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Oh, it's such a perfect day. I'm glad I spent it with you. Oh, such a perfect day. You just keep me hanging on. You just keep me hanging on.

Seja bem-vindo ao "Dia Perfeito", um podcast sobre uma combinação de sonhos e realidade. Já pensou o que não pode faltar no seu dia perfeito? Será atirar uma bola de papel e acertar no cesto do lixo? Será estrear uma peça de roupa? Cada um desenha o seu dia perfeito à sua medida. Eu sou a Ana do Carmo e hoje o meu convidado perfeito é Miguel Relvas.

É sempre difícil nós apresentarmos e falarmos de nós. Uma pessoa normal. Tenho 63 anos, mais idade do que seria desejável nestas circunstâncias, e tento ser feliz todos os dias. Sou uma pessoa que acorda cedo, acorda às 6h da manhã, vive rápido e tenta ser feliz.

Miguel, hoje estamos aqui para tentar descobrir e para tentarmos viajar um pouco no seu dia perfeito. Quais são os condimentos para ter um dia perfeito?

Sabe, são imensos. Até porque a questão do dia perfeito é algo que eu nunca consegui atingir em 63 anos de vida, porque são tantas as variantes, tantas as opções que me fazem feliz. Sou uma pessoa profundamente normal. Sou um cliente do lado positivo da vida. Onde está um problema, tento encontrar uma solução. Relativizo muito a parte mais difícil da vida, partindo sempre de um pressuposto: a nossa vida, a nossa felicidade, a nossa alegria, está muitas vezes ao alcance de uma chamada telefónica em que nos informam de uma desgraça, que nos informam de uma doença, que nos informam de um problema de uma pessoa de quem nós gostamos e de quem nós precisamos dela pra viver. E, portanto, tudo é muito relativo. Eu tenho um princípio na vida que é: quando ganhamos, não ganhamos tudo, mas também quando perdemos, não perdemos tudo. Isso vai me permitindo viver com um balanço muito equilibrado. Tenho 63 anos, é verdade, mas tenho um filho com cinco anos, que é um diabinho. Tenho uma filha com 10, tenho uma neta com oito meses e tenho uma filha também com 32 anos. Portanto, acabo por ser transversal a várias gerações e isso mexe conosco. É muito exigente, física e psicologicamente exigente. Os fins de semana, pra mim, são mais cansativos que a semana, porque com dois filhos pequenos e muita atividade, quando chega a segunda-feira, penso que vou começar o fim de semana.

É isso que eu ia dizer, é o caso clássico de: "bem, o meu fim de semana começa à segunda".

Chega a segunda-feira, penso: "vou começar o fim de semana". E sabe que eu sou daquelas pessoas que precisam do trabalho pra ser feliz. Preciso de estar ocupado. Sou um pouco hiperativo, reconheço isso, toda a vida eu fui. Eu vivi num colégio interno durante nove anos, no Colégio Nossa Senhora do Mar, um colégio duro, com disciplina e com regras. Isso deu-me uma diretriz pra minha vida. Tenho horários pra tudo. Viu que eu hoje estava preocupado se chegava ou não chegava a horas. Eu chego a todo lado cinco minutos antes da hora e consegui chegar antes da hora. Não sei como, mas consegui chegar antes da hora. Portanto, vivo com muitas regras, mas as regras fazem-me sentir feliz. E sabe que esta questão do dia perfeito, hoje discute-se muito. Até há muita discussão por causa das vicissitudes do bem-estar. Hoje, até em termos científicos, se estuda já. Li há tempos um estudo que foi feito em Inglaterra sobre o que seria o dia perfeito para o bem-estar, o que seria o dia perfeito para meditar, pra concentrar no caminho da tranquilidade. O dia perfeito, no fundo, tenta significar como é que é uma vida agradável, como é que seria uma vida. Eu sou daqueles que acha que isso é impossível. Há um princípio na vida que quem não absorve vai ter dificuldades, que é: nunca se consegue transformar o pico em planalto. A vida é de altos e baixos. Mas há pessoas que muitas vezes julgam que conseguem transformar o ponto alto em planalto e que ele vai ser sempre alto. Eu sempre parti do pressuposto que tudo que sobe, cai e baixa. Isso na vida é real. É real na nossa vida, ao longo dos anos, das gerações e também ao longo das atividades. E uma forma de sermos felizes é saber perspetivar também, saber olhar pra frente e saber ver aquilo que fomos capazes de construir e também aquilo que todos nós desconstruímos ao longo da vida. E eu tento fazer isso.

Essa abordagem que o Miguel me está a falar é muito ver o copo meio cheio, ver as coisas boas da vida.

Sim, por isso é que eu digo que sou um cliente do lado positivo da vida. Transformo uma coisa simples. Sou capaz de fazer de um jantar com amigos, um momento de alegria, mas também se estiver sozinho com o jornal que esteja a ler ou com um livro, ou olhar pra um artigo no iPad, também sou feliz. Não vivo com ansiedades. Não tenho a ansiedade de ser feliz. A felicidade, todos sabemos, são momentos e sonhos. Entre o momento que nós temos e o sonho que nós ambicionamos, que se transforme em realidade. E é importante isso. Isso é o que nos permite encarar a vida simultaneamente com alguma leveza e alguma profundidade, que é de que não é inevitável. O inevitável existe só se nós não formos capazes de o ultrapassar. Eu parto sempre desse pressuposto, que tenho força, que tenho capacidade, até um dia, pra poder ultrapassar. Vivi em África em miúdo e vim pra cá em 75. E fui muito feliz em África, sou feliz cá. Viajo muito, hoje trabalho fora de Portugal Viajo muito por vários continentes e sou feliz em cada um dos sítios, tento tirar partido das oportunidades que tenho, dos pequenos momentos. Sou daqueles que dão muita importância aos pormenores na vida.

Miguel, então vamos tentar esmiuçar aí um bocadinho o seu dia, as suas viagens, o seu trabalho, a sua vida pessoal, essa atividade que os seus filhos e o seu neto. Neto ou neta?

Neta, mas ela vive no Luxemburgo, portanto não vive aqui ao pé de mim. Tem ainda até oito meses.

Portanto, ainda não lhe causa assim muita atividade.

Não. É uma alegria. É como dizem os brasileiros: "Ser avô é pai com açúcar", que é esta grande vantagem, que eu não sei com os meus filhos, que é não dão trabalho. Nós olhamos, adoramos, gostamos muito, brincamos, mas naqueles momentos mais difíceis os pais tomam conta.

Exatamente. Miguel, então já sei que acorda bastante cedo. Percebo que acordar cedo pra si não é um problema. Qual é a coisa que faz a seguir? Uma pequena coisa que faz a seguir, que gosta.

Eu faço o pequeno-almoço dos meus filhos. Eles vão pro colégio às 8:00 a.m.

É um momento de prazer pra si?

Pra mim é um momento de prazer. Faço-lhes uns ovos mexidos todos os dias. Eles dizem sempre que querem o diferente daquilo que eu fiz, depois acabam a comer. Tenho quatro cadelas em casa e abro-lhes a porta e vou para elas irem pro jardim, andar, quatro cães diferentes. E, portanto, é as duas primeiras coisas que faço no dia. Para além de tomar os meus comprimidos habituais. A primeira coisa, aliás, que eu faço é tomar os comprimidos habituais, que eu sou um pouco cuidadoso com a saúde, sou daqueles que estou sempre muito. Sou um pouco hipocondríaco. Eu estava a evitar a palavra, mas pronto, vamos ser realistas.

Não, Miguel, vamos só dizer que somos responsáveis pela nossa saúde.

É, mas eu sou um pouco hipocondríaco. Os médicos têm uma importância na minha vida muito grande. Sou cuidadoso. Tive problemas em miúdo e a partir daí aprendi sempre a ser cuidadoso. Portanto, eu tento esses primeiros momentos da manhã e depois vou ver as capas dos jornais, que é a única coisa que eu leio. Eu não leio jornais hoje. Eu leio as capas dos jornais e vejo as notificações. E é o suficiente, tirando dois dias por semana, que é à segunda e à quarta, que tenho programa na CNN, e nesses dias eu vou ver os acontecimentos do dia com mais profundidade. Nos outros dias, o caudal informativo é tão grande. Recebo tantas notificações, é do Observador, é da CNN, é do Expresso, é do Globo do Brasil, que eu trabalho muito no Brasil e, portanto, leio três jornais brasileiros por dia, porque preciso de os ler para parecer que nas outras três semanas que não estou em São Paulo, lá estive.

É pra estar atualizado, não é? Pra saber o que está a acontecer.

Portanto, faço isso. E leio também um jornal espanhol e um jornal inglês pra manter uma atividade mais premente das questões internacionais, porque sou curioso, gosto de ser curioso. Tenho essa qualidade, acho eu, de ser curioso. E, portanto, depois de fazer isso, vou fazer 8 km, 9 km, 10 km todos os dias. Todos os dias, não. Dois dias por semana faço pilates clínico, faço exercício. E depois faço os outros dias, faço todos os dias entre 8 a 11 km.

Mas a andar, a correr, a andar de bicicleta?

A andar a 6,1 km, 6,2 km. Vou medindo.

Vai com o relógio.

A minha lógica é fazer 10 minutos por quilômetro. Eu sou muito disciplinado. É porque 10 minutos eu tenho que fazer 1 km. Faço isso junto ao mar, saio de casa, vou, venho, acordo. Tenho um prazer muito grande, é das coisas que me dá mais prazer. Há quatro ou cinco pessoas que sou eu que os acordo. Adoro saber que os acordo.

Está a falar dos seus filhos, da sua neta?

Não, de amigos meus, que eu acordo telefonando. Porque todas as pessoas hoje dormem com o telemóvel ao pé. E eu acordo. Adoro acordá-los pra discutir, pra debater, e são a minha companhia. Um está em Moçambique e esse é talvez o que menos vezes acordo. E depois uns amigos portugueses que eu gosto de acordar. São quatro ou cinco, não são mais. Com quem discuto e debate naquela caminhada de 1h20 que eu faço. 11 km eu faço em 1h20. E depois vou tomar um café. E depois é que vou pra casa, tomo banho, arranjo-me. Isto num dia normal.

Um dia normal.

Hoje fiz aula de pilates e vim a correr pra aqui.

Desculpe, Miguel.

E muitas vezes quando tenho um pequeno almoço, eu evito agora, portanto, fazer o jejum intermitente desde o jantar até à hora do almoço seguinte. Eu sou muito cuidadoso nisso, faço exames três em três meses. Tento ter cuidado, porque acho que é a única forma que nós temos de prolongar a vida, não temos outra. E como sei que não sou imortal, vou ter que fazer isso enquanto puder.

E tentamos fazer da nossa vida o mais perfeita possível, não é?

Sim, o mais equilibrada. Acho que a palavra real na vida é: na atitude, a tolerância e na nossa vida, o equilíbrio. Acho que a tolerância e o equilíbrio nos dão. É uma forma que eu tento ver que seja sábia na vida. Eu tenho vários amigos que têm 90 anos, 80 e tal, particularmente no Brasil, com quem converso. Deixei de fumar, eu fumava muito. Deixei de fumar quando tinha 40 anos. Fumava três maços por dia, que era uma loucura. Deixei de fumar nessa altura. Não bebo álcool durante o dia, bebo um copo de vinho ao jantar. Não bebo mais nada, tento fazer isso ao jantar. No fim de semana, bebo um pouco mais. Tento ter uma vida equilibrada. Mas isso não quer dizer nada, porque todos nós estamos sujeitos aos imprevistos da vida e às imperfeições, porque o dia perfeito só existe se houver os dias e os momentos imperfeitos. Essa é a realidade que todos nós temos e todos nós levamos. Veja, ninguém sabe, tendo sido muitos anos figura pública. Eu não vejo de uma vista, nasci sem ver quase das duas. Uma consegui recuperar e a outra não consegui recuperar. Portanto, eu faço tudo com uma só vista. Não se nota nada, traz-me algumas dificuldades, em particular a conduzir pelo lado direito. Havia de ser logo pelo lado direito, podia ser pelo esquerdo. Mas eu vejo bem com a vista esquerda, é a única coisa em que em mim predomina a esquerda, é na vista. Aí vejo o paradoxo e a contradição.

A ironia que a vida...

É, e há uns anos, há três ou quatro anos, consegui entrar num programa experimental alemão E fui viver para uma cidade alemã durante 30 dias por ano. Mas eu só fiz duas vezes. Fui adiando, que era um tratamento, um modelo que está a ser desenvolvido numa cidade chamada Magdeburgo, na Universidade Magdeburgo, que é tratarmos a saúde a partir de choques na cabeça. Não havia um oftalmologista, eu consegui entrar. Fui considerado um caso com hipóteses. Eles tentam não querer casos que à partida não seja possível. Porque o meu cérebro desligou a vista direita para não haver sobreposição. Estive lá 30 dias, em que o tratamento era meia hora de choques na cabeça.

Foi doloroso?

Não, nada, pelo contrário. Eles até pediam para eu não adormecer, e era raro o dia que eu não adormecia. O tratamento era às 8:00 da manhã, mesmo à alemã. Eu às 8:30 estava pronto e não tinha mais nada para fazer numa cidade no interior da Alemanha, a uma hora de Berlim. E a verdade é que recuperei para aí 5% da vista, e eles dizem que este vai ser um dos modelos de desenvolvimento da saúde nas próximas décadas, que é tratarmos uma série de problemas de saúde a partir do cérebro. E sabe o que eu achei fantástico? Era um psicólogo, o líder da equipa. Eram só psicólogos e neurologistas. E eu perguntei: "Mas não há aqui um oftalmologista? O meu problema é de vista". E ele disse: "Não, nós aqui não queremos mecânicos. Nós aqui estamos cá só para tratar do cérebro". Veja, psicólogos e neurologistas. É a primeira vez, aliás, que estou a contar isto. É um programa que pode revolucionar o modelo da saúde. Não será pelas moléculas, como muitos acham, pelo desenvolvimento que está a ser feito. Isto é, a partir do cérebro, tratar o fígado, tratar futuros problemas mais graves. Fantástico. E o sucesso deles, por exemplo, nos glaucomas, que é um problema de vista muito grave, está a ser grande. Eles tratam cinco pessoas por dia de vários pontos do mundo e eu fiquei surpreendido com o que encontrei.

Miguel, então no dia em que lhe disseram que estava apto para participar.

Foi um dia perfeito. Esse foi um dia perfeito. Ali pude participar. A perfeição, o dia perfeito é fatiado. Faz lembrar um pouco aquele bolo indiano, que é o babinka, que tem vários sabores. As pessoas falam muito isso, para ter vários sabores. Vários sabores, várias visões, várias atitudes. E é isso que o mundo também nos ensina. Acho que o que mais nos ensina na vida e onde mais aprendemos, para além de podermos ler, de podermos investigar, de podermos estudar, é viajar. E olhar e encontrar realidades tão distintas. Eu adoro conhecer a realidade dos países a partir da gastronomia. Acho que a gastronomia é tão rica no ponto em que demonstra a diferenciação dos povos, das atitudes, até mesmo do caráter. Vê-se a atitude, por exemplo, a alimentação japonesa. Estive há pouco tempo no Japão, tudo o que se vê no Japão, a alimentação é muito condizente com aquela que é a atitude de vida que eles têm.

Miguel, antes de seguirmos de viagem para o Japão, vamos voltar àquela cidade no interior da Alemanha onde o Miguel esteve. Que música é que lhe fez companhia quando estava nessa situação? Uma situação de alguma ansiedade, acho eu. É certo que teria uma perspectiva positiva, mas com certeza que haveria ali alguma ansiedade à mistura.

Uma música adequada era a da Mariza, " Gente da Minha Terra". Para nos lembrarmos das nossas raízes e estando longe, numa cidade do interior, uma cidade que eu só tinha ouvido falar uma vez, que eu sou um sportinguista muito afirmativo. Gosto muito do Sporting, mais do que de futebol, gosto é do Sporting. E eu lembro-me há uns anos, quando foi o 25 de Abril, o Sporting estava em Magdeburgo, onde foi eliminado da Taça UEFA à época. E eu fiquei sempre com essa ideia. Era o 25 de Abril, a equipa do Sporting estava lá e o Sporting foi eliminado. E eu nunca pensei ir a Magdeburgo. E estive lá duas vezes, 15 dias de cada vez, em Magdeburgo, que é uma cidade sem nada de especial. Plana, aquelas cidades alemãs organizadas, é verdade, tudo a horas, mas não é para um latino.

Miguel, já vamos ao Estádio de Alvalade, já vamos também ao Japão. Agora vamos ouvir a Mariza.

Gente da Minha Terra é uma escolha musical do meu convidado, Miguel Relvas, uma música para ouvir no seu dia perfeito.

Que eu ouvi uma vez em Nova York

No Carnegie Hall.

Carnegie Hall? A Mariza?

A Mariza, num espetáculo que ela lá foi dar. Eu sou muito amigo do ex-marido da Mariza. Na época, marido da Mariza. Coincidimos e encontrámo-nos em Nova York e fui ao espetáculo dela, que foi deslumbrante. O orgulho que eu tive em ser português nesse momento. Estava lá mais gente, o embaixador de Angola das Nações Unidas, gente de várias nacionalidades e a sala cheia. Foi tão impressivo, foi um momento especial, um momento alto.

Sim, acho que nos enche a todos de orgulho percebermos que uma artista da nossa língua, da nossa pátria, acaba por encher uma sala tão emblemática como essa.

Num sítio fantástico. Tive orgulho. Foi um dos momentos fortes de orgulho.

Miguel, portanto, estamos agora em Nova York. Viemos assistir ao concerto da Mariza. Daqui a pouco seguimos para o Japão. Parece-lhe bem, Miguel? Agora temos que fazer um curto intervalo, mas voltamos já de seguida ao "Dia Perfeito" de Miguel Relvas. Estamos de volta ao "Dia Perfeito" de Miguel Relvas. Saímos de Carnegie Hall, em Nova York, e agora seguimos para o Japão. Estávamos a falar do Japão, onde esteve há pouco tempo. Foi uma viagem que teve, com certeza, os seus momentos perfeitos.

Sim, tem. Eu gosto de fazer viagens, mas não faço uma viagem mais de uma semana. As pessoas que fazem duas, três. Estou a guardar isso para um dia que posso ir à Austrália, que é dos poucos sítios que eu não conheço. Eu tenho um mapa onde aponto os países que eu conheço. Conheço 64 países no mundo, uns mais, outros menos. E eu tenho não mais de uma semana, não sou capaz. Basta-me uma semana. E o Japão, aquilo é tudo muito arrumado, é tudo muito certinho. Tudo, tirando que as cidades são novas, porque foram destruídas na Segunda Guerra Mundial, mas conseguiram recuperar a matriz. É um país que me satisfez mais do que a lógica ancestral. Eu gostei muito da vivência moderna, quer dizer, tudo funciona. Houve coisas que me impressionaram. Vou dar um exemplo. Compra uma garrafa de água. Não há caixotes do lixo na rua. Eu perguntei por quê. É uma coisa que nos surpreende. E então foi desde uns ataques que houve há uns anos de gás sarin, que foram dentro de caixotes do lixo, e eles tiraram os caixotes do lixo da rua. Portanto, a pessoa compra uma garrafa de água e anda com a garrafa de água, anda horas com a garrafa vazia. Ali ninguém, nem quem fuma, deita fora o fim do cigarro. Três coisas que me impressionaram muito no Japão. Foi isso, foi nos comboios e nos metropolitanos haver barreiras, porque as pessoas aproveitavam essas opções para se suicidar. Era uma coisa que eu nunca tinha pensado na vida, porque eu perguntei qual é a razão, porque no comboio rápido, nas estações, havia barreiras antes de entrar e aquilo só abria no momento do comboio, no metrô a mesma coisa, e foi por causa dos tremores de terra nos prédios. Há uns bancos que não são bancos, são umas caixas onde lá dentro estão ligaduras, estão águas por causa dos tremores de terra. Para além disso, é um país fantástico, uma sociedade desenvolvida, um país com uma história enorme. Um país que vai voltar com esta crise mundial, esta incerteza que hoje se vive no mundo. Vai voltar a ser um país importante, mas onde se nota um grande carinho por Portugal.

Onde é que sente esse carinho por Portugal?

As pessoas, falando com eles, nota-se nas palavras. Eu gosto muito de história. Talvez o meu momento de maior lazer é ler ensaios históricos, biografias históricas. Gosto muito de ver até filmes. Vejo muitas séries nos streamings de momentos históricos, onde nós aprendemos muito, que tudo que está para vir já aconteceu. Esta ideia de que tudo é novo, nada é novo, tudo vai voltar a repetir. Os asiáticos têm essa percepção de olhar com uma distância. O asiático tem uma diferença sobre nós, ocidental. O asiático não tem relógio, tem tempo. Nós na Europa temos relógio, andamos todos de relógio a viver contra o tempo. Os asiáticos têm isso. Eu nunca me esqueço de uma coisa que aprendi em Cingapura, numa visita que fiz a Cingapura, que me diziam: "Tudo isto é muito diferente. Nós inventamos a pólvora e vocês desenvolveram-na. Vocês, europeus, inventaram o capitalismo e nós estamos a desenvolvê-lo". E essas são as realidades tão diferentes que hoje existem no mundo. Anda tudo tão preocupado. Eu ouvi um candidato: "Eu sou o candidato aqui em Braga", um senhor do Bloco de Esquerda, porque há o fascista do Trump. As pessoas têm que perceber cada coisa no seu tempo. Eu odeio exagero. Não gosto. Quem é o português que também se julga assim tão importante para ser candidato por causa do Trump? Quer dizer, nós não temos consciência. Já fomos um império, já não somos um império. E acho que é importante que haja bom senso nas famílias, bom senso nas sociedades. As sociedades têm horror aos vazios, e os vazios são sempre ocupados, como nas famílias, como na vida das pessoas, como nas empresas. Onde houver seres humanos, não há vazios, alguém ocupa os espaços. Há gente que se acha insubstituível. Como estão enganados.

Na sua vida não há vazio, Miguel?

Há também momentos de nostalgia, naturalmente. Eu, por exemplo, para a semana vou pra Angola, estar em Luanda. Vivi lá em miúdo, não vivi em Luanda, vivi na Lunda, uma zona lá na ponta, Zaire no passado, República Democrática do Congo, hoje. Vivi lá em miúdo. Eu gosto muito. Olho pra África, olhar pra terra encarnada é uma coisa que quando chove, o cheiro da chuva é único.

É diferente?

É, tudo isso é diferente. Não é nem melhor, nem pior, é diferente. Eu sinto-me bem, gosto muito de estar em África. África é o meu continente, mas também gosto de estar numa cidade europeia. A capacidade de adaptação é algo fundamental pra tentarmos ser felizes. Quem não se adapta Vai ter problemas. Eu compreendo, aceito, ajudo. Pessoas depressivas, eu não sou nada depressivo. Quando há um problema, tento encontrar uma forma de dizer: "Por que eu tive este problema? Como é que eu vou ultrapassar? Como é que vou viver?" Quer dizer, preocupam-me mais do que os meus problemas, preocupam os problemas, por exemplo, dos meus filhos. São muito pequenos. Eu já não vou acompanhar como acompanhei tanto a minha filha. Espero viver muitos anos, mas o acompanhamento é diferente.

Lá está, não é melhor, nem pior, é só diferente.

Não, também sou um pai mais ativo hoje. Quando a minha filha, 32 anos, era nova, eu não tinha tempo de lhe fazer ovos mexidos ao pequeno-almoço. Ia levá-la a correr à escola, vestia-me à pressa, ia trabalhar, vinha. Eu hoje tenho mais. Eu sou dono também de uma parte do meu tempo. Eu ainda ontem estava a jantar com uma grande amiga minha, ela mesmo muito dedicada ao trabalho, com muito sucesso, presidente de um grande fundo de investimentos. Eu janto com ela, porque eu tenho um princípio que é: eu só tomo pequeno-almoço com pessoas chatas, muito chatas. Almoço com chatos e só janto com quem eu gosto. Não vale a pena, mesmo em trabalho. Eu não tenho paciência, estou com o foco para os horários e para o dia, e à noite eu descontraio, bebo um copo de vinho, fico bem disposto.

Está mais à vontade.

Olho pra noite. O mistério da noite é algo que me marca. Apesar de eu ser uma pessoa que adormeço às 11 e tal da noite, por norma. Gosto cedo de erguer.

Deitar cedo e cedo erguer.

Faço isso. Mas o mistério da noite existe na minha vida. Quando durmo sozinho, quando não estou cá em Lisboa, a minha mulher no dia a dia não me deixa fazer isso. Eu durmo de janelas abertas. Por exemplo, em São Paulo, no vigésimo piso, pra estar a ver as luzes e acordo às 5h com a luz do dia. O mesmo faço noutras cidades. Portanto, sou ansioso com a vida. Não tenho ansiedade, no resto, mas sou ansioso com a vida. Gosto de acordar, olhar. E na noite há uma coisa que eu adoro. Há uma cidade onde eu gosto muito de estar, que é Nova York, e a melhor coisa que me podem dar é ir ao Blue Note, que é a catedral do jazz. Uma vez fui tão feliz lá ouvir um concerto do trompetista do Chris Botti, que foi fantástico. Ele era o trompetista do Sting. Só me irrita uma coisa, que é um espaço das 18h às 22h, e depois das 22h em diante. Eu vou sempre das 18h às 22h, porque às 22h estou morto de sono com a diferença, com o fuso horário.

Miguel, então já que estamos neste espaço onde assistiu a esse concerto, essa performance de jazz que o marcou, quer aproveitar aqui a deixa pra nos trazer outra música?

O Chris Botti.

O convidado hoje do "Dia Perfeito" é Miguel Relvas. Estamos aqui a tentar perceber como é o dia perfeito do Miguel. Já nos contou que um dos seus prazeres é acordar os seus amigos, aqueles quatro amigos de manhã bem cedo, que lhe fazem companhia ao telefone enquanto dá uma caminhada. Que amigos são esses, posso saber? Quem é que recebe o seu telefonema de manhã pra acordar?

É um amigo meu de Moçambique. Outra pessoa que eu muitas vezes não acordo, porque acorda ainda mais cedo, é o doutor Passos Coelho. Adoro telefonar-lhe de manhã. Havia um grande amigo com quem eu falava todos os dias às 08h30, que infelizmente já morreu. Era o doutor Jorge Coelho. Todos os dias às 08h30 falávamos, trocávamos, na altura, trocávamos sempre cromos. Ele contava-me as coisas do PS, eu contava ele as coisas do PSD. Ficamos sempre muito amigos. É uma pessoa que me faz falta na minha vida e acho que faz falta na vida política do país. Ao Partido Socialista, então, faz muita, porque trazíamos consenso. Mais dois amigos meus, que não são portugueses, eu gosto de os acordar. Ou eles já estão acordados, uns estão, outras vezes estão, outras vezes não estão. Mas eu pergunto sempre: já acordado? Eu ponho perante o fato que quando se bate o telefone é porque está acordado. E está.

Nem que tenha acabado de acordar pra lhe atender o telefone.

Informalmente está. Os meus filhos já me acordaram. Eu dou muita importância à vida em família Falo com a minha filha todos os dias, que vive no Luxemburgo, a mais velha. Os pequenitos, o meu filho mais pequeno, ainda antes das 16h, a maior parte dos dias já se começa a levantar. Só gosta de futebol, só quer jogar futebol, só fala de futebol. A minha filha é mais cerebral, tem 10 anos, mas é toda certinha, é muito cerebral, muito disciplinada. E ao fim de semana vou com eles ao cinema. Com o meu filho, neste fim de semana, fui a um jogo ao colégio deles, fui jogar com o meu filho um jogo entre pais e filhos, que tinha sido o Dia do Pai. Tento fazer. Reaprendi. E mesmo assim, a minha mulher está sempre a achar que eu faço pouco, ou devia fazer mais. Mas é normal que assim seja. Fui ver a Branca de Neve e os Sete Anões.

E gostou?

Ouça, adormeci um pouco. Estava escuro e eles não notaram.

Mas o que importa é que sabe a história.

Estava a ver, e havia lá uma figura que estava sempre zangada e fez-me lembrar o líder do Partido Socialista, que está sempre zangado, até me parti a rir. Só ele devia viver este filme pra perceber quão chato é estar sempre zangado com alguém.

Já me falou aqui algumas vezes da sua filha que está lá mais longe, está no Luxemburgo. Para si, um dia perfeito, imaginando que era possível condensarmos todos os momentos perfeitos num dia, esse dia perfeito passaria por uma visita ao Luxemburgo?

Estive há 15 dias, uma semana, com os meus filhos, a minha mulher e a minha filha e o marido dela, e a minha neta. Tivemos uma semana no Luxemburgo, corremos ali, andamos, fomos à floresta, demos várias voltas. Aquilo é muito tranquilo, é quase um paraíso. Lá encontra-se toda a gente a falar português em qualquer esquina. Em qualquer esquina há um português. Parece que até estamos num país de língua portuguesa. Igual ao Luxemburgo, só vejo isso em Angola. Angola e Cabo Verde, que é tudo português, é pé de água das pedras. New York, no estado de Nova York, também tem isso. Os portugueses trazem uma coisa que são as saudades, as saudades e o bacalhau. Estão sempre a chorar pra se irem embora, mas nunca vêm, vão lá sempre ficando. Essa é uma característica que os portugueses têm.

E por que acha que nós vamos ficando?

Porque nós temos uma capacidade, que nos adaptamos bem, enraizamos bem, aculturamos bem. Eu devo dizer, nós em Portugal hoje temos uma coisa. Fala-se muito da questão dos imigrantes. Eu acho que é uma matéria que tem que ser vista com atenção. Mas nós sempre fomos um país que enviamos gente. Agora estamos numa fase de receber, o que é bom sinal, é sinal que necessitamos de outros que nos ajudem. Mas também nós sempre fomos um país que integramos bem. Nós somos tolerantes na matéria racial, somos tolerantes nas questões de gênero, somos tolerantes na religião. Eu conheço gente islâmica em Portugal, que mais ou menos discretamente, bebe álcool e come presunto. Não vão à carne de porco, vão à parte limpa da carne, que é o presunto. Um bocado o Brasil também tem isso, o Brasil põe um chinês a dançar samba.

Mas os brasileiros conseguem tudo.

Ou seja, são povos onde a tolerância é o valor central pra aculturação. Isso é muito positivo. Esse é o lado universal de um pequeno país que pode ter a pretensão a ser maior do que aquilo que é, porque já foi muito grande. E nós, às vezes, cedemos, não somos profissionais. Eu lembro, eu estive no governo numa altura particularmente difícil, a segunda vez que estive no governo, em 2011, Portugal estava falido. Eu vi coisas diabólicas que diziam das medidas. A verdade é que se deu a volta, pagamos as dívidas, demos a volta com muitas dificuldades. Nós temos que ser capazes de olhar pra frente. E não venham com essa história que a nossa democracia só tem 50 anos. Isso não é uma questão da democracia, é uma questão da cultura, é uma questão da atitude, é uma questão da resiliência. Eu respeito muito quem é resiliente. Gosto de ver gente resiliente, gente que luta contra a adversidade, que combate. Combate na sua vida pessoal, na sua saúde, na sua vida familiar. Adoro gente resiliente. Não tenho medo de quem diz aquilo que eu não gosto de ouvir. Eu nunca tive medo dos meus inimigos. Tenho medo dos meus falsos amigos.

Eu li que o Miguel disse aos seus amigos que podem falar de si no jornal, claro que sim, mas se disserem alguma coisa má de si, que lhe digam antes, que o Miguel não fica a ler no jornal.

Claro. Eu uma vez disse de um grande amigo meu político, com quem tive uma negociação política, ele era de outro partido, uma negociação política, e ele depois, por variadíssimas razões, nem quero aprofundar isso, até porque são pessoas conhecidas. Eu disse: "Eu não gosto de pessoas que sejam como o feijão-frade, que tenham duas caras". Não gosto, sinceramente. Se não podem, não querem, não devem, não acham, que me digam. Sabe uma coisa que sempre odiei na vida? E odeio muito. E a vida empresarial, até a vida da gestão, tem menos disso do que na política. É o "eu acho". Eu odeio achismos. O "eu acho" é uma coisa que me irrita. Não é o eu acho, ou é ou não é. Esta história do eu acho é uma forma muito portuguesa tentar fugir aos problemas, dar a volta. Também encontro muito isso no Brasil. No Brasil até encontro uma coisa pior, ninguém diz que não.

Acha que há semelhanças nesse aspecto entre portugueses e brasileiros?

Completamente. Os brasileiros, ninguém diz que não a coisa nenhuma. É tudo sempre sim, mesmo que não aconteça, mesmo que não seja assim. Até estar tudo concretizado. Eu trabalho hoje muito lá. Nós deixamos essa herança de uma certa ligeireza. Ainda temos também a nosso favor, fomos o primeiro país na Europa a acabar com a escravidão, isso é algo que nos devia orgulhar. Nós não sabemos valorizar. Nós somos os nossos piores diretores comerciais da nossa cultura. Os espanhóis fazem isso muito bem, fazem isso melhor do que nós.

Mas isso se calhar é mesmo um traço geral, é um traço de cultura nossa.

É um traço de país pequeno É um traço de país pequeno. Nós somos mais pequenos do que a nossa geografia, muitas vezes. Isso não é positivo. Sempre que somos desafiados a agigantar, há momentos que a história tem demonstrado que somos capazes de o fazer, mas devíamos ser mais ambiciosos. Muita gente diz: "Esta geração que se vai embora". Eu acho que quem vai embora são os melhores, sempre foram. Eu encontro muita gente pelo mundo fora. Por quem é que vai embora? Muitos vão embora por variadíssimas razões, mas porque querem mais oportunidades. Isto é um problema.

Isso não é nada mau, querer mais oportunidades, querer as melhores.

Não, mas está muito discurso. A esquerda alimenta esse discurso, esse do papão, as pessoas vão-se embora. A minha filha vive no Luxemburgo. Por quê? Porque tem uma carreira muito mais desafiante lá do que cá. Mas hoje a mobilidade é completamente diferente. As saudades com o FaceTime são muito mais fáceis de fazer e de se ultrapassar do que no passado. Mas o único problema é que nós andamos a preparar, a financiar e a dar condições a jovens que depois vão servir outros países que não investiram neles e vão tirar o benefício, e nós não tiramos a mais-valia do investimento que fizemos. Portanto, nós temos que melhorar as condições dos mais jovens em Portugal, particularmente a questão do salário. Nós não podemos continuar a deixar cair os salários médios pra salários medianos. Nós temos que subir os salários médios, mas em Portugal, há sempre muito esses complexos. Nós precisamos melhorar o preço do trabalho. As pessoas têm que ganhar mais do que aquilo que ganham em Portugal. E nos últimos anos, com certos exageros e com muita demagogia, os salários médios têm passado pra medianos, quando nós devíamos estar a fazer crescer os salários médios.

Miguel, sendo assim, à luz da nossa situação laboral neste momento, há alguma música que sirva de esperança para quem está agora a estudar, que possa continuar no seu país?

Uma música da minha geração foi o Chico Fininho. Algo que à época abordou temas que eram tabus na sociedade. O Chico Fininho, do Rui Veloso, que é uma pessoa, meu amigo, de quem gosto muito. E se não formos nós a falar dos nossos amigos, não serão certamente outros. Nós temos que apostar mais na cultura do que aquilo que apostamos. Temos que ser capazes de continuar, até porque o turismo obriga a isso, a um conceito de indústria da cultura. Nós precisamos de generalizar e temos que pôr os atores, os protagonistas da cultura a ganhar dinheiro. E pra isso eles precisam de industrializar, precisam de agradar a um número muito significativo de pessoas. Veja, hoje em Portugal, já temos os grandes concertos em Portugal. Nós somos um país pequeno. Não há que ter vergonha da indústria da cultura. Cultura pra minoritários e cultura pra elites, pode haver, mas não deve ser esse o princípio. Nós temos que ter a capacidade, a coragem, como fazem os anglo-saxónicos, e bem, em que há um conceito alargado cultural, e eu sou muito adepto disso. Estamos a conhecer o dia perfeito de Miguel Relvas. Miguel, eu queria saber se o dia 5 de setembro são dias perfeitos pra si. Que é o dia do seu aniversário. É o dia do meu aniversário. Eu faço sempre uma festa com amigos Faz sempre há muitos anos. A minha mulher faz-me sempre uma festa com uma surpresa, com um filme. Quando eu fiz 70 anos, fez um filme que era "Amigos para a Vida". Que, aliás, também é uma música, "Amigos para a Vida". Foi um dia muito especial. Até tenho um amigo meu, que durante muitos anos comemorávamos, continuamos a comemorar, que faz anos no mesmo dia que eu, descobrimos há 30 anos atrás, que era o Luís Marques Mendes. Fazemos os dois anos no mesmo dia. Ele faz mais do que eu. Eu faço menos.

Mas lá chegará, Miguel.

Lá chegarei, é bom sinal. Eu olho para o dia do aniversário como um dia especial, um dia diferente, um dia alegre. É um dia que eu gosto.

É um dia feliz.

É um dia feliz. Eu tenho alguns amigos que não querem parabéns, alguns amigos que ficam meio depressivos no dia. Eu acho isso uma coisa horrível. Por que eu hei de ter um dia depressivo se eu faço anos? É um dia alegre. Então agora com miúdos pequenos, começo logo às 06:00 da manhã a receber presentes, que é uma coisa horrível. Eu adoro receber presentes. Adoro dar. Eu gosto de dar. Mas receber presentes é uma coisa tão boa.

Qual é o melhor presente que os seus filhos lhe podem dar?

Eles fazem os trabalhinhos deles da escola, que é tão bonito ver quando eles são pequenos. E o meu filho e a minha filha, orientados pela mãe, dão sempre peças, camisetas, coisas que possamos usar os três. Calções de banho que eu possa usar com meu filho. O eles acordarem e aparecerem com um saco na mão ou com um envelope na mão, é uma coisa tão bonita, tão genuína. É o momento de uma expressão genuína tão forte.

Por falar em dias perfeitos, aquele dia em que se tornou Ministro da Presidência dos Assuntos Parlamentares, foi um dia perfeito de alguma forma?

Não, eu já sabia que ia ser. Eu era secretário-geral do PSD, já tinha falado com o primeiro-ministro. Eu sabia, era um dia de responsabilidade, porque eu não sou daqueles que põe o telefone: "Pai, sou ministro". Eu vim na função. Eu já tinha sido secretário de Estado e vi na função de ministro algo de grande responsabilidade, no momento, particularmente. No dia seguinte a tomarmos posse, nós não tínhamos dinheiro para pagar os salários à administração pública. Estava num estado tal o país. E nos primeiros dias de governo foram os primeiros dias que vacilei: "Ainda vou voltar a fumar". Não voltei. Eu tinha deixado de fumar em 2005, com uma dor de peito. Olha o que aconteceu ao meu querido amigo Miguel Macedo, não me aconteceu a mim até agora, porque deixei de fumar, ele não deixou. Eu dizia-lhe tantas vezes isso. E foi um momento de grande responsabilidade. O governo era muito curto, eram 11 ministros. Eu também tinha a responsabilidade da coordenação política e dava muito trabalho.

Mas não teve sequer um motivo de festa, não foi um dia de festa?

Se formos por aí, eu vivo em festa todos os dias. Todos os pequenos pormenores eu faço uma festa. Eu estive a preparar este programa, a pensar. Eu preparo tudo. Eu vou, por exemplo, na CNN, os dois programas, 15 minutos de televisão, eu leio, penso, preparo. O melhor improviso é o preparado. Sou criativo, sou bem-disposto. Modéstia à parte, tento ter sentido de humor, mas acho que nada ultrapassa. Quem não é profissional, quem não trabalha, e eu trabalhei imenso, eu tinha várias pastas, as tecnologias, a juventude, as políticas de gênero, imigração, desporto, os assuntos parlamentares e ainda presidia os conselhos de estado, todos os assuntos das esferas, que é algo muito oculto nos governos, mas que é fundamental. Quem preside ao Conselho de Estado é quem acompanha toda a visão, a política aérea de todo um governo, que depois só o que passa nos conselhos de estado é que vai aos conselhos de ministros. Mas foram momentos muito alegres. Foram momentos importantes. Foram momentos de reflexão em que todos os dias estamos a testar o nosso limite, em que todos os dias estávamos a testar o nosso limite. Eu mantive a minha vida, continuei eu na altura, até ia a um ginásio, hoje faço ao ar livre, e continuava a ir ao ginásio às 07:00. Tive sempre esta faculdade de dormir pouco, apesar de que, e eu acho que este é o segredo de dormir pouco, eu durmo um bocadinho em todo lado. Se a seguir ao almoço me sentar, durmo cinco minutos. Se fizer uma viagem de carro, ainda tinha motorista, eu vinha do almoço pro gabinete, eu dormia. Eu durmo em todo lado, eu sento-me num avião, ainda não apertei os cintos e já estou a dormir. Mas faço sonos de cinco a 10 minutos, não mais.

São as suas power naps.

É, sinto-me revigorado. E eu ia pro ginásio às 07:00, as pessoas ficavam: "Mas está aqui e tal". Até antes dos conselhos de ministros, eu não deixava de ir. Eu aprendi a fazer o exercício físico depois de ter deixado de fumar. Eu hoje considero fundamental o exercício físico. É fundamental pra mobilidade, é fundamental pra cabeça, é fundamental pra abertura. A pessoa deita fora uma série de momentos mais difíceis. Sei que isso exige muita disciplina, a pessoa acordar de manhã. Quantas vezes está a chover, está frio e pensar: "Vou, não vou". Em São Paulo, por exemplo, que há um problema até de insegurança, há muito mais insegurança. A pessoa se tem que sair, não pode levar telefone, não pode levar relógio. E agora nem se pode levar as alianças, que roubam as alianças porque é ouro. Na rua, há assaltos, mas eu saio. Sem nada disso, não vou correr riscos. Mas esteja onde eu estiver, faço as minhas caminhadas, seja em Hong Kong, Macau, onde vou muito. Na Índia, que é uma coisa impossível, porque na Índia tem pessoas, motas, buzinas, carros, sujidade. É um país complicadíssimo e eu vou duas vezes por ano à Índia. E também na Índia saio. Saio em todo lado. Eu acho que só recuo pra se ganhar balanço na vida.

Miguel, e que música é que ouve quando está a dar as suas caminhadas, seja lá em que parte do mundo for?

Olha, eu gosto muito de ouvir o Roberto Carlos. Estava a ver uma música do Roberto Carlos e da Marisa Monte, que é o "Louve-o", que é fantástico.

Deixa eu pensar em você. Isso me acalma, me acolhe a alma, isso me ajuda a viver. Hoje contei pras paredes, coisas do meu coração. Passei no tempo, caminhei nas horas, mas o que passa é paixão. É o espelho sem razão. Quer amor? Fique aqui. Deixa eu dizer que te amo. Deixa eu gostar de você. Isso me acalma, me acolhe a alma, isso me ajuda a viver. Hoje contei pras paredes, coisas do meu coração. Passei no tempo, caminhei nas horas, mas o que passa é paixão. É o espelho sem razão. Quer amor? Fique aqui. Meu peito agora dispara. Vivo em constante alegria. É o amor que está aqui. Amor, I love you. Estamos a conhecer hoje o dia perfeito do Miguel Relvas. Miguel, já falámos aqui várias vezes do seu Sporting, mas ainda não falámos do quão perfeito o seu dia fica quando o Sporting ganha ou quando vai a Alvalade.

Como é aquela música, que é baseada numa música do Frank Sinatra, que o Sporting tem, que agora é quase o hino do Sporting, que era o My Way? E eu até devo dizer que conheci durante anos a Maria José Valério, que fez o primeiro e grande hino do Sporting. Eu ligava-lhe na tal. Ela andava com os cabelos pintados de verde. Eu conheci o Dr. Santana, foi o Dr. Santana Lopes que ma apresentou, e era uma grande figura. Eu não quero que o Sporting jogue bem, jogue mal, é-me indiferente. Eu quero que o Sporting ganhe.

Ok. É justo.

Seja com a mão, seja penaltis. Depois, enfim, comentários, se eu tiver que falar como pessoa surrealista, sou racional. Mas eu acima de tudo, gosto de ir ao futebol, mas vou menos vezes, porque as pessoas estamos sentados e estão todos a falar. Eu gosto de estar a ouvir o futebol. Quando fumava, fumava cigarro após cigarro. Agora fico sentado a ver. Vejo o futebol com uma tranquilidade. Eu nem me mexo. Para mim, um gol do Sporting, eu rio-me para dentro.

Não é expansivo a celebrar?

Não, sou expansivo em tudo, menos no futebol.

Isso é muito raro.

É.

No futebol, pelo aquilo que eu sei, eu não sei muito de futebol, mas as pessoas libertam-se muito.

Esta é uma das características de nós, nem nós nos conhecemos a nós próprios, perante só as circunstâncias é que nos ditam aquilo que somos.

Mas costuma ser ao contrário, Miguel, pessoas às vezes até um pouco mais comedidas, quando vão ao futebol, aquilo muda.

Não, eu trato a vitória e a alegria de uma forma muito especial. Já na política, ficava muito aborrecido e coisas, quando perdia uma eleição. Eu fiz várias eleições, fui secretário-geral do PSD de três líderes, portanto, estive muito ativo na vida política. Quando ganhava, era para mim um momento de dizer: "Bem, à 01:00 da manhã, agora onde é que eu vou jantar? Onde é que eu vou jantar? Onde é que eu vou beber um copo? Onde é que eu vou relaxar?" A alegria da vitória dava-me tranquilidade. A tristeza da derrota dava-me vontade de lutar, uma certa ansiedade e a busca: onde é que foram os erros? Sempre tive isso na vida. Não embandeiro em arco. Sabe que eu não sou uma pessoa de estados de alma. Sou feliz, sou infeliz, sou alegre, sou menos alegre. Veja que eu não digo que sou triste, sou alegre, sou menos alegre, mas não tenho estados de alma. Tenho medo e não tenho medo. Em determinados momentos da vida, já me aconteceu apanhar situações difíceis num avião, particularmente em África, que se anda em aviões mais pequenos. Agora, em momentos, se vou ao médico, antes de ouvir o veredicto do médico, é daqueles momentos: "O que é que vai sair daqui?" Mas não tenho estados de alma, o que tem que se ter muita força.

E está a educar os seus filhos no caminho verde ou está a deixá-los escolher à vontade?

Não, a minha filha mais velha, não consegui. Também não tive tanto tempo para isso. Até cheguei a pagar um lugar que eu tive no Estádio da Luz.

No Estádio da Luz?

No Estádio da Luz, ela é doente do Benfica.

Isso é muito fair play.

Pois, mas foi a minha expressão máxima democrática. O meu filho pequenino, cinco anos, por causa do padrinho e de amigos, agora anda a dizer, diz a toda a gente que só não é do Benfica porque o pai não deixa. E é verdade, eu agora não vou cometer o segundo erro. Ele anda na escola do Sporting, gosta muito de jogar futebol e no Belenses. Ele é muito ativo, mas já lhe disse: "Agora acabou estas facilidades de ser do Sporting, ponto final, parágrafo."

No futebol não há cardiologia.

Já houve um erro, não vai haver segundo. E eu agora tenho tentado. E o Sporting ajuda, e o Iokers ajuda imenso. Agora, como isto se vai ganhando, eu durante anos, na geração da minha filha, o Sporting não ganhava nada.

Pois é.

Veja, e eu sou do Sporting por causa de um jogador. Estava eu em África, em Angola, onde se lia a bola uma semana depois, quando chegava. A bola saía três vezes por semana à época, agora sai todos os dias. À época, isto nos anos 70, e eu sou do Sporting por causa de um jogador chamado Yásalt Um dia vou à Argentina, eu era Secretário de Estado em 2002 ou 2003, presidir ao 10 de Junho. E aparece uma senhora que era uma grande atriz e apresentadora de televisão e que me disse: "Eu sou a Carmi Zé, ex-mulher do Iazalde, em Portugal". Aí está uma pessoa que eu queria mesmo conhecer. Já ganhei a vida. Estavam banqueiros e eu passei o resto da tarde a conversar com a senhora sobre as coisas do Iazalde. E depois vim a saber coisas tristes de um grande homem. Foi o meu primeiro ídolo no futebol. Já ganhei o dia. Vim à Argentina para presidir ao 10 de Junho e conhecer a mulher do Iazalde, que tinha morrido há um ano.

Portanto, teve aí, inesperadamente, um momento perfeito.

Era uma coisa que vinha do ídolo de miúdo. Hoje os jovens não têm ídolos, porque hoje eles matam-se uns aos outros. A comunicação, a velocidade da comunicação. Sabe que hoje até os ídolos já não são mais analógicos, são digitais. Nós hoje vivemos uma vida. Quer dizer, um ídolo meu durava imenso tempo, quando eu era mais jovem.

E se calhar os ídolos agora chamam-se influencers, não sei.

E aparecem como desaparecem, com a mesma rapidez. Há músicos de que nós gostamos, já aqui demonstrei, por quem ganhamos algum afeto, mesmo sem conhecer. Eu tenho um exemplo. Eu com a minha mulher já fui quatro ou cinco vezes a Nova Iorque aos concertos do Andrea Bocelli. Aliás, quando casámos foi a música que dançámos, que foi o "Innamorato di te", do Andrea Bocelli. E parece que sou íntimo dele sem nunca ter falado com ele. São daqueles momentos que nós temos, olhamos para uma pessoa que nos projeta. Eu até acho que no caso dele, para mim conta muito, porque ele é cego e eu sou cego de uma vista, não vejo de uma vista.

Há aí uma certa afinidade.

Há. Quando vejo uma pessoa, um invisual na rua, tenho um cuidado, uma atenção, olho de uma forma diferente. Com respeito por todos, mas um invisual, permita-me, marca-me profundamente. Eu se calhar estive perto disso e dei a volta e não estou. Portanto, também há momentos menos alegres que nos marcam. E muito.

Estávamos a falar desse concerto marcante para si, de Andrea Bocelli.

Foram três ou quatro. No Madison Square, sempre entre 15 a 17 de dezembro de cada ano. Ele faz sempre lá um concerto.

Miguel, se calhar se o Andrea Bocelli se esquecesse da letra algures, o Miguel levantava-se: "Agora é assim que se faz".

Mas ali com muita gente, não é? Já assisti aqui a um dele no

No Altice Arena?

Sim, e não é igual. O Madison Square tem ali qualquer coisa à volta. Se nós olharmos aquilo, entre o jogo de basquete e os grandes concertos, o Madison Square é uma catedral.

Então sendo assim, acho que abrimos aqui a porta para o Miguel trazer mais uma das suas músicas.

É o "Innamorato di te", do Andrea Bocelli.

Quando me enamoro doy toda mi vida a quien se enamora de mí. Y no existe nadie que pueda alejarme de lo que yo siento por ti. Dicen que no sabré buscarte flores. Que no podré ofrecerte ningún regalo. Dicen que yo he sufrido de mal de amores. Y que mi corazón no se ha curado. La mia ragazza sa che non è vero. La mia ragazza sa che quando, quando mi innamoro io do tutto il bene a chi è innamorato di me. E non c'è nessuno che mi può cambiare, che mi può staccare da lei. Quando mi innamoro do toda mi vida a chi si innamora di me. E non esiste nadie que pueda alejarme de lo que io siento por ti. A chi mi dice vivi un altro giorno. Todo comprenderá que quando, quando mi innamoro do tutto il bene a chi è innamorato di me. E non c'è nessuno che mi può cambiare, che mi può staccare da lei

Começamos agora a nossa última volta pelo dia perfeito de Miguel Relvas. O Miguel já nos falou que viaja bastante, já passou por 63 países, não foi?

Quatro.

64 países. É uma pergunta super injusta, porque é profundamente redutora, mas ainda assim, Miguel, se lhe dessem a escolher, Tomar ou Rio de Janeiro, o que é que escolhia?

O Rio. Eu sou cidadão honorário do Rio. Houve um prefeito do Rio que me deu essa honra. O Rio, como dizia o Frank Zeffirelli, é a única cidade do mundo em que o lixo cheira bem, tem cor, tem alegria, há ali um ambiente telúrico. No Rio, eu sinto-me diferente. Há dois sítios onde eu me sinto diferente: em Fátima e no Rio. Sem querer comparar, para não ser ofensivo. Eu vou muito pouco ao Rio hoje. Não vou ao Rio há três anos. Passei agora no aeroporto do Rio, mas ia muitas vezes. Mas hoje não há atividade econômica no Rio e eu vou ao Brasil para trabalhar, não vou ao Brasil para lazer. Vou trabalhar e vou a São Paulo e Brasília, são as duas cidades onde vou mais. Ninguém devia morrer sem conhecer o Rio de Janeiro. Acho que é o esplendor. É belíssimo. Hoje muito violenta, é verdade, mas é uma cidade linda. Não há igual. E depois, há muitas cidades bonitas no mundo. Tomar é uma cidade linda, Guimarães, em Portugal. Lisboa é uma cidade fascinante. Eu não trocava Lisboa por nada deste mundo. Para mim, Lisboa é hoje a minha cidade. Se me dessem a escolher qual é a cidade que eu quero viver, era o Rio de Janeiro. Adoro o Rio, mas não é para viver. Gosto de lá ir. Em Lisboa eu gosto de morar. Eu gosto de viver. Tenho esta facilidade de viver virado pro mar, dentro de Lisboa, e isso ajuda. Saio e faço as minhas caminhadas em cima do mar, de Lisboa para Oeiras, ali no Passeio Marítimo. Mas adoro Xangai, todas as cidades.

Não consegue escolher uma, pois não?

Não.

É muito difícil. É como eu dizia, é redutor.

É como a gastronomia. Eu sei cozinhar, modéstia à parte, bem. Até devo dizer que se fizesse outras coisas na vida, como cozinho, tinha ido mais longe. Gosto muito de cozinhar. Como é que eu escolho os restaurantes?

Sim.

Eu fui secretário-geral do PSD, dei 20 voltas a Portugal. Fui secretário de Estado da Administração Local, dei para aí 30 voltas a Portugal, por todos os municípios. E, portanto, eu tenho uma lista de mais de 500 restaurantes. Eu vou para pratos.

Mas espera, vai tomando nota dos restaurantes que vai.

Os restaurantes, os números de telefone. Depois vão-se desatualizando, uns fecham, outros abrem. O grau de mortalidade dos restaurantes, particularmente nas zonas urbanas, é grande, na província é que eles vão ficando. Mas eu, por exemplo, quero comer favas à portuguesa, vou a um restaurante. Quero comer um bife. Quero comer um cozido. Eu vou aos restaurantes por prato. Eu tento não marcar os restaurantes com antecedência. Só um ou dois que eu sei que têm vários pratos. Acordo e digo: "Olha, hoje apetece-me comer um peixe cozido". Entre tascas. Eu estou muito preocupado, porque Lisboa, com esta coisa do turismo, os restaurantes asiáticos e as pizzarias estão a começar a matar os restaurantes da comida tradicional portuguesa. Nós qualquer dia vamos ter que ter um programa para desenvolver a comida tradicional portuguesa. Eu acho que isto merece um grito de revolta. A nossa cozinha mediterrânea é uma cozinha muito rica, uma cozinha saudável, uma cozinha variada e, portanto, eu não estou a gostar daquilo que estou a ver agora com a invasão do turismo americano, que é bom, por um lado. Começam-se a abrir pizzarias e restaurantes de massas por todo o lado. E nós estamos a deixar fechar até as tascas portuguesas onde se comiam peixinhos da horta, onde se comia bacalhau à Brás, onde se comia um peixe espada frito com arroz de tomate, hoje não se encontra, onde se comia sardinhas, há cada vez menos. E agora: "Ah, é para ir comer pizza, para ir comer sushi". A minha filha com 10 anos, para ela o almoço ou o jantar certo é ir comer a um restaurante japonês, é comer sushi. Eu não como comida crua, para começar. Sou de uma geração habituada a ver a comida a ser cozinhada e, portanto, o meu lado militante, eu consegui estar no Japão seis dias ou sete dias e não comi uma única vez sushi. Portanto, a comida é para ser cozinhada. Foi assim que eu fui educado, é assim a minha vertente cultural gastronômica.

É assim que alguém sabe bem.

É talvez o lado onde eu sou mais latino. E sinto-me bem entre Portugal, Espanha, Itália. E a Itália, os americanos é que transformaram a ideia de que a Itália é pizzas e massas, só. A Itália é uma comida do mais variado. Aliás, os melhores restaurantes italianos no mundo são em São Paulo, que é uma cidade muito italiana. Tem os melhores restaurantes italianos do mundo. Agora, gosto de comida chinesa. Olhe, adoro comida tailandesa, muito variada, muito temperada. Eu adoro tudo com muito picante. Gosto de alguma comida chinesa, particularmente há uma região da China onde a comida é toda ela muito picante. Eu adoro comida picante, que não é fácil eu fazer em minha casa, porque nem a minha mulher nem os meus filhos gostam de picante e o picante Posto quando eu estou a cozinhar é diferente.

É diferente. Vou no prato.

Sou um adepto e trago de Moçambique e de Angola, quando vou, venho carregado de picante para dar aos amigos. Adoro picante, adoro dar picante, caju. Os produtos naturais eu trago e ofereço a amigos meus cá.

Isso é um belo presente, Miguel.

É, adoro. Este meu amigo Rui Gonçalves, de Moçambique, faz-me sempre uma mala de vários picantes. É um picante muito pequenino.

Mas que vale imenso, não é?

Pica imenso, que eles em Moçambique chamam de sacaninha. É um picante que pica muito. Mas os picantes de Moçambique e de Angola são muito aromáticos. Ao contrário, por exemplo, no Brasil, no nordeste do Brasil, tem picante, mas não é tão aromático, não é tão aberto, onde nós estamos a sentir a boca arder, mas a sentir com prazer, com uma explosão de sabores, que é uma coisa completamente diferente.

Miguel, eu sei que costumas ir almoçar com um grupo de amigos teus ao fim de semana.

Sim.

Qual é o prato que escolhe nessas alturas? É um grupo de WhatsApp, Miguel.

Sim. Tenho hoje um jantar. São todos médicos. Eles são médicos, já sei quem é que lhe disse isso. Já passou por cá.

Já.

Eles convidaram-me, são médicos e eu que sou um pouco hipocondríaco, eu não falto nenhum jantar deles, que eu assim sempre sei que estou protegido dos problemas. Hoje, por exemplo, vamos comer uma sopa. Hoje temos um jantar desse e fui eu que fiz a marcação num restaurante tradicional em Algés, ao pé da minha casa. Vamos comer uma sopa de feijão encarnado com couve de entrada e depois a seguir uma posta à mirandesa com as batatinhas. Fui eu que fiz hoje.

Mas já definiu o menu e tudo?

Já vai de menu feito.

Não há cá democracia também.

Não, porque somos 10 pessoas, depois aquilo cada um a escolher. É por isso.

Demora depois mais tempo, já estou a perceber.

Mas eu gosto. Tirando o sushi, comida crua não contem comigo. Como de vez em quando um bife tártaro, sou capaz de comer. Agora, misturar o arroz à volta, isso não. Gosto de comida chinesa, gosto muito. E a comida tailandesa. Tenho pena de não haver um bom restaurante tailandês em Lisboa. Eu não conheço. Se calhar há, eu não conheço hoje. A nepalesa também é boa. Eu gosto de pensar, não sou, mas gosto de pensar que sou um cidadão do mundo.

Eu acho que, se calhar, tem aí bastantes pontos que o podem já definir de alguma forma como cidadão do mundo.

Conheço muitos aeroportos no mundo e sou um cliente de aeroportos e faço compras. Olho, vou vendo, gosto de ver o que não há em Portugal e há aqui. E compro temperos, compro coisas que depois utilizo a cozinhar ou a beber. Gosto de beber de vez em quando, de seis em seis meses ou de três em três meses, gosto de beber uma grappa italiana.

Miguel, estávamos aqui a falar de comida deliciosa e portanto, se calhar, vou aproveitar para nos despedirmos à boleia de uma música que o Miguel acha que se adequa a estes jantares como o que vai ter hoje, um jantar de amigos com comida fantástica, um momento de confraternização e de amizade.

Sim, uma música dos Beatles para terminar, o Yellow Submarine.

No episódio de hoje estamos a conhecer o dia perfeito de Miguel Relvas e neste ponto da nossa conversa, Miguel, ainda não sei exatamente como é mais correto referir-me a si. Será o político Miguel Relvas, o empresário, o consultor?

Diga Miguel Relvas.

Só Miguel Relvas?

Basta isso. Depois uns pensam bem, outros pensam mal, uns vão dizer bem, outros vão dizer mal. Quem diz bem merece por isso, quem diz mal também merece por isso. A mim não me afeta nada. Eu tenho um princípio na vida: eu só recuo para ganhar balanço. Portanto, ninguém me para, digam bem ou digam mal. Sem arrogância, estou consciente daquilo que devo fazer, do caminho que quero seguir. Eu sei para onde quero ir. Isso eu sei. Eu não precisei do GPS para saber para onde é que queria ir. Sempre soube na vida o que é que queria fazer. Vivi num colégio interno nove anos, onde se aprende muita coisa, um colégio duro, onde havia muitas regras. Onde estava separado dos meus pais, que estavam em África e eu estava cá. Eu costumo dizer que eu, em miúdo, chorei tudo o que tinha para chorar. Eu hoje não sei chorar, mas também não me sinto mal por isso. Não choro. Por isso tento sempre encontrar o lado positivo, tento sempre encontrar a alegria, tento sempre encontrar a cor, as oportunidades. Tudo isso faz parte. E gostei muito de aqui vir.

Miguel, e sem GPS, como dizias, chegamos assim ao fim do "Dia Perfeito" de Miguel Relvas. Um programa com a produção da Maria Ribeiro Nunes, sonoplastia do Bernardo Almeida, tema musical interpretado pela cantora Jéssica Pina.

E com as perguntas da Ana do Carmo. Perguntas difíceis, mas agradáveis. E este programa vai fazer o seu caminho. Dou-lhe os meus parabéns. É um programa diferente na rádio portuguesa, nunca tinha visto esta abordagem, este lado da abordagem. Acho que é positivo ter gente de todos os setores, de todas as atividades e todas as variantes. Só lhe posso dar os meus parabéns, mas acima de tudo desejar-lhe felicidades.

Obrigada, Miguel. Temos então encontro marcado para o próximo "Dia Perfeito", que é já para a semana. Até lá, subscreva o podcast e partilhe. Isso seria perfeito.