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É algo que eu tenho aqui dentro, que está associado ao movimento, como tu disseste há pouco também, em que eu acredito que a solução é sempre pra frente e não pra trás. Não sei se me faço entender. E eu tenho todas essas emoções negativas à minha volta, desde a dor, o medo, o receio, a ansiedade. Imagina, quando eu estava a 8400 metros no Everest e cai uma tempestade e eu já nem sei se consigo voltar pra trás, quanto mais chegar lá em cima. E ali ninguém te vai buscar e estão -40 graus negativos e ventos de 100 km/h, tu tens que ter qualquer coisa dentro de ti que te faz continuar.
O que se pode dizer do Pedro Queiroz? É a segunda vez que vem cá. Ele esteve cá há quatro anos, um mês depois de se tornar o sexto português a conquistar o Everest. Entretanto, ao longo destes anos, tem feito mais coisas, mas o motivo principal de ter vindo é porque tem aqui um livro que ele editou agora, foi lançado, aliás, em dezembro do ano passado, "A Última Chamada para o Everest: uma história real de coragem, amor e redenção". É um tijolo de bolso, muito grande, com 600 e não sei quantas páginas, 650, 670 ou 680 páginas. E de facto, este lisboeta de quase 45 anos, que é empreendedor, radicado em Teerão, ele vive, aliás, entre Teerão, Lisboa e Katmandu, que ainda é exportador de pistachos e consultor de negócios. É um dos 14 portugueses que moram em Teerão e aventureiro humanitário. É sobretudo o que ele é, um aventureiro humanitário, além de marido fiel e pai extremoso do Vicente, já vamos falar disso. Tem este lema de vida, o movimento, e sobretudo este grande lema profundo da sua alma, que é: "O que eu puder fazer pra ajudar o outro é bom, torna este mundo melhor, a mim próprio e ao mundo inteiro." E ele tem conseguido isso. Depois de ter estado cá há quatro anos, depois de ter subido o Everest em 2022, já viveu mais aventuras, nomeadamente três. Uma que foram as 50 maratonas em 50 dias no Japão. Fez depois uma integrada na Run for Peace, que ele já vai falar do que é, estas 100 maratonas em 100 dias. E agora mesmo, há muito pouco tempo, contornou o Lago Lehmann na Suíça, também em 170 e tal quilômetros, quase 180 quilômetros. Os últimos 42, portanto, uma maratona inteira, fez descalço. Tudo isto pra angariar dinheiro, pra ajudar as suas causas e as causas que vai falar e que nós estamos muito curiosos de saber como é que vai esta vida, como é esta estranha forma de vida que tu tens, Pedro. Bem-vindo, mais uma vez.
Muito obrigado, João Paulo Sacadura. As tuas descrições e a pesquisa que fazes com os dados extremamente rigorosos, fico sempre tão contente. É uma excelente maneira de começar a entrevista.
Obviamente.
Obrigado à Rádio Observador e pelo teu convite ao Convidado Extra. E de facto, essa frase tão bonita do nosso fado e da nossa cultura, "que estranha forma de vida", pra mim acaba por ser a vida normal, a vida que eu escolhi. A vida que nós somos, que escolhemos fazer.
Há uma década que começaste neste caminho.
Esta vida humanitária, de viver grandes aventuras pra recolher fundos, começou logo após o terremoto de Katmandu, que foi no dia 25 de abril 2015. Já passaram 11 anos e desde aí já fiz caminhadas na Índia, já subi várias montanhas e como disseste bem, o Monte Everest em 2022. Também me dediquei ao atletismo, a atravessar o Japão a correr, em grande honra. O ano passado, 100 maratonas em 100 dias, desde a Praça do Comércio até o antigo campo de concentração Auschwitz. Projeto muito marcante. E isto dito assim, parece algo surreal, não é? Correr de Lisboa até a Polônia, subir ao Monte Everest. Alguém que vem de Lisboa, que transforma um terremoto, uma tragédia nesta oportunidade, mas é tudo derivado, e como tu disseste, e bem, ao propósito. Eu encontrei o equilíbrio naquilo que eu vi na tragédia que se seguiu ao grande terremoto, as pessoas perderam as suas casas, as pessoas esfomeadas, as pessoas sem esperança, e fui vendo essa realidade em mais lugares do mundo. As desigualdades, as injustiças, e qual paladino, qual guerreiro ou qual ser humano normal, digamos assim, porque eu acho que ajudar é algo que pode ser considerado estar dentro dos nossos genes, é algo que nasce conosco.
Nosso DNA.
Sempre que nós ajudamos alguém, seja a nossa mãe a fazer qualquer coisa, seja o nosso vizinho, eu acho que nos sentimos bem.
É a dopamina, como tu dizes.
Exatamente.
Quando estressamos, é o cortisol. E quando estamos bem e fazemos bem, é a dopamina. Há por isso que há que perdoar e há que amar.
E eu reencontrei-me nesse sentimento, mas tive que encontrar veículos pra eu fazer, porque eu tenho a minha vida familiar, tenho a minha vida profissional, tenho a minha vida acadêmica. Eu moro na Suíça hoje em dia e estou a fazer uma mestrada em desporto, mas eu tive que arranjar formas de prosseguir aquela ajuda que eu tinha começado em 2015. E o desporto, que é uma das minhas grandes paixões de vida, e as aventuras humanitárias, superar grandes desafios físicos, emocionais e espirituais, numa lógica do impossível, de inspirar as pessoas também elas próprias a superarem-se, porque o Pedro é apenas aqui um veículo. Eu faço parte duma grande comunidade de família, de amigos, tu próprio, que já tens divulgado e apoiado muito, e muitos amigos em comum que temos, de pessoas que vêm correr comigo, de pessoas que fazem donativos, de pessoas que partilhamIsto para mim é tudo uma grande alegria, uma grande inspiração.
É muito giro tu fazeres essas coisas, Pedro. Imagina que fazes um grande ato ou fazes esta grandessíssima manobra, esta grande maratona para angariar, e as pessoas assistem, veem, acompanham-te no Instagram, tens um Instagram fabuloso. As pessoas acompanham-te e depois doam e cumpres o teu objetivo. Mas tu desafias muito as pessoas, isso é que é giro. Acabas este livro a dizer: "Qual é o teu Evereste?" E é um bocado: "Qual é o seu Evereste? O que é que pode fazer para ajudar? Não basta dinheiro, tente superar-se, já pensou até onde é que pode chegar? Se fizer um bocadinho mais, se calhar apoia mais, chega mais longe, chega a mais gente". É extraordinário, porque empurras-nos para fora e isso é muito bom. É a diferença entre ti e um normal aventureiro humanitário, que eu acho que conheço, que só faz aquilo por ele. Também pelas causas, que é muito importante, mas que não puxa pelas pessoas que assistem. E tu puxas. Isso é muito giro.
Essa observação é muito interessante. Nós vivemos em sociedade, João, e muitas vezes precisamos da ajuda uns dos outros, inspiramo-nos uns nos outros, aprendemos com os nossos pais. A nossa família é o primeiro meio onde nos ensinam o que é o bem, o que é o mal, os comportamentos em sociedade. Mas à medida que vamos crescendo, vamos entrando em um conjunto de normas e regras que devemos respeitar, obviamente. Mas depois, existe algo dentro de nós, que todos os ouvintes deverão saber do que eu estou a falar, chama-se a nossa consciência, chama-se o nosso coração, e nós se não tivermos o coração cheio, o resto não funciona. É mesmo muito importante alimentarmos essa parte. E eu senti a determinada altura que as minhas escolhas estavam a me trazer um grande equilíbrio. E eu refiro-me às escolhas, seja daquilo que eu como, o desporto que eu faço. Ainda esta manhã corri 16 km, agora estou aqui contigo na Rádio Observador. Dou muita atenção à minha família, dou muita atenção aos meus pais. Trabalho muito este livro, que estavas aqui a me mostrar agora. Portanto, eu tenho muita sorte de perceber aquilo que nós devemos fazer para concretizar os nossos sonhos e objetivos. E muitas vezes, aquilo que eu tenho olhado à minha volta, e pessoas que veem TV comigo também, é tentar perceber que fórmula é esta. Mas eu também acho que cada um deve encontrar o seu caminho, porque os meus sapatos não vão caber nos teus pés ou nos de outras pessoas, porque todos nós temos backgrounds diferentes, todos nós crescemos em bairros diferentes, em cidades diferentes e temos diferentes valores, diferentes religiões e diferentes formas de estar na vida. O que eu procuro fazer nem é tanto dar conselhos, mas é mostrar às pessoas, pelo exemplo, que elas próprias também se conseguem superar e também conseguem sonhar e também conseguem chegar lá. E é muito engraçado, que eu recebo mensagens, que para mim representam uma grande responsabilidade, e esta palavra responsabilidade é muito importante para mim, de pessoas, sejam mais novas ou sejam mais velhas. Eu tenho ido falar a escolas, vou falar a empresas e as pessoas veem sempre TV comigo e dizem-me: "Pedro, eu deixei de fumar por tua causa, eu comecei a correr, eu vou lutar pelos meus sonhos, eu quero fazer do mundo um lugar melhor". Portanto, o meu objetivo é sempre concretizar os meus sonhos, é ajudar o próximo. Eu tenho o meu caminho, mas dado que nós fazemos parte desta sociedade, o meu grande objetivo é deixar sementes de fazer o bem. Esse é o meu grande objetivo.
Há uma coisa muito gira, Pedro. Tu com este livro, e por isso é tão grande, falas das maratonas, dos treinos, da tua ida pro Quénia e por que treinar lá, e falas da tua infância e de quando ias para a Penha Nova, a tua família da Amora Alta, os avós, as casas deles, os pátios. Falas em casa com os teus pais, que em vez de uma oração antes da refeição, liam a introdução aos Maias ou o que fosse, que é tão original, achei isso tão giro. Eu o que fiz, lia coisas de aprender a falar português, erros. Desde pequeninos que tínhamos sempre esta coisa dos erros típicos. O que a gente deve dizer em vez de. Pronto, era morrer a rir. Mas estas ideias que vais pondo e vais mostrando, e como foste assaltado na escola, como dizia, de faca e garfo. Uma vez foi com uma faca, outra vez foi com um garfo. Portanto, eu acho que foste assaltado de faca e garfo.
Os talheres. Eram usados muito os talheres nas assaltos.
Os cromos da Panini, que és louco pelas coleções de cromos que tu fazes, eras um grande colecionista também.
Continuo a ser.
Continuas a ser. E é tão engraçado isso, eu penso é que a tua chamada, oiçam, nós todos somos o elo de uma cadeia e se a cadeia se rompe, se nós não cumprimos o nosso papel, a cadeia fica rota. Nada substitui cada pessoa com a sua individualidade, com a sua personalidade. E tu mostras com as tuas qualidades e os teus defeitos, também falas, isso é muito importante neste livro, dos falhanços e das coisas que não correram bem, e da dor, e por que a dor pode ser importante e pode ser superação. É muito curioso isso. Provas que qualquer pessoa, mesmo com vida complicada, tu não foste um santo desde que nasceste, não, de todo, pode fazer a diferença com as tuas particularidades, os teus ativismos e as tuas idiossincrasias, a tua maneira de ser. Isso é muito giro, porque é muito humano. A pessoa lê o teu livro e identifica-se muito contigo, com o teu esforço. "Eu também sou capaz de fazer isto. Isto até corria melhor comigo".
Humanizar um bocadinho a coisa, não é?
Humanizar. E tu consegues muito, que é muito importante. Tenho que perguntar isto a propósito da tua família estar de volta a Teerão, a Ghazal, tua princesa persa, e o teu filho Vicente, já um matulão, que estão de volta lá a Teerão. E a minha pergunta é: como é que tu passaste, tendo lá a mulher e o filho, na altura em que começou esta confusão toda com os Estados Unidos, tinhas o coração nas mãos? Sofreste com isso? Eles estavam bem? Estavam seguros?
É sempre uma aflição.
Porque é um pau dos bicos, não é, como tu dizes.
Exatamente. Quando nós ouvimos falarDestas questões que a nossa família está em perigo, às vezes parecem questões que são distantes. Mas neste momento era a minha mulher e o meu filho que estavam sob ataque. Eu, quando mudei para Teerão em 2017, até 2024, não houve ataques diretos à cidade, mas houve ameaças e houve outras partes ali do país que também foram atacadas. Portanto, eu também já senti na pele um bocadinho o que é começarmos a receber mensagens da nossa embaixada e voos de evacuação do país, e a inflação a subir, e a falta de alimentos nas lojas. Mas se houve coisa que eu aprendi é que esta situação de guerra e conflito que existe ali naquela região, que é uma região que infelizmente é muito afetada por todos os problemas que nós sabemos, religiosos, políticos, muitos que vêm de sítios já que nós não conseguimos identificar e perdemos o fio à meada. Mas é algo que já é considerado um bocadinho rotineiro, João. É algo que já é considerado um bocadinho normal. Eu não vou dizer que cair um míssil ali no quintal já é algo normal, mas os iranianos, e eu também, já temos essa resiliência para não entrarmos em pânico. Existe o lado emocional, existe ali um risco. Quando o Irão foi atacado em junho de 2025, eles foram para uma propriedade que a família deles tem a 1000 km sul de Teerão, que é uma propriedade de pistáchios, que é onde nós compramos os pistáchios que vendemos depois. Eu tenho uma marca de pistáchios chamada Os Pistáchios Ghazal. Não sabe é nada mau.
Nada mau. Eu já provei e são de facto deliciosos.
São deliciosos. Tenho tido alguma dificuldade de exportação para Portugal, espero que no futuro consiga trazer mais. Mas essa área é muito isolada e não há muita indústria ali e não há quartéis. E eles foram para lá nessa altura. Mas desta vez, no dia 28 de fevereiro de 2026, eles estavam em Teerão e a decisão foi irem de carro até a Arménia, passar a fronteira com a Arménia, porque o Irão tem fronteira com nove países.
Com o Iraque, é impressionante.
Incluindo aqueles que fazem fronteira pelo Mar Cáspio, como a Rússia, e temos o Azerbaijão, e temos o Iraque, e temos o Paquistão, e o Afeganistão e a Turquia, mas muitas fronteiras estavam fechadas. E qual é que foi o nosso plano? Foi a Ghazal, uma mulher de armas, mais uma vez.
A que te ensinou a não ter medo, é extraordinário.
Uma mulher que me inspira e que toma conta de todos nós e que tem uma coragem incrível.
Nota-se no teu escrito.
Com o Vicente e com os pais dela, que já não têm a mobilidade necessária para embarcar em aventuras destas, e com várias malas atrás, foram de carro até à fronteira com a Arménia durante a noite. A última secção muito montanhosa. Para atravessarem a fronteira, nem sequer tinham garantias nenhumas, mas lá conseguiram e tiveram que atravessá-la a pé. Foi 1 km com todas as malas atrás. Não temos fotografias, mas a Ghazal diz que o nosso Vicente levou as malas e que estava ali a empurrar as malas, sem saber que era uma situação de guerra, obviamente, nós protegemo-lo ao máximo. Ela faz da vida dele, nestes momentos, uma espécie de "A Vida é Bela", aquele filme muito famoso em que aquela criança nunca sabe que está num campo de concentração. E depois mais sete, oito horas até à capital da Arménia, Ierevane, e depois voaram para Londres, onde passaram dois meses. Mas agora, como disseste e bem, os voos reabriram e eles decidiram voltar para Teerão, porque Teerão é que é a nossa casa. E muitas vezes as pessoas pensam ou dizem: "Mas tira-os de lá, mas lá não é seguro." Mas a nossa família está lá, os brinquedos do Vicente estão lá, os nossos amigos, e não há nada como a nossa casa. E, portanto, mesmo estando em Londres numa situação de refugiados, digamos assim, claro que era uma gaiola dourada, não estamos a falar de refugiados de Gaza ou de uma situação mais complicada em termos de guerra.
Já tinham morado lá com os pais. A família já tinha morado em Seul.
O meu cunhado mora em Londres, eles ficaram em casa dele agora. Mas eles já tinham morado em vários países, portanto, essa situação é um bocadinho normal para eles. Mas a nossa casa é a nossa casa, João.
E uma vez também disseste que um dia, mais tarde, gostavas de voltar a fixar em Portugal. Isso manténs ainda?
Um dia, mais tarde. Para já, eu agora ainda estou a escolher o meu próximo destino também. Estou à procura de uma oportunidade nesta área do desporto, seja como empreendedor, seja a trabalhar para uma grande organização.
Tens ido muito para Lausanne também por causa do curso?
Exatamente. Eu passei os últimos nove meses em Lausanne.
Com muitos contactos com o Comitê Olímpico.
Que é a capital olímpica. Na Suíça é onde ficam todos os órgãos de governança internacionais a nível desportivo. Temos a FIFA, a UEFA, a FIBA, o Tribunal do Desporto, temos a Autoridade do Doping Internacional, a Federação Equestre, temos a FIA, temos todos os órgãos de governança. Eu aprendi muito nessa área, mas eu gostava de estar mais ligado aos atletas, às ligas, aos eventos. E também esta parte de muito daquilo que eu tenho feito, João. Como sabes, eu tenho usado o desporto para fazer do mundo um lugar melhor. Tenho usado o desporto para recolher fundos. Chama-se a esta área o Sports for Development, que é no fundo departamentos dentro de organizações como os clubes, ou como a organização de eventos, ou as próprias fundações queTentam desenvolver as comunidades locais e promover a sustentabilidade e a responsabilidade social. E eu gostava de estar ligado, de certa forma, a essa parte do usar a atividade física, porque o desporto é uma linguagem universal.
É.
Independentemente da cultura, da religião, é uma área que liga as pessoas.
Mas os clubes que tenho ideia, por exemplo, também tiveram sempre um bocadinho esse departamento, não foi? Eu vejo os apoios à Terra dos Sonhos, ou este tipo de instituições.
Mas não há muito orçamento ainda dedicado a esta área. Há muitos limites em termos de regras, em termos daquilo que as organizações ainda conseguem fazer. E eu, João, como sabes, sou um sonhador, gostava de ser um raio de luz neste meio que precisa de inovação, precisa de coragem para conseguirmos fazer a diferença. E de facto usarmos o desporto, usarmos uma bola ou usarmos um taco, ou usarmos um arco e flecha, ou usarmos seja o que for, para que estes miúdos possam ter referências, para que possam ter mais oportunidades. E no fundo, a atividade física, que promove não só a saúde, mas que também promove comportamentos sociais em termos daquilo que é o desporto em equipa, respeito pelos adversários. Eu acredito muito nisto.
Muito bem, Pedro Queiroz, vamos fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já. Estamos a falar com Pedro Queiroz. Ele é um aventureiro humanitário e tenho aqui nas mãos o grande livro que ele lançou através da Primeiro Capítulo, da Atlantic Books, este "Última Chamada para o Everest: Uma História Real de Coragem, Amor e Redenção", de Pedro Queiroz. Já sabe, um livro bem recheado com 78 fotografias e seis capítulos onde vai desfiando as suas memórias. E foi por isso que eu li, porque me agarrou desde a primeira página. O desafio extraordinário que é subir o Everest, com tudo o que isso implica de treinos, de peripécias que foi vivendo. Já falámos um bocadinho disso da outra vez que ele esteve cá há quatro anos. É um grande prazer tê-lo de volta. Queria falar um bocadinho destes teus projetos desde então. Usas o desporto para apoiar causas e mudar a sociedade. Em 2024, entre março e abril, fizeste estes 50 dias, 50 maratonas no Japão, para angariar 8 mil euros, metade para a Dreams of Kathmandu e a outra metade para a comunidade Vida e Paz. Foram 2071 km, 223 horas e dois minutos. Eu adoro isto. E de facto foi uma prova extraordinária. Queria que juntasse a isto este Run for Peace, das 100 maratonas em 100 dias, que fizeste já no ano depois, entre Lisboa e Auschwitz, para apoiar o Nepal e a paz neste conflito Israel-Palestina. Houve um destes, não sei se foi este ou se foi este ano, do Lake Project, que almejavas 10 mil euros, conseguiste 20 e tal mil. Não foi o dobro do que querias?
Conseguimos dobrar o valor.
Em vez de ir 2000 € para cada uma das cinco ações que tu ias apoiar.
Mais de 4 mil.
Deu 4 mil para várias. É extraordinário.
E nas 100 maratonas em 100 dias, conseguimos 103 mil euros, que é um valor absolutamente abismal e que permite ajudar muita gente. É verdade, eu fui crescendo os meus projetos sempre numa lógica gradual. Imagina, eu comecei a subir montanhas de 5 mil metros, depois de 6 mil metros, depois de 7 mil. Sempre a cometer muitos erros, a testar os equipamentos, a testar os meus limites, mas sempre nesta crença de que poderia aprender, que poderia chegar mais alto, rodeado das pessoas certas, da minha família, que me apoiava muito, e sempre a tentar também ajudar cada vez mais gente. E muitas vezes eu tive dúvidas, eu tive receios, eu tive medos de pensar: "Será que é este desafio que eu não vou conseguir? Será que eu me vou magoar?"
Este último, do Lake Project.
42 km descalço, os últimos.
A última parte foi uma maratona inteira descalço. Ficaste com os pés desfeitos, porque tenho fotografias de tu a ser recuperado.
Exatamente. Já passaram 34 dias, ainda tenho algumas marcas nos pés. Já voltei a correr, felizmente. Mas é verdade. Eu fui ganhando esta noção de como é que eu devia preparar os meus projetos, como é que os devia apresentar, mas principalmente, isto é que é um grande segredo, que eu quero dizer aqui também à Rádio Observador, que é como é que eu me coloco perante mim próprio e como é que eu idealizo estes projetos. E há uma palavra aqui que é fundamental, que é: eu tenho que me colocar sempre numa perspectiva de impossível para mim. Porque se eu achar que conseguisse fazer essas 100 maratonas, se eu achasse que conseguia fazer os 42 km à partida descalço, se eu achasse que conseguia subir o Everest, atravessar o Japão a correr, eu não conseguiria comunicar da mesma maneira, inspirar as pessoas ou fazer eu próprio acontecer as coisas. Ou seja, eu tenho, à partida, que ter uma condição de achar que o projeto é impossível. E como deves imaginar, quando tu lês no Instagram ou recebes um e-mail meu, fazendo parte desta minha comunidade, e diz assim: "Vou correr 100 maratonas em 100 dias para angariar 100 mil euros". Qual é o primeiro pensamento que vem à cabeça, por exemplo?
É: "Este é louco".
É louco.
Isto não é possível.
Isto não é possível.
Já 50 eu achava que não.
Eu próprio também sinto isso. E mesmo quando eu cheguei à maratona 99, eu ainda não sabia se conseguia completar a última. Imagina o meu estado psicológico quando cheguei à maratona 17 e me faltavam ainda 83. Eu próprio, subir o Everest, que acarretava um risco de vida também.
A zona da morte na parte final é incrível.
E portanto, existe esta parte em que eu tenho que me colocar nesse lugarE isso aliado ao propósito humanitário, como tu disseste bem. Eu comecei a ajudar o Nepal, mas já passei para causas portuguesas também. Já me envolvi com a comunidade Vida e Paz. É incrível poder ajudar a comunidade de sem-abrigos em Portugal. É incrível chegar lá e conseguirmos, através da comida, falar com eles e trazê-los para uma realidade mais digna. Recentemente, com este projeto, fiz os 180 km na Suíça, 42 km descalço. Eu queria angariar 10 mil euros em dois dias. Era muito ambicioso. E mais uma vez, eu achei que conseguia 3 mil, 4 mil, 5 mil, mas sozinho, enquanto fazia o planeamento, eu disse: "Não, Pedro, tu tens a obrigação, tu tens este poder, tu tens a capacidade de te superar e de inspirar os outros".
Aponta para os 10 mil.
Fui para os 10 mil e conseguimos 20 mil. Quando eu me coloco nesta posição de objetivos que são impossíveis, eu torno-os possíveis e ainda vou mais além. E só para divulgar, já agora, que ainda consegui ajudar mais organizações portuguesas e com muito orgulho, a APAV, a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima.
Tão importante.
Mundo Novo, a Corro pela Maria.
O Dino Santiago, minha querida Liliana, que estiveram cá.
Exatamente.
Grandes pessoas também.
O Dino Santiago, da Helena Vale Passos, a Corro pela Maria da Sónia Rochete.
Como é que tu conjugas essa coisa do "quero metas impossíveis", à partida para mim, "eu acho que isto vai ser impossível, mas vou tentar, vou dar tudo por tudo", com a questão de às altas dizer: "Pedro, se tu sentires, como já te aconteceu, que tu não vais ser capaz, estás quase no topo e que não vais conseguir, que tu podes morrer na coisa, não o faças". E tu prometeste voltar nesse momento.
Certo.
Há aqui uma coisa difícil de conjugar.
Existem aqui duas questões muito importantes. A primeira é que eu aposto muito na preparação e no conhecimento. Falo disso neste livro, "Última Chamada para o Everest". Gasto um capítulo nele, que é o capítulo cinco, antes do ataque ao cume, em que eu falo muito sobre a forma como eu faço a gestão das minhas emoções e como eu uso a preparação do ponto de vista de pôr as mãos na massa, e como eu, se quero subir uma montanha, vou subir outras montanhas antes e experimento o equipamento. A parte do conhecimento em que eu leio muitos livros, vejo muitos documentários, procuro me informar ao máximo.
No fim está uma bibliografia brutal. Conseguimos a ver, livros a ler.
De perceber toda a informação sobre aquele assunto e tornar-me um especialista. Dizem que nós precisamos de 10 mil horas para ser especialistas.
Que para adquirir conhecimento, que é muito, sim, exatamente.
E isto é fundamental para mim.
Isso corresponde a três anos e meio, oito horas por dia. Eu reparei isso no teu livro.
Não deixarmos a coisa à sorte, não apostarmos em coincidências. Eu tento preparar-me ao máximo para chegar aos grandes momentos e poder marcar golo.
São coisas complicadas, são desafios humanos, limite de vida.
Portanto, eu tento, quando chegar lá, quando chego ao sítio, escalar a montanha ou correr as semaratonas, estar preparado para que a coisa corra da melhor forma possível, mas depois também existe a questão da dor, e dos medos, e do receio, e do frio. E eu tenho passado muito por isso. Eu tenho passado muito por isso e é neste momento que acontece qualquer coisa aqui dentro, que eu não sei explicar muito bem ainda, João, que é algo que já nasceu comigo.
Que empurra.
E que eu não sei se é intuição, eu não sei se é Deus, eu não sei se é o amor, eu não sei se é a minha inspiração, se é a família.
É uma força motriz de qualquer modo.
É o propósito, mas é algo que eu tenho aqui dentro, que está associado ao movimento, como tu disseste há pouco também, em que eu acredito que a solução é sempre pra frente e não pra trás. Não sei se me faço entender. E eu tenho todas essas emoções negativas à minha volta, desde a dor, o medo, o receio, a ansiedade. Imagina, quando eu estava a 8400 metros no Everest e cai uma tempestade e eu já nem sei se consigo voltar pra trás, quanto mais chegar lá em cima. E ali ninguém te vai buscar e estão -40º negativos e ventos 100 km/h, tu tens que ter qualquer coisa dentro de ti que te faz continuar.
É o ikigai.
É o ikigai, exatamente.
Que tira do teu livro.
Exatamente.
A simbiose entre a missão, o objetivo, o propósito.
E eu sinto qualquer coisa aqui dentro de mim que me protege de todas estas emoções negativas e que é o amor, é a preparação, é o conhecimento, é a comunidade, é o meu filho Vicente. E tudo isto junto cria-me aqui uma fórmula. Eu não quero dizer às pessoas: "Olha, faça o mesmo, vocês podem". Isto não é como fazer um bolo, 400 g de farinha, dois ovos e tal. Mas existe uma forma, porque não só eu, mas outros seres humanos já provaram que é possível chegar mais longe.
A importância do testemunho, do exemplo.
E que é possível chegarmos às estrelas. Às vezes tentamos e falhamos, mas se nunca tentarmos é que não vamos conseguir.
Exatamente. Esta "Última Chamada para o Everest: uma história real de coragem, amor e redenção", Pedro, isto é só o primeiro capítulo, se pode comprar em qualquer livraria?
Neste momento, sim. Em qualquer livraria.
Ou as pessoas podem ir ao teu site e ver isto, por exemplo?
Sim, eu tenho um site, o www.pedroqueiros.com, onde vocês podem ler sobre todas as aventuras e a minha biografia e várias mensagens de destaque que já saíram.
E para ajudar, se quiserem colaborar.
E para ajudarem. E podem comprar não só este livro, mas outras obras que eu já escrevi no passado. Este em concreto vai estar agora na Feira do Livro, também, no pavilhão da Atlantic Books. Eu vou estar lá também a falar no dia 7 de junho, às 14h, a dar autógrafos e a conversar um bocadinho com toda a gente. É um grande orgulho. E podem pesquisar também na FNAC, e na Bertrand, e na Wook, e na Amazon. Este livro está em todo lado e vai ser traduzido agora pra inglês.
Boa, parabéns.
Também para chinês e persa, em princípio. E fiz um contacto esta semana para a tradução em espanhol.
São 624 páginas, não vai ser rápido.
Vou tentar espalhar este livro pelo mundo.
Duraste mais dois anos a escrevê-lo. Foi uma catarse pra ti?
Eu demorei dois anos a escrever este livro, eu mergulhei completamente nesta obra. Eu adoro literatura.
É imperativo escrever, dizes aqui. Tu dizes aqui às tantas: "É imperativo escrever isto".
Escrever, ainda por cima uma história verdadeira, é escrevermos cartas ao nosso eu do futuro.
É tão giro.
Este livro tem muitas partes.
E também para o teu filho.
Este livro é para o meu filho, completamente. E para os meus netos, e para tudo.
E ao Vicente.
Ele é dedicado à Gazal e ao Vicente. Mas eu quis deixar em registo escrito, João, duas narrativas paralelas, que é as tais 680 páginas que tu falas aqui. São seis capítulos, dos quais três são a expedição em si. Do momento em que eu vou de Teerão para Katmandu e depois vou para Lukla, nos Himalaias, chego ao campo base, ultrapasso a cascata de gelo de Khumbu, que é a secção mais terrível da montanha, e fico 40 dias na montanha chegado ao cume, a descida. Mas depois há outra narrativa em que eu falo sobre a história do Everest, a coragem imável de homens do passado, como George Mallory, como Tenzing Norgay Sherpa, que são os meus heróis, e que quebraram barreiras, tal como Neil Armstrong.
Exatamente. Aqui nesta área.
Destes homens que chegaram.
Até 1950, tu contas aqui, nenhum destes 14 picos-
Tinha sido explorado. Portanto, eu sou apaixonado pela história da montanha. Exatamente. E falo sobre isso. E depois também falo sobre quem é que é este homem que chega ao cume do Everest e como é que ele se preparou, se calhar, desde o dia em que nasceu. Porque eu tento explicar tudo aquilo que me inspirou, desde os meus professores da primária, desde a minha família, desde a universidade, tudo aquilo que eu vi que era novo e que era antigo, e tudo aquilo que me inspirou até ao dia em que eu pus estes pés que estão aqui, dentro destes sapatos que estão aqui comigo, porque isto é muito simbólico para mim, quer dizer, saber que pisei o topo do mundo.
É incrível.
Como o sexto português.
O sexto.
Que quis cumprir este sonho, que viveu este terramoto em Katmandu. Nessa altura, eu falei disto há quatro anos, eu fui a Katmandu para ver o Everest e torno-me numa pessoa que sobe o Everest.
Como é que conseguiste largar?
E portanto, esta narrativa é muito engraçada, porque é a expedição em si, mas é o antes da expedição também e toda a história da montanha e toda a preparação e conhecimento. Portanto, é um livro muito completo.
Tem esta parte extraordinária da carta de despedida que tu escreveste para a Gazal, devo falar disso. É muito comovente.
Isso é muito comovente.
Uma carta toda molhada em lágrimas, que nunca chegou ao destinatário, graças a Deus. Os reis do Dreams of Kathmandu, o Vicente tinha três anos. Rapaste o cabelo, contas aqui, eu não sabia.
Nunca tinha feito.
A despedida dos teus sogros. "Até daqui a cinco minutos, vemo-nos em cinco minutos". É tão bonito esse ritual.
É verdade.
Mas é lindo. Falas desta cascata de gelo extraordinária, onde tem mais de 50 mortes nos últimos 100 anos.
Secção mais mortal de todo o Everest.
Que infelizmente foste encontrando pelo caminho. O sexto português conseguiu. O medo que tu tiveste de morrer, as horas mais difíceis da tua vida, caíste numa fenda de gelo, os quatro corpos que foste encontrando pelo caminho.
Os cadáveres.
Os cadáveres, as doenças. Há uma parte muito gira que tu explicas as doenças: a doença de altitude, o frostbite, a febre do cume, a síndrome do terceiro homem, a fotoceratite, cegueira da neve, as avalanches, tudo o que pode acontecer, os engarrafamentos, o lixo incrível que existe no Everest, que as pessoas não têm noção. Por isso é que eu gosto, que os nossos olhos viajam contigo para ver aquilo que, de facto, é extraordinário. O que tu suportaste, as insônias que tiveste.
86 horas acordado.
O grande conflito que tiveste com o Nuri Sherpa, isso também foi uma coisa que me marcou muito, esta questão de como é que se despede, quase a chegar ao topo, um dos Sherpas que vai contigo e fica com o outro herói, o Mingma, teu grande amigo.
Sherpa dos Himalaias.
Que não te largou e disse: "Pedro, a partir daqui vais sempre comigo". O sossego que isso te deve ser, quando tu já estavas desesperado, até as necessidades, como é que se fazem, beber a neve derretida, sim ou não. É extraordinário, nós vivemos isto contigo e isso é muito bom. Subo logo existo, no fundo, este lema também deste livro. E o pós também é muito curioso, que eu nunca tinha ouvido falar, o pós-escalada, a tosse de Khumbu e com essa sensação de o difícil é recuperar, descer e vir contar a história, que às vezes não é chegar lá cima, mas é o depois, quando é o teu Everest. É extraordinário o que tu contas aqui, é um desafio, de facto, nas capacidades nossas, é muito inspirador, Pedro. E eu sei que os ossos desta tua estrutura vêm muito destes valores que tu falas. É impossível não virem. A família, a Gazal, o teu filho, tudo isto são coisas que te empurram e que te moldaram todo o teu corpo. E tu hoje aguentas tudo.
Não há impossíveis.
Não há impossíveis e consegues. E isso é o testemunho, cá está a importância do testemunho. Eu, como católico, tenho muita noção disso. É a questão dos exemplos dos santos, as vidas das pessoas que chegaram mais além, que foram tão pecadoras ou mais que eu, mais que eu é difícil. Mas tão pecadoras, e depois superaram e conseguiram, por um bem maior, conseguiram lutar e vencer, e hoje tornaram-se exemplo, tu estás nesse caminho, tornas-te exemplo para toda a gente. É muito inspirador. Quem é que tem as ideias, és tu que tens as ideias? "Vou fazer 50 corridas em 50 dias, vou fazer 100." Alguém ajuda-te a descobrir isso ou és tu próprio que sai da tua cabeça?
É uma excelente pergunta. E já agora, eu só queria deixar aqui 10 segundos. Tu és mesmo o melhor jornalista de Portugal, João. Eu já trabalhei com vários jornalistas e não há outro jornalista com tanta paixão e que vai tanto ao pormenor como tu em vários temas. Já te ouvi em muitos outros podcasts e a convidado extras que tu fazes, e é incrível o nível de pormenor que tu vais com toda esta paixão. Muito obrigado por fazeres isso e por informares todos os nossos ouvintes. Como é que eu tenho as minhas ideias? Sou eu que as tenhoQuando começam a nascer estas ideias em mim, eu protejo-as muito. Vou partilhando com a Ghazal aqui e ali, só para ela não ser apanhada de surpresa no final, mas eu ponho estes sonhos dentro de uma redoma para que ninguém os possa estragar, para que ninguém os possa partir, porque as pessoas podem criticá-los e depois eu posso ficar frustrado. Imagina, quando eu quis subir o Everest, eu tive a ideia/certeza/projeto em 2017.
Há cinco anos.
Se eu nessa altura começasse a dizer à minha comunidade, aos meus amigos, à minha família, que queria subir o Everest, eles considerariam que eu estaria louco, poderiam me acusar de inconsciente, poderiam me chamar de irresponsável.
Podiam tentar te mover, por exemplo, que é pior.
Desculpe?
Podiam tentar te mover da ideia.
Exatamente. E por isso é que é muito importante. Quando eu sinto estas ideias a nascer, eu protejo-as ao máximo ao início, até ter o conceito final. Nascei Maratonas em 100 dias, por exemplo, antes de ir a correr de Lisboa até Auschwitz, eu pensei em ir a correr de Lisboa até à Palestina, pelo norte da África. Portanto, os meus projetos sofrem uma metamorfose muito grande desde a sua versão original até a versão final. Mas as ideias são 100% originais, com referências, obviamente. Só para tu teres uma ideia, eu agora corri 180 km à volta deste lago na Suíça e em setembro eu tinha sido convidado por uns amigos para fazer esse passeio de bicicleta. E portanto, houve uma sementezinha que ficou ali e depois comecei a montar, ok, 180 km a correr, em vez de ser de bicicleta, sem dormir. Isso dá um propósito especial. E os 42 km de correr descalço, desde a porta do Comitê Olímpico Internacional, veio de um dos meus heróis também, que foi um atleta olímpico chamado Abebe Bekele, que ganha a maratona olímpica. É um etíope, que ganha a maratona olímpica nos Jogos Olímpicos de Roma em 1960, a correr descalço. E bate o recorde mundial com 2h15. Repara a minha estrutura de pensamento. Eu estou na Suíça, tenho um lago à minha frente, já me tinham convidado para fazer este lago de bicicleta, estou no Comitê Olímpico, vou buscar este atleta de 1960. Quando foi o Everest, eu estava a fazer projetos ali no Nepal, por causa do terremoto. Eu tinha um livro em casa, este miúdo que via o Tenzing Norgay Sherpa, o primeiro homem a conquistar o cume. E tudo isto me vai inspirando e eu vou juntando várias peças, até que há um dia, e a minha Ghazal já sabe como é que é, até que há um dia em que eu lhe digo: "Já sei. Já sei qual é que é a fórmula, já sei o que é que eu tenho que fazer". E eu também gosto muito da comunicação. E nunca pode ser um projeto muito longo de explicar, porque hoje em dia as pessoas pelas redes sociais, que é onde eu faço a minha divulgação, onde faço as minhas recolhas de fundo. Tem que ser um pitch muito rápido e tem que ser algo que faça sentido, até que seja fácil cantar, até que seja fácil explicar. 100 maratonas em 100 dias. 180 km com 42 km descalço, subida ao Everest para ajudar 25 crianças.
É extraordinário. Quem quebraria disto?
Portanto, eu tento sempre ter uma comunicação muito fluida. Tento sempre, por exemplo, associar a coisa a datas simbólicas. Eu fiz agora estes 180 km na data do aniversário do terremoto.
Foi em 2019, curiosamente.
Exatamente. É assim que eu penso. Eu tento juntar o humor ao conhecimento, à história do mundo, à história de Portugal, à minha própria história, àquilo que eu sou apaixonado.
A todo o marketing. Tiraste curso de gestão também.
Eu tirei o curso de gestão.
A lei da agricultura. E agora o mestrado em esporte.
Vai ser a minha terceira licenciatura, mas isto é muito importante, esta comunicação. Construir uma boa ideia e depois aplicá-la, porque eu tenho sempre este desafio de passar das palavras à ação.
Muito bem. O nosso tempo voa, já se viu aqui a voar. Escalamos nesta conversa e acho que passamos os 8848 metros. Foi extraordinário, Pedro, é sempre. Vais sempre voltar. De fato, és uma grande inspiração.
Daqui a quatro anos. No próximo mundial, se calhar. É de quatro em quatro anos. 2030 em Portugal.
E traz aí os teus cromos, a coleção pra mim toda. És uma inspiração, de fato, esta tua entrega total pelos outros, animado por estes valores, que são os que de fato contam. É muito importante este teu testemunho, a tua vida. E este livro, "A Última Chamada por Everest", fica aqui. Já agora, 7 de junho, apareça à tarde na Feira do Livro.
Exatamente, em Lisboa. Estão todos convidados.
Vai estar com o Pedro. Este stand é o do primeiro capítulo ou é o da Atlantic Books?
Primeiro capítulo, Atlantic Books.
Atlantic Books. Já sabe, procure, quando for falar com o Pedro, já saber a sua causa, os seus desafios, os seus limites que gostava de superar. Vá falar com o Pedro já sabendo qual é o seu Everest. É só este voto, este desejo que nós fazemos aqui. Pedro, tu nunca pares, porque é importante não parares. Trata-me bem desses pés.
Obrigado.
Já que dá alma, não tens que tratar mais. Um grande abraço, Pedro. Obrigado por ter vindo.
Um abraço, obrigado a todos.