mostrar que também havia o outro lado da vida. Pessoas que eram mais desfavorecidas, pessoas que não tinham aquilo que nós tínhamos.
Exatamente.
Portanto, eu sempre consegui ver os dois lados da vida e ainda hoje me sinto muito grata.
E é engraçado, porque se a gente pensar bem, há sempre coisas para agradecer. E eu reparei que o livro fala muito nisso.
Fala muito em gratidão.
É só o fato da pessoa acordar de manhã, e agora estou me a lembrar do Quaresma que diz isso, que acorda de manhã e agradece a vida, e com mulher, e rezam todos os dias de manhã. É só o fato da pessoa acordar, da pessoa poder andar nesta Terra, a pessoa poder andar na rua com liberdade.
Respirar.
Respirar, sentir, cheirar as coisas. Há tanta gente que não pode. Todos os dias devíamos dar graças pelas coisas, mas isso é outra conversa. Vamos à Patrícia Matos. A Patrícia já é uma jornalista há 12 anos na TVI. Ela fez parte do projeto inicial da TVI 24, onde eu também participei, com muito prazer. Ela apresenta o "Diário da Manhã", as senhoras sabem isso, estão habituadas à cara dela e a vê-la. Ela também tem este blog, Deve Ser de Mim, que nutre animadamente com muita gente a perguntar coisas, a tirar dúvidas. E te perguntar uma coisa, Patrícia, fala-me do teu avô Henrique.
O meu avô Henrique. O que eu te posso dizer do meu avô Henrique? O meu avô Henrique era a pessoa mais maravilhosa da vida. Todas as pessoas não chegam para ele. E o meu avô tinha o dom de nos ensinar pela bondade, de nos ensinar pelo exemplo.
A bondade é uma qualidade tão...
Tão rara.
E hoje em dia tão desprezada.
Tão rara, mesmo, completamente.
Pessoas boas, pessoas com o coração grande.
Sim.
Tão importante.
E o meu avô Henrique tinha uma vida muito humilde, os meus avós eram pessoas muito humildes e viviam numa quinta. E o meu avô passava os dias dele já na velhice, porque foi quando eu o conheci. Ele morreu quando eu tinha 15 anos, portanto, ele morreu há 21. E só depois de ele morrer é que eu consegui perceber toda a amplitude desta aprendizagem, da mensagem que ele nos deixou. Mas quando nós chegávamos, o meu avô estava sentado na sua cadeira a fumar o seu cigarro, era onde ele passava a maior parte dos dias, a apanhar o seu sol e a ver passar os comboios.
Isto era onde, Patrícia, onde é que era?
Olha, era em Santa Margarida da Coutada, num sítio que se chama, ainda hoje, que ainda existe, Quinta do Lombão. E os meus avós viviam lá, pertinho da linha do comboio, entre a linha do comboio e o rio Tejo, num espaço muito bonito. E então ele ficava lá sentado e quando nós chegávamos, eu dizia: "Então, avô, está tudo bem?" Ele disse: "Está tudo muito bem, estava só à espera que vocês chegassem". Estava mesmo à espera que vocês chegassem. E esta bondade, e esta aceitação, para ele estava sempre tudo bem. Não havia questõezinhas, não havia dúvidas pequenas.
Já tinha aprendido a relativizar as coisas.
Completamente, a aceitar as coisas, a relativizar e a perceber que há um bom em cada pessoa, há uma parte boa em cada pessoa, e ele sabia extrair essa parte toda e ensinou-nos a extrair a nossa melhor parte.
Isso é muito importante.
É maravilhoso. É um ensinamento extraordinário.
Nem toda a gente tem essa sorte.
Nem toda a gente tem. E eu tive muito essa sorte e sou muito grata por isso, e é por isso também que lhe agradeço. É a minha estrelinha.
Costumas dizer que és grata, porém, inconformada.
Completamente. Sou muito grata.
Otimista, mas atenta.
Também.
Porque não és uma pessoa que, está tudo bem.
Está tudo bem.
No challenge.
Não, isso não.
És atenta às coisas. Aliás, és jornalista, e jornalista conceitual.
Exatamente. Sou jornalista, começo o meu dia muito cedo e sou obrigada a estar atenta às coisas muito cedo. Sou muito desperta para tudo. E eu sou uma pessoa prática, simples, muito básica na parte funcional da vida. Mas não sou conformada, porque eu quero sempre mais, quero sempre aprender mais, quero sempre fazer mais, quero sempre conhecer mais, falar mais com as pessoas, ouvi-las mais. Essa é uma parte fundamental que às vezes potenciamos tão pouco hoje em dia: ouvir. Eu gosto muito de ouvir. Falo muito, mas adoro ouvir.
Outra coisa que hoje em dia também é-
Muito raro. E o sentido de ser inconformada vai por aí. Porque eu quero sempre mais. Claro que sim. Então se eu estou aqui, se tenho todos os meus sentidos, graças a Deus, ao meu dispor, então vamos aproveitá-los. E vamos fazer coisas.
Estavas a falar do ouvir, lembro-me também de uma vez que foi numa viagem de metro, com uma senhora, uma idosa, que sentou ao meu lado e começou a contar coisas, a contar: "E minha filha, e minha neta", e eu só fazia que sim com a cabeça. E acaba esta coisa de quarto d'hora, 20 minutos, ela tem que sair, diz: "Muito obrigado, não calcula o que me ajudou". Eu acho que não lhe disse nada, nem uma palavra, nem bom dia.
Mas ouvir é muito importante.
Estava a ouvir e fazia que sim. E, por acaso, eu gosto de ouvir histórias, portanto a gostar, umas mais dramáticas que outras.
Claro.
Mas a ajuda foi só ouvir.
Sentiu-se.
Exatamente, incrível.
Não sentes que aprendes sempre qualquer coisa com essas histórias?
Claro que sim.
Há sempre uma mensagem, há sempre um propósito para ouvires essas histórias.
É, e os próprios professores dizem muitas vezes: "Eu aprendo com os meus alunos o que os professores não têm no plano."
Sem dúvida.
Porque elas vêm, cada um é um caso, uma vida, uma coisa. Tu vais também dar aulas, eu sei.
Sem dúvida, aprendo imenso com os meus. É do que eu mais gosto, é de lançar um tema e deixá-los conversar e ouvir.
As duas já se conheciam antes? Como é que se cruzaram para fazer este livro a meias? Eu gosto de dizer a duas mãos, porque, no fundo, não gosto de dizer a quatro mãos, porque só se forem canhotas e ambidestras. Escreveram isto a meias, mas já se conheciam antes?
Sim, nós já nos conhecíamos.
Já se tinham cruzado nalgum projeto ou ainda não?
Já nos conhecíamos na televisão, numa vez que eu fui apresentar um dos meus livros. E conhecemo-nos também, posteriormente, através de uma amiga comum.
Muito bem. Então este "Sucesso Emocional" é um livro que é recentíssimo, é de agora, de janeiro de 2020, portanto uma edição Chá das Cinco, que é uma das chancelas da Saída de Emergência, onde diz também na capa que 24 personalidades revelam como gerem as emoções e têm autoconfiança. São 12 homens e 12 mulheres, 12 famosos, 24 famosos, digamos, onde vocês questionam isto: sabia que sucesso e emoções andam de mãos dadas? E a pergunta primeira é: como é que nasceu a ideia para escreverem isto e como é que se cruzaram as duas com este projeto? Foi da própria editora ou partiu de vós?
A ideia é minha. Tive há cerca de três anos e meio, sensivelmente. Trabalhei-a e houve um dia em que estávamos num jantar com um amigo em comum e em que me lembrei exatamente desta mesma ideia e em que convidei a Patrícia para escrever este livro comigo. E nessa mesma noite começamos a conversar sobre que pessoas é que iríamos entrevistar das mais variadas áreas.
Porque há jornalistas, há desportistas, há animadores.
De todas as áreas.
CEO de empresas grandes.
Exatamente. Da área da música, temos o Tony Carreira, por exemplo, a Máxima Lopes, a Simone, o Ricardo Araújo Pereira, o Santana Lopes, da área da política. A Justa Nobre, por exemplo, e o Chacal, da área da culinária.
Culinária, sim. É muito variado.
É muito diversificado. E a minha ideia era exatamente explorar e aprofundar o que estas pessoas, que alcançaram algum sucesso, senão muito, alguns deles sucesso a nível de conquistas na vida e que têm alguma exposição pública, que são consideradas personalidades de referência. Como é que elas pensavam? Em que é que acreditavam? Como é que decidiam? O que é que sentiam? E era exatamente esta a minha ideia, era aprofundar em que é que elas acreditavam para conseguirem-
Qual era a astronomia delas, no fundo.
Exatamente, para conseguirem terem chegado. E realmente, a nível emocional, depois a forma como elas gerem as suas emoções, a inteligência emocional que elas têm, permitiu-lhes alcançar esse mesmo sucesso que têm e que está muito alicerçado no sucesso emocional. Não só na inteligência emocional, que é um conceito ainda um pouco desconhecido, que significa saber gerir as suas emoções, saber gerir as dos outros, saber mediar conflitos, gerir conflitos, ser empático, colocar-nos no lugar do outro, sentirmos as necessidades do outro também. Sabermos comunicar, sabermos ouvir, que foi exatamente o que nós estivemos agora aqui a conversar. Sabermos exatamente não fazermos juízos de valor precipitados.
Não julgar.
Não julgar, tudo isso faz parte da inteligência emocional. Mas sucesso emocional É muito mais do que isso.
Pois. E focaliza essa diferença.
Exatamente. E eu pensei este conceito no sentido de muito mais além do que a inteligência emocional. Digamos que a inteligência emocional é o horizonte, o sucesso emocional ultrapassa esse horizonte e significa descobrirmos com essa inteligência emocional, também descobrirmos as nossas capacidades, as nossas competências, os nossos recursos, o nosso potencial, porque todos nós temos um potencial incrível dentro de nós, só que muitas vezes está subaproveitado. E além de subaproveitado, sabotamos muitas vezes, autossabotamos constantemente.
É isso. É o conceito que está no vosso livro, que eu achei a piada e fala isso também. E essa questão de descobrir também os nossos talentos é muito importante.
E os nossos dons.
Os nossos dons, as nossas qualidades.
Ir atrás dos nossos sonhos. E muitas vezes dizemos: "Não consigo, não sou capaz. Isto é muito difícil para mim".
Vezes demais.
Exatamente, vezes demais. Mas nós somos aquilo que pensamos muitas vezes. Conseguimos aquilo que pensamos. Se nós pensarmos que não conseguimos, então não vamos mesmo conseguir, ou que não somos capazes, não vamos conseguir.
Voltamos à conversa com as nossas convidadas extra de hoje, Margarida Vieites e Patrícia Matos, a propósito de "Sucesso Emocional", desta obra que elas editaram em janeiro deste ano. Estamos a falar de exatamente como é que selecionaram estes testemunhos destes 24 famosos, destas 24 personalidades que escolheram. Eu tenho ideia que as entrevistas ficaram a cargo da Patrícia, não?
Ficaram a cargo das duas. Eu explorei algumas partes e a Margarida depois explorou as partes que tinham mais que ver com emoções. Acabamos por fazer participações na parte uma da outra, porque uma entrevista é uma conversa, não é? E quando estamos várias pessoas a fazer o mesmo trabalho, acabamos por pensar muito melhor do que se pensarmos de forma individual. O nós em função do eu, e isso é sempre muito mais vantajoso. E nesse aspecto, foi uma colaboração muito feliz, porque resultou exatamente naquilo que nós vemos neste livro. Foram 24 testemunhos. Nós tivemos essa preocupação de ter 12 homens e 12 mulheres, essa paridade. Foram escolhidos porque, exatamente como a Margarida já disse, queríamos várias áreas da sociedade, porque o sucesso emocional é manifestado de forma diferente em qualquer situação da vida.
É transversal.
E difere de homens para mulheres. Nós somos nós e as nossas circunstâncias, e elas fazem toda a diferença. E só isso vai ditar exatamente o que a pessoa é. E depois nós fizemos entrevistas gravadas, portanto, em clipes de áudio. Partilhamos esse clipe de áudio, a Margarida transcreveu o dela, eu transcrevi o meu, e trabalhamos de forma separada, individual, sem qualquer tipo de influência, sem qualquer tipo de associação ao trabalho uma da outra. Nós só conhecemos o trabalho uma da outra quando entregamos à editora. É, exatamente. É por isso que este trabalho foi completamente separado, e é por isso que há aspectos que eu toquei nas histórias que contei e há aspectos e frases que a Margarida ressalvou na análise que faz. Portanto, não são sempre coincidentes.
Pois.
E essa é a parte interessante deste aspecto. Nós somos pessoas radicalmente diferentes.
Exatamente, é mais rico.
E é essa a diferença que faz, de facto, funcionar. De resto, tivemos imensa sorte, porque tivemos uma disponibilidade imensa de todas estas pessoas para conversar conosco.
Alguns, com certeza, dificílimos de apanhar.
Alguns são bastante difíceis.
Vocês chegaram a entrevistar o Quaresma na casa de banho de uma tasca em Alfama.
Em Alfama. Não imaginas. Ele vinha cá e a família tinha, porque há uma relação de amizade entre eu e a família do Quaresma, e então ele tinha me desafiado para ir jantar, fazer uma noite de fados. E eu disse: "Olha, extraordinário, é uma excelente altura para fazer esta entrevista. O que é que tu achas?" Ele disse: "Fantástico, traz a Margarida, fazemos lá a entrevista". Bem, não imaginas, porque a tasca de Alfama era pequenina, estava cheia com a família e mais um ou dois turistas e com os fados.
E fãs lá fora, não?
Uma centena. E então, chegou a altura de fazermos a entrevista e nós olhámos e eu disse: "Olha, vamos fazer a entrevista?" E ele disse: "Vamos". E eu disse: "Mas onde é que vamos fazer a entrevista agora? Lá fora não vai dar, aqui dentro é completamente impossível, porque não há gravador que sobreviva a este barulho".
Exatamente, ao ruído.
Só estou a ver uma alternativa, vamos pra casa de banho. E ele olhou pra mim e disse: "Está bem, vamos pra casa de banho". E então, em um metro, dois metros quadrados, no máximo, quatro pessoas, nós duas, ele e uma pessoa que na altura era responsável pelas redes sociais dele, a gravar e a garantir que, de facto, ficava registrado aquele momento, porque foi absolutamente hilariante. Mas só demonstra, pra já, esta capacidade de improviso e de adaptação às circunstâncias. E depois, a tremenda humildade que eu já conhecia e que tenho pena que às vezes as pessoas quando olham pras outras pessoas que fazem parte muito da nossa vida, ou porque são figuras públicas, ou porque aparecem na televisão, estão conosco há muitos anos. Às vezes, não há uma ideia certa daquilo que elas são.
Há logo um preconceito.
Exatamente, e há uma ideia muito errada. E em relação ao Quaresma, concretamente, ele aborda isso na nossa história também, porque ele tem consciência disso. A proteção que às vezes nós usamos é muitas vezes mal entendida pelos outros. Ou é conotada como arrogância ou como distanciamento, mas a proteção é só uma proteção, é só aquela forma que a pessoa encontrou para conseguir lidar com tudo que lhe está a acontecer.
Não deve ser fácil, às vezes.
Não é nada fácil. E foi de uma profunda humildade e temos estado em contato, e ele já leu e sei que custou imenso.
É uma opção dele também. E este livro é bom por causa disso também, dá um outro lado dessas pessoas, todos estes famosos com quem vocês contactaram mais de perto, que é importante as pessoas perceberem isso, que nem sempre é aquele lado mais glamoroso, que vem nas revistas, e os escândalos que vêm nas capas das revistas.
Que existe uma idealização.
É, exato. Claro.
Ó João Paulo, deixa-me só agora tentar aqui dar a estrutura do livro, porque isto é importante para os nossos ouvintes.
O esquema como ele está feito.
O livro está dividido, realmente tem 24 histórias. A Patrícia transcreveu as entrevistas das 24 personalidades e fez uma reportagem de todas essas entrevistas.
Começa com isso.
Começa com isso. E o que eu fiz? Eu transcrevi as entrevistas e tirei as Afirmações mais emblemáticas, com maior impacto relativamente às emoções, à forma como gerem as emoções, à tristeza, o que eles fazem quando estão tristes, quando se sentem angustiados, frustrados, quando sentem vergonha, quando sentem medo e culpa. Falamos de tudo isto. Frases mais emblemáticas. Eu faço uma análise dessas mesmas afirmações, depois faço reflexões sobre como gerir as emoções, o que fazer quando se sente triste ou muito ansioso. E depois ainda temos os grandes desafios que eu lancei às pessoas neste sentido, não só de dar conselhos, mas sobretudo de lançar desafios e exercícios. O livro está cheio de exercícios que as pessoas podem fazer, podem pegar em folhas em branco, numa caneta e escrever.
É engraçado, porque abrange um leque incrível.
Exatamente, um leque incrível, tem uma abrangência de temáticas. E não falamos só sobre emoções. Eu não dou só conselhos sobre emoções. Fala sobre amor, fala sobre relações, fala sobre fé.
Espiritualidade.
Sobre espiritualidade. Fala-se sobre esperança, sobre acreditar em si próprio, sobre ter autoconfiança.
Isso é um tema muito importante, Maria, que passa muito neste livro, esta questão da autoconfiança, aliás, está na capa também. A questão de a pessoa acreditar em si própria. Estou-me a lembrar, por exemplo, do testemunho da Fátima Lopes. A questão de acreditar em si próprio, que é importante.
Exatamente, ela diz: "Eu já me..."
Muita gente anula-se só por causa dos outros e às vezes isso pode ser, ou às vezes em função dos filhos, isso pode ser mau, quer dizer, a pessoa tem que acreditar em si, tem que se valorizar também, tem que cuidar de si.
Validar a si própria, não procurar a validação nos outros, naquilo que os outros pensam ou dizem ou têm, não comparar a sua vida e a si próprio com as outras pessoas, mas validar-se por si próprio, encontrar-se a si próprio, é também um grande percurso em termos de autoconhecimento, este livro. Permite às pessoas, através de determinados exercícios, perceberem onde estão, quem são e para onde querem ir. Esta é a grande pergunta.
É muito giro porque nós, sem saber, é outra frase que eu tirei do vosso livro, que eu adorei, já falaste isso há bocado, nós sem saber podemos estar a autosabotarmo-nos constantemente. E isso acontece.
Quando nos identificamos.
Se tu pensas um bocadinho nisso, conheces pessoas que fazem isso.
Constantemente.
Como é que é possível? Pessoas que têm um potencial ou a não conhecer ou não explotou o nosso talento, a nossa qualidade, se calhar vai nos dar a volta. Isso é muito giro. Depois tem caso, o Garcez, piloto, que morreu lhe um filho, como é que estava a trabalhar uns dias depois. Tem assim uns casos do fundo do poço, que é incrível.
São histórias de vida muito inspiradoras.
E todos muito diferentes também.
Completamente diferentes.
Os problemas que a pessoa ajusta a nós, por exemplo, terríveis.
E que revelam uma força incrível interior, resiliência fantástica. Uma resiliência, sempre uma persistência e um acreditar. E também temos a Neide Gomes, por exemplo, a atleta, em que ela visualizava os saltos que ia dar antecipadamente. Lembro-me que ela dizia: "Eu vou no carro e vou ver tudo aquilo que vai acontecer e a forma como eu vou fazer". Quando ela chegava lá, ela já sabia o que ia fazer. Portanto, já não era o desconhecido. Agora, nós, todos nós, é esta a grande mensagem deste livro e todas estas personalidades nos inspiram com as suas histórias no sentido de todos nós termos capacidades incríveis dentro de nós. Agora temos que as descobrir e temos que as explorar e temos que acreditar. Deixar todos esses pensamentos autossabotadores de lado.
Se calhar deixar os maus hábitos de lado.
Exatamente. Deixar também pensamentos do passado, experiências difíceis. O passado serve para aprender, são aprendizagens, não serve para mais nada. E sobretudo acreditar que vai ser possível. Nos Estados Unidos, uma pessoa que erra várias vezes, que passa por frustrações várias para conseguir atingir algum objetivo, é considerado um quase herói. Em Portugal, a mentalidade é um bocadinho diferente, não é? É o falhado ou qualquer coisa.
O problema não é cair, o problema é não se levantar.
Exatamente.
Esse é que é o grande desafio.
Claro. Acreditar em si.
Espero que haja um--
E estas pessoas caíram sete vezes e levantaram-se oito. Há pouco falavam da Neide Gomes. A Neide perseguia uma medalha olímpica toda a vida e não a conseguiu alcançar, mas não desistiu.
Tem aquele sonho e continua.
Não desistiu.
Que é um motor maravilhoso.
E hoje é fisioterapeuta, trata atletas e não os deixa desistir. E podia ter corrido mal, podia ter sido ao contrário. Percebes? E ela teve essa capacidade de usar as fraquezas e fazer delas forças. E teve essa capacidade para depois dar o exemplo aos outros. E eu acho que isso é muito bonito e revela uma grande força.
Tenho que fazer uma pergunta: deste selecionar estas pessoas, ficaram alguns de fora?
Ficaram muitas pessoas.
Portanto, podemos esperar um Sucesso Emocional 2 e assim, ou não? Ou ainda não tem material suficiente?
Olhe, João Paulo, neste momento eu tenho muitos compromissos, mesmo.
Para já não.
Neste momento estamos a apresentar este Sucesso Emocional.
Dizia o Dan Brown: "Então o próximo livro, não pergunte se acabei de ter um filho".
Claro, exatamente.
Mas não é nada que esteja fora de questão um dia arranjarem outros famosos. É porque eu acho que são exemplos.
Sim, eu já escrevi sete. Portanto, penso que vou continuar a escrever.
E perguntar outra coisa. Patrícia, quem é que destes 24, que surpresas, quem é que te surpreendeu mais?
Olha, eu acho que todos surpreenderam um bocadinho.
Eu sei que são todos maravilhosos, mas assim: "há um que eu não fazia ideia nenhuma".
Sim, eu vou dizer-te. Nós tivemos imensa sorte, porque o objetivo aqui também era mostrar às pessoas um bocadinho daquilo que elas ainda não sabiam, porque se olhares para esta capa e se olhares para estes nomes, tu vais achar: estas pessoas já não têm nada para me contar. E não é verdade. Estas pessoas têm coisas novas para nos contar. Vou dizer-te que A história maravilhosa da Simone de Oliveira deixa-nos sempre absolutamente encantados. Quase que não é preciso fazer perguntas à Simone. Ela fala, ela canta, ela recebe em casa num domingo à tarde.
E já lutou com coisas muito graves.
Absolutamente inacreditáveis. E é um exemplo extraordinário. Vou dizer que muitas vezes pausei algumas entrevistas, porque, de facto, havia um nó na garganta. Pelo exemplo que a pessoa dá, vou dizer que surpreendeu-me muito, porque era uma pessoa que eu conhecia da vida pública, mas não conhecia a nível pessoal, o Paulo Batista, que é alfaiate e tem uma história de resiliência absolutamente inacreditável. Mas a diferença entre a história de resiliência-
Não podemos revelar tudo.
Não vamos revelar tudo. É que o Paulo passou imensa coisa. Voltou também como a Naida, fazer das fraquezas forças, mas não se fez coitadinho. E é essa a diferença, é que a pessoa não se faz de vítima. Para quê?
Cá está, isso é mesmo uma questão de inteligência emocional, de saber gerir.
Ao Paulo, o Paulo cresceu num bairro social e cresceu a maior parte do tempo sozinho, sem a mãe. E ao Paulo disseram: "Tu aos 18 anos estás preso. Aos 18 anos vais preso". Ao Ricardo Quaresma, passou um Ferrari e ele disse: "Um dia vou ter um carro daqueles". E disseram: "Tu, um carro daqueles? Tu nem para comer tens. Alguma vez vais ter um carro daqueles?"
E ele vinha de realmente uma família humilde, de um lugar humilde.
Claro que sim.
Um cigano e tudo.
E eram amigos. Eu cheguei a este ponto porque eles eram amigos, percebes? E cresceram juntos. Parte da vida cresceram juntos. E agora encontram-se e partilham essas histórias e percebem exatamente de onde é que vêm. Mas também tão importante quanto isso, é que eles não têm medo de onde vieram, porque não têm memória curta.
Exato.
E sabem perfeitamente o que é que isso fez por eles. E eu acho que todas as histórias aqui, nós tivemos pessoas, naturalmente, com uma vida mais facilitada do que outras, e está tudo bem, e não há qualquer problema nisso. Nós não potenciamos uns ou potenciamos outros, nada disso. Eu contei a história de cada um, da forma rigorosa, segundo regras de jornalismo, que eu aplico todos os dias, e foi isso exatamente que eu fiz. O Ricardo Araújo Pereira, estou a olhar agora aqui para cá, porque estou a lembrar-me dele.
Tem aquele pânico da ansiedade.
Exato. Quem olha para o Ricardo Araújo Pereira, quem o conhece já há um bocadinho, já percebe o que está ali.
Sim, a peça.
Mas quem olha para o Ricardo Araújo Pereira pensa que às vezes é aquela expressão do: "Vou só ali dar uma volta e saem-me já 20 páginas de texto". E não tem nada a ver com isso. Ele assume que tem muito trabalho, que à segunda-feira faz o compromisso, está lá, terça senta-se a escrever para este sítio, à quarta para a Folha de São Paulo, à quinta para a Visão. Portanto, é tudo absolutamente segmentado.
Se ele quisesse uma vida segura, ficava nos nove letras, como ele diz.
Exatamente, percebes? Portanto, ele também arriscou.
Depois também têm aqueles truques, eles revelam muito isso, que é engraçado. Quais são as estrelinhas dele. Depois ele contrai com o seu charuto.
E com o boxe, passem objetos inanimados.
A pessoa tem que encontrar também os seus-
Mecanismos de compensação.
Sim. Sanoviar é absolutamente essencial.
Quem me surpreendeu muito foi o Pedro Santana Lopes, pela sua fé grandiosa.
Que ainda por cima foram ter com ele e ele tinha esquecido a entrevista.
Exatamente.
Estava na sede de campanha, na Avenida da República, e esqueceu-se que vocês iam.
Mas foi uma entrevista fabulosa.
João Paulo, muito lindo.
Em que ele nos revela a sua fé grandiosa, em que nos fala sobre Sá Carneiro.
Que era a paixão da carreira toda dele.
Exato, que era a grande inspiração dele.
Que o acompanhava, morava, aliás, ao lado e, portanto, ia no carro com ele, conversava com ele. Deve ter sido uma influência extraordinária para quem ele é vidrado naquele-
Claro, sim. Exatamente. E que nos revela que quando tem alguma dificuldade, conversa com Deus e pede ajuda.
Outra coisa que encontraram nestas vidas.
É algo que nós não conhecíamos do Santana Lopes, que não é vulgar, e que é muito partilhada pela maioria, não todos, mas pela maioria destes entrevistados.
Encontraram também, no meio de todos estes famosos, agora estava a pensar que provavelmente o Sá Carneiro é o avô Henrique do Santana.
Provavelmente.
Encontraram também a fé e crenças. Se calhar, não necessariamente todos católicos, alguns se calhar ateus, mas também havia essa questão e muitos deles falam nisso, nessa bengala. No fundo, é um apoio, é uma bengala para quem tem essa fé, nós temos, mas quem não tem, como é que vocês encontraram que havia mais dificuldade em arranjar esse equilíbrio? Porque isso pode ser uma ajuda, não é?
Sim.
Nós temos quatro minutos.
Sem dúvida. A minha perspectiva de fé não significa que seja aderente a uma determinada crença religiosa. Nós podemos ter uma fé e uma espiritualidade imensas, trabalhadas todos os dias, sem sermos católicos ou sem sermos pertencentes a alguma crença. Ou sem praticarmos essa crença. Ter fé significa, e todos eles, na minha perspectiva, têm essa fé, significa que confiamos que vai acontecer aquilo em que nós acreditamos. Que isso vai suceder, que isso será possível. Lá está, tem a ver com o acreditar que sucederá. Fé é isto. Espiritualidade. Eu estou me a lembrar, por exemplo, do Manuel Luís Goucha, que me dizia na entrevista que fizemos há poucos dias na TVI, em que ele me dizia: "Ó Margarida". Eu dizia: "Manuel Luís, tem uma espiritualidade incrível". E ele dizia: "Margarida, mas eu acho que eu não tenho essa espiritualidade". E eu disse-lhe: "Então como é que consegue ver a beleza?"
Eu já lhe disse isso várias vezes.
Ele é uma pessoa que tem uma espiritualidade incrível, porque ele consegue ver a beleza, ele vai para um concerto de música, em Viena, frequentemente, porque tem essa espiritualidade incrível. E isso é muito comum, quase todas as pessoas que estão presentes neste livro. E foi isso Segundo aquilo que me é dado perceber e que eu creio que foi isso que as fez alcançar este sucesso emocional.
Também foi muito importante porque eles gerem, vocês também falam disso, gerem a sua reserva de intimidade. Perguntaram-lhes e depois tu comentas isso, Margarida, como é que eles gerem também a crítica, o perdão, que é muito importante e é muito complicado isto em vidas tão expostas.
A ingratidão, por exemplo.
Ingratidão, que não é fácil. Há coisas que eu sou otimista, mas se me fazem uma crítica, há pessoas que podem reagir mal em certas áreas. E vocês conseguem fazer uma coisa inteligente, que é repartir um pouquinho essas emoções e dizer como é que elas reagem e contam as histórias relativas, às vezes, conseguem tirar a parte que fala da questão da gratidão ou da questão da intimidade. Que é muito importante isso, sem essa reserva é difícil de aguentar, como a Patrícia também sabe. E isso é engraçado porque-
É engraçado que relativamente à ingratidão, por exemplo, e deslealdade, todos eles disseram que tinham grande dificuldade em lidar, quer com um aspecto, quer com outro. Eu lembro do Jorge Gabriel, lembro da entrevista dele, em que ele me dizia: "Margarida, a ingratidão é das emoções que eu tenho mais dificuldade em aceitar. E a deslealdade por parte dos amigos, das pessoas que o rodeiam".
A pessoa traz suas coisas. O pé do sapato.
E por que, eventualmente, os nossos ouvintes estão a pensar: "Mas por que será que a ingratidão é tão difícil de gerir e de aceitar?" É porque além de nos zangarmos com os outros, implica uma zanga conosco próprios e sentirmos culpados por decisões que nós tomamos, que eventualmente consideramos que agora, no presente, não as devíamos ter tomado. Mas tudo isso é uma grande aprendizagem pra todos nós. E o perdão tem que estar também aqui, porque nós temos que saber perdoar.
E a nós próprios em primeiro lugar, muitas vezes.
Exatamente. E começa pelo perdão a nós próprios.
Fica aqui esta dica. Infelizmente nós já não temos tempo para mais. Quero agradecer às duas, à Margarida e à Patrícia. Foi ótimo tê-las aqui.
Foi ótimo rever-te, obrigada.
Muito obrigado. Fica aqui esta dica deste livro, "Sucesso Emocional: 24 personalidades revelam como gerem as emoções e têm autoconfiança", de Margarida Vieites e Patrícia Matos, das Sá das 5, desta chancela da Saída de Emergência. Obrigado por terem partilhado essas vossas ideias e de tantos famosos sobre esta questão do sucesso emocional.
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