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O Carlos tem tempos de comédia incríveis, é um ator incrível, é superversátil.

É muito diferente de ti também fisicamente, o que é muito engraçado.

Muito diferente. Ele sai ao lado do meu pai, eu saio ao lado da minha mãe. Ele é de certeza filho do meu pai, eu não tenho a certeza.

Será que o absurdo que nos acontece todos os dias chegou a um tal nível que já faz parte da normalidade dos portugueses? É com isso mesmo que brinca a nova série digital de humor "Vai-se Andando", que acaba de chegar e cujo sucesso tem explodido nas plataformas digitais. Está aí a segunda temporada, após o sucesso da primeira, com mais de seis milhões de visualizações e um milhão de interações nas redes sociais. No dia em que estreia, daqui a pouco, às 21:00, mais um episódio, converso com o seu criador, Rui Malvares, guionista e realizador, que integra o núcleo de intérpretes do "Vai-se Andando". Vamos conhecer melhor as razões deste sucesso, contadas por um consultor criativo e contador de histórias, que depois de uma carreira de sucesso no marketing e publicidade, decidiu mudar de vida, empurrado por mortes e operações ao coração, mas também por sonhos e por filhos. Olá, Rui, e bem-hajam por terem aceitado este meu convite. Bem-vindo à Rádio Observador.

Olá, João, o prazer é todo meu. Muito obrigado.

Gosto muito de estar aqui a falar contigo e sinto sempre que este estúdio é pequeno quando tanto talento aqui entra, porque de facto, tudo o que tu fazes, a versatilidade da tua vida e dos teus dons e dos teus sonhos é incrível.

Obrigado.

É verdade que nasceste prematuro?

Nasci prematuro, nasci de 36 semanas.

Tu és o mais velho. O teu irmão é mais novo.

O meu irmão é três anos mais novo. Fui direto pra incubadora com icterícia, comecei logo com aquele início a perceber o que é o mundo.

Exato. Tu cresceste num grande ambiente de curiosidade, disciplina. A tua mãe é médica, o teu pai é engenheiro.

Sim.

Sempre tiveste esta paixão pelas histórias, por contar histórias, muitos anos a contar as histórias de outros, depois passaste a contar as tuas, aí num momento de viragem da tua vida. As histórias, por que isto vem de onde? De família, vem das leituras, vem do quê?

Olha, sinceramente, João, não tenho uma noção clara de onde é que vem, porque parece que foi surgindo ao longo do tempo. Eu acho que sempre fui uma criança muito sensível. Acho que há ali um episódio, tu falaste, não sei se vou agora chegar à frente alguma questão que poderias vir a ter, mas basicamente eu aos três anos descobri que tinha um sopro cardíaco e desde cedo que tenho a minha vida de seis em seis meses a ir a um hospital.

Ias a Santa Marta fazer testes até o dia em que te iam operar. Tu tinhas esse receio, não é?

Isso.

Um dia o médico vai dizer: "Olha, com base nos resultados, tem que ser operado". Isto foi há pouco tempo.

Exatamente. Isso pra uma criança é complicado.

É uma espada pendurada na tua vida toda.

É, porque repara, tu entras numa sala depois de fazer um ecocardiograma e vais ao veredito.

Exatamente.

E é operar ou não é pra operar. E é uma operação ao coração, não é propriamente tirar o apêndice.

Exatamente.

Sem qualquer desprimo pra quem já sofreu com apendicite, mas na realidade é pra te dizer que de facto fiquei muito sensível, algo ansioso, e acabava por, desde muito cedo, e eu não te consigo especificar quando, nem os meus próprios pais, mas parece que com sete, oito anos, quando já tinha uma noção gramatical mínima, passava a vida a sentar-me a escrever poesia.

Poesia, incrível.

E não tinha propriamente nenhum autor que andasse a ler já ou que me andassem a ler, porque os meus pais tinham a vida deles. Os meus pais sempre tiveram uma vida muito ocupada. A minha mãe, com urgências constantes, o meu pai e a empresa a sede era em Barcelona, passava a vida em Barcelona. E eu fui por aí, não sei porquê, João, sinceramente.

Incrível. Mas de facto, tu escrevias pro jornal da tua escola, em pequenino. Lidavas com as ansiedades que te acompanhavam. Aos 10, 11 anos, o teu pai até arranjou um livrinho, compilou as tuas coisas que tu escrevias e dava aos amigos e à família.

Verdade.

Eu adoro isto.

Fico encantado com o nível de informação que tu trazes aqui pra entrevista, mas de facto esse livro surgiu e posso dizer que me lembro perfeitamente como é que era a capa. A capa eram as minhas mãos, com uma tinta qualquer, o marco da palma da mão na capa e não tinha nome mais nenhum. Portanto, a minha identidade era só de facto a mão.

Mas também escrevias coisas muito melancólicas, a morte do avô, Timor-Leste ocupada, este género de coisas. Mas ainda novinho, este hábito moldou este facto da tua sensibilidade. Já vinha de trás.

É muito engraçado isso, porque de facto o que me fazia escrever era o sofrimento. A perda do meu avô foi a primeira grande perda, aquele choque de perderes alguém que te é muito próximo. Eu tinha uma ligação com o meu avô muito próxima. Eu era aquela criança que não dormia em casa de ninguém. Não me sentia bem. Só conseguia dormir em casa dos meus avós. Tinha uma ligação muito afetiva, muito grande. E Timor, imagina, Timor era aquilo que de facto me aparecia em casa ao jantar nas notícias e eu saber que havia uma invasão da Indonésia na altura e tudo aquilo mexia comigo sem perceber nada de geopolítica e do que estava a acontecer.

Mas foi dramático na altura, o país todo juntou-se contra aquilo.

Verdade.

De facto, há aquelas imagens do Cemitério de Santa Cruz, aquilo impactou muito.

Verdade.

Apesar, quanto mais longe, não interessa. Nós identificávamo-nos com aquilo, é impressionante.

Sem dúvida.

Também tinhas esta paixão pelo palco, embora nunca tivesses tido a coragem de assumir como primeira escolha profissional. O teu irmão diz que sim. Tens essa querideza de dizer do teu irmão, sim, o Carlos assumiu e pronto. Mas foi porque engenharia contigo também à mesma, como naquela coisa, uma profissão a sério tem que ser uma coisa ligada às ciências. Mas ele sim, vocês fizeram este curso de teatro aos 17 anos, que entra o Pantoja Ferreira, o Luís Ortigoza e tudo o que tu aprendeste a escrever.

Sem dúvida.

Este oficina de expressão dramática ali em Benfica. Fizeram isto em 1984, fizeram isto, a adaptação do Orwell, George Orwell, por exemplo?

Fizemos, imagina, eu já tinha lido o livro na altura, foi um dos livros que mais me marcaram nessa fase da adolescência. O que aconteceu na altura foi, imagina, eu e o Carlos éramos aqueles miúdos tão... Porque o meu pai já tem essa veia, é uma pessoa bastante extrovertida, gosta muito de brincar, tem ali um lado impulsivo, muito engraçado. E eu e o Carlos sempre tivemos isso em crianças. E então nós éramos os selecionados pras peças de teatro da escola, pros papéis principais. Então ficávamos muito contentes. Eu fui o Vô Zenriques, eu fui o Camelo Truca Truca, fui uma série de histórias engraçadas em alguns contos. E então essa paixão estava e sabes que depois tu quando criança, quando gostas desta exposição, parece que fica ali um bichinho. Parece que em criança, de facto, há uma forma de olhar pras palmas como uma criação de identidade. De eu sou capaz de fazer, eu tenho um lado artístico.

Exatamente.

E nós ganhamos isso. Eu lembro-me perfeitamente, João, pra teres a ideia, que eu faço na quarta classe uma peça que eram dois palhaços, e era muito engraçada, porque era muito cômica. Obviamente, eram palhaços. E na altura havia alguém na plateia que era pai de um miúdo que estava também no colégio, que trabalhava na produção do Natal dos Hospitais, e convidou-nos pra irmos fazer o Natal dos Hospitais em direto na televisão. Infelizmente, tinha um exame ao coração em Barcelona, porque um dos médicos tinha dito aquilo que eu nunca queria ouvir, que foi: "Eu acho que ele tem que ser operado". E aqui estamos a falar com nós.

Fomos ouvir uma segunda opinião em Barcelona?

Fomos ouvir uma segunda opinião em Barcelona, o médico nos indicaram. Aliás, ouvimos duas em Portugal e fomos a uma terceira.

Tinhas quantos? Nove anos?

Nove anos.

Mas só foste para o prado muito mais tarde.

Muito mais tarde. Prato 20 anos depois, com 29. Isto para te dizer que-

Portanto acabaram por não ir aos tais hospitais por causa dessa coisa.

Imagina, é uma desilusão para mim. Na altura estava a gostar daquilo. E depois, de facto, nesta busca incessante por uma atividade que nos comportasse, encontrámos este curso. E fazer este curso foi game changer para o meu irmão e para mim. Eu lembro-me da Luísa Ortigoza me dizer olhos nos olhos: "Tu vais para Engenharia". Porque eu estava mesmo no limiar de escolher o curso.

"Não vais. Tu que estás a fazer isto, que te dá jeito, vais para Engenharia".

"Eu não acredito nisso". E ela tinha razão, porque eu de facto estive dois anos no técnico.

Exatamente. E que depois se viu, o curso também não acabei, mas também entrei, antecipei a comunicação, que era o óbvio que eu devia ter seguido.

Sem dúvida.

É muito engraçado. Fizeste então esta década de vida na publicidade, brand and content, publicidade e entretenimento. Tiraste então o curso na Escola Superior de Comunicação Social, isto porque estavas no técnico e vais ter com aquela tua amiga a dizer: "Não, mas eu não quero ir para aí". Entraste no metro, foste visitar uma amiga que estava lá, a tirar este curso. Isto mesmo. Eu gosto de repente as voltas que a vida nos dá.

Podes crer.

E tu tiveste várias na tua vida, de repente.

Eu tive muitas voltas.

Desviaste do que devias.

Sim, eu acho que só agora aos 42 é que eu encontrei o lugar onde eu me sinto. Eu ando a fazer audições para um espetáculo que falávamos há pouco.

Este musical.

Musical. E eu estava ali a falar com o coreógrafo, com o diretor musical, com o encenador, e eu dizia assim: "Eu não posso estar mais feliz profissionalmente do que isto. Estas pessoas estão a trabalhar um texto meu. Eu não estou a acreditar no que está a acontecer. A Ana Rangel, que é da Planeta Saias, a produzir um espetáculo meu, acreditou". Porque até lá, imagina, eu estava sempre numa insatisfação constante. E eu sei que eu dava o máximo que podia e sei que quando me despedi de alguns sítios, as pessoas queriam que eu ficasse e nunca foi por causa da empresa, nunca foi por causa do tipo de trabalho.

Chegaste a ter esta produtora, esta FIM, Forever in Movies. Tinhas 32, 33 anos, fundaste isto. Fizeram 300 filmes e projetos na área, trabalhaste com multinacionais e tudo, até depois a vendeste à Deloitte. Mas, no fundo, a tua parte criativa estava um bocadinho já em stand by, tu estavas era a gerir aquelas 15 pessoas e com os clientes e com tudo, e é um mundo que não para, e que é muito absorvente.

Exatamente. A produtora é a primeira parte.

Mas eras infeliz nisso, no fundo. Quer dizer, corria-te bem, mas não estavas no plano da tua felicidade.

Esta necessidade tão intrínseca de pôr cá fora os teus projetos autorais acaba por tentar ser colmatada com a abertura da produtora. Eu quando abro a produtora é um primeiro grito do Ipiranga, em que eu digo: "Olha, eu vou abrir uma produtora para contar histórias".

Neste caso, dos outros, das empresas.

Dos outros. Na altura, até queria caminhar para o entretenimento para também ter alguma palavra a dizer e não ser só, obviamente, uma navegação ao sabor do briefing. Mas na realidade, nós acabamos por perceber que o mercado, para já do mercado de entretenimento não é fácil. E depois eu vinha sem experiência nesta área. Portanto, eu gostava de escrever, mas não tinha um curso de realizador. Portanto, fui estudar para filmar, fui estudar edição, fui estudar realização. E a produtora permitiu-me, nos primeiros dois, três anos, estar muito feliz. Nós ganhávamos muitas vezes projetos não por sermos tecnicamente bons, mas porque éramos bons contadores de histórias. Então como tu estás entregue àquilo de coração, de alma e coração. Eu lembro-me de sentar numa mesa e eu vinha do lado do marketing e da publicidade, portanto, eu tinha muita facilidade em compreender o outro lado. Nós conseguimos viajar automaticamente numa narrativa.

Mas tu és muito talentoso e tens uma grande inteligência nisso, porque tu sentavas-te num arranhão de briefing e ainda não tinha acabado e tu já tinhas já a sair a história. "Já sei a história, pessoal. Para fazer assim, entra uma mulher numa sala", e essas coisas que as pessoas vão para casa pensar e ter as ideias. E é complicado às vezes na publicidade, pode vir um segundo nas ruas ou posso ter que pensar três dias numa ideia, mas tu muitas vezes na própria reunião já sabias como é que aquilo ia acontecer.

Eu acho que, lá está-

Eras rápido.

Se me pedisses para analisar um gráfico de venda e a capacidade de perceber como é que vamos fazer um financiamento qualquer, eu era zero.

Está bem. Mas a parte da ficção e da criação...

Penso que seja talvez o meu ponto forte, que eu tenho uma forma rápida de criar uma história.

Com base no que tu vês, no que tu ouves.

Com base no que eu vejo. Eu digo muitas vezes que eu não tenho muitos vícios e o meu maior vício é a realidade. Eu costumo dizer isto porque eu sou viciado na realidade, eu sou viciado em ver o comportamento humano, em perceber as decisões, em perceber às vezes a comunicação, a expressão corporal.

Aliás, esta Vai-se Andando é um bocadinho prova disso.

Sim.

Podes pegar umas coisas que podem acontecer, ir às finanças, não sei o quê, e que pode acontecer, as obras em casa, o que for. E olha, agora estamos a falar disso, destes dias. E de facto, essas coisas todas acontecem e tu consegues virar lá e brincar com isto.

Sim, gosto de olhar para a realidade.

Quando te dizem coisas, eras o que é muito bom. O humor é uma ferramenta.

Sabes que eu queria muito tentar-

Também tens humor, que é importante. Podias contar isso tudo muito bem e não ser sempre divertido. Tu consegues fazer um trabalho consistente, já vais na segunda temporada, daqui a bocado estreias o outro, com humor e a gozar com coisas que nós identificamos todos os dias, o que é extraordinário.

Sim.

És rápido nisso.

Sim, eu tenho escrito os guiões. Muita gente diz: "Então, mas escreves os guiões sozinho?" Por enquanto, sim, ainda consigo escrever.

Mas tens feedback dos teus, do teu irmão e da Ana.

Eu quando lhes apresento, da Ana, da Joana e do Carlos, tenho sempre uma primeira leitura antes de irmos filmar, que nem é bem ensaio, nós lemos. Regra geral, acrescentamos pouca coisa e o que eles dão depois muito é momentos no acting. Então tem sido muito engraçado. Nós na primeira season, para teres uma noção, na primeira temporada, nós não tínhamos quase bloopers, porque nós estávamos tão concentrados em fazer aquilo à séria.

Pois, eu vi uma entrevista delas a dizer isso. "Nós levamos isto à séria, não brincamos". Tu andas a gozar, mas é feito à séria.

Quando eu disse ao editor: "Faz lá aí um vídeo de bloopers", e ele começa a dizer: "Estamos 20 segundos, 30 segundos". E eu: "Não, estás a brincar comigo. É para arranjar aí qualquer coisa". Agora, na segunda season, eu disse: "Malta, vamos mais descontraídos". Porque repara, João, em linha até com a cronologia que estávamos a falar. Eu começo por gostar muito mais de escrever sobre drama do que propriamente comédia. É muito engraçado que quando eu dou este salto de me tornar uma pessoa mais autor e saio do mercado Eu começo com a comédia e faço um primeiro espetáculo, que foi o "Passei à História", que corre mais ou menos. Eu vejo o espetáculo de fora e não adoro. Claro que as pessoas dizem sempre que corre bem, mas eu sei que lá no fundo não foi.

A tua querida amiga que disse: "40% não é mau".

40%, aí está. Que é a opinião de quem interessa, de facto, que está na área.

Fiquei um bocado ressentido, mas pensei: "Não, se calhar, tem razão".

Tinha toda a razão. Porque ela já levava mais de uma década à minha frente. E depois no segundo já foi um espetáculo muito melhor, o "Fora de Tom". E agora eu sinto que o meu sweet spot é este. Eu não tenho que ser ator nos meus sketches, foi quase um teste a mim próprio. Mas eu gosto é de escrever, eu gosto é de pôr o guião.

Mas tu fazes tudo, realizas também. És o guionista, contas a história, inventas a história.

Sim, também por necessidade.

Estás naquele núcleo duro.

Sim. Tudo isso foi muito importante também ter-me numa lógica quase que multitasking, porque isto é um investimento meu. Esta série não tem financiamento e nós queremos provar que consegue funcionar.

É tão bom. Como é que tu consegues combater as grandes plataformas e as grandes televisões? Vocês são independentes. Sai nas plataformas, no Instagram e no Facebook.

Sim. Mas não duramos muito mais tempo se continuarmos assim.

Sim, mas de qualquer forma já há uma terceira temporada anunciada.

Sim, imagina. O que é engraçado é que-

O preço é que sejam comprados?

Eu não sei.

Ou isso ia estragar alguma coisa?

Eu acho que tudo depende da forma como negociares a coisa. Eu acho que há uma grande vantagem em ter começado independente.

Sim.

É que tu já provaste que funciona.

Exatamente.

Mesta à parte, a série está a funcionar.

Têm milhões de visualizações.

Nós temos, de facto, muitas visualizações. E esta segunda season, ao contrário do que acontece muitas vezes, é que uma primeira bate muito e a segunda não, na segunda está a ser superior à primeira.

Incrível. Agora vão tendo notoriedade, as pessoas vão passando a boca.

Claro, também temos mais seguidores, etc. Sem dúvida alguma.

Tiveste que render um bocadinho às redes sociais. Tu não eras muito, ou eras?

Houve uma altura que eu comecei a fazer vídeos todos os dias e eu pensei: "Isto não é pra mim". As pessoas diziam: "Rui, não fizeste hoje um vídeo? Eu estou ansiosa para te ouvir". E eu pensava: o produto que eu quero entregar não é um vídeo amador meu a olhar pra câmera. Percebes? Por isso é que quando tu olhas pro "Vai Sandando", tu vês linguagem cinematográfica. Nós estamos a filmar com bom material, nós estamos preocupados com luz. Porque eu acho que às tantas o conteúdo nas redes digitais está tão amador, que eu queria me destacar de alguma forma, não só pelo conteúdo em si.

Parece que tens uma grande produtora por trás. Mas tu és uma grande produtora. Todo o teu percurso é engraçado, porque vais mudando de repente de agulha, mas tudo que tu vens detrás serviu-te para o que és hoje.

Sem dúvida alguma.

O que é muito chique. As pessoas que cruzaram contigo hoje, o teu topo de carreira, vir aqui. Estou a brincar. Mas esta coisa importante do marketing, da publicidade, das coisas que tu foste fazendo, se calhar passar pelo técnico foi importante.

Tudo foi.

A amiga com quem foste ter quando voltaste ao Metro na Alameda. É extraordinário. Mas tu mesmo com a tua produtora do fim, deste Forever in Movies, querias escrever era ficção. Isso só vai acontecer depois com o teu livro, que escreveste já para os teus filhos, no fundo, sobre inclusão.

Sim. O livro é o primeiro a par do "Passei à História". São dois projetos que eu faço ao mesmo tempo, um espetáculo de humor e mensagem. Eu não lhe chamo stand-up porque ele tinha um formato um pouco diferente. Lembro-me até inclusive, quem deu este nome foi o Edson Ataíde, que na altura foi ver o espetáculo e disse assim: "Tu não chames stand-up a isto, porque tu não és stand-up comedian". E eu não sou stand-up. Aquela malta que está lá todos os dias.

Costumas ser humorista ou ser o autor ainda.

Não, eu não faço aquilo bem como eles. Enfim, eu dou-lhes os parabéns por aguentarem um palco durante uma hora sozinhos.

Dizes que admiras, na boa.

Completamente.

O Bruno Nogueira e este gente, que estão ali à vontade, fazem o que querem.

São incríveis.

Mas este "Passei à História" era um bocadinho a tua seleção de histórias mais hilariantes da tua vida. No fundo, era um stand-up, não digo comedy, autobiográfico, de humor, com histórias cômicas.

Exatamente.

Gostei muito desta ideia, esgotaste as quatro vezes e inclusive ia pra Liga Portuguesa contra o Câncer, foi simpático.

Sim.

Mas de facto, com grupo de atores profissionais, entrava também o teu irmão Carlos nessa altura, já?

Vê lá tu, que já aí havia um bichinho dos sketches, porque eu começo o espetáculo com sketches. Onde convidei o Miguel Raposo, o Ricardo Raposo, o meu irmão, o Pedro. E esta malta que anda no nosso círculo, porque o Miguel é colega de curso do meu irmão na Escola Superior de Teatro e Cinema, e o Ricardo, que são atores fantásticos, que disseram: "Sim, vamos fazer". E depois fazem-me uma entrada de sketches que eu só pensava: "Porra, isto está muito melhor que o resto do espetáculo". Os sketches já estão melhores.

Rui Malveira, temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já. Estamos a conversar com Rui Malveira, ele é creative, é publicitário, guionista, realizador, consultor creative e contador de histórias. Ele fala-nos do seu mais recente projeto, este "Vai Sandando", uma série digital de humor que acaba de chegar, que está a crescer muito rapidamente nas plataformas digitais, com milhões de visualizações, e que em dezenas de sketches retrata como o absurdo já faz parte, de facto, da nossa realidade, a normalidade dos portugueses. Toda gente precisa de histórias, Rui, é sério, achas isso?

Acho que é muito difícil tu dissociares o ser humano da história. Porque repara, a primeira coisa com que tu brincas é com a história que os teus pais te contam Portanto, não há nada que te seja impingido na vida, sem ser as necessidades básicas, teres de comer, tomar banho, etc., tão cedo como as histórias. Eu acho que aquilo acaba por entrar quase na nossa genética e, de facto, há um engagement quando tu és extremamente objetivo versus quando tu contas algo com arco narrativo, é completamente diferente. E eu testemunhei isso com os alunos, quando dei aulas, testemunho isso com os meus filhos, testemunho isso agora que vou às escolas apresentar o "Ser Diferente é Normal", e não tenho a menor dúvida que a história funciona. E tu vês quantos de nós lemos, quantos de nós seguimos séries, quantos de nós vamos ao cinema, do ponto de vista da arte.

Tão importante.

Gostamos tanto disso. E a música também é uma história.

É engraçado, porque tu sempre foste uma pessoa muito desportiva. Gostavas muito da natação, o judo, o ténis. O ténis é o teu desporto de eleição. No entanto, não podias competir, precisamente por causa do teu sopro no coração. Tinhas que sempre ter alguns cuidados. Aos 29 anos chegou então esta notícia, tinhas mesmo que fazer esta cirurgia cardíaca complexa e aproveitaste este tempo de recuperação para pensar muito: "O que eu quero fazer da minha vida?" E foi aqui que mudaste de shift nessa altura?

Foi. Foi nessa altura que eu percebi que tinha que trabalhar para mim. Estava a trabalhar numa pós-produtora, também gostava muito, eram pessoas incríveis, mas na realidade não tinha a minha voz e quis ter. E esses dois meses enfiado em casa, porque foi difícil. A operação nem tinha um risco muito elevado porque eu era novo. E de facto, temos equipas de cirurgiões cardiotorácicos em Portugal incríveis, e não só. E portanto, eu estava algo seguro, mas eu nunca tive a mínima noção no pré-operatório do que era a recuperação. Eu achava que era muito mais simples. Eu sou muito positivo por natureza. Acho que tudo é fácil, consigo tudo. Vivo muito no presente, mesmo muito no presente. Eu não consigo pensar a futuro. O meu melhor amigo é o contrário, nós estamos sempre a discutir isto, que ele já sabe onde é que vai investir o dinheiro, que casa é que vai ter, que sítio é que vai ter. Eu nem sei onde é que vou jantar amanhã. E eu não estava preparado. Depois quando percebo com que tipo de debilidade física é que uma pessoa fica depois de uma cirurgia de cinco horas e meia, seis horas de peito aberto e em que tudo em ti tem que ser reprogramado, em que o teu próprio coração, quando tu te levantas e dás dois ou três passos, bate a uma frequência de 120, 130 por minuto. Faz alguma confusão, porque parece que o teu coração fez um reset e deixou de saber trabalhar ao ritmo que o teu corpo funciona.

Fadiga de cruzeiro.

E depois tive um ou dois episódios chatos. Estava a sair e não conseguia dormir no hospital. Estava muito cansado e depois quando vou para casa, de facto, é quando eu começo a recuperar mesmo a sério. Mas depois é aquela coisa de ambiente controlado. Não podes espirrar, porque se espirras é uma dor fortíssima. Tens que viver num ambiente quente. Era fevereiro, estava frio. Os meus amigos iam lá a casa, nem me reconheciam, porque eu tive uma anemia também muito grande. Isto tudo, quando se soma, faz-te refletir. E digam o que disserem, não há maior reflexão possível do que a reflexão na adversidade.

Claro, é verdade.

E eu pensei muito: "O que é que na minha vida não está lá?" E de facto, era esta busca incessante que eu te dizia. E a primeira ideia da produtora começa a nascer aí.

É também bom porque tu vais aprendendo e tiras as lições certas disso e as coisas não te passam ao lado. Tiveste também bandas de música, por exemplo, tiveste uma empresa imobiliária que foi um falhanço.

Redondo.

Que nem querias que se falasse. Mas pronto, as coisas acontecem, mas tu vais aprendendo e vais avançando e vais mudando. Filmaste um documentário em Nova Iorque, isto é o quê? Quando tinhas ainda a Finn.

Quando tinha a Finn, tivemos um desafio incrível de uma empresa que se chamava Sky Hour, que tinha funding da Jet Blue, era uma empresa que estava como uma das empresas mais promissoras de startups nos Estados Unidos. Basicamente, o que eles faziam era vender voos à hora, que era muito engraçado, que é: "Tu, João, fazes anos, eu dou-te duas horas, um amigo teu dá-te três e com essas cinco tu escolhes onde vais".

Ah, que giro!

Foi muito engraçado. Eu propus-lhes, na altura, fazerem uma série documental para divulgar o produto e na altura fomos buscar uma ideia muito gira, que era pessoas que cumpriam os sonhos através do voo.

Ah, que giro!

Então, neste caso, era a Alicia, que era uma cantora de gospel, que vinha aprender fado.

Ah, que giro!

E nós fomos filmá-la no seu ambiente, no Harlem, a ter os seus ensaios, a sua vida, o seu dia a dia.

Uma estrela de gospel.

Incrível, exatamente. Cada vez que tu carregas no rec em Nova Iorque, é inexplicável. Estás em cinema.

Exatamente.

E depois viemos tê-la aqui a aprender fado com o guitarrista da Ana Moura, o Ricardo.

Incrível.

Foi incrível, porque para ela foi uma experiência incrível e para nós deu-nos um conteúdo muito giro.

De repente mudaram de shift, tu e teu irmão. Como é que os seus pais, a médica, o engenheiro, reagiram ao ver dois miúdos? "Nós, educar, no que é que falhámos para eles hoje, de repente, virem para a arte e não sei o que mais?" Foi uma confusão lá em casa? Acharam incompreensível.

É muito engraçado.

Pensem bem! O que estamos a ver.

Tu já sabes a minha história, resumidamente. Eu entro em informática, vou aos meus pais: "Não quero ficar neste curso". Os meus pais: "Tudo bem, podes mudar". Entro em civil, vou aos meus pais e já não tenho coragem para lhes dizer. Deixo-lhes uma carta no pequeno-almoço e vou-me embora de casa. E eles lêem a carta e não dizem nada durante o dia todo. Ao fim do dia, quando eu chego a casa, tinha os meus pais sentados à mesa.

"Vem, senta aí".

E o meu pai com a célebre expressão que era: "Tu podes mudar as vezes que quiseres, desde que esta seja a última".

Ai, coitadinho!

Foi qualquer coisa do gênero. E dizer que deixar uma carta era um ato de cobardia.

Sim, não encarar.

Mas que a carta até estava bem escrita. Portanto, eu podia ir para o lado de mais letras.

Não é que é mau.

O Carlos, passado três anos, entra no técnico para engenharia mecânica. Zero a ver com o Carlos também. Os meus pais nunca foram aqueles pais que impuseram o curso e tem que ir para ciências. Não, nós fomos um bocado arrastados por aquilo que achavam.

Sim, o meio, o contexto, tudo.

Exatamente. E passado um tempo, o Carlos, dois ou três meses de curso, liga-me: "Mano, podes vir almoçar comigo?" "Claro, vou almoçar com ele." E ele diz: "Olha, quero mudar de curso." E eu: "Porra, mas queres ir para o quê?" Ele: "Quero ser ator." E eu: "Falas tu com os pais, porque eu já gastei os créditos todos."

Não te vou ajudar, exatamente.

E ele fez esse movimento e foi incrível, porque acho que o Carlos foi para onde tinha que ir.

Exato. E é a cara dele. Eu vejo e não esqueço. Ele é ótimo. Em 2020 houve a história do Tiago, um amigo teu com 36 anos, que também tinha mudado de vida há pouco tempo e tinha ido trabalhar para o turismo e também era consultor. Mudou de vida completamente e depois, de repente, morre e falha-vos neste aspecto. E de facto, a vida é um sopro e tudo pode mudar. Isso impactou-te de tal maneira que até fizeste psicoterapia por conta disso.

Sim. Eu comecei a psicoterapia logo quando tive para me divorciar, e cheguei a divorciar. E o Tiago, obviamente, passou a ser o tema da psicoterapia.

É um abre olhos, obviamente.

Um abre olhos completo. Foi o momento mais infeliz da minha vida inteira. Tu vês um amigo a partir aos poucos. E eu não consigo tirar mais nenhuma ilação a não ser essa que tu acabaste de dizer, que é: isto é mesmo um sopro. Portanto, eu a partir do Tiago, se tinha algumas dúvidas ainda sobre arriscar, ir de cabeça e ter receio da insegurança, deixei de ter completamente.

Exatamente.

E tenho feito a minha vida desde então assim, e eu acho que é até uma homenagem que faço ao próprio Tiago, porque ele dizia, ainda quando cá estava no hospital, mesmo quando nós falávamos disto: "Tu tens que ir pra isso, tu gostas disso, faz isso". E tivemos muitas conversas, porque foram alguns meses que eu o acompanhei ainda e vivemos um grande grupo de amigos em plena saudade.

Tu ainda dás estes workshops de criatividade? De vez em quando?

Dou a empresas. Vou dar agora ao Bankinter, tenho de dar. Dou muitas vezes a um grupo hoteleiro muito grande, que é o Wyndam, que tem os Marriott e outros. E tem sido muito giro, funciona mais hoje em dia, mais como um projeto de team building do que propriamente um projeto de formação, porque eles gostam até de me chamar para ir dar este workshop de bloqueio criativo, storytelling, copywriter, narrativa, a pessoas que nem estão nessa área.

Pois, mas isso é bom.

É muito bom. As pessoas adoram.

Tu também deste aulas uma série de anos, e portanto também de publicidade, marketing, storytelling. E outra coisa que eu invejo muito em ti, há muitas, uma é Nova Zelândia, Austrália e Polinésia. Fizeste a Polinésia Francesa este ano de viagem?

Sim.

Isto por quê? Por lazer?

Polinésia foi na lua de mel, na altura.

Incrível, Tahiti.

Foi muito giro.

80 horas de voo. O meio do Pacífico.

Foi Los Angeles, Las Vegas e Polinésia. Mas de facto, esta viagem a solo à Austrália e à Nova Zelândia, fiz agora.

E foste sozinho?

Fui sozinho em dezembro.

22 dias, mochila às costas, lá vais tu.

Mochila às costas, literalmente mochila. E digo-te uma coisa, não consigo dizer-te que não voltarei.

A sério?

A sério.

E não outro sítio? Patagónia, Salar de Uyuni.

Quero ir, sim, esses sítios longínquos e tão inspiradores, eu quero ir também.

Incrível.

Mas a Nova Zelândia, como só estive 11 dias, fiquei com o bichinho de pelo menos mais 10 dias.

Adoraste a Nova Zelândia?

Ilha do Sul.

Melhor do que a Austrália? É muito diferente, não é?

É muito diferente.

Mais natureza, mais selvagem.

Sim, a Austrália também tem isso, só que a questão é que na Austrália tens que ir às capitais. À capital não, Canberra não fui, mas fui a Sydney e fui a Melbourne, e o mais campo que estive foi em Cairns, quando fui visitar a floresta tropical e fui mergulhar na Grande Barreira de Corais. Mas a Nova Zelândia, a Ilha do Sul, desde o Lake Tekapo, cá em baixo Queenstown, o Milford Sound, que são os glaciares. Eu digo-te uma coisa, é overwhelming.

É extraordinário. Marcou-te profundamente.

Completamente. Eu já dei por mim a parar o carro num caminho, porque toda a Nova Zelândia é um quadro.

Sim.

Toda.

É o Senhor dos Anéis.

Mais a Ilha do Sul, atenção.

O Senhor dos Anéis.

Sim, O Senhor dos Anéis. E eu dei por mim, quando estava a caminho, penso eu que foi de Milford Sound para ir apanhar o barco. Não consegui precisar, entrei e parei o carro e fiquei duas horas a chorar, em catarse, a não acreditar que eu estou sozinho. Não há um familiar, um amigo, estavam todos a dormir, que naquele momento me possa dar um ombro, algum apoio. És tu e a paisagem.

Incrível.

E foi incrível.

Eu sou teu amigo, por isso não vou falar de dating apps e de isto tem tudo para dar merda e para impositivos sexuais.

Bem, tu sabes tudo, é incrível.

Auto raiques e coisas do gênero, não vou falar. Mas humor, sim. O humor que ajuda muito o estado de espírito e vai-se andando, é uma coisa extraordinária. Esta ideia é muito inspirada na Porta dos Fundos. Vi muita coisa da Porta dos Fundos, é óbvio que é uma fórmula de sucesso e que está há anos, e sempre com ideias novas. Eu acho que não se esgota. Amigos teus já disseram: "Qualquer dia vais acabar." Não vais, podes ir sempre que te vejas bom e tu és.

Desculpa, Jorge, tenho que dizer isto, eu estou surpreendidíssimo com o teu nível de informação. Nunca vi ninguém entrevistar-me que saiba tanto detalhe sobre a minha vida. Eu estou surpreendido.

Mas tu tens muita coisa na net também, tu és uma pessoa muito famosa.

Tudo bem, mas tu tens a capacidade de partir isso tudo e ter tentado ganhar ou perder tempo a vida. É incrível. Estou surpreendido.

Vai-se andando, adoro este título, porque mostra muito este conformismo. Vai-se andando. Eu adoro isso, porque depois vais ver os esquetes e é: vai-se andando, mas ao custo de quê? Com tudo o que nos vai acontecer e tu exageras aquele bocadinho do exagerado humor. Muito bem feito esta sátira que tu criaste. Tens esta equipa extraordinária, Ana, como é que tu dizes? Cloé?

Cloé.

Ana Cloé, o teu irmão Carlos, que chegou a trabalhar com o Herman, se não me engano, também.

Sim, o Carlos é o Zé Lenski nas rábulas do Herman.

O Carlos Alvarez não está contigo porque a tua mãe mandou, ou não?

Não.

Dá emprego ao teu irmãozinho, por favor.

Não ouve disto.

É que ele de facto é talentoso e faz aquilo muito bem. Ele é muito bom em todos os papéis que ele assume.

O Carlos tem tempos de comédia incríveis, é um ator incrível, é super versátil.

É muito diferente de ti também, fisicamente, o que é muito engraçado.

Muito diferente. Ele sai ao lado do meu pai, eu saio ao lado da minha mãe. Ele é de certeza filho do meu pai, eu não tenho a minha certeza, mas posso dizer que é incrível trabalhar com o meu irmão na perspectiva em que consegues testemunhar tudo aquilo que sempre disseram que ele é Muito profissional. Às vezes é um bocadinho demais. Às vezes tenho que lhe dizer: "Carlos, agora descontrai". Mas o cara do tripé está a mexer a câmera, podemos ensaiar quando ele parar? E eu: "Mas agora não temos tempo". Eu percebo porque é que encenadores tão metódicos como João Lourenço, Cristina Carvalhal e outras gostavam de trabalhar com ele.

Ele trabalhou com o Nuno Cardoso, com o Diogo Infante, com a Sara Amorim e a Cristina Carvalhal.

Diogo Infante vai trabalhar com ele também para o ano outra vez.

Boa.

No Trindade. Eu estou muito contente com a carreira do meu irmão e gosto muito do meu irmão.

Muito bom. Teatro, cinema e televisão.

Mas não fui coagido a trazê-lo para a série.

E a Joana Castro também é extraordinária atriz, locutora, performer. Ela é muito boa também na dublagem, tudo que ela faz.

Incrível.

Já foi premiada nas artes, a melhor aluna do curso na Escola Profissional de Teatro de Cascais. Muito boa. Imagino a diversão dos vossos ensaios, nem quero pensar. São divertidos, mas fazem aquilo à séria, como tu dizes.

Sim.

Estes esquetes podem ser vistos na internet, os imigrantes, as finanças, a imobiliária, a mãe, o casamento, o ginásio. Tem uma série de esquetes muito curiosos. Essa inspiração, tu recebes feedbacks, pessoas te dizem: "Olha o que me aconteceu" e tu aproveitas dessas coisas também? Ou sentas-te a pensar em situações?

Sim, 80% das situações, se é que podemos pôr um número nisto, são situações que eu vivi ou sobre as quais eu já tive que refletir. 20% vêm me parar algumas. E depois parte da observação e tentares construir a subversão cômica, a subversão crítica, eu acho que é o que me dá gosto. Como é que eu vou transformar uma coisa normal numa coisa que de repente tem um beat que vai para outro caminho?

Coisas desesperantes. A ida às finanças é uma coisa desesperante.

Sim.

Mas a gente identifica-se imenso e depois tu consegues dar a volta e vocês têm muito cuidado e são muito talentosos, Rui, e a começar por ti como autor, no pormenor. Vocês encontram, juntam imensas histórias na mesma história, juntam imensos casos e situações e depois vão ao pormenor da t-shirt não sei o quê e da urna não sei que mais. E o que é muito curioso, pensam nos pormenores e eu vejo e penso: isto está pensado segundo a segundo. Parece que não, parece tudo ali descontraído, mas está pensado ao pormenor e eu noto isso.

É engraçado que as pessoas que têm mais mundo nestas áreas, como é o teu caso e outras, dizem muitas vezes isso, que veem ali no detalhe. E eu sempre disse isso aos meus alunos, a diferença está nos detalhes, o brio de ser só mais um. O lema da minha faculdade era: se formos mais uma escola, seremos uma escola a mais.

Sim.

Eu gosto muito desse slogan, digamos assim, porque, de facto, e é aqui que eu tentei, obviamente, nós temos uma inspiração clara no "Porta dos Fundos", o formato. Obviamente que eu amava "Gato Fedorento", obviamente que eu adorava-

"Herman Enciclopédia".

Eu e meu irmão batíamos textos de "Herman Enciclopédia" como se estivéssemos, sei lá. As brincadeiras eram aquilo.

Tem as melhores fontes. O Herman por sua vez, ao Monty Python.

Sem dúvida. Eu adoro o Bruno Nogueira, adoro o Ricardo Araújo Pereira, são as minhas duas referências do humor em Portugal. E acho que vou beber um bocadinho. Acho que obviamente que há muita coisa que ainda estamos também verdes, temos que ser humildes nisso, porque há um ou outro esquete que eu sinto que é muito difícil também tu conseguires numa season de 12 ou 14 estar sempre ao mesmo nível. Isso não é fácil.

Sim.

Nós tentamos e tentamos diversificar nos temas também para isso, mas posso dizer que o mais importante de tudo, João, é não perder nunca esta capacidade de fazer comédia sem individualizar. Não é uma coisa que eu quero fazer, eu quero ir ao estereótipo, eu quero ir àquilo que, de facto, ao pequeno poder. Eu quero ir aos traumas, às relações afetivas. Eu gosto muito disso.

Está muito mais nisso. A relação entre marido e mulher, pais e filhos.

Mas dizer também que os detalhes e os pormenores vêm muito da própria equipe também. Ou seja, teres uma produtora como a Patrícia Ibom.

É isso que eu ia dizer. E o João Bernardo.

E o João Bernardo de Sousa que realiza comigo. Ele realiza comigo. Eu não sou só o realizador, ele também devia ter o seu nome na ficha técnica como realizador. Mas para te dizer que depois a Ana Cloé, Joana Castro e o meu irmão dão sempre qualquer coisa. Ainda agora, este esquete da urna que tu estavas a falar, a Ana Cloé que se lembrou no final dizer: "E por falar em tempo, ligue já 760". E o que ela conseguiu ali foi passarmos do momento do daytime triste, macabro, em que perdeu a pessoa, para de repente, quase que a mudança radical, paradoxal de sentimentos. Isso foi a Ana que trouxe.

Esses contributos são importantes. E teu irmão fez o quê?

O meu irmão naquele esquete das finanças, quando ela diz: "Traga o nadador salvador da Praia Grande". E meu irmão vai e é o nadador salvador da praia. Há uma parte em que eu estou em silêncio à procura de um papel e o meu irmão mete a mão por cima da testa como se estivesse a proteger do sol a olhar o horizonte.

A ver os banhistas.

A ver os banhistas e diz: "Ninos!" E faz o gesto de venham para cá.

Exatamente, para Terra.

E esses pequenos detalhes, ou como a Joana, agora para dar uma de cada, a Joana no esquete da mãe, quando vai vender a roupa à mãe, é 5 euros, 5 euros, a mãe não quer, ela diz: "Boa sorte com isso".

Exatamente.

E o boa sorte com isso é: acaba lá de fazer as tuas necessidades.

É extraordinário. E ainda bem que eu vou dizer isto, também tens muitos golpes de sorte que vão acontecendo e as coisas vão encaixando. Isso acontece muito.

Muito.

Isso é sorte, não é mais nada. Às vezes não é mais nada. Tens os astros alinhados, tu que sabes de autorreiki. Tens os astros alinhados às vezes.

Sim.

É incrível o que vos acontece, o alinhamento, de facto, que acontece na produção, as coisas resolvem-se de forma quase mágica quando vocês precisam de alguma coisa, isso é muito giro.

Vou te dar um exemplo.

Dá um último, temos que ir embora.

Temos que ir? Pronto. Precisávamos de uma igreja e arranjamos uma igreja para o dia a seguir. Precisamos de umas luvas. A Joana foi a uma ourivesaria.

Um velório, sim.

E o senhor da ourivesaria disse: "Toma, pode levar as luvas".

Não!

"Ó senhor, e as luvas?"

Incrível.

Precisamos de uma muleta, a Joana, só uma para fazer de cenário.

E o Palácio do Governador agradece, por favor, que deixaram filmar lá.

E o Lux, o espaço Lux de coworking, têm sido incríveis.

Ofereceram-te mesmo e isso é giro, é simpático.

Gostam dos esquetes, gostam de ver o que está a acontecer e tem sido muito fixe.

Dez segundos. Não tens e-mails de ofendidos, de hate mails e coisas assim a dizer: "Estão a gozar com isto e não deviam gozar."

Não, tenho comentários.

Como dizia o comentário da TVC: "Se eu não recebesse nenhum, não estava a fazer bem o meu trabalho".

Não tenho a menor dúvida. Se fores muito consensual, não estás a fazer bem o teu trabalho. Há muito hater espalhado nas redes e claro que recebemos também.

Vocês já filmam também na vertical, já a pensar nas redes sociais, é muito giro isso.

Exato.

Tem um grafismo muito bom e com muita qualidade, isso também é muito bom e todos aqueles esquetes todos alinhados com os títulos, é bestial abrir na net e ver aquilo. Ainda bem, boas notícias, vai haver uma terceira temporada. E ainda bem, vai haver este musical então baseado no teu livro, um livro muito bonito sobre inclusão, a história dos animais que têm aqueles problemas todos. E vai vir este musical que vamos poder ver no Tivoli.

Exatamente.

Setembro, outubro, não me lembro.

Vai estrear 10 de outubro, no Tivoli.

Então isso é ótimo.

Durante um mês vai ter escolas durante a semana, os dias úteis, e ao fim de semana é para famílias.

"Ser diferente é normal" é o nome, é o lema do livro.

"Ser diferente é normal".

Muito bem. Sobre inclusão. Muito bom.

Sobre inclusão e vai ser o maior espetáculo sobre inclusão já mais feito para crianças.

Estou muito curioso.

A produção está a investir bastante, a Plan 6 tem sido incrível e estou muito expectante para essa estreia.

Rui Malhaues, não pode ter sido mais difícil esta conversa, o melhor. Gostei imenso de falar contigo, os teus projetos, a tua vida, as voltas que deu e como isto tudo se vai encaixando. Porque tu mereces, tu e a L'Oréal, porque mereces. E portanto, tu e a tua família e o teu irmão também. Aqui um grande abraço à Ana também, à Joana e ao Carlos, que fica aqui personalizado em ti. E bem-hajas e hás de voltar com mais projetos. Muito obrigado por teres vindo.

Gostei muito, João. Obrigado.