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A Alice e o Nelson conheceram-se há cinco anos. Um dia ele encheu-se de coragem e perguntou-lhe: "Quer ser minha avó?" Suspense. E ela disse que sim. A Alice e o Nelson adotaram-se como avó e como neto. A Alice Vieira tem 77 anos, dos quais 61 de jornalista, 41 de escritora, com 80 obras publicadas. O Nelson Mateus, 30 anos mais novo, é o mentor do projeto Retratos Contados, em que põe em diálogo mais velhos e mais novos. A Alice era chamada às tias velhas quando se portava mal. Entretanto, aprendeu a lição e há uns meses foi chamada ao presidente para ser condecorada pela segunda vez. E antes, até chegou a ir com o neto adotivo para lhe falarem deste projeto urgente de partilha entre gerações. Falamos de pandemia, de solidão e de diálogo, o que faz falta. Olá, Alice e olá, Nelson. Bem-hajam por terem aceitado este meu convite. Bem-vindos ao Observador, é um prazer.

Olá, boa noite.

Boa noite aos dois. Alice, também está conosco?

Estou aqui.

É um grande prazer estar aqui consigo. Nelson, eu vou começar pela Alice, que ao celebrar os seus 61 anos de jornalista, continua a ser jornalista toda a vida. É muito tempo, mas é muito bom. E diz: "Se me tirassem os jornais, eu morria". É verdade, certo?

É verdade. Eu digo muitas vezes, se os meus patrões da Leya me dissessem: "Não escrevas mais livros", eu parava logo. Agora, não ter um jornal para onde escrever, e eu felizmente tenho três, isso para mim era impossível. Eu digo sempre: "Sou uma jornalista e também escrevo livros". Mas realmente o jornalismo vem sempre em primeiro lugar.

Os primeiros textos seus, tinha 15 anos, foram recusados, e foram recusados logo pelo que veio a ser seu marido, Mário Castrim.

Todos os dias, a proporção de testicado que está prestes a terminar com essa vigilância é de zero sem mais nenhum caso na região Norte.

E é incrível porque nessa redação, estamos a falar do Diário de Lisboa, chegava a levar a Catarina Fonseca, ainda pequenina, que hoje em dia também é jornalista, chegava a ficar na alcofa, chegava a ficar com o padrinho, enquanto a Alice fazia reportagens e escrevia, estava ali concentrada. Teve que ser.

Ia para a tipografia, porque o padrinho era o chefe da tipografia, e eu ficava lá com ela. E eu acho que ela deve ter engolido tanto chumbo, que por isso é que ela foi jornalista. Só pode.

E é das coisas melhores que conta a Alice, isto tem que ser uma apresentação rápida, é a questão de hoje em dia mudou muito o ambiente nas redações, é óbvio. Já, por exemplo, os computadores, eu lembro-me sempre do seu neto que dizia: "Ô vó", que experimentou a sua máquina de escrever, que a Alice ainda tem em casa, e dizia: "Ô vó, isto é muito melhor que os computadores, que isto escreve e imprime ao mesmo tempo". É assim uma coisa.

Fascinante.

Mas eu adoro a questão do Humberto Vasconcelos. Conte lá, que gravou.

O Humberto Vasconcelos gravou, teve um gravador, pedimos para estarmos todos a tocar, a escrever à máquina, e gravou aquilo tudo. E quando chegava o jornal, que tinha que escrever no computador, ligava aquela gravação, o som das máquinas a escrever, só com aquele som é que ele podia trabalhar. Tinha sempre o som gravado pra ir então trabalhar com aquelas máquinas. Era isso.

Incrível. Há 41 anos, então, a sua obra literária já assinou 80, mais de 80 obras, se não me engano. Começou com este livro que escreveu para os seus filhos. É engraçado, porque eles diziam: "A mãe está poucas vezes conosco, um dia temos que..." Queixavam-se que escrevia pouco pra eles e que lhe dava pouca atenção. Então um dia sentaram-se e escreveram uma obra. Então cá está o "Rosa, minha irmã rosa", que nasceu em 79. A partir daí nunca mais parou.

Repare, quando perguntam qual foi o meu primeiro livro, eu digo sempre que o meu primeiro livro foi o segundo, porque o primeiro eu escrevi sem pensar que aquilo ia ser publicado, era uma história para os miúdos. Quando pediram depois outro, esse é que já ia ser publicado. Aí tive que pensar melhor, porque o primeiro era pra eles.

Incrível. E logo esse, depois ganhou, era no Ano Internacional da Criança, ganhou sem saber. O Mário mandou o livro pra concurso e ganhou. E, portanto, logo assim.

Exatamente, como ganhei, eles quiseram logo outro livro a seguir.

E assim nasceu esta sua carreira que, Deus queira, não pare tão cedo. Tem mais umas décadas à sua frente.

Se eu puder acrescentar um detalhe, que não é um detalhe. Passado 40 anos, a Alice ainda recebe mensagens de muita gente a dizer que dá o nome aos filhos por causa desse livro.

Incrível. E além disso, faz crochê e com as palavras também, e tem uma gargalhada que já todos percebemos que é contagiante. Quanto ao Nelson, nós ainda antes de fazer o pequenino intervalo, vamos só dizer que nasceu e vive em Lisboa e dedicou grande parte da sua vida a projetos solidários e é mentor deste projeto, o Retratos Contados, que nasceu há seis anos. E começou exatamente porque dirigia uma loja de roupa e viu esta ligação entre os avós que iam comprar coisas pros netinhos e começou a achar muita graça a este amor e este carinho neste salto de gerações, certo?

Exatamente, confere.

Muito bem. Olha, Nelson, nós temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos a conversar, está bem? Até já.

Até já

Estamos a conversar com Alice Vieira e Nelson Mateus, mentores de um projeto que dá vez e voz aos mais velhos, aproximando avós e netos e dando-lhes o valor que a sociedade insiste em não reconhecer e em não promover. A ideia é um pouquinho esta, não é, Nelson? Esta ligação, estes retratos contados, nasceu há seis anos, um pouquinho pra valorizar exatamente os mais velhos e acabar com este abandono e esta solidão.

Exatamente, é para valorizar os mais velhos, para trazer pra ordem do dia a importância que os avós têm na vida dos netos e que os netos têm na vida dos avós, e um pouco para combater, de alguma forma, a solidão e o abandono, uma vez que todos os dias ouvimos nas notícias que os idosos são abandonados, que os idosos são vítimas de solidão, e isto é um dos muitos assuntos da nossa sociedade que não pode ser esquecido.

Muito bem. É incrível, porque tu conheceste a Alice há cinco anos. Nunca tinhas lido nada dela, e entrevistaste-a para este projeto que tu tens. A coisa correu tão bem que logo partilharam Facebook e e-mails e hoje falam-se quase todos os dias. É, no fundo, a tua avó adotiva ou, pelo menos, é a única a quem tu chamas avó, o que também não dava jeito se fosse com o Rui de Carvalho ou com o Carlos Avilez, certo?

Tenho vários netos adotivos, por acaso. Mas não tenho nenhum como ele.

Pronto. Para o bem ou para o mal.

Ele é muito ciumento.

Muito bem. Avançamos nos anos, em março de 2018, faz três anos agora, o Nelson escreveu um livro sobre a Alice chamado "Retratos Contados: Alice Vieira, 75 Anos", que saiu pela Caminho Editores, da Leya. Um ano e meio depois, Alice Vieira, 40 anos de carreira. Houve as celebrações em 2 de outubro, na Sala Almada Negreiros, no CCB, houve uma tertúlia que o Nelson coordenou e moderou com a Fernanda Freitas. Muito curioso, com perguntas do público. 15 dias depois, houve aquela exposição no Colombo dos 40 anos de carreira, tudo homenagens merecidas. Seis meses depois, entrámos na pandemia. E agora havia o grande perigo acrescido da questão da solidão dos mais velhos.

Esta exposição era para ser itinerante, porque começava com os 40 anos de obra literária e terminava este ano com os 60 anos de jornalista da Alice Vieira. A exposição está parada, mas está à espera do próximo ano, porque a Alice comemora tudo e mais alguma coisa. Portanto, isto está em standby para o ano. Ninguém nos agarra, temos estado aqui em casa a carregar baterias para aquilo que aí vem.

Eu para o ano não sei se consigo, mas daqui a dois anos quero ir aos 25 anos da condecoração do Jorge Sampaio. Alice, convide-me.

Convido.

Muito bem. A Alice Vieira, entretanto, que não parou e é uma pessoa que não consegue parar, ainda bem. Como não é só uma pessoa de letras, é uma pessoa de risco e por isso já teve uma data de cancros e agora com 77 anos ficou em casa, mas não consegue ficar parada e ainda bem. Então o neto Nelson, e não só, os seus netos verdadeiros, ajudaram.

E os cancros não dão para ir primeiro para as vacinas, imagina.

É verdade. Este grupo A não está bem contabilizado, mas não se preocupe que vai-lhe chegar a sua vez e de certeza que está quase.

Fica sossegada em casa.

Exato. Nelson, mas também ao verem o riso dela, a saúde dela, a boa disposição dela e o otimismo dela, ninguém lhe quer dar a vacina. Querem que ela seja a última. Porque ela, força anímica não precisa. É o anticorpo contra todos os cancros, que aí venham mais, e vírus.

Eu agora, por acaso, tenho consulta marcada para a semana lá no IPO, que é ver se me meto vacunha. Que é para eu ser vacinada para ir para a ericeira.

Este vírus também nunca iria querer nada com ela. Se ela teve um cancro que lhe deram três meses de vida e já passaram 30 anos, era um vírus destes que queria dela.

Exato, é incrível. Há mais essa. Mas a Alice que não consegue ficar parada, mas também com as lições dos seus netos a nível de Netflix, de Facebook, etc, também tem estado muito entretida.

Eles também têm muito trabalho, é verdade. Mas pelo menos faço uma videochamada para a minha neta. A minha neta já foi vacinada, porque ela é cientista e trabalha num laboratório que está integrado num hospital e tem contacto com médicos, com enfermeiras, e já levou a primeira dose.

Está em Inglaterra, certo?

Está em Inglaterra, está em Cambridge. E de maneira que daqui a umas semanas leva a segunda. O outro está em Chicago. Ele diz que agora as coisas por lá estão um bocadinho melhores. Ele está lá a fazer o doutoramento, já vai duas vezes à universidade, os outros dias está em teletrabalho, mas se aquilo agora está também um bocadito melhor, veremos.

Isto porque a Alice gosta de sair da sua zona de conforto e nunca diz que não a nada. E a Alice, no ano passado, não sabia fazer videochamadas.

Agora sei tudo.

Foi precisamente pelo confinamento, que houve um dia que eu passei cá para ver se ela precisava de alguma coisa, passei pela casa da Alice e que aí ensinei-lhe a fazer videochamadas. A partir daí, passado uns dias, estou eu a ver o telejornal da RTP e quem é que aparece a dar entrevistas para o telejornal? Alice Vieira em videochamada.

Eu agora faço videochamadas, faço Zooms, faço Skypes, faço tudo.

A Alice Vieira devia ter aparecido então no telejornal a dizer: "Alice Vieira" e embaixo: "Por cortesia de Nelson Mateus". O que eu acho é que nunca mais a param. Está um bocadinho como a minha mãe, que tem 90 anos e já é uma furiosa do Facebook com os netos e bisnetos já há muitos anos. Ainda tem mais companhia agora, é impressionante.

Isso também é uma prova de que os idosos também podem progredir, podem fazer coisas novas.

Muito importante.

Não são só os novos, os idosos também. E isto é muito bom. Então, nesta altura de isolamento, que estamos em casa, poderem chegar ao computador, trabalharem com o computador, verem as pessoas. Isto é importante para eles, acho eu.

Claro que sim.

E tinha gente até mais velha do que eu, que só agora começou a trabalhar num computador e já trabalha muito bem. Isso é muito bom para eles, porque não estão sozinhos, embora estejam, mas é outra coisa.

E ela todos os dias tem vários Zooms para fazer. Depois do confinamento, ela está tão habituada a estar em casa a dar entrevistas, que diz que já não vai mais à rádio nem à televisão, que só a partir de casa.

Só nós é que perdemos isso, porque era bom tê-la aqui em pessoa, mas virão tempos em que voltará. Alice diz, e com muita razão: o que seria deste confinamento se fosse há uns anos, Alice, no meu tempo, onde não havia internet, não havia redes sociais, só havia dois canais na televisão, lembro-me disso também, o que seria? Muitas graças, se calhar, temos que dar.

João, até eu sou desse tempo.

Não, tu és miúdo novo. Depois, a Alice Vieira e a Manuela Nina fizeram este pó de arroz e janelinha, que foram umas crónicas que iam trocando, uma escrevia, a outra completava. E depois, com este movimento de valorização dos mais velhos, neste momento único que estamos a viver, houve este movimento lançado, por exemplo, o Vós e Netos, que foi lançado no Dia da Criança o ano passado, também foi um movimento importante em que os dois estiveram envolvidos.

Pronto, nós estamos sempre envolvidos nessas coisas todas. E, de resto, a ideia que eu trago sempre, eu trabalhei há uns anos na Argentina, numa terra chamada El Chaco, que é a coisa mais miserável que lá existe. Mas há lá um escritor, o Mempo Giardinelli, que é extraordinário e que faz uma espécie de trabalho como nós fazemos, que é tentar que os netos estejam com os avós e os avós estejam com os netos e que cada um deles explique aos outros aquilo que eles não sabem. E isso é extraordinário. Depois, no fim do ano, há um prémio para o melhor avô, para o melhor neto, coisas assim, porque cada um tem a sua coisa para explicar ou ao mais velho ou ao mais novo. E, portanto, tem que haver sempre uma troca de experiências. E é um bocado isto também que nós estamos a fazer, não é?

Sim, no fundo, o que nós estamos a fazer é um projeto que tem um pé no passado, outro pé no presente e os olhos postos no futuro. O que eu quero dizer com isto? É que estamos a trazer para o dia a dia memórias de pessoas e de situações que não podem ser esquecidas. Daqui a um mês iremos celebrar o 25 de Abril e todos os anos as televisões fazem o mesmo tipo de reportagens, que é perguntar aos miúdos se sabem por que é feriado. E os miúdos, regra geral, nem sabem por que é feriado. Alguns têm uma ideia muito vaga daquilo que foi o 25 de Abril. E estamos a falar de uma história de Portugal muito recente e os valores que foram conquistados naquela data jamais podem ser esquecidos, jamais podem ser banalizados. Nós ontem escrevemos uma crônica muito interessante sobre a solidão e depois tínhamos uma mensagem no Facebook em que a pessoa dizia: "Nunca tinha pensado em que a água que corre na torneira pode não ser garantida", mas é isto que as pessoas têm que pensar, que a água que corre na torneira pode não ser garantida. Portanto, se todos pouparmos água, que é um dever de todos nós, a água vai dar para todos. Agora, se todos deixarmos as coisas estarem como estão e não quisermos saber, as coisas podem não ser tão garantidas como têm sido até agora.

E depois vamos fazer um grande texto, dois, sobre o 25 de Abril.

Claro que sim. Eu estou agora mesmo a ver que a Alice, quando se retira para a sua pátria, como chama a Ericeira, e que fica na sua varandinha a escrever onde come ouriços da casa da Fernanda. De certeza que lhe sabe bem e de vez em quando conversa com os seus netos. A sua casa não é, como a Alice diz sempre: "A minha casa pode ser uma extensão do ATL, mas nunca há de ser um depósito de netos". Porque há coisas que lhes conta, o saltar as gerações, como dizia o psicólogo e psiquiatra João dos Santos, que a Alice tanto gosta, ainda bem que existe esta diferença, este salto.

Exatamente. Eu digo sempre: "Não sou avó a dias", porque eu não gosto. Os netos agora já são adultos, mas quando eram pequenos, se eu estava com eles em casa, era para estar com eles. Portanto, era para brincar com eles, fazer as coisas com eles. Não era para eles estarem num lado a fazer os trabalhos da escola e eu estar no outro lado a fazer não sei o quê. Portanto, isso foi sempre assim. Resultado, eu tenho uma relação extraordinária com os meus netos e a minha neta mais velha, por exemplo, já tem 25 anos, mas ela era sempre a primeira a saber coisas que eu lhe contava e não contava a mais ninguém. E ela também. Portanto, eu lembro-me que uma vez ela começou a namorar e veio de Inglaterra para cá e eu já sabia, claro. E quando ela chegou no aeroporto, chegou-se ao pé de mim e disse: "Olha, já podes contar aos pais que eu já lhes contei". Eu já sabia. Portanto, e com ela foi a mesma coisa. Ela foi a primeira pessoa a saber quando eu tive o meu segundo marido, foi a primeira pessoa a saber. E depois, quando eu fiz um jantar para as pessoas da família todas para o apresentar, ela sorriu e o meu filho disse-lhe: "Tu já sabias?" E ela disse: "Já". "Por que não tinhas dito nada?" "Porque o segredo não era meu". Toma.

Bom, exatamente. Como dizia o outro: "Ah, conte não sei o quê". Sabe guardar um segredo? Sei, sei. Eu também sei, não posso contar. É um bocado esta a ideia. E é curioso esta questão dos avós e dos netos, porque a Alice Vieira nunca conheceu os avós, e isso é muito giro. E então, todo este movimento, para mim, é uma coisa muito importante, porque primeiro os velhos, digamos, entre os velhos, como a Alice também costuma dizer, só gostam de falar de assuntos de velhos, que é as doenças, as viúvas, as coisas, não sei o quê. A Alice chegou a passar pela redação do "Sénior", que era um jornal.

Era exatamente isso que eu ia dizer. Quando nós fomos para o "Sénior" e só começávamos a fazer coisas de velhos, a Alice viu e disse: "Eu". Pronto, e depois o "Sénior" acabou.

Não, e este é um tema muito difícil de ser trabalhado, porque ninguém quer saber de velhos, nem os próprios velhos.

É, e depois os textos da Alice iam passar a ser aparelhos auditivos. E então achou que não, temos que ser inovadores. E então esta questão, agora fazem do diário de uma avó e de um neto em casa confinados, é no fundo uma viagem às memórias do país. Isto é muito importante, porque vão dialogando. Os miúdos também contam coisas à avó e explicam, e as avós também mostram coisas aos miúdos.

As pessoas gostam disto exatamente porque têm a visão de um tipo novo. Portanto, falo quando ela era miúda e tudo. E depois têm a minha, que sou mais velha. E não queira saber, mas isto tem uma leitura que nem queira saber. Nem queira saber as sugestões que nos dão ou que me dizem: "Ai, lembrava-me tão bem daquilo. Ai, ainda bem que falou naquilo". E dão-nos as sugestões: "Fale nisto, fale naquilo". Eu gosto muito de fazer isso, mas realmente as pessoas gostam também de lembrar o seu tempo. Mas sem saudosismo, nem pieguices, mas gostam de lembrar o que é que se fez. E a mim dá-me muito prazer também escrever aquilo, é verdade.

Sim, este é um projeto que está com os olhos postos no passado, mas é um projeto que não cheira a naftalina, é um projeto que está completamente virado para o futuro. Nós não nos podemos esquecer.

Não é "no meu tempo é que era bom".

Claro, nós não nos podemosEsquecer que os miúdos hoje em dia têm um mundo inteiro num telemóvel, e os telemóveis dão para tudo, até para fazer chamadas, mas que há meia dúzia de anos não havia telemóveis sequer. Mas ao mesmo tempo, os miúdos não se podem esquecer do que é uma carta, do que foi um fax e de outras coisas mais. E no fundo, é de uma forma alegre e divertida que trazemos estes assuntos para a ordem do dia.

Muito importante. E a questão também, por exemplo, aprenderem que a ponte 5 de Abril já foi batizada com outro nome, o que o Teatro Politama era e o Parque Mayer como é que era. Eu adoro aquela ideia, por exemplo, da Alice levar às escolas o Diário de Lisboa na altura em que foi todo cortado. A censura cortou tudo de primeira página, e então eram só receitas. Eu achei genial.

Foi lindo.

E depois também é fundamental o papel que os netos podem ter, e isto também vamos fazer nos nossos textos, de ensinar aos avós a importância da reciclagem, que é uma coisa que há uns anos cada vez tem estado a ter mais importância, mas que há uns anos atrás era muito posta de parte. E isto também é o que os netos vão partilhar com os avós, que é para os avós também mudarem um pouco a sua fundamentação que têm feito até agora.

Temos muito que ensinar aos netos.

Sim. Os netos também ajudam e ensinam os avós, por exemplo, como fazer reciclagem, as tais videochamadas, usar o WhatsApp, usar lives. E isso é muito importante.

Até porque num período de confinamento como temos estado a viver e não sabemos quando é que é possível viajarmos novamente em segurança, mas através de um computador, se a avó e o neto se sentarem, podem fazer uma viagem ao Louvre sem sair de casa. É preciso é que exista vontade de a fazer. E muitas vezes as pessoas acham que por haver uma grande diferença geracional, as pessoas não se encontram. Encontram-se se quiserem. Tem é que haver temáticas que sejam agradáveis para os dois lados.

Muito bem. E há uma coisa que eu gosto, Nelson, e vou te dizer também, e Alice, porque são os dois responsáveis, e isto também tem a ver com os retratos contados e com este movimento agora dos avós e dos netos. Primeiro, os avós são velhos cada vez mais tarde. Não sei se era a Alice ou se era o Nelson que me contavam que viram uma notícia em que dizia: "Uma idosa de 40 anos foi atropelada". Um jornal antigo.

Fui eu.

De 1930. Uma idosa de 40 anos foi atropelada. Não é possível! Mas eu estou a visualizar essas mulheres com 40 anos, vestidas de preto, com carrapitos. Eram outros tempos.

E que ficavam de lenço na cabeça. Se enviuvassem aos 30 anos, ficavam de lenço na cabeça e de meia e de colãs pretas para o resto da vida.

E nunca mais casavam, claro.

Exato. Mas há uma coisa que eu também tenho que dizer que gosto. Não só isso, porque as idades vão-se adaptando e os mais velhos cada vez estão mais novos nessas tecnologias, isso é bom. Mas assumindo, claro, a sua idade e o seu tempo, mas também as coisas, Nelson, e isso tem todo o mérito, são feitas sem paternalismo e sem apelo à comiseração. E isso é muito importante, porque hoje em dia fala-se dos velhinhos, coitadinhos, e não é assim. As coisas têm valor, têm o seu tempo, têm as suas técnicas, têm a sua maneira de ser e têm a sua experiência e tudo isso pode ser comunicado.

Claro que sim. E note uma coisa, envelhecer é um estado de alma. Nós podemos ter a idade que temos no cartão de cidadão, mas não temos que ter a mesma idade no nosso corpo e na nossa cabeça. E tens aqui o exemplo da Alice. Esta provavelmente será a última entrevista que ela faz com 77 anos. Ela faz 78 anos este fim de semana. Mas os 78 anos dela são só no cartão de cidadão. Quem a vê na rua, quem a ouve a falar agora, esta mulher não tem 78 anos.

De todo.

Esta mulher tem menos 20 ou 30 anos. E na cabeça a mesma coisa, na forma de estar. Se perguntares se ela está disponível para namorar ou para amar, ela está disponível. Por que não há de estar? Estás a perceber? É isso que as pessoas têm que compreender. E para mais, a Alice é daquelas pessoas que é muito prática e é tal e qual como eu gosto. É uma mulher com a idade que tem, ela nunca começa uma mensagem a dizer bom dia. Ela começa a mensagem a dizer aquilo que quer dizer. E acho que as pessoas têm que ser muito práticas.

Exatamente. Isso é muito importante. E é engraçado, porque isto de ser velho também é um paradoxo. Ninguém quer ser velho, mas todos querem chegar lá.

Todos querem chegar velhos.

Não, mas todos querem chegar velhos, é isso mesmo. Olha, eu vivi em Paris muito tempo com a minha prima, com a Maria Lamas, que era muito velha já naquela altura. E as pessoas diziam-lhe sempre: "O que me interessa é a juventude de espírito". E ela respondia: "Pois é, mas a juventude de espírito não me ajuda a descer escadas". Às vezes também é preciso o corpo estar um bocadinho mais adaptado.

Ajudar. Muito bem. Em novembro do ano passado, estamos a falar em 17 de novembro, foi condecorada pelo presidente, recebeu então esta grande oficial, agora é Grande Oficial da Ordem da Instrução Pública. Mas já antes uns meses, em junho, tinha lá ido com o Nelson, porque o presidente quis saber que projeto era este que une o passado, o presente e o futuro. Muito importante.

É sim. O presidente é meu amigo há mais de 20 ou 30 anos e está sempre a meter na minha vida.

E com a fase ele vem?

A sério. Eu lembro-me que há tempos houve uma homenagem ao meu marido, não sei o quê, e ele: "Então, uma homenagem ao teu marido e eu não sei nada?" Eu assim: "Calma!"

Ciúme.

Ele está-nos sempre a chamar para estas coisas e ainda bem, porque ele estava muito interessado realmente também.

Sim, é verdade. Estávamos a falar de um presidente que sempre foi chamado do presidente dos afetos. É óbvio que quando fomos lá chamados, foi mesmo para explicarmos ao senhor presidente o que estamos a fazer pela valorização dos mais velhos. E o presidente mostrou-se muito solidário com o nosso trabalho e muito disponível para aquilo que houvesse disponibilidade da parte dele e tempo, que nem sempre existe, em estar presente em alguns eventos que nós queremos organizar quando esta pandemia terminar.

Depois veio a pandemia, ficou tudo parado.

Mas vai retomar e estamos quase a sair disto. O que é preciso é ter esperança, e cansei-me eu de dizer isto à Alice, que é a pessoa mais otimista que eu conheço, com 77 anos e que faz 78 este fim de semana. Pronto. Diário de uma avó e de um neto em casa, confinados. Fica já esta dica para as pessoas seguirem e acompanharem, no fundo, esta viagem às memórias do país e à História, que é muito importante. Projetos para este ano. Nelson, falas de uma grande exposição que vais ter com fotografias de habitantes de 24 freguesias de Lisboa, espero que isso se concretize.

Quero muito fazer uma exposição com os velhos ou com os mais velhos das 24 freguesias de Lisboa, com os netos. Ou seja, no fundo, o que nós queremos é celebrar o fim da pandemia, em que os netos estiveram separados dos avós. Então nós, através desta exposição, queremos celebrar a união.

A união, a reunião. Sim. E também a Academia do Bem-Estar, é uma coisa que tu estás em mãos. A Alice, que em 79 escreveu o "Rosa, Minha Irmã Rosa", prepara-se para escrever em 2022, "Alice, Minha Avó Alice". E esta foi a maravilhosa última entrevista aos 77 anos e se calhar a última entrevista aos 30 do Nelson, que eu quero agradecer muito a vossa companhia, Alice Vieira e Nelson Mateus.

Gostei muito de ouvir outra vez, já há muito tempo que não falava.

É verdade. Bem-hajam pela vossa disponibilidade. Nelson, diz.

Apelar a todos para nos seguirem nas redes sociais Retratos Contados e Alice Vieira Escritora, que é onde podem encontrar todos estes testemunhos que vamos publicando praticamente diariamente.

Muito bem. Quero agradecer a vossa disponibilidade para estarem aqui em direto no Observador. Boa sorte para os vossos projetos, para vossos livros, exposições e atividades, a solo ou na banda. Muito obrigado pelo exemplo de ambos. Muito obrigado e mantenham-se seguros. Até breve.

Obrigado igualmente.

Obrigada.

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