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Olha a cabeçada. É gol! Ronaldo! Não há português que não sinta. E é com os corações já a apontar para sábado que damos início a mais uma página escrita pelo Bruno Roseiro no Diário do Mundial da Rádio Observador. Bruno Roseiro é o editor de desporto do Observador, mas também o enviado especial ao Qatar. Bruno, temos aqui a situação de uma manhã que podia ter sido interessante e prometedora, mas que acabou por ser estragada não por Ronaldo, o jogador, mas o tema que está sempre a dominar e tudo mais alguma coisa. Fala-se muito de Ronaldo, já não é o jogador que interessa, é mais aquilo que está a acontecer à volta.
Sim, é sempre, e eu tinha falado, já não me lembro se foi com o João ou com o André, de um trabalho que eu ando a fazer sobre os falcões, que é o outro animal símbolo do Qatar, além dos camelos. Eu já estive num primeiro hospital veterinário, mas que nesta altura está parcialmente só a funcionar, que fica na zona de Souq Waqif, que é o maior mercado tradicional. Há um outro hospital veterinário na zona de Al Khor, que fica sensivelmente a 50 km, mais ou menos, do Doha. E aí sim, dará para falar mais com pessoas e dará para saber um pouco mais. Era aí que eu, em condições normais, iria. Mas vendo as notícias que foram saindo, nomeadamente uma notícia que dava conta de uma história que Ronaldo, depois de saber que iria ser suplente no jogo com a Suíça, terá tido uma discussão mais acalorada com Fernando Santos e terá mesmo colocado em cima da mesa a ameaça de poder sair da concentração e deixar a equipa, sendo que depois voltou atrás e mais friamente percebeu que não seria uma atitude correta a tomar. A partir do momento em que sai essa notícia, tu depois também tens de dançar um pouco com aquilo que é a atualidade e acabou por ser isso.
É ela que dança contigo, neste caso, não é?
Sim, exatamente. Foi basicamente isso que eu fiz, ou seja, eu sabia que por volta das 15h00 ou um pouco antes, teria de estar no centro de imprensa para as coisas que eu também queria fazer hoje durante o dia. Acabei por vir um pouco mais cedo, fui adiantando um especial que vai sair mais logo. Fui também escrevendo esta situação do Ronaldo, porque foi a primeira vez que a federação fez um comunicado oficial a desmentir uma notícia. E eu dou exemplo prático, eu ontem tinha falado com o Miguel e tínhamos falado sobre aquela situação de Ronaldo, eventualmente, poder ter recusado a hipótese de treinar com os jogadores não suplentes, ficando só a fazer trabalho de ginásio. Neste caso em específico, alguns jornais espanhóis avançaram com essa informação. Não houve um desmentido oficial, embora todos nós tenhamos a informação de que é algo que Ronaldo faz quase sempre a seguir a um jogo, seja ele de 90 minutos, seja ele de 16 mais descontos ou 17 mais descontos, como foi o caso, costuma fazer isso. Neste caso em específico, houve mesmo um desmentido, um comunicado oficial, e depois, posteriormente, também o próprio Ronaldo a ter uma reação nas redes sociais, não a dizer especificamente "isso não é verdade", mas com algumas frases no sentido de falar na união do grupo contra fatores externos, que claramente acabam por ser uma reação a todas essas notícias.
É uma resposta que surge nas contas do Ronaldo e uma fotografia da equipa em que Ronaldo se aparece, eu não consegui, pelo menos, vê-lo no meio da multidão que a fotografia apresenta. Pode ser também um sinal de que o balneário vai apaziguar as coisas ou que o espírito de balneário vai prevalecer depois, sobretudo, também desta vitória frente à Suíça. Muito motivadora, não é, Bruno?
Eu acho que há, sobretudo, aqui uma separação que tem de ser feita, e isso já vem, atenção, desde a questão da entrevista do Piers Morgan, que já andamos a falar, nesta questão, Ronaldo afeta ou não afeta. Eu diria que cada vez mais há aqui duas perspectivas completamente diferentes. Uma primeira perspectiva que tem a ver com o grupo em si, seja pelo resultado contra a Suíça, seja pelo ambiente que se percebe que se vive nos treinos, etc. Não é propriamente por estarem a sair com uma cadência diária notícias sobre o Ronaldo que as coisas vão abalar. Embora, como é óbvio, e Fernando Santos manifestou isso, não gostou da maneira como Ronaldo reagiu depois da substituição com a Coreia do Sul, mas também resolveu a questão internamente e quis encerrar o assunto. Depois há uma outra plataforma que tem a ver com o Ronaldo em si. E nesta altura, para mim, o tema é Ronaldo não tem clube, rescindiu com o Manchester United. Na última zona mista passou e disse que o Al-Nassr também não é verdade, e nesta altura é um jogador livre. Isso, para mim, é o único tema, é a única notícia. O que é que o Ronaldo vai fazer a seguir a este campeonato do mundo? Tudo o resto são coisas que vão aparecendo, que depois são desmentidas, que depois se diluem no tempo, porque muitas delas são datadas. E eu diria que essa perspectiva não chega à perspectiva. É como se fosse uma árvore que não consegue chegar à floresta, portanto a floresta vai continuando o seu caminho, desta vez a tentar desbravar Marrocos. E depois há a questão dessa árvore, que no final do mundial ter-se-á de perceber o que é que vai acontecer, se vai crescer financeiramente, se ainda consegue crescer desportivamente. É essa a grande curiosidade no final do Campeonato do Mundo, que oxalá seja no dia 19, claro está.
Eu não tive esta oportunidade de ir aos Falcões, mas os animais não se desligaram desta relação com o mundial, até porque na conferência de imprensa do Brasil houve espírito felino, diria assim.
Boa ligação. Deixa-me dar-te os parabéns.
Obrigado.
Para tu percebes, não diria que foi desinteressante, mas a conferência do Brasil foi mais insípida do que a outra que eu tinha ido. Deixa-me dizer e ser totalmente franco, eu não consegui ver in loco a conferência, porque quando lá cheguei a sala já estava completamente cheia. Ou seja, aproveitei as plataformas que existem através do Midia para estar a seguir a conferência de imprensa sem ser ao vivo. Quando tu vais para uma sala de conferências que já está praticamente cheia e entras na última fila, a possibilidade de fazeres uma pergunta é 0,1. Se estiveres fora da sala, é de 0,1 para zero. Também não altera assim muito. Mas fui acompanhando e teve menos pontos de interesse, a não ser a tal questão de, na véspera, o Vinicius estar a falar na conferência de imprensa no local onde o Brasil tem feito o seu-
Sim, isto é muito místico. Tem qualquer coisa de místico.
Sim, e apareceu de repente um gato. Aliás, não sei se já reparaste que agora a conversa já não é apareceu um gato na conferência.
Esse gato foi bem tratado ou mal tratado?
Exatamente.
Eu vi o vídeo, vi isso acontecer, não soube, mas ele próprio reage logo para os média, porque parece ter havido ali uma reação, não é?
Sim, houve logo uma reação e deixa-me dizer que foi de facto um bocado brusco e bruto, mas para quem tem gatos, e sobretudo para veterinários, a maneira como ele agarrou.
É o que é pelo cachasso.
Exatamente. Ou seja, a nós faz-nos confusão, mas os veterinários muitas vezes também agarram assim os gatos. Deixar os brasileiros continuar com essa discussão, tendo em conta que amanhã tem um jogo fundamental com a Croácia. Se eles querem ser entretidos com a questão do gato, pode ser.
Também foste à Croácia e foi Modrić a dar a conferência de imprensa. Tu podes pensar, ou pensas pelo menos, que poderá ter sido a última. E por falar em gatos também, um jogador com mais de sete vidas, continua a ser, apesar de tudo, uma referência para a equipe da Croácia.
Com mais do que sete vidas, mas agora está mesmo a esgotar a última. E ele tem uma curiosidade, que é ele nesta altura, a Croácia, nos últimos 12 jogos, que é esta geração Modrić no seu expoente máximo em termos de Campeonato do Mundo, eles só perderam um jogo, que foi em 2018 e foi na final com a França. Ou seja, em 2018 só perderam um jogo, em 2022 não perderam nenhum. E aqui a dúvida é: será que Modrić vai fazer o seu último jogo pela seleção croata e vai acabar nos quartos-final do Campeonato do Mundo, ou vai conseguir fazer uma surpresa, eliminar o Brasil dos amigos Vinicius e Casemiro, que ele hoje também falou nos dois, e vai ainda continuar até uma espécie de last dance que parasse na final no Estádio de Lusail? É a grande dúvida. Claramente, parece-me que o Brasil parte como favorito. Acho que tem mais favoritismo o Brasil com a Croácia do que tem a Argentina com os Países Baixos, que é o outro jogo de amanhã, que depois já falaremos sobre isso. Ainda assim, não deixa de ser curioso. Um: qual é a capacidade que Modrić e a própria Croácia têm de surpreender o Brasil? E dois: qual será a reação de Modrić no final do jogo, sendo que do outro lado há também jogadores que poderão estar a fazer o seu último mundial e que são jogadores marcantes, como Thiago Silva, no caso do Brasil.
E temos também hoje a conferência de Otávio, o treino de Portugal. E antes de irmos a isso, explica-me só o que é isto de enviar três entrevistas para Japão, Inglaterra e Espanha. Sobre quem é o Ramos, sobre quem é o Ronaldo, estás a mandar pro mundo, Bruno.
Hoje brilhei intensamente, hoje fui uma popstar. Hoje entrei ali em Al Sharania e fui uma popstar. Começou com a Fuji TV japonesa, que tinha imensa curiosidade em perceber por que se chamava Pistoleiro ao Gonçalo Ramos e por que ele celebrava assim os gols, porque os japoneses gostam muito desses pormenores. Muitas vezes preferem o pormenor de uma boa história do que propriamente aquela lengalenga do onde é que começou, onde é que nasceu, onde é que chegou, etc.
Olha, para quem via Oliver e Benji, em vez de jogar a bola, pensavam em todo o sentido da vida.
Exatamente. É exatamente por aí. Essa foi a primeira, logo à chegada. Mal cheguei, nem tive tempo de respirar, foi logo. Depois foi um canal inglês que eu não percebi bem qual é que era, uma coisa um bocado mais abrangente. Gonçalo Ramos, a vitória com a Suíça, até onde é que Portugal podia ir. Uma meia-final, quem é que poderia ser preferível em termos desportivos para Portugal, a questão de Ronaldo, a questão de Fernando Santos, etc. Portanto, aí foi uma coisa mais abrangente. E depois da conferência e depois do treino, que teve apenas 15 minutos abertos à comunicação social, ainda mais uma perninha para a TVE. Como é óbvio, dizendo sempre a piada, são vocês é que nos têm de dizer as dificuldades que Marrocos consegue provocar. Apesar de a Espanha ter sido eliminada, grande parte dos jornalistas espanhóis, que alguns deles eu até já conheço a cara de outros mundiais, continuam cá ainda. Ainda não percebi se era porque já tinham a viagem marcada só para depois dos quartos ou das meias, ou se ficam porque é a opção do jornal. Pode acontecer as duas, ou seja, parece-me que os espanhóis claramente tudo o que não pensariam era que estariam pelos oitavos.
Mas se calhar estão em negação só, Bruno.
Sim, estão em negação, mas continuam sempre em grande e agora têm acompanhado também os treinos de Portugal, até porque há essa curiosidade para perceber até onde é que vai o fator surpresa de Marrocos. E deixa-me também acrescentar que Já tinha falado nisso. É essa a confirmação. Pela primeira vez, Portugal vai ser não só superado em termos de número de adeptos no estádio, mesmo contando com todos aqueles adeptos indianos, do Bangladesh, Paquistão, etc., que têm apoiado Portugal por causa de Cristiano Ronaldo, mesmo contando com todos eles, no jogo de sábado, Portugal vai ser altamente superado em termos de público no estádio e vai haver uma mínima raques concentrada à volta do Al Thumama, porque há cada vez mais marroquinos a chegar.
A não querer perder este evento histórico.
Não, e há uma outra coisa, há ali uma zona. Eu vejo a zona dua e não sei o quê, é tudo por estações de metrô. Depois, se me disserem uma rua, eu não sei. Se me disserem estações de metrô, eu sei tudo. Já sei todas de cor, a linha, o nome, etc.
Decoraste tudo o que é subterrâneo.
Sim, isso aí já decorei tudo. E há uma estação que se chama Katara, e na zona de Katara os marroquinos têm se concentrado. E uma das histórias que vim a saber, neste caso por portugueses, foi que no dia do jogo Marrocos-Espanha foram oferecidos, não foram vendidos, 500 bilhetes a adeptos marroquinos para irem ao jogo. Como é que isso está a funcionar? Por que oferecem? Quem é que paga? Se é a federação, se é Marrocos, não faço a mínima ideia. Sei que cada vez mais há essas notícias e que cada vez mais há essa expectativa de Marrocos poder ter uma grande parte dos adeptos. Não me parece que vá ser isso que faz a diferença, porque jogadores como o Bruno Fernandes, o João Félix, o Bernardo Silva estão habituados em jogar em ambientes até muito mais complicados quando jogam no Santiago Bernabéu, em Anfield, etc. Não será por aí, mas para Marrocos, eu diria que vai ser um aditivo importante. É quase aquele respirar de uma equipa que está habituada a defender e que precisa de respirar e precisa de esticar o jogo. Essa parte anímica eu acho que poderá também ser importante para o próximo adversário de Portugal.
E vamos ter também isso em conta e esperamos também que isso esteja em conta na preparação da equipa. Agora, estás a acabar, Bruno. Escrever um especial que vai sair mais logo e depois já fazemos o plano de festa para amanhã.
Vais adorar. É um especial com alguém que há 70 anos que apanha pérolas, ou seja, vai para o mar, mergulha dois minutos, está debaixo d'água dois minutos, e anda a apanhar ostras em busca de pérolas. Mas depois tem uma história que faz tudo. Ele deita-se em cima de vidro, parte pedras com a barriga, e depois quando eu duvidei um bocadinho, porque ele já tem 87 anos, se ainda teria a força de quando era culturista e era bodybuilder, ele pôs-me por baixo do braço dele, e começou a dizer: "Já está a doer?" E a certa altura eu disse que sim, e 20 minutos depois, mais ou menos quando eu ia apanhar o metro.
Ficaste sem braço, caiu-te o braço.
Não era bem dor, mas é aquele latejar malandro de quem senta o louro em algum lado. Ainda sentia qualquer coisa e são 87 anos. Acho que é uma história muito engraçada de ler.
É uma pérola sobre um senhor que apanha pérolas. E come as ostras, ao menos? Aproveita, não é um segredo.
Várias pérolas. Ele quase te partiu o braço e é só uma.
Será que a força dele está em comer as ostras depois de lhes arranjar a pérola?
Não, ele está chateado porque os japoneses conseguiram criar uma maneira de produzir pérolas artificialmente, e ele a partir daí percebe-se que perdeu um bocadinho o encanto. Aliás, e depois há outra coisa, com gás e com petróleo, a questão de apanhar pérolas é cada vez mais secundária, porque eles não precisam, simplesmente. É um bocado por aí.
Amanhã, conferências, jogo do Brasil, jogo da Argentina. Vais optar por ir a um dos jogos. Não sei se vais poder ir aos dois, Bruno.
Não, vou só a um. Tenho de optar. Vou à Argentina. Há sempre a dúvida se vai ser ou não o último jogo de Messi na seleção. Parece-me que vai ser um jogo muito mais equilibrado. Vai ser mais uma festa da Argentina. Se passar os dois sul-americanos e pensar que Portugal poderá passar Marrocos, já me consigo estar a ver no Estádio Lusail a ver um Argentina x Brasil na meia-final. Deixa-me dizer que era, de facto, o grande jogo cartaz. Vamos ver se isso acontece ou não. Tenho algumas reservas ainda em relação à Argentina frente aos Países Baixos, porque os Países Baixos jogam mais do que aparentam. Portanto, vamos ver. Mas o meu dia vai ser basicamente esse e fazer um perfil de quem é o treinador de Marrocos também.
E vamos esperar também dias mais calmos para que possas ir ao veterinário.
Não, isso não.
Não, isso não, mas pelo menos que te deixem ir até ao veterinário falcões, Bruno, para não ficares preocupado.
Sim, até porque eu já tenho outras coisas combinadas, também igualmente ou ainda mais divertidas.
Bruno, está escrita mais uma página deste diário do mundial. Estamos a acompanhar Portugal e quanto mais tempo Portugal ficar, mais páginas vamos escrever. Bruno, um abraço, até já.
Um abraço.
Olha a cabeçada! Gol! Ronaldo! Não há português que não sinta.
