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Olá, bem-vindos ao "Curiosamente", agora com um novo formato. Em cada episódio convidamos uma figura pública para fazer perguntas aos cientistas do Instituto Gulbenkian de Medicina Molecular. Hoje temos conosco a Sónia Tavares. Olá, Sónia.
Olá, muito obrigada.
Cheia de curiosidade.
Cheia. Isto é um desafio e uma responsabilidade.
Muito bem. Tu és de Letras, não és de Ciências da Vida.
Era o que eu estava a dizer à Carmo lá fora, passei ao lado de uma brilhante carreira de cientista. Não é bem tal.
Maria Carmo Fonseca, cofundadora do GIMM e atualmente Group Leader, é a nossa convidada para uma conversa sobre genes. Maria Carmo Fonseca tem concentrado as suas investigações no estudo das moléculas de RNA. O que é o RNA e por que é tão importante conhecermos estas moléculas?
Muito obrigada pelo convite. É um prazer estar aqui e falar sobre as minhas moléculas preferidas, que são os genes e o RNA.
Ok.
Todos nós sabemos que os genes constituem a base da vida. Sem genes não há vida e sem genes não há transmissão, não há hereditariedade. O que passa de pais para filhos é o conjunto de genes. Só que os genes são linhas de comando e o RNA é a molécula que permite efetuar o comando. E por isso é que é tão importante, porque sem RNA não há vida, não há execução da informação contida nos genes.
E, portanto, não existe uma sem outra.
Não existe uma sem outra e o RNA regula a atuação dos genes e, portanto, pode modular que genes é que estão a ser manifestados, expressos em cada célula, em cada momento. E é isso também que nos abre as aplicações médicas que começaram a ser desenvolvidas nos últimos anos.
Muito bem, era por aí a minha próxima pergunta: que descobertas científicas se produziram a partir do estudo do RNA?
O estudo do RNA tem dado origem a imensas descobertas muito fundamentais para aqueles cientistas que só têm curiosidade sobre entender a vida. E começamos pela origem da vida, porque no início pensamos que eram apenas moléculas de RNA. O RNA foi o antecessor dos genes, como nós os conhecemos hoje, o DNA. E para além de conhecer como funcionam as células, como funcionam os seres vivos, o estudo do RNA também nos permitiu muitos conhecimentos que agora são aplicados à medicina. Muitos conhecimentos sobre vírus, porque há muitos vírus que dependem de moléculas de RNA, muitos conhecimentos sobre o mecanismo que causa doenças, o mecanismo que dá origem a doenças e tratamentos. Nós todos nos lembramos das vacinas de mRNA para COVID, mas agora que a COVID passou e que vamos passar a receber vacinas de mRNA sem nos apercebermos. Agora, a grande novidade são as vacinas contra o câncer. Vacinas de mRNA que estão a ser desenvolvidas contra cânceres específicos e começam a vir os primeiros resultados dos ensaios clínicos e são muito animadores.
Estamos cada vez mais perto de uma vacina contra o câncer.
Eu diria que nós já temos vacinas contra o câncer, agora temos é que ter as melhores vacinas e perceber quais os cânceres que respondem melhor a essas vacinas. Mas há um outro aspecto também, deixe-me só dizer mais isto. Há um outro aspecto também muito importante. Nós falamos muito da edição gênica, das terapias gênicas. Ora, a nossa capacidade de manipular o genoma passa por moléculas de RNA.
Ou seja, e voltando um bocadinho atrás à vacina do COVID. Explique-me, eu que sou absolutamente leiga nisso tudo e como provavelmente serão muitos dos ouvintes. O que acontece na vacina do COVID é que o RNA vai levar uma informação à célula, uma programação.
Exatamente.
Não entra no núcleo, ou seja, não acontece nada com o nosso ADN. As pessoas pensam que a programação vai programar o nosso ADN, mas não. É uma programação temporária.
Nem mais.
Para que o nosso corpo consiga perceber com uma nova infecção aquilo que já foi programado, neste caso o COVID, para ele identificar. É isso que acontece. A programação é isso.
Exatamente.
A Sónia estudou bem a lição!
Explicou muito bem. E ao longo da história da medicina, as primeiras vacinas, nós inoculávamos nas pessoas o próprio micro-organismo morto, que era para o sistema imune aprender a defender-se sem haver infecção. Depois, à medida que fomos sabendo mais sobre o código genético e as moléculas do código genético, em vez de inocular o micro-organismo todo, passamos a inocular só a proteína. Mais recentemente, começamos a inocular o DNA que codifica a proteína. E a última revolução foi, em vez de inocular o DNA, inoculamos o mRNA, que tem a mesma informação. Qual foi a grande vantagem? Primeiro, do ponto de vista técnico, é mais rápido produzir vacinas baseadas em RNA. Segundo, todos se lembram que no início da pandemia havia várias vacinas. Havia a AstraZeneca, havia a Pfizer. Umas eram baseadas em RNA, outras eram o método clássico do DNA. E o que se verificou é que as vacinas baseadas em DNA tinham mais efeitos secundários, se bem que raros, mesmo assim eram superiores aos do mRNA.
Porque era incorporado ou era inserido no corpo mais informação genética? Não passava por aí.
Não passa por aí. Pensamos que é o veículo em que a informação genética era veiculada.
Veiculada. Eu não sei se percebeu, eu tive aqui alguma hesitação na palavra que deveria usar, porque isto é muito dada a desinformação.
Exatamente. Eu acho que foi o que aconteceu também com muitas pessoas. É normal que não consigam compreender, porque nem todos os dias temos acesso a esta informação toda científica. E eu acho que isto fez um bocadinho de confusão nas cabeças das pessoas.
E infelizmente, as pessoas agarram-se muito aos efeitos secundários. Nós temos que ter a noção que qualquer tipo de tratamento tem sempre efeitos secundários, mas há um cuidado enorme com tudo. Não há nenhum medicamento, nenhum suplemento, que não tenha efeitos secundários.
Até viver tem efeitos secundários.
Agora, o que a comunidade médica e científica faz são ensaios muito rigorosos para medir a percentagem de efeitos secundários e a gravidade dos efeitos secundários, e nunca é administrado nada que não passe por estes rigorosos critérios de qualidade. Agora, há pessoas que, mesmo assim, não querem correr o risco. O problema é que o risco de ficar gravemente doente é muitíssimo maior do que o risco de sofrer um efeito secundário de uma vacina.
Maria do Carmo Fonseca, quais são as aplicações mais promissoras que se podem abrir com as descobertas dos últimos anos em torno do ácido ribonucléico, o RNA?
O RNA. Portanto, como eu estava a dizer agora, a comunidade médica está muito excitada com as vacinas de mRNA, e depois há uma série de novos medicamentos contra doenças relativamente raras, mas que são doenças de causa genética e que no seu conjunto são muitas e são muito graves. A última novidade foi uma terapia ainda experimental contra a doença de Huntington, talvez já tenham ouvido falar, que é uma doença hereditária em que a partir dos 30, 40 anos, as pessoas começam a ter sinais precoces de demência, de perca cognitiva, de perca de controle motor e em poucos anos morrem. Portanto, é uma doença fatal que se manifesta em adultos relativamente jovens. Tem sido uma doença para a qual não há nenhum tipo de cura e em 2025, pela primeira vez, houve um estudo experimental que usa o RNA para tentar combater e travar a doença.
Ou seja, o RNA não é só aplicável a doenças infecciosas.
Não.
Por exemplo, eu que sou pessoa fibromiálgica, tenho fibromialgia. Eu sei que é uma doença que não se conhece nada ainda. Acha que é possível um dia que se conheça mais sobre a doença ou até o RNA possibilitar o conhecimento do que se passa aqui dentro e poder modificar, através desta modulação molecular, não sei se é assim que se diz.
Exatamente. Quanto mais nós sabemos sobre a causa molecular das doenças, e sobretudo aquelas doenças em que há uma causa muito direta entre uma mutação, porque no caso da doença de Huntington, é uma mutação que se herda. Estas doenças que são causadas por uma alteração na informação genética, serão as primeiras a ser alvo deste tipo de terapias, para além das vacinas. Nas vacinas, falei das vacinas contra o câncer, mas também se começa a pensar em vacinas contra doenças autoimunes.
Ok, pronto. Ainda bem que me esclarece. Muito obrigada. E à parte disto, doutora.
Carmo, só Carmo.
Carmo. À parte disto, isto salvo seja, à parte da sua carreira, da sua investigação, sobra-lhe tempo para mais coisas. Tem tempo para apreciar outras formas de arte, porque eu acho que também isto é uma arte. E também lhe queria perguntar: acaba por ser a ciência intuitiva também como a arte? De onde é que ela parte? É da curiosidade? É da intuição?
Excelente pergunta. Eu acho que esse é exatamente o ponto que liga os cientistas aos artistas, que é o momento da criatividade e da intuição. O cientista baseia-se muito em observar factos, observar fenômenos, mas observar não chega. Não basta eu descrever o que vejo. Onde está o grande desafio para o cientista é interpretar o que está a ver. E a interpretação é muito de intuição.
Claro.
Praticamente quase tudo intuição. Agora, onde está a grande diferença entre o cientista e o artista? É que o artista tem o momento da criatividade, tem a sua intuição e depois mostra o produto da criatividade ao mundo. O cientista tem que passar por um passo seguinte, que é muito difícil, que é provar que a sua intuição estava correta, fazendo mais experiências. E por isso é que nós passamos a nossa vida toda a fazer experiências, porque fazemos uma experiência, temos um resultado, interpretamos esse resultado, precisamos de ir fazer outra experiência e por isso é que isto é uma bola de neve sem parar.
Portanto, a ciência é um ato criativo na sua gênese, é isso?
Completamente criativo, porque se não tiver um componente criativo, é apenas um listar de observações.
Muito bem. Dedica todo o seu dia e toda a sua rotina a espreitar para dentro de um microscópio, Maria Carm Fonseca? A ideia que nós temos dos cientistas é que eles passam a vida curvados sobre papéis, sobre livros e sobre aparelhos científicos.
É verdade. É porque quando um cientista está com uma ideia ou teve uma intuição, fica completamente obcecado em testar a ideia e quer ir fazer a experiência, quer ver o resultado da experiência. Agora, isso não significa que se passem 24 horas só a fazer isso, até porque se o cérebro não estiver descansado, lá se perde a intuição toda e a criatividade.
Como é que descansa?
Como eu descanso? É a fazer desporto.
Boa. Corre?
Não, eu tenho um problema no joelho. O meu desporto é a natação. Faço natação.
Muito bem. Já lhe surgiram atos criativo-científicos enquanto dava braçadas, Maria Carm Fonseca?
Não, porque enquanto eu dou braçadas tenho que estar concentrada.
É uma coisa de cada vez.
Não, é uma coisa de cada vez. Eu sou muito de uma coisa de cada vez. Há bocado estávamos a falar se eu ouvia música enquanto estava a trabalhar. Não, porque quando eu quero ouvir música, quero ouvir a música.
Percebo perfeitamente. Facilmente se entra nos pormenores da canção. Eu também sou assim.
E gosto de apreciar o compasso, o ritmo, a letra. E se eu estiver a trabalhar, estou concentrada em trabalhar.
Muito bem. Eu acho que já deu esta resposta lá no início da nossa conversa, mas eu gostava de lhe fazer esta pergunta: é verdade que uma molécula de RNA pode ter sido a primeira molécula de vida?
Muito provavelmente sim.
É uma hipótese científica, não há ainda certezas, ou há? Quase.
Sabe que em ciência não existe a verdade. Em ciência existem hipóteses que até agora não foram refutadas, e essa ainda não foi refutada.
É bem possível que-
É bem possível que sim, tenha sido
Que haja vida antes da vida.
Isso houve. Houve formas de vida antes desta vida que nós temos agora.
Eu estou mesmo a falar antes da célula, já havia esta seleção natural.
Já havia essa pré-vida. Com moléculas de RNA.
Com moléculas de RNA.
Sónia, está aqui fonte de inspiração para uma canção.
Que maravilha, é verdade.
Maria Carm Fonseca, muito obrigado.
Obrigado eu.
Foi ótima esta conversa. E obrigado também a ti, Sónia Tavares.
Obrigada eu que gostei muito.
Bons espetáculos. Há muitos para dar este verão.
É, este verão, sim.
Força.
Obrigada.
Moléculas, neste episódio de "Curiosamente". Até daqui a 15 dias.