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E curiosamente, quando nós conseguimos intensificar a preguiça na nossa vida, nós também aumentamos muito o espaço para a criação.

É já amanhã, dia 3, que arranca uma nova bienal, a Bienal Arte e Ciência de Odemira, uma nova plataforma internacional de criação, experimentação e pensamento contemporâneo ligada ao território, às comunidades e à diversidade cultural e ecológica da região. Com curadoria de Hugo Cruz, artista, curador, programador cultural, professor, psicólogo comunitário e investigador. A iniciativa pretende afirmar Odemira como um espaço de encontro entre arte, ciência, ambiente, educação e participação cidadã, através de um programa que cruza residências artísticas, espetáculos, instalações e obras em espaço público, conversas, caminhadas e oficinas. Vai durar este fim de semana prolongado, sábado, domingo e feriado, e vamos saber mais do que esperar já nesta edição zero com o Hugo Cruz. Ele é uma voz incontornável no cruzamento entre arte e comunidade, focado na criação artística em espaços públicos e com as diferentes comunidades. É o tal homem que acredita que a democracia precisa de cultura e a cultura precisa de democracia. Olá, Hugo. Em direto de Odemira. Muito obrigado, bem-hajam por terem aceitado este meu convite. Bem-vindo de volta à Rádio Observador.

É um prazer muito grande.

Muito obrigado.

Tenho pena de não estar aí pessoalmente contigo, mas estamos à conversa.

Já estás no terreno, claro. Depois eu estive a me lembrar, tu vieste há sete anos, uma vez ao programa "K4", de boa memória. Voltaste há cinco para falar do Festival Mesh, este encontro internacional de arte e comunidade no Porto, de que eras diretor artístico. E no ano passado vieste falar do Desejar, este movimento de artes e lugares comuns que estava inserido no Braga 25, Capital Portuguesa da Cultura. Exatamente.

Que memória excelente.

Agora regresas como curador desta nova bienal. Eu vou falar um bocadinho sobre ti, não só porque te admiro muito e o que tu fazes, como acho que percebendo um bocado as coisas que tens feito e a tua formação, as pessoas ficam a perceber o que esperar deste festival. É mesmo assim, desta bienal que aí vem. E a primeira coisa que tu gostas que te definam é artista, porque tu és um artista, além de professor, investigador, programador, tu tens várias camadas, mas artista, muito ligado ao teatro, é sobretudo aquilo que te define, dirias tu?

Sem dúvida. Eu estou impressionado com a pesquisa e com a preparação. É de tirar o chapéu.

Obrigado.

É um profissional a sério. Muito obrigado. Embora eu acho que há aí algumas coisas claramente exageradas, na minha opinião, mas não deixo de agradecer. E sim, vamos começar por essa base. Eu acho que realmente o trabalho artístico, definir-me enquanto artista, enquanto criador, que na verdade é até uma definição mais abrangente, eu diria que é a base de todo o trabalho que eu faço. Durante muito tempo, e também porque socialmente nos pedem para nós nos definirmos apenas com uma etiqueta ou uma função na sociedade, reduzindo muito do que é a nossa potência enquanto seres humanos. Dizia eu que durante muito tempo foi uma preocupação eu dizer que era uma coisa ou era outra, até ir descobrindo que em vez do "ou", o "e" é alguma coisa que vai acrescentando.

Exato.

E que nos vai respeitando mais enquanto seres humanos na nossa multiplicidade, diversidade e também na nossa evolução. Nós esquecemos muitas vezes que não são só os contextos, as pessoas que estão à nossa volta que mudam, mas nós mudamos imenso ao longo da vida e às vezes até em períodos curtos, muito curtos. Portanto, em respeito a isso, que é estar vivo, e eu acho que é muito interessante a multiplicidade de coisas que nós nos podemos ir experimentando e nas diferentes dimensões. Mas sem dúvida, para mim, esta base, a forma como penso enquanto artista, como concretizo, como acredito em realidades que ainda não existem, como valorizo a criação de poéticas, como valorizo a capacidade de nos imaginarmos de outra forma, de nos reinventarmos e também da forma como podermos estar em coletivo, até porque eu aprendi a fazer arte e teatro em coletivo. Eu acho que sem dúvida nenhuma, essa é a base que me define. E a partir daí, eu quando penso uma programação cultural, quando faço uma curadoria, eu desenho esse programa cultural da mesma forma que penso e imagino um espetáculo, com conexões, com diálogos, de uma forma fluida, orgânica, e não como se fossem peças de puzzle totalmente separadas, às vezes para encher um programa que nós temos para seis dias. Há um sentido. Ainda há pouco estava ali com os colegas que vão estrear o "Tentemos", o espetáculo de fecho desta Bienal da Onda Amarela, e estávamos justamente a discutir como era o fecho do espetáculo e como isso transitava para o momento do programa que vinha a seguir. E portanto, essa dimensão de criação está também no trabalho que faço enquanto programador cultural, mas também no trabalho que faço enquanto professor ou enquanto investigador. O trabalho de investigação é um trabalho com imensas coisas em comum relativamente à criação artística e principalmente quando falamos de investigação na área artística, mas não só, que tem a ver com uma certa persistência, uma capacidade, de alguma forma, que nós temos que desenvolver, de escuta, de observação, de investigação, de sermos muito curiosos. A curiosidade é algo fundamental, de não desistirmos com o erro. Culpabilizarmos por as coisas não estarem a correr exatamente como nós imaginamos naquele processo investigativo a priori. Então, eu acho que é uma excelente base que me continua a definir bastante, embora a identidade de psicólogo, por exemplo, também está muito presente no trabalho que desenvolvo.

Engraçado, todo o teu treinamento, por exemplo, em Ciências da Educação, depois de ter estudado dramaturgia em Paris, também na Dinamarca, estudaste no Brasil também, toda esta abertura. Tu és uma pessoa muito curiosa neste aspecto, porque é uma das tuas cruzadas, eu sei, esta democratização da arte, esta abertura às comunidades. Tu ligas muito as coisas que tu fazes às pessoas que te rodeiam e às comunidades onde vais atuar, onde vão atuar os grupos que tu convidas. E trabalhas com muita gente que não está sequer ligada às artes, o que é muito curioso. E tu fazes sempre questão de lembrar a nossa Constituição, que promove o direito à fruição cultural e o acesso aos modos de produção. Isso quer dizer que toda a gente deve fazer arte. Não quer dizer que sejam todos artistas, mas fazer e promover é muito importante.

É. Por um lado, eu acho que nós vivemos um momento em que rejeitamos muito a complexidade daquilo que é a vida. E eu acho que essa é uma das grandes belezas da vida. Ou seja, se nós tentarmos simplificar isto e definir em procedimentos e tudo ser absolutamente previsível e sermos todos grandes especialistas em coisas específicas, que obviamente isso é muito relevante, mas se nós não tivermos uma visão mais global, mais macro, mais integrada das coisas, não dialogarmos com outras áreas do saber, nós vamos perdendo muita capacidade. E aliás, no outro dia estava a ler uma série de estudos que indicavam como o nosso cérebro está a começar cada vez mais a inibir e a desaprender uma série de competências que nós tínhamos há umas décadas atrás. E portanto, vale a pena estar atento a isso. E eu não quero diabolizar, nomeadamente, a forte evolução tecnológica que temos tido nos anos, a questão da inteligência artificial, dos redes, da internet. Não, isso está aí, nós vivemos com isso.

São ferramentas que podem ser úteis.

Trazem coisas fantásticas, mas nós temos que, acima de tudo, ter a capacidade crítica. Nós temos que ter o pensamento de olhar para estas ferramentas e perceber até que ponto é que elas são úteis e como serem úteis. E devemos questionar.

Como nos podem melhorar e acelerar processos, por exemplo, mas impedindo a desumanização crescente que se tem vindo a aumentar. Tu dizes uma coisa muito gira: "Para que serve a cultura?" É uma das tuas teses. E tu dizes: "Treinas para sermos curiosos e para produzir alternativas, para sabermos argumentar. O pensamento crítico isto é muito importante". E depois dizes uma coisa que é extraordinária, que é: "A cultura serve para entendermos o conflito, o confronto e a diferença de opinião, como coisas profundamente humanas e normais, e não fazer disso um bicho de sete cabeças". E como isso acontece muito hoje, os cancelamentos, estas culturas woken. Tu dizes isso, é importante. A cultura abre-nos os horizontes e fala mesmo com os que têm opinião diferente de nós e é muito importante, não devemos ter medo disso. Isso ajuda-nos a crescer. E não é fazer com que o outro concorde comigo, não é obrigar o outro a dar-me razão. Não, é coexistir sabendo que há diferenças. Obviamente, isso dá-nos riqueza, eu acho.

Exatamente. Eu acho que esse é um dos grandes desafios coletivos que nós temos, sem dúvida nenhuma. Mas voltando ainda um bocadinho atrás, porque tu disseste uma coisa que me parece muito importante sublinhar. Isso das pessoas estarem envolvidas nas próprias criações, de experimentarem arte nas suas vidas e a arte e a vida não estarem separadas como muitas vezes estão. E isso parece-me importante, como tu disseste, não é que necessariamente as pessoas vão ser todas artistas. Eu até costumo dizer a brincar: "E ainda bem", porque do ponto de vista da precariedade, não aconselho. Mas é porque enquanto estão a criar e enquanto estão a contactar com o saber fazer artístico, com o modo de produção do conhecimento, de se relacionarem com o mundo, isto são também aprendizagens que vão ter impactos noutros contextos da vida das pessoas, nomeadamente no seu desenvolvimento cognitivo, no seu desenvolvimento espiritual, no seu desenvolvimento emocional. E, portanto, a experiência estética na nossa vida e o tomar consciência dessa experiência e o procurar essa experiência, é algo que vai muito para além de nós sermos meros consumidores de cultura. Está muito para além disto. Estamos a falar do nosso desenvolvimento integrado enquanto seres humanos. E desse ponto de vista, eu acho que nós vivemos um momento que temos que aprofundar a presença da arte na nossa vida, porque ela nos ajuda, de alguma maneira, a entender que há outras formas de fazer as coisas. Que emocionalmente nos podemos relacionar de outra maneira, que nós podemos aceitar o erro, aquilo que não corre bem, como uma coisa iminentemente humana. Não é uma coisa que não seja humana, ela é profundamente humana. E eu costumo dar aquele exemplo, é como se nós estivéssemos aqui a ter uma discussão e eu dizia que este programa de rádio era X ou Y, e tu dizias-me: "Mas eu acho que este programa é H ou I". E, portanto, nós não estamos de acordo. Mas eu vou argumentando por que eu acho que este programa de rádio é isto e tu vais argumentando a tua opinião.

A minha versão, exato.

E muitas vezes o que acontece é que se nós desistimos rapidamente desta discussão, porque ela cansa, porque ela torna-se muitas vezes agressiva.

Porque percebemos que não vamos chegar a lado nenhum, se calhar, ou qualquer coisa.

Exatamente. Mas se nós tivermos abertura, e estivermos realmente de peito aberto a esta discussão, pode surgir uma terceira ideia e argumentação sobre este programa de rádio, que nem tu nem eu tínhamos apresentado. E eu acho que essa é a beleza da democracia.

Sim, também ninguém é dono da verdade total. Exatamente, é tão importante.

Exatamente.

E outra coisa, pressupõe, agora que estavas a falar nisso, de fato, eu gosto de te ouvir. E eu a pensar: "E para isso é importante também sabermos escutar". Escutar o outro, escutar os argumentos do outro. Entrever hoje não temos tempo pra isso, Hugo. Temos que fazer zapping, temos que concentrar nos ecrãs, não estamos a ouvir olhos nos olhos dos outros. E isso, por acaso, é uma coisa que tu no mestre, no desejar, nas coisas que tens feito, cultura pra todos, estou a pensar noutros festivais que tu fizeste, de facto, isso é muito importante. É da minha vista ou eu sinto que tens um carinho especial quando falas, por exemplo, há 14 anos do Imaginários, este festival internacional de teatro de rua que foi em Santa Maria da Feira. Tenho uma ideia que é algo que tu sempre que falas dele, falas com carinho duradouro. Marcou-te muito? Aliás, foi aí que começaste o teu trabalho de curadoria e programação.

Sem dúvida. Realmente aí eu já tinha tido experiências de programação cultural, mas não de uma forma tão consistente e tão aprofundada como no Imaginários e, portanto, falo com um carinho enorme. Primeiro, porque ele acontece em Santa Maria da Feira, que é um lugar onde eu aprendi muito, onde eu tive espaço para experimentar em contexto de políticas públicas locais, por isso muitas vezes quando ouço falar sempre negativamente da administração pública, não aceito isso como uma generalização abusiva.

Exatamente. É sempre perigoso.

Há muitas coisas que se fazem a partir do público extremamente interessantes e, portanto, pra mim foi um lugar de uma experiência extremamente rica, onde eu tive possibilidade de concretizar muitas coisas, onde trabalhei com gente muito inspiradora, com quem aprendi muito e, portanto, terei sempre um imenso carinho, nomeadamente por esse lugar onde acontece o festival.

Tu ainda costumas fazer ações, Hugo. Tu tens esta coisa que eu gosto da criação artística e participação cívica e política. Ainda fazes coisas em escolas, em prisões, em bairros sociais, IPSS, casas do povo. De vez em quando ainda fazes isso?

Infelizmente, não tanto como gostaria, mas ainda consigo fazer. E preciso muito de fazer e estou sempre a sublinhar que tem que ter espaço mais pra fazer, porque se eu perco esse contacto, então isto não faz sentido absolutamente nenhum.

Tenho percebido.

Esse contacto direto alimenta muito todo o trabalho de programação e o trabalho de investigação e o trabalho enquanto professor. Na verdade, não o faço com a intensidade que fazia há uns anos atrás, mas continuo a fazer. Por exemplo, tenho um projeto pelo qual tenho muito carinho neste momento, que se chama "Temos Nós Direito à Preguiça", que é um projeto que tem rodado.

Esta pesquisa sobre a preguiça que tens feito, é uma coisa que teria a ver agora com o ato de preguiçar. Agora vem Évora, Capital Europeia da Cultura, e o tema é vagar. Tu encaixa perfeitamente também nisso, por que não? Que tu dizes: "Atenção, isto é diferente da terrível apatia, aquela coisa do conformismo, não vale a pena". Não, não tem nada a ver. Tu faz questão de dizer isso.

Ou seja, neste projeto que nós trabalhamos é muito esta ideia de como nós temos perdido esta capacidade de simplesmente preguiçar. Nós já não sabemos como é que isso se faz, que é estar absolutamente desconectado e deixar que o nosso corpo possa, por ele próprio, encontrar o que é mais relevante pra ele naquele momento e respeitar-se de alguma forma. E curiosamente, quando nós conseguimos intensificar a preguiça na nossa vida, nós também aumentamos muito o espaço pra criação. Ou seja, é muitas vezes nesses espaços de preguiça que nós resolvemos uma série de coisas que não estamos a conseguir na lufa-lufa e na vida superpreenchida que temos.

No concurso, as quantidades de convidados que eu tenho tido, psiquiatras, psicólogos, neurocientistas, a dizer a importância do ócio como esse momento em que o cérebro realinha-se e inventa coisas novas e abre perspectivas, muito importante pra criação, pra criatividade.

Sem dúvida, pra criação, pra nossa vida, pro nosso bem-estar. E é alguma coisa pra qual o sistema em que vivemos tem condenado, de alguma maneira. Não deixa de ser muito interessante que nós olhemos pra preguiça como um pecado, como um dos grandes pecados. Por outro lado, a preguiça também não é muito interessante do ponto de vista de poder colocar em causa a nossa capacidade produtiva. Por outro lado, também cada vez mais se tem percebido, e as grandes multinacionais, por exemplo, promovem momentos de preguiça e de paragem no trabalho, justamente pra que as pessoas possam produzir mais. Há toda uma indústria pensada em torno da preguiça. A almofada pra dormir melhor, o perfume que nós vamos pôr ambiente no nosso quarto pra descansar melhor, o colchão X ou Y.

A vela.

Exatamente. Até o espaço da preguiça tem vindo a ser ocupado pelo um capitalismo selvagem e pela ideia de que nós temos que passar a nossa vida, pra nossa vida fazer sentido, nós temos que estar sempre a produzir de alguma forma.

Exatamente.

Sendo que se nós olharmos para os momentos mais felizes, mais marcantes da nossa vida, muitos deles, obviamente não estou a dizer todos, acontecem justamente quando nós tivemos disponibilidade.

Exatamente.

E pra nós termos disponibilidade para estarmos conectados conosco e com os outros, nós preguiçamos. Até me confundi, nós precisamos imenso desta preguiça. Por isso este projeto remete pra aí, justamente. É uma reaprendizagem.

Muitas descobertas científicas e tudo se fazem assim. Hugo Cruz, temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já.

Até já.

Estamos a conversar com o Hugo Cruz. Ele é artista, curador, programador cultural, professor, psicólogo comunitário e investigador. Vai agora ser o curador de uma nova bienal que inaugura já amanhã em Odemira, a Bienal Arte e Ciência, uma nova plataforma internacional de criação, experimentação e pensamento contemporâneo que é ligada ao território, às comunidades e à diversidade cultural e ecológica desta região. Muito bem, eu lembro também de tu falares uma dimensão tua sobre as práticas artísticas comunitárias, claro, a participação e política. Aliás, este livro das práticas artísticas, participação e política foi publicado aqui no Brasil, em Espanha, México, Colômbia, Argentina e Chile. Não sei se em mais algum, foi um trabalho de investigação que tu fizeste ao longo de quatro anos.

Agora já está também na versão inglesa, com uma editora inglesa.

Pronto, isso é muito importante saber e todo mundo está a beber da tua investigação, o que só lhes faz bem. E depois aqui temos este pequeno parêntese que tu fizeste com as "Crianças e Jovens em Risco: A Família no Centro da Intervenção". Este livro de que és coautor com o professor Daniel Sampaio e Maria João Aliot de Carvalho. Esta tua ideia da cultura fortalecer as democracias, agora estou a pensar também as extrações que houve na Brutéria o ano passado, isto é muito importante hoje em dia. Hugo, sentes isso? Porque de facto as democracias estão fragilizadas. Tu és uma pessoa otimista, eu sei, mas de facto, um valor que nós considerávamos adquirido, a democracia em geral, hoje em dia não pensamos que é tanto assim e há muitas ditaduras e há muitos loucos com poder e as coisas não estão fáceis para o lado da cultura e os cancelamentos e tudo o que tem acontecido.

Sim.

De facto, sentes que a cultura pode ajudar a democracia nisso e vice-versa?

É realmente um momento especial. Eu penso que a cultura pode e deve, e tem ainda muito potencial de dar o seu contributo para fortalecer as democracias que hoje em dia estão extremamente fragilizadas. E pode justamente porque, como dizemos há pouco, é um lugar de pensamento crítico, de ampliar a diversidade, de esbater e diminuir o espaço entre o nós e o eles, como se eles fossem tão diferentes de nós.

Exatamente.

Ou seja, é um espaço onde se reinventam outras formas de viver, de fazer as coisas. E, portanto, eu acho que a cultura dá o seu contributo, mas para dar o seu contributo, ela tem também que ser um espaço mais democrático. Por isso é que esta influência é uma influência em dois sentidos, não é só num sentido único. E, portanto, nós também precisamos de uma cultura que seja mais democrática. O que eu quero dizer com isto? Que seja uma cultura menos direcionada apenas para alguns, que seja uma cultura vertical, pouco acessível, em que só algumas pessoas é que de alguma forma podem ter relação com. E para isso, nós temos feito um caminho muito importante no nosso país, mas temos que continuar a fazer esse caminho. E ele é um caminho que está incompleto. E para isso nós temos que perceber que a cultura não é só um assunto dos artistas, não é só um assunto dos profissionais da cultura, assim como a saúde não é só um assunto dos profissionais de saúde. A educação não é só um assunto dos profissionais de educação.

Exatamente.

É um assunto dos alunos, é um assunto dos pais, é um assunto dos auxiliares da ação educativa.

Exatamente.

É um assunto muito mais amplo. E, portanto, esta ideia de que é importante também reivindicarmos a cultura como um direito fundamental da nossa vida, como alguma coisa que é necessária para que as pessoas se possam concretizar na sua existência. E aí eu acho que temos que insistir, que temos que continuar. Relativamente ao momento que vivemos de caos, de imensas transições em simultâneo.

Os populismos, os fundamentalismos. Exatamente.

Exatamente. São desafios políticos, são desafios ambientais, são desafios tecnológicos, são desafios geopolíticos.

De identidade.

Nós estamos realmente a viver um momento de grande efervescência.

É verdade.

Agora, nós temos que perceber também porque é que isto está a acontecer. E aí, realmente, eu tenho tendência para ser mais otimista. Eu acho que muitos dos movimentos claramente extremistas, castradores, se quisermos, surgem porque realmente nós nunca conseguimos tanto como agora estar a efetivar série de mudanças estruturais nas sociedades ocidentais e nomeadamente porque de alguma forma foi-se tentando, e eu acho que em alguns casos conseguindo, esbater algumas desigualdades. E eu acho que perante isto é que há uma reação extremada de rapidamente querer voltar à estrutura anterior de profunda desigualdade, de uma esmagadora maioria da população mundial continuar a ser pobre para uma ínfima parte de pessoas extremamente ricas. E, portanto, deste ponto de vista, eu acho que é porque se estava a conseguir este movimento, nomeadamente de extrema-direita, não acontece por acaso. Ele acontece em reação a tudo aquilo que se estava a conseguir mudar. E, portanto, acho que temos também que mudar aqui um pouco a narrativa e um pouco o mindset desse ponto de vista.

Muito bem.

E recuperar aqui a capacidade de voltarmos a esse caminho que estava a ser feito e que está a ser profundamente interrompido. Os grandes desafios que temos: nós estamos, como se costuma dizer, no olho do furacão. Nós estamos no momento da transição. Há uma transição histórica que nós agora não conseguimos definir, mas que obviamente daqui a umas décadas ou daqui a uns séculos, vai ser possível olhar e entender: "Que interessante, aqui houve esta mudança clara." E isso É alguma coisa que para o nosso tempo de vida individual, nós provavelmente não vamos conseguir ver, mas do qual nós estamos a fazer parte. E, portanto, estamos também convocados para nós próprios sermos agentes e atores dessa mudança que está a acontecer. E eu olho sempre para as mudanças como um lugar de grande desafio, e há coisas muito interessantes, muito incríveis acontecendo no mundo. As pessoas estão a se organizar de outra maneira, estão a conseguir, do ponto de vista das suas comunidades, dos seus bairros, das suas ruas, da sua relação com as instituições, estão a conseguir realmente fazer coisas muito interessantes, muito inspiradoras e que nos mostram que o mundo vai ser realmente outra coisa. Nós temos que dar mais visibilidade a estas diferenças.

Estes paradigmas estão a mudar muito. Já nada será como antes, as coisas estão a mudar muito. Temos então esta Bienal de Arte e Ciência de Odemira. Vai ser já este sábado, domingo e segunda, 3, 4 e 5 de outubro. Tenho que cortar, já isto: o que é que distingue esta Bienal de outros festivais, de outras bienais? O que é que vai trazer de novo esta Bienal de Arte e Ciência de Odemira? Resumindo.

Eu não sei se vai trazer de novo, sou sempre muito cauteloso desse ponto de vista. Eu acho que se nós conseguirmos reinventar aquilo que já foi feito, já é uma maravilha. Ser absolutamente novo, acho difícil, até por uma questão de respeito por todos aqueles que fizeram tanta coisa antes de nós e que nos permitem estar agora aqui.

Não substituem.

Claro.

Mas como é que tu seduzes as pessoas para irem? É imperdível. Venham, por favor, Odemira, vai valer a pena este fim de semana.

Eu acho que este fim de semana vai valer a pena, desde logo, porque é em Odemira. Este lugar é um lugar especial pela sua riqueza natural, pela sua riqueza cultural e portanto, desse ponto de vista, já é uma viagem ganha, ainda por cima num fim de semana prolongado. E depois, obviamente, também esta dimensão de cruzamento entre arte e ciência que a Bienal nos traz, mas também de cruzamento entre diferentes linguagens artísticas e, obviamente, esta dimensão participativa que nós estamos a tentar aprofundar também nesta edição zero.

É muito curioso, porque vai constar no fundo, já falámos disso, residências artísticas, caminhadas, conversas caminhadas, espetáculos, concertos, performances, instalações, oficinas. Vai acontecer em vários espaços de Odemira, claro, desde o Jardim Sousa Prado até à Casa do Povo, ao Cerro do Peguinho, à antiga abastecedora, terminal rodoviário, Biblioteca Municipal, Igreja da Misericórdia. Portanto, há muitos espaços que vão ser valorizados por esta Bienal passar lá. O tema é Tentemos. Isto é o nome também de um dos espetáculos que vai fazer parte. Tentemos. Por que este tema escolhido? Isto é por causa da experimentação, do imaginar realidades futuras? Por que foi escolhido este tema?

Justamente. Este tema remete para uma edição zero e nós levamos a sério uma edição zero. Uma edição zero é para experimentar, é para nós percebermos o que é que podemos fazer e ganharmos coragem para a edição um, melhorando essa edição um em 2028. E, portanto, eu acho que nós também não temos que ter medo de assumir que estamos a fazer uma coisa de raiz e que estamos a experimentar e a tentar, obviamente, dando o nosso melhor, mas a tentar dentro de uma série de circunstâncias. E realmente, ao vir este fim de semana, vai ser possível visitar espaços de Odemira que normalmente muitas vezes podem não estar acessíveis, como é o caso onde vai acontecer a bioinstalação Selva Coragem, desenvolvida pelo Teatro do Frio, que convida as moradoras e os moradores de Odemira a trazerem uma planta para construir esta instalação, mas enquanto cuidadores, não enquanto donos dessas plantas, e construírem em conjunto esta instalação. Eu esqueci também, há pouco, de sublinhar que vir a Odemira é também ter a possibilidade de usufruir desta Bienal de uma forma gratuita, sem ter que reservar bilhetes, sem ter que fazer nenhuma inscrição prévia, e isso é também alguma coisa que eu gostaria de sublinhar.

Realçar, exatamente. Isso é importante.

Exatamente. Vão também poder ter a possibilidade de assistir ao concerto do Adam Ben, que vai acontecer na roda viária de Odemira, um contrabaixista incrível que tem cruzado diferentes estilos musicais e que neste momento vive em Odemira, mas também escutarem a Gisela João no espetáculo de fecho, no Tentemos, que junta os coletivos musicais, os coros de Odemira, num espetáculo que fala sobre o que é ser, o que é permanecer neste lugar. É um encontro, é uma convocação das pessoas para ao pôr do sol pensarem o que é viver em coletivo e como será o dia de amanhã. Um espetáculo que envolve mais de 130 pessoas e que tem a direção artística da Onda Amarela. As conversas, vamos ter quatro conversas, duas delas conversas que são também caminhadas.

A esquina é o centro. Isso é muito curioso.

A esquina é o centro com o Luiz Rufino, que vem do Brasil, e com a Paula Cardoso, e que nos vão falar sobre esta possibilidade da esquina ser o lugar de encruzilhada, mas que temos que olhar para a encruzilhada não como uma coisa em que temos que escolher A ou B, mas muito mais numa lógica de abertura e de explorarmos todas as possibilidades das coisas. Ou então também a caminhada com o coletivo local Sopa de Artistas, que organiza o simpósio de escultura aqui em Odemira, e que nos vão guiar até à peça que vai ser inaugurada nesta Bienal, a peça do Carlos Noronha Feio, Em Laça o Ficar, e que vai ficar numa das fachadas da Biblioteca Municipal de Odemira. E depois uma programação também mais dirigida para as famílias e para os mais pequenos Com o artista espanhol Álvaro Vales, que nos traz dois projetos distintos. Por um lado, a abertura da Bienal vai estar entregue aos mais novos com o Party Lab, que é uma festa de abertura em que eles são convidados a criar música instrumental e também projeções. E a Música das Esferas, que é um trabalho que cruza justamente o conhecimento científico em torno dos planetas, mas propõe que se possa criar a música que eventualmente nós associamos a cada um dos planetas.

São duas oficinas performance, no fundo, do Álvaro Vales.

Exatamente. Mais dirigida para as famílias para o qual estão, obviamente, convidados. Temos também uma oficina de estampagem, é só trazer a vossa T-shirt e podem fazer esse trabalho com o artista.

É uma estampa pirata. Raubruckerin.

Exatamente.

Ficou curioso. Mas também vai haver este encontro internacional de programadores e curadores, que é importante, e o lançamento desta bolsa internacional de criação artística Madalena Victorino. Ela, esta famosa coreógrafa, pedagoga e criadora, que foi distinguida pelo Estado português como uma das mulheres criadoras da cultura em 2015, e que cofundou este fórum de dança, tem o nome agora atribuído a esta bolsa internacional de criação artística, que depois vai ser escolhida e atribuída durante esta bienal?

Exatamente. Ou seja, esta bolsa é anunciada agora, na nossa edição zero, e ela vai abrir no próximo ano. E o convite é que os artistas vencedores possam desenvolver uma nova criação, com uma forte ligação a Odemira, para estrearem justamente na nossa edição em 2028. E aqui o nome da Madalena associado a esta bolsa é um tributo à Madalena, que me pareceu verdadeiramente essencial.

Merecido.

Tendo em conta a sua relação com este lugar, todo o seu trabalho, todo o seu legado na dança.

Na educação, também.

Na educação, na dança também associada à participação das comunidades.

Exatamente. Incrível.

Acho que temos aqui também um desafio para criadores que queiram se aproximar deste lugar e dialogar com as pessoas que aqui estão.

Esta conversa, por exemplo, "Tentemos o Lugar", que vai estar exatamente com a Madalena Victorino e com uma pessoa que eu gosto muito, a Aurora Carapinha, da Universidade de Évora, esta extraordinária doutorada em jardins históricos, uma mulher maravilhosa, professora da Universidade de Évora. Também vai ser uma conversa que promete, sem dúvida. Querendo saber também um bocadinho mais sobre isto e sobre por que Odemira? Por que Odemira? Por que foi lá? Isto é, neste território. Isto partiu de um convite do presidente da Câmara. Hugo, como é que isto aconteceu e naquela zona, uma zona tão bonita, e tem uma praia também que eu adoro, e que é tão marcante do nosso país, da nossa paisagem.

Sim, justamente, partiu de um convite do município. A estratégia cultural de Odemira já equacionava, já pensava e já sublinhava a importância de realizar uma bienal. E, portanto, a determinada altura, nós chegamos a um consenso para iniciar este trabalho, sendo que ele se iniciou com um grupo com três representantes de agentes culturais locais para pensarem de uma forma ainda muito embrionária sobre quais seriam os principais objetivos desta bienal, qual seria o seu formato. E depois então arregaçamos mangas para começar a construir esta edição zero, que obviamente vai mudar muito, eu tenho a certeza que ela vai mudar muito, vai aprofundar outras coisas para a sua edição um, para a sua primeira edição em 2028.

Quando é que vais perceber, nós estamos a fechar, Hugo, que isto foi um sucesso? Vais só saber quando? No último dia? Quando o presidente da Câmara te convidar para voltares em 2028? Como é que vais perceber: "Isto cumpriu tudo o que eu desejava"? Como é que tens essa sensação?

Eu acho que todas as pessoas que têm estado envolvidas, e são muitas, e com diferentes funções e com diferentes olhares, para além daquelas que se vão envolver como público, e portanto estes próximos três dias são importantes desse ponto de vista. Eu acho que cada um à sua maneira já foi percebendo o porquê desta bienal e o que poderiam fazer a partir desta bienal, como poderiam contribuir e como isto poderia estar relacionado com o resto da sua vida e com aquilo que fazem profissionalmente, mas não só profissionalmente, na forma como estão neste lugar. E portanto, para mim, esse é o principal sucesso, esses são os principais sucessos. É muito daquilo que vai acontecendo no processo, aquilo que nós nos vamos apercebendo, como nós nos vamos contaminando. E desse ponto de vista eu já estou bastante satisfeito. Claro que os próximos três dias são o encontro com o público, e esse encontro é um encontro sempre maravilhoso e indefinido. Portanto, eu dia 6 de outubro estarei em melhores condições para balanço.

Avaliar.

Inclusivamente, vão continuar a ser feitos. Mas a posição do município, que me parece também uma posição corajosa e contraciclo relativamente àquilo que infelizmente está a acontecer hoje, é de que claramente acha que uma primeira edição em 28, pelo menos, devemos tentar, e tentar de uma forma bem mais consistente do que aquilo que tentamos.

"Tentemos, então", é o que apetece dizer, não é? Tentemos. Muito bem.

Exatamente.

Hugo Cruz, quero te agradecer muito a tua disponibilidade, mais uma vez, teres vindo aqui a Rádio Observador, que te acolhe. Gosto sempre do teu cunho, gosto sempre das tuas ideias. És uma pessoa muito criativa, muito focada no outro, no pensamento, com toda a tua formação, toda a tua experiência em vários países. Tudo de bom para esta extraordinária bienal, então, que vai acontecer agora em Odemira, já sabe, a Bienal de Arte e Ciência de Odemira, de 3 a 5 de outubro, este sábado, domingo e segunda-feira, que é feriado. Todos os caminhos, todos os destinos vão dar aqui então à Costa Vicentina. Um grande abraço para ti e até breve.

Muito obrigado.

Obrigado.

Foi um prazer enorme.

Obrigado, até breve.