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Oh, it's such a perfect day. I'm glad I spent it with you. Oh, such a perfect day. You just keep me hanging on. You just keep me hanging on.

Olá, seja bem-vindo ao "Dia Perfeito", um podcast sobre uma combinação de sonhos e realidade. Já pensou o que não pode faltar no seu dia perfeito? Será ouvir a chuva a cair lá fora? Será sentir o cheiro a livro novo? Cada um desenha o dia perfeito à sua medida. Eu sou a Ana do Carmo e hoje o meu convidado perfeito é o professor universitário Adalberto Campos Fernandes.

Boa tarde, Ana. O meu nome é Adalberto Campos Fernandes, sou médico especialista em saúde pública, sou professor universitário e sou um apaixonado pela política, pela vida, pelo desporto e pelas pessoas.

Adalberto, quando falamos em dia perfeito, o que lhe ocorre imediatamente? O que seria para si um dia perfeito?

Um dia perfeito, para mim, é difícil que esteja colado ou fixado a um local concreto. Se me pergunta como é que eu imagino o dia perfeito, eu imagino tendo a possibilidade, por exemplo, de me teletransportar, porque teria que estar nesse mesmo dia em vários sítios ao mesmo tempo. Para mim a perfeição do dia não é tanto o local, é mais o sentimento, são as emoções, são as experiências. Como eu gosto muito de viajar e tenho até filhas a viver fora de Portugal, para mim estar ligado a elas ou próximo delas é essencial e portanto teria que conjugar, se estivéssemos num tempo que não é o nosso ainda e tivesse uma espécie de nave espacial, pudéssemos circular por vários locais ao mesmo tempo, eu estaria a começar muito cedo, às 7:00 a.m., um dia perfeito.

Portanto, temos aqui um candidato a ter uma nave espacial estacionada à porta.

Gostaria muito, não sei se irei a tempo, porque embora a inteligência artificial e as novas tecnologias estejam a transformar o mundo a uma velocidade que nós não conhecíamos, não conhecemos, creio que é ambição demasiada, mas não há ambição para o sonho. E o sonho de ter um dia perfeito não tem que ficar limitado pelo espaço contíguo e confinado onde nós vivemos diariamente no nosso quotidiano.

Falou há pouco que o dia perfeito é o dia em que vai a sítios que lhe causam emoções perfeitas. Também me falou das suas filhas, que estão aí pelo mundo. Suspeito que o dia perfeito incluía estar com elas. Iria para onde?

Olhe, começava por ir por aquela que está há mais tempo e de uma forma mais permanente fora de nós, de Portugal. Vive em Zurique, na Suíça, e eu gosto muito da Suíça. Ou seja, eu fiquei a gostar muito da Suíça. E até lhe digo, se um dia, mais à frente, com o passar do tempo, pudesse imaginar dias perfeitos, não tanto apenas porque a minha filha está lá, mas porque imagino-me à beira dos lagos, a tomar um bom café com cachecol e com gorro em Bellevue, junto ao lago de Zurique, a passear pelos comboios, pela montanha, a visitar as pequenas vilas e cidades da Suíça. Eu acho que a Suíça é mágica. E Zurique é uma cidade simpática, é uma cidade de facto especial, não porque tenha uma expressão patrimonial como tem Paris ou tem Londres, mas porque é uma cidade arrumada e eu tenho uma obsessão com a arrumação. Sou por natureza muito arrumado, para além do gosto e da vontade de estar com a minha filha.

Essas experiências que me estava a falar, de estar à beira dos lagos, de viajar por Zurique, de certa forma está a pensar como vai ser ou já viveu isso?

Já vivi, vivo muito. Eu viajo muito, quer por razões profissionais, quer por motivos pessoais. Aliás, temos anualmente aquilo a que nós chamamos a viagem de família, em que nos juntamos todos e vamos normalmente à procura do mar e à procura do sol. Embora também noutros destinos. Estivemos recentemente na passagem de ano, fomos todos para Nova Iorque apanhar frio e chuva. Mas a sua pergunta sobre a água, sobre o efeito, digamos, místico, não direi telúrico, mas místico da água. Eu moro perto do mar e, portanto, uma das coisas que faço também no dia perfeito, sobretudo com a minha mulher, é fazer caminhadas.

Junto ao mar?

Junto ao mar. E curiosamente, o mar é mais bonito quando há menos gente nas praias, quando há menos gente a frequentar a zona onde nós vivemos. E caminhar com a brisa fria do Atlântico e assistir à desistência do sol no fim do dia é um bom pedaço também deste dia perfeito, como eu lhe disse, que é multifocal e multilocal. Não está confinado, naturalmente, a um único sítio.

E pelo que posso perceber, consegue trazer pedacinhos desse dia perfeito para o seu dia a dia.

Sim. Sabe que eu acho, e recomendo isso aos meus alunos, embora também o faça com as minhas filhas e enfim, a motivação delas é forte nesse sentido, mas eu recomendo aos mais jovens que olhem para o mundo como um espaço global, que comecem logo tão cedo quanto possível por ter uma experiência de trabalho, um estágio, uma interação fora do país, porque ajuda muito a percebermos o mundo de maneira diferente.

E ao mesmo tempo ajuda-nos a crescer.

Ajuda-nos a crescer. A geração dos nossos pais e dos nossos avós foi uma geração muito influenciada pelo fecho Pelo encerramento e pela ideia de que o mundo começava e terminava na Jangada de Pedra. E de fato, quando nós percebemos que o mundo é muito mais do que isto, relativizamos. Repare, falamos tantas vezes da saúde, temos um sistema de saúde em problemas, em déficit. Nós somos a 44ª economia do mundo, em 193 países. E quando olhamos para os resultados em saúde, somos o 15º país. Veja bem como é que um país pequeno, aqui no extremo sul da Europa, consegue ser o último dos ricos, mas claramente o primeiro dos pobres. E, portanto, nós temos que conhecer o mundo pra relativizar a nossa própria circunstância.

Vamos voltar à Suíça?

Vamos voltar à Suíça.

O seu dia perfeito na Suíça inclui chocolate e raclette.

É que tocou num tema que é crítico.

Chocolate ou queijo?

Sabe, eu gosto muito de queijo, mas por causa do risco cardiovascular, faço alguma contenção. Sempre que nós lá vamos, nós vamos para aqueles restaurantes onde só se come o queijo fundido, o queijo derretido. Há restaurantes fantásticos em Zurique e é evidente que é impossível evitar fazê-lo. Mas o meu segundo pior defeito, para além de gostar do queijo, é de fato o chocolate. Eu sou um viciado em chocolates.

E o chocolate suíço não dá pra recusar.

Não dá pra recusar. É impossível, porque tem um grafismo e tem um aroma que é irresistível. Mas eu vou lhe contar, uma experiência muito concreta foi a minha última estadia em Zurique. Eu fui sozinho, porque a minha mulher não podia, e fui a Zurique tratar de uns assuntos com a minha filha. E aconteceu que em dois dos dias úteis, ela tinha que trabalhar. Ela trabalha numa grande companhia americana em Zurique e, portanto, eu durante o dia estava só. E o que eu fazia era sair de manhã cedo, depois que ela fosse pro trabalho, fazer a pé a zona do bairro onde ela vive, que é em Seefeld, e ir até ao lago, sentar-me junto ao lago, na esplanada, com um café ou com chocolate bem quente, e saborear não só os aspectos da paisagem, que são fabulosos, mas o frio suíço, que é diferente do nosso.

Exato.

É um frio menos úmido, um frio mais seco, que ao princípio se estranha, depois se entranha e se aprecia.

Estou aqui à beira da cadeira, à espera da parte em que se desgraça no chocolate.

Ainda não. Vou lhe confessar uma outra coisa: adoro andar no Ström, nos chamados elétricos de Zurique. Pela organização, pela qualidade, pelo conforto e pelo cumprimento do horário. Disse-lhe há pouco que eu sou muito preocupado e obcecado com a norma e com a regra, gosto de cumprir. E a rede de transportes públicos é fantástica e, portanto, é um gosto que me dá, nesse tempo livre, de ir aos sítios e também comprar chocolates.

Comprou?

Compro sempre. Eu vou a qualquer lado, sempre que vou. Agora estive recentemente em Madrid, em trabalho, Londres, Paris. Não passa pela alfândega quando nós vimos do espaço comunitário, portanto não tem problema. Mas a mala traz sempre uma boa dose de carga de chocolates das mais variadas qualidades e configurações.

Quando estava a fazer os seus passeios na Suíça, quando fazia esse percurso delicioso e até idílico que falou, vai sozinho ou vai com fones nos ouvidos ouvir música?

Não. Curiosamente, não tenho o hábito de utilizar fones no espaço público. Se me perguntar por quê, talvez porque é um hábito que nunca adquiri e até acho que é imprudente. Andar na rua, infelizmente tenho sabido e conhecido acidentes por causa da questão da distração. Onde eu ouço música, o meu espaço musical mais intenso e mais frequente é o carro. Nós viajamos muito de carro e infelizmente passamos grande parte da nossa vida a circular de um lado pro outro. O trânsito está cada vez mais caótico, sobretudo na Grande Lisboa. Eu viajo muito, vou muitas vezes ao Porto, outras pontos no país, em trabalho. E, portanto, entre ouvir a Rádio Observador e descansar conectando a playlist, pois, por vezes entra a playlist e dá pra se relaxar um pouco.

Então diga-me que música é que ouviria, que imagina que faz sentido ouvir, quando está a dar os seus passeios em Zurique?

Há uma música que é "What a Wonderful World". Lembra-se dessa música?

Sim.

Eu sou capaz de ouvir essa música e repeti-la 10 vezes. E às vezes, se não for sozinho no carro, normalmente se for com a família, dizem: "Pai, já chega". Começava com "What a Wonderful World".

I see trees of green, red roses too. I see them bloom for me and you. And I think to myself, what a wonderful world. I see skies of blue and clouds of white. The bright blessed day, the dark sacred night. And I think to myself, what a wonderful world. The colors of the rainbow so pretty in the sky. Are also on the faces

Estamos a conhecer o dia perfeito do professor universitário Adalberto Campos Fernandes, que também ouvimos na CNN.

Isso.

A presença da CNN no seu dia a dia faz com que os seus dias tenham um quê de perfeito?

Contribui. Eu tenho uma lembrança muito agradável, porque eu fui o primeiro comentador externo, digamos, não jornalista, naturalmente, a participar na CNN e arranquei a CNN com o jornal às 21h com o José de Sousa. Lembro-me que depois comentaram que nesse dia do arranque, a CNN teve uma audiência esmagadora, um milhão e muitos espectadores, porque era a novidade. E tenho colaborado com a CNN desde então, em vários modelos, em vários programas. E é uma experiência muito interessante, porque é a experiência de um canal de notícias novo, inspirado no modelo norte-americano, e que nos permite, a televisão tem essa força, na rua, ter uma interação diferente com as pessoas. Apesar de tudo, eu fui ministro e tenho alguma notoriedade ainda por esse fato, mas noto que o estar na televisão, no espaço público, faz com que a rua seja diferente do que era antes, mesmo quando saí do governo.

Quando vai na rua, é abordado pelas pessoas, mas de forma discreta?

Simpática, sempre.

As pessoas interpelam-no ou consegue perceber que as pessoas, quando passam, dizem: "Olha aquele ali".

Acontece. Acontece de estar no restaurante, às vezes com a família.

Não te mexas!

E ouvir a minha mulher ou as minhas filhas ouvirem esse tipo de conversa: "Olha, está ali o fulano". Agora acontece a interação na rua. E eu lembro-me que, e vou cometer aqui uma inconfidência que eu creio que o próprio não levará a mal. O primeiro-ministro António Costa, há uns anos, estávamos no governo, brincava, num momento de café, numa pausa do Conselho de Ministros, que o meu eleitorado eram sobretudo as pessoas mais velhas e tradicionalmente mais conservadoras. E curiosamente, na rua, as pessoas que me abordam mais são esse tipo de pessoas, com mais alguma idade. Eu não sei se são mais conservadoras, mas pela abordagem eu vejo que elas gostam que eu seja moderado. Às vezes dizem-me: "É pena que no PS não sejam todos como você". Eu presumo que são pessoas que não são do PS. E depois outros dizem: "Gosto muito de o ouvir, estou de acordo consigo". Eu acho que talvez a minha maneira de estar no espaço público ou de intervir, eu sou militante do Partido Socialista desde miúdo. Eu sempre fui e estive numa zona que é uma zona de moderação política e tenho uma visão muito social-democrata da vida política e talvez isso faça com que essas pessoas mais velhas, com mais experiência de vida, que tenham uma atitude mais conservadora sobre a vida, me abordem mais, mas também acontece, por vezes, jovens e pessoas na chamada idade ativa da vida.

Tendo em consideração as abordagens que recebe na rua, nós somos um povo educado.

Nós somos um povo bom. E curiosamente, havia uma história que referia que não existem maus rapazes ou não existem más pessoas, existem apenas contextos de vida, e a vida, de alguma forma, condiciona aquilo que nós somos, a nossa educação, a nossa experiência, a nossa família, os nossos amigos. Eu não acredito muito na vida, na sorte e no azar, a não ser em matérias do inesperado da doença. Porque a sorte, o único sítio onde está antes do trabalho é mesmo no dicionário. Nós temos que fazer pela vida e às vezes eu digo aos alunos e aos mais jovens: temos que lidar com a frustração, porque para ter sucesso, nem todos temos o sucesso que gostaríamos ter e às vezes para conseguir um objetivo, é preciso rematar à baliza, tal como o meu Benfica está a fazer neste momento, 10 vezes para marcar um gol e às vezes nenhum. Portanto, a efetividade da marcação do gol é um bocadinho a efetividade da realização dos nossos sonhos. Agora, nós somos gente boa e temos uma característica que ainda para os mais velhos vem muito da construção do Estado Novo, um povo obediente, um povo que tem medo. Eu acho que o que encontro em Portugal mais, muitas vezes, é medo.

Adalberto, vamos então perceber na segunda parte por que encontramos medo em Portugal. Por agora, temos que fazer uma breve pausa, mas já voltamos. Estamos a conversar com o professor universitário e político Adalberto Campos Fernandes sobre o seu dia perfeito. Há pouco dizia-me que o povo português é gente boa, mas um povo que tem medo. Medo de quê?

Medo do futuro, porque quem passou por períodos muito difíceis e com muita dificuldade, nós temos muitos pobres em Portugal. As pessoas olham sempre pra incerteza. O que está a passar neste momento é mais um momento de medo. As pessoas não gostam das mudanças abruptas, da instabilidade. Claro que também temos pessoas que não são tão boas quanto isso, porque as sociedades são como são, uma construção coletiva em que as pessoas distribuem de acordo com a curva de Gauss.

E há de tudo, não é?

90% estarão dentro de um padrão, que é um padrão médio, depois há pessoas extraordinárias.

Depois temos as fraquezas.

E há pessoas más. Há pessoas más e que cometem crimes e que são más, mesmo não cometendo crimes.

Convido-o a viajar novamente. Desta vez, se calhar, vamos ao encontro de uma das outras suas filhas, porque já estivemos na Suíça. Para que país vamos agora?

Vamos pra Itália, pra Milão. É uma cidade estranha Milão, porque à primeira vista não se gosta de Milão, depois percebe-se Milão quando se está mais tempo em Milão. Eu vou lhe contar, a propósito destas viagens, que fizemos uma viagem de comboio. Os comboios suíços são muito bons, mas os comboios entre Itália e a Suíça funcionam bem. E fizemos uma viagem em que íamos eu, a minha mulher, a minha filha mais nova e a minha filha do meio, que estava a morar em Milão. Fomos visitar a nossa filha em Zurique e fizemos uma das viagens de comboio mais maravilhosas, com o tempo mais radioso e luminoso que se pode fazer ao passar pelo Lago de Como, e entrar na Suíça com neve e com o sol a brilhar. São memórias absolutamente extraordinárias, apenas com um detalhe, que também serve para os nossos ouvintes se divertirem um pouco, é que eu me esqueci, ao entrar na fronteira da Suíça, de desligar os dados móveis e quando cheguei a Portugal tinha uma conta de centenas de euros.

Todores.

Mas depois dizer que, pra além das filhas e das cidades, eu disse muitas vezes que a minha segunda cidade era Paris, porque eu morei algum tempo em Paris e vivi em Paris. Paris está diferente. Paris hoje está muito agreste, muito suja, muito agressiva, muito hostil, mas Paris é Paris. Tem o seu encanto, tem o seu magnetismo. E vou lhe contar um episódio que é muito engraçado sobre a importância da nossa diáspora, dos nossos concidadãos imigrantes, da primeira vaga de imigrantes. Eu apanhava muito o voo no aeroporto Orly, Orly Sud, que era pra onde a TAP viajava, agora já vai para Charles de Gaulle, e praticamente todo o pessoal auxiliar, que trabalhava no aeroporto, eram portugueses, muitos motoristas de táxi portugueses. E assisti a um episódio. Eu estava a morar numa zona de Paris, que é o bairro 16, e um dia estava a sair e assisti naqueles grandes cilindros de anúncios de empregadas, de oferta de trabalho, assisti uma conversa entre duas mulheres parisiense. Tipicamente parisienses. Muito bem vestidas.

Elegantes.

Muito elegantes.

Cheirosas.

Exatamente. Que diziam uma pra outra em francês, eu apercebi-me da conversa porque estava também próximo desse mesmo ponto, e elas procuravam uma empregada pra casa. E uma delas disse: "Olha, procura uma portuguesa, porque são das pessoas mais honestas que nós podemos ter". E nunca esqueci este episódio, que não vale nada, mas que projeta bem a imagem do que aquela primeira geração de portugueses levou pra fora daqui e que nos projeta pra outro ponto, que é a crueldade que agora determinado tipo de pessoas, gerações que não conviveram com os nossos imigrantes, alguns da nossa família, que não os conheceram lá fora, têm relativamente a outras pessoas, que vêm procurar trabalho na nossa terra. Os portugueses são uma espécie de praga benigna, porque não há praticamente nenhum ponto do mundo onde nós possamos ir onde não haja um português. Mas eu até acredito que hajam portugueses na Antártida. Os portugueses estão em todo lado, mas os portugueses têm, de facto, uma maneira de estar que reflete que nós somos, indo à sua pergunta anterior, nós somos boa gente. Somos boa gente e sobretudo precisamos apenas do estímulo e do enquadramento. Cá ou lá. Lá fora, por vezes, o enquadramento é melhor, a organização é mais eficiente, nós brilhamos mais.

Que música é que dedicava então ao povo português?

"Heróis do Mar". Vamos lá ver, não tenho um instinto nacionalista. Acho que ser nacionalista não faz nenhum sentido num mundo global, mas tenho um instinto patriótico. Eu fui militar, embora miliciano, e portanto um dos momentos mais épicos da minha vida foi no juramento de bandeira, ter sido escolhido para falar em nome do pelotão.

Isso já é um dia perfeito.

Um dia perfeito. Tive que fazer todo aquele ritual que os militares fazem, de marcha acelerada, apresentar continência ao Comandante militar que estava a presidir à cerimónia. E lembro-me que cheguei ao microfone da parada para a cerimónia, para falar em nome da nossa companhia, ofegante. Devo dizer que pesava menos 20 quilos nessa altura do que peso hoje, mas foi um momento épico.

E agora que música dessa banda é que nós dedicamos ao nosso povo?

Eu acho que era uma que começava por paixão.

Neste episódio do "Dia Perfeito", estamos a conhecer o dia perfeito de Adalberto Campos Fernandes. Eu tenho estado a dizer professor universitário, mas, na verdade, não é só um professor universitário que está à minha frente. Também está um político, também está um médico, e está mais o quê?

Uma pessoa. Um cidadão, que eu gosto de dizer, do mundo interessado pelas coisas da vida, pelas coisas do mundo, pela política e pela melhoria da vida coletiva. É um bocadinho esse o meu gosto. Eu gosto muito de intervir, gosto de uma boa discussão. Tenho muitos grupos de amigos, diversos, temáticos, eu chamo de grupos temáticos.

Está a falar dos grupos do WhatsApp?

Sim, que se traduzem muitas vezes em jantares e almoços regulares. Às vezes já me aconteceu mandar umas piadas, que era para um grupo, para o outro, e com o maior inconveniente. Temos os amigos de infância, temos os amigos da faculdade, temos os amigos da política, e na política há vários grupos. Há grupos onde estão pessoas com uma sensibilidade, pessoas ligadas, por exemplo, ao meu partido, e há grupos onde estão pessoas de vários partidos.

Portanto, já percebi que mandou uma mensagem errada para o grupo errado.

E às vezes mandar uma piada, que é muito adequada para pessoas que são de um determinado partido para outro, vai-se a correr apagar, mas dá-se conta que alguém já tinha lido.

Exatamente.

É um problema.

Há sempre alguém que diz: "Eu li". Ou então, no limite, Deus leu.

Muito cuidado. É preciso ter muito cuidado, porque hoje em dia nós estamos reféns da comunicação, estamos muito pendentes da comunicação, mas também interagimos a uma velocidade extraordinária. Quer dizer, nós hoje conseguimos fazer várias coisas ao mesmo tempo e torna a vida mais vibrante.

Estava a falar desses grupos do WhatsApp que se traduzem muitas vezes em jantares. Um dia perfeito inclui um jantar com os amigos, já agora, com que grupo é que iria jantar neste seu dia perfeito?

Olhe, nós temos alguns grupos que são relativamente estáveis e que, de vez em quando, nós convidamos amigos fora do grupo para fazer uma espécie de tertúlia. Aliás, tenho um dos grupos que se chama mesmo "Jantar Tertúlia". Tenho um outro grupo que se chama "Magníficos Portugueses". Tenho um outro grupo que se chama "Totopolítica". E portanto, em cada um destes nós fazemos jantares com pessoas de várias sensibilidades, algumas muito conhecidas. Eu não vou dizer aqui os nomes para não ferir.

Isso agora é que é pena.

Mas posso dizer, num deles tenho uma amiga de longa data, que é a Maria de Belém Roseira, está nesse grupo e faz parte desse grupo e, portanto, é digamos a nossa governante comportamental, a nossa inspiradora e é uma mulher muito inteligente, com uma carreira política e pública muito intensa. Tínhamos nesse grupo um grande amigo, que infelizmente faleceu recentemente, que era o António Couto dos Santos, que tinha sido ministro da Educação do governo Cavaco Silva. Infelizmente, morreu há pouco tempo a jogar golfe ou ia jogar golfe. E era de facto um homem extraordinário. Nós tínhamos discussões intensíssimas sobre isso e em memória dele e por muita saudade que temos dele, eu até lhe dizia quando a guerra começou da Ucrânia, nós tínhamos posições e pontos de vista bastante, não digo antagónicos, mas diferentes, porque ele achava que Enfim, que havia que, de alguma forma, perceber que as responsabilidades estavam divididas. E ele era um bocadinho, devo dizer, anti-americano. Eu sou muito atlantista e muito pró-americano. Eu gosto muito dos Estados Unidos, tenho família e amigos nos Estados Unidos e vejo com alguma tristeza aquilo que se está a passar agora, mas a América de que eu gosto não é a América dirigida pelo atual presidente americano. Portanto, os presidentes, tal como os primeiros-ministros, passam e os países continuam. Tínhamos belíssimas discussões a esse respeito sobre a Ucrânia, sobre a guerra, sobre a NATO, sobre o que a Europa devia fazer, não devia fazer. Eu, por exemplo, sou um federalista assumido desde pequenino, desde os tempos em que nós fomos para a Europa, em 86. Claro, faço parte de uma corrente ultraminoritária, porque há muito pouca gente que seja federalista na Europa, mas eu acho que o tempo, infelizmente, vai dando razão. E se nós fôssemos os Estados Unidos da Europa, provavelmente teríamos uma situação diferente da que temos hoje. Boas discussões, pessoas, de facto, de muita qualidade, a maior parte delas muito conhecidas do espaço público. Cito aí a Maria de Belém, porque ela é a nossa chefe.

E já agora, qual é a banda sonora destes jantares?

Eu não sei se o título da música é esse, exatamente, tenho que verificar, mas há uma música que é Forever Young.

Dos Alphaville?

Dos Alphaville. Nós recusamo-nos a considerar que a passagem do tempo é um fator que, de alguma forma, possa impedir que nós continuemos todos a ser felizes e a partilhar as experiências e os sentimentos. E, portanto, é essa a música que poderia ser o hino dos nossos jantares, embora nós tenhamos nos jantares pessoas de gerações bastante diferentes.

Adalberto, já sabemos que o seu dia perfeito não terá que começar na Suíça, mas tem que passar pela Suíça. Também já passou por Milão. Que mais faz no seu dia perfeito?

Há um ponto de que nós ainda não falámos no dia perfeito, que é os almoços de amigos de domingo. Vou lhe contar.

Então conte-me tudo.

Mas eu não posso dizer o nome do restaurante, porque estaria a fazer publicidade aos restaurantes. Há um circuito de restaurantes que nós fazemos, que é regular e que se situa entre a Boca do Inferno e a Malveira da Serra.

Portanto, aos domingos de manhã, vamos encontrar-vos por aí.

Por aí. Portanto, quem conhece a zona, é só imaginar qual é o melhor restaurante onde se come melhor na Boca do Inferno e depois imaginar qual é o restaurante de comida portuguesa tradicional da Malveira da Serra.

Não está a perceber. No próximo domingo, vai ter montes de gente a falar consigo.

Pois, mas eu não posso, a menos que eu esteja a fazer publicidade direta.

Vai toda a gente lá beber café consigo.

Sabe que eu, no outro dia, eu moro no Conselho de Cascais, e no outro dia vinha para Lisboa e resolvi parar em Oeiras para almoçar com a minha mulher num restaurante. E quem é que eu encontro e com quem estive à conversa quase 40 minutos? O presidente Isaltino Moreira, que, como sabe, projetou o Conselho.

Exatamente.

Em termos de gastronomia, e eu até lhe dizia, a sua vantagem competitiva agora com o Conselho da minha residência, que é o de Cascais, é de facto, você deu um boost. Não se consegue encontrar lugares nos restaurantes de Oeiras porque ele projetou-os todos.

Exatamente, ele faz uma espécie de reviews dos sítios.

Mas sabe que nesse restaurante, onde ele estava também a almoçar com a família, nós estávamos a conversar um bocado antes, a propósito de política, de eleições e presidenciais. Eu fiquei a saber, por um outro amigo que tenho, que esse restaurante tem um bife que é o bife à Miguel Relvas. E, portanto, fica aqui esta sugestão para esse restaurante em Oeiras, que é junto à Marginal, onde eu fiquei a saber que existia um bife designado bife à Miguel Relvas, que é também, neste momento, um companheiro meu de debate semanal na CNN.

Adalberto, essa é a deixa perfeita para retomarmos o seu dia perfeito. Agora temos que fazer um breve intervalo. Estamos a descobrir como será o dia perfeito de Adalberto Campos Fernandes. Ainda bem que há pouco surgiu na conversa o Miguel Relvas, também comentador na CNN, tal como o Adalberto, porque queria saber se realmente o dia em que faz comentário com Miguel Relvas na CNN é um dia perfeito pra si, porque já percebi que os dois gostam de uma boa conversa.

Nós falamos com muita frequência. Nós temos um grande gosto em comum, prazer em comum, que é saborear os detalhes da política nos seus bastidores. Neste momento, por exemplo, é um momento riquíssimo. Em período pré-eleitoral, em crise política, não há melhor oportunidade pra nós cultivarmos este prazer, que é o prazer da análise e da especulação política. Nós brincamos muitas vezes, e eu acho que ele não me terá mal que eu diga isto. Ele é muito próximo e foi, aliás, ministro do Pedro Passos Coelho. E toda mundo sabe que ele é um grande admirador e um grande apoiante político do Pedro Passos Coelho. Eu brinco muito com ele a esse propósito. E digo-lhe muitas vezes que ainda o Pedro Passos Coelho voltará à política e que o Miguel Relvas tem que fazer por isso, tem que cumprir o seu trabalho, porque a proximidade que eles têm, e eu sei a admiração que ele tem pelo Pedro Passos Coelho. Enfim, falamos disso e isso, de facto, é do conhecimento geral.

Portanto, é um dia perfeito.

É um dia perfeito, não apenas disso. Falamos de tudo. Falamos do que vai sair nos jornais, se o governo esteve bem ou mal nisto, se o líder da oposição vai por aqui ou vai por ali. Agora falamos muito, não só com ele, olhe, com outro também amigo que está nesse painel, que é o Bernardino Soares, a quem ele chama o comunista da afeição.

O comunista, desculpe?

Da afeição.

Da afeição.

Porque há brincadeira política e brincadeira pessoal. O Bernardino é uma excelente pessoa, é um homem muito educado. Enfim, e há esta troca de guilherdetes, se me permite, que nós temos. Mas não diria que é uma maldicência, é uma boa dicência, a partir da análise, a partir daquilo que a política tem de mais interessante, que é a especulação.

Ou seja, é fofoquice política.

É.

Mas que não é mau.

Sabe que a fofoquice alimenta a criatividade, alimenta o convívio. Uma boa conversa tem sempre uma componente de fofoca. Uma boa conversa deve ter cultura, deve ter ciência, deve ter evidência, deve ter factos, mas tem sempre um elemento de especulação, a quem em termos populares nós chamaríamos de fofoca. No fundo, a fofoca não é mais do que uma especulação. É aquela coisa: "Tu sabias que...?"

"Eu sabia".

"Tu sabias que...?"

Até os olhinhos brilham, não é?

Exato. Não, não, eu não faço ideia. Tu não me digas.

Bom, já falamos aqui de muitas coisas que compõem o seu dia perfeito. Logo no início da nossa conversa, disse-me que o seu dia perfeito não se limita a um sítio, não se limita a uma parte do dia. Onde é que nos levaria então no seu dia perfeito?

Olhe, levaria ao cinema.

O que é que iremos ver no cinema?

Eu descobri uma coisa. A minha mulher, aliás, é que descobriu, e agora faço propaganda, porque é uma coisa de uso comum. Descobriu agora uma possibilidade de filmes e séries que é na Apple TV. Eu usava a Netflix e agora estou, confesso, eu tenho-

Agora está apaixonado pela Apple TV.

Passem modéstia, tenho um ponto em comum com o atual Presidente da República: é que eu, desde miúdo, durmo muito pouco. Deito-me muito tarde e levanto-me muito cedo. E tenho, portanto, eu penso que isto é uma característica genética. Já me explicaram que há 1, tal por cento dos homens têm essas características de dormir pouco. E portanto, quando eu despacho os chamados expediente do dia, é a altura de ver o que é que as melhores séries nos trazem. E a última que vi, com o Roberto Near, que é o Dia Zero. Sobre uma ficção muito interessante, especulativa, sobre um ato de conspiração política nos Estados Unidos. De facto, foi uma série que eu devorei. Eu já não sei quantos episódios tinha, mas depois aquilo é viciante, começa na primeira e só para às 04:00 quando acabou de ver tudo.

Ai, não consegue parar?

Não consigo parar. E a minha mulher dizia assim: "Mas tu tens que descansar", mas eu quero ver o que é que vem. No cinema, é curioso, porque quando se põe, agora menos, porque enfim, pela própria dispersão da família, mas quando se punha a criar um consenso pra ir ao cinema, raramente havia consenso. Os consensos que nós verificamos foi no tempo do Rei Leão. E eu, como tenho três filhas separadas por oito anos de diferença, tenho as três versões do Rei Leão. Eu vi a Rei Leão clássica em cassete VHS. Depois vi o Rei Leão digital e depois vi o Rei Leão em streaming ou em formato totalmente digital. O Rei Leão é um filme que me marcou muito do ponto de vista sentimental. Marca os pais e marca os filhos. Mas, portanto, eu ia lhe dizer, quando íamos ao cinema, pra haver um consenso, quando tínhamos a família toda, as filhas todas em casa, havia uma divisão.

Pois.

Porque eu sou particularmente adepto de filmes com características de thriller, de ação, de intensidade.

Uhum.

E elas gostam de histórias que sejam histórias de vida. No entanto, encontramos um ponto comum. Por exemplo, este último filme da Fernanda Torres, que foi tão premiado, Ainda estou aqui. Porque eu gosto depois, quando a história tem intensidade dramática, ou tem paixão, ou tem emoção, que ela se relacione com factos da vida e da história. Eu gosto muito da história, sobretudo a história do século XXI e, portanto, acompanhando muito aquilo que foram os fenômenos relacionados com as guerras, a própria violência do nazismo e toda a violência sobre os judeus. E este aspecto também das ditaduras sul-americanas e a história do filme da Fernanda Torres é, de facto, um filme que me prende ao cinema e que me levará ao cinema, portanto, para um dia perfeito, uma boa série, como lhe disse. E depois, é claro, há um aspecto que eu não posso deixar de dizer, é que se o Benfica jogar, eu tenho a Benfica TV. Tenho a Benfica TV e tenho a Sport TV, portanto sempre que eu não puder ir ao estádio, eu vejo o Benfica e faço aquilo que um benfiquista verdadeiro faz, desde pequenino, desde o berço, que é: se tudo corre bem, eu digo que nós somos os maiores do mundo, se tudo corre mal, este treinador é péssimo.

A culpa é do treinador.

Portanto, eu acho que há ali um momento de catarse, que corre pelos clubes todos, enfim, isto é uma coisa comum. Benfica, Sporting, Porto, qualquer clube.

E ir ao estádio? Vai ao estádio, às vezes?

Sim, sempre que posso.

Isso é um dia perfeito pra si.

Sempre que posso.

É perfeito quando o seu Benfica ganha?

É, mas sabe que há uma atmosfera muito particular nos estádios, que é a cumplicidade pelos aspectos positivos e negativos. Nós estamos juntos. Estamos juntos na alegria e no sofrimento. E vou lhe contar muito rapidamente sobre futebol, alguns aspectos. Quando nós estamos no estádio, estamos a ver o Benfica. O Benfica está a jogar bem, está a ganhar. Nós sentimos uma afetividade, uma solidariedade e uma cumplicidade entre todos. É como se fôssemos todos a mesma família.

Dá um passa bem ao seu vizinho do lado. Um abraço!

Damos um abraço. Um abraço, se nos conhecermos. Um abraço intenso. Beijamos, no caso, de pessoas que não conhecemos, que estão na bancada ou nos camarotes, onde nós estivermos. Quando está a correr mal, somos também solidários na crítica. Nós assim não vamos lá. Nós não dizemos que o Benfica não vai lá. Nós não vamos lá.

Nós não vamos lá.

E vou lhe contar uma história. Eu fui assistir uma vez a um jogo no Estádio da Luz. Um Benfica-Sporting. E o Benfica ganhou, marcou um gol. Ao meu lado estava o Pedro Santana Lopes, sportinguista convicto. Do meu outro lado estava o Fernando Medina, benfiquista. E as minhas filhas estavam também nas filas de trás. E eu, quando o Benfica marcou, virei-me delicada e educadamente para o doutor Pedro Santana Lopes e disse: "É uma falha da vossa defesa". Mas devo confessar que fui cínico. Fui um pouco cínico.

Pois, claro.

E ele dizia: "Isto é incrível, é inadmissível". Portanto, este gozo, esta coisa que é quase irracional, porque nós no futebol e no estádio ficamos outras pessoas. Quer dizer, não há ali nada que nos distinga. Não há se fazemos isto, fazemos aquilo, se somos ricos, somos pobres, somos originários daqui ou dali. Nós ali somos Benfica, somos Sporting, somos Porto.

No estádio somos todos iguais.

Somos todos iguais. E isso é, de facto, um dos poucos sítios onde nós sentimos, e isso é curioso, porque não há muitos mais sítios onde nós sentimos este aplanar de diferenças, unidos por um sentimento comum, pelos um seja a falar bem, seja a falar mal.

Está a abrir-me a porta para lhe perguntar acerca da música que dedica ao seu Benfica.

"We Are the Champions".

Eu estava mesmo a ver.

Não podia ser outra. Tantas vezes que a tocámos. Eu espero que o senhor Presidente da República marque as eleições para dia 11 de maio, porque de facto dia 18 acaba o campeonato. E eu tenho um compromisso. Eu tenho que estar no Marquês.

Tem que ir ao Marquês, pois claro.

Vou lhe contar. Há uns anos, uma vez que o Benfica ganhou, as meninas eram pequenas, meti-as no carro, elas eufóricas, e havia CDs que se punham no... Os carros tinham aquela entrada para os CDs.

Os CDs, sim, claro.

E eu pus a música dos Queen, "We Are the Champions", em altos berros, com as janelas todas abertas e elas com as bandeiras, e andámos a circular pela cidade. E portanto, foi um momento épico. Já há alguns anos, enfim, no tempo em que o Benfica ganhava os campeonatos com bastante mais frequência.

Estamos a conhecer o dia perfeito de Adalberto Campos Fernandes, político, médico, mas não é daqueles médicos que usam bata branca.

Eu sou especialista em saúde pública, que não é por natureza uma especialidade que trate dos doentes, trata das doenças das populações, das políticas, das estratégias. E, portanto, eu sempre tive menos tempo de vestir a bata do que têm os colegas que são da prática médica, da prática clínica, da cabeceira do doente. Mas eu sempre gostei de política. Repare, a política pra mim não foi apenas ter sido ministro da Saúde. Eu fui dirigente académico, fui dirigente associativo, estive sempre ligado às comissões de curso e portanto, acompanhei muito a política, envolvi-me muito na política. Estive na famosa no famoso comício da Alameda. Era um fã fervoroso de Mário Soares, do tempo do Soares e Fiche. Estive na primeira campanha eleitoral do General Ramalho Eanes.

Isso foram todos momentos perfeitos, momentos especiais na sua vida.

Foram. E lembra-me que no caso da candidatura do General Ramalho Eanes, na segunda candidatura, em que o comício de encerramento estava a ser feito no Rossio, em frente ao Teatro Nacional Dona Maria II, e nós tivemos a informação, eram oito da noite, de que o comício ia ser suspenso porque tinha havido um acidente e tinha morrido o Francisco Sá Carneiro. Nunca mais me esqueci. Foi um momento absolutamente marcante da minha vida. Foi um período intenso e desde essa altura e desde sempre mantenho algum contacto com o General Ramalho Eanes. Algumas vezes almoçamos com um grupo de amigos e se me pergunta se eu tenho cinco ou seis pessoas para as quais olho como inspiração pra minha própria vida, claramente ele é um deles. É uma pessoa extraordinária. E de maneira que esse gosto pela política vem de muito novo, dos tempos da universidade. Eu fiz uma espécie de rádio universidade, eu punha música, tínhamos a secção sonora da faculdade e eu tinha um programa.

Tinha um programa de rádio?

Tinha um programa.

Como é que se chamava o seu programa? Sei que tinha nome.

Não, o programa não tinha nome. Era um tempo que nós tínhamos dedicado, em que fazíamos, de facto, a passagem. Fazíamos até alguns espetáculos, festas de estudantes. E um dia o Júlio Isidro soube do programa. Ele tinha um programa que era a febre de sábado de manhã.

Certo.

E foi contar a nossa história, entrevistou a mim e aos colegas que fazíamos o programa. E um dia foi assistir a um programa ao vivo e a secção sonora era na sala de alunos da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. E ele no dia seguinte escreve, tinha um artigo, uma coluna no jornal, e escreveu: "A grafonola ideal", que era o programa que ele tinha na rádio, "deu entrada em Santa Maria". E eram, de facto, momentos em que lembro-me dessa altura, das músicas marcantes, passe a redundância, das músicas que marcavam aquele tempo, aquela geração, os Supertramp.

Era isso que eu lhe ia perguntar, qual era a playlist do seu programa, da sua rádio?

Eu vou lhe dizer, tenho aqui até o auxiliar de memória, porque não me quero esquecer. Nós tínhamos claramente os Queen, tínhamos os Supertramp, tínhamos os Led Zeppelin, tínhamos também os Rolling Stones, tínhamos o Chicago, tínhamos o Hotel Califórnia, que era um tema que eu passava muito. Alguma coisa dos Beatles. Mas havia uma música que ainda hoje quando a oiço, eu não sou piegas, mas digo que fico com uma pitadinha de emoção que é Father and Son, do Cat Stevens. É uma música extraordinária, não sei se conhece.

E passava essa música na sua rádio?

Passava, embora nós íamos mais para as músicas com mais movimento, Another Brick in the Wall, dos Pink Floyd. Dos Beatles, menos. Os Eagles, os Supertramp, já lhe referi, Simon & Garfunkel.

Adalberto, eu sei que o Júlio Isidro ofereceu-lhe bilhetes para ir a Alvalade. Agora, o que é que um benfiquista foi fazer a Alvalade? Sobre isso já falamos. Temos que fazer aqui uma breve pausa. Estamos de volta ao Dia Perfeito de hoje, o dia de Adalberto Campos Fernandes, ex-ministro da Saúde, professor universitário e muito mais. Adalberto, há pouco falávamos dos bilhetes que o Júlio Isidro lhe ofereceu quando andava na faculdade. Bilhetes para ir ao Estádio de Alvalade, sendo que é benfiquista. O que foi lá fazer?

Aliás, eu acho que foi a primeira vez que entrei no Estádio de Alvalade. É um concerto de rock dos Fischer Z. Mágico. E eu direi que é a primeira vez que venho ao Estádio de Alvalade, mas que seja por uma razão diferente. Ver o Sporting a jogar foi providencial.

Já nessa altura era benfiquista?

Sempre, desde miúdo, desde o berço.

Nasceu benfiquista?

Nasci benfiquista. Havia os grupos de metállica, os Iron Maiden.

E também apreciava Iron Maiden?

Não, não gostava, mas fui a um espetáculo que o Júlio Isidro fazia no NIMAS. Eu saí dali com uma dor de cabeça terrível, porque era insuportável. Era um grupo português, mas eu, de facto, não gostava.

Não se lembra do nome?

Fiz um bloqueio mental e não lembro-me. Lembro-me que eles vestiam-se de branco e de preto e tinham uma coreografia muito intensa e uma sonoridade muito intensa. Nós tínhamos o Corpo Diplomático, que era um grupo português. Fazíamos as nossas festas na cidade universitária, com música e com grupos de música. Organizávamos essas festas. E vou lhe confessar uma coisa: o grupo de medicina gostava imenso de fazer festas na faculdade de farmácia, porque achávamos que as nossas colegas de farmácia eram especialmente simpáticas.

Simpáticas? É um adjetivo muito interessante esse.

Simpáticas. Para dizer agora uma linguagem um bocadinho mais formal.

Eram bonitas.

Corria entre nós a ideia de que as alunas de farmácia eram as mais bonitas da cidade universitária. Portanto, fica aqui esta pequena nota de história que tem a ver com a música e tem a ver com esses momentos de música.

Então eu vou escolher esta música por si, se não se importa. Cat Stevens.

Cat Stevens.

Estamos a conhecer o dia perfeito de Adalberto Campos Fernandes. Já viajamos pela Suíça, por Milão, já fomos comer aos melhores restaurantes da Boca do Inferno e de Malveira da Serra.

Estivemos em Paris.

Estivemos em Paris, é verdade, a ouvir duas senhoras a conversar.

Exatamente.

E agora vamos para onde no seu dia perfeito?

E vou lhe contar, se ainda tivermos tempo, um episódio numa barbearia, num cabeleireiro de homens em Paris. A cortar o cabelo. Um cabeleireiro com algum requinte. A dona do cabeleireiro era uma senhora já de uma idade, muito simpática, que interagiu comigo dizendo: "Você não é francês, pois não?" "Não, não sou". E esteve comigo a perguntar várias vezes as nacionalidades e não chegava a português.

Nada, nem lá perto.

Até que finalmente ela dizia: "Você fala francês tão bem, de onde é que é? É belga? É espanhol? Espanhol não é, porque não tem sotaque. É italiano? Também não tem sotaque". E eu finalmente lhe disse que era português e achei a reação dela deixou um bocadinho mais triste.

Ela não estava à espera, ficou surpreendida?

Respondeu-me assim: "Aqui em França, nós temos, de facto, muitos portugueses que são as femmes de ménage, as senhoras empregadas domésticas, os pedreiros e as pessoas das embaixadas, como o senhor". Ela deduziu que eu era um funcionário da embaixada. Eu estava em trabalho, não estava lá em nenhuma missão oficial diplomática. Mas, de facto, na altura fiquei com a ideia de que a perceção que aquela senhora do cabeleireiro de homens ou do barbeiro tinha dos portugueses é que havia dois tipos de portugueses em França, que eram as femmes de ménage e les maçons. E, portanto, é mais um episódio da vida que me remete a Paris e evidentemente eu gostar muito de Paris e de ser um utilizador compulsivo Dos restaurantes de Paris e do Saint-Guême e do Nafiem. Gosto muito de Paris, gosto de cheirar Paris, gosto daquele ambiente que Paris tem. Voltando a essa triangulação das viagens, Milão, mas naturalmente Zurique, por razões muito afetivas e muito de família, e Paris por razões mais históricas.

E que prato é que pede quando vai a um restaurante de Paris?

Carne.

Foi tão rápido a responder.

É impossível comer outra coisa. Eu não gosto de ostras. Eu vejo amigos que são muito fixados em restaurantes com aquela sofisticação, digamos, dos chamados frutos do mar. Há um restaurante em Paris que é a La Ronde, La Coupole. Eu gosto de carne, eu sou essencialmente um animal carnívoro.

Portanto, um dia perfeito implica ter um prato de carne.

Implica.

Um prato de carne.

A minha filha mais nova é como eu, viciada num restaurante, vou dizer o nome, porque acho que é uma cadeia, que é a Brasserie de l'Entrecôte. Aquele molho é hipercolesterolemia terrível. Para o risco cardiovascular é assassino, mas de facto, por vezes ela diz-me: "Pai, podemos ir à Marina comer um entrecôte?", que é um restaurante que há ali na Marina de Cascais. E de vez em quando lá vamos, mais vezes do que devia, mas de facto é muito saboroso.

Portanto, carne no dia perfeito.

Sim, e naturalmente, coisas doces.

Fale-me sobre isso.

Viciado em doces, doces conventuais. Gosto imenso de todo o tipo de doçaria tradicional e não.

É uma desgraça ser guloso, não é?

É uma desgraça ser guloso, porque é compulsivo, é mesmo aditivo. Quer dizer, nós temos que compreender que há pessoas que têm adição. Eu não fumo, não bebo.

Também não bebe.

Mas de facto tenho este vício que é a adição das guloseimas e das coisas doces e muitas vezes às escondidas da minha mulher, que em casa me esconde tudo. Eu tenho que fazer quase um círculo inspetivo.

Alguém tem que fazer por sua saúde.

Pedindo ajuda à minha cadela, porque ela é pequena, é uma cadela muito meiga, mas com apurado sentido de faro e que consegue descobrir onde estão os chocolates e as guloseimas, que nós quando trazemos de fora das viagens, ela esconde para evitar que eu tenha acesso a ele.

Esta é uma pergunta difícil de fazer e de responder, eu sei. Mas qual é a sobremesa perfeita, aquela que não consegue recusar?

Olhe, uma coisa simples, que é um quente e frio que mistura chocolate com chantilly, que é aquilo que eu chamaria uma espécie de míssil Patriot em termos de calorias. Portanto, rebenta com qualquer pessoa. É uma carga calórica de uma intensidade brutal, mas de facto alimenta o pecado da gula e é uma mistura de chocolate aquecido, derretido, congelado e com camadas enormes de chantilly.

Tão bom. Solidária, supersolidária consigo. Temos alguma música para dedicar à sobremesa perfeita?

Temos.

Não é fácil.

Talvez o "Stairway to Heaven", dos Led Zeppelin.

Parece-me muito bem.

Porque de facto nós temos que ir em direção ao paraíso e há muitas formas de ir. Para mim, ir acompanhado de coisas doces é seguramente uma das boas formas.

Adalberto Campos Fernandes, isto tem sido um belo passeio pelo seu dia perfeito. Já tivemos doces, tivemos estreia desde Benfiquista em Alvalade, tivemos Paris, tivemos um bom prato de carne. Quer trazer mais alguma coisa para este seu dia perfeito?

A partilha. Duas coisas, duas notas finais. Que nós conseguíssemos que, entre nós todos, a partilha dos dias perfeitos fosse maior, fosse mais alargada, e que cada vez menos portugueses e menos pessoas tivessem dias imperfeitos.

E chegamos assim ao fim do dia perfeito do professor universitário Adalberto Campos Fernandes. Um programa com produção da Maria Ribeiro Nunes, sonoplastia do Bernardo Almeida, o tema interpretado pela cantora Jéssica Pina.

E a superprodução, condução e criação do questionário mais difícil que se pode imaginar, Diana do Carmo.

Temos encontro marcado no próximo "Dia Perfeito", que é já para a semana. Até lá, subscreva este podcast e partilhe. Seria perfeito.