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Escritor e jornalista Mário Zambujal é autor de textos para imprensa escrita, publicidade, teatro, televisão e rádio. Foi sócio-fundador e presidente do Clube dos Jornalistas. Ficou conhecido do público sobretudo como jornalista desportivo na RTP. Há 40 anos publicou "Crónica dos Bons Malandros", um policial cômico que se tornou um clássico e marca a sua estreia na literatura e o início de uma obra que ano após ano tem conquistado sucessivas gerações de leitores. Já celebrou há uns anos o oito a zero, mas para nós continua sempre o eterno bom malandro. Olá, Mário, e bem-hajado por ter aceitado este meu convite.

É um prazer.

Bem-vindo ao Observador. É muito bom estar consigo. Quero agradecer esta sua presença aqui e lembrar que o Mário nasceu em Moura, no Baixo Alentejo. Hoje é uma paisagem um bocadinho diferente de quando nasceu ou não?

Aí é a primeira discussão que há sobre mim. É que eu nasci realmente em Moura, mas Moura, que era à altura uma vila bonita e é hoje uma bonita cidade, nessa altura, era uma espécie de Alfredo da Costa da Amareleja. A família, as casas que tínhamos eram sediadas na Amareleja. E dois meses antes do parto, creio que dois meses, a minha mãe foi para Moura para ter aquela assistência que podia ser necessária. E eu nasci então em Moura, tal como tinha acontecido com o meu irmão Francisco, um ano antes.

Exatamente. Grande caricaturista, o seu irmão. Fez a minha caricatura também.

Ah, sim?

Quando eu estava na tropa. Ele era genial. Mas o Francisco era o bom aluno e o Mário era o baldas.

Eu era muito baldas. Eu tinha duas paixões, que era a bola e os bailes. Mas isso foi já num período em que eu fui com seis anos para o Algarve. O meu pai foi para lá transferido profissionalmente e eu fui para o Algarve. E passei no Algarve, em Faro, concretamente, aquele bocado de vida que vai desde os seis aos 24 ou 25, em que nós somos tudo: somos crianças, somos adolescentes, somos jovens e somos homens já adultos. E, portanto, estou ligado ao Algarve. Conheci muita gente. Espero que alguns estejam aí vivíssimos da costa e a ouvir-me.

Jogava futebol na praia com o Nivinho. Conte lá quem era o Nivinho.

O Nivinho era o Nival Cabaco Silva, porque ele era miúdo.

Era um bocadinho mais novo que o Mário.

Era um bocadinho mais novo do que eu, dois, três anos.

Magrinho, alto.

Sim, mas também devo dizer que era um nome carinhoso que se dava ao Aníbal Cabaco Silva, porque era um bom companheiro nas corridas da praia. Mas eu no Algarve, em Faro especialmente, passei todos esses anos e fiz amizades que devo desde criança. Ainda hoje me lembro dos nomes completos de muitos dos meus companheiros de curso.

E de bola.

E de bola.

E de baile.

E de bailes.

E é engraçado pegar nos nomes e falar nos nomes e saber os nomes de cor, porque, Mário, nunca vi nos seus livros quem vai pesquisar os nomes mais incríveis. Eu divirto-me com as suas histórias, confesso, de todos os anos me divirto, mas divirto-me especialmente com os nomes que o Mário inventa. Só para dar um exemplo aos nossos ouvintes, aqui neste último livro que acaba de sair, este "Fabíolo", o protagonista chama-se Fabíolo Coelho Romão. Mas depois os nomes é: a Suazila, a Juliette, o Virgulino, a Leontina, o Acácio Genovício, a Bruciana, o Olegário, o Cabaças, a Aliana, o Asdrúbal, a Juvenália, o Julião, o Osmandino, a Gracelina, o Apolinário. Nunca mais acaba. Faz uma pesquisa antes dos livros?

João Paulo, com certeza que houve notícias.

Sim.

E houve notícias de muita gente, até gente de top, que tem os nomes mais inacreditáveis. E há, na realidade, nomes espantosos. Eu outro dia estava a falar neste assunto e falei até no Melancia, que é um homem muito famoso, ligado à política durante muito tempo.

O Carlos Melancia, claro.

O Carlos Melancia.

Foi nosso governador em Macau.

Exatamente, esteve lá. Mas há outros muito mais estranhos.

Portanto, o Mário encontrou-os todos e pôs nos seus livros. É extraordinário. E também jogou, eu sei que é um benfiquista ferrenho, na primeira filial do Benfica, exatamente no Algarve.

A filial do Benfica, que se chamava na altura Sport Lisboa e Faro.

Ou Sport Faro e Benfica.

Não, isso é mais tarde. Mais tarde é que readquiriu o nome do Benfica, primeiro era só Sport Lisboa e Faro.

E era capitão?

Fui capitão e fui eu que inventei a equipe de juniores, que bastante trabalho me deu. Eu não resisto a dizer que foi a vez em que eu notei a extrema proximidade das noites de sábado com as manhãs de domingo. Nas noites de sábado, havia os bailes no Teatro Letes da sede do Sport Lisboa e Faro. E ficavam muito encostados às noites de sábado, ficavam muito encostados às manhãs de domingo, enquanto nós tínhamos que ir jogar. A luta, apanhámos umas cabeçadas maravilhosas, tudo é desporto.

É verdade que chegava sempre às meninas e tinha uma tática para conseguir que elas dançassem consigo. O Mário conseguia quase sempre, mas dizia: "A menina não".

Eu tinha realmente uma frase, que talvez fosse meio verdadeira, meio desafiante, que é: "A menina não quer dançar comigo? Pois não". E normalmente diziam: "Porque não?".

Exato. Nessas questões, o Mário sempre foi muito precoce. Mas esse lado seu, muito boémio também e amigo de se divertir e da dança e da música, também herdou um bocadinho do seu pai.

O meu pai foi jovem, foi um bom vivã e fazia parte daquele grupo de Moura, onde ele vivia, que saía e ia à Amareleja. E o meu pai cantava serenatas à minha mãe.

Sim.

E segundo me contaram depois os velhos da Amareleja, a rua vinha à janela para ouvir a voz do meu pai.

Incrível.

E ele realmente tinha uma voz adorável.

Mas é engraçado que ele era subinspetor da secção das moagens, mas tinha esse lado, cantava muito bem, tinha essa grande alegria pela vida, pelo convívio, os copos com os amigos, mas isso herdou.

A saúde é que o traçou e acabou por morrer cedo, aos 55 anos.

Muito novo.

E foi um grande pai.

Depois do futebol, acabou, como o Mário costuma dizer, que como era uma nulidade com o pé esquerdo, o treinador punha-lhe um ténis do lado direito e uma bota do lado esquerdo.

Não era um ténis, era uma sapatilha, como é que se chamava aquelas alpargatas? E eu a ver se eu conseguia utilizar o pé esquerdo, mas não, ia com o direito.

Não tinha hipótese nenhuma. E depois, por uma questão de saúde, acabou por largar o futebol e o jornalismo surgiu um bocadinho por acaso. E a ver também com o futebol.

Eu comecei a escrever muito cedo, muito criança ainda. Jornais de escola, jornais disto, mais tarde os "Ridículos", que era um jornal satírico que havia aqui no Bairro Alto.

Os "Ridículos"?

Havia aqui no Bairro Alto. E um professor de português meu, o doutor Ângelo Cunha, quis que as minhas redações, em que eu das redações aproveitava para escrever histórias, fossem para os "Ridículos". E depois foi assim, até certa altura, eu escrevia coisas várias lá nos jornais locais, o Jornal do Algarve, por exemplo. E um dia adoeceu o correspondente da Bola.

No Algarve?

No Algarve.

Exatamente. Era o tal Nobre?

Nobre da Costa.

Nobre da Costa.

E ele pediu-me: "Epá, passa-me lá isto que eu tenho que estar três meses em casa". E eu fui fazer aquilo e depois a Bola convidou-me e depois é que ele venha para Lisboa. Eu primeiro vim um bocado a medo.

Custou largar o Algarve, não custou, para vir para Lisboa?

É muita praia, embora eu não seja muito de praia, mas sou muito de ver o mar.

Aqui também se vê, mas no Algarve os horizontes eram outros. Mas também é engraçado porque não começou logo no jornalismo, já contou que escrevia coisas também para os amigos, mas o primeiro dinheiro que ganhou, o Mário, eu acho que foi mesmo a escrever uns poemas e umas quadras que vendia aos amigos.

Era para eles mandarem às-

Às namoradas?

Pois, às namoradas ou aqueles que desejariam que fossem namoradas. E alguns casaram-se mesmo, que é uma coisa espantosa.

Ah, foi? Será que foi por causa da sua inspiração?

Sim, senhor. Saiu-lhes caro.

E depois então aos 15 anos, os contos para os "Ridículos". Ainda chegou a trabalhar em publicidade, eu falei nisso, em slogans.

Temporariamente.

Curioso.

Temporariamente, não, muito rapidamente. Assim a convite de uns amigos. E fiz uns anúncios. Ainda não era jornalista, podia fazer isso.

Exatamente. Na imprensa, foi jornalista, foi chefe de redação, foi diretor. A questão do 25 de Abril, lembra-se onde é que estava exatamente quando foi?

Eu estava no dia 24 de abril de 1974, estava no jornal O Século, era chefe de redação. Já tinha saído quase toda a gente e telefonou-me o Zé Carlos Galeno Pinheiro, que era o namorado da nossa telefonista, dona Pilar, que saiu entretanto. Tinham saído e ele telefonou-me: "Ó Mário, estão soldados a assaltar o muro da emissora". E eu tinha já uns recados, "Isto está para acontecer", e tal. Eu não ligava muito, não acreditava. Mas a intenção de estar é: "Hoje isto mesmo". Mandei chamar toda a gente, venham todos.

O Mário estava a gerir aquela equipe toda.

Foi.

E destinou os: "Tu vais para aqui".

Eu digo quase sempre isto, mas quem vai ao Sindicato de Jornalistas, estão lá seis ou sete primeiras páginas, reproduções de póstero, das nossas primeiras páginas, nos dois primeiros dias da Revolução.

Exatamente. Conheceu o Salgueiro Maia ou não?

Não, não o conheci pessoalmente. Não conheci pessoalmente e tenho pena.

Foi no Século, estava em 25 de Abril. É engraçado porque dois dias depois, o Mário demitiu-se

Demiti-me para dizer que nós estávamos numa realidade que deixava de ser realidade. Era que os conselhos de administração é que chamavam os seus dirigentes de jornais. E nós devíamos dar o exemplo de um novo tempo, de uma nova era, em que seriam os redatores a escolher quem os chefiava. E, portanto, demiti-me para dizer à redação: "Agora vocês votam num dos vossos colegas para ficar". E eles elegeram-me por unanimidade e aclamação, e eu continuei.

E depois há uma frase sua que ficou na história, que diz: "Bom, agora estão lixados comigo. Tenho legitimidade democrática".

É verdade, porque isso é diferente. Eu ter sido imposto ou eu ter sido escolhido por eles.

Muito bem. Também lembro das suas colaborações extraordinárias na Mosca, de boa memória, e no Pão com Manteiga. São dois exemplos extraordinários do seu humor.

E foram dois momentos felizes e alegres da minha vida, da minha atividade.

A Mosca, quer este suplemento do Diário de Lisboa com o José Cardoso Pires, com o Estal Monteiro, e quer depois também no Pão com Manteiga, o perfeito nonsense com o Carlos Cruz, o José Duarte, o Bernardo Britto e Cunha. Foram também tempos muito felizes, muito bons, muito criativos.

Há uma coisa, João Paulo, que é o seguinte: a rádio, quando apareceu o Pão com Manteiga, ou antes de aparecer o Pão com Manteiga, era um bocado solene. A rádio era um bocado sisuda, solene. E aparece aquele bando de malucos a perverter as velhas regras do respeitinho.

Foi maluco o que o Faria dar fez.

E, portanto, aquilo deu realmente um impacto.

Mário, estamos a falar exatamente, concretamente da sua escrita, da sua maneira de escrever, das coisas boas da vida. A propósito do jornalismo, eu sei que o Mário é um leitor fanático de toda a imprensa escrita. Continua a ler muito o que sai? Gosta muito?

Continua a ler. Eu até há pouco tempo, até há um mês, era presidente da direção do Clube dos Jornalistas. Agora eu sou o presidente da Assembleia Geral. Isso representa, depois de já tantos anos que me afastei do jornalismo ativo, representa a minha devoção por essa atividade, que foi minha durante tanto tempo e que continua a seduzir-me, porque um jornal nasce todos os dias e é a vida que dita o jornal que vai aparecer. E somos nós que temos a presunção de interferir na própria vida, mas é a vida que interfere naquilo que nós fazemos e noticiamos. E eu, durante muitos anos, foi a minha sedução. Continuo a ser um leitor de jornais. Mais de papel, porque eu vou dizer que eu, se tudo correr bem e tiver cuidado ao atravessar a rua, faço 86 anos no princípio de março. O que é uma idade, por exemplo, eu vim para aqui, João Paulo, com medo.

Por quê?

Medo porque esqueço-me das coisas. Esqueço-me de palavras, esqueço-me dos nomes das pessoas e baralho um bocado isso. Ou seja, a cabeça não está má em certos aspectos, da criatividade, mas aquilo que requer muitas vezes a memória, e eu: "Agora, como é que ele se chama? Agora, como é que se chama este objeto, que eu sei também o que é, mas não sei o nome". E isso pode parecer mais dramático quando se escreve, mas é o contrário, é quando se fala em público. Porque quando se escreve, nós podemos parar e dizer: "Epa", e procurar o nome.

Tomar o tempo.

E socorrer-nos de alguma coisa para encontrar o nome da palavra, o significado da palavra. Quando se fala publicamente e dizemos: "Epa, fulano, espera aí, como é que ele se chamava?"

É diferente, claro. Aí é tudo seguido, não pode parar.

Não pode ficar e dizer: "Espera aí, que eu vou vir aqui ao papel".

Mas olha, lembrou-se agora mesmo de nomes dos seus colegas do futebol, do tempo da praia, os nomes todos, é incrível.

Lembro-me muito.

E do Nobre da Costa, e lembrou-se de cá está.

Lembro-me muito.

Muito bem. É engraçado, porque fiz-lhe impressão quando entrou aqui no Observador. O Observador é um jornal digital, portanto há muita gente que escreve em casa e manda os textos. O não ouvir as máquinas de escrever não lhe faz impressão quando entra numa redação? Sente a falta?

Sinto a falta. A música ambiente do jornal era feita não só do tic tac das máquinas de escrever, como de um sussurrar das pessoas a perguntarem coisas umas às outras.

E aos telefones.

E perguntavam, as pessoas perguntavam: "Como é que se escreve sossego, pá? É com C ou com dois S? Nunca sei como é que se escreve sossego".

Ainda hoje perguntam isso.

E eram palavras que circulavam. E havia uma outra coisa que definia uma redação de há 40 anos.

O fumo.

O fumo.

Eu logo vi que ia dizer isso.

A nuvem de fumo que pairava sobre a redação.

É isso.

E aquilo era uma coisa normal. Não havia estes cuidados.

De saúde.

Excessivos. Eu não recomendo isto a ninguém. Eu fumo há 72 anos.

O Mário costuma dizer: "Eu estive 13 anos sem fumar. Desde que nasci até aos 13 anos".

É verdade.

Tu fumavas também cachimbo.

Pois. Mas eu não digo isto como qualquer coisa de dizer: "Olha como eu sou resistente". Não, eu aconselho toda a gente, os meus filhos não fumam, a minha neta fuma dessas coisas modernas.

Os tabacos aquecidos.

É, pois, essas coisas, essas modernices que eu acho que não têm graça nenhuma.

Mas que já não faz aquele fumo das redações.

Já não faz o fumo das redações.

Agora falou nos seus netos. É engraçado, eu também já entrevistei uma vez a sua filha, a Isabel, que é escritora também de livros infantis, e também a Isabel Zamujal, a mãe da Maria, da sua querida neta, que já deve ter 20 e poucos anos, já é uma mulher feita.

Sim.

E depois também tem um filho, o Rui, que é biólogo.

É biólogo.

O Rui Pedro, que é especialista em biologia do envelhecimento e que há uma década exatamente escreveu um livro chamado "2009-2049: 40 Anos de Montanha-Russa", que foi o prêmio do melhor e-book no Festival de Livro de Nova York nessa altura. É incrível. Mas o Mário diz: "Eu nunca peguei nisso, nem eu nem a minha filha, porque é muito técnico".

Pois, mas então ele nunca mais quis escrever, e avisou logo nesse próprio livro, tinha uma advertência a dizer: "Não sei se vão gostar disto, nem interessa, eu também não faço mais nenhum". E nem fez mais nenhum.

Ao contrário do pai, que continua a escrever.

Ao contrário do pai. A minha filha tem uma excelente imaginação, escreve muito bem.

Incrível.

E tem uma excelente imaginação.

Que é publicitária também.

E está naquela área dos infantojuvenis.

Literatura infantil, claro que sim. E é engraçado, porque se calhar pouca gente sabe que o Mário também já foi tasqueiro.

Tive um bar. Tive um bar que evidentemente caía na ruína, porque quando um tipo tem qualquer coisa, um bar, e considera que aquilo é um prolongamento da sua própria casa, e, portanto, não deixa os amigos pagarem. Não deixa os amigos pagarem. É claro, foi tudo à ruína. O Solnado disse-me várias vezes: "Quando me quiseres pagar um copo, é fora daqui. Aqui tens que receber". Mas não dá jeito nenhum o tipo receber dos amigos.

Eu imagino isso. E o Mário já escreveu textos para teatros de revista.

Escrevi.

Deu-lhe gozo isso, é outro género diferente.

Deu-me gozo. Foi a convite do Francisco Nicholson e do Santana, o filho do Vasco Santana. Como é o primeiro nome? Olha, o primeiro nome, cá está, aquilo que eu falava, o Henrique.

Henrique Santana. Sim.

Esta coisa que eu falava há bocadinho, a memória de repente o nome vai. E eles convidaram-me e eu achava piada àquilo. Escrevi textos pra Marina Mota, pro Eugénio Salvador.

Exatamente.

Filme rábulas.

Que saíram da sua pena. É engraçado, porque estava a falar há bocadinho da televisão e a questão dos mídia. Hoje o Mário vê, que apresentava o "Grande Encontro" e uns programas extraordinários de desporto. Hoje vê este futebol a ser discutido, mas já não faz muito o estilo do Mário. O Mário acha que isso é hoje em dia tudo muito gritado e muito discutido, e zangam-se muito, e o futebol não devia ser isso.

Não devia ser isso. E além disso, não há hoje em dia na televisão portuguesa um noticiário do desporto. O que há é pessoas a discutir futebol.

Exato.

E a discutir praticamente e só-

Os três grandes

...os três grandes. E é discutir futebol e os três grandes. E não há um noticiário. Ao fim de semana, há variadíssimas competições de vários desportos.

Exatamente.

E nós no "Grande Encontro", tínhamos imagens das coisas, do que acontecia nos vários sítios, e tínhamos comentadores especializados de vários desportos. E portanto, eu ali era um mero condutor da conversa.

O pivô.

Mas atualmente eu confesso que este sistema atual de falar sobre o Benfica, o Sporting, o Porto.

Os comentaristas.

Não me atrai grande coisa. Não me dá grande entusiasmo.

É engraçado, o Mário passou do jornalismo pra literatura, completamente. Aliás, como muitos dos seus escritores preferidos. Uma vez eu lembro que numa entrevista anterior, eu pedi-lhe: "Mário, dê-nos duas ou três sugestões de leitura". E o Mário falou no Eça, o "Prim Basílio", que gosta muito, nos "Cem Anos de Solidão", do García Márquez, no "Quando os Sinos Dobram", do Hemingway, e depois disse: "Mas eram todos jornalistas, estes escritores, estes exemplos".

Exatamente. Se quiser dizer, portugueses vários, com certeza. Mas o Gabriel García Márquez dá-me aquela transmissão de mundos do realismo mágico.

É especial.

Todas essas coisas que me dão e transporta-

Macondo

...e transporta a condução do jornalista. Ele parece que está a dar uma notícia. Parece que está a dar uma notícia de ações. Extraordinário.

É extraordinário, é verdade. E mesmo os livros das crônicas dele, do jornalismo mesmo, também são extraordinariamente bem escritas. É um prazer ler aquilo. O Mário lê por prazer, continua a ler tudo que pode e lê muito e tem livros espalhados por três casas e tem livros de mesa de cabeceira.

É, mas ultimamente tenho estado um pouco preguiçoso. Mas, por exemplo, eu agora há bocadinho vinha a ler um livro do Sérgio Luís de Carvalho, o "Anno Domini".

Muito bom.

E é o Sérgio Luís Carvalho, é um escritor que eu acho que é pouco conhecido e eu acho excelente. É um historiador.

Vem cá pra semana.

Oh!

Ele vem cá às vezes, eu gosto muito dele.

Eu gosto muito.

É um grande escritor. E esse foi o primeiro romance dele. Isto é uma reedição. Eu devo dizer, ainda não disse, que este fabíulo é uma edição do Clube do Autor. Eu tenho que dizer que o Clube do Autor é uma editora que eu gosto muito e que o Mário inaugurou.

Inaugurei o Clube do Autor.

A primeira obra do Clube do Autor foi sua, não sei se se lembrava disto. E portanto, este do "Anno Domini", que é a primeira coisa que o Sérgio escreveu já há umas décadas, e que agora foi reeditado também pelo Clube do Autor, convém dizer isso, uma editora que eu gosto muito. O próprio editor já cá esteve também, foi nosso convidado. E portanto, cá está, descobriu o Sérgio, um belíssimo escritor.

Se o Sérgio vem cá, diga que lhe deixo um abraço.

Com certeza, com muito gosto falar disso.

Sou um grande admirador dele.

Muito bem. E também eu sei que Há outros valores que gosto. O João Tordo, por exemplo, é outro autor recente, o Mário também lê e gosta muito das coisas dele. É muito giro porque a propósito da sua rotina de escrita, costumava dizer que escrevia com caneta, escrevia à mão, não gosta de escrever no computador. Ainda hoje é assim?

Eu quando me vi aos três, quatro anos, perante essa necessidade de comunicar, não só verbalmente, mas também já através de letras, deram-me uma caneta para escrever no papel. Não havia computadores, máquinas de escrever era uma coisa remota, não se dava às crianças. E portanto eu fui lançado na vida a fazer caligrafia. Caligrafia, o João Paulo sabe isso, foi até há umas décadas, o segundo método de identificação que havia. O primeiro era as impressões digitais e depois era a caligrafia, que identificava as pessoas. Ainda hoje, se vai ver se uma assinatura é falsa ou se não é falsa.

Há analistas especialistas, os grafólogos, que sabem identificar. É impressionante. É verdade. É engraçado porque o Mário costuma dizer: "Máquinas não é muito comigo", embora hoje já mande e-mails, já comunica com os filhos e netos, mas diz: "A única máquina que eu percebo é a torradeira."

Agora já estou mais familiarizado com o micro-ondas.

Vá lá.

O micro-ondas é uma máquina preciosa de tentar as coisas. Fria e aquece num instantinho.

Exatamente.

E não é complicada.

Outra coisa que eu gosto muito: fala muito do estilo zambujalesco. Esta maneira de escrever as palavras e escrever "jeans" e escrever "after-shave", quando a gente lê, isso é curioso.

Alguém utilizou essa expressão não só para mim, como para as caricaturas do meu irmão.

Ok.

Eu vi alguns dos melhores caricaturistas portugueses dizerem que o Francisco Zambujal influenciou muito a sua maneira de trabalhar.

É curioso.

O azar do meu irmão foi que morreu aos 57 anos.

Muito novo, em 1990. Fez agora 30 anos. Muito novo, ainda, é verdade. Esta subversão linguística é uma coisa que marca muito a sua escrita. Mário, quais são os maiores prazeres da vida?

É a vida em si própria. Eu, um tipo agora com 86 anos, quase.

Quase. A 5 de março fará.

Não pode deixar de dizer: "Quanto tempo me falta?" Sem dramatizar, com a consciência que isto é um contrato com prazo não definido, mas perecível, um dia acaba. E portanto, eu como desde muito novito percebi, desde que morreram os meus avós, que isto acaba. Não faço uma grande angústia, não tenho angústia a pensar que esse dia já não pode demorar.

Vai chegar.

Eu tenho que olhar mais para trás do que posso olhar para a frente. Mas ainda, apesar de tudo, persisto em olhar para a frente, persisto em fazer alguma coisa. Há um sentimento muito amargo, que eu não quero passar por ele, que é o sentimento da decadência. Se uma pessoa se apercebe que está em decadência, é melhor parar, porque a decadência é a via para baixo, então é melhor parar.

A pessoa fica deprimida.

E se eu tenho alguma perspectiva de escrever um livro aos 86 anos, tenho que ter a noção que não fica atrás dos outros livros que escrevi.

O Mário ainda se comove. Comove-se com facilidade.

Sim, sou um sentimentalão.

É? Até com filmes e com coisas?

Exatamente. E uma coisa que me comove muito é a alegria dos outros. Pessoas que tiveram dramas muito grandes e que de repente tudo se resolve, emociona-me ver a alegria com que recuperam a felicidade.

O que é que mudava na sua vida se de repente ganhasse o Euromilhões ou uma coisa assim?

Eu não tinha onde gastar o dinheiro.

No Monte, na Amareleja.

Na Amareleja, no Monte, Alcoutim. Alcoutim é a terra da minha mulher. E é lá que temos umas casas que eram dos meus sogros. E portanto o meu Algarve é serrano. Mas é junto ao Guadiana.

É tão bonito. A Rota das Cegonhas.

E a meia hora das praias de Monte Gordo e a meia hora de Espanha. Aquelas casas que estão ali, que vêm do tempo dos meus sogros. E eu só conheci o meu sogro já no final da vida dele. Ele já tinha muita dificuldade em falar, mas apertou-me a mão. Eu ainda apareci lá em casa no papel de candidato à filha. E eu não sei como é que vou ser recebido, mas ele teve ali um ar simpático para mim. Talvez estivesse assim: "Não sabes onde te metes", mas enfim.

E já lá vão o quê? 60 anos desde que casou?

Quase 60 anos.

Impressionante. Vou falar agora "en passant", desta crônica dos Bons Malandros, que foi lançado em 80, portanto vai fazer 41 anos. Publicou tinha 44 anos, o Mário. Está perto das 40 edições. É impressionante, ficou viral. Não foi escrito sequer para vender, mas pelo prazer de se escrever, impulsionado pelo Urbano Tavares Rodrigues, por exemplo, e outros amigos seus.

Sim, o Urbano. Havia vários, por exemplo, o Francisco Pacheco, vários que eram meus companheiros no Diário de Lisboa e depois no Século também.

Já está na terceira geração de leitores seus. Isso não o orgulha imenso?

Dá-me satisfação. Uma vez, um professor da Universidade de Coimbra estava aqui e disse: "Já li o seu livro, creio que três vezes". E o homem que me levava o carro, o senhor Aníbal, disse-me a mesma coisa. E isso dava uma sensação de que há uma simplicidade de linguagem, mas uma pureza de linguagem, que pode chegar àqueles que estão menos preparados, sem excluir os que estão mais preparados.

É impressionante. Ficou um clássico e é muito transversal. As crianças gostam, fez-se musical, fez-se teatro, fez-se séries. Há um ano, nesta altura, estava a passar a série em sete episódios. Viu? Gostou de ver? Chegou a ver ou não?

Um trabalho de filmagem, de cinema, tem sempre aquela coisa "baseado no livro tal". E as pessoas que gostaram do livro e vão à procura exatamente do livro, tendem a ficar: "Mas o livro não é assim". Eu lembro-me do filme "Dona Flor e seus dois maridos", do Jorge Amado. Eu tinha adorado o livro do Jorge Amado e fui ver o filme. E achei que do filme, só o que se aproveitava era a Sônia Braga, porque era uma mulher lindíssima.

Lindíssima. Já na Gabriela aprovou.

O filme já não era a mesma coisa. Portanto, depende da perspetiva com que um tipo vai ver o filme ou a série. Se ele tiver essa perspetiva, aquilo é baseado, mas não é exatamente a reprodução do livro.

Estou agora a passar aqui em revista algumas histórias suas, "Histórias do Fim da Rua", logo o seu segundo livro, "À Noite Logo Se Vê", "Fora de Mão", livro de crónicas e de contos. Estou a lembrar-me daqueles livros que escreveu a 14 mãos: "Os Novos Mistérios de Sintra", "O Código da Vinci", "Essa Agora". Depois, "Primeiras Senhoras", o relato do último bom malandro. "Já Não Se Escrevem Cartas de Amor", que lembrou-se da Lisboa nos anos 50. "Uma Noite Não São Dias", aqui já avança para Lisboa 2044, estamos quase lá.

Estamos quase lá.

É impressionante. Onde voltou o tema do roubo das joias. Imaginou a vida como é que seria para a frente. É engraçado porque no futuro ainda continua a haver livros e jornais em papel, mas antevê mais isolamento e mais frieza. Já nessa altura percebia que o mundo futuro vai ser um pouquinho mais frio entre as pessoas?

Nós, quando pensamos no futuro, baseamos nos indícios do presente. O que é que o presente nos indicia? Por que esse livro, que se passa em 2044, diz que não havia ministros, só havia ministras. E tinham secretários homens, que é o inverso do que acontece praticamente atualmente. Mas é um indício de alguns avanços, tímidos até, das mulheres, mas que há avanços. E elas são perseverantes e vão lá conseguir.

Exato.

E portanto, é uma caricatura, o livro é todo ele uma caricatura.

Atenção que já foi escrito há 13 anos, mas já fala disso. Já fala do vegetarianismo exagerado, dos sumos de orégãos e batidos de marmelos. O livro é genial, como os seus livros são todos geniais. Fala do Aeroporto Mário Lino, na Ota, é muito curioso. Do Mercado Paulo Portas, isto é extraordinário. Eu acho que ainda hoje faz muito rir este livro. Fica aqui a dica: não só este "Febil", mas para não perder este exercício, "Uma Noite Não São Dias" e este exercício também da Lisboa futurista imaginada pelo Mário Zamujal. Chegamos então a esta altura em que temos uma série de livros, é quase um por ano. Chegamos então a este "Febil", este último, com este eterno bom malandro que nos conta deste homem de paixões, este Febil. Um homem de paixões, um pouquinho, como o Mário também é. Mário, o que é que se segue agora?

É sempre uma interrogação que depende da minha atualidade. Não posso esconder, disfarçar ou ignorar que vou fazer 86. E, portanto, não tenho completamente a certeza como é que esta máquinazinha que nós temos, a que chamamos cérebro, vai continuar a funcionar. Se me vai ajudar ou se tenho retrocessos. Eu não tenho tido retrocessos até este momento nas áreas da imaginação. Sinto esta dificuldade muitas vezes de controlar a exatidão das palavras e de me lembrar dos nomes das pessoas e das datas. Tenho alguma dificuldade.

Luta com isso, um pouquinho.

Às vezes telefona-me um amigo e eu: "Está bem, eu vou falar com outro e eu vou falar com outro" e digo: "Epá, telefonou-me um, como é que ele se chama?"

Acontece.

Já não me lembro do nome do outro.

O importante é que esteja com essa imaginação e esse humor e esse amor, que é muito seu, também pela imprensa e por todo o contributo que tem dado, Mário, tem sido uma coisa extraordinária toda esta vida.

Muito obrigado.

E pronto, nós infelizmente na rádio, o Mário fez rádio, sabe como é que é, o tempo voa. Quero agradecer especialmente a sua disponibilidade em ter vindo aqui ao Alvalade, ao Observador, falar conosco. Oxalá continue a divertir-nos com essa sua veia de amor e de humor com que nos brinda todos os anos. Muito obrigado, Mário, bem-haja.

Muito obrigado, João Paulo, e muito obrigado à rádio, que aqui tão bem me acolheu. Muito obrigado.

Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.