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Seja bem-vindo ao "Dia Perfeito", um podcast sobre uma combinação de sonhos e realidade. Já pensou o que não pode faltar no seu dia perfeito? Será receber um ramo de flores? Será saborear o seu prato preferido? Cada um desenha o seu dia perfeito à sua medida. Eu sou a Ana do Carmo e hoje a minha convidada perfeita é a escritora Margarida Rebelo Pinto, autora do livro "A Grande Ilusão".

Eu sou a Margarida Rebelo Pinto, sou escritora há 26 anos, a tempo inteiro. Sou cronista na imprensa há mais de 35 anos. Sou apaixonada pelos livros desde que comecei a ler, quando era criança. E o meu dia perfeito também passa por estar na rádio, porque é o meu meio de comunicação preferido.

Margarida, o que é que fazes no teu dia perfeito?

No meu dia perfeito, medito quando acordo. Se tiver tempo, é muito importante pra mim. Apanho sol, os primeiros raios de sol da manhã, que também está relacionado com a atividade da meditação. Tomo um pequeno-almoço com torradas e café com leite de aveia ou de amêndoa, muito quentinho. Faço desporto e escrevo umas duas, três horas. Quando escrevo, é um dia muito melhor do que quando não escrevo. Estou com uma ou duas, ou três pessoas importantes na minha vida. Abraço, converso, faço refeições com essas pessoas e deito-me muito cedo. Isso é um dia perfeito pra mim.

Já vamos nos miuçar um bocadinho mais, já vamos tentar perceber quais são as várias cambiantes destas perfeições todas que o teu dia tem. Mas vamos começar pela meditação, Margarida. Como é que a meditação surgiu na tua vida?

É verdade. A meditação surgiu na minha vida há 10 anos, quando fui pro Brasil e comecei a passar mais temporadas no Brasil. E fui partilhar o apartamento com uma brasileira que fazia meditação todos os dias, desde muito nova. Ela tinha 25 anos e fazia desde os 16 anos. E então eu comecei a fazer meditação com ela, uma meditação guiada por ela, e partilhei o apartamento com ela durante quase três meses e portanto todos os dias ela fazia a meditação guiada de manhã. E por isso habituei-me a meditar. Depois quando vim pra Portugal, continuei a meditar todos os dias, ou de manhã ou à noite.

Mas preferes de manhã?

Não, eu prefiro à noite. Para relaxar. Mas se puder fazer meditação de manhã, também faço, para focar. Sobretudo se for um dia com muitas coisas, em que eu sei que vou estar a correr de um lado pro outro, ou um dia importante, como por exemplo, a apresentação de um livro, faço uma meditação para me focar. E é mesmo importante, porque a meditação não tem efeitos secundários e faz bem a tudo: faz bem à pele, faz bem ao sono, faz bem ao sistema imunitário, ensina-te a ser mais tolerante com os outros e sobretudo, mais tolerante contigo mesma. E isso é uma das grandes magias da meditação, é não te julgares e olhares pra ti com mais carinho, com mais bonomia.

Estava a ouvir-te falar e estava a pensar: como é que uma mulher tão ativa e tão enérgica como tu, precisa de um momento de pausa pra meditar, pra voltar a pôr os pés na Terra. À partida, até pode parecer um contrassenso, não?

Porque a energia que tens ao longo do dia é uma energia limitada, e portanto, as pessoas têm que aprender, ou deviam aprender, a dosear a sua energia pra não chegarem ao fim do dia completamente exaustas.

Como acontece tantas vezes.

Como acontece. E hoje em dia, no dia a dia, eu sou de uma geração em que nós queremos fazer tudo e queremos fazer tudo bem, e temos um grande grau de exigência em relação a nós próprios. E depois somos muitas vezes o nosso maior carrasco por causa disso, não é? E este livro, "A Grande Ilusão", também fala dessas mulheres que querem ser supermulheres e depois se sentem sozinhas e cansadas nesta luta incessante de fazer tudo com o máximo de grau de perfeição possível. E por isso a meditação é uma coisa relativamente recente na minha vida, mas eu hoje em dia já não me imagino sem meditar. E também tem um aspeto muito interessante: é que não é como ires ao ginásio e estares lá uma hora a fazer uma aula localizada, ou de pilates, ou seja o que for. Passa a fazer parte da tua vida, portanto, é um bocadinho um modo de vida. Eu, se estiver numa situação estressante, consigo entrar num estado meditativo, que me permite estar calma durante essa situação. Depois, a seguir, posso ter uma descarga de adrenalina. Mas imagina, se tiver um acidente de carro, se tiver alguém que se magoou ao meu lado, ou se for preciso chamar uma ambulância, uma situação qualquer já de extremo estresse, médio ou alto estresse, eu consigo manter a calma por causa do treino que eu tenho com a meditação e entrar, sem deixar de estar em ação, num estado de calma profunda, que é um estado de pré-meditação, para resolver essa questão. E só depois do perigo ter passado, aí posso então explodir, como todas as pessoas explodem, e chorar ou ter qualquer reação física ou química de alguma descompensação. Mas a meditação também te traz muita calma interior e muita paz interior. E quanto mais fizeres, mais traz.

Mas tiveste que descobrir isso, ou melhor, tiveste que trabalhar isso, tiveste que aprender, porque nós não nascemos assim.

Não, tive sorte. Partilhei o apartamento com uma pessoa que fazia isso todos os dias e portanto, isso passou a fazer parte da minha rotina, como tomar o pequeno-almoço. Eu gosto imenso de tomar o pequeno-almoço. Um dia para mim tem que ter sempre o pequeno-almoço, é a minha refeição preferida. E antes ou depois do pequeno-almoço, nós meditávamos sempre. E depois até criei um hábito muito engraçado com ela. Hoje em dia é a minha melhor amiga no Brasil, que eu fazia panquecas para o pequeno-almoço e portanto, o pequeno-almoço era sempre panquecas e meditação.

Tu servias as panquecas, ela a meditação.

E ela a meditação. E depois fui-me habituando e fui experimentando diferentes tipos de meditação, meditação com frequências, meditação só com a respiração, meditação guiada por um guru de meditação. As pessoas olham para mim e nem imaginam.

Porque à partida-

Como dizia uma amiga da minha mãe, quando eu tinha 10 anos, dizia: "Esta criança parece uma garrafa de champanhe acabada de abrir". Porque eu sou expansiva, extrovertida e de facto tenho muita vida e muita energia dentro de mim. Mas a meditação é um nivelador espetacular para tudo. Para a forma como eu lido com as outras pessoas, como eu lido com os problemas, para a resistência à frustração, a resistência à solidão. A meditação é mesmo uma ferramenta espetacular de saúde e de bem-estar e eu não gosto de falar de felicidade, mas de facto as pessoas que meditam eu acho que são pessoas mais serenas com elas próprias e com os outros do que as pessoas que não fazem meditação. Mas claro, no início é difícil. Portanto, para as pessoas que nos estão a ouvir, se não conseguirem tentarem meditar, é facílimo. Vai ao YouTube e pode procurar meditações guiadas ou pode procurar frequências, ou pode procurar exercícios de respiração. Se as pessoas se sentirem aflitas ou atrapalhadas ou frustradas, porque não conseguem na primeira semana ou nas primeiras duas semanas, não há problema nenhum. Podem continuar a tentar, porque se conseguirem três minutos já é espetacular. Se conseguirem cinco, é ótimo, se conseguirem 10, é praticamente o nirvana. Dez minutos por dia já é espetacular para melhorar o nosso bem-estar.

Daquilo que eu posso perceber de pessoas com quem já tenho falado, é que é difícil meditar, porque a nossa cabeça não para, não te consegues abstrair de ti, do que tens para fazer e estás sempre a pensar em mil coisas e não te consegues abstrair.

Então a ideia, para te explicar, eu dou uma imagem que é a seguinte: imagina que os nossos pensamentos são como um macaco. E o macaco está sempre aos pulos. Os macacos estão sempre aos pulos e estão sempre aos guinchos. E nós temos muitos pensamentos, portanto, temos muitos macacos aos pulos e aos guinchos dentro da nossa cabeça. O que é que faz a meditação? A meditação sossega estes macacos todos. Nós dizemos assim aos macacos: "Agora fica quieto e calado". E os problemas estão lá, mas eles não nos consomem, porque o pensamento é um hóspede do espírito e não o seu dono. E portanto é bom tentarmos pôr o pensamento quieto no lugar e não pensar, só respirar, só sentir. E sentir conforto. Eu não sei se tu sabes, mas o conforto vem das sensações, não vem dos sentimentos, nem dos pensamentos. Estás com frio, pões um casaco muito quentinho ou bebes um chá quentinho. Estás com calor, vais lavar a cara ou pões gelo na cara, ou dás um mergulho no mar gelado. Isso são sensações. O conforto vem das sensações. Portanto, a experiência da meditação também é deixar-nos levar por uma sensação, que não é uma sensação de vazio, é uma sensação de: "Pronto, agora este tempo é só para mim e eu não quero que os meus problemas me incomodem". É a tal ideia do pensamento, que é um hóspede e não o dono do espírito.

Olha, Margarida, convido-te agora nesta fase da nossa conversa tão serena, a trazeres uma música que nos leve nesse ambiente de meditação e de serenidade.

Olha, vou trazer uma Valentine do Paul McCartney, que é uma balada muito bonita e que tem uma mensagem muito querida, porque diz que quando chove, se eu vir o meu amor, vai fazer sol. É maravilhosa. Eu adoro essa balada.

Estamos a descobrir o dia perfeito da Margarida Rebelo Pinto. Ela é escritora e também nos trouxe esta música do Paul McCartney, que se chama "My Valentine". Isto remete-nos para um ambiente de amor e de relações que tu trazes muito para as tuas escritas, não é, Margarida?

Só trago para os meus livros. Eu acho que o tema que atravessa toda a minha obra são as relações amorosas e as relações românticas. Depois há outros temas, os livros históricos, os romances que eu tenho sobre o Estado Novo, porque eu sou uma apaixonada pelo Estado Novo. Eu vivi 10 anos de Estado Novo. O que eu tenho são um bocadinho de memórias construídas e algumas sensações, mas é uma época que eu gosto muito de estudar. Mas são sempre histórias de amor. É sempre uma busca, as minhas personagens andam sempre em busca de outro amor, ou a esquecer um amor, ou a começar uma relação com as suas dificuldades normais de um outro amor. E, portanto, eu acho que o tema maior dos meus livros, e durante muito tempo foi das minhas crónicas, agora não. Como cronista, já estou um bocadinho diferente, já escrevo sobre a sociedade, empoderamento, às vezes sobre política, mas nos livros é sempre o amor.

O teu livro mais recente chama-se "A Grande Ilusão". Saiu em março. Neste livro, tu falas-nos naturalmente sobre amores, sobre relações. Achas que este, Margarida, é o livro perfeito?

Não, nunca há o livro perfeito. A graça deste livro é as personagens serem exatamente tão imperfeitas. Acho que tentei e acho que consegui, de uma maneira ao mesmo tempo crua, mas muito elegante, criar uma teia de personagens. Cada capítulo é narrado a uma voz. Quem leu o "Não Há Coincidências" lembra-se que eu fiz isto e na altura as pessoas gostaram muito. E eu também gosto muito de fazer este tipo de narrativa. E depois elas vão-se cruzando todas, mas todas elas têm problemas, todas elas têm traumas, têm problemas para resolver. Umas têm problemas familiares com os pais, outras com os filhos, outras com os irmãos, outras com o ex-marido, outras com uma relação que não correu bem. É uma teia de pessoas que talvez tenha procurado a felicidade, a dita imagem de felicidade, que é um engodo, em coisas ou em ideais que depois não se concretizaram assim. Eu acho que a solidão retratada neste livro é uma solidão que tem muito a ver com os tempos que nós vivemos, porque nós achamos que estamos sempre ligados através das redes sociais e sentimo-nos ligados, mas no fundo estamos cada vez mais sozinhos. E eu acredito que as redes sociais, que têm imensas vantagens, para mim têm imensas, porque falo com muito mais leitores do que falava antigamente, também nos afastam do contacto físico, de estarmos com as pessoas. Quem é que hoje em dia telefona a alguém? O telefone foi inventado para telefonar. Não foi inventado nem para ir à internet, nem para mandar mensagens, nem para mandar WhatsApps de voz. E eu acho que cabe a cada um de nós pensar como é que podemos combater esta solidão. Em vez de culparmos as redes sociais ou o mundo como ele está, por nos sentirmos solitários, nós próprios combatermos a solidão e fazermos o primeiro gesto de telefonar, de procurar, de dizer à outra pessoa: "Telefona-me", em vez de mandar mensagens. Nós temos que ter tempo para as outras pessoas. Se não tivermos tempo para as outras pessoas, as pessoas também não vão ter tempo para nós. Isto é uma troca, não é? E eu acho que toda a gente se queixa da solidão. E eu sei que a solidão, e aliás, eu também escrevi este livro por causa disso, porque via à minha volta, via as pessoas muito sozinhas. Sobretudo as pessoas da minha geração, entre os 45 e os 60, eu sentia as pessoas sós.

Mas a partir dessa idade não é suposto estar sozinho, não é suposto estar só, não é?

Tens filhos adolescentes ou foste mãe mais tarde e tens filhos pequenos, ou então foste mãe cedo e os filhos também já saíram de casa. Há muitas pessoas separadas. Depois há pessoas que estando num casamento também se sentem sós, porque a solidão não é estar sozinho, a solidão é sentir-se sozinho. Uma pessoa pode estar sozinha e não sentir solidão. Eu quando estou quatro ou cinco ou seis ou sete horas em casa, feliz e contente, no meu elemento, a escrever um livro, neste caso, "A Grande Ilusão", que eu ainda por cima parei e depois comecei outro livro pelo meio e depois voltei a este, eu não sinto solidão. Eu sinto solidão é quando chego ao fim do dia e há um vazio, porque não tenho ninguém com quem falar. Agora, a questão da solidão, as soluções para a solidão, também partem muito de nós, do que tu estás disposta a fazer. Porque se tu não tiveres tempo para as outras pessoas, as outras pessoas também não têm tempo para ti. Isto é dar e receber. Eu, hoje em dia, sei que não se pode telefonar às pessoas sem avisar. Antigamente, não se podia bater à porta das pessoas sem avisar. Telefonava-se. Era falta de educação, a não ser quando tínhamos 14, 15, 16, 17 anos e vivíamos no mesmo bairro e íamos visitar-nos a casa uns dos outros. Mas eu aprendi que não se pode ir à casa das pessoas sem avisar. Neste momento, vivemos num mundo em que não se pode telefonar às pessoas sem avisar. Eu acho que isto é um absurdo. E são hábitos que se criam. Esses hábitos são Nocivos para as relações humanas. Muitas vezes para as relações profissionais, para as relações afetivas. E eu acho que está dentro de cada um de nós a capacidade de contrariar essa tendência para o isolamento, que nós nos queixamos, mas nós também cultivamos.

Estamos a visitar o dia perfeito da escritora Margarida Rebelo Pinto, fazendo assim um resumo: já meditamos, já comemos panquecas ao pequeno-almoço, já escrevemos durante duas ou três horitas. Já a seguir, Margarida, vamos então saber que pessoas são essas, que quando estão contigo fazem de um dia normal, um dia perfeito. Para já, temos que fazer um pequeno intervalo. Bem-vindo de volta ao "Dia Perfeito". Hoje estamos a navegar pelo dia perfeito da escritora Margarida Rebelo Pinto. Margarida, no início da nossa conversa, disseste que o teu dia perfeito inclui dois momentos: um em que estás sozinha para escrever e outro momento que é feito de tempo com outras pessoas, com as tuas pessoas queridas.

Claro, sempre.

Que pessoas são essas, Margarida? Que pessoas são essas que tu visitas ou conversas com elas, ou vais almoçar com elas no teu dia perfeito.

Essas pessoas incluem o meu filho Lourenço, a qualquer hora do dia. A partir da hora do almoço. Portanto, almoço muitas vezes com ele. Temos um restaurante de bairro que gostamos muito e que é a nossa cantina e almoçamos lá. O meu filho Lourenço, a minha mãe, qualquer uma das minhas sobrinhas, são cinco, por isso é fácil. O meu irmão, a minha irmã, os meus cunhados, a minha mãe, dois ou três primos, uns primos direitos e outros não, mas que também são próximos. Um núcleo duro de meia dúzia de amigas. Algumas moram perto, também dá para combinar um café ou um lanche e às tantas acaba por ser uma rede espetacular de afetos que eu fui criando ao longo da vida e que eu vou sempre mantendo e que eu não deixo cair. Às vezes posso não ver ninguém o dia todo, mas telefono para uma ou duas minhas amigas que tenho no Rio de Janeiro e faço um FaceTime com elas e estamos ali um bocadinho a conversar e eu estou a jantar e elas fazem-me companhia enquanto estou no FaceTime. Eu não consigo imaginar viver num mundo onde não possa exercer todos os dias as minhas relações afetivas e falar com as pessoas de quem gosto. Isso para mim não existe.

Ia-te perguntar isso mesmo. És uma mulher de afetos.

Completamente.

Um dia perfeito para ti é um dia em que existem afetos.

Sempre. E preciso de ver fisicamente as pessoas. Não é só falar com elas, é diferente ver e estar com elas, estar sentada a conversar ou a partilhar uma refeição, ou a beber um chá, ou às vezes coisas tão prosaicas como ir aos saltos com uma amiga, mas aproveitar aquele momento. Porque uma das coisas que a meditação te ensina é aproveitar o momento, aquela ideia "seize the day". Aproveita o momento, aproveita o dia. E é aproveitar esses momentos que tenho com essas pessoas, porque eu estou há 25 anos fechada em casa a escrever livros. As pessoas têm uma ideia muito romântica do escritor. Acham que o escritor vai para uma esplanada e escreve umas linhas. Não, não é nada assim. Todos os escritores começam a escrever a uma hora, tentam escrever X horas por dia, tentam escrever ou duas, ou três, ou cinco páginas. Bem, cinco páginas é um dia abençoado, mas pronto, duas ou três páginas. E portanto, nós encaramos isto como um trabalho, eu e todos os escritores profissionais. Só que esse trabalho requer isolamento.

Margarida, já vamos ao trabalho do escritor. Deixa-me só voltar um bocadinho atrás, na altura em que falávamos sobre afetos e sobre a tua rede de afetos, sobre as tuas pessoas queridas, e vou te pedir para trazeres agora uma música perfeita que ilustre esse sentimento que te une a estas pessoas.

Então, eu acho que é o Toy Story, You've Got a Friend in Me, porque é de facto de uma alegria e de uma boa disposição absolutamente incríveis, e é uma música que eu oiço imensas vezes.

Margarida, estávamos a falar sobre as tuas rotinas, tuas em particular, de um escritor em geral, as rotinas de escrita. Num dia perfeito, já percebi, num dia abençoado, escreves cinco páginas.

Sim, três a cinco páginas. Cinco páginas já é muito.

Mas isto não deixa de ter graça, porque nós lemos três páginas, cinco páginas, num virote, num instantinho.

Claro, mas o trabalho de escritor é um trabalho de formiguinha. Isto é grão a grão, é preciso muita persistência, é preciso acreditar no livro que se está a fazer, é preciso dar um bocado de corda às personagens, deixá-las crescer um bocado, que é para ver se elas começam a ter ideias e a fazer crescer o livro. Eu demoro muito mais tempo a estruturar um livro, a pensar sobre o que é que quero fazer o livro, qual é o tema deste livro, o que é importante eu refletir neste livro, quais são as questões mais importantes. Essas são questões que me tocam sempre e questões que eu também vejo ao meu redor, que tocam as pessoas e que são estruturantes e, às vezes, fraturantes para a vida delas. E, portanto, eu demoro muito mais tempo a criar a gênese do livro, que é sempre com caderninhos. Cada livro tem o seu caderninho. Eu escrevo o título, os títulos possíveis, as epígrafes, os nomes dos personagens, qual é o passado, presente e o futuro delas, como é que elas vão se relacionar, o que é que acontece, como é que elas interagem. Demoro muito mais tempo a encher as folhas do meu caderninho, que anda sempre comigo e que tenho esse grumo com ele. E depois, quando o caderninho já está quase cheio, penso: "Pronto, então já tenho aqui a gênese do livro". É como se fosse o embrião. E depois começo a escrever. E às vezes tenho a sensação que estou a escrever muito devagar e quando dou por isso, já vou a mais da metade do livro.

Deixa-me só perguntar-te: tens esses caderninhos religiosamente guardados?

Estão todos em cima da minha secretária de trabalho. Eu tenho uma secretária gigante e eles estão lá todos amontoados. Estão lá os caderninhos todos.

Isso é uma preciosidade. Guarda isso muito bem guardadinho.

Eu acho que as pessoas hoje em dia, no mundo virtual, ligam cada vez menos a esse tipo de objetos. Depois, claro que tenho caderninhos de ideias de livros que eu não desenvolvi. Este é o meu vigésimo romance, "A Grande Ilusão". E já tive ideias para outros romances que não desenvolvi. Já tive ideias para históricos que ainda não peguei. Tenho um sobre o Salazar, que eu já comecei a escrever três vezes, mas ele é uma pessoa tão difícil e com características tão odiosas e tão complicadas que ainda não consegui escrever sobre ele, porque eu também não consigo escrever sobre pessoas de que não gosto.

Pois, ia-te perguntar se quando estás nas tuas tentativas de escrita sobre Salazar, acabas por te consumir, porque lá estás a escrever sobre uma personagem que não gostas.

Sim, e não é uma personagem inventada. Eu tenho vindo a estudar o Salazar e lido muito sobre ele. Não tenho propriamente uma opinião sobre ele, porque eu sou uma fundamentalista contra a misoginia. Eu sou um pouco radical, e sou radical em muito poucas coisas, mas todos os comportamentos ou atitudes que façam da mulher um objeto ou que a menosprezem ou que sejam paternais em relação à mulher, são coisas que mexem mesmo com o meu âmago. E ele tinha muitos traços misóginos. Não estou só a dizer machista, estou mesmo a dizer misógino. E, portanto, como essa é uma das minhas questões permanentes, ainda mais agora que eu acho que as mulheres estão a sofrer cada vez mais e que o mundo está cada vez mais perigoso para as mulheres e sobretudo está muito perigoso para as adolescentes. Esse senhor agora está de lado. Voltando aos caderninhos, os caderninhos estão lá e são uma espécie de reserva federal que eu tenho. E então eu vou lá e descubro frases e às vezes até vou buscar coisas e ideias de livros ou de personagens que eu tinha deixado cair e que já não me lembrava. Portanto, sim, os meus caderninhos são um patrimônio muito importante que eu tenho.

Acho que deve ser uma delícia. Estou-te a falar do ponto de vista, neste caso, do leitor. Eu adorava ver esses teus caderninhos.

Eu outro dia vi uma imagem maravilhosa do Dostoiévski. Já não sei qual era o livro. Era um caderno grande, uma página dupla, não caderno grande, não sei se era um A5 ou um A4, e ele tinha tudo escrito com muitas setas e muitas caixas, e depois também tinha desenhos a separar as diferentes frases que ele tinha escrito. E eu pensei: pronto, os escritores têm todos esta cabeça. Tem que escrever tudo e escrever à mão, tirar as notas todas à mão, as epígrafes, os nomes das personagens, e depois fazemos ali o esquema de ligação entre elas e o que é que vai acontecer. É muito divertido, mas isto é em caderninhos pequeninos, isto é em moleskine, portanto, tens que escrever com a letra pequenina e depois as setas e depois sublinhas e depois trocas o nome à personagem, tens que riscar e pôr outro nome. Os caderninhos são mesmo o forno dos livros.

Olha, já que estamos a falar neste teu livro mais recente, "A Grande Ilusão". Qual foi o dia perfeito, Margarida? Foi o dia em que entregaste o manuscrito à editora ou foi o dia em que finalmente o teu livro saiu para a rua?

Não, o dia perfeito foi o dia em que eu percebi onde é que o livro ia acabar e por quê. Foi o dia em que eu consegui acabar o livro. E por isso é que eu ponho a data do dia em que eu acabo de escrever o livro. Porque eu chego ao fim. Porque isto é uma luta silenciosa, isto é uma guerra. Até dois terços do livro sou eu contra o livro, eu tenho que lhe ganhar. E depois há um dia em que eu lhe consigo ganhar e que eu percebo que o arco das personagens chegou onde eu queria e, portanto, de alguma forma, as personagens encontraram o seu caminho ou já sabem o que vão fazer, ou já saíram de onde estavam, conseguiram avançar. E quando eu escrevo a palavra fim, eu ponho a data e o meu novo editor, que é o Ricardo Antunes, dizia assim: "Então, mas tu tens aqui a data? Puseste a data? É muito importante a data". A data é mesmo importante. Eu nunca sei quando é que começa um livro, mas eu sei sempre quando acaba um livro. E eu acho que este foi 16 de dezembro, não foi?

16 de dezembro de 2024.

Eu disse ao meu editor, esta é uma editora nova onde eu estou agora, que é a Alma de Livros, eu disse-lhe: "Entrego-te o livro na segunda semana de dezembro". E não entreguei no dia 15 de dezembro porque era um domingo, portanto eu entreguei no dia 16. Porque eu venho da publicidade e, portanto, eu estou habituada a trabalhar com prazos e os prazos às vezes até são mais importantes pra mim do que pras pessoas com quem eu trabalho. Que é pra mesmo acabar. Eu acabo tudo que começo na minha vida. Eu não consigo não acabar as coisas. As coisas pra mim têm que ter um princípio, um meio e um fim. E portanto, o dia feliz é o dia em que eu acabo o livro.

Então Margarida, que música é que tu ouviste no dia 16 de dezembro, quando terminaste este livro? Qual foi a música perfeita que tu percebeste que fazia todo sentido naquele dia, àquela hora?

Ouvi uma música do Jamie Cullum, que é uma música que eu adoro, que é What a Difference a Day Made. É um clássico americano. É um standard, mas cantado por ele é muito engraçado. E é uma das músicas da minha vida, porque há mesmo dias que mudam a nossa vida. E são dias mesmo marcantes. E terminar mais um romance é mesmo um dia marcante pra mim.

E então pra quem ligou agora o rádio, pra quem se juntou agora na versão podcast, se for esse o caso, só apresentar. Estou a falar com a Margarida Rebelo Pinto, minha convidada do programa "O Dia Perfeito". Estamos a conhecer o dia perfeito da Margarida Rebelo Pinto. Margarida, no teu dia perfeito, escreves ou falas com pessoas?

Eu tento escrever todos os dias, de segunda a sexta-feira. À terça-feira escrevo a minha crônica pra imprensa, do jornal Notícias, que está no suplemento Notícias Magazine, que se chama "A Vida Como Ela É". Portanto, a terça-feira de manhã é para a crônica. Segunda, quarta, quinta e sexta de manhã é para escrever o livro ou para desenvolver outros projetos que eu tenha. Agora, se me perguntar entre escolher entre estar com as pessoas que eu gosto ou escrever, eu não consigo escolher.

Todos têm a perfeição da sua maneira.

Exatamente, porque se só escrever, mesmo que tenha escrito quatro ou cinco páginas, que eu acho que é um recorde pra um escritor, sobretudo com esta bagagem toda que eu já tenho, porque este é o meu vigésimo romance, fico muito contente, mas faltam as pessoas. Se estiver com as pessoas, falta-me ter escrito. Porque eu também sou daquela geração em que o dever é muito importante. Nós temos que sentir que fizemos alguma coisa importante nesse dia e que o dia foi produtivo. E se não nos sentimos produtivos, sentimo-nos incompetentes e sentimos que somos uns falhados. E a vida não é nada assim. E os millennials, o meu filho é um millennial, ensina-me e diz: "Ó mãe, de vez em quando pode parar, pode fazer um sábado ou um domingo num dia de semana". Mas preciso mesmo das duas coisas. E preciso de outra coisa.

Espera, Margarida. Não te esqueças do que vais dizer. Desculpa estar a interromper, mas agora temos mesmo que fazer uma pausa neste Dia Perfeito. Voltamos já a seguir ao Dia Perfeito da Margarida Rebelo Pinto para descobrir que coisa é esta que ela se lembrou agora mesmo. Seja bem-vindo. Está a entrar no Dia Perfeito da escritora Margarida Rebelo Pinto. Margarida, há pouco dizias que não consegues escolher se preferes escrever ou estar com as pessoas de que gostas, mas entretanto disseste que há uma coisa que não pode faltar no teu dia perfeito. O que é?

Chocolate. Eu adoro chocolate. Chocolate de leite, chocolate com amêndoas, chocolate com passas, chocolate com flor de sal, chocolate amargo. Adoro chocolate e ele faz parte da minha vida e, portanto, um dia perfeito tem que ter três páginas, vários abraços, vários beijinhos e duas tiras de chocolate.

Se eu soubesse disso, tinha trazido um chocolate, Margarida. Pena que eu não consegui descobrir disso.

Não faz mal.

Estávamos a falar sobre a tua nova editora, que é a Alma dos Livros. Este é o teu primeiro livro para a Alma dos Livros. Estás a começar uma nova fase na tua vida ou é apenas o percurso normal, natural e expectável que devias estar?

Estou mesmo a começar uma nova fase na minha vida, porque a Alma dos Livros é uma editora relativamente recente, mas que funciona muito bem no mercado online. É muito forte na venda online, a própria editora. É uma editora que tem uma relação muito próxima com os seus leitores. Eu, não sendo marketing, que eu sou de Letras, mas gosto muito de marketing e publicidade. A Alma dos Livros é um case study, porque é uma editora que a própria editora tem uma relação afetiva com os seus leitores, independentemente dos títulos que publica. Isto é um salto à frente, é muito interessante. E é uma editora que é forte nas redes sociais, e é uma equipa em que as pessoas são todas mais novas do que eu, 10, 15 ou 20 anos. Quem fez a capa é o Bernardo, que tinha acabado de entrar. Tinha entrado há 15 dias para a editora e, portanto, foi uma aventura para ele, foi um desafio enorme para ele. E fez esta capa, que é um momento feliz desta mulher que está a olhar para Lisboa e está a olhar para o futuro. Quem ainda não viu a capa, eu recomendo vivamente que vá à internet e procure a capa da "Grande Ilusão", porque eu acho que é talvez a capa mais bonita que eu já fiz. E, portanto, nesse sentido, onde há uma maior proximidade e um trabalho mais próximo das redes sociais, eu acho que é uma nova fase. Em relação à escrita, eu acho que também é uma nova fase, porque eu estive três anos sem escrever e esses três anos fizeram-me olhar para a vida de uma maneira diferente, mais madura, olhar para o amor de uma forma talvez menos romântica, mais realista, sem nunca perder o encanto, porque não se pode perder o encanto. E também esta paragem de três anos depois de ter escrito um romance histórico, sabes que eu gosto muito de históricos também. E esta reflexão profunda que eu fiz sobre como é que se sentem e onde é que estão as pessoas da minha geração, da geração X. De fato, eu precisei de tempo para parar e para perceber o que se estava a passar, porque em águas agitadas ninguém vê o fundo. As águas têm que estar quietas e paradas para nós conseguirmos ver o fundo. Por isso, eu acho que, em continuidade com o que eu fiz até agora, há uma grande continuidade. Eu não mudei o meu estilo, continua a ser aquele estilo, como dizia outro dia um leitor: "Os seus livros são profundamente cinematográficos. É como ver um filme". Continuando com essa linguagem que as pessoas já conhecem, mas sim, eu acho que estamos aqui numa nova fase. E acredito, desejo e sonho escrever até o último dia da minha vida. Vou escrever sempre.

Estávamos a falar desse ouvinte que disse que os teus livros parecem filmes. Já houve um livro teu que deu um filme, estamos a falar do "Sei Lá".

Exato.

Quando é que nos dás o dia perfeito de teres outro livro, mas em filme?

Eu teria que encontrar um produtor, porque eu não faço milagres. Eu só escrevo livros. Eu posso, eventualmente, colaborar em séries. Há pouco tempo colaborei em uma série que vai estrear a seguir ao verão, mas não estou autorizada a revelar. Nem pormenores, nem nada. Não posso dizer nada sobre a série. Mas se um dia encontrar um produtor que pegue na "Grande Ilusão" ou que pegue no livro da Inês Castro, que já foi escrito todo e pensado como a estrutura de contenção de tempo e de espaço para ser uma série ou para ser uma longa-metragem, ou no livro sobre o Viriato e aquela lenda maravilhosa do Viriato, que tinha um soldado misterioso e muito bonito, que afinal era uma mulher, que também está escrito e pensado, por exemplo, para um filme de animação, que eu acho que dava um filme de animação maravilhoso. Se eu encontrar os parceiros certos para fazer isso, eu vou fazer com muito gosto. Portanto, essa é uma decisão que não depende de mim.

Ok, a bola não está do teu lado.

A bola não está do meu lado. Mas eu pareço aquelas máquinas do tênis que estão sempre a mandar bolas. Há uma máquina quando tens aulas de tênis, está sempre a mandar bolas. E eu sou um bocado essa máquina. Eu estou sempre a mandar bolas. E quando era miúda, eu jogava tênis, eu e os meus irmãos, e íamos até ao Estádio Nacional, e quando não tinha aulas e estava à espera das aulas dos meus irmãos, eu jogava a parede. Portanto, eu estou muito habituada a mandar bolas e estou muito habituada a mandar a bola à parede, e a bola vai e volta. Mas isso é uma atividade secundária, porque o que eu preciso mesmo é de ter Ter a cabeça livre para escrever os meus romances e depois para viver e para ser feliz. As pessoas precisam de tempo para terem bem-estar e para serem felizes. Não pode ser só trabalhar. Também é a parte do autocuidado, do ginásio, de dormir bem, de comer bem, de ir ao mercado comprar os alimentos frescos e certos para ter uma alimentação saudável. Eu priorizo sempre o que é importante, o que eu quero fazer até ao fim daquele ano, onde eu quero estar daqui a cinco anos, onde eu quero estar daqui a 10 anos e portanto sou muito focada nos meus objetivos. Agora, se aparecer um projeto desses, é claro que eu vou gostar imenso, porque se há coisa que os meus livros são, são mesmo cinematográficos. É o que as pessoas me dizem há muitos anos, que começam a ler e já estão dentro da história e já sentem o que aquela personagem sente e já choram com a personagem. Agora, para a Feira do Livro, vou lançar o meu livro mais romântico de todos, que é o "Diário da Tua Ausência", que é um livro adorável. E quando saiu o "Diário da Tua Ausência", eu tive leitoras que me disseram: "Uma leitora disse, mas não conseguia ler o seu livro em público, porque eu sentia-me nua ao ler o seu livro, porque refletia exatamente aquilo que eu sentia. Então havia um pudor e eu não o lia numa esplanada, tinha que o ler em casa. E chorei, sofri, esperei, sonhei com aquela mulher. E eu era aquela mulher". Esse lado cinematográfico dos livros, de levar o leitor pela mão, pela história e ele ficar envolvido, isso pode ser aproveitado para o audiovisual.

Como é que tu consegues perceber a história de vida das pessoas, de modo a que elas se sintam assim como essa leitora? Ou seja, essa leitora ao ler as tuas personagens, a tua história, ela identificou-se do início ao fim.

Sou muito sincera ao escrever. Sou sincera ao escrever. Escrevo o que sinto, escrevo o que vejo, não tenho filtros, não tenho medo. Eu não tenho medo de palavras, não tenho medo de ideias, não tenho medo de sentimentos, eu não tenho medo de nada. E quando estou a escrever, não tenho medo de nada, não me sinto constrangida com nada. E observo muito as outras pessoas e penso que uma qualidade fundamental para um escritor, se bem alguns não o tenham, infelizmente.

É ser bom observador?

Não é só seres observador, é a empatia, é perceber o que a outra pessoa está a sentir e como aquilo é importante para ela, e como aquilo que a outra pessoa está a sentir, que impacto tem na vida dela. É perceber o que desencadeia na pessoa. Não é só perceber o que aquela está a sentir, é ir mais fundo e perceber que efeito é que isso tem nela.

Nunca pensaste quando estás a escrever: "Calma, já estás a ir longe demais, isto aqui já é demasiado". Nunca te pões um travão?

Não. Não ponho travões, porque depois posso limpar, porque depois há o outro trabalho do escritor, que é maravilhoso, que é a edição. E eu limpo muita coisa. E o meu editor, que editou comigo 18 ou 19 romances, que é o António Lobato Faria, era um grande editor nesse sentido. Ele limpava muito os meus manuscritos, ele dizia: "Esta personagem não faz sentido, esta personagem não pode dizer isto, este capítulo está a mais, estás-te a repetir aqui e ali". E depois de tantos anos com ele a fazer-me isso, este livro, que já não foi feito com aquele espírito que ele tinha de drone sobre os meus manuscritos. É engraçado, porque estava sempre a pensar: "Será que o António ia gostar desta frase?"

Porque trabalhaste imenso tempo com ele.

Foram 25 anos. Foi um casamento, ficou uma amizade extraordinária, sempre foi uma amizade absolutamente extraordinária. Eu arrisco-me a dizer que o António, depois do meu pai e do meu irmão Gonçalo, é o homem mais importante da minha vida. Estará cá sempre para mim, eu estarei aqui sempre para ele. Aliás, ele esteve na primeira fila da apresentação da "Grande Ilusão" e eu antes de falar do meu novo editor, expliquei às pessoas quem era o António, o que ele tinha feito por mim. E fizemos um pelo outro, porque crescemos juntos, eu como autora e ele como editor. É uma amizade que vai ficar, obviamente, até o fim da vida. E lá está, é outra vez a qualidade das relações afetivas no trabalho, porque se tu trabalhares com pessoas com quem te dás muito bem, que respeitas profundamente, com quem tens uma relação séria, em quem confias e que acreditam em ti e tu acreditas nessa pessoa, há um conforto enorme, há uma confiança enorme e portanto, isso também faz-me não ter medo do meu trabalho. Mas eu não tenho medo. Eu não tenho medo das palavras. Eu acho que tive medo poucas vezes na vida, mas isso é o meu feitio. É assim, não há nenhum mérito nisso. Eu, de facto, nunca fui uma pessoa medrosa.

Dado este ambiente da nossa conversa, que música é que tu trazes para alguém que olhe para ti e por seres tão destemida, pensa: "Eu gostava de ser um bocadinho assim daquilo que a Margarida é". Há alguma música que possa inspirar quem nos ouve a sentir-se assim, a ter um bocadinho de rasgo desse arrojo?

Olha, há uma música que eu gosto imenso. Vou voltar outra vez ao universo Disney e Pixar. Não consigo não voltar. Uma música da Christina Aguilera, do filme Mulan, que é a Reflection. Ela é uma miúda guerreira. Eu não sei se ela vai resgatar o pai, salvar o pai. E ela diz: "Quem é aquela miúda que eu vejo no espelho, que é um reflexo meu? Será que eu sou mesmo aquela pessoa?" Por que esta música é interessante? Porque quando nós nos vemos ao espelho Não vemos o que as outras pessoas veem. Vemos aquilo que nós vemos de nós e as outras pessoas veem-nos diferentes, veem-nos muitas vezes mais fortes. Não sei se sabes, mas saiu um estudo há uns tempos, que diz que as pessoas que olham para nós acham-nos 30% mais atraentes do que aquilo que nós achamos que somos. E o espelho, e este livro também é um jogo de espelhos, porque as personagens vão relatando a sua vida e vão explicando como é que é a sua relação com as outras personagens, e portanto, elas estão todas em espelho umas com as outras, além de estarem em espelho com elas próprias. O Miguel Morgado, comentador e professor universitário, quando apresentou o livro, falou desta questão do espelho, do livro ser todo construído em espelho. Quando olhamos para o espelho, não há nada de objetivo, é tudo subjetivo, como dizia o meu querido António Assada Batista: "Se eu fosse objeto, era objetivo. Como sou sujeito, sou subjetivo". É uma frase dele que eu adoro. E portanto, mesmo quando as pessoas se sentem desinteressantes ou não se sentem bonitas ou se sentem fragilizadas com a vida ou se sentem sem brilho, e se veem ao espelho assim, às vezes quem está ao nosso lado vê uma pessoa forte, vê uma pessoa corajosa, vê uma pessoa com qualidades e vê coisas em nós que nós não vemos. Uma coisa eu aprendi com os livros, sobretudo com os livros: nós somos muito mais importantes na vida das pessoas do que pensamos e marcamos as pessoas de forma positiva, muitas vezes com frases que lhes dizemos ou com gestos que tivemos e nem temos essa noção. E depois, mais tarde, as pessoas dizem-nos isso. E isso é muito gratificante, quer como escritora, quando chega a muitas pessoas e ao coração de muitas pessoas sem as conhecer, quer como ser humano, quando posso ter esse efeito nas pessoas que me são mais próximas. Estamos a conhecer o dia perfeito da Margarida Rebelo Pinto, escritora, cronista, apaixonada pelo filho, por um sítio onde almoçam no teu bairro, tu e o teu filho.

Esse sítio é o sítio perfeito, Margarida, para se estar?

O sítio perfeito é onde eu estiver com as pessoas de quem eu gosto. Pode ser em qualquer lado. Pode ser num banco de jardim, eu gosto imenso de jardins, pode ser a passear à beira-mar, pode ser no Pardão de Oeiras, pode ser num museu, eu gosto imenso de museus. Pode ser no lobby de um hotel bonito. Pode ser numa biblioteca. Onde estiver o meu coração já é um sítio perfeito.

Temos falado na nossa conversa sobre as redes sociais, que poderão ser, à sua forma, perfeitas. Tens um bom contacto com os teus leitores. As redes sociais acabam por ser uma porta por onde eles entram na tua vida?

As redes sociais são espetaculares para mim. São absolutamente espetaculares, porque eu converso com uma rapidez extraordinária, logo imediatamente com os meus leitores e com as minhas leitoras e partilho informações. As pessoas contam-me histórias, contam-me episódios da vida delas, dizem-me o que é que sentiram com os livros. Já estava a acontecer no Facebook, continua a acontecer no Facebook e continua agora no Instagram e é espetacular para mim. E já me aconteceu conhecer uma fã, que é a Diana Neves, da Guarda, que tem as minhas frases todas guardadas, as mais importantes guardadas num dossiê escrito à mão por livros e convidei-a para apresentar um dos meus romances no Porto. Uma miúda com 20 e poucos anos, que fez uma apresentação absolutamente brilhante e foi ela, não foi um jornalista nem outro escritor. Foi uma fã que foi apresentar o meu livro e eu não a conhecia, só a conheci nesse dia. E foi uma emoção, e portanto, isto só é possível com as redes sociais.

Ou seja, respondes aos teus leitores, aos teus fãs?

Respondo. Respondo todos os dias no Instagram aos meus leitores e respondo aos comentários que eles põem. Mas eu não respondo só aos meus leitores. Eu conto-me uma história. Eu conheço um rapaz que é canalizador. Eu não vou dizer o nome dele. Vou dizer um nome fictício, que é o Nuno. É um nome fictício. Não é canalizador, é serralheiro. E ele arranjou-me algumas coisas em minha casa e um dia mandou-me uma mensagem a dizer que estava muito triste, porque tinha tido um grande desgosto de amor e queria superar esse desgosto de amor. Era um dia assim meio da noite, eu estava em casa sozinha e eu pensei: "Vou dar aqui um miminho ao Nuno, why not?" E então escrevi-lhe várias mensagens a dizer: "Faça assim, tente fazer uma coisa que goste todos os dias, mude as suas rotinas, mude os seus hábitos, não se zangue consigo próprio a pensar que falhou. Pense que isso também tem a ver com uma opção da outra pessoa. Temos que deixar as pessoas ir. Ninguém é dono de ninguém. Tente não se zangar com a pessoa, não se zangue consigo". Dei-lhe assim uma série de conselhos. Não me custou absolutamente nada.

E fez a diferença na vida do Nuno.

Provavelmente, fez a diferença na vida do Nuno. Nome fictício. E foi um momento. E depois só voltei a falar com ele quando precisei outra vez de o contratar para me arranjar uma coisa em casa. Mas foi uma coisa que ficou. Eu sei que foi importante para ele, ele ficou contente e eu fiquei contente por poder responder.

Mas ele depois respondeu-te, certo?

Claro. E ele respondeu-me e disse: "Muito obrigada, doutora Margarida". Sempre com muita educação. Ou seja, é uma pessoa que veio prestar um serviço à minha casa, mas que acha que eu o posso ajudar. Isto é muito engraçado. Eu não sei se ele era meu leitor ou não. Eu tenho leitores de todas as idades e tenho homens e mulheres, e neste momento tenho uma nova geração de leitoras que eu estou a adorar conhecer, que são as filhas das minhas leitoras. Já estou noutra geração. E depois as mães dessas leitoras da minha idade também já me liam. Portanto, isto é um bocado como o Tintim, é quase dos sete aos 77, todo o tipo de pessoas. Mas foi um momento engraçado, porque eu nunca quis apagar essas mensagens que lhe mandei e eu acho que ele também nunca apagou. Mas é engraçado, porque as pessoas partilham as suas vidas, gostam de me contar histórias e acontece muitas vezes. Tenho inúmeras mensagens no Instagram e no Facebook, até mais no Facebook, que dizem: "A minha história dava um livro". E isto, e isto, e vão-me contando. E as pessoas gostam de partilhar. E mais uma vez, as pessoas querem atravessar a ponte. As pessoas não querem a solidão, estão a virar as costas à solidão e podem conversar com as pessoas. E uma coisa eu posso garantir, aqui, e eu tenho uma relação muito séria com a verdade, sou eu que respondo às mensagens. Não tenho uma equipa a responder-me. Ninguém responde às mensagens por mim, ninguém usa a minha palavra em meu nome para nada. A minha palavra é minha.

Não me ocorreu essa possibilidade, mas já foste confrontada com isso?

Não. Já houve pessoas que pensaram: "Está-me mesmo a responder, mas é mesmo a Margarida?" Porque as pessoas, às vezes, pensam que eu nem sequer faria isso.

Sim, tens razão, faz sentido.

Há pessoas que têm equipas a responder, ou uma ou duas pessoas a gerir as redes sociais. Eu não tenho, porque eu sou escritora e portanto, a minha palavra é minha. Ninguém vai usar a minha palavra para falar com outras pessoas. Sou eu que faço isso e faço com muito gosto.

Então, nesta fase da nossa conversa, convido-te a trazeres uma música para as pessoas que têm a disponibilidade, a simpatia, a generosidade e que criam contigo esses laços e te enviam mensagens.

Então, para os meus leitores e seguidores que passam a ponte, conseguem passar a ponte e me mandam mensagens e conversam comigo, eu deixo a música Affection, dos Cigarettes After Sex, que é uma das minhas bandas preferidas, é uma das bandas que eu oiço quando estou a escrever e que é uma música que é maravilhosa, é quentinha e faz muita companhia.

Estamos a conhecer o dia perfeito da Margarida Rebelo Pinto. Margarida, estamos quase nas despedidas, mas antes disso eu tenho que te perguntar: os dias 7 de junho são dias perfeitos?

São. É o dia do meu aniversário, é sempre um dia bom. Passo sempre com pessoas que são importantes pra mim. Mas eu arrisco dizer que o dia da apresentação de um livro ainda é mais importante que o dia do meu aniversário. E o dia da apresentação da "Grande Ilusão", que foi dia 25 de março, foi seguramente um dos dias mais bonitos, mais felizes e mais perfeitos da minha vida.

O que houve nesse dia?

Houve tudo. Família, realização profissional. Consegui juntar o meu antigo editor e o meu atual editor. Tive o Miguel Morgado, que é uma cabeça extraordinária, a apresentar o meu livro. Tive muitos amigos presentes e assinei muitos livros. Portanto, tive a minha família, os meus amigos, as pessoas que mais amo e o meu trabalho, tudo junto, no mesmo dia. Foi espetacular.

E dançaste uma música com o teu filho, uma música que tu adoras.

"What a Difference a Day Makes", do Jamie Cullum. É verdade, é uma das nossas músicas, que nós adoramos os dois.

Chegamos assim ao fim do dia perfeito da escritora Margarida Rebelo Pinto, um programa com produção da Maria Ribeiro Nunes, tema interpretado pela cantora Jéssica Pina, sonoplastia do Pedro Oliveira.

E com as perguntas, ou melhor, com a ótima conversa da Ana do Carmo.

Temos encontro marcado no próximo Dia Perfeito, que é já para a semana. Até lá, subscreva este podcast e partilhe. Isso seria perfeito.