Não era sempre que se faziam queijadinhas lá em casa, talvez porque dessem algum trabalho, mas a verdade é que apareciam quando havia qualquer coisa de especial. Podia ser Natal, uma ocasião importante… ou simplesmente vontade de mimar.

As queijadinhas eram feitas com calma e demoravam muito tempo a ficarem prontas. Era preciso untar as formas, levá-las ao forno em banho-maria, esperar que cozessem, desenformar, voltar a untar e repetir o processo enquanto as outras arrefeciam e eram guardadas numa grande tupperware branca.

Lembro-me bem da cozinha da casa da minha avó, da mesa redonda que, na memória que hoje me habita, era branca, e de estar ajoelhada em cima da cadeira à espera de mais uma fornada. Em cima da banca, uma bacia com ovos inteiros e outra só com cascas. O pacote de açucar, o leite Mimosa, o fervedor e o coador. Lembro-me da concha de sopa que ia enchendo as formas untadas com um leite que, naquele momento, se transformava em qualquer coisa doce, com sabor a limão.

É curioso perceber que a minha memória daquele tempo é feita de lentidão. Precisamente essa lentidão que hoje tantas vezes perdemos, porque andamos sempre a correr. E é ainda mais curioso perceber como, de uma simples queijadinha, podem nascer tantas memórias de cuidado, de pertença e de nos sentirmos especiais. No estudo “Os Portugueses e os Seus Afetos: Será Que Nos Entendemos?”, promovido pela Mimosa, 58% dos portugueses dizem que preparar uma refeição com alguém é um momento de verdadeira ligação. E 33% dizem que conseguem expressar, através de um alimento especial, sentimentos que nem sempre conseguem pôr em palavras. Por isso, quando li estes dados, voltei àquela mesa branca da cozinha de casa da minha avó…

E, neste 16 de outubro, Dia Mundial da Alimentação, vale a pena lembrar que alimentar é, antes de mais, uma necessidade e um direito. Mas, dentro de uma família, a alimentação pode ser também uma forma de cuidar, de criar relação e de transmitir uma história.

Confesso que não me lembro da última vez que fiz queijadinhas, mas lembro-me bem das melhores que fiz: foi durante a minha primeira gravidez.

A nossa mesa já não é redonda, mas continua a ser à mesa, seja qual for a forma, que contamos estas histórias e garantimos que alguma coisa da memória da nossa família passa de uma geração para a outra.

Por isso, pergunto-te: há quanto tempo não fazes um lanche à mesa e trazes o bolo, o iogurte de ananás (o meu favorito quando era miúda!), o pão com queijo e a manteiga? Sentarmo-nos juntos, fazermos migalhas, conversarmos sem pressa e, sem darmos por isso, é também assim que construímos memórias: uns com os outros e à mesa.