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Existe uma ordem no frigorífico para que os alimentos durem mais tempo. As frutas e legumes não devem estar juntos. Alguns nem devem ir para o frigorífico, porque isso reduz a validade e a frescura.

Na nossa moderna e civilizada Europa, há 23 milhões de pessoas afetadas anualmente por intoxicações alimentares, das quais 5 mil acabam por morrer. No resto do mundo, ocorrem 420 mil óbitos devido ao consumo de alimentos contaminados e 40% dessas intoxicações acontecem em casa. A segurança alimentar é um problema ainda ignorado entre nós. Ciente de que não há alimentos saudáveis sem primeiro serem seguros, Suzete Estrela é engenheira alimentar e health coach com mais de 20 anos de experiência. Filha de agricultores, começou a trabalhar no campo e já foi durante uns anos consultora de chefs nos hotéis mais luxuosos do mundo, no Dubai. Hoje traz-nos o seu terceiro livro, "Mais de 50 coisas que não deve fazer na cozinha: evite doenças silenciosas, desperdício e comida estragada", com meia centena de erros comuns explicados com rigor e bom senso e dicas práticas para o dia a dia. Vamos conhecer melhor esta força da natureza que tem na alimentação a sua profissão e a sua paixão. Olá, Suzete, bem-hajas.

Olá, João Val, muito obrigada.

Muito obrigado por teres aceitado este meu convite.

Obrigada eu.

Fico muito contente de ter-te aqui. Temos pouco tempo pra muita coisa.

Ok, vamos lá.

Vamos começar com isto. Suzete com S. É uma coisa que desde pequena corriges toda a gente?

É frequente. Com S, com T ou com dois Ts. É muito frequente.

Tu nasceste a 11 de setembro, uma data icónica, como a minha mãe, portanto, que ela sempre dizia: "Ninguém se diverte neste dia, é um dia triste pra toda gente".

Pois é, mas eu já tinha nascido antes, como a tua mãe.

Exatamente, há 95 anos, mais ou menos.

"É o dia das torres". Não, é o meu dia de aniversário.

Exatamente, é um dia importante por isso também. E todo mundo fala no teu dia de aniversário.

É verdade.

Qualquer dia é por causa de ti, não te preocupes. Agora, tu nasceste ali numa aldeiazinha, eu já li, que dizia uma aldeia entre a Massamá do Alcobaça e a Penarrocha de Bombarral. Isto é o quê? Rostos? Nadadouro? Carvalhal Bemfeito? Casal do Bicho?

Mas é próximo.

Abronheiros?

Fica aí próximo, exatamente.

Casal das Freiras, Lobeiros, Relvas, Vigia.

Foi uma boa pesquisa de GPS.

Exato, não, está a ver onde é uma aldeia pequena ali para as Caldas.

É uma dessas pequenas aldeias com 100 habitantes, pouco mais.

Uma aldeia onde quando tu nasceste nem sequer havia estrada alcatroada.

Não tinha estrada alcatroada, não tinha telefone. Lembro perfeitamente-

Quando chegou o telefone.

De chegar o telefone. Lembro perfeitamente. As pessoas às vezes perguntam: "Mas onde é que tu vivias?" Eu vivia numa aldeia no concelho de Caldas da Rainha.

É incrível.

E lembro-me que o telefone chegou quando eu acho que tinha oito, 10 anos. Já tentei fazer essas contas. Tenho lá o telefone daqueles pretos de andar à roda.

Sim, com o dedo.

Sim, exatamente.

Que hoje as novas gerações nem sabem manipular. Ficam a olhar pra aquilo, carregam nos números e fingem. Extraordinário.

Exatamente, aquele é de roda. E estou lá, e lembro-me da felicidade. Lembro que fomos comprar um móvel de propósito pra pôr o telefone.

Extraordinário.

Foi assim uma grande chegada.

Mas atenção, tu foste para as Caldas estudar. Tu és a primeira mulher na tua família a ter um curso superior.

Sim, a licenciar-me.

E os teus irmãos a seguir também, os teus dois irmãos também foram tirar.

Sim.

Mas tu sofreste algum bullying por causa disso, porque como ajudavas os teus pais, e sempre ajudaste, mesmo enquanto estudavas, com os pomares e tudo, as pessoas diziam: "Ah, vai estudar para quê?"

"Fizeste o meu trabalho de casa". É verdade. Eu lembro-me que quando vinha do autocarro, porque as pessoas, isto pode chocar algumas pessoas, mas eu lembro-me de ouvir isto várias vezes: "Então, andas lá a estudar para galdéria?"

Como quem diz: "Por que é que não ficas aqui no campo a ajudar os teus pais?"

Como é óbvio, estás a estudar para quê? Ali nos anos 80, 90, começou a haver muitos casos de droga. E nós vínhamos de uma aldeia, e sair da aldeia era sair ali da bolha.

Pois.

E ir para a universidade, para a secundária, era assim uma coisa: "Então, mas por que é que ela não vai fazer facas ali para a cutelaria, como toda a gente vai?"

Para as fábricas existia ao pé, claro.

Exatamente. Ou por que não fica no campo, ou por que não vai para as facas? Havia muitas opções, haviam essas duas.

Vais trazer a raposa? É engraçado.

Exatamente.

É uma expressão que eu não conhecia. Aprendi contigo. Quer dizer que vais chumbar.

Vais chumbar, exato. Então a mãe tem que prender as galinhas este ano ou temos que prender todos? Havia muita pressão. Hoje nós chamamos bullying, que é um nome muito chique, mas na altura havia muita pressão. E eu sentia, porque era a primeira, porque sabia que isto financeiramente para os meus pais era pesado, era um esforço grande para eles, e era a responsabilidade: "Não, agora não tenho que só vencer por mim, mas também para respeitar a decisão deles".

Aqui fica esta homenagem bonita à tua mãe e ao teu pai, que já cá não está entre nós, mas de facto que apostaram nisso.

Foi pesado, foi.

E com essa faca tu não podes sequer falhar. Se tu falhasses, sabias que ias ficar em casa e que voltavas para casa.

Ia apanhar maçãs. Era muito simples. Se eu falhasse, estava lá um destino à minha espera.

Incluindo a maçã reineta. É tão engraçado, tu mesmo quando estavas a estudar, tu voltavas pra casa de camionete, vinhas de Faro, tiraste Engenharia Alimentar em Faro, cinco anos.

Sim.

E depois voltavas de camionete, mesmo assim ias trabalhar no campo.

Ia.

Mas quando era reineta era uma festa.

Por quê? Porque a reineta era a última maçã que nós apanhamos antes de começarem as aulas, isto antes de ir pra universidade. E pra mim era uma festa, porque é a última, agora começam as aulas, finalmente. Os meus colegas todos chateados, porque iam começar as aulas, mas eles passavam as férias deles algures.

Na praia do Foz do Arelho.

Da Foz do Arelho, exato.

Na praia, São Martinho.

Exato, Peniche, por ali. A minha praia era outra, Baleal por aí. A minha praia era outra. E portanto eu queria mesmo era começar as aulas o quanto antes, porque era mais leve pra mim.

Exatamente. Já se sabe a liberdade, como tu dizias.

Sim.

Tão bonito isso.

Sabia.

O teu avô foi um dos primeiros veganos.

Em Portugal, é verdade.

Que engraçado.

Ele tem uma história muito gira, conto no meu segundo livro, A Roda da Felicidade. Ele ensinou-me muito sobre saúde e doença, na verdade, sobre doença e depois como é que nós podemos cuidar de nós mesmos.

Exatamente.

Portanto, ele ali aos 50 e pouco, foi diagnosticado com uma doença que nunca ninguém me explicou muito bem

Mas que não dava muito tempo de vida.

Não, ele tinha que ir à faca, como se dizia na altura. O melhor médico da região disse: "Não, você tem que ir à faca, senão não se safa". E ele disse: "Ó faca move é que eu vou". Encontrou um panfleto algures a dizer curdoenças de um médico que era italiano e que estava em Paço de Arcos, tinha chegado há pouco tempo. Curdoenças incuráveis, coisa assim do gênero. O meu avô pensou: deixa-me lá ir ver o que é isto. E foi para Paço de Arcos. Imagina ir da nossa aldeia para Paço de Arcos naquela altura, havia menos trânsito do que de agora para Marte.

Sim, dizer: "Vou atravessar a América, o faroeste".

Era assim uma coisa.

Era um pioneiro. E então?

Ele lá ficou durante uns meses, alugou um quarto, vinha a casa. Isto em 82, salvo erro, por aí.

Meu Deus! O quê? Há 40 anos?

Sim.

Não fazia ideia. Pensava que isso era o teu avô quando era novo.

Não, eu tenho 47 e eu tinha cinco, seis aninhos.

Então foi muito recente.

Foi muito recente.

E isto que é que era? Medicina alternativa, portanto, uma reflexologia ou alguma coisa assim?

Medicina natural, como ele lhe chamava. A verdade é que ele melhorou. Voltou a casa, mandou o vinho todo pelo pátio abaixo. Estás a ver aquelas barricas todas de vinho? Era chamado louco e fez daquilo saunas. Nunca mais comeu carne nem peixe. Eu lembro-me de começar com ele a fazer aquilo a que nós chamamos hoje o leite de soja, com os feijões de soja que ele tinha na horta, plantava, e hidratávamos aquilo, fazíamos na Linax um, dois, três, fazíamos leite.

Ainda viveu mais 20 anos.

Viveu muito mais tempo. E com alguma qualidade de vida. Eu digo alguma, ele vivia bem, atenção, porque não socializava muito devido à alimentação. Hoje em dia para os veganos é mais fácil, mas na altura não era bem.

Há mais escolhas, na altura não era bem acolhido.

Mas ensinou muita gente e ensinou-me a mim muita coisa.

Que giro. Também estás ligada um bocadinho a Ferreira do Zêzere, a minha terra de eleição e de férias, porque os teus pais tinham lá um pomar de maçãs.

Sim, era hábito. Quando nós estávamos a ir para a universidade, portanto eles queriam aumentar a produção e a venda. E além dos nossos pomares, eles contrataram lá um pomar também e íamos para lá. A primeira vez que eu conduzi com pessoas no carro, já com a carta de condução, foi de Caldas da Rainha para Ferreira do Zêzere, levavam-me sempre a pessoa.

Aposento de conduzir, tu desde pequena, com oito anos, já aprendeste a conduzir um trator, mas também ias morrendo uma vez.

Foi em Ferreira do Zêzere que eu ia morrendo, curiosamente.

Esta não tinhas contado. Mas porque ias ficando debaixo do trator?

Foi um lagarteiro, algumas pessoas se calhar não sabem o que é, mas é um lagarteiro. Estava com o meu pai, o dia todo os meus irmãos e a minha família iam todos a caminho para Fátima, a pé. Ainda hoje achamos que alguma coisa se passou naquele dia.

Claro que sim. Muito importante.

Mesmo, achamos, porque o meu pai achou mesmo que eu ia morrer. Só me lembro de ver o meu pai ao fundo a gritar e a dizer: "Salta, salta". E eu lá consegui saltar no último segundo e o lagarteiro virou-se. Um lagarteiro é uma coisa que a pessoa fica lá debaixo esmagada.

Há muitos casos e infelizmente vão acontecendo.

Hoje em dia há arcos.

Que idade tinhas?

Eu tinha 15 anos, salvo erro, nessa altura, sensivelmente 15, 16.

Meu Deus. E foi em Ferreira do Zêzere. Aos 16 tu acabaste.

Correu bem.

Correu bem, graças a Deus. Bem te pode ir a Fátima agradecer a tua vida.

Sim, ainda hoje me lembro. Aliás, estou a falar disso agora. O meu pai era uma pessoa do campo e muito rija, e naquele dia ele disse: "Não vais contar isto a ninguém, muito menos à mãe, mas nunca mais vens para cima do trator". Eu lembro-me por que aquilo aconteceu. Basicamente, eu tinha estado o dia todo, estava a chover, eu já tinha os pés muito molhados e ao final do dia nós ficamos com os pés mais feridos. E estes tratores, os lagarteiros, precisavam dos travões. É preciso fazer muita força. Eu tinha que me colocar quase de pé para conseguir travar aquilo. E eu já tinha os pés tão feridos que não consegui fazer essa força toda e não consegui travar a tempo. E no combro aquilo virou.

Esses lagarteiros quer dizer que é mesmo lagartas?

É mesmo, tem duas lagartas e duas manetes que puxamos para trás para travar.

Muito bem. Aos 16, tu como trabalhavas também no campo e ajudavas muito os teus pais, foste reivindicar os teus direitos com o teu pai. "Pai, eu quero receber como as mulheres todas que estão aqui a trabalhar, fazem o mesmo que eu e não recebem. Eu quero receber".

Veio uma amiga minha que os pais eram advogados e ela tinha sempre as roupas de marca e as coisas todas. E ela via-me a trabalhar e disse: "Acho que tens todos os direitos". Eu cheguei a casa e pensei: "Tens razão, vou reivindicar". E o meu pai disse: "Está bem, eu pago-te o mesmo preço que as mulheres, tudo igual". E ao jantar disse-me outra conversa.

Mas com uma condição.

Exatamente. Ao almoço ele disse: "Tudo bem, mas não te esqueças, tens que pagar os livros, vais à Pital", que era a nossa livraria, "pagas os livros, pagas o passe, pagas tudo, é tudo à tua conta, o passe o ano inteiro". E eu à noite fiz as contas durante a tarde, enquanto apanhava pêssegos e acertava caixas de fruta, e cheguei à noite e disse: "Ó pai, se calhar é melhor eu continuar a trabalhar de borla".

Não compensa, eram muito mais as despesas que eu tinha contigo. É engraçado, porque tu foste então estudar para as Caldas e depois para a faculdade. A tua timidez, venceste-a pela rádio. É engraçado, fizeste rádio uns tempos. Cá está, este meio maravilhoso.

Sim, eu tinha muita vergonha de falar, inclusive de dizer bom dia, boa tarde às pessoas. Não gostava muito. Era muito metida comigo. E senti que vou para a universidade, vou ter que apresentar trabalhos, porque ouvia as minhas colegas a falar sobre isso. Como é que eu vou fazer? Eu tinha uma prima mais afastada que fazia rádio. Eu pedi se não podia ir para lá fazer rádio. E depois eles gostaram da minha voz e eu comecei a ir aos sábados, ajudava de manhã nos meus pais, fazia lá duas, três horas ao sábado e foi assim que fui perdendo.

Tornaste uma excelente comunicadora que hoje és.

Obrigada.

E bem precisas disso, com o teu trabalho. E querias ser enfermeira. Como é que apareceu a engenharia alimentar no meio disto?

Foi a última opção. Tudo na vida tem uma razão. Com a história da doença, da saúde, sempre muito rodeada de pessoas à nossa volta com doenças, eu sou muito de ajudar o outro. Então pensei: quero ser enfermeira. E já ajudava o meu pai lá com os porcos e com as operações que nós fazíamos. Eu achava que tinha dom para aquilo, era a curadora lá de casa de muitas coisas.

Mas fazia cozinhas e coisas assim?

Sim, ajudava. Porque antes não havia veterinários como nós hoje temos. Nos anos 80, cada um tinha que desenrascar-se para salvar os animais. E aprendi muito com ele. E pensei: vou ser enfermeira. Só que ali naquele verão, depois de me ter candidatado, ainda fui fazer engenharia alimentar no final, porque já não havia mais nenhuma escola de enfermagem. Deixei de conseguir ver sangue nesse verão. Assim de um momento para o outro, uma coisa que eu ainda hoje não consigo explicar. E portanto, comecei a pensar-

Foi um sinal de Deus, foi uma vocação nascida.

Como é que eu vou para Enfermagem se eu-

Era a última opção?

É a última.

E o algarve.

E fui só por pôr para Faro, só para preencher, porque havia lá um colega do ano anterior que estava lá e eu pensei: "Olha, vou pôr isto". E fui lá parar. E ainda bem, hoje olho para trás e ainda bem, era isto, era mais isto do que Enfermagem.

Diz-me só agora, por palavras simples, o que é que faz uma engenheira alimentar? É que as pessoas confundem com nutricionista-

Com cozinheiro.

Cozinheiro, com veterinário, se quiseres, com engenheiro alimentar. O que é que faz? Inventa iogurtes?

Um engenheiro alimentar também. Um engenheiro alimentar está entre o engenheiro agrônomo e o engenheiro zootécnico e o nutricionista, vamos dizer assim. Ou seja, nós estamos depois que o alimento já foi desenvolvido e agora ele precisa de ser transformado. Ou é higienizado, ou é transformado, ou é transportado, ou é embalado, ou precisa de ser desenvolvido do ponto de vista: eu agora tenho uma carne, eu vou vender essa carne cozinhada, desidratada, refrigerada, vou vendê-la com arroz, ultracongelada.

Faço lasanha com ela.

O que eu faço com isso? E, portanto, depois definimos as datas de validade dos alimentos.

Os rótulos.

Exatamente, aplicamos a legislação para a questão dos rótulos. Tratamos de toda a segurança alimentar do alimento. E nós pensamos: o que é a segurança? São muitas disciplinas numa só. Nós cuidamos da saúde das pessoas. O engenheiro alimentar é aquela persona que existe na cadeia alimentar, que ninguém dá por ele, mas se ele faltar-

É muito apagado, mas faz falta.

É um pouquinho como as mães nos lares. Toda a gente tipo: "Ah, mas chata, não sei o quê". Porque é isto, porque é aquilo, tem que estar tudo limpo e tudo organizado. No dia em que a mãe não está em casa, cai o carmo e a trindade e aquilo sai tudo fora da ordem. Quando eu digo mãe, digo, obviamente, esta energia mais organizadora.

São muito discretas, mas salvam vidas.

Salvam vidas, os engenheiros alimentares salvam vidas todos os dias, é um caso de saúde pública, mas somos muito discretos. Não falamos muito sobre o que fazemos, porque passamos 12, 14 horas, às vezes mais do que isso, dentro das fábricas, a pisar chão de fábrica.

A fazer consultoria.

A fazer consultoria, a fazer auditorias, a fazer controle de material. Exatamente. Mas é muito isso, pegamos em produtos ou mantemos e tentamos prolongar a sua validade, mantendo o melhor valor nutricional possível, ou então transformamos alimentos, mas nem todos os transformados são tão maus como as pessoas os tentam categorizar.

As pessoas acham que o alimento processado quer dizer que é veneno, e não é verdade.

Não é verdade.

Uma ervilha que seja ultracongelada é uma ervilha ultracongelada.

E é processada, sim. E não tem mal nenhum. Isso faz bem. Aliás, eu prefiro uma ervilha ultracongelada, porque ela foi apanhada no seu ponto brix melhor, ótimo na época, do que uma ervilha fora de época que vem da Conchichina.

É incrível, é verdade.

E as pessoas não têm esta percepção. Há muita má imagem dos ultracongelados, e isso vem dos tempos em que havia muitas interrupções da cadeia de frio. Hoje em dia é muito mais controlado.

Interromper a cadeia de frio é, por exemplo, eu ter coisas no congelador e abrir e fechar muitas vezes.

E desligar para poupar luz, por exemplo.

Há quem faça isso com o congelador?

Sim, ainda há quem faça isso.

Começa as coisas a estragar, começam a se estragar.

Exatamente. E depois, como volta a congelar e as embalagens normalmente são opacas, as pessoas pensam: "Ninguém vai ver os cristais de gelo". É aquela sensação dos anos 80, quando nós comíamos gelados no início do verão que ainda eram do ano passado.

Sim. O resto do estoque.

É um pouquinho isso.

É uma coisa que eu aprendi contigo também com o teu livro. Aqueles gelados, por exemplo, por causa de um gelado que vê-se que foi recongelado. Portanto, saiu, descongelou e depois congelou. E vê-se logo, tu disse, que tem os cristais de gelo à superfície.

De fora. Exatamente. Por quê? Porque na descongelação o cristal, que é sólido, passa a líquido, sai da célula. E depois, se eu volto a ativar a temperatura, congela novamente, mas já não entra para a célula, fica fora da célula. Daí os cristais. Sempre que eu encontro um alimento ultracongelado, com muitos cristais ali à volta, já é muito mau sinal.

É refeito e reposto e recongelado.

O cristal não engana.

Exato. Não era o algodão, agora é o cristal.

Agora é o cristal.

E às vezes nos restaurantes acontece isso, ou nos bares, ou nos cafés. "Desculpe, eu não quero isto, porque vocês já recongelaram isto". Notas isso e alertas.

A mim acontecem-me muitas coisas.

Pelo sabor, também?

Pelo sabor, sim, porque o alimento fica mais desidratado, fica mais seco, perde sabor, perde textura. Exatamente. Portanto, percebe-se que aquilo congelou, recongelou.

A ti acontece tudo que tu ias contar?

A mim acontece-me tudo, por quê? Nossos auditores, parece que temos um ímã para as coisas. Se há alguma coisa menos boa no restaurante ou no supermercado, ela vem ter conosco.

Ou compras uma salada e vem com um sapo lá dentro.

Incrível! É verdade. Vinha com uma rãzinha, bem pequenina.

Poderia ser algo obscura. Só que ela não respirava, coitada.

Coitadinha da rã. Ela estava a pedir socorro. Abram o saco e tirem-me daqui.

Mas era daquele gênero embaladas que a gente compra no supermercado.

Sim, são aquelas rãzinhas d'água. Coitadinha, ela passou no circuito da empresa de quarta gama, porque aquilo passa por um circuito de higienização, desinfecção, tudo mais.

Sobreviveu a tudo.

Sobreviveu a tudo, inclusive à zona de corte do saco. Portanto, ela foi uma guerreira e de repente eu abro o saco e antes de abrir, vejo uma rãzinha a olhar, tipo, tirem-me daqui. Já foi há uns anos.

Há outra coisa que eu vou dizer, antes de fazer uma pequena pausa, há outra coisa que tu fazes que eu acho extraordinário e que aprendi contigo, que é: fiambre, por exemplo. Tu gostas daquele que já está cortado ali na coisa.

Quando confio no supermercado, sim.

É isso. E nós é como a carne picada. Não, pica à minha frente, não quero a que já está picada. Não sei se isso é a mesma coisa ou não, mas tu dizes: "Não, fode-se que já está picada".

Sim.

Ou já está cortado o fiambre.

Então, porque se eu sei que ali se controla a temperatura e que lá atrás existe uma zona de corte refrigerada, se eu conhecer minimamente as pessoas e a operação, eu prefiro isso. Se eu desconfiar, eu prefiro também que seja cortado na hora. Se eu estiver com o sistema imunitário embaixo, aí eu já prefiro que seja daqueles de atmosfera modificada, os que estão embalados, na outra parte do supermercado. Normalmente, está numa outra zona.

Estão numa vitrine normal, quer dizer.

Exatamente, naqueles que já vêm embalados de fábrica.

Porque tu dizes, a pessoa se vai tirar, eu quero aquele, aponta para a peça inteira, e vão cortar, e tu dizes: "Estão a tirar do frio e a cortar e a pôr no frio outra vez". Isso é que pode dar errado, não é?

É, são essas interrupções sistemáticas de temperatura fora a própria máquina que fica ali exposta à temperatura ambiente e na zona da lâmina, e levamos aquilo para casa e depois ao fim de um dia o fiambre já está a começar a ficar estragado, porque ele já trouxe muita sujidade arrastada com a lâmina e com aqueles procedimentos.

Muito bem, sucesso, Teresa Trilha. Temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já.

Com certeza.

Estamos a conversar com a Susete Estrela. Ela é engenheira alimentar, especialista em segurança alimentar, que nos traz o seu terceiro livro: "Mais de 50 coisas que não deve fazer na cozinha. Evite doenças silenciosas, desperdício e comida estragada". Estamos a falar de algumas dicas que tu nos dás, Susete, muito interessantes e importantes. Tu na tua vida foste estudar, fizeste um curso online de health coach em nutrição integrativa. Isto é um curso que é dado a partir de Nova Iorque, onde estudaram mais de 100 dietas. É impressionante, todas aquelas dietas da moda estão lá, não?

Sim, todas.

As paleo e outras.

Sim, é um curso intensivo, é um ano, mas é bem puxado.

A diferença entre nutricionista e health coach é o quê?

Nós não prescrevemos dietas, esse é um dos pontos. E o nutricionista normalmente foca-se mais na questão alimento. Alimento e a fisiologia da pessoa. O health coach não. Nós olhamos para a pessoa do ponto de vista integrativo.

Holisticamente.

Exatamente. Aquilo que eu descrevi no segundo livro, o meu prato emocional e depois o meu prato nutricional. Quando alguma coisa nos oito pilares da minha vida não está bem, eu vingo-me sempre na comida.

É uma coisa gira que tu falas disso, é engraçado. "Acontece-me sempre passar no McDonald's", é porque está com falta de açúcar, é porque tem uma falha qualquer, uma lacuna no seu coração.

Um nutricionista, não são todos assim, obviamente, mas é muito frequente que diga: "Olhe, a senhora vai ter que seguir esta dieta para isto e para isto". E já me aconteceu. Eu submeti-me várias vezes a consultas de nutrição, até para perceber também o modus operandi. Começar a ter várias colegas, mas queria servir de cobaia e perceber. E ninguém entra e sai, ninguém pergunta se eu estou a passar por um processo de divórcio, se eu estou feliz na minha profissão.

Nós não estamos sempre iguais. Nós passamos fases diferentes da vida.

Diferentes. Se os vários pilares da minha vida financeira, emocional, profissional, familiar, até a nível de exercício físico, a minha casa, o meu ambiente. Se há uma série de fatores na minha vida que não estão bem, eu lá vou conseguir seguir uma dieta. Já há tanto rigor na minha vida e tanta coisa fora do sítio, por que é que eu me vou privar ainda de mais coisas?

Os nutricionistas não levam isso em atenção, obviamente. É só como é que está o teu corpo neste momento e acabou.

Não, olhamos muito para o corpo às vezes como um tubo de ensaio, como um vácuo. E as coisas não são assim. Esta ideia de que nós somos calorias, o que entra e depois temos que consumir muitas ou consumir poucas e gastar mais, que é para emagrecer, não é bem o in out. Ou seja, há aqui todo um conjunto de fatores. Eu não sou um sistema de vácuo, eu não sou um tubo de ensaio. Eu sou um ecossistema muito complexo.

É por isso que falas na alimentação primária e na secundária.

Sim, é o conceito da escola e eu traduzi como o prato emocional e o prato nutricional, porque coloquei ali mais umas coisas. E primeiro nós temos que tratar do nosso prato. Temos que comer todos os dias, mas temos que tratar do nosso prato emocional. E nunca nos sentimos mal.

É uma coisa que falas no segundo livro, "A Roda da Felicidade", também uma edição Arena, uma chancela da Penguin, onde criaste esse conceito do banquete da vida. É muito bonito isto. Além de falares das dietas mais antigas e populares, fazes isto. Quanto de si é que é o peso emocional? Qual é a dieta emocional e nutricional que melhor o serve a sua felicidade e buscar o seu eu saudável? É muito engraçado isso.

Sim, nós ao longo da vida negligenciamos e adjudicamos a nossa felicidade ao outro, adjudicamos a nossa saúde ao médico, ao nutricionista. E não pode ser, nós não nos podemos adjudicar ao outro. Ok, eu posso pedir ajudas, mas essa responsabilidade máxima acaba por ser minha. Esse livro é o resultado de um processo em que eu passei por muitas intolerâncias alimentares. Desde miúda que eu tinha problemas gastrointestinais, os meus pais gastaram fortunas.

Tu herdaste isto, familiar, é génio.

Herdei. E só quando eu comecei a tratar de mim mesma e olhar para este ponto de vista holístico, só quando eu fiz este curso e comecei a aplicar muitos dos princípios, é que eu reduzi, obviamente, muitas das intolerâncias que tenho e problemas de pele que tinha também, todo um conjunto de coisas.

Tu corres muito com o sol e percebeste só no Dubai que eras alérgica ao sol, não é?

É verdade, eu que queria ser agricultor.

Exatamente, passas a vida ao ar livre, depois chegas ao Dubai, pronto, eu sou alérgico a isso.

Na verdade, no Algarve já me tinham dito, em Faro, que eu era alérgica ao sol. E eu pensei: "A médica passou-se". E depois aconteceram mais dois episódios no Dubai, eles disseram-me se eu era alérgica ao sol e descobri que efetivamente há pessoas alérgicas ao sol. Tenho a pele muito branquinha, muito sensível e pronto, parece que sim. E de fato tenho que ter muito cuidado.

Estavas recém-licenciada quando tinhas 25 anos, nessa altura.

26.

Quando o teu pai morreu com um cancro. Muito novo, 49 anos, era muito novo o cancro do cólon, se não me engano. Tinha lutado uns anos contra isso.

Sim, três anos e meio.

Mas de fato, por que eu falo nisto? Não só porque foi uma grande influência pra ti, muito importante pra tua vida, ainda bem, claro, a ele deves a vida, mas porque inspirou muito a tua missão, esta questão da saúde e da ligação que ele fazia.

Eu andei muitos anos em hospitais. Porque eu sempre tive muito esta ligação à saúde. Por isso é que eu queria ir pra enfermagem. Quando era preciso ir ao médico, era eu que ia e servia de interlocutora. Até por isso, porque o meu pai tinha a quarta classe, a minha mãe depois fez o sexto ano, mas há determinados termos, hoje é que se fala de uma forma mais acessível. Mas há uns anos não era bem assim. Os termos eram complicados.

Herméticos.

Pronto, e então o meu pai, minha mãe também, mas o meu pai sentia algum apoio: "Vem comigo para eu entender o que é que o médico está a dizer".

Tinhas mais estudos. Teu avô não sabia ler, caramba. A minha mãe também tem a quarta classe, é assim mesmo, e quer que os filhos tenham melhor, obviamente.

Pronto, as universidades deram-nos isso nos últimos 40, 50 anos. E com todo esse processo, eu passei três anos e meio entre hospitais e quimioterapias e radioterapias e percebi que havia muitas falhas. Havia muitas falhas no sistema, na maneira como a pessoa vai lá e é tratada, mas depois é mandada pra casa, depois venha cá. E há ali aqueles entretantos em que a pessoa se sentia perdida. Eu lembro perfeitamente quando o meu pai recebeu a indicação, eu estava com ele e saímos do hospital e a médica disse: "Olhe, está aqui isto, agora tem que aplicar o saco no seu pai, vá ver à internet como é que se faz".

Pois.

É uma situação muito íntima. Quem nos está a ouvir e é colostomizado sabe que é uma situação muito íntima. E para o meu pai, um homem da terra.

Ainda mais.

Exatamente. Pedir à filha para lhe fazer a higiene do estômago, que agora o intestino está ligado a um buraco na barriga, e ter que fazer toda aquela higiene.

Um tampão, exatamente.

E um tampão. Aquilo afetou-lhe muito a autoestima aos 46 anos, porque o meu pai tinha 46 anos quando isso aconteceu.

Era novíssimo, era mais novo que tu.

Mais novo do que eu agora.

É impressionante. Era um velhinho quase incapaz. É extraordinário.

Ele passou de uma pessoa muito rija, muito forte, muito alegre.

Também houve um bocadinho do médico pouco sensível nessa-

Muito pouco. Nem te vou dizer aqui, posso dizer depois em microfone fechado o que é que o médico disse, mas foi uma coisa muito feia, ainda mais vinda do médico. Não sei se posso, mas é uma coisa não é muito bonita.

Sim, mas podes. Quanto mais não seja pelo alerta que fica e pela atenção, essa sensibilidade que é importante ter. Eu acho que hoje há mais, mas de qualquer modo, há pessoas e pessoas em todas as profissões.

Eu vou parafrasear. Eu arranjei uma consulta em Lisboa para o meu pai, sem ele saber, num especialista, e o médico descobriu. Este médico lá do Hospital das Caldas da Rainha.

Não ficou nada satisfeito com isso.

Não ficou satisfeito.

E vingou-se.

Assim que nós chegamos ao consultório, ele virou-se para o meu pai e disse-lhe assim: "Você é que sabe se quer morrer encastado ou cagar merda em sacada".

Não é possível que tenha dito isso.

Disse. Perdão pela audiência, mas isto para mim, para 26 anos.

É duro, é difícil.

E eu vi o meu pai com as lágrimas nos olhos, uma pessoa que nunca chorava.

Exatamente.

É muito duro. Ele depois percebeu que aquele médico tinha que pôr as coisas na linha, mas ele tinha o direito, era outros médicos. Eu tinha o direito como filha.

Toda a gente tem direito a uma segunda opinião.

Como é óbvio.

É um cancro, caramba.

E achei aquilo muito violento, muito duro. O meu pai acabou por morrer, eu digo isso no segundo livro, por demasiados diagnósticos precoces. Obviamente, ele já foi tarde, mas estas frases também não ajudam em nada.

Claro que não. Quando a pessoa é inspirada, até pode ajudar a curar e a melhorar a qualidade de vida.

E então eu percebi que o meu avô é que estava certo, que era na prevenção que estava a qualidade de vida. O meu avô pai dele. Que ele ignorava, ria-se, tipo: "Ai, são exageros".

Coisas do teu avô.

Exatamente. Coisas do teu avô. Mas foi o meu avô que viveu muitos anos com qualidade de vida dentro daquilo que era as limitações dele. E eu aprendi, é com o meu avô, é com a prevenção, e eu tenho que ir aprender prevenção para não ter que chegar a este ponto de chegar ao hospital e ser tratada desta forma. Atenção que eu encontrei médicos extraordinários.

Claro, e também há.

Mas também encontrei este.

Exatamente. Este alerta é que é importante, essa sensibilidade que é importante neste diálogo com o paciente. Tu, entretanto, foste sócia de uma indústria alimentar, tiveste a Suzete Estrela Gourmet, estes produtos, que depois eticamente saíste mais tarde.

Porque não me faziam bem e achei que não iria vender produtos que não me faziam bem a mim, portanto, não queria dar a cara por isso. Basicamente foi isso.

Adora as feiras internacionais, tudo que seja feiras deste setor. Chegaste a ser raptada.

Foi quase.

Em São Paulo, quase que foste raptada.

Não, desapareceram comigo. A verdade é que desapareceram comigo, sim, durante 15 minutos. Foi um sufoco muito grande, não desejo a ninguém, e tive que ter muito sangue frio. Eu fui fazer uma feira sozinha para São Paulo e os senhores perceberam que eu tinha passaporte e que estava sozinha. E encontrei alguém.

Solo traveling, gostas muito.

Gosto muito, sim, só que daquela vez acabou por correr bem, não vou contar agora, mas houve um determinado discurso, eu percebi o que é que ele queria e a certa altura lá me consegui safar.

Sentiu que tinha um aperto.

Porque entrei num táxi que eu estava à espera e que estava à porta da feira e que eu achava que era dos táxis normais, onde eu entrava.

Oficiais.

Exatamente.

E não era.

E percebi no instante seguinte que não era.

Muito bem. Tu chegaste a viver no Dubai, para onde ias seis semanas e acabaste por ficar seis anos.

Exato, foi temporário. É muito normal, no Dubai as pessoas ficam lá temporariamente 20 anos.

Onde, aliás, foste consultora, trabalhaste no Burj Al Arab, por exemplo, este hotel mais luxuoso do mundo.

Eu visitava os chefs que estavam lá. Eu trabalhava numa empresa de food trading.

Onde tu ias seis semanas e acabaste por ficar seis anos.

Exato, foi temporário. É muito normal, no Dubai as pessoas ficam lá temporariamente 20 anos.

Onde, aliás, foste consultora, trabalhaste no Burj Al Arab, por exemplo, este hotel mais luxuoso do mundo.

Eu visitava os chefs que estavam lá. Eu trabalhava numa empresa de food trading e nós ajudávamos os chefs a definir as comidas para os próximos seis meses. Eles têm as ideias deles, obviamente. Nós selecionávamos os fornecedores, os alimentos.

Ias à Gulf Food, esta feira maravilhosa.

Sim, de alimentos.

Que acontece todos os anos no Dubai.

Todos os anos lá, que é uma das maiores também do mundo e está cada vez mais potente.

Estes chefs do Atmosphere, este restaurante mais alto do mundo, no topo daquele hotel.

Sim, é um mundo muito giro porque no início eu pensava: "Meu Deus, estas pessoas são todas chefs estrelados, como é que vamos lidar?" E alguns deles, de facto, têm assim um-

Um palmarés.

Sim, exatamente. Têm ali um feitiçozinho de prima-dona. Alguns têm. Outros não, os melhores são extremamente acessíveis. Quando percebiam que eu era engenheira alimentar, faziam-me determinadas perguntas que eu achei muito inteligentes.

As perguntas certas.

E era ótimo. Aprendi imenso com eles, foi um período muito interessante da minha vida também.

Onde viste o luxo mais absoluto, ao lado da miséria mais absoluta também.

É verdade, nunca mais me esqueço. Lembro que numa sexta-feira ia ao mercado, à Praça da Fruta, estava no semáforo, na fila do meio. Do meu lado direito tinha o autocarro branco, sem ar-condicionado, porque não pode ter lá, e os pobres, muito pobres, trabalhadores. E do meu lado esquerdo tinha a Lamborghini verde-alface. E pensei: "Suzete Estrela, mantém-te assim na vida, no meio da vida. Mantém-te no meio, Suzete Estrela".

Como é que tu lidas com estes controles de qualidade que são diferentes na União Europeia do que no resto do mundo?

Sim.

E nós temos hoje em dia, vamos a um supermercado e vemos peixe do Bangladesh. E peixe que está a ser de quê? E peixe que está a ser de onde? Ou especiarias, ou fruta.

Sim. Sim. Listeria é um ponto crítico, não falamos muito dele. Os alimentos hoje em dia não crescem atrás de casa como era no tempo da nossa avó, porque muitas vezes as pessoas dizem: "A minha avó fazia assim."

Esse paradigma mudou muito. Antigamente tinham galinhas e iam à horta da casa. Hoje em dia, não.

A minha avó matava o frango. Hoje em dia nenhuma das minhas amigas mata frango, nem eu.

Quando as mulheres começaram a trabalhar, a indústria percebeu que vai ter que alimentar-

Esta gente toda. Ali nos anos 80.

Portanto, processar.

As coisas, de facto, vêm de fora. A União Europeia é quem tem os melhores parâmetros a nível de controle de qualidade, no que toca à segurança alimentar. Não significa que não haja fraude. Todos os dias eu recebo alertas de fraude e retiradas de produto, mas somos os mais exigentes da União Europeia. Mesmo que venha de fora, eles têm que obedecer àquilo que é a legislação europeia. O que é que acontece? Em Portugal, as nossas entidades oficiais fazem o controle tudo o que chega por mar e tudo o que chega por ar, porque o que chega por terra não tem fronteiras, vivemos na Europa.

Claro. É espaço Schengen.

Exatamente. Confiamos nos outros parceiros da Europa.

Que é de GAV e ASAE.

GAV, ASAE, exatamente, essas entidades.

Têm os laboratórios e tal, que podem conferir isso.

Sim, exatamente. Governamentais, tudo mais.

Depois de passar no Dubai, onde aliás os clientes comiam ostras para depois ir protestar.

É muito frequente. Hoje já não tanto, porque eles iam aos restaurantes luxo, comiam ostras e tudo que havia de melhor.

Que é a única coisa que se come viva, o único animal que se come vivo. Se é que se não.

Sei lá, existem mais uns quantos, se calhar, não sei, pelo mundo com tanta gastronomia variada que existe.

Morcegos na China e pangolins. E então?

Eles iam comer as ostras e no dia seguinte apareciam lá a dizer que tinham intoxicação alimentar e chegaram a receber o dinheiro de volta em algumas vezes, até que a certa altura se percebeu que aquilo era um scam.

Era uma fraude.

Claro, para receber.

Aliás, no dia seguinte não se nota uma intoxicação.

Não, às vezes há intoxicações que efetivamente sim, aparecem de duas a seis horas.

Vômitos, diarreias.

Ou até 70 dias, e aí já é uma infecção alimentar. Essa é a diferença entre intoxicação e infecção. Intoxicação é quase imediata. A infecção, ou seja, o agente contaminador, entra lá dentro, normalmente um vírus, uma bactéria, e pode infeccionar e imagina uma listeria, é raro, mas uma bactéria até 70 dias. Não é imediato, por isso é que a prevenção é tão importante.

Quando vieste do Dubai, já tinhas 17 anos de carreira, decidiste largar essa carreira para te dedicares à educação e à consciencialização do consumidor nacional, às famílias portuguesas. Foi isso que tu decidiste.

Sim.

Em Portugal não sabemos nada sobre isto, e isto é muito importante e ainda mata muita gente.

Na verdade, no mundo não se dedica tempo ao consumidor. Nós partimos do pressuposto que as pessoas em casa fazem tudo certo. Quando eu lancei o meu primeiro livro, saiu em fevereiro, março, eles vão às prateleiras em fevereiro de 2018.

O "Sabe o que anda a comer?"

O "Sabe o que anda a comer?", exatamente. Foi o primeiro livro do género.

Foste pioneira.

Fui pioneira.

Primeiro livro para consumidores em Portugal dedicado à segurança alimentar.

À segurança alimentar para famílias. E nesse mesmo ano, uns meses mais tarde, começa-se finalmente a celebrar pela primeira vez o Dia Mundial da Segurança Alimentar. Portanto, o livro ainda sai, eu começo a escrever o livro muito antes de se começar a celebrar o Dia da Segurança Alimentar. Hoje, finalmente, começa-se a falar mais sobre o tema, mas ainda é muito pouco e as pessoas não têm noção do quanto isto afeta a nossa saúde a curto, médio e longo prazo. Não têm mesmo, eu sinto isso. Hoje estamos neste terceiro livro, o "Mais de 50 coisas que não deve fazer na cozinha", e vai já para a segunda edição.

Acabou de esgotar a primeira edição.

É verdade.

São boas notícias.

Sim, boas notícias. Em três semanas já esgotou a primeira edição, o que significa que as pessoas estão mais receptivas.

Sim. Mas há uma coisa que eu te vou dizer. Já me ia avisar que ia dizer. O livro arranca logo com o índice, digamos assim, das 53 coisas que tu tens aqui. Eu vou ler: arrefecer os alimentos incorretamente, a 25 ou a 42, desconfiar do colher de pau, achar que todos os éteres são maus. Há vários, há 53 que tu aqui falas, mas eu acho que devias ter um índice remissivo. Ou não, mástique. Devias ter iogurtes, A, B, C, D, até Z.

Fica uma sugestão.

Porque eu vou no frango, devo lavar ou não, e vou ao F. Eu tenho que ler cada vez que pego no teu livro, tenho que ler onde é que ela fala do frango, que ela fala aqui sobre se não se deve lavar frango, onde é que é. Espera, o 38. E é isso. Frango, iogurtes, carne. Porque se eu vou congelar uma coisa, como é que isso se congela? Vou ao congelar. E diz: "Olha, o congelar está na página 43." É uma coisa boa. Por quê? Porque eu vejo isto não é um romance.

Para a segunda edição já não vamos a tempo, mas para a terceira ainda vamos.

Porque eu acho que é um manual. Eu senti falta disso. É uma coisa que a pessoa vai ter na cozinha. Tenho já.

Obrigada.

E a pessoa lê, deixa ver o que ela diz sobre não sei o quê, e tem que ir sempre ler o índice todo para saber onde é que ela fala. Que não se deve chupar a cabeça do camarão, onde é que é.

É verdade.

Por isso é que eu acho que faz falta essa organização. É só uma organização.

Mas faz todo sentido. E há muita gente que não sabe, mas que entretanto nas próximas edições vai vir. Eu ofereço, se forem ao meu site, há uma tabela com a validade dos alimentos no frigorífico e no congelador. É só irem ao site e descarregam essa mesma tabela.

Onde é que as pessoas podem saber mais? Tu ainda fazes estes cursos on-line?

Faço, eu faço os cursos on-line.

Pelo Instagram as pessoas podem saber?

Nas redes sociais, no meu site.

O que é de utensílios.

Sim, o curso de utensílios. Na verdade, o que eu tenho neste momento é um programa avançado de segurança alimentar, são seis meses, segurança alimentar para famílias. Sim, academia da alimentação defensiva, onde eu explico segurança alimentar, rotulagem, a parte de como é que nós congelamos, como é que descongelamos, a higienização, não precisamos estar sempre a usar cloro para tudo e mais alguma coisa. Porque isso também acaba por nos afetar.

E há muitos mitos, a nível de lixívia. Atenção, as pessoas às vezes põem demais ou ficam resíduos de lixívia nas comidas, deve-se ter cuidado.

Sim.

Água corrente ainda continua a ser talvez a coisa mais básica para lavar.

Uma coisa é lavar, outra coisa é desinfetar.

A água não desinfeta.

Sim, exatamente.

O álcool, sim.

Cozinhar também desinfeta. Que nós às vezes pensamos. O desinfetar as bancadas, sim, mas por que eu não sou tão apologista de excesso de cloro? Porque nós andamos a tomar conta da nossa microbiota, hoje em dia falamos tanto e suplemento e tudo mais para o intestino. E depois temos estes ataques todos.

Exato. É incoerente.

Exatamente. Olhamos para um lado, mas depois não olhamos para o outro. Este pilar da segurança alimentar é um canto da cozinha que parece estar ali meio esquecido.

Há coisas que eu aprendi contigo que não fazia ideia. Por exemplo, saltam bactérias no frigorífico, saltam bactérias da carne para outras coisas se não está coberta, se não está protegida.

Sim, porque o ar circula, então as contaminações. Ou então se está a descongelar numa prateleira de cima e tem algo pronto a comer embaixo. Portanto, existe uma ordem no frigorífico para que os alimentos durem mais tempo. Há frutas e legumes que não devem estar juntos. Alguns nem devem ir para o frigorífico, porque isso reduz a validade e a frescura.

As pessoas não sabem essas coisas, Suzette.

Por isso é que tem aqui o livro.

@suzette_estrela é o teu Instagram?

Estrela é o meu Instagram e suzetteestrela.com é o meu site. Mas eu estou mais no Instagram e nos cursos online.

Há muitas dicas, isto é muito importante, congelar em casa ou comprar já congelado. Tu tiras sempre essas dúvidas que são, de facto, muito importantes, mas continuam a ser 40% das intoxicações alimentares que acontecem em casa.

Porque nós cometemos muitos erros. A contaminação cruzada, que tu estavas a dizer, o lavar o frango, salpica, vou salpicar bactérias que vão cair na salada que eu não vou cozinhar.

Na louça que eu lavei.

Na louça que lavei.

Nos panos, no avental. Nas facas, e depois usa a mesma faca para cortar legumes.

Exato, as crianças pegam naquilo, vão ali com as mãos.

Tomara que não haja mais intoxicações.

Já tiveste, certeza, todos nós, uma dor de barriga. "Comi qualquer coisa que não me fez bem." Foste ao médico declarar isso?

Sim. Não. Isto passa qualquer coisa.

Exatamente, por isso é que os números também não são maiores. Acredita-se que os números são maiores.

Suzette Estrela, muito obrigado pela tua disponibilidade.

Obrigada, já passou?

Já passou, mas eu quero que tu vás voltar, porque eu quero falar dessas dicas, acabámos por não falar das dicas.

Pois foi.

Mas para já introduzimos-te neste mundo. E agora, Suzette, é muito importante deixar no teu site os teus cursos e este livro, que é muito importante. Não esqueça, é uma edição da Arena, uma chancela da Penguin Random House. Suzette Estrela, "Mais de 50 coisas que não deve fazer na cozinha". Isto para lutar contra as doenças silenciosas, contra o desperdício alimentar, contra a comida estragada. Muito importante. Vais voltar, Suzette Estrela. Muito obrigado.

Vou com todo o gosto. Muito obrigada.

Obrigado.

Obrigada.