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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o espaço em que analisamos os focos de conflito, tanto no Medio Oriente como também na Ucrânia. Hoje contamos com a análise de Helena Ferro Gouveia, especialista em Relações Internacionais. Boa noite, obrigado por aceitar o nosso convite.
Olá, boa noite, Martim, e obrigada pelo convite.
Queria começar pela situação na Ucrânia. O Financial Times dá conta de uma conversa entre Volodymyr Zelensky, o presidente ucraniano, e Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos. Nessa conversa, Donald Trump terá dito a Zelensky para a Ucrânia parar com os ataques às refinarias russas. Também dar aqui conta de que a Ucrânia diz que suspendeu 45% das capacidades das refinarias russas de petróleo. O Financial Times dá conta de que Donald Trump terá justificado este pedido para a Ucrânia parar com os ataques, porque, de acordo com Trump, os ataques da Ucrânia é que estão a fazer subir o petróleo. Pergunto-lhe se concorda com Donald Trump, se é de facto estes ataques da Ucrânia que estão a fazer subir o petróleo ou se o presidente norte-americano pura e simplesmente não quer admitir que a ofensiva norte-americana no Irão e o fecho do Estreito de Ormuz também estão a aumentar o preço do petróleo.
Parece-me que em vésperas de realização das eleições intercalares nos Estados Unidos, o presidente norte-americano, Donald Trump, procura aqui um bode expiatório para o aumento dos preços dos combustíveis, nomeadamente o preço do petróleo. Aquilo que nós sabemos é que o ataque às refinarias russas tem algum impacto no mercado internacional energético, mas o grande impacto vem do duplo fecho, por um lado de Ormuz e agora com os últimos, do fecho de Bab-el-Mandeb. Donald Trump procura sacar à Ucrânia culpas por aquilo de que ele também é em boa parte responsável. Este tipo de discurso é um discurso que agrada naturalmente ao Kremlin, porque tem perdido com os ataques muito bem-sucedidos em profundidade, os ucranianos têm perdido parte da sua fonte de rendimento e isto tem causado abalo naquilo que é a economia russa. Agora, a Ucrânia não pode, de forma alguma, do ponto de vista da lógica da guerra, acabar com este tipo de ataques, porque o que a Ucrânia está a fazer é retirar à Federação Russa a capacidade de, por um lado, alimentar a sua máquina logística de guerra e, por outro lado, infligir dor aos cidadãos russos no sentido que estes exerçam pressão, embora essa pressão seja muito ténue, sobre o regime de Putin. Discordo em absoluto de Donald Trump, mas estas declarações de Donald Trump ou este problema ter acontecido tal como relata o Financial Times, enquadra-se naquilo que vem sendo a proximidade do presidente norte-americano das posições russas, ou se quisermos, alguma maior sensibilidade para aquilo que é a Federação Russa, não surpreende, e isso também visa, sobretudo, responder àquilo que é o consumo interno norte-americano.
Por acaso falava dessa proximidade com a Rússia. Também soubemos, de acordo com o próprio filho de Donald Trump, que um oligarca russo financiou ou pagou a festa de casamento de Donald Trump Jr., o filho de Donald Trump. É algo no mínimo estranho. A Casa Branca, por acaso, diz que não há qualquer tom político neste financiamento por parte de um oligarca russo, mas a verdade é que este oligarca russo é muito ligado a Vladimir Putin, inclusivamente foi com Putin a uma das conferências no Quirguistão e acompanhou Putin nessa comitiva. Isto pode também ser um sinal de complacência em relação às ambições do Kremlin? Não sei se estaria a exagerar um bocadinho nesta pergunta, mas seria essa proximidade com a Rússia um bocadinho preocupante?
Todos nós sabemos que não há almoços grátis e que o financiamento, neste caso, de uma festa de casamento do filho do presidente norte-americano é, no mínimo, não sendo ilegal, é amoral e denota aqui uma proximidade entre aquilo que é a liderança norte-americana ou o presidente norte-americano e a Federação Russa, porque não é um presente como outro qualquer. Estamos a falar aqui, de facto, de um gesto de generosidade russa que, naturalmente, terá compras a partidas, mais que não seja, essa contrapartida pode ser até alguma simpatia ou ter o ouvido do presidente. E isto é muito preocupante, porque a mulher de César não basta ser séria, tem que o parecer. E aqui há realmente uma fronteira que, do meu ponto de vista, foi claramente ultrapassada ao permitir-se a um oligarca russo próximo do presidente Putin, e no momento em que se vive este conflito, permitir que ele faça esta doação, se quisermos, ao filho do presidente, quando as posições norte-americanas ou as posições deste presidente em particular têm sido muito pró-russas, apesar de haver algumas variações ou alguns ziguezagues, mas têm sido, de uma forma geral e de uma forma até, aliás, coerente, bastante simpáticas para com o Kremlin.
Continuando este tópico da conversa também entre Trump e Zelensky, Trump diz que gostava de usar o petróleo russo para aliviar o mercado internacional ao pedir à Ucrânia para parar os ataques e depois comprar o petróleo russo, que seria essencialmente financiar a máquina de guerra de Vladimir Putin. Sabemos bem que com a compra desse petróleo, os russos iriam usar esse dinheiro para questões bélicas, no fundo. Pergunto-lhe se depois de tantas sanções impostas, os Estados Unidos até impuseram sanções hoje à Rússia, e depois também de ter criticado abertamente países como a China e a Índia por comprarem petróleo russo, não é algo hipócrita por parte de Donald Trump agora querer o petróleo russo para aliviar os mercados internacionais?
Isto é no mínimo contraditório, mas uma vez mais prende-se com razões políticas internas, com o facto do preço do galão de gasolina nos Estados Unidos estar a subir e estar a mais do dobro do preço que tinha no ano passado, e isto começar a preocupar os republicanos, que olham para as eleições intercalares, que correm o risco aqui de perder a sua maioria, transformando os últimos dois anos do mandato de Donald Trump num mandato paralisado pelo Congresso. Parece-me que é essa a preocupação que leva a este pedido, que é absolutamente incoerente, porque de um lado temos a aplicação de sanções, as ameaças, e depois temos Donald Trump a fazer este pedido, que seria manter alimentada a máquina de guerra russa e retirar a Ucrânia de um dos trunfos ou das alavancas que tem para pressionar e para infligir dor à Federação Russa. É absolutamente incoerente, mas vindo de Donald Trump, é algo que não surpreende.
Helena, queria também ainda neste foco da Ucrânia e da Rússia, Putin renovou a maioria parlamentar na Rússia com recorde de deputados. Acho que era um resultado inesperado. Estou a brincar, claramente devia ser esperado, mas é um resultado esperado de Putin renovar esta maioria parlamentar, pelo menos 355 dos 450 deputados é uma maioria parlamentar recorde na Rússia. Num momento em que falávamos desta questão das refinarias russas, o petróleo na Rússia não tem estado na melhor forma. A Rússia também tem tido problemas mesmo nas bombas de gasolina para os próprios cidadãos e também tem cidadãos descontentes, se bem que se possa afirmar esse descontentamento livremente na Rússia, isso depois é uma questão também interessante, mas vemos uma sociedade russa que não está nas melhores condições. Mesmo com esta maioria parlamentar, parece que Vladimir Putin nunca vai sair do poder? Ou acha que, por acaso, tendo em conta as dificuldades que a Rússia está a sofrer, pode existir uma luz ao fundo do túnel nesta ditadura de Vladimir Putin?
Eu gostava de começar por dizer, nós temos falado aqui em eleições como se este fosse um processo eleitoral normal, justo, livre. Não é. É uma farsa, é um simulacro de eleições, onde os partidos que inscreveram o seu nome no boletim eleitoral foram a priori selecionados. Não é uma eleição livre, nem de todo. É um resultado que já estava mais ou menos pré-determinado. Todos nós sabíamos que a Rússia Unida, o partido de Vladimir Putin, iria ganhar. Isto é um dado assente. Depois temos uma sociedade russa bastante anestesiada, e quando eu digo anestesiada, importa dizer que nestes anos todos, desde que Vladimir Putin está no poder, houve uma consolidação do poder no Kremlin. Não há meios de comunicação livres. O Kremlin agora permitiu que alguns jornalistas internacionais fossem cobrir o pleito eleitoral, porque lhe interessa passar para fora esta imagem de: "Vejam só, nós somos uma democracia e o nosso presidente até é legitimado em urnas." Isto faz parte de uma estratégia comunicacional e de domínio da narrativa, sobretudo junto das sociedades ocidentais, porque interessa ao Kremlin fazer aqui o contraponto dizendo: "Vejam, nós, Moscovo, fazemos eleições, mas eles, os ucranianos, não fazem." Quando a Ucrânia está a ser violentamente atacada desde 2022 pela Federação Russa e é impossível realizarem-se eleições nestas condições, até porque boa parte da população ucraniana está deslocada e parte da população ucraniana está a combater. E eu recordo que um democrata e um dos nossos grandes heróis, Winston Churchill, também não realizou eleições no Reino Unido enquanto corria a Segunda Guerra Mundial, há precedentes. Mas o que interessa a esta sociedade, de alguma forma anestesiada pelo fato de não haver eleições, não haver mídia livre, de ter um acesso à informação muito condicionado, é tentarem manter alguma estabilidade que é possível. Importa dizer também, quando nós olhamos para a Federação Russa, a Rússia passou de um império, um império czarista, para uma ditadura comunista longuíssima até 89. Depois teve ali com a implosão, com a perestroika, teve ali um cheiro, uns pozinhos de democracia, e depois entrou Putin, que nos acompanha desde os anos 90 até agora. Não é uma sociedade que conheça a democracia, nunca foi democrática, há séculos que a Rússia não é democrática. Pode até ter estes simulacros de eleições, partidos políticos, até ter umas discussões, mas é uma autocracia, é uma ditadura controlada pelo Kremlin, muito fechada, e onde os opositores pagam um preço muito pesado por se oporem ao Kremlin. Ou são detidos, ou são mortos em condições, como Navalny, por exemplo, em condições duvidosas, ou caem de janelas, ou são assassinados no exterior, ou são envenenados. Estas são as características do sistema que Putin construiu. E os russos face a isto tudo, por um lado, não tendo informação, por outro lado, não conhecendo outra realidade, acabam por votar em Vladimir Putin, não sabendo bem, nós também, até que ponto estas eleições foram manipuladas ou não, porque há por exemplo vídeos a circular onde vemos soldados armados a entrarem nas cabines de voto e a verificarem aquilo que as pessoas estão a fazer. Votar com uma arma apontada à cabeça, se calhar qualquer pessoa vota no candidato que a arma apontar.
Queria agora passar ao conflito no Médio Oriente muito rapidamente. Neste caso, vamos falar sobre os houthis no Iémen. Isto porque saiu uma notícia no New York Times de que Donald Trump teria aceitado atacar os houthis no Iémen após um novo pedido saudita, mas tornou a mudar de ideias. O Mohammed bin Salman tem pedido muitas vezes para que os Estados Unidos façam algo quanto aos houthis, isto porque sabemos bem que o estreito de Bab al-Mandab e também a zona do mar Vermelho é essencial para a Arábia Saudita, para a exportação de petróleo, e portanto corta ali uma grande vertente do negócio saudita na questão energética também. E tem pedido muitas vezes a Donald Trump para tomar uma ação contra os houthis. Trump sempre, pelo menos de acordo com os conselheiros, não defendia uma operação militar contra os houthis. Após uma conversa com o príncipe saudita, mudou de posição, ordenou o Pentágono que preparasse ataques aéreos e depois tornou a voltar atrás com esta decisão, quando o Pentágono já tinha todos os alvos identificados e já tinha tudo preparado para atacar os houthis. Eu pergunto-lhe se esta imprevisibilidade de Donald Trump pode ser algo que possa chatear a Arábia Saudita.
Sem dúvida. Nós temos aqui um dos aliados mais antigos dos Estados Unidos, desde a Segunda Guerra Mundial, que são aliados na região do Golfo. E vemos aqui um pedido, e já não é o primeiro, de Mohammed bin Salman a Donald Trump, que defenda os interesses sauditas, tal como os sauditas têm defendido aquilo que são os interesses norte-americanos na região. E vemos aqui a incapacidade de Donald Trump de tomar uma decisão. E do meu ponto de vista, isto prende-se com duas razões: as eleições, o que já falámos aqui, e não há um interesse em que venha a ter qualquer tipo de ação militar que faça com que o preço dos combustíveis volte a explodir, passe aqui a expressão, e isso é uma preocupação. A segunda preocupação prende-se com a escassez de vetores defensivos, ou seja, as defesas antiaéreas estão neste momento em baixa e há aqui a preocupação que se houver um ataque aos houthis, os houthis irão utilizar uma estratégia que foi aperfeiçoada pelo Irão, que é a utilização de mísseis e de drones, fazendo com que seja muito difícil aos norte-americanos defenderem os seus interesses nas monarquias do Golfo, sejam eles na Arábia Saudita, sejam eles na Jordânia, no Kuwait, nos Emirados Árabes Unidos. E nós temos visto aquilo que o Irão, por exemplo, tem feito ao longo deste conflito, que é atacado bases militares norte-americanas ou instalações elétricas sauditas. E há aqui esta preocupação, por um lado, não prejudicar, e nós estamos praticamente nas eleições intercalares, que são no início de novembro, nós estamos no final de setembro, há aqui um mês, e temos esta preocupação com a capacidade defensiva contra eventuais ataques de houthis que poderiam eventualmente ser acompanhados ou não por ataques também do Irão. E face a esta preocupação, poderá explicar a indecisão de Donald Trump. Agora, que isto deixa os aliados numa posição muitíssimo desconfortável, deixa, porque aquilo que Donald Trump tem feito ao longo deste seu segundo mandato é precisamente desvalorizar aquelas que eram as suas alianças políticas e defensivas, sejam elas com a Europa, sejam elas a aliança que tinha com o Canadá e a relação que tinha com o Canadá, sejam elas com os países do Golfo. E isto a prazo vai minar aquilo que é a credibilidade norte-americana e também a sua capacidade de projeção e o ser encarado como um aliado credível. E vai demorar muito tempo num pós-Trump para os Estados Unidos restabelecerem a confiança daqueles que eram os seus parceiros e aliados. Isto é uma parte desta equação. Agora, quando nós olhamos para o que se passa neste momento no Médio Oriente, há um conjunto de sinais, seja por via de movimentações militares, seja por via de informações dos serviços secretos, de que se prepara alguma coisa e que nas próximas horas, dias, poderá haver um ataque em grande escala. Mas nós já vimos estes sinais antes e não aconteceu. Agora temos de novo e os avisos das embaixadas, etc. Há aqui um conjunto, se quisermos, de sinais que podem fazer parte da guerra psicológica, que também é uma das dimensões da guerra, e daqui de alguma ambiguidade para não dar a conhecer ao inimigo como se irá agir, mas Donald Trump está aqui numa situação bastante difícil ao negar este pedido dos sauditas e nós não nos podemos esquecer como as monarquias do Golfo são grandes investidores nos Estados Unidos e do pacote milionário de investimentos que os Estados Unidos foram buscar ao Golfo muito recentemente. Portanto, também há aqui uma dependência dos países do Golfo em relação à defesa, uma dependência dos Estados Unidos, mas há uma dependência norte-americana também no que toca em investimento daquela região. Portanto, é uma situação complicada.
Mesmo a nível pessoal, por exemplo.
Precisamente. E além disso, nem sequer estou a entrar na questão dos negócios pessoais da família de Donald Trump. Estou a falar das relações entre Estados, das alianças e da confiabilidade, se nós quisermos, das alianças entre Estados. E Donald Trump está a questionar tudo isto, está a questionar aquilo que é basilar nas relações entre Estados, e a confiança e a credibilidade são basilares, e ele acabou, de alguma forma, por destruir todos esses pilares, o que nos coloca aqui num momento internacional de muito difícil interpretação e de perceber muito bem como é que se vai desenvolver este reajustar de peças, porque nós assistimos ao reajustar de peças no Médio Oriente, mas não só no Médio Oriente, porque estas peças estão todas elas interligadas e nós falamos muito na construção de uma nova arquitetura de segurança, mas mais do que a arquitetura de segurança, nós falamos aqui de uma construção de uma nova ordem mundial, desafiava a hegemonia norte-americana e, se quisermos, o modelo internacional norte-americano desenvolvido no pós-guerra, e temos falado muito nisso, foi desafiado pela China, está a ser desafiado também pela Federação Russa e por um conjunto de médias potências que se estão a alinhar contra a visão liberal do mundo. E nós estamos a assistir, e isso é o que me preocupa, ao desaparecimento das democracias liberais e ao ressurgimento e fortalecimento das autocracias. E há cada vez menos democracias no mundo e vermos os Estados Unidos prestarem-se a este serviço de ajudar na destruição das democracias é algo que é um liberal, no sentido político, custa muito a assistir e porque estamos aqui a assistir, de facto, ao desgaste do Ocidente, Ocidente esse onde nos integramos.
Pois, pode ser também um levantar novo da Cortina de Ferro. Não sabemos. Esperemos que isso não torne a acontecer e que o mundo seja mais unido, mas como a Helena mencionava, de facto, existe esta divisão entre Ocidente e Oriente e essa Cortina de Ferro pode tornar a ser levantada e entraremos num período um bocadinho menos bom. Chegamos ao final do nosso tempo, Helena Ferro Gouveia, especialista em relações internacionais, agradeço-lhe imenso pela sua análise.
Obrigada, Matins.
Fica por aqui "O Gabinete de Guerra", está de regresso amanhã.